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sexta-feira, 17 de junho de 2022

POMPA E CIRCUNSTÂNCIA NO JUBILEU DA RAINHA

Sir Edward Elgar

ENTRE O URSINHO PADDINGTON E O AFFAIRE BORIS JOHNSON


Sir Edward Elgar, compositor inglês, escreveu quatro marchas militares entre 1901 e 1907, e outra em 1933, um ano antes de falecer; uma sexta foi criada postumamente a partir de rascunhos do autor. Na partitura da primeira, Elgar cita A Marcha da Glória, um poema de Lord De Tabley, que o inspirou: “Como uma música plena de orgulho que arrasta os homens para a morte / loucamente, sobre as lanças em êxtase marcial / Na medida em que traz o céu em suas veias / e ferro em suas mãos / Eu ouço a marcha da Nação...” Deu-lhes o título Pompa e Circunstância, para serem executadas em ocasiões solenes, na exaltação ao povo britânico, ao seu destemor, e, claro, à grande pompa da realeza, e costuma ser tocada em concertos pelo mundo todo.

Salva da Torre de Londres

De 2 a 5 de junho
, com pompa e circunstância, a Grã-Bretanha celebrou o Jubileu de Platina, 70 anos da consagração de Elizabeth Alexandra Mary Windsor, entronizada Rainha Elizabeth II em 1952, o mais longo reinado da história. Mais do que os tradicionais 42 disparos de quando a família real é saudada oficialmente na sacada do Palácio de Buckingham, há salvas para ocasiões especiais - como o aniversário da Rainha, por exemplo. Na festa do Jubileu foram 20 disparos a partir do Hyde Park, porque é um parque nacional, e 62 da Torre de Londres, já que é uma fortaleza do reino, totalizando 82 tiros! (Tudo é tradição, tudo são símbolos no país). O povo entusiasmou-se, mesmo que a Rainha tenha fraquejado no segundo dos quatro dias de celebração e alegria – ela tem 96 anos! Mas a despeito das anedotas sobre a longevidade da monarca, não foi à toa a presença incólume do príncipe Charles sobressaindo-se na sacada do Palácio. Herdeiro do Trono, postou-se com o garbo e a seriedade que o momento exigia. Incontáveis tambores, sobrevoos de jatos da RAF ora enfaixando o céu com fumaças das cores da bandeira inglesa – azul, branca e vermelha -, ora formando um perfeito número 70 entre as nuvens, acima dos fogos de artifício, perfeita ocasião para júbilo.

O chá com Paddington Bear

O tabloide sensacionalista The Sun, cujo tema predileto são mexericos e fofocas sobre a família real, autoridades e artistas famosos, dedicou à ocasião uma cândida filmagem em vídeo, urdida e feita em segredo com a própria Rainha. O Paddington Bear (um ursinho de filmes infantis criado em 1958), tendo à frente a anfitriã, Sua Majestade, aparece tomando chá em um aposento real. Entre gestos desastrosos e desequilibrados com o bule de chá, o ursinho bebeu pelo bico e ouviu da Rainha um suave “never mind” (“não importa”). Ela abriu sua bolsa e retirou um sanduíche para compensar a malograda cerimônia do chá, o mesmo fazendo o ursinho com seu lanche. As portas que davam para a sacada se abriram e viu-se um contingente enorme de soldados em gala vermelha rufando tambores, para encerrar o vídeo galantemente oferecido pelo The Sun e Sua Majestade. 

O Partygate

Houve, no entanto, quem superasse o ursinho Paddington em atitudes desastradas. Boris Johnson, ungido primeiro ministro pela Rainha em julho de 2019, resolveu dar uma animada festinha (depois apelidada Partygate) no dia 16 de abril de 2021 em sua residência oficial, 10 Downing Street, durante o severo lockdown contra a Covid e, pecado dos pecados, na véspera do funeral do príncipe Philip, duque de Edinburgh, esposo da Rainha. Vazaram fotos e vídeos, e o que era para ser um íntimo e secreto convescote transformou-se em escândalo. O jornal Daily Telegraph, que deu o “furo”, disse que a turma de Downing Street bebeu, dançou, “fez o social”, e que, pelas altas horas, um serviçal foi despachado com uma maleta para um supermercado próximo a fim de comprar mais booze (“manguaça”, em gíria nossa).

