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sábado, 10 de junho de 2017

MORENA POESIA

“Sei que a noite inteira eu vou cantar / até segunda-feira quando volto a trabalhar / morena...”/ (...) ”seu abraço meu emprego / quando chego no meu lar / morena...” O Chico sabia exaltar as morenas, e parece que sempre as preferiu na vida, desde a Marieta até as mais recentes. E louvou as morenas revolucionárias, bem ao seu feitio: “Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela / será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela/ (...) Morena, bichinha danada, minha camarada do MPLA” (pronuncia-se “Emepéla”: Movimento Popular pela Libertação de Angola).  “Passando pelo regimento ela faz requebrar a sentinela”. Ou na fase mais lírica, tão mais suave e apaixonada: “Morena, dos olhos d’água / tira os seus olhos do mar. / Vem ver que a vida ainda vale / o sorriso que eu tenho / pra lhe dar”.

Que fascínio especial a morena exerce sobre poetas e compositores? E desde bem antes de José de Alencar: “Iracema, a virgem dos lábios de mel / que tinha os cabelos mais negros que as asas da graúna / e mais longos que seu talhe de palmeira”. Castro Alves também revela suas atrações pela cor, seja apenas dos cabelos, pela pele jambo, ou pela cor negra, como em sua Morena Flor: “Ela tem uma graça de pantera / no bem-comportado andar de menina / no molejo que vem quase se espera / que de repente lhe salte em cima”.

Castro Alves
O grande poeta baiano faz uma alegoria com a graciosa pantera, fera felina, embora graciosa, como diz, mas veja nas entrelinhas “sempre se espera (...) lhe salte em cima”. Era uma poesia com uma sensualidade tão pura – e tão diferente dos às vezes ofensivos e grosseiros ataques de hoje. Com isso, encanta, e devia encantar quem o lia. E a morena que os poetas cantavam eram as negras, mestiças, índias ou simplesmente as de escuras melenas, que populavam o imaginário do país. O Brasil ainda não tinha a rica diversidade – miscigenada ou não – de raças como hoje, após os europeus, notadamente os alemães e italianos, trazerem ou aqui se unirem às mulheres locais, deixando filhos com traços de loiras e ruivas.

Loira e de olhos claros, só a mãe d’água, cantada por Gonçalves Dias, no passado mais distante:  “...mil peixinhos brilhantes / mais luzentes e mais belos / que o ouro dos meus cabelos...” devia cantar a “mãe” da lenda. “Mais louras que as folhas crestadas / (...) enroscam-se as tranças / quais seres de luz”. Segundo o historiador Câmara Cascudo, em consonância com Basílio de Magalhães (“Folclore no Brasil”), a “mãe” original veio trazida de há muito pelos portugueses, vindo a sofrer modificações nas cores da pele e dos cabelos posteriormente.

Em nosso folclore, a exemplo de uma das muitas versões da lenda da Iara (há as morenas e até as de cabelos verdes), que se assemelha, sem ser sereia, à Lorelei, frequente no Rio Reno alemão, visão que atraía os barqueiros. Esses, inebriados pela beleza nunca vista da moça e sua voz tão bela soçobravam e espatifavam seus barcos sobre as pedras (na verdade, o canto dela era o vento, uivando ao fazer um semicírculo em uma grande reentrância nos altos rochedos). Nossa Iara veio da mãe d’água, que não era sereia, e penteava suas longas melenas sentada sobre uma pedra no meio da correnteza. E arrastava os homens para o fundo do rio.

Salve a imortal Marina, do Caymmi: “Marina, Marina morena, você se pintou / Marina, você faça tudo, mas faça o favor / não pinte este rosto que eu gosto...”, e de onde mais seria Marina? Da Bahia, região morena por natureza, apesar de hoje algumas estrelas, sabe-se lá o porquê, tingirem seus cabelos de loiro para buscarem sucesso. Mas não bastariam a voz e a beleza da cor da baiana? Também nordestino, Alceu Valença nos brindou com “Morena tropicana, eu quero teu sabor / Ai! Ai! / Ioiô! / Ioiô”. Entre as musas de cabelos escuros, as nordestinas são as preferidas de artistas como Luiz Gonzaga, o “Lua”, com seu jeito inconfundível: “Vem, morena, pros meus braços / vem, morena, vem dançar / quero ver tu requebrando / quero ver tu requebrar / (...) resfulego da sanfona / inté o sol raiar”.

