LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****

sexta-feira, 24 de março de 2023

O QUE FARÃO COM A NOSSA LÍNGUA?

 


R
ecentemente minha filha, química que mora na Bélgica, ao ler uma decisão judicial que lhe mandei porque nos interessava, perguntou-me: por que juízes e advogados escrevem tão complicado? Não poderiam fazê-lo de um jeito que todo mundo pudesse entender? (A primeira coisa que me veio à cabeça foi: por que vocês químicos, teóricos e laboratoristas também não redigem de forma mais simples, sem hieroglifos, para que todos compreendam?) Respondi de forma mais ou menos simples: é uma espécie de linguagem formal da profissão. Há fórmulas e vocabulário consagrados nesse jargão forense que são usados daqui ao Oiapoque e ao Chuí, viajando para lá e para cá entre palavras e expressões latinas. Não é uma linguagem concebida ‘para todo mundo entender’, ela visa apenas ao seleto grupo que participa de determinado assunto ou processo, que está envolvido nele ou no estudo de seu fazer. E isso também vale para os técnicos em astronomia, virologia, especialistas em inteligência artificial e por aí vai. E abriga o dialeto particular de neurocientistas, lexicólogos e psicanalistas, assim por diante.

Florestan Fernandes

O
estudo de algum assunto muito específico – voltemos aqui à música popular - pode ser, digamos assim, “eruditado”, na medida em que quem examina o assunto usa uma visão analítica complexa, com certeza apenas para ser entendida pela sua classe, e não o público em geral. Um bom exemplo dei outro dia acerca da própria palavra ‘erudição’, a respeito de uma antiga polêmica acerca da expressão “música erudita”, que teria – grifo, teria! - sido criada por Mário de Andrade. Mas nem perto, Mário fez apenas uma alusão a um certo ‘transporte erudito’ do eminente professor Florestan Fernandes (“Mário de Andrade e o Folclore Brasileiro”. SP: Revista do Arquivo Municipal, vol. XCI, 1946): “Os contatos iniciais da arte popular com o folclórico, portanto, perdem o caráter de um compromisso estreito com a tradição para adquirir, ao contrário, o caráter de libertação natural do tradicional”. (Em tempo: tive a honra de ter sido colaborador em estudos de políticas públicas na área da Cultura do Instituto Florestan Fernandes para a cidade de S. Paulo).

Mário de Andrade e Câmara Cascudo

E
ste conceito de Fernandes, a “transposição do folclore para o campo erudito”, claro, é o de um sociólogo de vulto, não o de um folclorista. A passagem da “transposição do folclore para o campo erudito”, deve, sim, ser creditada a ele, Florestan Fernandes, Patrono da Sociologia Brasileira (Lei nº 11.325/2006). Processo visto, portanto, mais aos olhos de um cientista social do que de folcloristas como Mário de Andrade e Câmara Cascudo.

"Croquettes"

S
egundo o conceituado etimólogo Deonísio da Silva, em seu “De Onde Vêm as Palavras” (RJ: Ed. Lexicon, 2004), erudito vem do latim eruditus, “palavra formada de ex rudis- aquele que deixou de ser rude, (...) tornou-se instruído”, com toda a carga de preconceito que essa origem possa trazer. Designa também os que, como o pedante gramático Antônio de Castro Lopes, rejeitam as contribuições populares de nossa língua: propôs substituir abajur por ‘lucivelo’, anúncio por ‘preconício’, cachecol por ‘castelete’. Machado de Assis deu-lhe o troco: “nunca comi croquettes, por mais que digam que são boas, só por causa do nome francês. Tenho comido e comerei filet de boef, com a restrição mental de estar comendo lombo de vaca”. Completa dizendo que “fillet de boeuf virou (...) bife, apenas,
com um sotaque meio ridículo. “Os gramáticos, como o sapateiro de Apeles, não podem sair das sandálias” (dar pitaco em assunto que não conhecem).

Assino a comparação de Machado, que fez um acréscimo de fina ironia: “...à semelhança dos sexólogos, que podem orientar-nos; jamais nos substituir na hora de falarmos ou escrevermos”. A proposta do gramático Antônio de Castro Lopes de “eruditar” a língua chega a ser ridícula, enquanto a fala de Machado rebatendo-o é simplesmente hilária e saborosa. Lembra de novo o próprio Mário de Andrade: “Você sabe o que é singe, mas não sabe o que é guariba. Pois é macaco, seu mano, que só sabe o que é da ‘estriba’” (você sabe o que é singe [macaco, em francês], mas não sabe o que é guariba [em português] ...e só sabe o que é ‘da estriba’, estrangeiro).

Estratégias eruditas para uma nova arte: 

Caros amigos, o desenvolvimento contínuo de distintas formas de atuação nos obriga à análise das posturas dos órgãos dirigentes com relação às suas atribuições. Por outro lado, a consulta aos diversos militantes talvez venha a ressaltar a relatividade das diretrizes de desenvolvimento para o futuro. Não obstante, a contínua expansão de nossa atividade pode nos levar a considerar a reestruturação das novas proposições.


N
ão, não fui eu o autor: este último parágrafo foi 100% elaborado por um mecanismo da Internet chamado “Gerador de Lero-lero”, e não quer dizer coisa alguma (conheça em lero-lero.bgn.com.br). O “Gerador” é uma simples brincadeira, mas pegou e ainda faz “piada séria” sobre qualquer assunto. Hoje, já existe uma forma aprimorada de inteligência artificial, bem à frente do Gerador, que chega a enganar os mais incautos: o ChatGPT (link: openai.com), mecanismo de software extremamente complexo, capaz de maravilhas que parece fazerem sentido, ou quase, elaborando textos com aparente exatidão. Aparente. Só imagino o que essa ferramenta poderá fazer, sozinha, com o universo erudito, muito em breve. Um “samba do crioulo doido” em tempos de informática de última geração. 

O que farão com a nossa língua?

