LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****

sábado, 10 de novembro de 2018

UM ÓDIO, DOIS ÂNGULOS


A respeitabilíssima revista americana Scientific American publicou há semanas a conclusão de uma abrangente pesquisa sobre as eleições do dia 6 de novembro para o Congresso americano. Nela, a metralhadora giratória da raiva também esteve presente: o estúpido massacre de judeus na Sinagoga de Pittsburgh, onze mortos e seis feridos. Houve, pontua a revista, influência indireta dos recorrentes estímulos ao ódio e às armas, o clima beligerante.
Como entender esse ódio? A sinagoga seria um detestável massacre a mais. Por outro ângulo, o Irã, em 1980, por ordem direta do então presidente Jimmy Carter, foi palco de uma tentativa mal-ajambrada de resgatar 52 reféns na embaixada americana, a chamada Operação Garra da Águia, cujo eventual sucesso serviria a Carter de bandeira em eleições semelhantes às do dia 6/11. O helicóptero da USAF espatifou-se contra um avião com técnicos e combustível, deixando oito mortos. Iranianos creditaram o malogro da operação aos ‘Anjos de Alá’. Hoje, a pressão sobre o Irã segue cada vez mais forte, há ameaças alucinadas de ataques de 5 mil soldados contra 5 mil civis, um para cada homem.
[Pano de fundo: Vale lembrar o colega Osvaldo Coggiola, historiador da USP com quem tive o prazer de dividir um lançamento de livros, que faz sua ‘radiografia do conflito nas Bálcãs’, em Imperialismo e Guerra na Iugoslávia (SP: Xamã, 1999). Ele deixa claro que todos os grandes eventos bélicos, do início do século 20 aos dias recentes, têm como objetivo encoberto o ouro negro, petróleo].
Corria o ano de 1980. Eu vivia em Boston e morava perto da Northeastern University, que atraía estudantes do Oriente Médio, e senti de perto os efeitos colaterais da grande trapalhada de Jimmy Carter. Meus vizinhos iranianos eram falantes e corteses, um deles até consertou uma peça no meu carro. À noite, ouvia os libaneses vizinhos entoando seus cânticos religiosos plenos de melismas, comuns tanto entre muçulmanos quanto judeus. Eu relaxava, embalado por aqueles vocalises em sinuosas orações.
Ruholah Khomeini
Aquela paz foi quebrada pela estúpida Garra da Águia. O ódio contra o país do louco radical Aiatolá Khomeini espalhou-se como fogo no mato. À noite, como se os estudantes iranianos fossem os culpados pelo erro de Carter, uma horda passou aos urros pelas ruas, fazendo os vizinhos do Oriente Médio apagarem as luzes. Fuck you, iranians!, era o grito de ordem que visava a apavorar genericamente os estudantes do Oriente Médio, já que os americanos não sabiam distinguir quem era de um país de quem era de outro.
Retomemos, e que sobre o atual presidente americano não caiba a sombra de qualquer ônus direto sobre o recente ataque à sinagoga, maior assassinato coletivo de judeus da história dos EUA. Ladino, ele aproveitou o tema ao avesso: enrubescido, as jugulares e o topete saltando, esbraveja e ameaça, com o ódio que lhe é característico, contra quem quer que deseje inimigo. E o Irã, de novo, está na alça de mira presidencial. O mandatário dos EUA capitalizou um justo sentimento pátrio e do povo judeu de forma canhestra, olho na campanha: ódio ao Irã. Seria crucial para ele a vitória no legislativo no dia 6 de novembro, pavimentando a disputa para a reeleição. Sem maioria no Congresso, diz a tradição, é bem mais difícil um novo mandato. Eram 35% das vagas dos 100 senadores e 100% das cadeiras dos 435 deputados. Essa contabilidade pode parecer truncada, mas é natural para os americanos, e tem como objetivo evitar mudanças abruptas na balança do poder e instabilidade para o país. Depois de anos nos EUA, eu pessoalmente confesso, como aquele comediante da TV: ‘entendi, mas não compreendi’.
[Sloan compôs um verdadeiro brado, uma bandeira contra o ódio disseminado, uma canção de protesto para a juventude na voz meio áspera e desafinada de Barry McGuire: “O mundo ocidental / está explodindo / a violência irrompe / e a munição é carregada / Você tem idade para matar / mas não para votar / você não acredita em guerra / ...mas o que é esta pistola que você carrega? / Ah, você não vai acreditar, estamos todos na véspera da destruição” (Trad. Livre do A.). Também falava do ódio na China vermelha e em Selma, Alabama, epicentro da luta pelo direito dos negros ao voto, conquistado e tornado emenda constitucional em 1965. A canção foi um alerta contra o ódio, arma sem lei.
No dia 6/11, da chamada eleição midterm, o presidente obteve esperada vitória de cadeiras no Senado, mas perdeu a maioria da Câmara, que detém enormes poderes. Enquanto alardeia vitória que não houve, dizendo-a acachapante, desde já pressente o futuro que lhe está reservado. O cenário vai mudar e o tresloucado deixará de ser um déspota já desde o primeiro ou segundo embate legislativo.
Niccolò Macchiavelli (1469-1527), em um de seus ensinamentos ao príncipe, mostrou-lhe que ‘novos soberanos, em novos domínios, devem armar seus súditos’. Isso, no sentido estrito. E há outro, figurado: o ódio como arma. Cidadãos americanos, acha o presidente, devem ser bem armados, como queria Macchiavelli. A disseminação do ódio cresce no ritmo do arsenal de fuzis, em mistura incompatível com a paz. O objetivo é vencer - sejam pessoas, uma guerra ou a reeleição.
Domínio, poder – seja em casa ou no Oriente Médio! Só o tempo dirá o que o resultado do dia 6 de novembro significará para a história americana e para o mundo. Mas o estímulo às armas, somado ao ódio estimulado a raças que não a branca, povos e minorias, já terá deixado mais tantas de suas dolorosas marcas.


