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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

O DESATINO DA BOSSA

 

Dizzy

C
omo todo movimento musical na história, não se pode precisar o início da bossa-nova, assim como não se pode estabelecer quando começaram os movimentos norte-americanos que mais lhe foram influentes, como o bebop e o cool jazz. Do bop saíram nomes como os trompetistas Miles Davis e Dizzy Gillespie, os contrabaixistas Thelonious Monk e Ray Brown e os saxofonistas Charlie Parker e Sonny Stitt, dos quais apenas dois não assisti ao vivo. E vieram o jazz-rock, o pop-jazz, o jazz-fusion, o cuban-jazz e naquele miolo todo estava a marca que contaminava a nascente bossa; aos poucos, ao contrário, nós influenciávamos os americanos. Interessante lembrar a música “Influência do jazz”, de Carlos Lira. Coisa do CPC da UNE, crítica mas abraçada às novidades. “Estamos aí” (Ferreira/Einhorn), de 1962, é um tema intricado para se cantar, e faz sucesso até hoje, como tem sido desde a versão inesquecível de Leny Andrade. Pega carona no estilo, também, a grande sambista Elza Soares, um prodígio do chamado scat singing, técnica que faz uso de um improviso geralmente em alta velocidade utilizando percussivamente sílabas desconexas. A Elza o Brasil deve o samba-jazz, o sambalanço e suas variantes.

Jackson do Pandeiro

A
propósito das controvérsias naturalmente surgidas sobre essas influências, um bamba paraibano chamado Jackson do Pandeiro saiu com a genial “Chiclete com banana”, tirando uma do mimimi generalizado: “Só ponho / bebop no meu samba / quando o Tio Sam / pegar no tamborim”,  para mais adiante desafiar “...quando ele pegar / no pandeiro e no zabumba / (...) eu vou misturar / Miami com Copacabana / chicletes eu misturo com banana / e o meu samba vai ficar assim”. Certa dissenção que houve nos EUA também chegou aqui: uma prática jazzística de pendores mais brancos, intelectualizada, poucos altos e baixos melódicos, voz meio que falada; era o cool-jazz (disso o Nelson Gonçalves, o vozeirão romântico, criticando o jeito de certa ala bossa-novista de cantar, tirou proveito: gravando com Caetano Veloso, que naqueles tempos navegava nas ondas do cool-bossa, o baiano pediu a Gonçalves que subisse um pouco o tom. Estava difícil, para ele, um tenor, dialogar com aquele vozeirão de barítono no registro mais grave. Gonçalves abusou da ironia e atirou em um terceiro - “vai falando, como faz o João Gilberto” -, matando dois coelhos de uma cajadada só.

Carnegie Hall, 1962

O
cool pegou também em Carlos Lira, Dick Farney, Lúcio Alves e outros, sem deixar de fora vozes femininas suaves e meigas como a de Nara Leão. Seria o tempo dos bossa-crooners? Já estávamos no final dos anos 1950, quando o movimento formava corpo para “tomar de assalto” os EUA, no famoso show de estrelas no Carnegie Hall, em 1962, quando mostraram o que é que o brasileiro tem. Encantaram Stan Getz, Frank Sinatra e muitos outros, para depois adotarem o brazilian jazz – que àquela altura já existia aqui – e que contaminou a América do Norte.

Com a escova

U
m compositor, cantor e pianista brasileiro de nome artístico americanizado, Jhonny Alf, de “Eu e a brisa”, havia sido deixado um pouco à margem da turma, pois alguns o achavam “made in USA” demais. Ajudou-o Tom Jobim, que de cima de sua autoridade afirmou que Alf teria, sim, sido o pai da bossa-nova. Estava batizado o novo bossa-novista. Mas foi em 1955, num trabalho conjunto de Jobim e Billy Blanco, “Hino ao Sol”, para muitos o início da Bossa, o despertar de um movimento que persiste e influencia até hoje - mesmo que Billy Blanco, músico e também arquiteto, fosse um pouco obscuro para o grande público, uma timidez que o levava ao intimismo da bossa (nascida nos apartamentos de Copacabana, onde bateristas como Edison Machado, Dom Um Romão e Milton Banana tinham de tocar “como em uma caixa de fósforos”, para o ruído não gerar brigas com a vizinhança). Toc-toc da baqueta esquerda no aro da caixa, às vezes apenas a do tipo escova, que com seu xique-xique fez reduzir o volume dos grupos. De vilã, a bateria passou a heroína da bossa de Copacabana.