 

sábado, 18 de março de 2023

COBRA ENGOLINDO COBRA

 


Recebi um aviso no celular para que os condôminos de onde eu moro limpem e capinem seus terrenos, se vazios, para evitar animais peçonhentos que costumam se alojar entre restos de obras, capim, madeira. Coisa comum onde há mato, áreas verdes como um bosque, lugar onde eles se escondem, entre preás, carcarás e outros bichos. Junto com o texto, a foto de uma cobra enrolada em um poste, lembrando uma das inúmeras ilustrações de Adão e Eva: a árvore do mal, e ambos no paraíso prestes a cometerem o pecado da maçã proibida. Aqui não era uma cobra imensa, como em algumas daquelas ilustrações, nem tinha cara de capeta ou era mais parruda do que o tronco, como em outras. Mas era uma cobra de se tirar o chapéu (e passar correndo)! O condomínio vizinho, já totalmente construído, optou por predadores de peçonhentos como escorpiões: vê-se aqui e ali grupos de pavões, angolas ciscando sabe-se lá o quê, e com sua técnica especial cortam o ferrão do aracnídeo, onde fica o perigoso aguilhão (fonte: Fiocruz).


Mas e a expressão “ver a cobra fumar”? Lembra algo como “galinha criar dente”. Bom, por volta de 1944 corria pelo Brasil o boato de que o país entraria na 2ª Guerra Mundial. A hipótese parecia tão impossível que jornalistas, de chacota, fizeram uma aposta: era mais fácil ver uma cobra fumar do que o Brasil ingressar no conflito (melhor do que galinha criar dente). Pois não é que entrou, e a Força Expedicionária Brasileira (FEB), por ironia, passou a usar como símbolo uma cobra fumando um cachimbo? Toda verde, fundo amarelo, sob um dístico azul onde se lê, em branco - as cores da Bandeira Nacional! - “Brasil”. Um ano antes, o primeiro Grupo de Aviação de Caça criara seu logo: um avestruz com um escudo representando o Cruzeiro do Sul, na asa direita uma arma expelindo uma bala. “Senta a Pua”, bradavam os soldados da aeronáutica, e daí surgiram brasão e lema de combate da Força Aérea.


“A cobra vai fumar” traz uma aura de medo, como “o bicho vai pegar”, e às vezes “é hora da decisão”. Agora, se for por ordem sabe-se lá de quê ou quem – “cobra mandada”, segundo nosso rico folclore -, é um modo de dizer que sob a ordem de alguém do mal fará o mal. O folclorista Câmara Cascudo diz que “cobra mandada” veio da cantiga da roça “os olhos dele são de ‘cobra mundiada’”, entendendo-se por “mundiado” o jeito de olhar de alguém meio que hipnotizado para cumprir o mando do mal. Já quando se diz que fulano gritou “cobras e lagartos” é porque a pessoa falou coisas terríveis sobre outrem. E “copla” era uma deliciosa forma poética espanhola de métrica variável da Idade Média, como o villancico, com coplas (estrofes) variáveis. Na América Latina, casta e pura, a copla veio a mesclar-se de vez às canções de Natal.


Algumas expressões associam “cobra” a experiente, com expertise em algum assunto, tal como “ele é cobra nisso” (ou, ao contrário, malaco, “cobra criada”). Não somente nas coisas ruins, às vezes tem um lado bom. Pois se “ninho de cobras” é lugar onde vai gente ruim, pode ser também o da elite experta. Há cobras na música: o serpentão, instrumento sinuoso de sopro criado na França do século 16, e sua variante “serpent d’église” (de igreja), entre vários outros. Há a dança do fandango paulista que é brincada serpenteando – daí o “cobra” -, nome também da “cobrinha”, um passo jocoso do maxixe. Cobra, na cultura popular, tem essa ideia de fila, como em “olha lá vai passando a procissão / se arrastando que nem cobra /pelo chão” (G. Gil).


Não é sem um pouco de maldade que se diz “matar a cobra e mostrar o pau”, algo como “resolver o assunto e provar”, geralmente em auto-exibição. Haja vista a historieta contada por Monteiro Lobato, em seu livro “Fábulas” (SP: Ed. Brasiliense, 1960), “O homem e a cobra”: nesta fábula, ao encontrar uma cobra ferida, ele a levou ao peito, para aquecê-la, e chegando em casa colocou-a junto ao fogão. Saiu para trabalhar e, ao retornar, lá estava ela toda cheia, com a língua esticada, em posição de bote. O sujeito, furioso, armou-se de um pedaço de pau e a matou, chamando-a de ingrata. Diz-se que se alguém mata a cobra a pauladas e, como fosse um estandarte, ele a exibe, é para mostrá-la como troféu. Já cobra que perde o veneno é o gaiato que fica atormentado com algo ruim que lhe aconteceu, mas é incapaz de reagir.


Ah, elas são terríveis: podem ser más ou nem tanto, mais dóceis ou assassinas; dão nome a danças, instrumentos ou festejos de procissões, são o fiel da balança do mal entre Adão e Eva ou, ao contrário, o mensageiro da tentação. Na farmácia, o cálice está associado à cura, e a serpente ao saber, à ciência. Mais ainda: na medicina, Asclépio, deus da cura na mitologia grega, tem em seu bastão a cobra-símbolo do espiritual sobre o corporal, a própria constante renovação (troca de pele, ou couro), entre a luta para salvar e o risco ver morrer; também se atenua ou anula um veneno com o seu próprio (e não seria essa a base para vacinas e tratamentos alternativos, como a homeopatia?).


Pelo sim, pelo não, mesmo havendo aqui e ali um lado simpático no popular, é de bom alvitre carpinar o mato, como se diz no interior, para afastar o risco desses animais peçonhentos, como as cobras-Quixotes e suas companheiras Sancho Panza, as lagartas. “Cobra engolindo cobra” é briga sem fim, de igual para igual, dizem os jagunços; é cantoria em ‘moto perpétuo’, estrofes de duas palavras – cobra e engolindo - repetidas emendadamente, como rosca sem-fim. 