Mário Lago
De Mário Lago e Aracy de Almeida brotaram letra e música desta marchinha de carnaval, que tantos novos amores atou nos bailes da vida: “Linda morena, morena / morena que me faz penar / a lua cheia que tanto brilha / não brilha tanto quanto o teu olhar”. Jobim troca de astros, lua pelo sol, como bom ipanemense: “...mas seus olhos morenos me metem mais medo / que um raio de sol / oh, Lígia / Lígia”.

Lembro um lindo soneto do poetinha Vinicius de Moraes: “Como uma jovem morena / linda, esgalga, penumbrosa / parece a flor colhida / ainda orvalhada / justo no instante de tornar-se rosa”. Se há um louvor à morena e sua beleza, há também uma conotação sensual que é de uma singeleza infantil. E delicada como as gotas de orvalho que ele canta, tal como a poesia da pantera de Castro Alves. Joaquim Manuel de Macedo foi um dos precursores do romantismo brasileiro na literatura, com A Moreninha, de 1844. Texto repleto de mistério, profecias, juras de amor e simbolismos, obteve tanto sucesso que fez Joaquim desandar de seus estudos de medicina para se entregar por inteiro à literatura. O mais recente Ignácio de Loyola Brandão, paulista de Araraquara, tem na cidade natal velhas paixões. A uma delas, o trem de ferro, dedicou um livro de crônicas, e escolheu para título outra paixão, um dos melhores textos: A Morena da Estação.

A morena é musa dos poetas pela origem do nosso povo. 

sábado, 3 de junho de 2017

QUAL O IDIOMA DA MÚSICA?

Grupo Na Ponta do Dedo
O chorão toca seu bandolim, criado no século 18 a partir da bandola italiana. Usa uma palheta (como o plectrum do antigo cravo). No grupo, o cavaquinho, também conhecido como Braguinha, veio da Braga lusitana, onde se chamava viola braguesa; o violão descende do alaúde (al-ud) e seus parentes, introduzido pelos mouros durante a ocupação da Península Ibérica (711-1453). Pode ter seis ou sete cordas, e faz a ‘baixaria’. O pandeiro, saído do adufe árabe, cuida do ritmo, enquanto a flauta (do francês flûte, encontrada até em osso na pré-história) leva a melodia, às vezes seguida também pelo banjo, introduzido na África pelos árabes no séc. 17. O choro é música que nasceu da mistura do schottish - escocês, claro -, da polca polonesa e do samba (de semba, em dialeto de Luanda), por sua vez mesclado com maxixe, mistura de vários gêneros.

O guitarrista trabalha seus licks, trechos curtos em progressão, e riffs, padrões rítmico-melódicos. Costuma usar pedais como o sustain e o wah-wah (o som lembra o da surdina de trompetes nas velhas big bands), entre outros. Os grupos procuram gigs (do inglês) ou cachês (do francês cachet) para serviços em clubes ou boates (do francês boîte, caixa, pequeno ambiente), para depois se divertirem em uma jam-session, brincadeira de músicos (J.A.M.: jazz after midnight), quando o trabalho já terminou. Os acordes são escritos em cifras no mundo inteiro: “Cmaj7”, dó maior com sétima maior (major) e “Dmin7”, ré menor com sétima menor (minor), ambas em inglês).

Na música clássica, acontece o tempo todo: desde “sonata” (it.) peça tocada, ao invés de “cantata”, cantada. Sonata depois passou a designar uma forma-padrão de movimentos; “sinfonia” (do grego) é o agrupamento de vozes, sons, depois também uma forma composicional definida. Pavana vem do francês pavane, dança palaciana. O pianista pode tocar um “impromptu” (do latim, improviso), uma “balada” (do francês ballade), canção de espírito narrativo, ou uma polonaise (polonesa, em francês) como em obras de Chopin. Pode-se tocar uma passagem em piano, suave, quem sabe mezzo-forte (em italiano); cantar com voix de poitrine (voz de peito, em francês), ou boca chiusa (boca fechada), como na Bachianas 5, de Villa-Lobos.