The House of Lords

A imprensa só falou – e ainda fala – em PM (Prime Minister), nº 10, BJ, Tory (Conservadores, partido do PM), vocabulário que logo se tornou bastante popular. A pressão geral pela renúncia de Johnson, partindo inclusive de segmentos do Tory, foi grande a tal ponto que o Parlamento evocou o chamado “voto de desconfiança” na pauta da House of Lords (o nosso Senado) e a House of Commons (Câmara dos deputados), além das dissidências contra o PM em seu próprio partido. Johnson não renunciou, mas, tal qual sua antecessora, Theresa May, “passou raspando” na votação, tornando-se instável no cenário. Como ela, vai sentir-se um verdadeiro peão de rodeio, e, talvez, deixará o cargo, como a antecessora.


A desobediência às duras regras do lockdown, o despautério de uma festa adolescente na véspera do enterro do Príncipe e as galhofadas de Johnson expuseram-no ridículo e vexaminoso ao país e ao mundo, algo como um “o PM está nu”. Só que o Trono segue impávido e forte, a inflação aumentou devido à guerra da Rússia contra a Ucrânia, mas não se falou em corrupção; foi tudo uma escorregadela inaceitável em um país extremamente sério que tem seu estilo próprio de humor, que não é o da galhofada do PM, e outras maneiras de festejar que não aquela patuscada extraoficial. A monarquia? Vai muito bem, obrigado, mas o PM chamuscou-se e pode terminar substituído longe de abalos sísmicos que possam atingir o Palácio de Buckingham. Há até indícios de que segmentos conservadores devem se aliar à oposição exigindo a renúncia de Johnson pelo desrespeito às regras que o próprio governo impôs ao restante do país. No affaire, além dos erros mais graves estão os da descompostura, do desrespeito ao país e da conduta imprópria para um primeiro-ministro de nação poderosa e admirada.

Verdadeiro exemplo para o nosso país.



sexta-feira, 10 de junho de 2022

PAVANA PARA UMA CRIANÇA MORTA


 

NY Times, 25 de maio de 2022: “Famílias angustiadas aguardam notícias após o massacre na escola do Texas”. A matéria de capa informava que no dia anterior 19 crianças foram assassinadas a tiros em uma instituição de ensino elementar da cidade de Uvalde, o pior massacre em dez anos desde o da escola Sandy Hook, em Newton, Connecticut. O assassino, de apenas 18 anos, também morreu no local. Segundo o porta-voz da Polícia Chris Olivarez, em entrevista ao The Today Show, da TV NBC, além das crianças foram assassinadas duas professoras. Antes de se dirigir ao local do crime, o atirador Salvador Ramos alvejou uma senhora de 66 anos, que os policiais disseram ser a avó dele, e que passou por condições críticas, mas sobreviveu.


O massacre de Uvalde reacendeu a discussão sobre a crescente violência armada nos EUA, que têm mais armas de fogo do que cidadãos. Pior, cada massacre parece servir de provocação para outro: o do dia 24 seguiu o da semana anterior, protagonizado por um supremacista branco que matou dez pessoas em um pequeno supermercado de Buffalo, NY. Sobre Uvalde, o senador Chuck Schumer, democrata e líder da maioria, tentou sensibilizar os adversários republicanos: “com os diabos, calcem os sapatos desses pais ao menos uma vez!” e manifestou-se por mudanças na legislação que rege os armamentos, aumentando as exigências sobre antecedentes para compradores de armas - medida tímida em um país com tradição de assassinatos em massa, crimes seriais e mortes de políticos.


A proposta de Schumer seria mero paliativo contra uma tradição arraigada nos costumes americanos desde as 13 colônias britânicas, cuja independência se deu em 1776 com a fundação dos Estados Unidos da América. Os cidadãos, antes armados nas colônias, prosseguiram e o costume permaneceu até no Texas dos caubóis, estado do massacre de Uvalde. O senador republicano Ted Cruz minimizou, disse que já tinha visto muitos desses ataques a tiros, e que se opunha à ideia de “restringir os direitos constitucionais dos americanos”. Em 2019, “ataques gêmeos” com armas de fogo aconteceram em El Paso, Midland e Odessa, em West Texas.

Shotgun

A NRA (National Rifle Association) é uma poderosa organização que tem o apoio de Donald Trump. O senador Cruz, que se manifestara a favor do “direito constitucional às armas” foi palestrante em uma convenção da Associação na sexta, 27 de maio, em Houston, Texas, quando a estrela foi Donald Trump. Trata-se de um estado onde, ao entrar em uma picape, às vezes se fala “vou de atirador” (I’ll ride shotgun), “vou no assento do passageiro”. É comum picapes trazerem suporte para um ou dois rifles na cabine da frente, ao alcance do passageiro shotgun (é comum jovens de outros estados usarem a expressão para dizer ‘carona’). Uma semana antes do crime, Salvador Ramos, o assassino de Uvalde, no dia em que completou 18 anos adquiriu dois rifles de “plataforma AR” e 375 projéteis – o suficiente para dez ataques como o do dia 24.