O Lundu

H
ouve movimentos de puristas, claro, contra a “invasão ianque” do nosso samba, nosso puro e casto samba. Alguns críticos se alvoroçaram contra a bossa-nova, esquecendo-se de que o auriverde samba nascera do maxixe, danças angolanas e congolesas. O maxixe veio da habanera, tango brasileiro e polca, e já era mal visto pelas classes abastadas, tido como semelhante ao Lundu, dança do final do século 19 dos cabarés dos bas-fond cariocas. Aquela pureza tão decantada pelos nacionalistas carrancudos nunca existiu, isso aliás não existe na música - fosse assim a única música genuinamente brasileira seria a dos povos indígenas, que chegaram aqui muitos séculos antes de nós. E o que veio depois, com a bossa-nova, também tinha traços de Debussy e Ravel, principalmente pelas mãos de Jobim. Tudo o que sucedeu a bossa teve o DNA dela, como a jovem-guarda, a tropicália, ritmos em que a batida de violão do adorado João Gilberto volta e meia reaparece, tocado com as pontas dos dedos em sequência rítmica que marcou a história.

Espinoza

E
sses dissensos e casamentos na música são fontes de rica diversidade, mais precisamente o alimento da chamada linha evolutiva da MPB. Quando se digladiam ou quando se casam, forças aparentemente antagônicas fazem a música viva, enriquecendo-a e alimentando seu caminho com novos elementos. Os mais conservadores se enclausuram. Lembrando a filósofa Marilena Chaui, caminhemos com o pensador de seus estudos, o espanhol Espinoza. Uma frase resume tudo, da arte à política: "dos conflitos emergem as soluções".

 

