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sexta-feira, 25 de novembro de 2022

SERÁ QUE EU ESTOU FALANDO GREGO?

 


F
rase que o professor dos velhos tempos gritava quando percebia que a turma do colégio, com cara de paisagem, compreendia mal ou entendia lhufas do que ele estava expondo. Levando essas rachadas, hoje politicamente incorretas, aprendia-se, estudava-se muito para não se fazer de tonto ou ignorante em classe. O grego era um idioma tão distante que não dava para entender nada, os alunos não sabiam a dimensão do idioma e da cultura grega, que estão em tudo, alma de uma civilização. Agora, tantos anos depois – agora que sabemos! -, vale buscar o sentido de muitas palavras em suas raízes etimológicas (opa, olha aí, do grego etymologia, origem e formação das palavras). Pois não é que hoje dei de pensar em palavras de origem grega que bem definem nossas vidas, nosso psicológico, nossos sentimentos e até mesmo certas situações? E elas se tornam icônicas (do grego eikónos), até.


M
eme é palavra que pegamos emprestada do inglês, e vem a significar “elemento de uma cultura ou sistema de comportamento, passado de um indivíduo para outro por imitação” (Oxford). E não é que em inglês a palavra vem do grego mimema, significando ‘imitado’, e o conceito foi introduzido pelo revolucionário biólogo inglês Richard Dawkins em 1976 (Britannica)? Pois a vida em sociedade tem muito disso, só que há que se distinguir entre o que é cultural, parte de nossas tradições, e o que é uma espécie de mimese, imitação. Não por acaso veio à lembrança um conto do livro A Inglesa Deslumbrada, do ‘tio’ Fernando Sabino, em que ele relata uma conversa fiada e meio vazia em pleno voo Londres-Rio com uma inglesinha, sua companheira de viagem. Na falta de assunto, vez de ela perguntar: “é verdade que no Brasil existe o costume de se andar nu?” Sabino, ironicamente, respondeu algo como “sim, uns por tradição e outros por não terem o que vestir”. É isso: anda-se pelado por tradição de uma sociedade em particular, no caso a dos indígenas – certamente a origem da curiosidade da inglesinha -, ou por não ter dinheiro. Uma troça bem ao estilo do Sabino.


D
o grego, mimese – “imitação ou representação da realidade” é o que acontece quando quero – ou queremos - copiar, se aplicarmos o conceito a pessoas. Mary Quant criou, na Londres dos anos 1960, uma saia tão curta que deram de chamar-lhe mini, minissaia (e depois, claro, a microssaia). “Pegou lá, pegou aqui”, assim como as calças boca de sino ou de cós baixo, modelo Saint-Tropez, nome do lindo balneário no sul da França que ditava o dernier cri – a última moda. O escritor português José Saramago, autor de Ensaio Sobre a Cegueira, Nobel de 1998 e comunista de carteirinha, disse: “O heroico de um ser humano é não pertencer a um rebanho”. Faz sentido, mas ele mesmo tinha de andar de calça e camisa social por costume de gerações ou por convenções de Portugal, um país ocidental como o nosso. De fardão, como se usa na coirmã brasileira, a ABL, ou terno, em situações formais, cá e lá.

Culto de Jim Jones na Guiana (anos 1970)

I
mportantíssima é a catarse (do grego khártasis), que é o “processo de libertação ou purgação da alma e do corpo (...), estranho à essência ou à natureza de um indivíduo” (Michaelis), bastante comum no meio artístico. Vimos uma imensa catarse no Festival de Woodstock, tipo de evento em que os participantes, coletivamente, entregam-se à libertação ou purgação da alma e do corpo. Até grupos como os dos fanáticos seguidores do norte-americano Jim Jones, que em sublimação extrema de catarse coletiva foram levados ao suicídio em massa na Guiana, em 1978.


E
m uma manifestação política recente, um homem, vestido de verde e amarelo, subiu no para-choque da frente de um caminhão, como se tivesse sido atropelado, e pegou uma breve carona com os braços abertos, segurando-se nos limpadores de para-brisas. Teve seus gloriosos 15 minutos de fama, como preconizava nos anos 1960 o ícone (de eikón!) da arte pop Andy Warhol - mesmo que uma fama anônima, se é que é possível.  A cena, gravada em vídeo, viralizou até alcançar o exterior. Foi uma catarse particular, exibicionista.


M
as o recente show do manifestante não foi tão original como parece. Fez uma mimese bem-comportada de outro fato acontecido há oito anos, em novembro de 2014, e reproduzido nas mídias como se ele, sim, fosse uma imitação do manifestante de 2022. Explico: uma mulher para lá de pós-balzaquiana despiu-se na rua até a última peça, para surpresa dos transeuntes nas calçadas de um lugar tranquilo de Goiânia (G1, 21/11/14). Com algum esforço, subiu no para-choque e agarrou os limpadores de para-brisa (tal qual veio a fazer seu meme caminhoneiro oito anos depois), e seguiu carona daquele jeito. Não tinha motivação política, seriam só os tais quinze minutos de fama (que não passaram de três), talvez vingança contra um marido traidor, ou simplesmente “deu tilt” e surtou? Então o manifestante de hoje, ator do meme do ano, pegou carona no gesto da goiana de ontem? Exato.