Os instrumentos de arco podem ser tocados de centenas de formas: legato, sem interrupção no som, spiccato (do italiano spicare, separar), com o arco saltando, jeté, ‘atirado’, sul tasto, executado próximo ao tasto, peça de ébano sobre a qual os dedos da mão esquerda pressionam as cordas. Talvez um detaché, ‘destacado’, em francês, col legno, ‘com a madeira’, em italiano, percutindo a vareta do arco na corda, portato (do italiano), sequência de notas levemente separadas, articuladas em uma mesma direção, e tantas outras. Há várias formas de se tocar cada um desses ‘golpes’, a depender da escola estilística e da época. E há os termos mistos, que juntam dois ou até três idiomas, como em col legno gestrichen (italiano-alemão), um movimento em que a vareta do arco é ‘raspada’ sobre a corda, juntamente com a crina, e detaché off-string (francês-inglês), destacado, com o arco carregado fora da corda, sem nela repousar.

A harpa, de cordas dedilhadas, pode tocar près de la table (do francês, ‘perto da mesa’, o tampo harmônico, caixa de ressonância do instrumento. O profissional que constrói ou repara instrumentos de cordas é o luthier ou liutaio, em francês e italiano, respectivamente (de luth, alaúde, que vem do árabe al’ud). As madeiras do violino também levam nomes estrangeiros, principalmente italiano, como accero e abeto.
Eu poderia discorrer sobre o assunto ad libitum, expressão latina que em música significa que o instrumentista ou cantor deve executar sua parte com liberdade, sem mensurar o tempo. No meu Dicionário de Termos e Expressões da Música (SP: Ed. 34, 2004), coletei mais de 10.270 verbetes em diversos idiomas, mas sem incluir biografias para “engordar” o texto: são apenas termos e expressões. Mas será que todos os músicos são versados nessa babel de termos? Claro que não!
Os que fazem a música pura, a linda música de raiz, do baião ao xaxado, do cururu à moda de viola, do vaneirão à guarânia, do desafio ao samba de partido alto e o pagode - aquele de verdade, a tenda montada no quintal lembrando um pagode chinês, e não o modismo da TV, bem diferente.

(Oscar Pereira da Silva)
Todos usam instrumentos cuja origem para eles não importa realmente, e fazem sua arte por herança oral (diria até “aural”), coisa de pai para filho. Usam a viola caipira (ou um de seus outros 12 nomes) afinada em cebolinha, cebolão, rio abaixo, rio acima, conforme a região e o estilo. Pegam no ‘pinho’, sua viola de arame, e com incrível habilidade avançam na técnica chegando mesmo ao virtuosismo, simplesmente pela prática. No samba, podem tocar surdo de 1ª ou de 2ª (o tempo mais forte), e às vezes instrumentos que sabem apenas ser de origem africana, como afoxé e agogô, e isso lhes basta.


Esses artistas sabem que sua música sai do coração, tocam quase sempre por prazer e dedicação de devoto, não pensam em ser “sertanejos pop” e ficarem ricos. Sua arte é para sua comunidade, seus amigos, em quintais e bares, para quem quiser ouvir. Não pedem cachê, basta-lhes uma cervejinha barata ou uma 'manguaça' para abrir a garganta. Fazem desse amor à arte profissão de vida. E não carecem de quem os ensine teoria e afins: se ensinarem, estraga. 

sábado, 27 de maio de 2017

GLOSSÁRIO DA LAVA JATO

Sempre ouvi duplex, triplex, palavras oxítonas. Agora, nos episódios mais recentes, como no depoimento do próprio Lula – não que ele seja uma referência linguística, mas certamente é de seu uso e costume – também aparece triplex. Da mesma forma, o meritíssimo (palavra, aliás, merecidíssima) Sergio Moro prefere a palavra triplex– propriedade que, se é do Lula ou não, ainda cabe a presunção de inocência acima de nossas vãs, embora óbvias suspeições.

