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sexta-feira, 10 de abril de 2020

"NO DIA EM QUE EU VIM-ME EMBORA"


Nessa belíssima e melancólica canção, Caetano Veloso descreve sua partida para a capital, em busca de seus sonhos. Em 7/7/77, eu embarcava em um voo para NY, conexão para Boston. (Na Cabala o número 7 fala de equilíbrio, e no somatório volta ao 1, da autoconfiança. Na Kabballah judaica, sete é o número dos que gostam de viagens).  Levava pouca coisa, além de meu instrumento. Ao pousar, fui para o apartamento de um amigo brasileiro em Brighton, na região chamada New England, onde fiquei meses. Mas não foi o melhor dia para ter chegado: ao acordar após uma noite tranquila, andei até a janela da sala e levei um susto, a neve na sacada alcançava mais de um metro de altura! Ao olhar para baixo, onde os carros? Tudo branco!
A neve bloqueara a portaria do prédio. Subi, liguei a velha TV e ouvi vários alertas, telefones de resgate e de helicópteros para emergências. Descobri então que eu vivia a maior blizzard dos últimos 150 anos! Enquanto a TV gritava em tom alarmista, fui procurar algo para comer. Na geladeira, uma fatia de pão e uma cebola inteira. Comi o pão, para na hora do almoço, ouvindo as notícias, amargar fatia por fatia da cebola, crua, com sal e um pouco d’água. Um pacotinho com dois biscoitinhos, brinde do voo, fez boa sobremesa. Dia seguinte, vizinhos caprichosos tinham cavado um túnel para sairmos. Vi pessoas andando e as segui até chegarem à fila de um mercadinho. Deu para comprar alguma comida.
Ainda sob neve, seguindo a trilha

79, Gainsborough St. Revisitando em 2009
Mudei-me para Allston, mas o dinheiro do metrô me pesava tanto quanto a escolha entre fumar ou café da manhã. Por praticidade e economia, fui morar downtown Boston, centrão, na Gainsborough St., rua da New England Conservatory, onde passei a estudar (atrás do prédio do Boston Symphony Hall, casa de uma das melhores orquestras do mundo). O apartamento, um pequeno cômodo, uma cozinha e um banheiro. O prédio, daqueles antigos de tijolos aparentes à inglesa com simpáticas baywindows, janelas protendidas. O meu era o de nº 79 - ao lado do 77, onde, só descobri mais tarde, em 1962 havia morado e começou uma trilha de sangue o terrível “estrangulador de Boston”, autor de 13 assassinatos de senhoras idosas. (FRANK, Gerold. The Boston Strangler. Boston: NAL, 1966).
O mapa dos estrangulamentos, segundo Gerold Frank. Início no
prédio 77, onde morava.

Um pequeno aparelho de som, o meu instrumento, uma cama feita de caixas de leite cobertas por uma espuma. Achei na rua um daqueles rolos de madeira para cabos telefônicos, levei-o comigo e... hélas, uma mesa! Chegou o outono, início do ano letivo, e não valendo o preço da mudança os estudantes que deixavam as várias universidades largavam nas calçadas um sortimento de bugigangas para quem quisesse. Levei uma TV P&B, uma torradeira, uma máquina de escrever vintage  Remington de teclas redondas e outras coisas de que precisava. (Nas horas mais difíceis, algumas vezes uma amiga brasileira me levava um tupperware com arroz, feijão e um pedaço de carne).

Meus corais de Bach
Praticava das 6h da manhã até sair correndo a pé para o ensaio da orquestra, às 9h. Depois do almoço, aulas e enfim retornar à casa, estudar ao menos outras três horas de instrumento e duas ou três para a parte teórica e leitura de um dos 371 corais de Bach para analisar, em um tecladinho mequetrefe - e lá se ia a jornada. Para o almoço, cena comum nas ruas, às vezes uma grande fatia de pizza de 90 ¢, suspensa entre os dedos e escorrendo gordura enquanto eu andava. Às vezes, eu ia a uma steak house (Newbury’s), onde degustava a opção mais barata, US$ 2.60, uma fatia de carne sobre um pão de forma. Para desespero do gerente, enchia a barriga no self-service com três ou quatro tigelas de salada com molho roquefort.
Newbury's Steak House

"A bailar la salsa, ritmo changüi": Roxbury
Findo o dia, voltar e estudar horas a fio, até que minha rotina passou a ser alterada por convites para tocar salsa em grupos latinos de Roxbury, uma espécie de enorme gueto que começava do outro lado da New England - barra pesada, mas pagavam no ato. Minha vizinhança não era das mais finas: restos de macarrão ou arroz jogados pela janela, enormes ratazanas lá fora e camundongos e baratas dentro. Com o frio, meses e meses de neve, trancado, bastava abrir a janela ao lado da mesinha redonda para gelar uma longneck no name (genérica) em minutos. Vida preferencialmente solitária e com o mínimo possível - tempo de lutar com um sorriso esperançoso.

