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sábado, 20 de maio de 2023

CAVALOS SELVAGENS E O CURURU

 


um dito inglês bastante popular: “Cavalos selvagens não poderiam me arrastar daqui” (Wild horses couldn’t drag me away), com o sentido de que nada, força alguma tiraria de onde está a pessoa que fala. Quem já viu, no prado ou no cinema, cavalos selvagens em disparada ou empinando sobre as patas traseiras aquela massa de músculos, animais lindos de se ver, sabe do que falo. A expressão deu o mote para que os Rolling Stones compusessem uma bela (embora tristíssima) música sobre o tema, Wild horses, sobre as dores de um amor e cavalos selvagens. A frase pode ser entendida como “nada me arrasta daqui”, e em sentido estrito, “tenho os pés fincados neste local”. Nesse aspecto, “aqui é o meu lugar”, referindo-se a um rincão, região ou estado. No Brasil, o apelo seria o mesmo do americano: a terra em que se nasceu, que se adotou, aquela onde se viveu, cresceu, enfim, conheceu os costumes e, deste modo, sorveu a cultura local e sua  culinária, jeito de se vestir, o sotaque, o dialeto. Em todos os lugares, fala-se de um apego muito especial: os rios da terra no sangue das veias e os pés no barro do chão.

Portinari

Curiosamente
, mesmo havendo um apelo geográfico, pode acontecer de o sujeito ser levado por “cavalos selvagens” a outro lugar, longe da região onde nasceu. Bons exemplos são Villa-Lobos e seu “Trenzinho do Caipira” cultura distante de seu Rio de Janeiro natal; o norte-americano Aaron Copland com seu “Apalachian Springs” e Antonín Dvorák, nascido na Boêmia do Império Austríaco, hoje República Tcheca, mantendo o vigor de suas raízes no coração, onde quer que trabalhasse, a exemplo das “Danças Eslavas”. Assim como muitos outros compositores, seja lá onde estivessem também estaria a cultura de suas origens, base de sua formação. Em nossa música popular, Gilberto Gil canta a Bahia por atavismo em todos os cantos, enquanto Belchior e Fagner carregam seu Ceará pelos lugares que adotaram. O mesmo aconteceu com bluesmen e cantores folk americanos, e Bob Dylan seria um ótimo exemplo. Ainda pensando nas artes, temos o paulista Candido Portinari, que pintava sofridos retirantes nordestinos, sem esquecer a também paulista Tarsila do Amaral, cujas pinceladas modernistas foram do interior à metrópole das chaminés de fábricas e seus operários, espremidos entre muros.


Parece
que quanto mais se vive, mais a gente se espalha, e o último lugar onde se vive, que é onde se está, é a outra ponta do torrão natal. Vemos ‘cavalos selvagens’ até que a vida nos cerque e nos conduza para outro lugar, enquanto nossos corações deixam um pedacinho ali, outro acolá, e levam consigo um pouco dos caminhos que trilhamos. Difícil esconder de nós mesmos o tanto que acumulamos na estrada, melhor é rasgar a cortina e mergulhar na riqueza desses lugares. Os velhos Mutantes da Pompeia paulistana cantavam com tanta graça, com a brilhante e saudosa Rita Lee à frente, um futuro intergaláctico (“Dois Mil e Um”): “Astronauta libertado / minha vida me ultrapassa / em qualquer rota que eu faça” - com voz de matuto forçada (ave Rita, salve artista cosmopolita).

A turma do Cornélio Pires

, sim, os que nem cavalos selvagens arrastariam de seus lugares a troco de nada, parecem fincados na origem e destino, são parte de seu chão, e cantam, contam, pintam sua história. Os artistas de raiz, distantes dos spotlights dos estúdios de TV são estranhos à superficialidade das telas coloridas, precisam sentir com o tato o barro, a terra e o cheiro de suas nascenças, suas andanças, suas vivenças.   