Mas há uma questão, com o “benefício da dúvida”, como diria o jurista: A Folha escreve tríplex (com acento), enquanto O Estado prefere triplex (sem). O Jornal Nacional, da carioca Globo, diz triplex, mas os demais preferem a forma acentuada. Qual seria o correto, se é que há correição absoluta em nossa rica língua? (Não confundir com outro significado de correição, que é o que faz uma corregedoria, já que estamos em pleno ambiente jurídico). Às pesquisas: o Houaiss mostra as duas formas, mas prefere tríplex, sabe-se lá o porquê. Já o Vocabulário Ortográfico da Academia de Letras classifica triplex como adjetivo, e tríplex um numeral.
Sempre na vida ouvi falar em “duplex na Vieira Souto”, refinadíssima avenida em Ipanema; assim, cabe-me a opção, e fico com a palavra que sempre ouvi, duplex – ou triplex. O linguista e filólogo Deonísio da Silva acha que deve acabar prevalecendo a forma sem o acento agudo no ‘i’. Penso que as palavras que vêm do latim, como córtex e vórtex, da anatomia médica, levam acento por causa da pronúncia original em língua que não conhece acentos, a terminologia apenas ajusta a pronúncia latina ao português.
Vou ao centro da minha questão, bastante delicado: a imprensa, em geral, tem sua culpa, sua máxima culpa, quando usa o verbo citar. Ora, estando em ambiente de discussão jurídica, citar se refere a citação judicial, uma intimação expedida pelo juiz. Quando o juiz manda citar, ele tem elementos que o levam a ver indícios de culpabilidade da pessoa objeto da citação, ou, se testemunha, de sua importância para o esclarecimento dos fatos. Mas a grande imprensa presta um desserviço à presunção de inocência que é exigida pela Constituição: rasgou de vez o verbo mencionar e generalizou o citar. Se todos os que a imprensa mencionou como “citados” na Lava Jato fossem réus, não haveria tribunais para tantos processos.

Imagine que determinado empresário já citado como réu conversou rapidamente com uma atriz ao entrar em um restaurante e a menciona em depoimento. Foi ela “citada” no processo da Lava Jato? (Usando uma alegoria exagerada em minha argumentação.) Nunca. É que o nome dela foi simplesmente mencionado de passagem na operação. Crucifica-se sem julgar, independentemente de partido político, muitas vezes apenas por algum delator que, em seu interesse, quereria apenas “engordar peso e preço” de sua delação.

A imprensa escrita confunde, não explica, e, com os préstimos das emissoras de TV, faz o povo assimilar a crucifixão antecipada de quem sequer é réu e pode não ter culpa alguma em coisa nenhuma. Um pequeno dicionário jurídico deveria fazer parte da escrivaninha dos jornalistas da área ou dos que redigem os textos dos teleprompters (aquela telinha onde os textos exibidos na frente do apresentador de telejornal, passando para o telespectador uma impressão de grande e muito bem informado orador).

Faz alguns dias, argumentei em uma rede social sobre esse cruel equívoco. Foi com o Deonísio da Silva, já mencionado acima (evitarei o verbo citar por algum tempo), um dos mais conceituados linguistas do país. Deonísio, em “Sem papas na língua”, sua participação semanal no programa do Ricardo Boechat (rádio Bandnews) - aliás um prato saboroso para os que gostam do assunto – faz alusão a um aparte meu na discussão ao questionar o uso de citar ou mencionar (gravação do dia 12 de maio - https://fatosfotoseregistros.wordpress.com). E trata de outros assuntos deliciosos, como a ‘raivosidade’ dita recentemente pelo Michel Temer. O mais importante: o professor diz que nossa língua não se resume aos dicionários, ela também está na escrita e na fala dos brasileiros. E a agregação do sufixo na palavra “raivoso” é plenamente justificável!
Antonio Magri
Pois foi o mesmo argumento que meu pai usou em um artigo sobre o “imexível” dito pelo ex-ministro Antonio Magri, em 1990. Disse que uma palavra poderia, sim, entrar para o vocabulário pelo acréscimo do prefixo ‘i’, de negação (palavra, aliás, já dicionarizada pelo Houaiss). E isso enquanto o então ministro, um cidadão acima de qualquer erudição, apanhava da “patrulha”. A publicação foi na famosa Coluna do Castello, no Jornal do Brasil, e por mim detalhada neste espaço em “Nossa língua não é imexível”.


Outro citado judicialmente e preso é o ex-magnata e hoje nouveau pauvre Eike Batista (rico só fica pobre em francês). Seria o nome do empresário pronunciado “Áique”, como em alemão, ou “Êique”, aportuguesando? Tratando-se de nome, creio ser justa a versão em português, apesar de não ser a única. (Meu próprio sobrenome, Autran, de origem francesa, soaria algo como “Ôtrrã”, coisa que nunca ouvi na vida.) E há outro preso pela Lava Jato, a que Lula e a imprensa se referem como Paloci (Antonio Palocci), codinome “Italiano”, cuja pronúncia na língua de Dante seria “Palótchi”, ou quase isso. Sou da época dos grandes jornalistas e articulistas da história, tempo que “é só uma fotografia na parede. Mas como dói”, citando (literariamente!) Drummond. 

sábado, 20 de maio de 2017

MEU CARO AMIGO TAURINO


Há um bom punhado de anos recebi de presente de uma amiga – taurina, claro - o livro Taureau, de André Barbault (da coleção Le Zodiaque, Éditions de Seuil, 1957). Não se trata de um livro de curiosos, Barbault e seus colaboradores Louis Millat e Jacqueline Bastide tiveram a supervisão de François-Régis Bastide (1926-1996), escritor, político, ensaísta, apresentador de rádio e diplomata, prêmio 1981 da Academia Francesa. Trata-se de um estudo coordenado por uma celebridade e organizado por especialistas em áreas diversas, como filosofia, história, política e astronomia.