No Brasil de 85 anos atrás, o conceituado jornal carioca Correio da Manhã, de 12 de agosto de 1937, trazia uma chamada para a matéria principal: “Mussolini diz que só um povo armado é forte e livre”, explorando essa maldita simbiose já tão analisada: arma é poder, poder é liberdade. A ideia era criar uma enorme milícia armada a fim de eternizar no comando o Duce, como o líder fascista italiano era conhecido. “Com uma arma”, pensava-se, “sou mais forte, e com força sou livre” – concepção tresloucada de liberdade. Um povo armado não é um povo mais forte, e muito menos livre ou feliz. Com o poder de matar, o cidadão pode sentir-se mais forte do que os desarmados, mas conviria pensar também que estar vivo é poder ser morto. Por incrível que pareça, no Brasil este antigo modelo de filosofia barata parece repetir-se, a exemplo do recente “Eu quero todo mundo armado. Que povo armado jamais será escravizado" (Folhapress, 31/05/2020). A escalada armamentista acirrou a beligerância mortal entre bandidos e policiais, a um ponto insuportável para o país.

Vila Cruzeiro (DW)

Na segunda mais letal operação carioca da história
(24/05), agentes do BOPE, da PF e da PRF fortemente armados mataram 23 pessoas na favela de Vila Cruzeiro, no Rio, entre elas inocentes, e 12 sem passagens pela Justiça. Ação repleta de torturas, humilhação, espancamentos e muitos tiros. Só perdeu para a chacina de Jacarezinho, um ano antes, quando ao menos 28 pessoas foram mortas. É com esse estímulo à posse, propriedade e uso de armas de fogo - “filosofia” que vem ocupando cada vez mais espaço  - que violência e mortes se multiplicam, . Até Hitler, em 1938, repercutiu o discurso do Duce e venceu um plebiscito sobre o assunto, cabalando votos de 90% dos eleitores.


Um referendo de 2005 perguntou: "O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?". 63,94% votaram “não”, e 36,06% optaram pelo “sim”. Segundo o jornalista Josias de Souza, em seu blog da Folha, o “não” recebeu, para a campanha, R$ 8,4 mi e R$ 9,1 mi - um total de R$ 17,1 mi, já corrigidos pelo IPCA-IBGE - da Taurus e da CBC, as maiores fábricas de armas e munições do país. Reproduz-se em menor escala o poder da NRA americana, que congrega as indústrias do setor.

O título deste artigo vem da triste Pavane pour une infante défunte, de Maurice Ravel, orquestrada em 1910. (A pavana era uma dança processional lenta de cortes europeias dos séculos 16 e 17).  Que seja uma para cada criança, e um réquiem cada adulto morto, lá e cá. Isso há de ter fim.

 


sexta-feira, 3 de junho de 2022

FRIO NO TEMPO DO FRIO

 


Das gravações de Baby, It’s Cold Outside
 ("Garota, Está Frio Lá Fora"), de Frank Loesser, prefiro a de Ray Charles e Betty Carter, diálogo entre uma voz possante e a suavidade juvenil e ingênua da cantora. Trata-se de uma conversa entre um homem e sua garota - ela, teimando para ir para casa, dizendo “eu realmente tenho de ir embora”, ele insistindo, “garota, está frio lá fora”, papo romântico e desencontrado: ele tenta forçá-la a ficar, ela retruca com argumentos, o pai deve estar andando de um lado para o outro, a mãe preocupada – já se iam as horas -, coisa que aconteceu na vida de tantas e tantos jovens (sim, rapazes também, como em Trem das Onze: “minha mãe não dorme enquanto eu não chegar”). Cegamente apaixonado, ele diz das mãos congeladas da garota, dos lábios deliciosos; ela expõe suas angústias, até que ele tenta induzi-la ao desespero, última cartada: “e se você pegar pneumonia e morrer?” Pela música, Loesser abocanhou o Oscar em 1950.


Quem conhece o frio rigoroso sabe do que ele é capaz
. Claro, há beleza na neve cobrindo ruas e calçadas, aquela brincadeira lá fora ou, para quem prefere, olhar através da janela os flocos planando. Mas calefação é fundamental, o frio chega a ser tão intenso que pode transformar a casa em sucursal da Antártida. Obedeça-se a legislação: em Massachusetts, onde vivi, há um mínimo obrigatório para o dia, 68 °F (20 °C), e outro para a noite, 64 °F (~18 °C.), a serem rigorosamente cumpridos pelo senhorio do imóvel - o desrespeito à lei pode levar a sanções e até ao cancelamento da licença de aluguel.