E
ntre mimeses e catarses, gregos e troianos, buscamos compreender pensamentos, fatos e palavras e o filtro real é sempre a etimologia. Em “Dicas de Português”, publicado no G1, é possível encontrar uma lista tão simples quanto curiosa de palavras vindas do grego, com as devidas explicações, como em verbetes. Por exemplo: antídoto, arquipélago, bíblia, cirurgia, cartomancia, dinossauro, eutanásia, heureca, sarcófago... E creia, até xerox, de kserós! Pois se você um dia ouvir “por acaso estou falando grego?”, diga que sim, pois ao menos em parte é verdade.

 

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

MEU NOME É GAL!


M
aria da Graça Costa Penna Burgos, nascida em 1945 em Salvador, era uma linda baianinha arretada, dona de rara voz, soprano “de nascença”, à vontade nos agudos e com um timbre sensual e inconfundível. Reinou durante décadas em shows e gravações agradando gregos, troianos e romanos. A baianidade era expressa nos gestos, nos balangandãs, no sotaque manhoso, no corpo ora meio que lânguido, ora pleno de energia. Era o modo dela ser: “baiana é aquela / que entra no samba de qualquer maneira / que mexe e remexe, dá nó nas cadeiras / deixando a moçada com água na boca” (samba do mineiro Geraldo Pereira, profundo conhecedor do que é ser baiano). A falsa baiana não faz nada disso: “não canta, não samba / não sabe deixar a mocidade louca”. Mais: Gal, autêntica soteropolitana, foi gestada com inspiração lírica: durante a gravidez, a mãe dela, Mariah, ouvia música clássica. Daí talvez a potência de sua voz, sem aquele “diminuendo” nos agudos para não “rachar”. Bom exemplo é a gravação de “Brasil”, do Cazuza: não havia instrumental que a derrubasse.


A
ssisti a alguns shows da Gal quando eu morava no Rio. Como fazia bem para os olhos e ouvidos! Um desses espetáculos marcou-me de forma especial - e ela andava, rodopiava, exalava sensualidade e “frever” (de onde o frevo) nordestino circulando no pequeno palco do Teatro Opinião, no andar de baixo do Teatro Thereza Rachel em um prédio comercial de Copacabana (frevo, aliás, é Festa do Interior, de 1982, de Moraes Moreira e Abel Silva, que Gal cantava como ninguém, com aquelas “emboladas” troca-línguas com jeito de solos de saxofone). Se o Thereza Rachel era maior, no Opinião ela dava seus giros bem perto da plateia, que se derramava e se esbaldava. Sempre trazia bons músicos, mas a presença dela imperava. Simples, morava em um prédio no Vidigal, bem perto da favela, e se sentia confortável ali.


M
udando de cenário, estamos nos anos 1970, na praia de Ipanema, mais ou menos na altura da rua Farme de Amoedo. Ali, a CEDAE mandou construir uma tubulação de diâmetro enorme para lançar os dejetos da região para bem longe da costa. O chamado “emissário submarino” foi construído nos anos 1970, e passou a despejar 6 mil litros de esgoto por segundo a quase 4 km da praia, sem ameaças à saúde da rapaziada – diziam.

Macalé e Gal, revisitando as dunas em 1997

C
hegando à beira da praia, o “emissário" soerguia-se na forma de um enorme areal, ponto de encontro – ainda não se dizia point – da juventude negra e dourada. Circulavam por aquelas dunas Monique Evans, Chacal, Glauber, Evandro Mesquita, Regina Casé, Caetano, Fernando Gabeira... O Brasil se socializava por ali, era um lugar onde tudo se podia, desde que discretamente: dos topless aos cigarrinhos malcheirosos que faziam a letargia da tietagem. Ah, caipirinha de limão, cerveja,  espetinhos de camarão, biscoitos Globo de polvilho e o “mate para viver” com torneirinha a tiracolo do coitado do vendedor, davam o tom do lugar. Segundo o cantor Jards Macalé, sobre o território livre inaugurado pela Gal, “eles sabiam, vigiavam aquilo, mas deixavam como válvula de escape” (“eles” eram as forças da repressão).

