LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****
Mostrando postagens com marcador 1984. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1984. Mostrar todas as postagens

sábado, 10 de junho de 2023

ROBÔS E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

 


Q
uando o escritor russo-americano de ficção científica Isaac Asimov lançou “Eu, Robô”, em 1950, sucesso por décadas, não se imaginava que o objeto de paixão da vida do autor fosse seduzi-lo tanto. Até onde essas engenhocas cheias de fios, circuitos, diodos, transístores e, na época, válvulas sem fim, poderiam ir? Conseguiriam raciocinar por si algum dia? Asimov tinha paixão especial por robôs: além do título já citado escreveu mais quatro, formando uma série. Eram máquinas dóceis submetidas ao homem. Fora a visão humanista de Asimov, aquelas foram épocas de terríveis e sombrias visões do futuro, como Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, romance distópico (utopia negativa) de George Orwell, e o mais recente Alphaville (1965), do cineasta Jean-Luc Godard. O mundo temia que essas engenhocas começassem a pensar e fazer-desfazer por si, criassem iniciativa própria e, de roldão, dominassem seu criador, o homem, e o mundo inteiro. Cruzes!


N
ossos sonhos giravam em torno de simpáticas máquinas como os robôs da série de desenhos animados Os Jetsons - dóceis, servis, mas com uma pitada de opinião para tornar os filmecos mais divertidos. Ah, perguntaríamos, quem dera tivéssemos ao menos um desses escravos, e o mundo liberto de vez de toda sorte de escravidão e exploração do homem pelo homem! (Como se sabe, máquinas não sentem. Bem... Ao menos até hoje). Aprende-se robótica nas escolas, constroem-se protótipos de robôs, uns complexos, outros apenas para jogar um futebol diferente, meio enlatado. Na universidade, meu filho juntou-se a um grupo de colegas e chegou a disputar campeonatos, um novo esporte que demandava tutano, diria minha avó, cérebro para preparar aqueles gadgets. Ora, se as máquinas são boas, por que temê-las? Podem trabalhar por nós, não é o que sonhamos? Labutarmos cada vez menos? (Meu pai dizia: “a preguiça é a mãe da invenção”. E eu, cada vez mais, acredito nisso).

O Univac

M
as o mundo foi rodando, o tempo passando e maquinarias de cada vez menor tamanho começaram a se tornar mais necessárias para o pensar eletrônico. Os computadores reais dos tempos de Isaac Asimov ocupavam uma sala inteira, décadas depois não precisariam mais do que o espaço de uma agendinha eletrônica, e hoje... Quem diria, hein? cabe tudo e do resto muito mais um tanto em nossos celulares!).


H
oje, uma coisa chamada Inteligência Artificial (Artificial Intelligence, em inglês, ou AI) lança nova sombra sobre o mundo, o terrível medo de que forças anônimas – ou quem sabe até muito bem identificadas! – venham a nos dominar executando manobras complexas em supervelocidade. De um lado, alunos sonham com a IA nos seus trabalhos escolares, os acadêmicos nas pesquisas científicas, e em toda “mão de obra cerebral” – está criado o neologismo? -, com uma rapidez nunca dantes vista. De outro, e a Receita Federal? E as guerras? O que intriga é: se alguém tem o poder de programar o funcionamento da IA, então há quem tenha o controle nas mãos, ou, indo bem longe, a rigor poderão com ela deter o poder sobre o mundo.

Foto: Casa Magalhães

D
ia desses uma amiga propôs aos seus pares da rede social que cada um desse o nome de um livro, apenas um. Propus Dom Casmurro, de Machado de Assis, e em segundos o que existia na Internet sobre ele era espremido em exíguo espaço, algumas linhas. Dentro dos parâmetros dados, a geringonça mostrou a data da primeira edição, 1899, a editora, Garnier, e uma série de informações sobre aquele momento no conjunto da obra do autor. Corri para conferir algumas coisas, mas até ali tudo estava certo. Em três segundos! Pensei: será possível catalogar um número astronômico de obras para grandes bibliotecas ou universidades em curto espaço de tempo! (Arregalei os olhos, ri e lembrei-me de um episódio divertido de uns vinte anos atrás, na casa de uma amiga produtora artística. Nós, do estúdio dela no andar de baixo, ouvimos a velha senhora chamá-la e perguntar quando ela tinha saído e retornado do supermercado, pois entregaram pacotes na porta. Ouviu não, mãe, fiz as compras pela Internet, eles só vieram entregar! Pronto. Bastou para a velha senhora passar mal e esbravejar onde estamos, será isto o demônio, aonde vamos chegar?)