O suntuoso Boston Symphony Hall
O isolamento necessário ao meu crescimento musical prescindia de maiores gastos. Festinhas eram raras, tudo conspirava  para meu estudo e futuro, o resto era secundário. Mesmo conquistando um cargo no staff do Symphony Hall e depois de conhecer as guildas de cachês de orquestras em Boston e cidades vizinhas, o recesso diário continuou fundamental (são mil na plateia e só um no palco, dizia meu professor, abrindo-me os olhos para a competição). No inverno, as pessoas isolavam-se mais ainda: sair? Encoberto até o rosto, uma “escala” em uma loja para aquecer e correr em frente.
New England Conservatory: Jordan Hall
Fora as necessárias saídas e raras badaladas, foram tempos essenciais à minha formação, escolhera uma escola dificílima de se entrar - e concluir -, mas caminho para oportunidades profissionais. Tempos de leituras, de introspecção, de longa distância e escassa comunicação com a família. Mas foi esse estágio de confinamento que me abriu caminhos intelectuais, musicais e como pessoa. A ele devo tudo.
Por isso, não me estranha muito a atual quarentena. Buscar um lugar ao sol já me é apenas um retrato na parede, e posso trabalhar particularmente. O recolhimento que vivi e certas dificuldades por que passei servem-me bem nas horas dessas penitências que pagamos pela atual pandemia e suas ameaças devastadoras. 

domingo, 10 de fevereiro de 2019

UNIVERSIDADE OU FACULDADE?

A Academia de Platão (Rafael Sanzio, 1.510)

Para não nos alongarmos voltando a Platão (387 a.C.) e todo o longo caminho percorrido até hoje, vale recorrer ao Houaiss, muito confiável para breves consultas. Diz o verbete universidade: “Instituição de ensino e pesquisa constituída por um conjunto de faculdades”. E sobre faculdade, esclarece: “Instituição de ensino superior (isolada ou integrante de uma universidade”). A exemplo, na USP há quase trinta Faculdades, Escolas e Institutos, cada um com número considerável de cursos.
Mais de uma vez ouvi referências a alguma ‘universidade de música’. Trata-se de algo inexistente, pois por definição vimos que uma universidade engloba diversas áreas do conhecimento. Faculdades às vezes agrupam mais de uma área, e parecem sonhar a ampliação rumo a um patamar maior, a universidade. Exemplo é um curso de música que criei e dirigi em SP, trabalho extenuante iniciado em 2005, hoje referência entre as particulares. Essa faculdade também congrega cursos de agronomia, direito e administração.
exame.abril.com
Criar um curso com o aval do MEC é como um trabalho de Hércules. Mínimo de doutores, mestres e, enfim, bacharéis, as classes seguindo um modelo padrão para todas as áreas e a pouca compreensão do ministério sobre a especificidade musical. Há entraves como aulas individuais de instrumento em um quadro de classes e horários a ser preenchido dentro de certas regras fixas; faz-se de conta que todos os alunos do curso terão aulas sozinhos na mesma hora. Após a formatura da 1ª turma, outra visita do MEC autorizará ou não o curso – no caso mencionado, foi nota máxima.
Universidade de São Paulo (Jorge Maruta/USP imagens)
Na esfera pública, conheço os meandros da USP, da qual me aposento em breve,  onde há uma ligeiramente maior autonomia. Mas a Fuvest... Bom, a adequação da Música às regras da Fuvest teve, na medida do possível, algumas poucas melhoras, mas é nonsense pensar a música inserida em um universo tão multifacetado e hermético. O problema maior hoje ainda não é só o do ingresso de alunos, mas o de professores. Eu havia chegado com um diploma de peso dos EUA, mas após poucos tempo houve uma publicação da reitoria no Diário Oficial, em nome do ‘interesse acadêmico’, dando-me prazo para fazer o mestrado.
Prof. Emérito Sábato Magaldi (arquivo pessoal)
Mas qual mestrado? Não havia tal curso em música! Como alguns colegas, pensei, escolhi e fui aceito em Artes Plásticas. Confesso que aproveitei, mas quando o Departamento de Música emplacou seus três doutores e abriu o curso de mestrado foi lá que eu concluí o título. O mesmo se deu com o doutorado: não havia ainda tal curso em música. Lá fui eu me preparar, recuperar o francês (o inglês já tinha sido o idioma no mestrado), e a sorte de ter como orientador o saudoso e imortal da ABL Sábato Magaldi. Quando chegou a vez do doutorado, foi como a forma musical ‘variações sobre um tema’: repeti a dose do mestrado, e quando o curso foi estabelecido no Departamento de Música mudei-me outra vez para lá.
(Fondazione Stauffer)
Hoje, o título de doutor é pré-requisito para ingresso nas públicas. Isso traz maior peso aos Departamentos, mas tolhe o ingresso de alguns dos melhores profissionais das Artes: sequer poderiam se inscrever estrelas internacionais como Nelson Freire e Antonio Meneses, só para citar dois nomes reverenciados internacionalmente, sem falar em tantos excelentes músicos brasileiros ou estrangeiros que residem aqui. Um hipotético aluno, ‘encadeando’ diplomas, mesmo sem ter feito apresentações de porte ou tocado em orquestra de primeira no currículo, logo se torna apto a disputar uma vaga. Essa rotina de títulos é desconhecida no exterior: meu professor de instrumento mal se formou bacharel e já era o orientador mais procurado, como solista do naipe na Sinfônica de Boston. Isso, aos 23 anos de idade.
Eleazar de Carvalho com Marguerite Long: Légion d'Honneur
Eleazar de Carvalho, nosso maestro maior, foi titular da famosa Yale University tendo apenas um bacharelado. Recebido com todas as honras e a presença do presidente brasileiro, chegou agraciado com sua cátedra e o título de doutor honoris causa da própria Yale.  