sábado, 3 de novembro de 2018

SALVE O OXIGÊNIO !


Escafandristas, à maneira do filme 200 mil Léguas Submarinas, sobre um livro de Jules Verne, trabalhavam nas profundezas do mar. Era preciso comprimir o oxigênio antes de descer o mergulhador e dota-lo do suficiente para a missão. Na volta à superfície (ou ao submarino), a necessária e gradual descompressão para o nível adequado. Logo, sem saber, como em muitas descobertas e invenções, alguém se deu conta de que um fenômeno estava acontecendo.
Os escafandristas, à parte o mergulho abissal geralmente em águas turvas, sofriam enorme pressão nos ouvidos e no corpo, mas apresentavam algo mais em comum: não adoeciam, ao menos de muitos males que atacavam os que não trabalhavam nas profundezas do mar. Mas por que diabos acontecia isso? Durante muito tempo, tratou-se apenas de uma constatação sem maior importância, curiosidade sem norte que guiasse os pesquisadores para apresentar uma conclusão aceitável para a comunidade científica.
Dr. Leonard Corning
Paul Bert, um cientista francês, no final dos anos 1870 publicou La Préssion Barometrique, onde discorria sobre os efeitos da pressão aumentada e diminuída alternadamente no corpo humano. No final daquele século, Dr. Leonard Corning construiu a primeira câmara hiperbárica direcionada aos enfermos da mortal ‘influenza’ que grassava pela Europa na Primeira Guerra. Os anos se passavam e a técnica se aprimorava, sendo estendida com compreensível euforia à sífilis, diabetes, infecções diversas e artrite. A comunidade científica, apesar dos dados coletados, mostrava-se descrente – como sempre faz com as novidades que não consegue pegar e apalpar. Não havia provas químicas em Corning que carimbassem as razões de seu propalado sucesso.
Dr. Álvaro Ozorio de Almeida
Já no hiato dos anos entre as duas grandes guerras, um brasileiro – sim! –, Álvaro Ozorio de Almeida, registrou em seus estudos o efeito benéfico de altíssimas concentrações de oxigênio puro sobre o câncer em animais. Depois, em humanos. A Marinha norte-americana passou a usar o oxigênio puro comprimido para tratar doenças da descompressão (JAIN, K. K. Textbook of Hyperbaric Medicine. Cambridge: MA, 2009. Hogrefe and Huber ed.) Textos como o de Moon & Camparesi (1999), entre outros, já haviam começado a abrir luz sobre os experimentos e asas à imaginação. Em anos mais recentes, não faltou quem procurasse oxigênio puro como espécie de panaceia moderna, mesmo sem ter qualquer evidência significativa em seus casos: HIV, esclerose múltipla, Parkinson, Alzheimer, esclerose amiotrófica e outras afecções graves. O que interessava a essa gente era apenas, a que custo fosse, escapar do desespero, do sombra do carrasco sobre suas cabeças, e nada mais. O efeito do tratamento é comprovadíssimo, sim, para melhor cura da anemia, abscessos dos tecidos e cerebrais, envenenamentos, queimaduras, gangrenas e uma longa lista de outros problemas. 