Camargo Guarnieri

Conheci
bem o cururu, que é a cantoria do Médio Tietê, desafio paulista com rima de santo e viola ponteando o improviso. Foi nas plagas do cururu que compreendi uma nova universalidade. Aprendi, às vezes surpreso com as rimas de “repente”: somos astronautas caipiras tal qual cantou Rita Lee, na velocidade da luz. Li muito Mário de Andrade, que, embora cidadão urbano por excelência, ensinava seus alunos, como o tieteense Camargo Guarnieri, que é nas raízes que se encontra o alimento da criação. Assim como a turma de Cornélio Pires, jornalista também de Tietê, que trouxe a linguagem caipira mais raiz à exposição como verdadeiro gênero musical. (Curioso, não se sabe se Cornélio (1884) e Guarnieri (1907) sequer se conheceram, há um lapso de tempo e de idade desde a ida do primeiro para São Paulo, em 1914. Salvo uma convivência que não houve, ambos beberam da mesma fonte, pisaram o mesmo barreiro).


Meia
volta ao cururu: quem me estimulou no assunto foi o grande e saudoso Osvaldo Lacerda, que chegou a me mandar cartões sobre os ensinamentos do Mário de Andrade: o uso dos elementos de raiz na música de concerto – prática levada à risca pelo mestre Guarnieri. Agora veja, esse tríptico de raiz-concerto, Andrade-Guarnieri-Lacerda, que foi o grande laço nacionalista da música do século passado, respirou a brisa do Médio Tietê, e também Villa-Lobos viu a fumaça do trem em sua excursão musical pela Estrada de Ferro Sorocabana.

Josué e Zé Pinto

É
aqui que eu amarro meus cavalos, neste ponto do texto e da vida. E se assim o faço é porque me afeiçoei pela gente da região e me apaixonei por sua música, que tem jesuítas, indígenas, tropeiros, catequistas. Conheci gente como o canturião José Pinto, poeta inspirado e de mão cheia, o Josué, jeito bonachão tocando aquela viola que chamo ‘de arrimo’. É a eles que dedico este texto, em nome de todos os cururueiros. Sejam mais fortes que cavalos selvagens, e que rimas e carreiras continuem a florescer no chão por onde passem e cantem.

 