Bora, povo, carpinar, roçar e limpar o matagal!



 

sexta-feira, 10 de março de 2023

ERUDITOS E ERUDÍPTEROS

 


M
udei-me para Boston (EUA), em 1977, e fiquei em um apartamento na cidade de Brighton, em New England, onde morava um saxofonista brasileiro, Zé Nogueira. Lá conheci o outro morador, o guitarrista argentino Victor Biglione, tão bom nos acordes e floreados quanto nas brincadeiras. Vendo-me estudar quase o tempo todo – m’apparecchiava a sostener la guerra, como Dante em La Divina Commedia -, deu-me um apelido: “erudíptero”. Fazia uma troça com a palavra erudito e algo pré-histórico, como o pássaro-dinossauro pterodáctilo. Não me importava, devolvia-lhe a brincadeira (incomodava-me a sombra pré-histórica, talvez). Nos EUA simplesmente não existe a expressão “música erudita” – como de resto na Inglaterra, na Alemanha, na França, na Itália e todos os demais; não me incomodava a pecha, coisa de Brasil, eu só não sabia o real significado, que viria a descobrir mais tarde.  

Universidade de Coimbra

A
erudição é um bem, desenvolve a capacidade de investigar e analisar - é algo como sapiência, diz o dicionário. E lembra aqueles jovens de beca, toga e capelo da Universidade de Coimbra, Portugal, instituição fundada em 1.290 e homologada em 1.537. Mas em Portugal não existe a tal “música erudita”! Em italiano, é erudizione, em inglês, erudition, em espanhol erudición, em francês érudition e em alemão Gelehrsamkeit – como palavras isoladas, nunca em uma expressão tal qual ‘música erudita’. Usa-se Klassischemusik, classical music, musique classique e por aí vai. E nós, por que não música clássica? Estrangeiros esticam o pescoço e franzem as sobrancelhas quando ouvem alguém daqui dizer “música erudita” (foi esta a reação do maestro alemão Felix Krieger). Tal reflexão foi o Vitinho quem me despertou, via “erudíptero”, logo ele que estudava guitarra até no armário, com as escusas pela indiscrição.


N
o Rio de Janeiro praticamente inexiste a expressão “música erudita”. O comum é lermos “música clássica”, ou “de concerto”, contexto bem mais amplo e flexível – o que é natural, gêneros não ficam trancafiados em gavetas, eles se comunicam, se tocam, se trocam. Eu, pessoalmente, prefiro “de concerto”, e por onde estive foi o que levei. Linguagens se encontram, multiplicam-se. Razão de eu ter escrito um artigo para a Revista Concerto, de circulação nacional, intitulado “por que eu odeio música erudita”. Defendi que as origens da estranha expressão estariam no Rio, mais precisamente na Universidade do Brasil (hoje ENM da UFRJ) e na criação da OSN (Orquestra Sinfônica Nacional). No primeiro caso, para justificar a criação de cargos de professor de música na carreira universitária em uma época em que tal curso sequer existia (e, não havendo curso superior na área, não haveria, claro, diplomas para os candidatos ingressarem). Os músicos foram equiparados aos seus colegas “eruditos” de Direito na Universidade. No segundo caso, em 1960 – ano da criação da Orquestra Sinfônica Nacional -, criou-se no quadro de cargos e salários o título “professor de orquestra”, para que o músico pudesse receber vencimentos mais dignos, como os dos seus colegas universitários.


E
ssa discussão SP-RJ quase seria um jogo Fla-Flu entre paulistas (incluindo eu, mineiro!) e cariocas. Com alguma razão o grande pesquisador Flávio Silva escreveu na edição seguinte da revista que isso de “erudito” teria sido invenção paulista. Ora, que fosse, meio de longe, com Mário de Andrade, talvez, mas vale explicar melhor em que contexto ele teria inserido essa erudição, conforme alguns relatos, como os do estudioso Henrique L. Alves (em “Mário de Andrade”, Ed. Ibrasa). O grande educador paulistano defendia as raízes brasileiras da nossa música, bom pesquisador de folclore que era. Assim, achava que o compositor deveria fazer em sua obra uma “transposição erudita” dos elementos de raiz para sua composição. Isso foi só, Andrade ele mesmo nunca se referiu à música dos salões sinfônicos, de ópera ou recitais sob o epíteto de “música erudita”. Enfim, foram dois artigos nossos com intervalo de um mês, colóquio que poderia ter sido espichado para o futuro, não fosse o inesperado falecimento do pesquisador Flávio Silva, em 8/10/2019.

Camargo Guarnieri

Erudíptero”, ideia do Vitinho (apelido do Victor Biglione) ressurgiu em minha cabeça há dias como uma anedota, após ler um trecho sobre o Mário de Andrade na tese de PhD da minha filha Marta, que vive em Londres, cujo objeto de estudo foi o tieteense Camargo Guarnieri, ex-aluno – como se sabe, muito bem aplicado - de Andrade (vide os choros, ponteios e modinhas do compositor). Passadas décadas, a brincadeira do Victor passou a fazer mais sentido: “música erudita” seria um antigo animal paquidérmico, pura ironia. Quanto ao saudoso Flávio Silva, hoje concordo que em parte lhe assistia alguma razão. Enfim, concluo agora, “nada como a tintura do tempo”, como diz um provérbio inglês, pois, divergências esclarecidas, poderíamos discutir de forma mais saudável. Aos que abusam de “música erudita”, um alerta, o rótulo não agrega público: usará ele, o povo, um dicionário para saber-lhe o significado, se isso pesar na decisão de ir ou não ao concerto? Zé Povino só gosta daquilo que ele “re”-conhece, como disse McLuhan - e se vê excluído dessa “música erudita”. “O artista só tem que dar, pros elementos já existentes, uma transposição erudita que faça da música popular música artística”, disse Mário de Andrade.  E foi só isso aí.