Michael Jackson em sua câmara hiperbárica particular
Enquanto o Brasil dava tímidos passos rumo à medicina hiperbárica, os EUA passavam à produção em escala de toda sorte de equipamentos, desde os ambientes coletivos aos pequenos exóticos modelos pessoais, que mais parece abrigarem defuntos: esquifes de aparência lúgubre com tampa de vidro, como o usado em casa pelo cantor Michael Jackson para rejuvenescer, manter a pele e cabelos suaves e  estender seus dias (chegou a declarar, espalhafatosamente, que viveria 300 anos). As câmaras particulares existem no Brasil nos lares dos mais ricos, excêntricos e até no de ao menos um de nossos jogadores de futebol.
Compressão no voo
Em setembro de 2018 meu médico descobriu um abscesso interno na perna que deveria ser operado imediatamente. No mesmo dia, subimos à sala de cirurgia do hospital do convênio para o procedimento. Dias depois, após a retirada do dreno, ele achou por bem nos aliarmos a um coadjuvante inusitado para a rápida cura total: a câmara hiperbárica, e a mais próxima conveniada estava em Sorocaba, a 50 minutos de Tatuí. Pois logo iniciamos as 15 viagens de 50 minutos e as jornadas plenas de imaginação em um cilindro que mais parecia um submarino inerte, como que naufragado com suas escotilhas no fundo de algum mar do Pacífico. A compressão de oxigênio puro chega a 2 ATM, ou Atmosferas (nos EUA até 3), razão pela qual é preciso fazer os ouvidos driblarem a pressão do oxigênio com movimentos dos maxilares, tal fosse uma decolagem de avião, para evitar certo tipo de ‘entupimento’. Alcançada a compressão, um filmezinho para distrair os confinados durante a sessão de uma hora e meia, fora preliminares. (Detalhe: no Brasil, somente em 1995 o CFM aprovou a técnica).
Tubo de compressão coletivo
Cabe alertar os que sofrem de claustrofobia (leva-se mais de 10 min. para despressurizar a câmara e abrir a porta), hipertensão aguda, gravidez, diabetes descontrolada e outros. Esses devem conversar com seus médicos caso sofram de algum desses males. No meu "tubo" ‘viajavam’ duas adolescentes na faixa dos 15 anos, um rapaz acidentado, uma senhora bem idosa em cadeira de rodas e outros dois. Minha cirurgia e debelo da infecção tiveram resultados surpreendentes e rápidos, claro que tendo a câmara coadjuvante de duas belas intervenções feitas pelo médico do hospital.
Floresta Amazônica
O Brasil possui – ainda - 85% da floresta amazônica, o chamado ‘pulmão do mundo’.  Era esse elemento precioso, que responde por “O2”, que nos dava uma vida saudável no passado; com o desmatamento, ele é sufocado pelos inimigos CO2, Pb, S02 e outros invasores armados. A defesa do meio ambiente não é modismo, coisa de 'ripongos' nem pecha para fazer troça de ONGs. Trata-se do futuro do planeta.