Nas páginas introdutórias há uma frase do psicanalista C. G. Jung (1875-1961), autor de “O homem e seus símbolos”: “Nós nascemos em um momento determinado, em um lugar também determinado, e nós temos, como os homens célebres, o ano e a estação que nos viram nascer. A astrologia não pretende ir além deles” (em L’Homme à La Découverte de son âme, título que poderia ser traduzido como “O homem à descoberta da sua alma”). Nessas páginas iniciais, o autor do livro aborda os decanatos, zodíaco, cartas celestes, signos ascendentes, tudo longamente detalhado e com incrível precisão.

Dionísio, deus mitológico
A seguir, fala da fertilidade e da fecundação, as ligações mitológicas com o deus Dionísio, e no capítulo seguinte resume o que é o taurino: “ele é, em parte, um signo da Terra: o mais denso elemento, o mais sólido, o mais estável; por outro lado, é um signo fixo, fator de catalisação, de condensação”. O texto disseca o taurino e suas entranhas psicológicas e entra na análise da posição do taurino no zodíaco. Sobre os ascendentes, descreve os elos entre eles e o signo touro, em si, e eu, convertendo os horários e minutos dos fusos franceses para o nosso, descobri meu ascendente.

Eu seria um touro virginiano de “natureza simples, sólida, prática, honesta, modesta, ordenadora, pacífica, com sentimento utilitário, de bom senso, lógico, econômico” (atenção: citação literal do livro, e não palavras minhas, claro). Mais adiante, fala da relação do taurino com outros signos, e ressalto a do touro com o escorpião, caso das mulheres de meus dois casamentos: “eis o choque dos antagonistas, o casamento tormentoso dos complementares. Esses dois se atiram irresistivelmente e pessoas desses signos jamais são indiferentes umas às outras”. Acrescento ainda que noto certa cumplicidade entre taurinos.

Johannes Brahms
O texto segue discorrendo sobre atitudes no trabalho, finanças, política e filosofia. E passa a falar sobre taurinos célebres, citando sempre seus ascendentes: o poeta d’Annunzio, o escritor Balzac, o pintor Delacroix, o criador da psicanálise, Freud, o pai da arquitetura moderna Walter Gropius, o teórico Karl Marx, um dos maiores sinfonistas da história, Johannes Brahms, além de tantos outros, dando uma visão geral da personalidade dos que compartilham este signo (acrescento Shakespeare e Ella Fitzgerald, só para citar mais dois). A coleção inteira pode ser adquirida pela Internet, mas é preciso um conhecimento razoável da língua francesa.

Alguns estereótipos e clichês em torno da figura do taurino são bem conhecidos, e se relacionam com o animal e seu jeito de ser. O touro é um animal reservado à procriação, enquanto os bois são castrados, sendo destinados ao abate e corte. Costuma ficar em espaço reservado, e parece o animal mais manso do mundo. É raro acontecer, mas quando atiçado ferozmente... Veja as criminosas touradas, se ele sai para o ataque, após ferido, de caçada na arena torna-se o caçador, ferindo ou matando, às vezes, o toureador, com sua veste bonita e capa vermelha (apenas para fazer “show”: touros não distinguem cores).

No dizer popular, o touro fica em seu canto e suporta tudo, mas volta e meia fica “ciscando” o chão com suas patas. Provocado além de seu limite, o que dificilmente acontece, dispara contra o que o intimidou; e que se danem vaqueiros, bois, vacas, porteiras, cercas de arame farpado, o que estiver na frente. Essa alegoria parece surreal, mas não deixa de ter certa procedência: o taurino pode ser o mais paciente, mas nunca o faça passar de seu limite, pode ser a gota d’água.

