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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

ÍNDIO QUER APITO, ÍNDIO QUER DIREITO

 


Era o ano de 1961, da posse e da velada tentativa de autogolpe de Jânio Quadros, em agosto. Havia tensão, e o clima um tanto conturbado, para variar, frequentemente escorregava para a anedota (não havia redes sociais!). Como aquela que se referia ao presidente estrábico e de pés tortos, na piada um índio querendo apito - claro, o poder. Haroldo Lobo e Milton de Oliveira lançaram um tremendo sucesso, inspirado na anedota: “ê ê ê ê ê / índio quer apito / se não der pau vai comer” - assíduo nos carnavais de décadas, mesmo que após aqueles tempos não se soubesse de que político se falava. Mas que era certo político, todo mundo sabia. Já uma índia suavizava o clima: a versão para o português de uma guarânia dos paraguaios Assunción Flores e Manuel Guerrero feita por José Fortuna em 1952: “Índia / seus cabelos nos ombros caídos / negros como a noite que não tem luar / seus lábios de rosa / para mim sorrindo...” Tem ainda a divertida “A índia vai ter neném / mais um, mais um, mais um que vem / Depois que vem o ‘baby’ / chefe pinta o ‘baby’ de urucum” (Dircinha Batista, 1964).


Em 2011, escrevi para o jornal O Progresso o artigo Geografia do Brasil, passando por cidades, morros, baías, praias e rios de nomes indígenas: Guanabara, Arariboia, Carioca, Anhanguera, Piracicaba, Chuí, Tietê, Paranapiacaba,  enfim, um pequeno glossário. A cada lugar por que meu texto passava, a tradução para o português e menção a algum personagem histórico local. Em Pindamonhangaba (lugar onde os anzóis são feitos, em tupi-guarani), fiz menção, sem citar o nome, a “um menino predestinado, já três vezes governador”. Passado um tempo, recebi uma dedicatória em papel timbrado do Gabinete do Governador, que reproduzo sem falsa modéstia: “Henrique Autran Dourado, com o seu talento a Geografia do Brasil ficou melhor. Seu artigo enaltece lugares, fatos e personagens importantes da nossa história, ao lado dos quais muito me honrou a sua referência. Parabéns! Abraço do Geraldo Alckmin” (por ironia, hoje vice-presidente da República). Alguém lhe teria entrege um exemplar do jornal em uma passagem por Pindamonhangaba.


Boa parte do nosso vocabulário, as influências musicais, nossa culinária, turismo - parece tão fácil ir a Ipanema ou Ubatuba sem saber onde estamos -, são tantas as raízes que talvez seja preferível fingir que não vemos ou sabemos, ou que nos é realmente desconhecido. Do Jobim de “...braços abertos sobre a Guanabara”, da “Garota de Ipanema”, do “Urubu” ou do “quero me casar com Janaína” (do Edu Lobo, Yemanjá na cultura mesclada afro-indígena), lá estão nossos povos originários, os que nos antecederam; da nossa mandioca, tapioca, ambas do tupi, o aipim, o açaí, o abacaxi, moqueca, pipoca, jaboticaba, quindim... O que seria do canto do sabiá, do jogo no Maracanã? Pois são sete grupos de línguas tais como Arikém, Juruna, Mondé, Mundurukú, Ramaráma, Tuparí, e só no Tupi-Guarani são 21, mais três isoladas: Aweti, Puruborá e Sateré-Mawé (fonte: EBC).


Existe um povo especial, o Yanomami, cujas origens na região datam mais de um milênio. Teriam tomado posse das cabeceiras dos rios Parima e  Orinoco, e lá desenvolveram suas próprias línguas (até o final do séc. 19, os Yanomami não conheciam senão poucas tribos indígenas, e o homem branco lhes era desconhecido). A partir de 1970/80, em Roraima, eles tiveram contato com colonização, fazendas, obras, serrarias e garimpos, invasão que provocou “um choque epidemiológico de grande magnitude, causando altas perdas demográficas, uma degradação sanitária” (fonte: PIB/SA).

O líder Davi Kopenava Yanomami

A visão do líder Davi Kopenava Yanomami pode até ter alguma poesia, de tão rica, mas é apocalíptica: “
A terra-floresta só pode morrer se for destruída pelos brancos. Então, os riachos sumirão, a terra ficará friável, as árvores secarão e as pedras das montanhas racharão com o calor. Os espíritos xapiripë, que moram nas serras e ficam brincando na floresta, acabarão fugindo. Seus pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los para nos proteger. A terra-floresta se tornará seca e vazia. Os xamãs não poderão mais deter as fumaças-epidemias e os seres maléficos que nos adoecem. Assim, todos morrerão." Em 2011, os Yanomami eram, entre o Brasil e a Venezuela, 35 mil, e hoje se estima em 30 mil. No Brasil, seus 95.650 km² de floresta tropical são reconhecidos “por sua alta relevância em termos de proteção da biodiversidade amazônica e foram homologados por um decreto presidencial de 25/05/1992” (Bruce Albert, IRD).


A
penas em 2022 o desmatamento pelo garimpo ilegal na terra Yanomami aumentou 25%, ou seja, um quarto (Inpe). Malária, diarreia, desnutrição e, principalmente, doenças causadas pelo venenoso mercúrio usado no garimpo, são os principais vilões do massacre indígena. Somente no dia 26/01 foram seis mortos. O Hospital da Criança, em Boa Vista, tinha, naquela data, 64 pacientes internados, sendo sete em UTIs, e a Casai (Casa de Saúde Indígena) 700 Yanomamis aguardando atendimento. Quase cem crianças indígenas morreram no ano passado pelas mesmas causas - 570 crianças em poucos anos!

Há conscientização e até mobilização internacional sobre o assunto, que pensa em vidas e no meio ambiente como um todo: os olhos do planeta se voltam para as reservas, onde o quadro é doloroso como no triste poema Rosa de Hiroshima, de Vinicius de Moraes: “Pensem nas crianças / mudas telepáticas / pensem nas meninas / cegas inexatas / (...) pensem nas feridas /como rosas cálidas”. Pensem e reflitam.