segunda-feira, 1 de outubro de 2018

RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM

Em minha primeira infância não tinha havido ainda o golpe de 64. Veio com meus 11 anos. Na verdade, fora experiências do grêmio escolar, eu só vim a nascer aos 15 anos, como na música “aos 15 anos eu nasci em Gotham City”, do Jards Macalé. Naquele mesmo ano, morria assassinado no restaurante Calabouço o estudante Édson Luís, de 19. Disse à minha mãe que eu iria ao cortejo, e ela até resolveu ir junto. Passando na rua que leva ao cemitério São João Batista, a multidão impressionava. Veio do centro, com o refrão “mataram uma criança, poderia ser seu filho”.
Artistas como Odete Lara, Eva Wilma, Norma Bengell e Ruth Escobar nos 100 mil
No colégio, vi os padres paramentados indo à passeata dos 100 mil, juntando-se a atores, intelectuais, estudantes, religiosos, todos os que se sentiam amordaçados pela censura e pelas graves violações, como prisões sem sentido, torturas e desaparecimentos. Havia muito medo. Meu pai, por ter trabalhado como porta-voz de JK, mais ainda, porque os intelectuais do gabinete estavam sendo presos. E vieram prisões de amigos e conhecidos como Hélio Pellegrino, Ênio Silveira (preso oito vezes) a turma do Pasquim e muitos outros. No colégio, resolvemos fazer um festival de MPB, e até lá enfiaram a censura prévia. Não me cortaram a música, mas uma frase singela: “um grito vivo de verdade”. Por quê? Meu pai, receoso de chegar a sua vez, eliminou livros de casa e pediu que eu sumisse também com minhas leituras teóricas dos filósofos.
A 'Joaninha' e os policiais
Entrando na faculdade, juntei-me ao pessoal mais inteligente, do diretório, e logo vi serem presos Alexandre, que voltou com o peito queimado de cigarros, minha amiga Mônica Tolipan e Luísa. Por quê? Eu e meus irmãos, com meu tio, chegamos a ser parados e espremidos no muro com fuzis, como fôssemos bandidos. Mudei de faculdade, fui para a excelente FEFIERJ, embora sob a intervenção do gen. Jayme Ribeiro da Graça.
À frente do prédio, sempre um fusquinha com um giroflex, as temíveis ‘Joaninhas’, paranoia do povo, com suas revistas nos cabelos e nos livros. Foi recolhida até a Nova História da Música do Carpeaux, de capa vermelha. E valia a instrução policial: dois, ok, prestar atenção, três, podia ser plano, abordar! Nessa altura, meu pai teve a visita de um agente do SNI, que viera em seu encalço. Lá embaixo, deram uma volta e ele ouviu que, quando no Palácio, arrumara um emprego no IAPETEC para a filha do agente. O sujeito disse que iria contornar e que subisse, pois minha mãe devia estar nervosíssima.
Meu pai convidou-me para um chopp a dois. Desvendou quem era meu ídolo de então, Che Guevara, a quem ele havia aturado durante horas fazendo sala para JK. Mais informações, a de que os chefões da guerrilha estavam loucos para cooptar jovens quadros para servirem de bucha de canhão, a exemplo do Gabeira, mais velho do que eu. Aí encerrei minha “carreira”. Foi uma ducha de água fria. Naquela conversa, olhos nos olhos, decidi me afastar da leitura política e me dedicar à minha arte, a música. Estudava muito, tive a sorte de ter grandes professores, como Ladislav Bálek, solista da Sinfônica de Praga. Consegui uma aprovação nos Estados Unidos, e lá fui eu em 1977 para Boston, onde estudei com o grande Edwin Barker e com o compositor McKinley. Casado, já estava me acomodando nos EUA. Fui convidado para ajudar a reorganizar uma antiga grande orquestra no Brasil. “Um belíssimo salário”, disse minha mãe. Recebi, como sempre, uma revista enrolada depois de lida, para eu ficar a par do que se passava no país. Na capa, à frente de uma multidão, como o pôster do filme “Sacco e Vanzetti”, Lula comandava os manifestantes. Eu, ainda com as costas lenhadas pela vida no Brasil, disse para mim mesmo: ‘esses caras estão loucos, morrerão todos!’. Mas eram os novos tempos surgindo.
Em 1982, vim de mala e cuia para o novo emprego. Chegando, nove baús no Cais do Porto, soube que o projeto inteiro ruíra. Como eu estava preparado, não me preocupei muito. Inicialmente, fui para Campinas, onde fiquei 2 anos. Depois, Osesp. Vi o começo do fim da ditadura, com a eleição de Tancredo e a inevitável posse de Sarney. Farsa, mas logo chegaríamos ao voto direto. Essa epopeia durou mais de 20 anos, e não meses como disse Castelo Branco, disfarçando ou não. Sucederam-se, desde 1964, os Atos Institucionais. Oito dias depois do golpe,  o AI-1 simplesmente delegou ao ‘comando’ o poder de alterar a Constituição, entre outros. Foram cortando os poderes, até que aquele fatídico AI-5 acabou com o país.  Não havia mais nada.
Figueiredo e seu bom amigo Abi-Ackel, contrabandista de joias
Os militares – e não as fardas, que prezo muito – enriqueceram, a exemplo do próprio Castelo, cel. Andreazza, autor da ponte Rio-Niterói e da Transamazônica, superfaturando aos montes todas as compras (não havia a lei de licitação de hoje, 8.666 - aliás, como disse o Getúlio, 'a lei, ora, a lei'). Abi-Ackel, homem forte de Figueiredo, tinha um comércio de esmeraldas em Miami. Um preposto, que levava mais uma remessa de joias parta o escritório de Ackel em Miami, foi preso na alfândega americana com o equivalente a 20 milhões de dólares em gemas na época. 

