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segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O MESSIAS E MOISÉS

O Juízo Final, segundo Michelangelo

O nome Messias vem de Messiah, do hebraico romanizado Mashiash; para os judeus, refere-se ao Salvador, que virá redimi-los. Entre os cristãos é Jesus Cristo, que morreu para nos salvar, e na parusia conduzir o Juízo Final, “de onde haverá de julgar os vivos e os mortos”. ‘Messias’, no caso deste artigo, é a conjunção do belo e do perfeito, acima do bem e do mal.
Stradivarius
No auge de sua carreira, em 1716, Antonio Stradivari, ou Antonius Stradivarius, de Cremona (latinizado à moda dos luthiers da época), construiu um violino tão próximo da perfeição quanto humanamente possível. Apaixonado por sua obra-prima, com ele permaneceu durante 21 anos, até morrer. Seu filho Paolo vendeu-o ao conde Cozio di Salabue, conoisseur e colecionador de reputação pouco ilibada, que batizou o instrumento com o nome da cidade de seu título nobiliárquico, Salabue. O preço, corrigido monetariamente, teria sido hoje de meros R$ 62.250.
Jean-Baptiste Vuillaume
Mais de um século após a morte de Stradivarius, Luigi Tarisio, outro voraz colecionador italiano, adquiriu o instrumento e, começando a tradição – ou sina -, ficou com ele também até morrer, em 1854. Outro colecionador e especulador, o grande luthier francês Jean-Baptiste Vuillaume, adquiriu não apenas a obra-prima, mas toda a coleção de Tarisio, o dono da preciosidade. Jean-Delphin Alard, grande violinista e genro do então finado Vuillaume, adquiriu o violino da família pelo equivalente hoje a R$ 1.811.000, uma pechincha. Atualmente, um leilão do instrumento reverteria em tumulto, e com uma grande interrogação: o violino, em princípio, não tem preço.
Conde Cozio di Salabue
Foi em uma conversa entre Tarisio, Vuillaume e Alard sobre a perfeição daquele instrumento, que o último cunhou uma frase decisiva: “certamente, senhor Tarisio, este violino é como o Messias dos judeus, que por ele sempre esperaram, mas nunca chegava”. Bastou para o instrumento ser rebatizado com o nome pelo qual o conhecemos hoje.
A antiga loja e luteria Hill & Sons
A família do especialista Hill, luthier e poderoso colecionador de Londres, adquiriu-o para o Ashmolean Museum de Oxford, onde até hoje é mantido em perfeito estado de novo, e serve de paradigma para todos os luthiers do mundo. Raros tocam ou tocaram o violino, destacando-se o virtuose Joseph Joachim, que declarou por escrito nunca haver tocado em um instrumento de som e volume a um só tempo tão suave e poderoso, opinião dividida com Nathan Milstein, fabuloso solista.
O Parnassus, por Rafael
O ‘Messias’ ficou, assim, a um passo da perfeição, o Gradus ad Parnassum. Parnaso é uma deslumbrante montanha perto de Delfos, na Grécia. Na mitologia, lá morava Apolo, deus da perfeição, da harmonia e da beleza, ladeado pelas musas inspiradoras das artes; também habitava Dionísio, deus das festas, do vinho e do prazer. Nada mais apropriado.
