LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****
Mostrando postagens com marcador Municipal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Municipal. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

SOBRE O BRASIL E A ARGENTINA

 


A
Argentina é um país amigo que apesar das diferenças culturais tem em comum conosco a bagagem latina. Algumas diferenças: dominada pelos espanhóis, a Argentina proclamou sua independência em 9 de julho de 1816. O Brasil, “descoberto” e colonizado pelos portugueses, tornou-se independente seis anos depois, em 7 de setembro de 1822. A Argentina é um vasto país: 2.800 mil km² (8º maior do mundo), quase 33% de nosso território, 8.510 mil km² (5º).


D
emograficamente, não se repete tal proporcionalidade: com quase 212 milhões de habitantes, o Brasil tem 4,86 vezes a população do país vizinho, de 43,6 milhões. Na música, porém, somos bem chegados: o imponente teatro Colón (1908), de Buenos Aires, Meca da ópera na América Latina que passou a receber as grandes companhias, inspirou a ideia de fundação dos teatros Municipal do Rio (1909) e de São Paulo (1911). Aqui é terra de Villa-Lobos e Guarnieri, lá, de Maurício Kagel e Ginastera; esbarrando nas tênues fronteiras entre o clássico e o popular, cá temos Jobim, eles Piazzolla. E se exaltamos o samba e a bossa nova, lá eles desfrutam do maravilhoso tango. Cá se toca violão e sanfona, lá violino e bandoneón. Enquanto falamos e escrevemos em português, entre eles é o espanhol, belo idioma, tão similar!


O
futebol é paixão nos dois países! A seleção argentina levou duas copas do mundo (1978 e 1986), aqui colecionamos cinco (58, 62, 70, 94 e 2002), longe de uma equivalência em termos populacionais. Em ídolos somos parceiros: Pelé (80 anos), o mestre perfeccionista, vigoroso e temido pelos adversários, e o mago Diego Maradona, um artista simplesmente  venerado, um ícone de sua terra, para tristeza do povo falecido em 2020 aos 60 de idade. Ambos célebres por escreverem a história do futebol recente com gols, dribles e lances homéricos.


C
ontudo, há um viés belicista que frequentemente extrapola todos os limites do razoável, tanto entre brasileiros e argentinos quanto entre estes e uruguaios, uma rivalidade ferrenha que se pode creditar ao passado histórico, desde as guerras do Prata e da Cisplatina (1825-1828), quando da disputa territorial entre o Brasil e a Argentina envolvendo a província onde hoje fica a República do Uruguai.


H
á uns 20 anos, fui participar de um debate na Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), em São Leopoldo, RS. Logo no princípio da conversa reparei que na plateia um grupo menor sentava-se isolado em uma área à esquerda. No intervalo, indaguei a um colega debatedor, que me explicou: meio à parte, sentavam-se os uruguaios. À direita, a partir do meio para cima, os argentinos, e, na frente, um bom número de brasileiros. Assaltou-me uma sensação desconfortante. Ora, éramos todos músicos, e naquela mesa eu me sentia à vontade com um uruguaio, um argentino e talvez outro brasileiro.


T
erminadas nossas exposições, fomos levados a uma bela churrascaria. Lá chegando, sentei-me à mesa onde já estavam alguns uruguaios. O papo começou bem, à nossa frente uma imensa ‘costela no bafo’ - à argentina, aliás -, assando bem ali no chão para nos provocar, até que entra um grupo maior, com certa euforia. Da cadeira do lado, meu vizinho uruguaio perguntou:
¿son los argentinos? Respondi que sim, e no ato, após trocarem poucas palavras entre si, retiraram-se. Até em nosso meio musical essa rixa transparece, especialmente em ‘ringue’ livre, o trabalho, e aqui, mesmo entre os residentes e os naturalizados.


V
oltando à Argentina, temos muito em comum: ambos sobrevivemos a violentas ditaduras durante longos períodos (10 anos, eles, e 21, nós) - tortura, mortes, censura e até ‘acordos’ entre as repressões dos dois países, tristes laços que 'desapareceram' de um hotel até com nosso pianista Tenório Jr. No passado, ambos tivemos líderes populistas com um pé no fascismo mussolinista, Perón e Getúlio.