O eng° José Jobim, que trabalhou na Itaipu, revelou que contaria tudo sobre os US 30 bi, superfaturadíssimos, da obra. Eram tempos de Figueiredo, e hoje se sabe que na verdade, como vários outros, Jobim foi 'suicidado' pendurado em  uma árvore, fato recentemente confirmado. À dona de uma farmácia disse que estava sendo sequestrado, em um bilhete no balcão.
Eliezer Batista, “dono” das mineradoras, embora malvisto desde o Jango, teve Castelo que lhe afagou com a Cemig. Eliezer deixou para seu filho Eike uma das maiores fortunas do mundo. Ao gen. Golbery coube a fenomenal Dow Chemical. A corrupção grassava por todos os cantos, mas com Imprensa, Judiciário e Legislativo manietados - quando existiam -, era benevolente com os piores alcaguetes transformados em agentes, achacando, extorquindo, como aconteceu comigo em um acidente de automóvel que teve o azar de ser protagonizado pela filha de 19 anos de um “extra” do SNI. Meu pai, sob ameaça de extorsão, buscou nos cartórios do Fórum, onde trabalhava, o nome do agente. 20 ações de roubo dormindo em uma gaveta. Esse foi o contragolpe. A questão se encerraria em juízo.

[Usei para título o livro do James Joyce, como faço frequentemente até para abrir a mente dos leitores]

sábado, 22 de setembro de 2018

WAGNER E O ANTISSEMITISMO . VERDI E O ELOGIO AO POVO HEBREU: ‘NABUCCO’

Nós já falamos aqui de Richard Wagner (1813-1883). Polêmico, fazia propaganda aberta do antissemitismo, do racismo, do vegetarianismo, do budismo e outros tantos ‘ismos’ ocidentais e orientais. Foi endeusado por muitos e execrado por outros. Ligou-se a alguns revolucionários, como o anarquista Bakunin, mas acima de sua posição ideológica complicada, ninguém pode negar que   

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                Tristão e Isolda foi um verdadeiro estopim para quase tudo o que aconteceu na música do século 20. Wagner chacoalhou e subverteu o conceito de tonalidade, que já fraquejava, fora do tempo, verdadeira revolução que tomara conta da filosofia, da política, dos costumes e de todas as manifestações artísticas.
Zubin Mehta
A comunidade judaica já amargava, há um bom tempo, o abraço do compositor às ideias antissemitas, a um ponto em que Hitler, nascido seis anos após a morte de Wagner, logo viria a escancarar sua admiração pelo compositor e outros antissemitas. Mas nem todos compactuam com esses pontos de vista beligerantes. Há uns bons anos, o maestro indiano Zubin Mehta, convidado a reger a Filarmônica de Israel, resolveu preparar com sua orquestra algumas obras wagnerianas, causando uma controvérsia que agitou o mundo judaico. A polêmica tomou páginas de todos os jornais do mundo. Após a Segunda Guerra, Yehudi Menuhin apresentou-se várias vezes pela Cruz Vermelha em Jerusalém. Repertório: compositores germânicos. Depois de Zubin Mehta, em 1989, e logo após a queda do Muro de Berlim, Menuhin apresentou-se com a Staatskapelle do antigo lado oriental.


Retornando a Wagner, ainda em vida o compositor já havia reacendido a polêmica, não se sabe se por capricho ou penitência, convidando o regente judeu Hermann Levi para conduzir a estreia de sua ópera Parsifal. Bastante menos flexível do que seu compositor predileto, mais adiante Hitler ordenou ao temido Goebbles que evitasse que Erich Kleiber, diretor da Ópera de Viena – ‘aquele judeu’, como dizia – regesse Wagner. Entusiasta da ‘obra de arte total’, em 1933 Hitler contratou o jovem arquiteto Albert Speer para que concebesse a cenografia impecável de flâmulas, refletores, e bandeiras que haveriam de se tornar símbolos do grande poderio nazista. Speer foi um dos pioneiros do marketing cenográfico político, cedendo aos caprichos do ditador, que vislumbrava aquela coisa suntuosa, monumental, digna do Império Romano e palco de sua ópera wagneriana pessoal.
Hans Von Büllow
Wagner foi um gênio especialmente complicado. Embebido no ódio antissemita, foi um crítico impiedoso de Mendelssohn. Wagner separou-se para se unir à jovem Cosima Liszt, que era casada com o grande regente Hans Von Büllow, que ironicamente havia regido algumas de suas óperas. A arte segue a vida: em O Navio Fantasma, Senta busca fugir com o holandês; em Tannhäuser, Isabel passa por drama semelhante; com Marcos, Isolda e Tristão , acontecem loucuras parecidas. Essas loucuras estão por todo lado, a perder de vista. Os céus devem ter estremecido diante da traição e promiscuidade entre deuses, heróis, amantes e mitos.