No dia 5 de março comemorou-se o “Dia Nacional da Música Clássica” (Decreto de 13/01/2009). Felicidades!

Mário de Andrade


 

sexta-feira, 3 de março de 2023

DEUS E O DILÚVIO NA TERRA DO SOL

 


A
água é implacável. Tanto que Deus confiou a Noé, homem de coração puro, que um imenso dilúvio sobreviria, cobrindo a Terra até que toda a vida desaparecesse. E mandou-o construir uma enorme arca, de dimensões suficientes para transportar a bordo o que deveria levar na missão, a salvo do castigo. Ele queria que Noé, sua família e animais, sobrevivessem ao dilúvio, para ao final começarem o repovoamento da Terra: raça humana e fauna. E Deus fez-lhe o plano nos mínimos detalhes: “Você fará uma arca em madeira gofer, depois divida-a em compartimentos e revista-a de betume por dentro e por fora” (Genesis, 6:14). O dilúvio seria tanto um grande castigo pelo mal que imperava na Terra quanto sua purificação; a arca, travessia segura para recomeçar o mundo.


F
evereiro de 2023. O longo e caudaloso temporal que achacou o Litoral Norte de São Paulo não chegou a volumes ínfimos se comparado com o que descreve o Gênesis a título de lição, mas ceifou – até a manhã do dia 24 - a vida de 52 pessoas. Deixou um enorme número de feridos, 2,5 mil desabrigados e incontáveis órfãos, parentes e amigos dos mortos ou desaparecidos. Foram necessários 200 bombeiros e 100 homens do efetivo do Exército para salvar, tratar, e para escavar os rescaldos de uma guerra implacável e o desespero. Faltou água potável, preciosidade que chegou a ser vendida por atravessadores a 90 reais a garrafa -indivíduos que não respeitam sequer o sofrimento humano para seu injustificável e egoísta proveito financeiro. Sem dizer da fome, dos alimentos destruídos ou levados pelo barro e até mesmo pelos piratas da lama, ávidos por saquear o que surgisse. Esqueceu-se das infecções, hepatite, leptospirose, gastroenterite, tétano e uma série de outras ameaças que acossam as vítimas desses flagelos. E o medo, um medo de ser impossível a fuga daquele tormento sem limites.


D
ebates sobre ações preventivas são intermináveis e não são de ontem. Guilherme Simões, secretário nacional de Políticas para Territórios Periféricos do Ministério das Cidades, irritado, pegou no fígado, em entrevista ao UOL (22/02): “Defender que para prevenir desastres é simplesmente retirar as pessoas das áreas de risco é falta de senso de realidade. Tirar para onde? Sem uma política de moradia você retira a família e ela vai para outra área de risco”.  Politicamente, a curto prazo essa remoção de moradores das encostas traz algum efeito, saneia cosmeticamente. E foi preciso um secretário de ministério para alertar que o problema é mais complexo e demorado – pior ainda, demanda continuidade de obras passadas as eleições! “Obras para prevenir tragédias das chuvas não geram voto”, completou.

Caraguá 1967

M
as não foi um recorde. Números não escalam as estatísticas em linha reta, crescem oscilando em volume e frequência. Ora, em março de 1967, quando as condições de infraestrutura e moradia eram ainda mais precárias, Caraguatatuba, também no Litoral Norte de São Paulo e então com apenas 15 mil habitantes, viu uma tormenta desabar e levar 400 vidas, deixando outras centenas desaparecidas. Na manhã do dia seguinte, o jornal A Tarde dava como manchete: “Em dez minutos, quatrocentos mortos”, cabeça de matéria farta de descrições lúgubres de um cenário que mais parecia o de um abatedouro. Se, nos dias de hoje, as condições de permeabilização da terra para absorção de enormes volumes de água são péssimas, imagine há 56 anos. Permeabilizar, escorar morros e encostas, canalizar córregos, construir casas populares de boa alvenaria e, em suma, criar estruturas condizentes com o reerguimento da cidade eram sonhos futuros, mas esses sonhos ainda repousam na imaginação.


V
oltando para São Sebastião/Bertioga: 57 mortos (25/02). O volume de chuva se superou: 683 mm, ou seja, 68,3 cm por metro quadrado. Carlos Nobre (ex-Inpe), o mais reputado climatologista brasileiro, reforça que eventos climáticos como essa catástrofe estão e se tornarão cada vez mais frequentes. Os que acreditam que esses desastres são glamourizados por organizações “de esquerda” que copiam modismos de primeiro mundo vão morder a própria língua, e, muito pior, desabrigar, ferir e mesmo tirar vidas humanas. Fauna, flora e o complexo do meio ambiente estão juntos com o ser humano nesta aventura da vida, ou, fazendo um paralelo com a lição de Noé, nesta arca imaginária da qual fazemos parte.  O climatologista fez o alerta dizendo que as recentes tempestades do litoral norte paulista foram três vezes maiores do que aquilo que os modelos de previsão utilizados indicavam. E que é um desafio enorme para a ciência conseguir antecipar que esses picos gradualmente mais altos possam ser previstos na natureza a cada ano, no mundo inteiro.


D
e todas as observações feitas sobre o assunto, a que parece mais pertinente é a sábia frase – não uma tese, pura constatação - do secretário do Ministério das Cidades, Guilherme Simões: “Obras para prevenir tragédias das chuvas não geram voto”. Eis o ponto. Com pouca verba ou dinheiro mal empregado para manutenção da cidade, resta menos ainda, quem sabe, do que é visível para a população e nada rende em dividendos eleitorais. Pois se assim o é, que diria da nada vistosa e insossa engenharia de salvaguarda da população? O povo, voluntário, a sociedade civil, em geral, e mesmo entidades e empresas podem doar víveres e até emprestar sua mão de obra. Mas nunca farão o milagre de substituir o que aqueles que de direito e de fato deveriam fazer: a sua parte ao administrar as cidades.