 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

RELÓGIOS, OBRAS DE ARTE, BARBÁRIE

 


O
que leva alguém a pagar milhões por uma obra de arte? Esta é uma pergunta bastante comum, mas explicável se há algum nome ou sinal que a associe a alguém, alguma época, ou se tem um contexto histórico. Às vezes um nome basta: meu pai dizia que se o Rockefeller quisesse sacar 200 milhões de dólares no Chase Manhattan os encarregados entregariam o numerário em carros-fortes com suas equipes de segurança – e um belo champanhe para espoucar na entrega. Já se ele, meu pai, tivesse pedido para sacar dois milhões no caixa teria sido preso. A questão maior reside em quem assinou o cheque. E claro, não pensamos em qualquer um se falamos de Michelangelo, Rafael ou Da Vinci: essas obras são eternas, as melhores não têm preço.


H
á dez anos, em um leilão promovido pela Philips em NY, a artista plástica brasileira Lygia Clark (1920-1988) teve uma obra, “Contra Relevo (objeto nº7)”, de 1959 (55,5cm x 55,5cm x 5cm), vendida pela bagatela de R$ 8,12 mi em valores de hoje. Um simples quadrado dividido em 4, sendo uma das partes branca e em relevo três pretas. Lygia Clark era a bola da vez. As obras podem ver seu preço variar com a idade – quanto mais antigas, grosso modo, mais valem. Mas creia, esta é uma regra imutável: ela poderá mudar sempre.

Os cinco violinos que alcançaram maiores valores foram o Stradivarius ‘Messias’ (R$ 104 mi, hoje), o Strad ‘Lady Blunt’ (R$ 88 mi), o Del Gesù ‘Vieuxtemps’ (R$ 82 mi), o Strad ‘Da Vinci’ (R$ 80 mi) e o Del Gesù ‘Kochanski’ (R$ 52 mi). Todos esses instrumentos têm os ingredientes certos para lançar os preços ao espaço em leilões: autor, perfeição da manufatura, ‘árvore genealógica’ dos proprietários anteriores bem estrelada, beleza e som próximos à perfeição. São obras de arte de grandes gênios. Do mesmo jeito, para se ter a dimensão do valor de uma pintura, peça arquitetônica, mural, um conjunto histórico ou arquitetônico, é preciso certa cultura. O idiota nunca irá lhes dar valor, não tem referências, não lhe serve para nada.


N
o Brasil, quando penso em artistas plásticos imagino Portinari, Iberê, Di Cavalcanti, Tarsila, Brecheret, tantos excelentes artífices que carregam em suas obras o peso do nome! (Eventualmente, o peso em ouro...) Para simplificar o raciocínio: o piano Steinway branco que pertenceu a John Lennon vale uma fortuna, mas se fosse de um Zé-Mané valeria apenas o instrumento em si, se estivesse em ótimo estado, para chegar a uma paga razoável.

(R7)

R
elógio de mesa que é belíssima obra de arte é um precioso trabalho de Balthasar Martinot, mestre relojoeiro de Luís XIV, rico em detalhes desenhados por André-Charles Boule. Uma linda peça, doada de presente a D. João VI e trazida ao Brasil em 1808, ano da Abertura dos Portos. Além desses atrativos e elementos de apreciação do valor, existe apenas mais um relógio igual no mundo, o que o levaria à estratosfera num eventual leilão. Duas peças únicas! A segunda se encontra nos aposentos de Maria Antonieta no Palácio de Versailles, e é bem menor em sua dimensões, fazendo do “nosso” o primus inter pares - “primeiro entre iguais”. Uma joia de grandes medidas.


N
o malfadado dia 8 de janeiro, em surto de macaquice de imitação, um bando copiou os norte-americanos de extrema direita forjados por Donald Trump e Steve Bannon: a massa treloucada avançou sobre os prédios dos 3 poderes (Palácio da Alvorada, Congresso Nacional e STF) e causou os danos que pôde – houve quem chegasse a dizer “que lhe permitiram”. Foi-se o precioso relógio ao chão e o mentecapto ainda tentou quebrar com um extintor as câmeras de segurança que filmaram o ato de vandalismo. Claro que os prejuízos ao nosso povo e ao Estado brasileiro foram incalculáveis. O painel “As Mulatas”, de Di Cavalcanti, uma obra-prima do modernismo brasileiro, mural inspirado no estilo mexicano, mostrava em sua enorme pintura as nossas belas mestiças. Al lado de Di, nomes célebres ao par de Brecheret, com sua Bailarina, e Marianne Peretti, com Araguaia, de 13,10 m x 2,45 m, um vitral incrível de 1977. (Para servir de parâmetro, “Bumba meu boi”, também de Di Cavalcanti, é um painel de 5m x 1,90m avaliado recentemente em 20 milhões). Por aí se vê o nível do que foi violentado, além da nossa democracia.


V
amos tirar uma lição dos lamentáveis acontecimentos do dia 8 de janeiro em Brasília! Vamos ensinar que não há civilização sem ordem e, antes de mais nada, futuro para um país sem que tenha educação, cultura e arte. O embotamento cultural e a estupidez caminham de braços dados na contramão do progresso, encardem o país com sua água imunda, lançam dejetos orgânicos e intelectuais sobre obras de arte e nossa memória, levam à destruição de uma relíquia, um relógio dos tempos de Luís XIV e D. João VI.