Preconceitos persistem no presente: nos anos 1980, Vanessa Redgrave foi impedida pelo board of trustees do Symphony Hall de Boston – algo como os antigos ‘Patronos’ do Teatro Municipal de São Paulo – de ser narradora em um evento com a orquestra. Motivo: a atriz havia concedido entrevista declarando-se simpática à causa palestina.

Giuseppe Verdi
Deixando de lado os conflitos de ordem racial ou religiosa dos tempos recentes, voltemos a 1813, do nascimento de Wagner. Naquele mesmo ano, veio ao mundo o italiano Giuseppe Verdi, nascido em uma família de comerciantes. Cedo, aprendeu a manobrar o órgão, e, não muito tempo depois, já substituía o velho organista da Igreja de Roncole. No início, compunha, mas não teve orientação de um professor. Mandado a Milão, ironias da vida, não conseguiu entrar no famoso conservatório. Estudioso e com muito talento, logo Verdi passou a colecionar elogios do meio musical. Um empresário do La Scala, vendo nele um investimento, encomendou-lhe uma ópera. Verdi debruçou-se sobre a partitura de Um Dia de Reinado: sonhava largar a provinciana Parma com a mulher, Margherita, e duas crianças. A estreia redundou em um tremendo desastre.
La Scala, de Milano
Merelli, empresário do La Scala, convenceu seu protegido a escrever mais um título, nascendo assim Nabucco, que compensou com estrondoso sucesso o fracasso anterior. O coro dos hebreus escravizados va pensiero, sull’alle dorate (vá, pensamento, sobre asas douradas) é quase um hino da Itália, e significou também sua libertação. Na época, a Áustria dominava o país e a disputa, além daquela musical, era a ferro e fogo.


Os italianos se identificaram com o povo Hebreu de que falava Nabucco, e Verdi se aproveitou daquele momento político para impor-se como trunfo e glória italianos. O nome do compositor chegou a virar uma espécie de acróstico, ‘Viva V.E.R.D.I’ (Vittorio Emmanuel, Re D’Italia). Famoso, lançou-se na política, conseguiu eleger-se deputado e logo depois senador! A música seduz e envolve, mas o poder inebria e, como disse Henry Kissinger muitos anos depois, é afrodisíaco. (Abaixo, o emocionante coro va pensiero, em um inusitado protesto contra os desmandos de Berlusconi, por Ricardo Muti e o coro da Ópera de Roma)