Passei por uma situação terrível
onde morava, e garanto que não foi nada fácil nem romântico, como na música. Certa noite, houve pane no motor do aquecimento, máquina que serve para levar água quente das tubulações do porão até o radiador de cada cômodo. Resultado: dentro de casa, mesmo com o isolamento das paredes qual um sanduíche de lã de vidro, o termômetro mostrava 5 graus, depois zero, logo um pouco abaixo. Tremendo, olhei-me em um espelho e vi minha boca arroxeada; enrolei-me em vários cobertores entremeados com jornais e espremi-me encolhido em um canto; antes, em desespero, acendi o forno da cozinha, contígua à sala - aos vinte e poucos anos não conhecemos o medo, somos todos imortais, não é? (Frase póstuma sob medida para tamanha loucura). O inferno gelado terminou pela manhã com a chegada dos bombeiros que um vizinho havia chamado, seguidos por uma equipe de manutenção.


Neve nas ruas seis meses por ano
, caminhão espalhando sal grosso para limpar a passagem. Porém, após derretida, se volta o frio intenso a água congela, formando um tapete invisível que está para os carros como uma pia molhada para um sabão (pé no freio nunca, mais risco de acidentes!). Nas grandes cidades, moradores de rua se aquecem nas saídas de ar da calefação dos metrôs, cobertores sobre o corpo e garrafa de liquor (qualquer destilado) na mão, desde que em um saco de papel, pois é ilegal expor bebida alcoólica em público. (Que contraste com os que podem dispor de um bom par de botas, calças forradas, casaco recheado de penas de ganso, bons gorros, cachecóis e mittens, aquelas luvas que têm o polegar separado e os demais dedos juntos, para mantê-los quentes!)

(Central das lareiras)

Em São Paulo não descemos a tais temperaturas
, mas esses dias de maio têm sido os tempos mais frios do ano. A diferença entre o nordeste americano e cá é a morte certa e o risco de morrer. Aqui, casas e apartamentos, sem terem preparação térmica e calefação, podem ser aquecidos com uma lareira, para os felizardos que têm como comprar, entre o degustar de um bom vinho e momentos de adoração ao fogo, como nos rituais dos tempos de nossos antepassados.

(GUJ)

Mas dê uma olhada no povo de rua
, que sofre nas calçadas e praças das grandes cidades. Com a vida cada vez mais difícil, enrolados em cobertores entre pedaços de papelão e aguardando em desespero as benditas doações de roupa, comida, seja o que for: são velhos, grávidas, crianças, enfermos, situação de miséria plena. São nossos deserdados, que não comparecem às eleições, e são contabilizados como números mas não têm “lenço nem documento”. A fome é maior do que a razão para tomar qualquer atitude que não aguardar um novo dia, depois mais outro, e mais um - se vier e se Deus quiser.


Segundo estudo do IPEA
(Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) de maio de 2020, a população de rua no Brasil era de quase 222 mil pessoas. Com o agravamento do desemprego, a crise econômica e social, seguramente após passados dois anos o número já é bem maior; as campanhas de arrecadação ajudam, mas são panaceia. Há também os que se abrigam em situação de extrema pobreza, moradias improvisadas, muitas vezes recolhendo gravetos, sarrafos e madeira de móveis velhos para acender seu “fogão” uma vez por dia, frente aos preços exorbitantes, a falta de um botijão de gás e até do que colocar na panela.


A saga de Elsa e Anna
, em Frozen (lit.: congelados) é uma produção de 2013 dos estúdios Disney, e serve mais à fantasia e à imaginação infantil. A nós resta acatar os desígnios da natureza, como o poeta lusitano Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa), em Quando Está Frio no Tempo do Frio: “Que são para mim as doenças que tenho (...) / senão o inverno da minha pessoa e da minha vida? / (...) virtude da mesma fatalidade sublime / (...) o calor da terra no alto do verão / e o frio da terra no cimo do inverno”. Como ele, acatemos também os desígnios da natureza e suas vicissitudes, mas urge lutarmos para reduzir as desigualdades sociais em todas as estações do ano.