F
omos soterrados pela lama da estupidez pelos que, armados de ódio e violência, tentaram destruir riquezas e depredar alguns de nossos símbolos maiores, da democracia à patrimônio histórico de Brasília, já com 60 anos, arruinando, quebrando, rasgando, uma fúria bestial a ser registrada e exposta aos nossos filhos e netos, para que não seja esquecida. Mas, a despeito da leniência de alguns setores oficiais, do pouco caso e da desfaçatez de certos servidores da segurança, ainda somos um povo que ostenta dignidade antes de tudo. Os “santos guerreiros” da civilização e da democracia venceram o “dragão da maldade” e a horda de bárbaros. Mas é bom repetir: aquelas absurdas violações não poderão ser esquecidas, assim como o monstro: mesmo dominado, ele ainda respira.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

MORREU DE QUÊ?

 


A
curiosidade humana não tem limites. Não gosto de responder a perguntas invasivas da minha vida ou de terceiros, opto pela evasiva: não sei, digo, mesmo sem saber sabendo. Uma vez, atacado por algum insight poético, ao ser perguntado sobre o falecimento de um avizinhado comum, lembrei João Cabral, em Morte e Vida Severina: “e foi morrida essa morte, irmão das almas, essa foi morte morrida ou foi matada?” Aproveitei a ideia súbita e respondi: essa morte foi morrida (apesar de que em Cabral a resposta foi “até que não foi morte morrida, irmão das almas, esta foi morte matada numa emboscada”). Devolvi uma reposta com a licença poética do mestre pernambucano, não era da conta do meu interlocutor, ele que ficasse sabendo por terceiros. E se eu dissesse que morreu de síndrome edemigênica, causa mortis de uma personalidade famosa que nos deixou recentemente, ou, talvez, paniculite com sepse, já diria outro. Bastaria ao curioso? Não, o franco-atirador fuxiqueiro quer uma resposta banal, que lhe baste aos ouvidos sem esforçar-lhe o cérebro. (Ressalvas para os que extravasam sua angústias em oração nas redes ou, se for de sua escolha: “tiro, porrada ou bomba”, como disse o ícone das comunidades Valesca Popozuda, artista menos conhecida por seus dotes vocais do que por outros predicados).



E
ntrevero semelhante surge com “quanto custou?”, “vendeu por quanto?”, “pagou quanto?”, “quanto você ganha?” Que diabos interessa a um curioso a vida financeira de alguém? (Aprendi com minha mãe que este não é assunto para voz alta, se não por fofoca ao menos por segurança). Já dei sermão, expliquei que não se pergunta isso, fora se tiver muita intimidade, ou, como no caso da morte matada, aguarde-se elucubrando que alguma hora vai se tornar público. A imaginação nesses tempos de hoje nos remete à dos tempos de antanho: foi Covid, no primeiro caso, ou foi Aids, como no passado. No caso de doença infectocontagiosa, ainda há algum sentido: a prevenção, o controle endêmico, o alerta, se o “de cujus” era amigo ou parente, mas não convém sair por aí cuspindo suposições sem que haja absoluta convicção: Pode criar preconceito ou terror que não deveria existir, caso a informação seja falsa. Nos idos da eclosão da Aids, ninguém podia mudar de comportamento e principalmente emagrecer - quem não se lembra do sucesso da Rita Lee “Não, titia, eu não tô com leucemia”, a respeito de boatos? (“Que ideia mórbida, há há há há / que ideia sórdida, há há há há”).


Operou de quê?” Ora, se a pessoa não diz é provável que não quer que se espalhe. Já se sabe que operar tem múltiplo significado: João opera uma máquina, Hans opera um cálculo, Márcia opera no mercado de capitais – e, na literatura, há o cortejado romance “Ópera dos Mortos”, de meu pai, Autran Dourado. (Mas, acima de tudo, só Deus opera milagres!). Como substantivo, há o italiano “opera”, obra, trabalho: como deixar de mencionar as belas encenações lírico-dramáticas do repertório operístico: La Traviatta, Don Giovanni, Nabucco, Il Guarany? Já cirurgicamente, opera-se uma verruga, o panarício de uma unha encravada, apendicite, pontes de safena ou mesmo um transplante de fígado ou coração. Então, operou o que ou de quem? Em A Ópera, 9° capítulo de Dom Casmurro, Machado de Assis deixa no ar: “Deus é o poeta. A música é de Satanás”.


O
tipo curioso é uma daquelas crianças que mexe e fuça, cresce assim, quer saber de tudo e, salvo honrosas exceções, hoje quer buscar seu instinto e paixão embotados às custas da vida alheia. “E os teus desejos ferventes vão / batendo as asas na irrealidade / O que tu chamas paixão / é tão-somente curiosidade” – Manuel Bandeira, em “Poemeto Irônico” (1917) de “A Cinza das Horas”. Eu confesso que fui uma criança curiosa! Meu pai, bom mineiro interiorano da sabença de passarinhos, chamava-me “menino-curió” - em tupi-guarani curió é ‘amigo do homem’, que vive ciscando nas aldeias. Mas aquela curiosidade infantil, com os tempos, fui trocando pelo desejo indomável de saber, daí minha carreira de educador e pesquisador. ‘Mas veja, ilustre passageiro’, as grandes descobertas nasceram da curiosidade, com a mãozinha de algum acidente que derruba uma maçã na cabeça ou transborda a água do banho do cientista. Não me proponho a descobrir ou inventar nada grande como Newton ou Arquimedes, apenas sinto-me feliz quando compreendo alguma coisa nova, conquisto um degrauzinho de formiga que seja.


M
as afinal, fulano morreu de quê? E sicrano foi operado de quê? Se em sigilo, permanecerá guardado – “segredo entre três só matando dois”, diz o vulgo -, se importante para a comunidade, basta o suficiente, e se for para ajudar a desvendar um crime, uma ladroagem, abre-se o saco de verdades. Há de haver sempre um bom propósito. Delação não, delação é interesseira, embora ferramenta útil em nosso direito, nossa velha política, passando pela alcaguetagem. Com o advento descontrolado das redes sociais, o direito à vida privada anda cada vez mais rarefato! Mas veja, que curioso (opa!): no mundo político e das ‘celebridades’ o que é privado pode tornar-se interessante para o (bem) ou malfalado se lembra aquela frase atribuída ao Carlos Imperial, inspirada no escritor Oscar Wilde e este no irlandês Henry King: “falem mal, mas falem de mim”.  