Martha Herr, no papel de Olga, da ópera homônima de Jorge Antunes
A saudosa soprano Martha Herr, taurina, costumava fazer em um domingo de maio, anualmente, um almoço para amigos taurinos, que congregava gente como os também falecidos violinista Bruce Mack e o professor de canto da Unesp Fernando Carvalhaes; além deles, a pianista Anna Claudia Agazzi, o compositor Ronaldo Miranda, o violoncelista David Chew e a cantora Sheila Minatti, entre outros, em anos diversos. Não sei se por termos um elo comum, o signo, aliado ao fato de sermos todos músicos, o clima de festa e de entrosamento era muito especial. Reinava sempre a alegria, era uma ‘tourada’ sem o maldito El toreador, nada haveria que perturbasse aquele rebanho de pacientes taurinos.


Miguel de Cervantes
Confesso que não sou muito afeito a coisas astrológicas, apesar de saber que algo existe entre nosso comportamento e os astros: a lua rege o ciclo menstrual das mulheres e as marés, o sol marca o dia e o ano, por isso o calendário gregoriano teve de dar uma “acomodada” com o ano bissexto, dando a fevereiro mais um dia a cada quatro anos. Não sou muito afeito a essas coisas – o que pode ser mais uma característica taurina -, mas que há algo de verdadeiro, parece-me que sim. Sou do tipo que repete aquela máxima atribuída ao grande escritor espanhol Miguel de Cervantes, yo no creo em brujas; pero que las hay, las hay: eu não creio em bruxas, mas que elas existem, existem. 

sábado, 13 de maio de 2017

DE ONDE VENS, Ó PALAVRA?


Um sujeito estrambótico que era estrelícia do Ivan fez um garabulho enorme com suas galimatias a apenas um estepe da rica Mascate. Ora, tudo isso pareceria muito complicado, a não ser que fosse escrito assim: um sujeito vesgo que era atirador do Czar fez uma bagunça enorme com suas conversas confusas a apenas um passo da rica capital de Omã. Seguindo: tudo por causa do meirinho de que era dono um pária que mascava porrada como se fosse um preito do pretor. Que, por sua vez, pode ser lido assim: tudo por causa de um sujeito da classe mais baixa da Índia que era dono do gado que no verão pasta nas montanhas e mascava erva para temperos como se fosse uma homenagem do comandante do exército.

Deonísio da Silva
Deixem-me explicar melhor essa estória surreal acima. É que estou me divertindo com o livro “de onde vêm as palavras – origens e curiosidades da língua portuguesa”, do amigo Deonísio da Silva (17ª edição, Rio de Janeiro. Lexicon: 2014). Catarinense que adotou o Rio, doutor em Letras pela USP, tem várias academias no currículo, 34 livros publicados, um programa apresentado pelo Ricardo Boechat em que ele fala da língua portuguesa na Rádio Bandnews FM 94,90 RJ, “Sem papas na língua”. Considerado um dos nomes mais respeitados em etimologia (origem e evolução das palavras) e filologia (estudo das sociedades e suas literaturas) do país, é um pesquisador incansável. (O blog do Deonísio pode ser lido em https://deonisio.blogspot.com.br/). Na brincadeira acima, inspirei-me em uma postagem dele.

Hemingway e um de seus merlins: um hobby, uma paixão
São quase quinhentas páginas de verbetes os mais diversos, incluindo um enorme número de palavras que falamos ou escrevemos no cotidiano sem pensar de onde vêm e os mistérios que há por trás delas. Quem gosta de entender nossa língua, lê ou escreve, vai achar o livro de grande utilidade. Pinço ao acaso uma palavra que todos conhecem e já devem ter usado: “anzol”, que teve origem no latim vulgar “amiciolus” diminutivo de “hamus”, gancho, podendo também designar a proteção do cabo da espada. “Anzol” se presta à descrição da luta individual travada entre o homem e o peixe, ao contrário da rede, que leva o homem a pescar no atacado (obs.: sobre a luta homem contra o peixe, é leitura obrigatória “O velho e o mar”, de Hemingway). “Como os primeiros discípulos fossem homens que viviam no mar, Jesus prometeu transformá-los em ‘pescadores de homens’”.

Este é um único exemplo “pescado” aleatoriamente (do grego “alea”, dado de jogo da sorte) entre incontáveis outros. Deonísio é um preciosista, desce aos mínimos detalhes e encontra variações na aplicação das palavras, não se limitando, no mais das vezes, a apenas um significado ou um uso em nossa rica língua portuguesa. As palavras podem formar um quadro que pode ser lindo de se ver, mas por trás dele há um universo de histórias e visões riquíssimas a serem descobertas. É preciso ousar conhecê-las, e fazer do aprendizado do dia a dia uma coisa prazerosa e desafiadora, porque nunca terá fim. E o livro do Deonísio pode ser lido saltando páginas, de trás para frente, várias por dia, ou – mais uma vez – aleatoriamente, fora consultas.