sábado, 15 de setembro de 2018

A LISTA DE LISZT


Da vida do húngaro Franz Liszt (1811-1886), farta em sortilégios de todos os tipos, da infância até cruzar rumos com Wagner, poderia ser elaborada uma enorme lista de fatos e causos. Aos que se surpreendem com o marketing musical da vida do compositor, como as moçoilas da plateia afagadas com uns trocos para se emocionarem nos recitais, é fato que nada mudou nos dias mais recentes. Eu mesmo testemunhei, no início da década de 1970, participando em uma gravação do programa Som Livre Exportação, da Globo, o diretor Walter Lacet acomodar meninas junto ao piano do ainda pouco conhecido Ivan Lins. Para fazer jus às gorjetas, elas tinham de fazer caras e bocas, quiçá chorar. Os Rolling Stones dão um ‘por fora’ para atitudes extravagantes de nudes e topless que invadem o palco, e até grupos contratados que provocam brigas, como a que culminou com a tragédia de Altamond, em 1969, pelos Hell’s Angels: uma morte cruel.
O Czar Nicolau
A vida de Liszt era cheia de coisas absurdas e exóticas, naturais ao gênio do pianista e regente. Uma vez, pau para toda obra que era, ele se apresentava para o Czar Nicolau, dado a festanças mas não versado nas sutilezas da boa música. Nicolau conversava animadamente com seus convivas até que Liszt, cada vez mais irritado, parou e simplesmente fechou o teclado do piano. O Czar demorou um pouco para perceber que a música havia sumido e, virando-se para Liszt, perguntou-lhe por que parara. Ouviu como resposta que quando um Imperador fala todos ficam em silêncio.
Condessa Marie D'Agoult
Em outra ocasião, Liszt tocava ao piano a Ave-Maria de Schubert para a princesa, que se pôs a tossir já logo no segundo compasso. O compositor aguentou com discrição até lá pelas tantas, quando resolveu interromper o recital. Prova da pouca educação da nobreza da época, a princesa desandou a gargalhar, achando tudo engraçado. Liszt, por sua vez, abriu um vinho e desandou a beber. Do lado namorador, ressaltam-se duas grandes paixões: a aluna Caroline e um longo affair com a condessa Marie D’Agoult. Fugiu com a primeira, correndo do marido dela, e fez o mesmo, dez anos depois, com D’Agoult. Mesmo à distância de Caroline, Liszt cedeu às fortes convicções religiosas da moça, até resolver-se pelo sacerdócio – tarde demais, dada a vida pregressa do músico, na mais pura gandaia.
Liszt e a filha, já Cosima Wagner
Em 1835 ele se tornou pai de Cosima, seu segundo rebento, nascida na Itália. Como que prevendo os rumos que a música compartilharia com os de sua família, o destino fez com que Cosima se casasse com ninguém menos do que Richard Wagner (1813-1883), o grande nome da ópera. E essa ligação musical e familiar era tão forte que Liszt passou a conduzir as obras de seu genro com grande frequência. Em 1886, doente, padeceu por ter sido impedido, por falta de condições de saúde, de reger a estreia da histórica Tristão e Isolda. E foi a partir daí que Liszt, autor de obras virtuosísticas para o piano e também de grandes poemas sinfônicos como Fausto, Prometeu e Hamlet, viu seu genro chegar à criação de Tristão, a grande reviravolta na música ocidental, divisor das tendências entre os seguidores de Brahms e os da nova era, a dos wagnerianos.
Wagner (à esquerda) e Liszt, ao piano
Mas Liszt não pôde viver a grande revolução de Wagner, que abriria as portas para tudo o que viria a partir dele, no final do século 19 e já entrado o 20: morreu em 1886, entregue aos braços de sua filha Cosima, em Bayreuth, onde se realizam até hoje os grandes festivais de óperas do alemão. Wagner assumiu a liderança do cenário musical e, adepto da chamada Obra de Arte Total, compôs Os Mestres Cantores de Nürnberg, cuja apresentação completa leva quase cinco horas e meia. (Mas longe de ostentar o recorde, alcançado pela sinfonia ‘Victory at Sea’, do americano Richard Rodgers, com arranjos de Russel Bennett para a NBC de NY, cuja duração é de aproximadas treze longas horas).
O Judaísmo na Música
Ironias da vida, Wagner cedo havia sido desenganado à frente de seus pais pelos professores Numann, de piano, e Robert Sitt, violino, que informaram aos responsáveis que Wagner era inteligente, poderia fazer outras coisas e abraçar qualquer profissão, mas nunca a de músico (decepção não rara na infância e adolescência de inúmeros grandes talentos). Não podiam prever que o menino haveria de ser o grande marco da história da ópera e o revolucionário musical que transformou o século. Mais ainda, quase tudo o que sucederia sua obra traria vestígios de seu talento. Wagner ainda foi um literato e crítico de mão cheia, à parte obras de cunho antissemita e panfletário como Das Judentum in der Musik (O Judaísmo na Música) e suas perseguições a compositores como Felix Mendelssohn, judeu mais tarde convertido ao cristianismo.
Wagner e Liszt, em ilustração
Wagner, parada final da enorme lista do sogro Liszt em seus anos derradeiros, merece um artigo à parte, após os caminhos cruzados entre os dois na música e na vida, tendo Cosima, amada do alemão, como ponto de união desse abraço musical, marco indelével da história de nossa arte e civilização.