A
pós pensar nas vantagens do uso dessa parafernália tecnológica, Chat GPT e afins, diverti-me vendo montagens fotográficas de celebridades onde elas nunca estiveram, obras impossíveis de Da Vinci e Picasso e até rabiscos de composições bem medíocres. Na arte e no amor, nossos escudo e broquel, não há chance para IA no final.


L
uz amarela. Em um ensaio para a revista Economist de 28 de abril, o renomado filósofo e historiador israelita Yuval Noah Harari explica o porquê da necessidade de um freio para desarmar as IA na esfera pública. Aqui e ali, vê-se um alerta para o surgimento de inicialmente pequenas calamidades. Lembremos depois as eleições de 2022, as poderosas fake News, os bots, algoritmos manipuláveis; pensemos os estelionatos cibernéticos em massa e, pior de tudo, o avanço indomável das guerras. Se brincadeira, nesta nova 4ª revolução industrial, ou cibernética, a IA já não teria mais graça alguma. Da 3ª revolução, a da robótica, informática e eletrônica, saltaremos a uma outra, a da velocidade descontrolada, cálculos exponencialíssimos com pilotos desconhecidos. Do Alpha Soissante, do velho Alphaville de Godard do início, e lembrando Fahrenheit 451, obra-prima de Ray Bradbury, devemos lutar contra esse “novo mundo”, onde não haveria lugar para amor, arte e sentimentos. E venceremos!

sexta-feira, 29 de maio de 2020

PANDORA, REALITY SHOWS,


TERAPIAS DE GRUPO E COMPORTAMENTO

Pandora, por Lawrence Tadema (dom. púb.)
O convívio entre pessoas em um mesmo ambiente é uma caixa de surpresas como a de Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, na mitologia grega. Segundo descrições e ilustrações antigas, uma caixa ou pote, a depender do autor. No recipiente, estavam guardados os males do mundo, contou Hesíodo, em seu “Os trabalhos e os dias”. Zeus, por capricho, havia feito uma provocação (e nem colocou aquele tipo de aviso que diz “não abra”, mas não foi preciso): Pandora, curiosa que só, destampou o pote, de onde escapou o que há de ruim na Terra.
As pessoas isoladas em um ou poucos ambientes contíguos ficam expostas gradativamente aos sentimentos conflituosos nelas reprimidos. É como se a tampa do pote de Pandora deixasse escapar aos poucos seu conteúdo, a partir de uma fresta. Muito explorado em dinâmicas ou psicoterapias de grupo, o despertar desses ingredientes sociais ocultos vem surgir como uma pequena amostra, o microcosmo da sociedade representada em cada homem e seu plural.
Assim nasceram os reality shows da TV dos anos 1990, com The Real World, e logo depois Idols e Big Brother, franquias vendidas a emissoras mundo afora. Os telespectadores desses shows parecem sentir certo prazer em acompanhar fusões nebulosas entre realidade e cena, esta obviamente submetida a scripts definidos, jogos programados e disputas criadas pela produção, tudo para despertar emoções e reações. Quanto mais agressivas, maldosas ou sensuais essas reações e os complôs, mais o espectador se delicia com o que pode ser uma fotografia intestina dele próprio, seus ódios e desejos ocultos. (Confundem-se ao chamar os participantes de “brothers”: Big Brother, nome do programa, é o ‘grande irmão’ de “1984”, livro de G. Orwell, é a máquina que tudo vê e a todos controla, como as câmeras e microfones do show).