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

A ARTE POPULAR EM TRANSPOSIÇÃO ERUDITA

Tanguinho e maxixe
Troquei algumas ideias com minha filha Marta Autran acerca de sua tese de PHD, em vias de ser defendida em Londres, e fiz algumas reflexões além do tema, as sonatas para violoncelo de Camargo Guarnieri.  Mencionei-lhe o maxixe, o ponteio, as danças e até o tango brasileiro (tanguinho) de Ernesto Nazareth na música do tieteense, como fonte de inspiração ou influência. (Na verdade, o tango brasileiro – ou tanguinho - nada ou quase nada tem a ver com o original argentino, título que veio na garupa do sucesso portenho: o “nosso” tango era uma mescla de maxixe, habanera e polca surgida no final do século 19).
Mário de Andrade
Mario de Andrade advogava uma “transposição erudita” da música popular à música de concerto. Mas de forma alguma disse que o compositor clássico deveria fazer “arranjos” de música popular. Falou em transpor a arte de raiz com elaborada erudição - no sentido de profundo saber e técnica apurada (nada contra o fazer música popular com a formação que bem se entender, seja sinfônica, coro ou quarteto).
Flávio Silva (foto Funarte)
Isso me lembrou uma breve e salutar divergência que tive com o pesquisador Flávio Silva (falecido em 8/10/2019) na Concerto, revista de circulação nacional, e faço-lhe aqui um mea culpa. Debitei apenas na conta do Rio de Janeiro a responsabilidade pela invenção do termo “música erudita”, quando da primeira turma de professores da área na Universidade do Brasil - forma de justificar a falta de diploma superior entre os musicistas ingressantes. Chancelaram-lhes o título de detentores de profunda “erudição”(fora da música popular), perfilando-os com os colegas de direito, por sua vez inspirados na beca, toga e capelo dos acadêmicos d’além-mar, os colegas de Coimbra.
Universidade do Brasil (hoje UFRJ)
Se conferi aos acadêmicos da Universidade do Brasil no Rio a origem do termo “música erudita”– que nem os cariocas usam mais, diz-se “música clássica” ou “música de concerto”, como fazia o maestro Eleazar -, por outro lado o saudoso Flávio Silva creditou a origem da expressão a São Paulo, com Mário de Andrade. Não me lembro de Andrade ter utilizado o termo completo – música erudita -, que, de passagem, sequer existe em outros idiomas. Tudo, caro Flávio, pode ter sido uma feliz divergência que nós, sobre a origem da expressão nesse semi-árido mundo da música de concerto, terminamos por convergir, em cumplicidade, entre Rio e São Paulo.
O jovem Camargo Guarnieri
A “transposição” a que se refere Mário de Andrade é a de Marlos Nobre, compositor pernambucano, como foram as de Guarnieri, Villa-Lobos, José Siqueira, Guerra-Peixe, e como faz o jovem conterrâneo petropolitano dele, o meu amigo Ernani Aguiar, entre diversos outros. Uma das sonatas de Guarnieri analisadas por minha filha data de 1931 e soaria contemporânea e ímpar nos dias de hoje. Não é mero acaso senti-la, nessa contemporaneidade quase precoce em relação ao presente, remetendo aos ponteios de viola e violão, às danças e maxixes. Afinal, até os 17 anos Guarnieri foi “pé-vermeio” menino do interior paulista que travou contato com gêneros e ritmos populares. Costume que cedo, inoculado na pele, é benigno e prazeroso, acompanha qualquer artista por toda a vida.
O Lavrador, de Portinari (1939)
Nas artes plásticas, remeto a Cândido Portinari (1903/1962), que nasceu em uma fazenda em Brodowski, São Paulo, e ainda jovem foi estudar na Escola de Belas Artes, do Rio. Esperto, chegou a pintar (de nariz torcido, claro) um óleo acadêmico só para ganhar medalha de ouro e uma estada de dois anos em Paris, período que lhe resultou fundamental na vida. Mas a ótica pessoal de Portinari era moderna, e seu coração brasileiro. Ele retratava o homem do campo, o sertanejo, o retirante, sempre com os olhos com que os via: os rostos carregados de sofrimento, os pés descalços inchados de tanto caminhar no barro seco e nas pedras – “nos intervalos de pedra plantava palha”, disse João Cabral em “Morte e Vida Severina”; as mãos, calejadas pelo peso da enxada, e dilatadas pela tinta carregada do artista. Penso que a “transposição erudita” de Portinari – das raízes profundas à sua visão técnica modernista - se dá por um virtuosismo pessoal, distante da academia, sofisticação que ele transforma dentro de si próprio, tal e qual Guarnieri.
João Cabral
Um pouco antes, neste texto, citei o premiadíssimo João Cabral de Melo Neto (1920-1999), um dos  nossos maiores poetas, ou o maior da língua portuguesa para muitos, como o festejado Mia Couto. Teve formação intelectual exemplar e grande erudição, lia e conhecia de tudo, foi diplomata de carreira. Mas entre a prosa escorreita do Itamaraty e a livre poesia ficou com a segunda, versos sofisticados que lembram um livro de cordel, e mesmo com frequentes rimas simples, pobres ou repetidas apegou-se à tecelagem barroca das palavras, rendendo-se ao surreal por vezes como Portinari no pincel, sem nunca se esquecer dos pés arraigados na terra brasileira.
Capa da primeira edição: como cordel
Vale ler com atenção: “Esse que andando planta / os rebolos de cana / nada é do Semeador / que se sonetizou. / É o seu menos um gesto / de amor que de comércio / e a cana, como a joga (N.do A.: pedra de rio), não planta: joga fora” (em “A cana dos outros”).  A armação intricada de palavras simples dentro de uma confecção muito elaborada, preciosista, vai compondo sobre um ritmo que o leitor precisa acompanhar, às vezes retrocedendo um verso para avançar dois no encadeamento do estilo do autor.
Bom nordestino, João Cabral transpõe à sofisticada poesia a aridez da caatinga, a fome, o desespero. Como em “Morte e Vida”, “fazendo dos dedos isca pra pescar camarão”). 
[homenagem a Flávio Silva]
Foto: Stock


