LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****
Mostrando postagens com marcador Munch. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Munch. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O MEDO



Talvez a representação plástica mais impactante sobre o medo seja a obra-prima O Grito (1893), do norueguês Edvard Munch. Seduzido pelas portas maravilhosas que o simbolismo lhe abria de maneira bem pessoal, Munch também foi influenciado pelos expressionistas alemães. Mas que mistério inominado teme a figura retratada por Munch? 
Para mim o quadro remete a figura concreta, uma fotografia: a da menina Kim Phuc, sem roupas e desesperada, tentando fugir do ataque de bombas Napalm na guerra do Vietnã. Em O Grito, a boca escancarada, as mãos espalmadas sobre faces e orelhas, um cenário de linhas sinuosas como fossem as ondas sonoras do berro incontido. Para maior impacto, Munch pintou nuvens como representação de sangue: dor.
Quem tem Medo de Virginia Woolf? (1962) é o título de uma peça do grande teatrólogo americano Edward Albee. Aborda os conflitos de um homem e uma mulher de meia-idade com seus convidados, um casal de jovens. O título é uma blague com o nome da escritora Virginia Woolf (1882-1941) sobre Quem tem Medo do Lobo Mau (‘Who’s afraid of the Big Bad Wolf?), de ‘Os três Porquinhos’, desenho animado infantil de Walt Disney.  
Clarice Lispector passeia com Freud e Kierkegaard (“a angústia é a vertigem de liberdade”). Especialmente no filósofo dinamarquês, trava-se o embate entre medo e liberdade, duas faces opostas ligadas à raiz de uma mesma origem. Se Freud separou medo, susto e angústia, cada um com seus signos, Clarice os uniu, tornando essa trindade coesa e apavorante, praticamente um sentimento uno em sua obra, na qual passeiam a ‘condenação à liberdade’ de Sartre e Kafka, em seu livre mas amargo mundo surreal interior.
Milton Nascimento, na brilhante Caçador de Mim (1981, nos estertores da ditadura), falou sobre ignorar o medo: “Nada a temer senão o correr da luta / nada a fazer senão esquecer o medo, medo / Abrir o peito à força numa procura / fugir às armadilhas da mata escura...” É um desafio de peito aberto ao medo, o enfrentar a luta como inevitável. Mas Jobim, como sempre, prefere seu lado dócil e enamorado: “...teus olhos morenos / me metem mais medo / que um raio de sol”.
Jackson do Pandeiro curte à moda bem faceira a simplicidade e a pureza de seu medo, o de perder um amor: “A ema gemeu (...) / será que é o nosso amor, ó morena / que vai se acabar? / Você bem sabe que a ema quando canta traz no meio de seu canto um bocado de azar / Eu tenho medo, morena / eu tenho medo / (...) desse amor se acabar”.
O medo é como venda nos olhos e abismo na estrada de um povo. Ele não pensa, só teme as consequências, meio caminho da espiral da alucinação. Já o líder que mostra destemor é um chefe a ser respeitado. Bom exemplo foi um certo discurso meio xoxo de JK a um público apático. Meu pai, secretário de imprensa da Presidência e responsável por muitos textos palacianos, achou por bem arriscar num pedaço de papel colocado no bolso do paletó de JK uma frase de impacto, de inspiração bíblica e volta e meia lembrada: “Deus poupou-me o sentimento do medo!” JK bradou-a com tamanha verve e convicção que o público saiu da letargia e irrompeu em sorrisos e aplausos solidários. Havia medo: houve ameaça de golpe logo na posse, malograda com a presença do Mal. Lott, as fracassadas revoltas militares de Aragarças e Jacareanga. Havia razão de sobra para o medo, que só viria a se impor como todo-poderoso sistema após 1964, alguns anos depois.
Restos de armênios
Existe medo maior do que aquele sentido nos corredores da morte? O que vinha do odor  dos campos de Auschwitz, Treblinka e Sobibór? Dos armênios durante o genocídio pelos otomanos de 1,5 milhão de seus irmãos de sangue? Ora, no Vietnã oficiais americanos faziam vista grossa para injeções de morfina (e mesmo heroína) nos soldados, o ‘front’ se transformava em um espetáculo indolor, pleno de cores e delírios. Já os inimigos foram mortos a seco, a dor perfurando as tripas e o fundo d’alma.
O Brasil sempre foi pródigo em períodos de medo: os massacres da colonização, a escravatura, as chibatadas e punições sem lei, as matanças de índios, as crueldades contra os inconfidentes, o esmagar com sangue nos olhos diversas revoltas populares. A mais longo termo, as ditaduras, como as de Floriano, Getúlio e a de 1964. O medo era real até nos sonhos, como aquele retratado por Chico: “Acorda, amor / eu tive um pesadelo agora / sonhei que tinha gente lá fora / (...) Era a ‘dura’, numa muito escura viatura...”. O medo do número crescente de prisões, torturas, medo de sair na rua, a angústia de estar sem saber próximo do que se chamaria ‘síndrome do pânico’, assídua nos divãs de psicanalistas e consultórios de psiquiatras de hoje, transtorno cada vez mais comum entre os cidadãos: o fim da estrada é simplesmente o terrível medo de ter medo (a literatura sobre a síndrome em todos os idiomas é vasta).
Impor o medo é estratégia tão antiga quanto o próprio homem. Resume Macchiavelli, em O Príncipe (XIX.12): “O príncipe que quer conservar seu domínio às vezes é instado a praticar o mal”. Seja pela força bruta, aliada a outras ferramentas de molestamento físico e mental, seja pelo cerceamento do cidadão, cada vez mais podado em sua opinião e arbítrio. Imagem impiedosa é ficcionalmente estampada em Alphaville (1965, filme de Jean-Luc Godard), um lugar onde sentimento e amor eram vetados. Há também 1984, de George Orwell, texto de 1949 que espelha o doloroso perigo do império nazista, então já derrocado.
Disse Nelson Mandela: “Aprendi que coragem não é ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O homem de bravura não é o que não sente medo, mas o que o conquista”.