Harvard University
O renomado educador Caio Moura Castro publicou na Veja (fev. 2005) “Harvard, quem diria, Acabou no Irajá”, parodiando a peça “Greta Garbo, quem diria...”, de Fernando Melo. Disse ele que certo dia Larry Summers, presidente de Harvard University, teria assistido a um desfile da Beija-Flor e se apaixonado. Logo trouxe mala e cuia, comprou casa em Nilópolis, convidou os melhores professores, criou ali uma Harvard tropical. Mas o MEC, ao inspecionar, acabou com o curso por estar em desacordo com as ‘regras’. Essa alegoria de Moura Castro não é cômica, é trágica.

Prova escrita da Fuvest
Agora, o pior de tudo: nas escolas superiores dos EUA - conheço mais de 30 delas -, a prova maior, decisiva, não é uma Fuvest, e sim tocar para uma banca. No Brasil, ao equiparar um vestibular de Música ao de Engenharia, perde a primeira: ao contrário dos candidatos aos outros cursos, que quase nada sabem de suas profissões almejadas, alunos de música devem chegar prontos, ou seja, tocando bem. Não se faz um violinista ou um pianista em quatro anos, a universidade apenas lapida o aluno que já tem bom desempenho. Daí a necessidade dos bons conservatórios, escolas de música ou ótimas escolas preparatórias, como as de algumas instituições americanas.
Jordan Hall, New England Conservatory
As melhores escolas superiores de música dos EUA têm 250 (Curtis), 800 (New England) ou 1.000 alunos, às vezes um pouco mais. E cômputo geral são muitas, de todos os níveis. A diferença se sente na hora da duríssima competição, que tem princípio com o ingresso no curso até uma boa colocação como músico profissional. Aos jovens músicos brasileiros, digo sempre que devem escolher bem seu professor, e uma boa universidade ou faculdade. Diploma só pelo diploma serve para começar a galgar etapas para um dia chegar a doutor e prestar concurso para lecionar em uma boa universidade. Ou para ter direito a prisão especial.


domingo, 2 de outubro de 2016

NOMES, SOBRENOMES E LIVRE ASSOCIAÇÃO

Sigmund Freud
A livre associação foi um dos grandes achados de Freud em seu método psicanalítico. Não sou da área, apenas aficionado pela leitura do assunto, mas posso falar informalmente para abrir este texto. Freud passou a se utilizar dos sonhos e da livre associação (via regia, em latim, ou seja, via real) em suas sessões de psicanálise. Trata-se de um meio natural e menos agressivo e intromissor do que a hipnose de seu colega Breuer. Ela consiste em fazer o paciente ouvir uma palavra e dizer imediatamente outra, sem deixar seu consciente inibir o jogo que leva a revelações do inconsciente.

Na livre associação, a cada palavra dada o paciente tem de dizer outra diferente, no popular “o que der na telha”. Por exemplo, na sequência imaginária de palavras a seguir, a primeira é dita pelo psicanalista, enquanto a segunda pelo paciente, sem pensar: carro/pai, água/praia, beijo/mãe, flor/ freio. Tudo anotado em sua prancheta, o psicanalista já teria, nessa curta série fictícia de palavras, algumas ligações possíveis, como “carro/pai” associando o primeiro à virilidade de seu pai. Já “carinho/mãe” revela a imagem da mãe que conforta, como na frase bíblica “junto àquele que me conforta” (do latim omni possum in eo qui me confortat), em Filipenses 4:13, com frequência erroneamente traduzida para “naquele que me fortalece”). Já “flor/freio” foi um diferencial que imaginei, em que a associação do suposto paciente vem pela consoante “f” (labiodental, em gramática, pois ela é produzida pelos dentes superiores contra o lábio inferior). Mas é possível supor que “freio” é algo que pode conter a “flor”, associada ao amor. Essa seria minha interpretação pessoal.