Pensei em chamar este texto “A taxonomia dos curiosos”, mas pode servir de pós-título. (Taxonomia, segundo o Houaiss, “é a ciência que lida com a descrição, identificação dos organismos, individualmente ou em grupo”).

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

COMO UMA ONDA

 

Adrenalina: fórmula química

N
ão faz muito tempo escrevi neste espaço um artigo - “Pensando a Copa” - sobre música, esporte, adrenalina e as interações deste hormônio com a performance (desempenho presencial), característica de ambas atividades. Discorri tanto do ponto de vista benéfico dessa droga natural produzida pelo corpo quanto a hora em que ela chega a derrubar o artista ou atleta, um nocaute mental. Falei dos efeitos de um quase popular “antídoto” para controle da adrenalina, entre músicos, os betabloqueadores – de prejuízos sensíveis à performance musical. Aliás, digamos que “mecaniza” a interpretação, submetendo uma pretensa segurança do músico em desfavor da criação artística. Cabe ao músico sucumbir diante do caminho mais fácil e confortável ou trabalhar por uma interpretação que realmente cative o espectador (toda arte performática sempre tem como objetivo ser ao vivo, é bom lembrar).  Mas hoje abro espaço para ainda outra tendência: os esportistas que buscam algum tipo de catarse (libertação) via adrenalina em fortíssimas doses.

Bungee jumping

S
ão os chamados esportistas radicais, ou de aventura, cujo prazer é exatamente a busca pelo máximo, o que se traduz em rápida pulsação cardíaca aliada a uma intensa pressão sanguínea. Filosoficamente, pode-se dizer que é brincar com o risco, que remete ao limiar da morte – ou seja, o indivíduo busca emoção sentindo, às vezes muito perto, a mórbida sombra da velha e temida “senhora”. Quase todos esses esportes - a maioria inventada nos EUA, daí os nomes em inglês – são cultivados lá e cá, tal como o arborismo, a asa delta, o balonismo, o bungee jumping, o kitesurf, o longboard, o mountain board, o parapente e o trekking, entre outros. É claro que, sob um raciocínio bem simplório e reducionista, uma volta de bicicleta, um passeio na calçada, um descer de escadas ou alimentar-se na rua oferecem algum perigo, enfim, em tudo há certa mínima dose de risco, involuntária, que seja. Quero falar dessa busca determinada e voluntária pelo perigo, e, mais uma vez, de certo obscuro jogo de cartas com a morte.  Claro que todos esses esportes radicais têm de ser monitorados, executados sob supervisão e praticados em ambiente preparado para resgate e socorro: enfim, tudo para oferecer maior segurança – dentro do perigo de que é consciente do esportista.  E o surfe é um desses esportes, especialmente se for levado às modalidades mais radicais, como as ondas de grande altura.

Nazaré, Portugal

A
praia de Nazaré, oeste de Portugal, além de aprazível local turístico, é famosa por suas altas ondas, sempre desafiadoras. Surfistas de todo o mundo procuram-na pela fama – hoje, enquanto escrevo, ondas chegaram a até 4m de altura, trazidas por dóceis vagas (no Rio de Janeiro já seriam chamadas de “calhaus”, ondas muito grandes). Abrem-se enormes túneis, fascinantes e desafiadores para os surfistas, que aguardam ansiosamente por aquela onda gigante especial, de 15 metros ou mais de altura, o equivalente a um prédio de 4 andares. (O recorde em Nazaré foi estabelecido 2022, quando um alemão, Sebastian Steudtner, surfou a 26,21m de altura, quase uma construção de perto de oito andares).



Lorelei

N
a tarde do dia 5 de janeiro deste ano de 2023, Márcio Freire, brasileiro de 47 anos aficionado por ondas gigantes, foi seduzido por uma dessas vagas enormes e, como sempre, atirou-se com a prancha para uma viagem pelo túnel do tempo que mais uma vez parecia abrir-se de forma alucinada à sua frente. A partir daí, pouco se pode imaginar além do que ele próprio diria, se pudesse. Guiava-o uma descarga volumosa de adrenalina, companheira inseparável nessas viagens, mestre na sedução dos surfistas radicais como a sereia Lorelei dos navegantes do rio Reno, cantando e lançando-os contra os rochedos após se submeterem aos seus chamados voluptuosos.

Da Vinci: o homem vitruviano

I
magine agora Márcio, aventureiro, na boca de um desses túneis de água salgada, ante mais um verdadeiro convite ao desconhecido.  Ele vê apenas um clarão à sua frente, mas o túnel é mais veloz e afasta a luz mais e mais a cada segundo, até que ele se vê no escuro, no breu. Sabendo que há uma arrebentação na areia para onde confluem poderosas ondas - outro perigo de Nazaré, junto a um esfomeado refluxo de corrente a puxar-lhe para trás e para baixo. Daquele turbilhão imenso surge um caleidoscópio tridimensional girando em todas as direções, um globo imaginário sob o desenho vitruviano de Da Vinci, agora com pés e mãos torcidos e trançados, até o apagar geral da ribalta, um globo girando perdido e sem piedade para os lados, para a frente e para trás, para cima e para baixo. Corte para outra cena: de fora, vê-se a Marinha portuguesa retirando um corpo multifraturado  e já sem vida por conta de uma parada cardiorrespiratória. A busca pelo limite despertada pela adrenalina levou Márcio, bom baiano, para junto de Iemanjá, rainha do mar.