domingo, 20 de novembro de 2016

PAI, O ESPELHO DE UM FILHO

Acredito que grande parte da insatisfação e frustração na vida de um filho se deve ao mau exemplo dos pais, especialmente a figura paterna. É natural que o filho quer ser realizado materialmente na vida, mas que tenha a parte financeira como secundária: inverter valores é sempre perigoso. O filho quer se espelhar desde cedo no pai, de pater, que também quer dizer terra, de onde pátria, e essa ligação é tão forte quanto esse simbolismo.

Quem há de se orgulhar de um pai pilantra, corrupto, desonesto, falso? Ora, claro que somente o filho que nele se espelha, e acha que a vida é mesmo regida pela Lei de Gérson: “o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo”. Até a personalidade sem rumo do filho de um bom pai pode ser desviada pelas trilhas obscuras da vida, ele se torna pródigo mesmo sob o teto paterno.

Meu avô paterno, Autran Dourado
Minha mãe teve um pai herói, constitucionalista preso e deportado pelo Getúlio, embora detestasse todas as histórias sobre aqueles tempos que passou, ainda criança, longe dele quando mais precisava, tinha ojeriza pelo assunto. Mas, dentro de si, guardava o pai-herói em segredo. Meu pai também foi contemplado com o dele, que começou juiz de direito na pequena Monte Santo de Minas – terra também de Ruth Luz, falecida em 2010, que foi professora do Conservatório de Tatuí e autora do hino da cidade. Meu avô chegou a desembargador em Minas e depois a ministro de Tribunal Superior no Rio. Foi seu pai-herói quem lhe deu o norte, a bússola, e, como diria o Gil, “régua e compasso". 

Biblioteca
Garimpando o imenso acervo de mais de 2.000 peças que, juntamente com os 5.000 livros, pelo testamento de meu pai, vai para a Biblioteca da UFMG, minhas irmãs, no Rio, vêm pescando alguns textos preciosos, que fazem crescer o orgulho e a admiração pela figura paterna – e os efeitos são vivíssimos, mesmo posto que sem a presença dele. Desde discursos para JK a coisas escritas para não serem publicadas, como uma carta pessoal para o Carlos Drummond, um desabafo contra a censura – na qual eu, surpreso, descobri-me citado e elogiado (havia dito a ele que “deveria ter orgulho de ter sido censurado”, e que eu me orgulhava disso também!).


A carta, que só não é auto-incendiável como em filme de ação de Hollywood, era para ser guardada por ele e pelo poeta, confidencialmente, e somente entre eles. Havia nela menções a alguns patrulheiros da literatura, figuras às vezes proeminentes, e até dedo-duro do regime de certa academia, pela qual ele não morria de amores (teria sido essa uma das razões?). Foi um desabafo, e, assim como a conversa tida com Drummond pela manhã, segundo escreve logo ao início, deve ter havido outra ou outras, mas confidência era confidência, de confiar (confidere, em latim), portanto morreria entre os dois. Mas meu pai não a jogou fora. Será que a deixou bem guardada para os filhos um dia terem um retrato do que passou na vida naqueles duros tempos?

Chegada de Eisenhower: croquis
Detalhes da segurança na visita de Eisenhower ao Brasil, recepção ao grande escritor André Malraux, que veio em nome de De Gaulle, discursos como ghostwriter, tudo é historicamente fundamental. Mas o que tem chamado a atenção – e me atraído, nessas descobertas -, talvez tenham sido, mais ainda agora, alguns escritos quase didáticos sobre a arte de escrever, tudo organizado em blocos, alguma coisa talvez publicada na imprensa e muitas inéditas. Entre esses textos, “Dois tipos de romance”, “Realidade e alienação do romance”, “Romance e personagem”, “Técnica narrativa e erros gramaticais” e “Um aprendizado literário e sentimental”, nota-se a preocupação com o didático, e isso valia para quem fosse ler ou para ele mesmo refletir, o que sempre é um meio de se autoaprimorar.