sábado, 8 de agosto de 2020

2020, O ANO QUE AINDA NÃO TERMINOU


Tão, tão cedo, e já ouvimos falar do réveillon que não vai ter, à parte os imprudentes grupos a dar os sete pulinhos da sorte nas ondas das praias. As vagas do mar continuarão indo e voltando, e os habitués se preparam para beijos, abraços e juras, apesar dos riscos. A passagem do ano no dia 31 de dezembro é uma convenção cristã, que ocorre em datas diferentes em outras religiões e calendários. Após o réveillon, saudemos o carnaval que não haverá, talvez soníferas reprises na TV, como nas novelas. E não há como prorrogar esse deus-dará para além do carnaval: de hoje a tantos meses, a imprevisibilidade dá tom e compasso.
Mais comedidos, celebremos um Natal diferente, que poderá acontecer sem maiores rega-bofes nas pequenas famílias confinadas: uma ceia ” com mínimos riscos, mesmo que entre poucos familiares. Os mais ricos e prudentes terão gordas festas on-line, têm cacife para tais repastos e tecnologias. Aos mais pobres, um frango com arroz, grandes famílias se amontoando em um cômodo - alijadas, por exclusão social, além dos banquetes, das toneladas de advertências despejadas sobre nós pela mídia.
Jean Cousin: A parusia e o Juízo Final
Pelo calendário gregoriano, celebra-se o nascimento do Salvador no dia 25 do mês. Que venha a parusia, segunda vida do Senhor na Terra, conforme o apóstolo Paulo. Que seja logo, o mundo padece demais: a natureza que o Pai criou, as florestas, a flora e a fauna. E, Senhor, não nos esqueça, pecadores a sofrer as provações deste ano.
Baile funk
Não, Chico, não dá pra cantar “aqui na terra tão jogando futebol / tem muito samba, muito choro e roquenrol” (talvez só a parte do samba que diz “mas o que eu quero é lhe dizer / que a coisa aqui tá preta”). Futebol? Nas praias, ou bola de meia na periferia, por conta e risco. Samba? Dançam o funk em bandos, despreocupados. Só não nos faltará uma parte da letra da música: o choro! (Não aquele das notas musicais, mas as lágrimas que molham os lenços de uma imensidão de famílias enlutadas).
Mas o Brasil deve continuar! Precisamos eleger nossos edis e alcaides, pois sem eles perderemos de vez as rédeas do futuro, em meio à desordem constitucional. Venceremos esta etapa da postergação do pleito por um mês, para novembro, e quem sabe então veremos a reta pandêmica ascendente se curvar, apesar das desobediências e inobservâncias - ingênuas ou estimuladas - a que assistimos.
Há um lado positivo no provável escrutínio por voto manual, sem os botões que seriam apertados incontáveis vezes pelos cidadãos, entre eles os contaminados (luvas cirúrgicas para quase 150 milhões de eleitores estão fora de cogitação!). Aos mesários convocados, sonho de proteção por cabines acrílicas bem vedadas na frente, nos lados e em cima, saunas em tempos de calor. Um ar condicionado ajudaria muito, mas quantos parcos municípios poderão arcar com o acrílico, quantas as raríssimas seções dotadas de refrigeradores de ar no país? Perfeccionismo impossível, desconfortos por um dia a poupá-los de maiores riscos.
Foto: agazeta.com.br
Votaremos sem o tão sonhado biométrico, mas, mesmo assim, caberá sufragarmos com consciência, longe dos perigosos cantos das sereias e discursos ensandecidos. Com o voto manual, ao menos serão frustrados os velhos arautos de alegadas fraudes nas urnas eletrônicas, que justificavam suas futuras ou passadas derrotas eleitorais.
Índice Infomoney
Trump faz bandeira de campanha sua guerra particular contra a poderosa China, que antes raspava nos 7% de PIB ao ano, e neste 2020 tem previsão do FMI para 1,2%. Pior ainda, se na guerra de factoides o Brasil continuar a seguir o líder, perderemos os parceiros chineses, responsáveis por mais de 1/3 dos nossos negócios internacionais.
Mas não nos rendamos ao popular ‘senta e chora’. Médicos de hoje não mais iludem e passam a mão na cabeça de pacientes desenganados dizendo ‘está tudo bem’, camuflando a verdade. Tal qual, um país que sobrevive com respiradores não pode ser enganado: o panorama não é alentador, é sombrio. A busca permanente por informações, a injeção de realidade e a visão crítica de um panorama em que, do lado pandêmico, sonha-se com promessas de vacinas que em breve serão bem-sucedidas, mas nem tão cedo aplicadas em larga escala. Há os vaivéns econômicos, um navegar sem rumo visando a um delirante mercado 100% livre e uma economia quase nada regulamentada, à moda do surrado “deixai fazer, deixai passar”, que ainda sobrevive mais de um século depois.
Gérard de Nerval
Decepciona inexistir correlação de forças para alguém apresentar planos, programas e caminhos a seguir, fora das moléstias ou sequelas políticas a serem enfrentadas com o debelo da melancolia – que, como disse o francês Gérard de Nerval (1808-1855), é passividade mórbida, “uma ‘doença’ que consiste em vermos as coisas como elas realmente são”.
Como partes de um todo, resta-nos prosseguir juntos e de cabeça erguida, lembrando Magrão e Sá na voz do Milton: “Nada a temer, senão o correr da luta / nada a fazer, senão esquecer o medo, medo / abrir o peito à força, numa procura / fugir às armadilhas da mata escura”.
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Canal no Youtube: https://www.youtube.com/user/autrandourado
Livro: Memórias de Isolamento - Saudosos Velhos Amigos e outras Crônicas: memoriasdeisolamento@gmail.com