É doce morrer no mar”, cantaria o também baiano Caymmi, “nas ondas verdes do mar”. Mas não houve poesia nas imensas ondas verdes onde ele foi se afogar, “fez sua cama de noivo / no colo de Iemanjá”. Segundo os colegas do Mad Dog Márcio - de “Cachorros loucos”, como o trio de amigos surfistas era conhecido na Bahia - o companheiro de ondas em Salvador e no Havaí está no lugar onde gostaria. Talvez mais na poesia do Nelson Motta (feita para música de Lulu Santos) do que na do Caymmi, ele poderia cantar: “Não adianta fugir / nem mentir / pra si mesmo agora / há tanta vida lá fora / aqui dentro sempre / como uma onda no mar”.

In memoriam.

Márcio Freitas (RMS)


 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

A CULTURA? ORA, A CULTURA

 

Sérgio Rouanet (ABL)

E
scolher o responsável por cada área em âmbito de governo, municipal, estadual ou federal, demanda, além de natural afinidade política, a exigência de uma série de qualidades. Não se obriga que seja alguém que milite na área, um bom administrador com nível à altura do cargo pode trazer bons resultados. Basta ver a lista da Cultura, estreada pelo jornalista José Aparecido de Oliveira (1985), nos tempos de Sarney, a que seguiram mais três ministros, retornando ao mesmo José Aparecido em 1988, gestão concluída com a posse de Collor, em 1990. Com este último, assume o teatrólogo Ipojuca Pontes, que após um ano cede o lugar para Sérgio Paulo Rouanet (1991), com um currículo para ninguém botar defeito: antropólogo, diplomata, professor, mestre em ciência política, filosofia, economia e agronomia pela USP, onde doutorou-se em medicina e ciência política, além de ter sido membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) - cuja nomeação seguramente não está entre os erros de Collor. Rouanet idealizou a lei de incentivos fiscais, que terminou batizada com seu nome. E quando se fala em democratização da Cultura, com certeza fala-se na lei por ele gestada. (Bom ressaltar que foi na gestão Collor que o Ministério da Cultura foi extinto, passando os titulares da pasta a serem empossados como secretários de Cultura).

Houaiss (ABL)

C
om Itamar Franco, destacou-se o filólogo Antonio Houaiss (1993), e durante toda a gestão de Fernando Henrique Cardoso, de 1995 a 2002, outro grande nome: Francisco Weffort, escritor, cientista político e acadêmico. Em 2003 tomou posse Lula, que nomeou o cantor Gilberto Gil para a Cultura, a que seguiram Juca Ferreira e a produtora Ana de Hollanda, em uma gestão controversa. Não dá para discorrer sobre esses 21 ministros, mas salta aos olhos ter sido nas gestões Collor e Bolsonaro que a pasta foi extinta, relegada a um espaço de somenos importância. Com Bolsonaro ocuparam funções decorativas os secretários Henrique Pires, José Paulo Martins, Ricardo Braga e, finalmente, o polêmico Roberto Alvim, que em 2020 assume a secretaria no lugar da atriz Regina Duarte, secretária-tampão de um total de nada menos do que sete titulares e bastante confusão: Alvim clonou um discurso do ex-ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, causando enorme transtorno até ser exonerado em janeiro de 2020, sob imensa pressão.

Margareth Menezes (Discogs)

E
m dezembro de 2022, Lula anuncia o ressurgimento do Ministério da Cultura e o nome de Margareth Menezes para titular da pasta. Para os que, como eu, a conhecem quase que só de nome e pouco de música, a decisão trata de um conjunto de fatores que visam a contemplar segmentos que pleiteiam espaço no governo: cantora, atriz, negra, mulher, pessoa atuante no meio. Indicada a dois Grammys e premiada algumas vezes, recebeu do jornal Los Angeles Times o epíteto de “Aretha Franklin brasileira”. Procurei ouvir mais algumas músicas, para formar convicção, e encontrei muita influência afro, via Bahia, mas fora do clichê de sempre, o inefável Axé-music. Parece uma afrodescendência legítima, soteropolitana de raiz, que Margareth sabe representar junto aos grupos que organiza e lidera. Falta conferir a capacidade de organização, de liderança, ideias; falta ainda desvencilhar-se de acusações - algumas plausíveis e outras visivelmente maldosas ou para “fazer marola”. Pergunto: será que todos os 21 antecessores no cargo teriam passado por tal crivo? É aguardar e ver.

Anton I, príncipe de Esterhàzy

A
cultura europeia é lastreada no poder público – ou melhor, em dinheiros públicos –, que sustenta a estrutura de imensa parte das melhores orquestras, teatros e museus. Costume arraigado desde os tempos em que príncipes, condes e imperadores, além de igrejas, organizavam o ensino e a prática (no caso, mais especificamente musical), desde Bach, Haydn, Mozart. Na Europa, o subsídio oficial é tão importante que em geral representa quase 100% do orçamento das grandes orquestras e teatros. É parte da vida, até as menores cidades costumam ter suas casas de ópera, museus, estimulam o conhecimento do passado e do presente.

The Curtis Institute

N
os EUA, a cultura é usufruída pelos cidadãos por meio de ingressos ou pelo preço do objeto de arte e ponto. Para não dizer que não há apoio algum, cito o NEA (National Endowment for the Arts), parte da National Foundation for the Arts e outras agências. Entre 1965 e 2008, o NEA pagou 128 mil auxílios, mais de 5 bilhões de dólares – o que significa 39 mil USD cada no período 43 anos – ou seja, um valor absolutamente irrisório.  Mas trata-se de um país em que mecenas particulares da arte são donors, patrons, sponsors, trustees e afins – classes de doadores, conforme as cifras, para as mais diversas organizações. É uma nação onde se paga caro por um ingresso, e além disso tudo ainda há doadores como Mary Curtis, que em 1924 ofereceu três prédios e mais USD 12 mi (200 milhões hoje, ou ainda R$ 1,04 bilhões) para o início do afamado Curtis Institute of Music da Philadelphia, só para citar um exemplo.