Publicou livros como “Uma poética de romance” (1973), “Uma poética de romance: matéria de carpintaria” (1976), “O meu mestre imaginário” (1982), “Um artista aprendiz” (2000) e “Breve manual de estilo e romance” (2003). Os que se aventuram nessa arte têm nesses escritos relatos da experiência de um homem que publicou seu primeiro livro aos 19 e escreveu até onde a saúde, já complicada, o permitiu. Leu e releu de tudo inúmeras vezes (ao final, vão restar-lhe apenas seis ou sete, disse um dia), de Machado a Bandeira, de Cervantes a Proust e de Faulkner e Joyce, sempre que possível no original.

Era um autor sistemático, metódico, que dizia não acreditar em inspiração (soa como “sopro divino”), mas em ideia súbita: uma vez surgida ‘do nada’, sabe-se lá se por associação, um objeto, uma palavra, uma relembrança dos seus tempos de criança até os 17 anos na pequena Monte Santo, começava a rabiscar notas (taquigrafia espanhola, mais rápida, dizia) em pequenos cartõezinhos, claros como hieróglifos, para mim. Em determinado momento, as anotações já eram a arquitetura de um livro pronto, era hora de começar o trabalho braçal de desenvolvê-lo na velha máquina de escrever. O horário era certo e sagrado, questão de método mesmo, e não apenas por causa do seu ganha-pão como funcionário público, que lhe permitia escrever. Curioso, segundo meu amigo Antonio Ribeiro, que foi aluno de composição do Camargo Guarnieri, mestre maior, é que o gênio de Tietê pensava da mesma forma: inspiração? Sentar e começar, trabalho duro, trabalho metódico.
***
Nunca pensei em ser escritor um dia, apenas escrevo, mas tenho aprendido essas lições como as outras, de vida, que já carrego como a melhor herança. Tudo isso forma um retrato completo, e, como meus avós foram para meus pais, faz dele o meu espelho e herói.



sexta-feira, 26 de agosto de 2016

ATLETAS, ESCRITORES, MÚSICOS. TALENTO E... MUITO, MUITO TRABALHO

Marcel Proust
Os leigos, espectadores e torcedores pouco sabem o que custou para lhes proporcionar momentos de enorme emoção e alegria. Para abrir o tema, uma frase de Marcel Proust (1871-1922): “jamais o mundo saberá o quanto sofreram e o quanto lhes deve por nos terem dado tudo o que deram”. Serve também às bailarinas, com seus treinos de seis, oito horas diárias, dia após dia, em busca do gradus ad Parnassum (degraus do Paraíso, da perfeição), para aquele curto tempo de realização sobre um palco, seu altar. O atleta passa muitas horas, todos os dias, buscando melhorar sua performance, décimos de segundo a menos; para o instrumentista, o tempo é mais flexível pela maleabilidade da matéria musical.

Autran Dourado: trabalho metódico
Meu pai, o escritor Autran Dourado, dizia que não acreditava em inspiração, mas em “ideia súbita”. E as anotava volta e meia em cartõezinhos que levava no bolso. A literatura, mesmo, era trabalho de operário, de “formiguinha”, como a ele se referiu o crítico Humberto Wernek: com hora marcada para começar, bem cedo, hora para sair para seu ganha-pão. Dizia papai que quem vive de livros no Brasil, é livreiro, vigarista ou impostor, nunca um literato.

Henry Portnoi
Cada grande artista tem sua variação sobre o tema ‘o que é o trabalho’. O contrabaixista de origem russa Henry Portnoi, com quem tive aulas de repertório, me disse que “talento acaba”, no sentido de que é preciso manter a chama acesa, e que a facilidade musical pode ser um meio-caminho para a estagnação – ao passo que algum outro músico, aparentemente menos talentoso, com seu esforço constante e metódico consegue subir em linha reta para os andares mais altos (não por coincidência, Eleazar de Carvalho dizia coisa semelhante, e, também não por coincidência, ambos trabalharam por muitos anos em Boston, com Sergei Koussevitzky. Daí talvez a origem do ensinamento).