sábado, 1 de setembro de 2018

ANEDOTA E TRAGÉDIA NA MÚSICA

Contada por um maestro argentino: certo dia, cruzaram-se em um bosque um coelhinho e uma cobra. A serpente, cega, perguntou quem ele era. Brincalhão e também cego, desafiou: adivinha! A cobra, roçando nele, disse bom, você é peludo, orelhas grandes, dentões...você é um coelho! Viva, saudou o dentuço, e por sua vez falou deixe adivinhar, você é liso, não tem ouvidos, o sangue é frio. Você é um maestro! (É sempre mais divertido quando um regente conta).
Humor mais azedo, um músico bate à porta do teatro para ensaiar e pede ao zelador para abri-la. O empregado, semblante triste, disse não haveria ensaio, o senhor não sabe que o maestro faleceu? O músico baixa a cabeça e vai-se embora, mas logo volta. O zelador pergunta já não te disse que o maestro morreu? O músico se desculpou e foi embora. Dia seguinte, o mesmo. Atende à porta o encarregado, desta vez já enfurecido, e grita já é a terceira vez que você vem e já chega! O músico desculpou-se e murmurou é que você não sabe como me agrada ouvir isso! A acidez dessa anedota foi compensada pela gargalhada do próprio maestro piadista.
O veneno dos músicos não vê limites, procura logo atingir a capacidade auditiva do regente. Durante um ensaio, certo maestro não conseguia amainar a balbúrdia da orquestra. Na baderna, um percussionista arremeteu com força sua baqueta contra o enorme bumbo, causando um estrondo. Queimou o pavio do maestro, que gritou: ninguém saia daqui até que me apontem o músico e o instrumento que fez isso!
Berlioz, de quem já falamos, trouxe à sua vida trágica a anedota real. Morreu sofrendo, mas não poupou anedotas de despedida. Foi enterrado junto às suas duas esposas. E ainda conseguiu dizer que o mundo, finalmente, teria motivo para ouvir suas músicas. E tinha pressa: em seus funerais, cavalos e carruagem que transportavam o esquife dispararam em desabalada pelas vielas do cemitério. Compositor, Berlioz nunca dominou qualquer instrumento - o que não é condição sine qua non para compor ou reger -, apenas arranhava seu violão e gostava dos tímpanos, mas tocar a vera, nada.
Franz Liszt, por  Von Herkomer
O compositor, maestro e exímio pianista Franz Liszt (1811-1886) entrou para a história como um mago de seu instrumento. Aos nove, já se apresentara como prodígio na corte do príncipe Esterházy. Aos onze, enorme honra para um garoto superdotado, viu o gigante da música Beethoven subir ao palco para cumprimenta-lo após uma audição.
Liszt é falado também como o criador do recital, apresentação solo sobre um palco de concertos. Compôs proficuamente, editou, dirigiu, regeu e tornou-se um literato com igual habilidade. Era chamado ‘o Paganini do piano’, tamanhas as diabruras que fazia com os dedos nas teclas. Os seus Estudos Transcendentais esbarram nos limites da técnica, o que não lhe era problema. Brilhante improvisador, um dia tocava um concerto e na apresentação divagou tanto na cadência – trecho em que o solista, com a orquestra pausada, mostra sua destreza muitas vezes em improviso - que quando resolveu voltar ao tutti (toda orquestra), dando prosseguimento à apresentação, sinalizou ao regente uma, duas, três vezes, e o maestro não retomou a orquestra. Anedota real, fez uma pausa, e perguntou-lhe: qual é mesmo o concerto?
A interpretação e a técnica de Liszt eram assombrosas, e, como ‘parte de seu show’, chegava a dar uma gorjeta para moçoilas da plateia fazerem beicinhos e chorarem de emoção durante suas apresentações, serviço pelo qual, consta, pagava fielmente. Nada a dever às claques dos nossos programas de TV. Armava seu circo, que terminava sempre em espetáculo de glória e exaustivos aplausos.
Já que falamos do apelido de Liszt (‘o Paganini do piano’), o genovês Niccolò Paganini (1782-1840) foi o suprassumo do virtuosismo musical. Segundo estudos mais recentes, teria nascido com a síndrome de Marfan, má-formação que faz a carreira de muitos contorcionistas de picadeiro, descoberta e estudada apenas meio século depois. Consta ainda que aquele violinista de feições cadavéricas, dedos e nariz avantajados, ficou preso por anos, acusado de matar três de suas ex-amantes. Na cadeia, tocava seu violino durante boa parte do tempo. Uma corda arrebentou, mas prosseguiu com três e depois duas. Enfim, restou-lhe uma, apenas a quarta delas, a mais grave (talvez a razão de ter escrito suas Variações sobre um Tema de Moisés no Egito, de Rossini, sobre uma corda só). Personificava o músico que teria feito pacto com o demo.

Livre da prisão, Paganini apresentou suas vinte variações chamadas Le Streghe (As Bruxas). Um crítico, perturbado pelo que vira, descreveu-o como um sujeito alucinado com chifres, roupas vermelhas e um longo rabo (à semelhança do capeta!), tocando seu violino como um bruxo demoníaco. Por essas e outras, o músico, já no leito de morte, viu o arcebispo de Nice negar-lhe a extrema-unção. Após os funerais, Paganini continuou sendo alvo de curiosidade geral. Exumado algumas vezes, em uma delas seu corpo ficara exposto, protegido por um vidro, para que a sanha mórbida e a curiosidade popular fossem saciadas. Um empresário francês chegou a oferecer a bela soma, para a época, de 30 mil francos - coisa de R$ 500 mil atuais - pelo direito de exibir os restos mortais. Em 1845 Paganini foi desenterrado pela última vez. Mesmo defunto, desfrutava de grande fama, coisa que em vida cultivava de forma espetaculosa, qualidade que soube muito bem vender, assim como sua imagem e suas concorridas apresentações.