Se conhecer a etimologia das palavras é uma instrução e uma diversão, não quer dizer que devamos escrever sempre com as mais rebuscadas erudições. De vez em quando coloco em um texto meu uma palavra para ver o leitor se dar ao trabalho de ir ao dicionário, ao menos isso. (Meu pai contava que uma senhora disse que o livro dele era muito difícil – o que não era – e que ela teve de ler duas vezes. Ele: “mas eu escrevi mais de vinte!”) Adoro a simplicidade com que certos grandes autores usam as palavras, tecendo um jogo lindo e de grande sabedoria, como Drummond e Fernando Pessoa, d’além mar. Do primeiro, os versos de Para Sempre: “Fosse eu rei do mundo, / baixava uma lei:/ Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, / velho embora, será pequenino / feito grão de milho”. Do Pessoa, acho geniais os versos de Liberdade: “Mais que isto / É Jesus Cristo, / Que não sabia nada de finanças / Nem consta que tivesse biblioteca”.

Estátua do Drummond, no Rio
Entre os nossos poetas, há lugar para o bardo Vinicius de Moraes – “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”, do Soneto da Separação. Vinicius é outro mestre da simplicidade (nas palavras), mas os versos são mais bordados em João Cabral, de Morte e Vida Severina: “E se somos Severinos / iguais em tudo na vida, / morremos de morte igual, mesma morte severina:  / (...) (de fraqueza e de doença / é que a morte severina / ataca em qualquer idade / até em gente não nascida”). Tem de ler e reler, compreender sem procurar um sentido de redação de escola. Melhor é sentir.


Região da enfiteuse, no Rio de Janeiro
O livro de Deonísio nos dá a dimensão mais profunda das palavras, desde as mais simples, como ‘outono’, até ‘laudêmio’, que tem origem no italiano e carrega em si a ‘enfiteuse’, que até hoje é cobrada no Rio pela orla do mar, e em Petrópolis, paga à Família Real! Fiquei tão indignado com essa cobrança feita na venda de um imóvel do espólio de meus pais que escrevi o artigo “Você sabe o que é enfiteuse, mas não sabe o que é extorsão?” (tem um link do lado direito, em cima), sobre o absurdo número de impostos pagos na venda de imóveis nas duas cidades (dizem que em Salvador é ainda pior). Na verdade, fiz uma brincadeira com o Mário de Andrade, em “Você sabe o francês ‘singe’ / Mas não sabe o que é guariba? / - Pois é macaco, seu mano / que só sabe o que é da estranja”. Obrigado, Deonísio, e salve a Língua Portuguesa!

sábado, 6 de maio de 2017

SALIERI MATOU MOZART?


Milos Forman
“Amadeus” (1984) era o título de uma peça teatral concebida por Peter Schaffer, que basicamente se pretendia uma imaginativa e saborosa versão da biografia de Wolfgang Amadeus Mozart. A peça foi transportada para o cinema pelo cineasta Milos Forman, nascido na Tchecoslováquia – coincidência ou não, país (então uno) em cuja capital, Praga, grande cento de música que era, Mozart estreou algumas de suas obras, como a sua deslumbrante ópera Don Giovanni.