 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

COMO UM OBJETO NÃO IDENTIFICADO

 


A
ntes de tudo, partindo do nada: algo que voa e não se sabe o que é. Ou seja, ÓVNI, segundo o Houaiss denominação genérica para esses objetos, ou UFO (Unidentified Flying Object) em inglês. Mais recentemente, oficiais norte-americanos classificaram-nos como UAP (Unidentified Anomalous Phenomenon), Fenômeno Anômalo Não-Identificado, sigla de abrangência mais ampla devido ao largo espectro de significados e possibilidades que encerra. Já ÓVNI é associado diretamente, até mesmo por uso e costume, aos discos-voadores (que nem sempre surgem em forma de discos!) Já o UAP pode ser desde um artefato a um fenômeno atmosférico ou meteorológico.  Em 2022 a NASA anunciou uma equipe de estudos de UAPs, para separar o joio do trigo, ao passo que pequenos grupos de ufólogos enxergam hipóteses pseudocientíficas nada convencionais, apontando nos “objetos” evidências de uma vida extraterrestre que talvez... sequer tenha nascido. Neste segundo caso há uma certa crendice, incensando o assunto com um misticismo que lembra alguma seita, envolta em mistérios e crenças.

Spitfire

L
embro-me de um tio, na minha adolescência, que dedicou parte de sua vida aos estudos desses “objetos”. Colecionava revistas, matérias de jornais, entrevistava cidadãos alegadamente abordados por ETs e conectados com vida inteligente fora da Terra. Uniu essa obsessão a um talento, desenhar, o que fazia com perfeição à ponta de lápis finos, H: os lindos grandes quadros de caças da II Guerra como o alemão Messerschmitt e o inglês Spitfire, de cabine única, que tem seus descendentes até hoje. Sobre uma prateleira, miniaturas de aviões, foguetes e ÓVNIs, preciosidades. Eu e um primo, filho desse tio ufólogo, armamos uma pegadinha: uma miniatura de disco voador feita de chumbo, pendurada em uma finíssima linha de pesca em cuja outra ponta atamos uma pedra; jogada por sobre cabos elétricos de postes da rua (que perigo!) foi içada a uma altura que dava a impressão de o disco estar sobrevoando a Terra. O tio, claro, não se entusiasmou nada com a foto e voltou a tratar do Centro de Investigação Civil sobre ÓVNIs, do qual era presidente. Talvez por isso eu não tenha caído no time dos que acreditam à primeira vista, mas estarei de braços abertos se um dia um ÓVNI ou ET me aparecer pela frente.


C
om a guerra fria, após o final da II Guerra, relatos sobre ÓVNIs, feitos principalmente por pilotos de caças americanos, muitos deles sob a égide de “classified documents”, “top secret”, começaram a encher um departamento inteiro na NASA. Ora, sabe-se lá se esses arquivos fazem referência a artefatos de espionagem soviéticos ou, talvez, a discos ou cilindros voadores com ou sem ETs a pilotá-los a passeio? (As teorias da conspiração sobre o assunto falam até em controle por inteligência artificial, encontros e mesmo abduções de inspiração cinematográfica por extraterrestres ou tendo eles próprios como modelos para filmagens). Há cientistas levando tudo isso a sério e há descrentes, grande maioria, mais engajados em fazer troça, brincadeiras e, em tempos modernos, memes sobre o tema.

(Ilustração: G1)

C
idades como Varginha, em MG, e São Raimundo Nonato, no Piauí, são pródigas em relatos sobre aparições de ÓVNIs e ETs, e é claro que o simples fato de haver registros sobre esses eventos já cria um ambiente propício a futuros acontecimentos correlatos, seja no campo da observação, seja no da mais fértil imaginação. No dia 23/11/20, um clarão assustou populações não apenas de São Raimundo Nonato, pela tradição da cidade – que já foi usada em cena de A Caverna, um espetáculo do músico e inventor suíço Walter Smetak -, mas também Teresina, Floriano e outras. A explicação é simples, segundo o prof. de física e pesquisador do IFPI Ayrton Vasconcelos: a região faz parte da rota de artefatos humanos de exploração “dada a proximidade com a Linha do Equador e pelo movimento de rotação da Terra”.   Tratava-se de um foguete chinês em direção à lua, visto entre os planetas Júpiter e Saturno, cujo lançamento fora até noticiado pelo New York Times. A região é privilegiada, razão pela qual Alcântara, no Maranhão, é onde se encontra o Centro de Lançamento da Agência Espacial Brasileira. Já Varginha, no sul de Minas, ficou famosa por ter sido onde três meninas teriam visto um ET, depois supostamente capturado por militares. Nos tempos seguintes vieram mais aparições, merecedoras de filmes, livros e muita elucubração.

Canadá-Alasca

N
o dia 11 de fevereiro de 2023 caças americanos derrubaram um “ÓVNI” cilíndrico na altura da fronteira do Canadá com o Alasca, e no dia 12 outro objeto, este de forma octogonal, sobre o lago Huron, em Michigan, nos EUA. Só mais um caso de espionagem nas relações nada amigáveis entre russos e norte-americanos nesta guerra fria? Pior ainda, envolvendo a China, que seria a lançadora do objeto, tendo como pano de fundo o conflito russo-ucraniano? Não, não eram ÓVNIs, apesar de inicialmente terem provocado certo frisson entre ufólogos e aficionados. Seriam artefatos chineses acusados de supostamente espionar os EUA, tendo como contrapartida objetos semelhantes que vêm sendo usados pelos americanos para bisbilhotar a China. Qualquer coisa que voa ou está voando pode ser alvo dessas especulações: “Carcará / é um bicho que avoa que nem avião” (João do Vale e José Cândido). Ou, mais suavemente e planando em suave poesia, como cantou Caetano Veloso: “minha paixão / há de brilhar / na noite / no céu de uma cidade do interior / Como um objeto não identificado”.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

O DESATINO DA BOSSA

 