O Papa Julio II, por Rafael
Inspirado em capítulos do Êxodo segundo a Vulgata, tradução latina da bíblia da época, o florentino Michelangelo Buonarroti, gênio da Alta Renascença, começou a construir em 1505, por encomenda do papa Júlio II, uma estátua de Moisés em puro mármore para ser colocada na igreja de San Pietro in Vincoli, em Roma. Ornamentação de pompa, circunstância e vaidade para a própria sepultura papal, foi concluída apenas 32 anos após sua morte, em 1545, tempo de trabalho que o escultor levou para a finalizá-la. Júlio II era conhecido como “o papa guerreiro”, dado o seu histórico exército de muitos embates militares.
Michelangelo interpretou a seu jeito, como os italianos de seu tempo, trechos do Êxodo na Vulgata: Moisés com as tábuas da lei e dois chifres na cabeça, atribuídos a uma tradução equivocada da palavra keren que se referiria a dois raios fulgurantes, a sabedoria que lhe teria sido dada por Deus para sua missão de legislador divino. Uma obra tão perfeita que, segundo se conta, teria feito um Michelangelo raivoso exclamar, depois de atirar sua marreta de trabalho sobre o joelho da estátua: perchè non parli? Por que não falas? (puro folclore popular, segundo especialistas como Antonietta Bandellonni, em Michelangelo Buonarroti è tornato).
Em seu ensaio “O Moisés de Michelangelo”, Freud, admirador do artista, interpreta a obra com detalhes que  descrevem o espírito da escultura com a perspicácia do grande psicanalista e observador apaixonado: “Moisés está sentado, o corpo voltado para a frente, a cabeça com sua volumosa barba para a esquerda, o pé direito apoiado sobre o chão e o esquerdo elevado para que apenas os dedos do pé toquem a base. Seu braço direito apoia as Tábuas da Lei com algo na palma da mão que se parece com um pequeno livro, junto a uma mecha de sua longa barba. O braço esquerdo descansa sobre seu colo”. A obra é tão perfeita, no rosto, nas mãos, nas vestes, na expressão, na simbologia peculiar a Michelangelo – como o as diferenças entre as mãos, as veias da direita saltadas, contrastando com a esquerda, da sabedoria e expressão, em suave repouso. Segundo Freud observou, Moisés teria acabado de descer do Monte Sinai, onde fora expulsar adoradores do Bezerro de Ouro (Êxodo, 32), razão da mão direita sofrida por carregar as Tábuas de pedra.
O Gradus de Debussy
A escolha dessas duas altas figuras bíblicas, Messias e Moisés, como paradigma de obras de arte próximas à perfeição, não foi por acaso, vai além da ligação religiosa dos títulos. Ambas representam a busca pelo perfeito artístico, ideia que dá título a várias peças e estudos de virtuosismo musical, representando os degraus da escalada para a perfeição (Gradus ad Parnassum) - que nunca será atingida.
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Canal do Youtube: https://www.youtube.com/user/autrandourado