Fernando Pessoa


sexta-feira, 20 de maio de 2022

CRITICAR O CRÍTICO, CENSURAR O CENSOR

 




The Critic
 é uma revista britânica lançada em 2019 cujo título veio de uma publicação homônima da época vitoriana (1843-1863). Seu contexto é político-cultural, algo a ver com O Espectador, que se propõe a “criticar os críticos”. O criticismo é a análise opinativa de textos jornalísticos, peças de teatro e músicas de todos os tipos. Grande exemplo foi Bernard Shaw (1856-1950), erudito na música, na dramaturgia e dono de uma verve humorística especial: “Parece proibido compor óperas fora da sombra do Vesúvio” (vulcão italiano) – insinuando que naquela época só se poderia compor óperas na Itália, que dominava a cena. Outra: “Quem se atrever a executar qualquer obra no mesmo programa da 9ª Sinfonia de Beethoven deve ser preso, sem direito a fiança” – exaltando o patrimônio universal que é a obra-prima do compositor alemão.

Caricatura de Oscar Guanabarino

Disse Millôr Fernandes
, jornalista de O Pasquim e grande frasista: “Livre pensar é só pensar”, e por analogia “livre criticar é só criticar”. Entretanto, para exercer a profissão com seriedade é necessário certo conhecimento, deve-se buscar correição e coerência: um crítico sério não é um diletante. O problema é quando quem critica cede à pessoalidade, eivado de segundas intenções com o fim de atacar o criticado. Exemplo foi um obcecado detrator de Villa-Lobos, o pianista e crítico Oscar Guanabarino. O maestro nunca levou desaforo para casa e os devolvia com merecidas chapoletadas.


Onde vive um homem
há ideologia, e é impossível fazer uma opinião desparecer como germe na assepsia hospitalar. Terríveis tempos do positivismo de Auguste Comte, sob a bandeira da filosofia da ciência! Durante a ditadura, no primeiro ano na universidade, apendi o “distanciamento epistemológico” – ah, palavra! -, inserido na teoria do conhecimento. Mas tal suposto distanciamento não existe, a pessoalidade dá um jeito de se imiscuir sorrateiramente no assunto.

Stalin e Zhdanov

A censura
é assunto à parte, embora em algum ponto passe por uma análise como a da crítica. Censores são indivíduos que, em tempos de regimes totalitários de todos os matizes, são investidos do poder de modificar, mutilar e cortar discursos, obras de arte, jornais, letras de música ou o que for. Stalin, o implacável ditador da União Soviética, tinha como ministro da propaganda de confiança Andrei Zhdanov, mestre na tesoura, censor-mor que ambicionava suceder o chefe. Contraditoriamente, o teórico marxista italiano Antonio Gramsci publicou, entre 1916 e 1918, artigos com ataques contundentes à ideia fascista de “purificar” a literatura e o pensamento italianos, isso já ao vento das ideias que gestariam Mussolini.


A figura do censor
já existia na Roma antiga para ‘manter a moralidade’, esteve no Index Librorum Prohibitorum (1559), mas volta e meia ela ressuscita: bom exemplo é 1964, já com Castelo Branco, quando foram criados meios de controle do Judiciário e Legislativo para garantir o regime, sob o epíteto da ”soberania nacional” (CORRÊA, Michelle Godinho. “Censura na Ditadura Militar”. BH: UFMG, 2012).

Certificado com a assinatura da Da. Solange

Sobressaía-se a poderosa
Solange Hernandes - Dona Solange -, que de 1981 a 1985 passara a comandar toda a censura no país (Veja, 7/10/19). Foi autora da proibição da novela de TV Roque Santeiro, de Dias Gomes, Aguinaldo Silva e outros, a peça Calabar, de Chico Buarque, músicas como MiIagre dos Peixes, do Milton, e Zero, livro de Ignácio de Loyola Brandão, entre inúmeras obras. Ainda adolescente, tive uma canção mutilada – suprimiram a frase “um grito vivo de verdade” – às vésperas de um festival entre colegiais do Rio; corte sem nexo algum, mas doloroso para um entusiasmado iniciante de 17 anos. 

Filinto Müller

O Brasil já tinha vivido
a experiência da ditadura getulista, que em 1939 instituiu o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), cujas atribuições tornaram-se gradualmente mais amplas - até, por exemplo, formar jovens estudantes segundo os princípios da ideologia oficial. Tinha como comandante o implacável Filinto Müller, chefe da polícia política afinado com Goebbels, o homem forte da propaganda e censura de Hitler.


Mais recente
é a matéria do UOL/Folha intitulada “STF: Maioria decide ser ilegal dossiê contra antifascistas” (27/04/22), artifício que teria como objetivo exatamente controlar as ideias dos servidores públicos, suas opções políticas e mesmo vidas particulares.