Mário de Andrade (Wiki)

O
Brasil é um país bem mais pobre, em que a mídia dissemina uma cultura de segunda ou terceira; é preciso suporte e subvenção oficiais, seja por incentivo fiscal ou outro, para que o povo em geral tenha acesso ao que há de melhor. Cultura é o alimento do espírito, a fábrica do que Mário de Andrade chamava de “biscoito fino”, a que todos têm direito, e é um bem comum que engloba das nossas raízes ao conhecimento universal. Esperemos que desta vez haja sucesso na reconstrução, para adiante prosseguirmos e vencermos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

PENSANDO A COPA

 


E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? E agora, José?” O belo poema do Drummond já serviu para perguntar tanta coisa, e simbolicamente em tantas ocasiões, que não seria agora que haveríamos de esquecê-lo. Perdemos a Copa do Catar, e agora, José? Que perda terrível, vimos homenzarrões chorarem como crianças. Afinal, eram jogos, por isso mesmo coisa que vem de brincar, jouer, em francês, to play, inglês, spiel, alemão (só em português se esqueceram desse duplo sentido). Pois perdemos a brincadeira, enorme brincadeira com que nos divertimos e penamos a cada quatro anos, o Brasil unido, ora sofrendo, ora em júbilo. Gols nossos ou dos outros repentinamente podem fazer desmoronar o céu que era de brigadeiro na festa da torcida.

Jasha Heifetz

E
ncontro algum paralelo em situações musicais. Aquele concurso, aquela competição, um desafio para o qual o músico se prepara para vencer, deve estar seguro de si, esquecer os outros. E não ficar nervoso. Mas, diga como? Quem, em um grande concurso ou uma copa, não treme? Ed Barker, meu professor, dizia que quem está preparado não fica nervoso, usa aquela adrenalina toda concentrando-a na música, mas isso é coisa de gênio. Outro gênio, outra ideia: Jasha Heifetz, dizia que todo mundo fica nervoso, e que ele também fica, até o momento...em que o arco começa a deslizar sobre as cordas do violino. Já os 22 em um campo de futebol entram superaquecidos, a mente concentrada na musculatura em ponto de bala, há as torcidas gritando a todos os pulmões, como se tudo convergisse para um só ponto naquele momento. A bola.


O
que não sabemos, contudo, é o que se passa dentro de cada um, a cada momento. Fazendo um paralelo com a música, assisti nos EUA a uma prova fechada para uma vaga muito concorrida. Entre os finalistas, dois excelentes músicos. Sabe-se lá o porquê, o favorito cometeu um erro besta, dali foi perdendo o rumo da difícil peça e, em menos de um minuto, parecia uma criança sem saber para onde ir. Robert, o prenome dele, lembrava o Leverhühn, músico-personagem do livro Dr. Faustus, de Thomas Mann, que havia feito um trato com o demônio para obter virtuosismo desmedido: “Destruído pelo extraordinário, seu gosto arruinado por qualquer coisa, ele no mínimo vai se deteriorar no desespero” (...) “O problema é como ele poderia se manter nos limites do possível”. É isso, tocando e jogando nos limites. A despeito das enormes diferenças, há pontos em que a música esbarra no esporte de maneira especial: ambos são atividades de performance, envolvem a mente em grau intenso e dela dependem, até fisicamente, para o controle de sua atividade. E há mais: a performance individual do jogador, ao receber um passe para chute em gol, a cobrança de um pênalti, um cara a cara sozinho com o goleiro, todas atividades solo – como na música - momentos em que tudo depende de um só, a pulsação cardíaca acelerada, a adrenalina nos píncaros. Porém, na música temos, como no teatro, a chamada ‘quarta parede’, através da qual o público vê e pelo outro lado o artista dele se esconde. O esporte tem o que se poderia chamar ‘parede descampada’: é preciso ser olhos e ouvidos, por todos os lados, pois se a bola está na frente o adversário pode vir pela lateral ou mesmo por trás. Sob tal ponto de vista, esses performers, jogadores e músicos, estão em universos diferentes, mas no aspecto individual têm muitas semelhanças.

Betabloqueador

S
e no passado do futebol havia o doping (diz-se dôpim), e como em todas as áreas os dirigentes até o administravam nos atletas, na música de concerto as drogas nunca “colaram”, ao menos sobre um palco: a loucura da música, no caso, é uma “alucinação lúcida”, por mais contraditório que possa parecer: no caso de um solista, é um concerto perdido. Contudo, vieram as modernidades: os betabloqueadores. Bloqueadores beta-adrenérgicos existem desde o final dos anos 1950 e causam, entre outras coisas, uma redução na frequência cardíaca. (Ou seja, a descarga de adrenalina, com o comprimido tomado um pouco antes do concerto, é reduzida, e com ela os batimentos são desacelerados). Maravilha? Como assim, que maravilha é essa? É que é exatamente a adrenalina, com outros hormônios naturais, que levam o músico ao pleno estado de concentração para a perfeita execução artística. Pergunta-se: como fica a performance dos poucos usuários beta de hoje? Fria, seca, reta, nada mais. Pode estar correta, no tempo certo, mas é como querer enquadrar um belo óleo sobre tela com um vidro anti-ofuscante, para desespero dos apreciadores. Não funciona. Pode até ‘livrar a cara’ de um músico logo à vista do maestro – por isso é mais frequente seu consumo entre os sopros, bem ali à sua frente.


T
ratamos, até aqui, dessas similaridades dos performers do futebol e da música. Agora cuidemos, nós, derrotados, ao menos, do que antes era a paixão e a melancolia e hoje pode ser a ressaca dos gols que não fizemos, das passagens arriscadas feitas na euforia de um momento após uma espécie de exame cardíaco de esteira tomado “na marra”. Espero que todos possamos tirar lições desses poucos jogos de que participamos, mas lembremos que o futebol não termina em Copa. Nem os melhores concertos no Carnegie Hall de NY. A música e o futebol estão aí o ano inteiro para preencher nossas vidas de satisfação, nossas mentes de bons pensares e nossos corações dos melhores sentimentos.