Dizzy

C
omo todo movimento musical na história, não se pode precisar o início da bossa-nova, assim como não se pode estabelecer quando começaram os movimentos norte-americanos que mais lhe foram influentes, como o bebop e o cool jazz. Do bop saíram nomes como os trompetistas Miles Davis e Dizzy Gillespie, os contrabaixistas Thelonious Monk e Ray Brown e os saxofonistas Charlie Parker e Sonny Stitt, dos quais apenas dois não assisti ao vivo. E vieram o jazz-rock, o pop-jazz, o jazz-fusion, o cuban-jazz e naquele miolo todo estava a marca que contaminava a nascente bossa; aos poucos, ao contrário, nós influenciávamos os americanos. Interessante lembrar a música “Influência do jazz”, de Carlos Lira. Coisa do CPC da UNE, crítica mas abraçada às novidades. “Estamos aí” (Ferreira/Einhorn), de 1962, é um tema intricado para se cantar, e faz sucesso até hoje, como tem sido desde a versão inesquecível de Leny Andrade. Pega carona no estilo, também, a grande sambista Elza Soares, um prodígio do chamado scat singing, técnica que faz uso de um improviso geralmente em alta velocidade utilizando percussivamente sílabas desconexas. A Elza o Brasil deve o samba-jazz, o sambalanço e suas variantes.

Jackson do Pandeiro

A
propósito das controvérsias naturalmente surgidas sobre essas influências, um bamba paraibano chamado Jackson do Pandeiro saiu com a genial “Chiclete com banana”, tirando uma do mimimi generalizado: “Só ponho / bebop no meu samba / quando o Tio Sam / pegar no tamborim”,  para mais adiante desafiar “...quando ele pegar / no pandeiro e no zabumba / (...) eu vou misturar / Miami com Copacabana / chicletes eu misturo com banana / e o meu samba vai ficar assim”. Certa dissenção que houve nos EUA também chegou aqui: uma prática jazzística de pendores mais brancos, intelectualizada, poucos altos e baixos melódicos, voz meio que falada; era o cool-jazz (disso o Nelson Gonçalves, o vozeirão romântico, criticando o jeito de certa ala bossa-novista de cantar, tirou proveito: gravando com Caetano Veloso, que naqueles tempos navegava nas ondas do cool-bossa, o baiano pediu a Gonçalves que subisse um pouco o tom. Estava difícil, para ele, um tenor, dialogar com aquele vozeirão de barítono no registro mais grave. Gonçalves abusou da ironia e atirou em um terceiro - “vai falando, como faz o João Gilberto” -, matando dois coelhos de uma cajadada só.

Carnegie Hall, 1962

O
cool pegou também em Carlos Lira, Dick Farney, Lúcio Alves e outros, sem deixar de fora vozes femininas suaves e meigas como a de Nara Leão. Seria o tempo dos bossa-crooners? Já estávamos no final dos anos 1950, quando o movimento formava corpo para “tomar de assalto” os EUA, no famoso show de estrelas no Carnegie Hall, em 1962, quando mostraram o que é que o brasileiro tem. Encantaram Stan Getz, Frank Sinatra e muitos outros, para depois adotarem o brazilian jazz – que àquela altura já existia aqui – e que contaminou a América do Norte.

Com a escova

U
m compositor, cantor e pianista brasileiro de nome artístico americanizado, Jhonny Alf, de “Eu e a brisa”, havia sido deixado um pouco à margem da turma, pois alguns o achavam “made in USA” demais. Ajudou-o Tom Jobim, que de cima de sua autoridade afirmou que Alf teria, sim, sido o pai da bossa-nova. Estava batizado o novo bossa-novista. Mas foi em 1955, num trabalho conjunto de Jobim e Billy Blanco, “Hino ao Sol”, para muitos o início da Bossa, o despertar de um movimento que persiste e influencia até hoje - mesmo que Billy Blanco, músico e também arquiteto, fosse um pouco obscuro para o grande público, uma timidez que o levava ao intimismo da bossa (nascida nos apartamentos de Copacabana, onde bateristas como Edison Machado, Dom Um Romão e Milton Banana tinham de tocar “como em uma caixa de fósforos”, para o ruído não gerar brigas com a vizinhança). Toc-toc da baqueta esquerda no aro da caixa, às vezes apenas a do tipo escova, que com seu xique-xique fez reduzir o volume dos grupos. De vilã, a bateria passou a heroína da bossa de Copacabana.

O Lundu

H
ouve movimentos de puristas, claro, contra a “invasão ianque” do nosso samba, nosso puro e casto samba. Alguns críticos se alvoroçaram contra a bossa-nova, esquecendo-se de que o auriverde samba nascera do maxixe, danças angolanas e congolesas. O maxixe veio da habanera, tango brasileiro e polca, e já era mal visto pelas classes abastadas, tido como semelhante ao Lundu, dança do final do século 19 dos cabarés dos bas-fond cariocas. Aquela pureza tão decantada pelos nacionalistas carrancudos nunca existiu, isso aliás não existe na música - fosse assim a única música genuinamente brasileira seria a dos povos indígenas, que chegaram aqui muitos séculos antes de nós. E o que veio depois, com a bossa-nova, também tinha traços de Debussy e Ravel, principalmente pelas mãos de Jobim. Tudo o que sucedeu a bossa teve o DNA dela, como a jovem-guarda, a tropicália, ritmos em que a batida de violão do adorado João Gilberto volta e meia reaparece, tocado com as pontas dos dedos em sequência rítmica que marcou a história.

Espinoza

E
sses dissensos e casamentos na música são fontes de rica diversidade, mais precisamente o alimento da chamada linha evolutiva da MPB. Quando se digladiam ou quando se casam, forças aparentemente antagônicas fazem a música viva, enriquecendo-a e alimentando seu caminho com novos elementos. Os mais conservadores se enclausuram. Lembrando a filósofa Marilena Chaui, caminhemos com o pensador de seus estudos, o espanhol Espinoza. Uma frase resume tudo, da arte à política: "dos conflitos emergem as soluções".