Edwin Barker
Meu professor Ed Barker – garoto prodígio, aos 16 na Sinfônica de Vancouver, 19 na Filarmônica de NY, 21 na Sinfônica de Chicago e desde os 23 na primeira estante da Sinfônica de Boston – dizia o mesmo, que era necessário lutar diariamente, o maior talento não basta. E mais: que há mil na plateia e apenas um no palco. Sobre ele, foi escrito um livro chamado Staying Power – algo como “A força de permanecer” (anos 1970).


No fundo, não há atalhos. Se Usain Bolt entrou para a história como novo ícone do esporte, para mim na galeria do Muhammad Ali, Garrincha e outros que vieram de baixo para chegar ao pico da montanha, foi pela ocasião, já que treinou em um país em que a corrida é o esporte nacional, pelas condições físicas ideais, pernas longas, músculos bem talhados, treino incessante. Fez o mesmo caminho do instrumentista, do compositor e do escritor, não mediu esforços e concentração para ser um vencedor. Sim, vencedor, porque o pódio do campeão, do solista ou do regente é o mesmo, do latim podium, dos anfiteatros da Roma antiga.

Wolfgang Amadeus Mozart adolescente
Claro, muito se fala de Mozart (1756-1791), mas o mito do superprodígio, do “predileto dos deuses”, encobre os bastidores de uma educação severa de papai Leopold, ele mesmo músico e professor afamado na Áustria, que obviamente educava os filhos com rigor e controle total dos estudos. Mesmo sendo um dos maiores gênios de todos os tempos, nascido com um talento acima dos limites, não veio ao mundo lendo partituras, transpondo, sabendo harmonia, contraponto, etc. O gênio lutou, com absoluta certeza, para levar seu talento à superação do possível. Bach (1685-1750), com sua vastíssima obra, estudava e trabalhava tanto que fazia crer que seu talento era secundário: “quem lutar o quanto eu lutei chegará onde consegui chegar”, disse com modéstia de luterano educado na rígida Eisenach.

Nos dias de hoje, o mesmo rigor e estudo faz-se exigir na música popular, ou melhor, na chamada MPB e suas variações. Se há algumas décadas dificilmente um músico popular lia partituras, o pianista, que geralmente tinha formação técnica e teórica suficiente para ler as notas, costumava ser chamado de “maestro”, o que sempre foi motivo de piadas entre os colegas. As exigências são crescentes nos EUA, na Europa, no Japão, assim como no Brasil, onde já se pode conhecer grande números de instrumentistas e cantores cada vez muitíssimo mais bem preparados.

Dom Um Romão
Incluem-se aí os bateristas, cujos grandes nomes do passado tocavam apenas “de ouvido”: Edison Machado, Dom Um Romão, Milton Banana, Aírto Moreira e outros. Hoje, a realidade é outra, o trabalho de estúdio e a necessidade de ensaios mais práticos e curtos exige boa leitura, o show bizz não pode parar, o ritmo do trabalho impede aquela coisa do passado de um grupo ficar mastigando longamente inúmeros ensaios até se chegar a um acordo musical.

Mas é importante ressaltar: não existe só a MPB, com ou sem influências do jazz, do impressionismo, do rock, do soul. A boa música brasileira inclui – e da maior importância! - Cartola, Nelson Cavaquinho, Luiz Gonzaga, Noel Rosa, seresteiros e cururueiros, entre outros. Quem se inclui nesse cenário não é para escolas formais de música: a tradição não pode morrer, deve ser livre, o estudo técnico serve bem melhor ao músico que visa ao competitivo mercado de trabalho.

[Esta é uma homenagem aos que chegaram ao pódio que sonharam para suas vidas. E aos que lutam com suor para alcançá-lo]