Reality show alemão
Telespectadores escolhem anjos e demônios por empatia ou repulsa, torcendo contra ou a favor de um ou outro. Vislumbram suas próprias vidas na tela e podem tecer comentários aos seus convivas sem se identificarem nas cenas da forma que as veem, o buscar do íntimo de cada um, parte da fórmula do sucesso do programa.

Já tratei do Teatro do Absurdo, surgido na desolação do pós-II Guerra. Autores criavam situações terríveis vividas por personagens geralmente enclausurados em um ambiente, apartamento ou casa, o que durante o conflito mundial seria o medo de ir à rua e ser atingido por bala perdida, granada, bomba - ou topar com nazistas. Terminada a guerra, o medo permaneceu, e junto com ele certa descrença na humanidade e na razão da existência. O gênero do Absurdo é uma criação neurótica sobre situações igualmente neuróticas, mas tem, além da erudição, a observação crítica a diferenciá-lo dos fúteis reality shows que se pretendem ‘reais’.

A Terapia (ou psicoterapia) de Grupo envolve um certo número de pacientes e um terapeuta, e se abre em uma gama de formatos, como arte-terapia, Terapia de Comportamento Cognitivo (CBT), terapia de dança e musicoterapia, entre outros. Nesses grupos são tratados medo, ódio, neurose, apatia e depressão, além de serem desenvolvidas técnicas coletivas de relaxamento e de adaptação para melhor convívio social – modelos analisados por Charles Montgomery em Role of dynamic group therapy in psychiatric treatment (Cambridge: CUP, 2018).
Enquanto a terapia de grupo tem profissionais aptos a intervir, quando necessário, nos reality shows a mediação é feita por um apresentador sem qualquer preparo, que dá combustível aos acontecimentos. E, claro, sempre com um olho na contabilidade eletrônica, conforme o público que interage, e indiretamente, um outro da emissora, por meio das medições eletrônicas de audiência – sem falar no retorno financeiro dos anunciantes e eventual merchandising em cena. Surgem mais e mais imbróglios, e a produção da TV os estimula, sendo as séries de jogos e disputas elementos fundamentais à criação da atmosfera fértil para as crises se desenvolverem. Se ultrapassar certo limite, o participante é punido, lançado à execração dos demais ou até expulso.
Os isolamentos sociais de hoje em razão da pandemia são grupos sem controle e sem os voyeurismos dos reality shows, sem mediadores ao microfone e menos ainda terapeutas profissionais. Como em todas as situações de grupo - no lar, no círculo de amigos, no clube, na sala de aulas ou no trabalho -, um dos que fazem parte do conjunto assume sua posição de líder, seja por uma determinante social (pai, mãe, chefe) ou espontaneamente, quando o grupo é homogêneo. Se há intrigas ou debacles mais fortes, é ele o indivíduo que tende a interferir.  
O conflito no trabalho, por Resnais/Laboritt
Pela lente da chamada sétima arte, Alain Resnais, cineasta francês, repercutiu, em Mon oncle d’Amérique (“Meu tio americano”), de 1980, as ideias do médico e filósofo Henri Laboritt sobre estudos dele acerca do eu (self ) e a sociedade. Analisa essa relação em que “todas as criaturas lutam por equilíbrio (homeostasia) em seus ambientes, nos quais se manifestam como comportamentos de controle nos personagens do filme”, diz o cientista, comparando as reações desses personagens em ambientes estressantes às dos ratos de laboratório: disputa, fuga e inibição. A criação artística é um rico meio de compreensão dessas tensões.
Arte é fantasia, imaginação, neurose; é crítica social, política, científica, tudo o que brota na mente e vem a público sob um ponto de vista estético e filosófico. Se não aponta soluções, desperta perguntas. Que acendem uma luz.
(Ewan Townhead)