"License to kill", com 007

Talvez o censor seja
uma espécie de crítico com “licença para matar”, que age com sadismo a mando de um regime – ou, veladamente, dentro de organizações civis. Ele não acrescenta, apenas mutila e veta. Já o crítico é um cidadão civil geralmente incumbido de fazer uma resenha opinativa sobre peça de teatro, concerto ou filme. (Às vezes sujeitos a escorregadelas: lembro-me de um conhecido crítico do Rio que escreveu sobre falhas em passagens de certo recital, como “as tercinas excessivamente preguiçosas no segundo movimento da sonata para piano” – só que a peça fora cancelada, de onde se conclui que o articulista sequer havia ido ao recital.

Bernard Shaw (1856-1950)

Da atividade do crítico
espera-se conhecimento e boa-fé, e ela deve ser aplaudida, quando bem feita. Mas a outra tarefa, a de censurar – do latim caesura, corte –, é por princípio maligna: uma ação a serviço do poder autoritário, por vezes aliada à frustração de não ter sido ele, o censor, quem criou a obra que destruiu com inveja.

Loas ao espírito crítico sério, fora a censura, seja oficial ou amarguradamente enrustida. Em uma de suas epístolas, Paulo manifestou-se: “Não extingais o espírito, (...) examinai tudo, retendo o que é bom” (I Tess 5, 19-21). Assim seja.



 

sexta-feira, 13 de maio de 2022

"CANCELAR" A ARTE RUSSA?

 

Países da antiga União Soviética

Assistimos à “operação militar especial” (sic) comandada pelo presidente Vladimir Putin na Ucrânia - país que, como tantos outros, fez parte da imensa União Soviética (1922 a 1991). Dois fatos fizeram da Ucrânia uma presa fácil para o expansionismo de Putin: primeiro, a revolução bolchevique iniciou-se na Rússia em 1917 e se alastrou sobre outros países; segundo, a mais recente independência e aliança de muitos países do bloco e ingresso na OTAN deixaram a Ucrânia hoje isolada. Mas não é da guerra, em si, que quero falar, o que foi publicado e dito na imprensa e nas TVs já basta, há muitas análises por grandes especialistas.

NYT

É natural a vitimização da Ucrânia, assim como a solidariedade de boa parte do mundo. Mas há um certo ódio, algumas vezes mais incisivo, outras latente, ao ‘povo invasor’, quando na verdade quem invade são Putin e suas armadas. Essa súbita rejeição a um povo na maior parte adverso ao massacre no país eslavo - 49%, segundo o censurado Novaya Gazeta - tem atingido às vezes com crueldade o que de mais precioso a Rússia deu para o mundo: sua arte, do teatro ao cinema e balé, da música à literatura. Quando se “cancela” uma obra, um autor, perde também quem for privado de parte do melhor da criação universal.

David Oistrach

É importante lembrar o que a Rússia nos deu de tão importante, sua monumental produção artística. Por cumplicidade, penso logo nos instrumentistas, como o gênio do violino David Oistrach (1908-1974), que nasceu em Odessa, hoje parte da Ucrânia e então do Império Russo (1721 a 1917). Ou mesmo Nathan Milstein (1904-1992), que tive o grato prazer de ouvir em recital (Sonatas e Partitas solo de Bach) em Boston, no final dos anos 1970. Milstein nasceu na mesma Odessa de Oistrach, enquanto o virtuose Jasha Heifetz (1901-1987) veio ao mundo em Vilnius, capital da Lituânia, também parte do Império Russo. O mestre Piotr Stolyarsky (1871-1944) nasceu em Lypovetz, do governo de Kyiv, hoje capital ucraniana. O mais recente Mstislav Rostropovich (1927-2007), violoncelista, nasceu em Baku, capital do Azerbaijão, república da União Soviética. O lendário pianista Vladimir Horowitz (1903-1989), sedutor de multidões cujo retorno ao Carnegie Hall teve imensas filas para ingresso - levando o povo a pensar que se tratava de um show dos Beatles -, é também natural de Kyiv, capital da Ucrânia. E a lista é interminável!