 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

PELÉ, ALEGRIA DO MUNDO

 


Para abrir a conversa, um lindo coral de Johann Sebastian Bach chamado Jesus bleite meine Freude (“Jesus permanece minha alegria”), adaptado séculos depois com uma linda e florida poesia por Vinícius e Toquinho como “Rancho das Flores, ou “Jesus, Alegria dos Homens”. Em 1962, o cineasta Joaquim Pedro de Andrade criou uma obra-prima, “Garrincha, alegria do povo”, documentário sobre o jogador Manoel Francisco dos Santos, o famoso Mané. Partindo deste filme mas pensando em Pelé, achei de escrever algo sobre “um dos melhores jogadores do mundo”, senão “o maior jogador do mundo”, aquele que é rei por aclamação no maior de todos os esportes. Garrincha subiu ao estrelato na Copa de 1958 e, por uma contusão de Pelé, em 1962, tornou-se o principal jogador da Seleção naquela copa. Não há como tecer comparações, são diferentes os tipos físicos, as histórias, os sete anos de idade entre os dois, fora o jeito indisciplinado do Garrincha e um jogo um tanto mais cerebral do Pelé – que, além disso, tinha um par privilegiado de pernas, verdadeiros canhões. Pois passando por Bach, Vinicius e Joaquim Pedro cheguei ao título deste artigo sobre Pelé, que já foi homenageado em projeções de led em prédios, como no Catar e NY, e com um imenso “camisão” no estádio de Lusai, aclamado como um herói de todos e para todos, abençoado por todos.

Estátua de Pelé em 3 corações

P
elé nasceu tricordiano em Minas – era de Três Corações, cidade que só por ele justificaria sua existência. Com quase 80 mil habitantes, Três Corações nos deu outros grandes nomes, como Godofredo Rangel, escritor e mentor literário de meu pai, Autran Dourado, o cineasta Braz Chediak (Navalha na Carne) e o ex-presidente Carlos Luz, que sucedeu Café Filho por apenas três dias. Ali se homenageia o jogador, como na Casa Pelé, uma réplica do lugar onde o Rei passou a infância, no endereço que leva seu nome: R. Edson Arantes do Nascimento nº 1.000 (lembrança do milésimo gol do Rei).

Kelly Nascimento e Pelé

Aos 82 anos, forte como um touro, Pelé já passou por um câncer no cólon e várias metástases. Mesmo com os melhores cuidados, o atleta passou a não reagir bem à quimioterapia, e teve a medicação suspensa. Entrou em uma fase que no exterior é chamada end-of-life care (cuidado de fim de vida), um nome nada encorajador, aqui chamado “cuidados paliativos”. Mesmo assim, no sábado, dia 3, Pelé postou em uma rede social que estava “forte”, e pode ser que ele se sentia mesmo assim. Já o Hospital Albert Einstein negou que Pelé esteja sob cuidados paliativos e informou que se comunicaria apenas por meio de boletins oficiais. Declarou ainda que desde a sexta-feira (2/12) o Rei estaria sendo tratado com antibióticos para uma broncopneumonia. Uma filha de Pelé, Kelly Nascimento, sempre que convém passa informações tranquilizadoras, se é que isso é possível, e diz que pretende estar no Brasil no fim de ano. No domingo, 4/12, disse que a infecção pulmonar seria decorrente da Covid-19. Um outro filho só trouxe desgosto ao Pelé por suas relações espúrias; houve ainda uma traumática rejeição de uma filha nascida de um romance fora do casamento, Sandra, reconhecida apenas por força de exame de DNA. Com as fofocas crescendo junto ao que hoje chamam fake news, o sucesso de Pelé era tão grande que despertava olhos de inveja e cobiça, dado ainda o status de grande empresário por ele alcançado no Brasil e no exterior.  

Com a Rainha Elizabeth

T
odo grande atleta ou artista, figuras públicas por excelência, tem sua vida devassada e escarafunchada por um povo sedento como na peça Roda Viva, do Chico Buarque. Pelé amargou ainda o preconceito por um relacionamento com a loiríssima apresentadora Xuxa, e de tão popular não faltou encontrar-se com os ex-presidentes norte-americanos Gerald Ford e Bill Clinton, a rainha Elizabeth e o boxeur Mohammad Ali. Participou de nove filmes e uma telenovela - Os Estranhos, sobre ETs -, e esteve com o Papa Paulo VI.


Não contente com essa visibilidade, chegou a compor (“Perdão não tem”) para uma gravação com Elis Regina (1969), entre mais de 120 outras músicas. Com violão e voz sofríveis, ainda gravou para campanhas da SPTuris “Olha lá São Paulo”, falando de 54 bairros da cidade. O Rei fascinou personalidades pelo mundo, e isso foi o que marcou o gênio do ídolo. Parece que poderia fazer o que quisesse, em qualquer arte ou atividade, que teria seu pedestal reservado. Quando ainda jogava, defendendo o Brasil, tinha cada gol festejado, celebrado, abrindo-se aos festejos de sua equipe e deixando a plateia, o time rival e o mundo inteiro boquiaberto. Era o “estado da arte” do jogo da pelota controlada com os pés – o “foot-ball” -, arte criada pelos britânicos. Já estamos em estágio mais avançado da Copa do Qatar, sabendo que os olhos de Pelé, de seu quarto no hospital, torcem com o mesmo vigor pela nossa esquadra: “Deus salve nosso gracioso rei / vida longa ao nosso nobre rei / Deus salve o rei! / (...) longamente para nos reinar / Deus salve o Rei!” E que demore muito ainda para ouvirmos ecoar os versos da substituição de Pelé, mesmo porque não haverá alguém à altura.