INSCREVA-SE NO MEU CANAL NO YOUTUBE: www.youtube.com/user/autrandourado



domingo, 2 de dezembro de 2018

ESCOLA SEM SENTIDO


A EMC, Educação Moral e Cívica (versão tupiniquim do Enseignement Civique francês), foi uma disciplina criada na ditadura Vargas (1940) para ser aplicada em todas as séries do ensino escolar. Mais leve e coerente, no intuito de seduzir os alunos, o governo Goulart, em 1962, havia criado a OSPB (Organização Social e Política Brasileira), abordando aspectos diversos de nossa sociedade, com um pé no nacionalismo caudilhista. Em 1969 – ainda na ressaca de 1968, ‘o ano que não terminou’, Costa e Silva fez uma reedição por decreto, com força de lei, para controlar as discussões e questionamentos que contagiavam a juventude. Em 1993, por iniciativa de Itamar Franco - e quae sera tamen -, a disciplina foi revogada, “pois em um regime democrático não mais caberia tal camisa de força”, disse. A matéria no fundo colhia o contrário do pretendido: a antipatia, pois que feita para coagir, ‘fazer a cabeça’ e aquietar os estudantes.

Lembro-me da fase até 1977, tanto quanto não me esqueço do ódio que os alunos incubavam ao assistir a uma aula chata, forçada e mentirosa. Copiaram toscamente e na aparência modelos estrangeiros, como o American Government e o Constitution and Government (ambos dos EUA), e o Enseignement Moral et Civique francês.

EPB, em uma das inúmeras edições e inúmeros autores
O problema maior era a mesmice, a chatice e o reacionarismo da disciplina, sentimentos divididos até pelos professores, que tentavam tornar as aulas mais palatáveis, mas com muito pouco sucesso. Ao voltar dos EUA, fui revalidar meu diploma em uma universidade pública brasileira. Apesar do nível de excelência da escola americana, disseram-me que faltava um semestre de Problemas Brasileiros.

Por Debret
Sorte minha: o professor encarregado de ministrar a disciplina era um grande músico, me reconheceu do passado e pediu que eu o encontrasse depois da aula. Assim feito, ele me disse, em voz baixa, que achava um absurdo eu fazer aquela matéria. Ele fora designado para a aula pela chefia, mas a detestava, fazia-o contra a vontade. Pediu-me um trabalho sobre o tema para o final do semestre e ficaria tudo bem. Posso escrever sobre esta disciplina, brinquei: é mais um problema brasileiro! Tapinha nas costas, fui para casa e retornei apenas para entregar um trabalho que, se não me engano, versava sobre a história da cruel exploração dos povos negros no país. Um problema brasileiro!

Movimento "espontâneo" pela volta da EMC
Ideias mirabolantes de se reinstaurar algo como Moral e Cívica – camuflada ou não - no ensino escolar só não é repudiada (ainda) pelos alunos porque eles não a conhecem. Ela na verdade estaria inserida em todas as disciplinas, e haveria um viés ideológico e até religioso – a depender da matéria. Enfim, seria uma troca de escola sem partido por uma escola ‘da nossa ideologia’.

Mas há quem pretenda ir além com esse educar sem partidos, o que é uma quimera. E sem ideologia, o que é pior ainda. A ideologia está presente até no contexto de um projeto que envolve bioquímica e fundição de materiais. Mais ainda: por acaso existe história sem ideologia? Nunca, ainda mais porque a história é escrita sempre pelos poderosos ou seus bedéis, sejam fatos e dados reais ou coloridos ao bel-prazer de quem a conta. No passado tivemos o positivismo de Comte e Mill, despejado em todas as salas de aulas. Lembro-me disso na faculdade, no Rio, na época da repressão Médici (1971/72)! A detestada professora veio com a ‘ruptura epistemológica’ de Bachelar, mas aquilo nada mais era do que o afastar do conhecimento adquirido, do que já se sabia – o qual se deveria combater. No Brasil, aplicavam-na com o intuito de tolher passado e ideologias, e não da forma que Bachelar buscava empregar como método.