E
m 2020, na saúde, o presidente argentino Alberto Fernández anunciou que na terça-feira, dia 5 de janeiro de 2021, daria início à vacinação em massa com a Sputnik-V russa contra a Covid-19. O Brasil ainda claudica, entre o negacionismo e a inércia, deixando o povo mercê de uma nova e imprevisível onda da doença. Enquanto isso, o Senado argentino – sem entrar em discussões ideológicas ou de credo – aprovou, por 38 contra 29 votos e uma abstenção, o aborto espontâneo até a 14ª semana de gravidez.


R
acismo e Xenofobia andam de braços dados, preconceitos que têm como mote a ideia de supremacia e superioridade de uma raça ou país sobre outro (entre regiões atende nos dicionários pelo nome de regionalismo). São eles os instigadores do ódio, das guerras, das violações aos direitos dos cidadãos e obstáculos ao diálogo pelas conquistas sociais entre países, regiões e cidades. Surgem como muralhas de preconceitos entre Sul e Nordeste, brancos e pretos, cariocas e paulistas ou mesmo uma cidade e outra - genericamente, todos os que se considera fora do seu time.


T
emos o que admirar nos argentinos, pois se em várias coisas os superamos, em outras por eles somos superados - trata-se de nobreza de hermanos vecinos estendermo-nos as mãos. Afinal, há que se reconhecer que em 1936 a Argentina já havia recebido o Nobel da Paz, com Saavedra, enquanto o de 1970 foi desviado de Dom Hélder Câmara por uma guerra de informações tendenciosas e falseadas do presidente Médici com seus diplomatas em Oslo e Paris. A Argentina voltou ao Nobel da paz com Esquivel em 1980. Salve, latinos! Como tal, devemos nos orgulhar também de Jorge Mario Bergoglio – Francisco, o Papa – um líder sábio, pluralista, generoso e à frente de seu tempo.

sábado, 7 de abril de 2018

MÚSICA POPULAR OU DE CONCERTO?

MÚSICA!

Cena de ensaio de West Side Story
Alguns músicos transitam com versatilidade entre as áreas de concerto e popular. Foi o caso do Geshwin, de Porgy and Bess, do regente e compositor Leonard Bernstein, de West side story, do pianista Glenn Gould e do trompetista Winton Marsalis, dos contrabaixistas tchecos Jiri (George) Mraz, ex-Oscar Peterson Trio, e Miroslav Vitous, do grupo de jazz fusion Weather Report, ambos egressos do Conservatório de Praga.
Jaques Morelenbaum
No Brasil, o clarinetista e saxofonista Paulo Moura, o arranjador Rogério Duprat, parceiro da Tropicália, e, mais para cá, o violoncelista Jaques Morelenbaum, que trabalhou com Milton Nascimento e Tom Jobim. Isso, sem esquecer aquela turma de arranjadores de sólida formação teórica, formada por gente como Gaia, Arruda Paes, Cipó, Guerra Peixe, Simonetti, o amigo Villani-Côrtes, Peracchi, Panicalli e os mais novos, como Roberto Gnatalli, Roberto Farias, André Mehmari, João Victor Bota e outros.
O jovem Antonio Meneses
Jaques Morelenbaum foi para os EUA, e ingressou no New England Conservatory, onde eu estudava. Logo que chegou, pudemos conviver em algumas festinhas saudosistas típicas de casas de brasileiros. Jacques veio de experiências em música popular, desde antes de ingressar no Municipal do Rio; já tentava dividir assim sua participação na Orquestra Jovem, onde foi colega de naipe de um jovem chamado Antonio Meneses, ali descoberto pelo italiano Antonio Janigro, que o levou para a Europa. De lá, Meneses tornou-se um dos melhores cellistas da atualidade e, segundo consta, resolveu ser solista após ver Morelenbaum tocar um Vivaldi com a Sinfônica Municipal.
Poster: Allston
Voltando a Boston, Jaques passou a conviver com aquela ‘máfia brasileira’ de Allston-Brighton, na região da New England, onde passei um dos anos em que vivi em Massachussets. O gueto brazuca tinha o grande sax e amigo Leo Gandelman, Zé Nogueira, o baterista Pascoal Meireles, os guitarristas Ricardo Chaves, Ricardo Silveira e Victor Biglione, além do pianista Rique Pantoja. Clássicos ou populares, não fazia diferença (a maioria deles hoje no Rio, alguns nos EUA e outros na ponte-aérea).