sábado, 25 de fevereiro de 2017

MÚSICO: NACIONALIDADE, COSMOPOLITA

A pátria do músico é onde ele está. Começo por duas grandes orquestras americanas e os que para lá foram, ensinando gerações e moldando grupos. Na Filadélfia, onde há também o famoso Curtis Institute, ensinaram os que fizeram a base da interpretação, principalmente dos sopros, o mito Marcel Tabuteau, oboísta francês, e o fagotista Sol Schoenbach, americano de origem alemã, entre outros.

Na Sinfônica de Boston, e professores da New England, Armando Ghitalla, Gaston Dufresne e Roger Voisin. (Sem falar no lendário ucraniano Louis Krasner, que foi professor de Aírton Pinto - eu o via pela janelinha de vidro da porta, já bem idoso, dando aulas. Para ele foram escritos dois dos maiores concertos para violino do século 20: Alban Berg e Schönberg, por ele estreados).

Sergei Koussevitzky
Foram regentes de Boston, desde 1881, Sir George Henschel, Wilhelm Gericke, Arthur Nikisch, Emil Paur, Karl Muck, Max Fiedler, Henri Rabaud, Pierre Monteux, Koussevitzky, Charles Mûnch, Leinsdorf, Steinberg, Ozawa, Andris Nelsons, e, exceção à regra, James Levine, seu antecessor. Parece que havia uma certa predileção por grandes regentes de fora do país, mas nada a ver com isolar influências políticas, já que as orquestras americanas são todas privadas. Até na Filarmônica de Berlim, de Furtwängler e Karajan, hoje há Sir Simon Rattle e dois músicos latinos: um brasileiro e um venezuelano.

David Chew
No meu tempo, vieram para a Orquestra Sinfônica Brasileira – cujo primeiro regente foi o húngaro Eugen Szenkar – onze tchecos, incluindo meu professor Ladislav Bàlek (retornou ao seu país para ser solista na Sinfônica de Praga!), Zdenek Svab, Frantisek Batîk e outros. Tinha o magnífico fagotista francês Noël Devos e o português José Botelho, refinado clarinetista, e hoje o meu amigo violoncelista David Chew (agraciado com a Ordem do Império Britânico), idealista realizador do Cello Encounter.