 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

DISSECANDO A MENTIRA

 


E
u nunca diria “nunca antes neste país”, porque, mesmo certo mas sem segurança, pareceria estar mentindo, a despeito de não fazê-lo. Poderia, talvez, dizer “nunca antes em minha vida” (se mentisse, não seria comprovável). Pois nunca vi tanta mentira, tanto embuste, enganação e lorota como hoje. Veja o fake, cuja consagração nas mídias equivale a um Grammy, enquadrando com ouro os embustes: a falsidade se torna tão real que pode usurpar o espaço da verdade. O resto, ah, fica por conta da boca do povo, “telefone sem fio” que transforma tudo em verdade, até esquecermos onde a dita cuja foi parar.


S
egundo o caderno de filosofia Neurohacks, da BBC (26/10/16), uma equipe de cientistas liderada pela Drª Lisa Fazio saiu em campo para investigar como a ilusão do “efeito da verdade” interage com a nossa mente, se ela alteraria o conhecimento. Foram contrapostas afirmações verdadeiras e não-verdadeiras, como “O Oceano Pacífico é o maior oceano da Terra”, a outro exemplo conhecido, “O Oceano Atlântico é o maior oceano da Terra”, item não-verídico que as pessoas podem terminar reconhecendo como “verdade verdadeira”. O pesquisador Tom Stafford assegura que um fato pode tornar-se verdadeiro, mesmo sem o ser, e a compreensão desses efeitos pode ajudar o indivíduo a evitar as ciladas da propaganda.


U
m princípio no qual teria se baseado Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, ao supostamente proferir o corolário “Uma mentira repetida dez vezes se torna verdade”, é: quanto mais o indivíduo ouve algo, mais nele crê como verossímel, e quanto mais ele o repete mais acelera seu efeito multiplicador. Mc Luhan, nos anos 1960, em “O meio é a mensagem” (com o trocadilho em inglês mensagem/mass-age, “era das massas”) estudou os efeitos dessa multiplicação. (Ainda nas décadas pós-Goebbels/McLuhan, pesquisadores interpolaram um quadro entre os demais 23 na película com que se fazia cada segundo de filme naquela época, criando um efeito subliminar – ou seja, este quadro, entre os demais 23 em um segundo, não seria percebido e compreendido de forma liminar. Para confirmar, em experiências feitas em salas de cinema, naquele quadro “invisível” estava o logo da Coca-Cola com fundo vermelho, imagem que ficaria gravada no subconsciente de cada um e, terminada a sessão, teria multiplicado a sede do público pelo refrigerante, nos quiosques do saguões de entrada.


F
azer confusão, mesmo que seja no vaivém, no mente-desmente e mente novamente, faz ressurgir o efeito Pacífico-Atlântico, às vezes com grande impacto. Certa medicação inócua para combate à Covid, propagandeada insistentemente, foi usada apesar de desmentida sua eficácia. “Fulano é ladrão” (ou não é), o eu disse mas não disse, e até o famoso “a imprensa distorce tudo, coloca tudo fora de contexto”, generalizando a afirmação para desacreditar a fonte, personificando-a na “imprensa” como una. Ao final, prevalece o que for mais forte, mais verossímel, em geral o que foi mais repetido. Um exemplo desse efeito verso-reverso: recentemente, um certo senador declarou, por espontânea vontade, que teria tido uma reunião para que o atual presidente fosse impedido de tomar posse e um ministro de corte superior intempestivamente preso. Depois, renunciou ao mandato, modificou a narrativa e retirou sua renúncia, tendo terceiros a causar ainda mais confusão ao imbroglio, para que ficasse o dito e o redito por não dito. Ex-político e ex-instrutor da conhecida SWAT norte-americana, ele estaria na crista da onda da suposta armação, mas, duro na queda, treinado no esquadrão de elite americano, desfez e fez mais confusão. Experiência como ator ele tem: no filme Tropa de Elite, de José Padilha e Marcos Prado, treinou atores na simulação de investidas da Polícia em favelas. Restam aos que deverão questioná-lo judicialmente os velhos documentos dos autos, acareações e instrumentos forenses de praxe, uma vez que na habilidade de prestidigitador ele é mestre (não à toa, ele teria sido o “eleito” para engambelar e grampear um ministro de tribunal superior).

Carl Jung

O
suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra e psicanalista, tinha certa obsessão pelos subterrâneos da mentira, como em “O Indivíduo Moderno em Busca de uma Alma”: “...mas nós não podemos viver o entardecer da vida conforme o programa de vida da manhã – porque o que era grande de manhã será pequeno à noite, e o que de manhã era verdade terá se tornado mentira à noite”. E como, em grau diminuto, a mentira está presente em nosso dia a dia: “A observância de leis e costumes pode facilmente ser um manto para encobrir mentira tão sutil que nossos companheiros, seres humanos, são incapazes de detectá-la”.

(Helena Xausa - BBC)

H
á aquela mentirinha social: “não posso ir, não passei bem”, ou “belo quadro”, “justamente o que eu esperava” (para agradar), e a comercial: “está novinha”, mesmo usada, “custa o dobro por aí”. Mas a pior, a pior de todas, é a mentira política, pois ela sangra os cofres públicos e faz uma volta para ir dar na conta de um parente ou em uma mansão no exterior. O real mentiroso age tão bem que chega a pensar que a falsidade que prega é verdadeira, e quando a desmente, sente estar mentindo, e o faz com a convicção ao avesso.


Acima de tudo, não minta para você mesmo. O homem desleal a si próprio que ouve sua própria mentira chega a um ponto em que não pode discernir a verdade, e perde o respeito para consigo mesmo e os outros. Não havendo respeito, ele para de amar” (Fyodor Dostoievsky: Os Irmãos Karamazov).