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sábado, 8 de agosto de 2020

2020, O ANO QUE AINDA NÃO TERMINOU


Tão, tão cedo, e já ouvimos falar do réveillon que não vai ter, à parte os imprudentes grupos a dar os sete pulinhos da sorte nas ondas das praias. As vagas do mar continuarão indo e voltando, e os habitués se preparam para beijos, abraços e juras, apesar dos riscos. A passagem do ano no dia 31 de dezembro é uma convenção cristã, que ocorre em datas diferentes em outras religiões e calendários. Após o réveillon, saudemos o carnaval que não haverá, talvez soníferas reprises na TV, como nas novelas. E não há como prorrogar esse deus-dará para além do carnaval: de hoje a tantos meses, a imprevisibilidade dá tom e compasso.
Mais comedidos, celebremos um Natal diferente, que poderá acontecer sem maiores rega-bofes nas pequenas famílias confinadas: uma ceia ” com mínimos riscos, mesmo que entre poucos familiares. Os mais ricos e prudentes terão gordas festas on-line, têm cacife para tais repastos e tecnologias. Aos mais pobres, um frango com arroz, grandes famílias se amontoando em um cômodo - alijadas, por exclusão social, além dos banquetes, das toneladas de advertências despejadas sobre nós pela mídia.
Jean Cousin: A parusia e o Juízo Final
Pelo calendário gregoriano, celebra-se o nascimento do Salvador no dia 25 do mês. Que venha a parusia, segunda vida do Senhor na Terra, conforme o apóstolo Paulo. Que seja logo, o mundo padece demais: a natureza que o Pai criou, as florestas, a flora e a fauna. E, Senhor, não nos esqueça, pecadores a sofrer as provações deste ano.
Baile funk
Não, Chico, não dá pra cantar “aqui na terra tão jogando futebol / tem muito samba, muito choro e roquenrol” (talvez só a parte do samba que diz “mas o que eu quero é lhe dizer / que a coisa aqui tá preta”). Futebol? Nas praias, ou bola de meia na periferia, por conta e risco. Samba? Dançam o funk em bandos, despreocupados. Só não nos faltará uma parte da letra da música: o choro! (Não aquele das notas musicais, mas as lágrimas que molham os lenços de uma imensidão de famílias enlutadas).
Mas o Brasil deve continuar! Precisamos eleger nossos edis e alcaides, pois sem eles perderemos de vez as rédeas do futuro, em meio à desordem constitucional. Venceremos esta etapa da postergação do pleito por um mês, para novembro, e quem sabe então veremos a reta pandêmica ascendente se curvar, apesar das desobediências e inobservâncias - ingênuas ou estimuladas - a que assistimos.
Há um lado positivo no provável escrutínio por voto manual, sem os botões que seriam apertados incontáveis vezes pelos cidadãos, entre eles os contaminados (luvas cirúrgicas para quase 150 milhões de eleitores estão fora de cogitação!). Aos mesários convocados, sonho de proteção por cabines acrílicas bem vedadas na frente, nos lados e em cima, saunas em tempos de calor. Um ar condicionado ajudaria muito, mas quantos parcos municípios poderão arcar com o acrílico, quantas as raríssimas seções dotadas de refrigeradores de ar no país? Perfeccionismo impossível, desconfortos por um dia a poupá-los de maiores riscos.
Foto: agazeta.com.br
Votaremos sem o tão sonhado biométrico, mas, mesmo assim, caberá sufragarmos com consciência, longe dos perigosos cantos das sereias e discursos ensandecidos. Com o voto manual, ao menos serão frustrados os velhos arautos de alegadas fraudes nas urnas eletrônicas, que justificavam suas futuras ou passadas derrotas eleitorais.
Índice Infomoney
Trump faz bandeira de campanha sua guerra particular contra a poderosa China, que antes raspava nos 7% de PIB ao ano, e neste 2020 tem previsão do FMI para 1,2%. Pior ainda, se na guerra de factoides o Brasil continuar a seguir o líder, perderemos os parceiros chineses, responsáveis por mais de 1/3 dos nossos negócios internacionais.
Mas não nos rendamos ao popular ‘senta e chora’. Médicos de hoje não mais iludem e passam a mão na cabeça de pacientes desenganados dizendo ‘está tudo bem’, camuflando a verdade. Tal qual, um país que sobrevive com respiradores não pode ser enganado: o panorama não é alentador, é sombrio. A busca permanente por informações, a injeção de realidade e a visão crítica de um panorama em que, do lado pandêmico, sonha-se com promessas de vacinas que em breve serão bem-sucedidas, mas nem tão cedo aplicadas em larga escala. Há os vaivéns econômicos, um navegar sem rumo visando a um delirante mercado 100% livre e uma economia quase nada regulamentada, à moda do surrado “deixai fazer, deixai passar”, que ainda sobrevive mais de um século depois.
Gérard de Nerval
Decepciona inexistir correlação de forças para alguém apresentar planos, programas e caminhos a seguir, fora das moléstias ou sequelas políticas a serem enfrentadas com o debelo da melancolia – que, como disse o francês Gérard de Nerval (1808-1855), é passividade mórbida, “uma ‘doença’ que consiste em vermos as coisas como elas realmente são”.
Como partes de um todo, resta-nos prosseguir juntos e de cabeça erguida, lembrando Magrão e Sá na voz do Milton: “Nada a temer, senão o correr da luta / nada a fazer, senão esquecer o medo, medo / abrir o peito à força, numa procura / fugir às armadilhas da mata escura”.
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Canal no Youtube: https://www.youtube.com/user/autrandourado
Livro: Memórias de Isolamento - Saudosos Velhos Amigos e outras Crônicas: memoriasdeisolamento@gmail.com