Jean Noël Saghaard
Com minha volta ao Brasil, fui lecionar na Escola Municipal de Música, do Teatro Municipal de São Paulo, onde mais tarde fui diretor, convivi e fiz amizade com algumas das figuras mais interessantes do mundo musical, como o saudoso húngaro Gèza Kiszely, a quem já dediquei um artigo, o austríaco Gustave Busch, lendário fagotista que morreu tragicamente atropelado na 9 de julho com sua bicicleta, já bem passados seus setenta anos, o grande flautista e professor de gerações Jean Noël Saghaard - o melhor solo do Bolero de Ravel que já ouvi -, protagonista de alguns dos bons momentos da vida em minha estada como diretor. Verdade que às vezes não era fácil lidar com o Busch e, menos ainda, o Saghaard. Mas eu os compreendia e saía em defesa do que para alguns pareciam exageros.

Naomi Munakata
Músicos estrangeiros, aqui ou no exterior, só acrescentam. Passam a ser não estrangeiros, mas, adotando nossas terras, brasileiros nascidos em outros lugares. Pela Osesp, lembro a brilhante Naomi Munakata, de Hiroshima, que foi regente do Coro Sinfônico, meu amigo veneziano Emmanuele Baldini, spalla da orquestra, o excelente trombone baixo Darrin Milling, formado pelo Curtis Institute de sua Filadélfia, para citar os mais chegados. Estimulam seus naipes, servem de exemplo e lecionam, preparando nossos músicos para o futuro. Nos meus tempos de Osesp, havia meu amigo Jed Barahal, dos EUA, o uruguaio Hector Pace e o trompista americano Daniel Havens, entre outros.

Titta Ruffo
Nos anos 1940, sob a batuta de Armando Belardi, a Orquestra do Teatro Municipal preparou um concerto cujo programa trazia na capa o brasão da República, uma bajulada no Getúlio Vargas. Assinaram o cartaz do programa todos os músicos, e, curioso, fora uns raros brasileiros, havia famílias (ou seriam famiglias?) de italianos, como os Corazza, Bianchi, Coppoli, Capela. Até na inauguração do Teatro Municipal, em 1911, a Itália esteve presente: veio a companhia de ópera do florentino Titta Ruffo. O detalhe fica por conta do tamanho do fosso onde fica a orquestra, pequeno para o grupo. A Revista do Arquivo Municipal registra que, enquanto uma parte dos italianos tocava, os excedentes se embebedavam nos bares das cercanias.

Eleazar e alunos: Meier, Mehta, Abbado. Em Berkshire, Tanglewood
Em nenhum momento, em meus anos de EUA, senti-me um peixe fora d’água. Era tratado como todos, abordado às vezes por causa do maestro Eleazar de Carvalho, que além de assistente de Koussevitzky na Sinfônica, ao lado de Bernstein, havia lecionado para uma plêiade de regentes no Berkshire Music Center, de Tanglewood, desde os então jovens (hoje mitos) Zubin Mehta, Seiji Ozawa e Claudio Abbado até alguns com quem trabalhei, como Benjamin Zander. Eleazar, um brasileiro mestre dos futuros titãs!

Univ. Richmond Center for the Arts
Em 2006 houve uma Convenção Internacional de Contrabaixistas, em Richmond, Virginia, e eu fui convidado a falar sobre o arco, resultado de um estudo trabalhoso que foi assunto de tese, da qual extraí um pequeno livro. Entrei um pouco preocupado, pois vi até ex-professor meu na plateia, além de músicos das sinfônicas de Chicago e Dresden. Levei material para projeção e a palestra por escrito, só que logo no início vi que o papel me prendia, a coisa não ia ser fácil.

Larguei o texto e comecei a improvisar sobre o que havia pensado e escrito. Vieram me contar que, depois disso, a coisa fluiu com grande naturalidade e a palestra havia deixado muita gente bem impressionada. Percebi que ser brasileiro não era demérito algum, e eram vários vindos de fora, fiz amizades durante aquela semana que ainda perduram. A nacionalidade do músico é só uma: cosmopolita. O mundo passou na janela, e só Donald Trump não viu.