O
cineasta Pier Paolo Pasolini levara Pelé ao campo da arte, assinando “No momento em que a bola lhe chega aos pés, o futebol se transforma em poesia”, enquanto pela poesia disse Carlos Drummond de Andrade: “O difícil e extraordinário não é fazer mil gols, como Pelé, mas fazer um gol como Pelé”. Para rir: “Meu nome é Ronald Regan, sou o presidente dos Estados Unidos, mas você não precisa se apresentar, todo mundo sabe quem é o Pelé”.




sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

RICHARLISON, NOMES E SOBRENOMES


A
República Sérvia é um país recentemente consolidado na Europa. Um acordo assinado em nov/1995 entre os EUA e Milosevic’, ratificado em Paris em dez/1995, previa a manutenção da Bósnia-Herzegovina como Estado muçulmano-croata, com 51% do território, e outro, Bósnia-Sérvia, com os demais 49%. Impedido de se candidatar, em 1997, Milosevic’ lança e elege Milutinovic’ presidente da Sérvia. O centro passa a ser Belgrado, em plena região balcânica, antiga capital da Iugoslávia. É um país que foi atolado por guerras e agora é cercado por nada menos do que oito nações: Albânia, Bósnia-Herzegovina, Bulgária, Croácia, Hungria, Macedônia do Norte, Montenegro e Romênia. Milosevic’ também invadiu Kosovo (1998), contra o KLA (Exército de Libertação de Kosovo).

Fu Hsi

E
ssas divisões surgiram de conflitos sob a intervenção dos EUA com um só pano de fundo: o óleo - ouro negro! -, o petróleo. Os violentos combates na região sudeste levaram o nome de Guerra dos Bálcãs. (Fonte: COGGIOLA, Osvaldo. “Imperialismo e Guerra na Iugoslávia – Radiografia do conflito nos Bálcãs”. SP: Ed. Xamã, 1999). Numa profusão de idiomas, dialetos, raças e culturas, a Sérvia herdou da Iugoslávia, ouro nas olimpíadas de 1960, campeão mundial Sub-20 de 1987 e diversas semifinais em Copas do Mundo, o tino pelo bom futebol. Entre os escalados para 2022, Mitrovic’, Mladenovic’, Pavlovic’, Erakovic’, Milenkovic’, Zovkovic’. (A essa altura, o leitor deve estar pensando no porquê de quase todos os nomes terminarem com vic’ - com um acento agudo no c’, em sérvio-latino. A pronúncia é bem próxima à do russo vich”, significando “filho de”: Rostropovich, Maierovich, Ivanovich. Bem lá atrás, os hebreus (Livro dos Números, 4º livro do Torá) usavam indicação própria de filiação, uma vez que ainda não haviam sido criados os sobrenomes:  De Rubem, Elisur, filho de Sedem. (Os sobrenomes vieram com Fu Hsi, Imperador chinês, em 2.850 a.C., que determinou que os nomes completos deveriam conter um apelido de geração, um prenome e o nome de família extraído do poema “Po-Chia-Hsing”). Na Escócia, do gaélico, usa-se Mac antes do nome familiar, origem de MacDonald e MacCartney. Em inglês, é comum o patronímico “son”: George Harrison, Jim Morrison, filhos de Harris e Morris, que se tornaram sobrenomes.

Mikhail Barishnikov

O
nosso Richarlison – cujo son no nome é só charme de batismo -, artilheiro da partida da Seleção Brasileira contra a Sérvia, no dia 24/11, trouxe um conceito de atleta exemplar. Além de salto e bicicleta dignos de um grand jeté do bailarino russo Mikhail Barishnikov, cena já perenizada, marcou outra diferença. Houve destaque ao gol esplendoroso, mas o inglês The Guardian optou pela chamada: “Richarlison é louvado como ‘o ídolo que os brasileiros merecem’, depois da era Bolsonaro” (25/11). E mais:
"Artilheiro contra a Sérvia na Copa do Mundo está sendo celebrado como muito mais do que um herói do esporte". Até os britânicos viram um diferencial naquele jogador despojado, camarada, tímido, até, que traz, além de suas obras assistenciais, uma faceta ausente em nossos atletas milhardários. Adepto de rápidos discursos e falas, low profile, simples, ele passa o recado: "É um direito básico ter comida na mesa, saúde, educação e moradia. Eu me posiciono e mostro a minha indignação pelo mínimo de dignidade e igualdade para todos os brasileiros que não tiveram a mesma sorte que eu". Bastou para ofuscar um colega adepto da ostentação, que amargou 11 minutos em jogo com o tornozelo lesionado - apesar de comprometido fisicamente não quis se desfazer de seu brilho, sua realeza.


C
laro, falo do Neymar. Enquanto Richarlison o abraçava fortemente, os braços do mogiano se largavam, inertes, numa falta de retribuição que doeria até coração de criança. Quantas vezes não presenciei isso em minha vida? Um músico por perder uma vaga que lhe era tida como certa, um tombo para quem se acha um eterno vencedor? O futebol é um jogo de equipe, e como toda prática coletiva não deve nem pode ser uma briga de foice. (Ninguém quer desprezar a enorme contribuição de Neymar, um gênio, ao nosso futebol. Nem condenar sua opção como eleitor, isso faz parte da democracia). E o que mais impressiona em Richarlison é sua fala, a solidariedade aos que foram seus companheiros desde Nova Venécia, cidade capixaba de 50 mil habitantes: todos seus irmãos de coração, palavras que torna extensivas ao povo brasileiro.


V
oltando aos sobrenomes, à fala de Richarlison, que por acaso tem de família de Andrade, lembrando os milhões de pobres do país, como o deserdado de João Cabral, em seu personagem Severino, sem sobrenome, mal uma origem: “O meu nome é Severino, não tenho outro de pia. (...) Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria; como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias. Mas isso ainda diz pouco: há muitos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo senhor desta sesmaria. Como então dizer quem falo ora a Vossas Senhorias? Vejamos: é o Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba”. “Mas isso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com nome de Severino, filhos de tantas Marias mulheres de outros tantos, já finados, Zacarias, vivendo na mesma serra magra e ossuda em que eu vivia”.


Richarlison Maravilha, nós gostamos de você / Richarlison Maravilha, faz mais um gol pra gente ver!