Dia desses chamei a atenção de um colega para um e-mail que recebi do The New England Conservatory, de Boston (EUA), onde tive a oportunidade de me formar. Era um simples e criativo anúncio da abertura da temporada de 2016-2017 (no exterior, ano letivo e temporadas musicais sempre começam no outono local) da fabulosa orquestra sinfônica do NEC: “Wolfgang, Gustav, Johann Sebastian, Sergei e Franz encontram Cindy, Ellen, Augusta, Anna, Caroline, Jennifer e Kati”. Simplesmente usaram os prenomes de alguns dos mais famosos compositores para juntá-los aos de mulheres compositoras, nessa temporada junto aos grande mestres.

Gustav Mahler e Gustav Holst
Mostrei o anúncio ao colega Antonio Ribeiro, e imediatamente começamos uma associação: Wolfgang é o prenome de Mozart; Gustav, de Mahler. Poderia até ser Gustav Holst, por exemplo, autor de “Os Planetas”, mas a primeira associação foi a mais óbvia para nós. Se eu tivesse acabado de ouvir “Os Planetas”, talvez me viesse à mente Gustav Holst. Johann Sebastian é Bach, claro, e de imediato o associei  ao nome de um barzinho em Belo Horizonte que se chamava João Sebastião Bar, lembrança de adolescente.

Sergei Koussevitzy, regente e professor de Eleazar
Já Sergei me lembrou Sergei Koussevitzky, contrabaixista e regente da Sinfônica de Boston, professor do nosso grande maestro Eleazar de Carvalho, falecido há vinte anos. (Também tive aulas com um ex-discípulo dele, Bill Curtis). Porém, veio meu consciente e organizou tudo: Sergei Koussevitzky nunca foi um compositor como os outros dois xarás, e concluí que deveria ser Sergei Prokofiev, sinfonista e autor de Tenente Kije, peça que tem um belo solo de contrabaixo, meu instrumento. Já meu colega pensou em Sergei Rachmaninoff – não por acaso, autor de quatro dificílimos concertos e uma rapsódia para piano e orquestra. Claro, hoje compositor, meu colega começou na música ao piano, fazendo-o seu instrumento, daí sua associação pessoal. Já Franz é prenome de compositores como Franz Schubert (minha escolha), grande sinfonista, mas meu colega optou por Franz Liszt, autor de obras virtuosísticas para piano e um dos maiores pianistas da história.

Da Vinci
Passamos a falar de nomes e sobrenomes, seus significados em seus idiomas de origem e quem ou o que nos lembram. Alemães levam frequentemente sobrenomes de profissões, que no passado ajudavam a identificar as pessoas: O sobrenome Gustav Mahler significa pintor; Schumacher, o piloto, é o artesão fabricante de sapatos; Zimmermann, da família de músicos, carpinteiro. Em italiano, durante muito tempo, criava-se um sobrenome a partir da origem do cidadão: Giovanni da Palestrina, compositor, Gasparo da Salò, artesão fabricante de violinos antecessor de Stradivarius, o gênio Leonardo da Vinci, cujos sobrenomes identificam suas origens.

Alfred Hitchcock e Albert ("Alfred") Speer
Daí passamos a uma rápida brincadeira com outros nomes, como Alfred, que a meu colega lembrou Hitchcock, o grande cineasta do suspense. Concordei, mas depois pensei, em Albert (troquei-o por Alfred) Speer, o arquiteto nazista que fazia dos comícios de Hitler grandiosos espetáculos cênicos (curioso: li recentemente sobre Alfred Albert White, tripulante sobrevivente do Titanic, que depois do naufrágio voltou a trabalhar em navios, até sua morte. Não foi por acaso meu lapso Alfred-Albert, então). Prossegui:

Heitor Coutinho, falecido em 2005
Heitor, claro, é o nosso Villa-Lobos, mas para mim também Heitor Coutinho, que pintou um retrato de meu pai, que ficava na sala de jantar, ou o assassino de Dana de Teffé, Heitor Coutinho Leopoldo Heitor, matéria recente de jornal pelos 55 anos do crime. A memória de cada um é íntima, exclusiva, e só dele. Por isso temos gostos diferentes para música, por associação e memória, para lugares, o que lembra sua família, criação ou onde se sentiu bem, algo que tenha marcado sua vida. O nosso dia a dia é um mundo de associações que escapa à nossa consciência, mas que merecem ser pensadas quando em conflito, ansiedade ou dúvida, com o valioso auxílio de nossa razão.