Nicholson (centro), no filme
Antes do absoluto sucesso do filme Amadeus (mais de uma dúzia de prêmios, incluindo um Oscar, em 1985), estouraram bilheterias outras grandes obras de Milos Forman, como o louco “Um estranho no ninho” (One flew over the cuckoo’s nest), de 1975, que arrastou nada menos do que cinco grandes prêmios no Oscar), com uma impagável interpretação de Jack Nickolson. Filmou também Hair (1979), com uma magnífica coreografia de Twyla Tharp, do afamado American Ballet Theatre.
Salieri
Amadeus tinha na trama, como pano de fundo, uma certa inveja mortal de Antonio Salieri (1750-1825) por Mozart, de quem fora professor, pelo talento descomunal de seu aluno, razão pela qual, em evidente ilação romantizada cinematograficamente com fins de impacto, o mestre teria envenenado seu genial discípulo, então com 35 anos. Mas ambos eram apenas - além de mestre e discípulo - dois bons amigos. Após a morte de Mozart, o antigo professor Salieri continuou a dar aulas para o filho do vienense. E ainda foi mestre de ninguém menos do que Beethoven, e Schubert e até Franz Liszt!
Verona
Nascido em Verona, Itália, Salieri foi um dos mais proeminentes compositores europeus, além de disputado professor. Na Áustria, criou fama na Monarquia de Habsburg, tornando-se Kappelmeister (Mestre de Capela), onde foi responsável pela ópera de 1774 a 1792. Muitos compositores adeptos do gênero tinham, claro, intensa rivalidade com Salieri, a quem culpavam pela falta de acesso aos grandes teatros, que seriam “domínios” do italiano. Mozart chegou a escrever ao seu pai, Leopold, queixando-se da dificuldade de transpor as barreiras e o poderio de Salieri, razão pela qual os detratores deste último tentaram forjar a versão do envenenamento, nunca levada muito a sério, mas bem explorada na peça de Peter Schaffer. Com essa aversão a Salieri, no século 19 a música dele foi praticamente esquecida, tendo “ressuscitado” no século 20 até mesmo em parte por causa da peça e do filme Amadeus, e a polêmica do envenenamento romanticamente suscitada para atrair público.

Ilustração: montagem de "Les Danaïdes", de Salieri
Antonio Salieri foi um compositor profícuo e incansável: deixou além suas principais 42 óperas dois Réquiens, centenas de missas, coros, arias, ofertórios, graduais, hinos, introitos, motetos, 6 concertos para solistas, 9 sinfonias e variações, 5 balés, música incidental para cena, 12 marchas e serenatas, 7 peças para música de câmara e afins, uma vasta produção. Além de suas tarefas profissionais de Kappelmeister, como organização, coordenação geral e seus naturais afazeres familiares, Salieri ainda encontrava tempo para escrever incessantemente.

Sinfônica do Conservatório de Tatuí
O que me incentivou a escrever este texto foi a recente apresentação, pela Orquestra Sinfônica do Conservatório de Tatuí, sob a batuta de João Maurício Galindo, da obra “26 Variações sobre A Loucura de Espanha”, que também impressionou meu colega Antonio Ribeiro. A forma “tema e variações” é consagrada como uma maneira de o compositor explorar sua própria habilidade em desenvolver uma ideia, havendo grandes exemplos na literatura musical, como as “Variações sobre um tema de Haydn”, de Brahms, “Variações sobre o tema de Moisés no Egito”, de Rossini, por Nicolò Paganini, Enigma Variations, de Elgar, “Variações Goldberg”, de Bach, “Variações Rococó”, de Tchaikovsky, entre inúmeras outras.

Philip Glass
O tema que serve de motivo para variações pode ser absolutamente simples, como o utilizado por Salieri na obra citada, mas configura-se espaço e material aberto para sua imaginação brilhante. Aparentemente simples exercícios de composição transformam-se em modelos extemporâneos, que levam a traços de modernidade. Isso, desde os diálogos entre as cordas, os da harpa com os “tutti” (orquestra inteira), até repetições que lembram, por impossível que possa parecer, o minimalismo contemporâneo de Philip Glass e Steve Reich, no século 20. Chama a atenção um belo solo de violino, com espírito virtuosístico, e um intermitente jogo de ‘perguntas e repostas’ nos diálogos entre instrumentos ou entre solistas e orquestra, instrumento por vez ou alternadamente em um mesmo movimento.

Salieri foi diagnosticado com demência (ou alguma outra versão de insanidade, talvez desconhecida à época) e não muito tempo depois faleceu. Foi sepultado em maio de 1825, e seu próprio “Réquiem em Dó menor”, ainda inédito então, foi apresentado na cerimônia. O poema desta obra foi escrito por um de seus alunos, Joseph Weigl, em homenagem ao mestre, e gravado na lápide do compositor: “Descanse em paz / descoberto do pó, a eternidade deve florir para você. / Descanse em paz! / Em harmonias eternas / seu espírito agora está liberto/ ele se expressa em notas encantadoras / e agora flutua na beleza do sempre!”
Já ouvi músicas de Salieri em rádios americanas especializadas, como a WQXR (http://www.wqxr.org/), ou 105.9 FM/NY, que às vezes sintonizo enquanto trabalho, mas não vejo o mínimo da devida importância que deveria ser dada ao compositor no Brasil. Por que não, por exemplo, encenar a bela ópera Axur, Re d'Ormus (abaixo)? Salieri ficará para a história como simples coadjuvante?