The New England Conservatory 
Jaques, ao chegar, levou o mesmo choque musical que todos os brasileiros, ao ver o nível dos bambas de uma grande escola. Mas isso não lhe foi problema: com seu talento, filho de grande maestro brasileiro, estudou com Madeleine Foley, que foi assistente de Pau (Pablo, em catalão) Casals. Mas o destino de Jaques estava mesmo na música popular. Suas excelentes participações em discos do Milton e do Jobim denotam uma ótima formação e extremo bom gosto, e seus arranjos trazem a chancela dos bons.
Ernesto Nazareth
Um dos primeiros nomes de importância da nossa música mais eclética, cortejado tanto por populares quanto clássicos, foi o carioca Ernesto Nazareth (1863-1933), compositor de peças de uma graça e um gingado muito especiais: Odeon e Apanhei-te, Cavaquinho, por exemplo. Nazareth nasceu pobre, na Favela do Pinto, perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, depois reduzida a um conjunto vertical espremido entre a Lagoa e o Leblon, a Cruzada São Sebastião, fundada por D. Helder Câmara (1955) e logo reduto do tráfico e da bandidagem. Voltando a Nazareth, o rapaz teve uma formação básica em composição e teoria, porém só o suficiente para ser ‘emancipado’ musicalmente por seus professores. Acharam que o pupilo, em pouco tempo, já sabia o bastante.
Uma pianista de cinema mudo
Tocou, ganha-pão comum na época, em cinemas-mudos e cafés. Em seu ofício, pôde conhecer e ser admirado por gente como Darius Milhaud, compositor e então adido cultural da França no Brasil, Francisco Mignone e, veja só, até outsiders como Ruy Barbosa. Assim, familiarizado com gente importante e conhecedora de arte, foi para São Paulo, em cujo conservador ‘Theatro Municipal’ logo se apresentou a convite de Mário de Andrade, o controverso Diretor de Cultura da Prefeitura. O Municipal fora o pináculo de uma glória musical que logo cederia lugar à decadência, para só depois reassumir sua plena importância. Andrade dizia que o Municipal era lugar frequentado por aquelas donas ‘que ficavam chacoalhando as joias’ para exibi-las, enquanto os maridos ‘fumavam charutos e falavam frivolidades nos corredores’.
O Hospício D Pedro II
Nervoso, temperamental e boêmio, Nazareth contraiu sífilis, doença que passou a atormentá-lo. Arrumava brigas e confusões, entrando em crises cada vez mais profundas. Não demorou, e trataram de leva-lo para o Rio, onde foi internado no Hospício Pedro II, na Urca, e de lá transferido para o de Jacarepaguá, mas fugiu após um ano. A escapada, porém, durou pouco: foi encontrado boiando em uma represa nas proximidades, dias depois da fuga.
Chiquinha Gonzaga (1847-1935) virou tema ‘global’, mas merece ser lembrada pelo enorme (quase 800!) e belo volume de obras . Marcou história com sua vida insólita, condenável para a época. Tanto que seu pai, José Basileu Gonzaga, chegou a considerá-la “morta” para a família. As três filhas da compositora passaram a ignorar a identidade da mãe. Forçada a se casar com um oficial escolhido pelo pai aos treze anos de idade, a autora de Lua Branca e da marchinha Ô Abre Alas largou três de seus quatro filhos aos dezoito anos para viver com um engenheiro ferroviário. Depois, nova união com um flautista. Foi seu passaporte para a boemia: conheceu os chorões, influência maior de sua música, emprestando-lhe sabor todo especial à mistura de ritmos europeus. Nasceram assim seus tangos, maxixes, lundus, mazurcas e valsas. Malvista pela fina sociedade, chegou a reger a Banda da Polícia Militar, proeza para uma mulher na época!