(Emais Rondônia)
Falar de Revolução Francesa sem falar em ideologia é, sim, um ato ideológico, envernizando a história e imobilizando-a. Da Proclamação da República, encharcada de positivismo, nem fale. E mesmo do descobrimento do Brasil, igualmente. Só para falar de história ou geografia, não há um momento sequer em que ideologias não estejam presentes, seja pelo lado de quem escreveu, o vencedor, ou de quem interpreta o que está escrito. Contar a Proclamação da República sem menciona-la como golpe um de estado de Deodoro? E Floriano Peixoto, traíra que ‘substituiu’ o Marechal por golpe, um rígido ditador? E a longa escuridão de 1964? Nada disso está na ‘história oficial’ como realmente aconteceu.

Partidarismos e eventuais excessos são assuntos para ficarem a cargo do diretor de escola, como convém a qualquer organização, além de assuntos pornográficos, racistas ou de agressões físicas. Disse George Orwell, em meados do século 20, que a história é contada e escrita pelos vencedores. Claro, derrotados não têm voz. Em seu histórico livro ‘1984’, Orwell preconizava: “O que pode ocorrer em uma sociedade completamente vigiada? E se essa vigilância se transforma em mecanismo para controlar as pessoas?” Viro a página para outro capítulo e pergunto eu: que tal as ciências humanas sem o perpasse ideológico? Mais frias do que voz de androide em anúncios 3D computadorizados! E para achar propaganda partidária em conteúdo ideológico basta um olhar de soslaio do inquisidor. Ambiciona impor uma ideologia ‘limpa e casta’ - a própria.

Mais agressivo seria o policialesco ato de o estudante filmar o professor, como se fosse um bandido procurado. Com tantas rusgas entre alunos e mestres, nas quais os últimos são invariavelmente os mais atingidos com agressões de toda ordem, dá para imaginar jovens vingativos e habilidosos montando vídeos para denunciar professores de que não gostam. Dedurar gravando um mestre é uma ideia perversa, uma verdadeira bomba social. Reflitamos sobre o passado, ele é a história que nos dará o rumo a ser seguido no combate a essas aberrações. Antes que tarde.


segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O MEDO



Talvez a representação plástica mais impactante sobre o medo seja a obra-prima O Grito (1893), do norueguês Edvard Munch. Seduzido pelas portas maravilhosas que o simbolismo lhe abria de maneira bem pessoal, Munch também foi influenciado pelos expressionistas alemães. Mas que mistério inominado teme a figura retratada por Munch? 
Para mim o quadro remete a figura concreta, uma fotografia: a da menina Kim Phuc, sem roupas e desesperada, tentando fugir do ataque de bombas Napalm na guerra do Vietnã. Em O Grito, a boca escancarada, as mãos espalmadas sobre faces e orelhas, um cenário de linhas sinuosas como fossem as ondas sonoras do berro incontido. Para maior impacto, Munch pintou nuvens como representação de sangue: dor.
Quem tem Medo de Virginia Woolf? (1962) é o título de uma peça do grande teatrólogo americano Edward Albee. Aborda os conflitos de um homem e uma mulher de meia-idade com seus convidados, um casal de jovens. O título é uma blague com o nome da escritora Virginia Woolf (1882-1941) sobre Quem tem Medo do Lobo Mau (‘Who’s afraid of the Big Bad Wolf?), de ‘Os três Porquinhos’, desenho animado infantil de Walt Disney.  
Clarice Lispector passeia com Freud e Kierkegaard (“a angústia é a vertigem de liberdade”). Especialmente no filósofo dinamarquês, trava-se o embate entre medo e liberdade, duas faces opostas ligadas à raiz de uma mesma origem. Se Freud separou medo, susto e angústia, cada um com seus signos, Clarice os uniu, tornando essa trindade coesa e apavorante, praticamente um sentimento uno em sua obra, na qual passeiam a ‘condenação à liberdade’ de Sartre e Kafka, em seu livre mas amargo mundo surreal interior.
Milton Nascimento, na brilhante Caçador de Mim (1981, nos estertores da ditadura), falou sobre ignorar o medo: “Nada a temer senão o correr da luta / nada a fazer senão esquecer o medo, medo / Abrir o peito à força numa procura / fugir às armadilhas da mata escura...” É um desafio de peito aberto ao medo, o enfrentar a luta como inevitável. Mas Jobim, como sempre, prefere seu lado dócil e enamorado: “...teus olhos morenos / me metem mais medo / que um raio de sol”.
Jackson do Pandeiro curte à moda bem faceira a simplicidade e a pureza de seu medo, o de perder um amor: “A ema gemeu (...) / será que é o nosso amor, ó morena / que vai se acabar? / Você bem sabe que a ema quando canta traz no meio de seu canto um bocado de azar / Eu tenho medo, morena / eu tenho medo / (...) desse amor se acabar”.
O medo é como venda nos olhos e abismo na estrada de um povo. Ele não pensa, só teme as consequências, meio caminho da espiral da alucinação. Já o líder que mostra destemor é um chefe a ser respeitado. Bom exemplo foi um certo discurso meio xoxo de JK a um público apático. Meu pai, secretário de imprensa da Presidência e responsável por muitos textos palacianos, achou por bem arriscar num pedaço de papel colocado no bolso do paletó de JK uma frase de impacto, de inspiração bíblica e volta e meia lembrada: “Deus poupou-me o sentimento do medo!” JK bradou-a com tamanha verve e convicção que o público saiu da letargia e irrompeu em sorrisos e aplausos solidários. Havia medo: houve ameaça de golpe logo na posse, malograda com a presença do Mal. Lott, as fracassadas revoltas militares de Aragarças e Jacareanga. Havia razão de sobra para o medo, que só viria a se impor como todo-poderoso sistema após 1964, alguns anos depois.
Restos de armênios
Existe medo maior do que aquele sentido nos corredores da morte? O que vinha do odor  dos campos de Auschwitz, Treblinka e Sobibór? Dos armênios durante o genocídio pelos otomanos de 1,5 milhão de seus irmãos de sangue? Ora, no Vietnã oficiais americanos faziam vista grossa para injeções de morfina (e mesmo heroína) nos soldados, o ‘front’ se transformava em um espetáculo indolor, pleno de cores e delírios. Já os inimigos foram mortos a seco, a dor perfurando as tripas e o fundo d’alma.
O Brasil sempre foi pródigo em períodos de medo: os massacres da colonização, a escravatura, as chibatadas e punições sem lei, as matanças de índios, as crueldades contra os inconfidentes, o esmagar com sangue nos olhos diversas revoltas populares. A mais longo termo, as ditaduras, como as de Floriano, Getúlio e a de 1964. O medo era real até nos sonhos, como aquele retratado por Chico: “Acorda, amor / eu tive um pesadelo agora / sonhei que tinha gente lá fora / (...) Era a ‘dura’, numa muito escura viatura...”. O medo do número crescente de prisões, torturas, medo de sair na rua, a angústia de estar sem saber próximo do que se chamaria ‘síndrome do pânico’, assídua nos divãs de psicanalistas e consultórios de psiquiatras de hoje, transtorno cada vez mais comum entre os cidadãos: o fim da estrada é simplesmente o terrível medo de ter medo (a literatura sobre a síndrome em todos os idiomas é vasta).
Impor o medo é estratégia tão antiga quanto o próprio homem. Resume Macchiavelli, em O Príncipe (XIX.12): “O príncipe que quer conservar seu domínio às vezes é instado a praticar o mal”. Seja pela força bruta, aliada a outras ferramentas de molestamento físico e mental, seja pelo cerceamento do cidadão, cada vez mais podado em sua opinião e arbítrio. Imagem impiedosa é ficcionalmente estampada em Alphaville (1965, filme de Jean-Luc Godard), um lugar onde sentimento e amor eram vetados. Há também 1984, de George Orwell, texto de 1949 que espelha o doloroso perigo do império nazista, então já derrocado.
Disse Nelson Mandela: “Aprendi que coragem não é ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O homem de bravura não é o que não sente medo, mas o que o conquista”.