Rachmaninoff

Já os compositores russos são parte do que há de melhor na música de concerto mundial de dois séculos: Pyotr Tchaikovsky (1840-1893) nasceu na pequena Votkinsk, em Vyatka, Udmurtia, perto de Moscou, capital da Rússia. É autor, entre sinfonias e dois belos concertos para violino e piano, este último um dos mais populares, e hoje dá nome a uma das maiores competições para instrumentistas.  Modest Mussorgsky (1839-1881), autor da famosa Quadros em uma Exposição, que foi executada até em versão rock pelo grupo Emerson, Lake & Palmer, nasceu em Karevo, 400 km ao sul de São Petersburgo. Dmitri Shostakovich (1906-1975), talvez um dos maiores compositores do século 20, é peterburguês, logo russo. Sergei Rachmaninof (1873-1943), autor de algumas das mais difíceis peças para piano e repertório de dez entre dez virtuoses do instrumento, nasceu na Moldávia, hoje república que faz fronteira com a Ucrânia e a Romênia.

Dmitri Shostakovich

É o suficiente para vermos que boa parte dos grandes virtuoses ditos russos do violino, piano ou violoncelo não são nascidos na Rússia – curiosamente, são originários da hoje Ucrânia, enquanto os maiores compositores são nascidos na Rússia. Diz-se genericamente que todos são russos devido ao longevo Império (1721-1917) e à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (1922-1991), que não é sinônimo de Rúsia. É impossível generalizar uma vastidão territorial dividida, mantida sob força por duas vezes e hoje separada e independente. Uma comparação anedótica seria dizer que o uruguaio de Tacuarembó Carlos Gardel - antes tido como argentino -, seria brasileiro, pois seu país foi Província Cisplatina do Brasil Português.

Império Russo

No teatro e na literatura, Anton Chekhov (1960-1904) é autor de Tio Vânia, O Jardim das Cerejeiras e diversas belas peças. Grande contista e dramaturgo, Chekhov veio à luz em Tagenrog, cidade portuária ao sul de Moscou, Rússia, enquanto Fyodor Dostoevsky (1821-1881), autor de Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov, era um autêntico moscovita. Lev Tolstoy (1828-1910), autor de uma obra-prima universal, Guerra e Paz, e a belíssima novela Anna Karennina, é filho da pátria Rússia. No cinema, Sergei Eisenstein (1898-1948), de Riga, capital da Letônia, é autor de filmes memoráveis, como Encouraçado Potemkim e o épico Alexander Nevsky.

Encouraçado Potemkim

No caso, esses artistas são considerados russos por terem nascido ainda no Império Russo ou na União Soviética, que congregava inúmeros países. Recentemente, com relativa frequência, surgiu um temeroso “cancelar” uma peça, um concerto, um balé russo. Nos dicionários, o mais próximo desse “cancelar”, pode ser lido como suspender, suprimir. “Cancelar” um artista é tão assustador que lembra Stalin e seu ministro da propaganda Zhdanov mandando apagar pessoas expurgadas do poder ou desaparecidas, vivas ou mortas, nas fotografias. Mariupol, cobiçada pelo exército de Putin, chegou a se chamar Zhdanov por mais de 40 anos, em homenagem ao censor-mor. Que cheguem logo ao fim esta guerra e com ela essa censura artística enrustida. Há que se defender a vitória da Ucrânia sem que sejam perpetradas injustiças contra a arte universal de mais de um século e um povo amigo e carinhoso. 



 

sexta-feira, 6 de maio de 2022

NEOLOGISMOS CLÁSSICOS E OS 'DA GALERA'

 

Flaubert

Idioma é ‘a língua própria de um povo, de uma nação, com o léxico e as formas gramaticais e fonológicas que lhe são peculiares’ (Houaiss). É com ele, e as variações regionais, dialetos e gírias, que nos comunicamos, nos reinventando. Quem faz a língua é o povo e quem a consagra é o escritor; instâncias acadêmicas, são apêndice posterior. Disse Gustave Flaubert (1821-1880): “...o escritor é livre, conforme as exigências de seu estilo, de aceitar ou rejeitar as prescrições gramaticais que regem a língua, e as únicas leis às quais é preciso se submeter são as leis da harmonia” (trad. de Lucia e Autran Dourado, meus pais).

Otto Lara Resende

Em 1991 o então ministro Antonio Rogério Magri afirmou “o salário do trabalhador é imexível”, o que bastou para um linchamento linguístico que motivou uma declaração de meu pai: sob todos os aspectos, apesar de até então a palavra não existir, ela estava absolutamente correta na etimologia. O renomado jornalista Carlos Castello Branco, do Jornal do Brasil, repercutiu a declaração e o neologismo teve um apoio rasgado do Otto Lara Resende: “A palavra era bem formada e portanto vernácula. O fato de não constar no dicionário, se de fato não figura, só depõe contra o dicionário”. Pouco depois, por uso e costume, “imexível” passou a constar nos dicionários e no VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia de Letras.