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

ÍNDIO QUER APITO, ÍNDIO QUER DIREITO

 


Era o ano de 1961, da posse e da velada tentativa de autogolpe de Jânio Quadros, em agosto. Havia tensão, e o clima um tanto conturbado, para variar, frequentemente escorregava para a anedota (não havia redes sociais!). Como aquela que se referia ao presidente estrábico e de pés tortos, na piada um índio querendo apito - claro, o poder. Haroldo Lobo e Milton de Oliveira lançaram um tremendo sucesso, inspirado na anedota: “ê ê ê ê ê / índio quer apito / se não der pau vai comer” - assíduo nos carnavais de décadas, mesmo que após aqueles tempos não se soubesse de que político se falava. Mas que era certo político, todo mundo sabia. Já uma índia suavizava o clima: a versão para o português de uma guarânia dos paraguaios Assunción Flores e Manuel Guerrero feita por José Fortuna em 1952: “Índia / seus cabelos nos ombros caídos / negros como a noite que não tem luar / seus lábios de rosa / para mim sorrindo...” Tem ainda a divertida “A índia vai ter neném / mais um, mais um, mais um que vem / Depois que vem o ‘baby’ / chefe pinta o ‘baby’ de urucum” (Dircinha Batista, 1964).


Em 2011, escrevi para o jornal O Progresso o artigo Geografia do Brasil, passando por cidades, morros, baías, praias e rios de nomes indígenas: Guanabara, Arariboia, Carioca, Anhanguera, Piracicaba, Chuí, Tietê, Paranapiacaba,  enfim, um pequeno glossário. A cada lugar por que meu texto passava, a tradução para o português e menção a algum personagem histórico local. Em Pindamonhangaba (lugar onde os anzóis são feitos, em tupi-guarani), fiz menção, sem citar o nome, a “um menino predestinado, já três vezes governador”. Passado um tempo, recebi uma dedicatória em papel timbrado do Gabinete do Governador, que reproduzo sem falsa modéstia: “Henrique Autran Dourado, com o seu talento a Geografia do Brasil ficou melhor. Seu artigo enaltece lugares, fatos e personagens importantes da nossa história, ao lado dos quais muito me honrou a sua referência. Parabéns! Abraço do Geraldo Alckmin” (por ironia, hoje vice-presidente da República). Alguém lhe teria entrege um exemplar do jornal em uma passagem por Pindamonhangaba.


Boa parte do nosso vocabulário, as influências musicais, nossa culinária, turismo - parece tão fácil ir a Ipanema ou Ubatuba sem saber onde estamos -, são tantas as raízes que talvez seja preferível fingir que não vemos ou sabemos, ou que nos é realmente desconhecido. Do Jobim de “...braços abertos sobre a Guanabara”, da “Garota de Ipanema”, do “Urubu” ou do “quero me casar com Janaína” (do Edu Lobo, Yemanjá na cultura mesclada afro-indígena), lá estão nossos povos originários, os que nos antecederam; da nossa mandioca, tapioca, ambas do tupi, o aipim, o açaí, o abacaxi, moqueca, pipoca, jaboticaba, quindim... O que seria do canto do sabiá, do jogo no Maracanã? Pois são sete grupos de línguas tais como Arikém, Juruna, Mondé, Mundurukú, Ramaráma, Tuparí, e só no Tupi-Guarani são 21, mais três isoladas: Aweti, Puruborá e Sateré-Mawé (fonte: EBC).


Existe um povo especial, o Yanomami, cujas origens na região datam mais de um milênio. Teriam tomado posse das cabeceiras dos rios Parima e  Orinoco, e lá desenvolveram suas próprias línguas (até o final do séc. 19, os Yanomami não conheciam senão poucas tribos indígenas, e o homem branco lhes era desconhecido). A partir de 1970/80, em Roraima, eles tiveram contato com colonização, fazendas, obras, serrarias e garimpos, invasão que provocou “um choque epidemiológico de grande magnitude, causando altas perdas demográficas, uma degradação sanitária” (fonte: PIB/SA).

O líder Davi Kopenava Yanomami

A visão do líder Davi Kopenava Yanomami pode até ter alguma poesia, de tão rica, mas é apocalíptica: “
A terra-floresta só pode morrer se for destruída pelos brancos. Então, os riachos sumirão, a terra ficará friável, as árvores secarão e as pedras das montanhas racharão com o calor. Os espíritos xapiripë, que moram nas serras e ficam brincando na floresta, acabarão fugindo. Seus pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los para nos proteger. A terra-floresta se tornará seca e vazia. Os xamãs não poderão mais deter as fumaças-epidemias e os seres maléficos que nos adoecem. Assim, todos morrerão." Em 2011, os Yanomami eram, entre o Brasil e a Venezuela, 35 mil, e hoje se estima em 30 mil. No Brasil, seus 95.650 km² de floresta tropical são reconhecidos “por sua alta relevância em termos de proteção da biodiversidade amazônica e foram homologados por um decreto presidencial de 25/05/1992” (Bruce Albert, IRD).


A
penas em 2022 o desmatamento pelo garimpo ilegal na terra Yanomami aumentou 25%, ou seja, um quarto (Inpe). Malária, diarreia, desnutrição e, principalmente, doenças causadas pelo venenoso mercúrio usado no garimpo, são os principais vilões do massacre indígena. Somente no dia 26/01 foram seis mortos. O Hospital da Criança, em Boa Vista, tinha, naquela data, 64 pacientes internados, sendo sete em UTIs, e a Casai (Casa de Saúde Indígena) 700 Yanomamis aguardando atendimento. Quase cem crianças indígenas morreram no ano passado pelas mesmas causas - 570 crianças em poucos anos!

Há conscientização e até mobilização internacional sobre o assunto, que pensa em vidas e no meio ambiente como um todo: os olhos do planeta se voltam para as reservas, onde o quadro é doloroso como no triste poema Rosa de Hiroshima, de Vinicius de Moraes: “Pensem nas crianças / mudas telepáticas / pensem nas meninas / cegas inexatas / (...) pensem nas feridas /como rosas cálidas”. Pensem e reflitam.