Há um consenso de que ‘imexível’ foi gestada em fala espontânea e informal do ex-ministro, mas segundo elementos que formam nossa língua. O que não é o caso de certas extravagâncias do idioma, os neologismos importados da língua inglesa em contexto geralmente fora do original. Bom exemplo é o verbo 'trolar’ - “ele está me ‘trolando’”, que surgiu na Internet, e Deus sabe como teria vindo parar aqui. Em inglês, existe o verbo to troll que significa empurrar um carrinho ou ainda puxar um anzol com isca em um barco em marcha lenta, para desespero dos peixes. Mas existe ainda um ‘trol’ que vem de to patrol, patrulhar,  e indica que a corruptela teria surgido de I’m trolling, como diria o funcionário de uma loja que fica de olho em pilantras que vagueiam entre as gôndolas para fazer uns “ganhos” - palavra essa dicionarizada há muitos anos (bem mais antiga é ‘pilhar’, fazer pequenos roubos). Voltando a ‘trolar’, como não se vê uma ligação clara, sua origem permanecerá um mistério – apenas temos certeza de que é um anglicismo.


O caminho parece semelhante ao de bullying, ‘provocação’, de onde cyber bullying, que entre nós seria uma ‘ciberperseguição’, um neologismo a que sou obrigado por simples tradução literal. Bull é ‘touro’, e em suas variações não há nada que faça conexão com bullying, termo à parte. Mas no popular to bully existe, como 'tiranizar'. Ao importarem essa palavra, preteriram o nosso velho ‘bolinar’, talvez porque to bully tem sentido único, e bolinar, entre outras acepções (op. cit.), há ‘apalpar ou encostar-se a (outra pessoa) com fins libidinosos, ger. de modo furtivo’. Nesse sentido, ‘bolinar’ seria o mesmo que ‘sarrar’, malandragem dos ônibus, trens urbanos e metrôs: ‘estabelecer contatos voluptuosos com alguém, sobretudo em aglomeração de pessoas, em cinemas, etc.’ (op. cit.). De sarrar vem ‘tirar um sarro’, significando ‘curtir com a cara’ de alguém, ‘zombar’, do espanhol zumbar (séc. 15). O velho ‘bolinar’ soaria feio: “mãe, meu colega fica me bolinando”


Nas mídias sociais é frequente o TBT, Throwback Thursday, sendo throw ‘jogar’, e back, ‘trás’, quinta-feira revivida. Com o TBT pessoas compartilham fotos de momento ou ocasião voltando a quintas passadas, por nostalgia, um flashback, termo emprestado do cinema. Abrasileirando e sem saber o significado de TBT, alguns também usam para os outros dias da semana, simples lembrança. Até inventam um significado, como ‘Tá Bom, Tá?’. Melhor seria algo como ‘relembrando uma quinta-feira’, ‘RQF’, mas o dialeto das redes consagrou o ‘TBT’. A hashtag – de hash, ‘confusão’ + tag, ‘etiqueta’ -, símbolo ‘#’, que aparece no canto inferior direito dos teclados de telefones e que as atendentes de telefonia comercial chamam de ‘jogo da velha', tem nome em português: cerquilha! ‘#’ são um must (necessidade), em apps como o Instagram, e fazem uma espécie de chamada, a exemplo de #forafulano e #sextou. BTW (By The Way: ‘aliás’) é outro anglicismo abreviado, já que escrever o mínimo é a tendência, seguindo de perto ler cada vez menos. Para a galera, são ‘chiques’ (aliás, um galicismo que vem de chic, e no interior é seguido por um caipirismo, “no úrtimo”.)

Olavo Bilac

Gilberto Gil, há 25 anos em Pela Internet, já fazia uso musical e crítico desses maneirismos cantando “Criar meu website / fazer minha homepage / com quantos gigabytes / se faz uma jangada / e um barco que veleje” – detalhe: palavras já devidamente dicionarizadas na “última flor do Lácio” – do poema Língua Portuguesa, de Olavo Bilac. Gil prossegue com os já abrasileirados disquete, site, hacker, videopôquer. Se existe hotlink, não agregado aos dicionários tupiniquins, há também os já naturalizados auriverdes upload, download e uma infinidade de termos e expressões em inglês. Gil lançou a música pela Internet, comme il faut (como deveria ser).


Não é vício exclusivo nosso. Na França é comum ouvir-se stopper, de stop, parar, dialeto que eles chamam franglais (français + anglais). Ao que tudo indica, a China ascenderá ao pódio de país mais poderoso do mundo, mas o inglês será cada vez mais a língua-mater da comunicação.