Gal nas dunas, com o "Petit"

L
á pelas tantas surgia a “dona” do pedaço, adorada, reverenciada, merecedora de todas as torções de pescoço masculinas e femininas: Gal Costa, rainha de suas dunas, daí as “Dunas da Gal”. Tão comum essa referência ao lugar quanto ao Jardim Botânico e à Pedra do Arpoador, era uma obra feita para despejar o esgoto bem longe. No dia 9 de novembro de 2022, Gal deixou sua canga fictícia sobre dunas imaginárias, e foi molhar-se na água salgada para não mais voltar. Talvez tenha ido encontrar-se com sua Iemanjá, Orixá dos rios e lagos nas origens nigerianas, e entre nós rainha do mar. Água trouxe, água levou. Não fazem mais sentido aquelas dunas que foram uma bolha da intelectualidade carioca, da juventude sadia, dos cantores, instrumentistas, escritores, pintores, cartunistas, cineastas, artistas de cinema e TV, enfim, a "fauna” da intelligentsia. Lá, tudo se podia, ou assim se pensava, enquanto até de cima dos prédios agentes fiscalizavam de binóculos em riste – melhor vê-los aglomerados na praia do que organizando movimentos, deviam pensar os homens da ditadura.

Com Gil, em Londres

G
al sabia dos lamentos, como em “rasgue a camisa e enxugue meu pranto” (Pérola Negra, de Luiz Melodia), de imaginar celestialmente, como em “while my eyes / go looking for flying saucers / in the sky” (“enquanto meus olhos / procuram por discos voadores / no céu”) - em London, London, de Caetano, a quem ela conheceu em 1963, uma amizade profunda e para sempre. Tinha aquela voz de timbre “divino, maravilhoso”, título de outro sucesso de Caetano que se tornou capa-título de um de seus discos. Uma voz feminina, Calíope, musa filha de Zeus, com toda a feminilidade, Gal era assumidamente bissexual. Não conseguia engravidar, e deixou entre suas paixões a atriz Lúcia Veríssimo e a cantora Marina Lima. Em 1998, casou-se com a empresária Wilma Petrillo. Aos 60, adotou uma criança, hoje com 17 anos, que não por acaso batizou com o nome do anjo da anunciação, Gabriel.


G
al também foi Maria da Graça, Gracinha, Gau – o nome com “l” não tinha a simpatia de Caetano, que havia sido preso, lembrava-lhe a abreviatura de general, mas teve de engoli-lo porque a estrela sabia ser tinhosa. Mãos dadas na “passeata dos cem mil”, mesmo com aquela aparente fragilidade era uma lutadora, como quando cantava “Divino, Maravilhoso”: “é preciso estar atento e forte / não temos tempo de temer a morte”. Gal não morreu.


sexta-feira, 11 de novembro de 2022

EUA, RU, BR: SOPA DE LETRAS E NÚMEROS

 


Há dois anos, em 5 de novembro de 2020, Joe Biden ultrapassava Donald Trump na corrida presidencial americana por 2,4% dos votos dos colégios eleitorais, sendo 50,5% para o democrata e 48,1% para o rival, aos 86% dos votos totais apurados. Boa parte dos estados do centro-norte, centro e sul, de Montana ao Texas e Florida, registravam sua preferência por Trump, enquanto as costas leste (do Maine a Virginia) e oeste (Washington a New Mexico) formavam posição a favor de Biden. Claro, há motivos históricos e tradições a ligarem certas regiões primordialmente aos republicanos ou aos democratas. Porém, ainda havia dúvidas quanto aos estados de Nevada (89% dos votos apurados), a esperançosa Arizona (86%), Philadelphia (96%), Carolina do Norte (95%), e a controversa Georgia (98%).


Biden recebeu mais de 81 milhões de votos, ultrapassando o recordista Barak Obama (2008), com 69,5 mi, que por sua vez havia superado Richard Nixon (1968), com 31,7 mi. Por fim, terminado o pleito sob protestos inconformados de Trump, Biden acumulou 51,3% contra 46,8%, número razoavelmente compatível com o de votos diretos dos eleitores: mais de 81 milhões de votos para Biden, e pouco além de 74 mi para Trump. Uma diferença de 7.059.526 votos, cifra numericamente um pouco negligenciável frente ao total de eleitores, mas obviamente pequena em uma população de 332.403.650 habitantes – entre os que votaram ou não, pessoas de todas as idades. A diferença total de votos entre Biden e Trump, de mais de 7 milhões, corresponde à população (eleitores ou não) do estado de Arizona, ou ainda à soma do Alaska, D. C., Delaware, North Dakota, South Dakota, Vermont e Wyoming – os sete juntos!


Voltando à eleição que levou Biden ao poder, em 2020, Trump forçou uma contestação sem limites ao resultado das urnas. Foi cruel e vilipendioso, acusou, disparou aleatoriamente sua metralhadora giratória, ameaçou e agitou a nova extrema-direita supremacista norte-americana, cujas origens remontam à terrível Ku Klux Klan, organização semiclandestina tolerada especialmente nos estados do sul, além dos mais recentes Proud Boys. A direita, e especialmente a extrema-direita, estavam inconformadas, seus militantes transbordando em ódio. No dia 6 de janeiro de 2021, duas semanas antes da posse, uma horda de alucinados invadiu o Capitólio, quebrou portas e janelas e só foi retirada do prédio após vários conflitos com as forças de segurança e a polícia. Sabiam que não tinham chance alguma - aliás, nem sabiam o que queriam, além de uma baderna sem controle que chegou a balançar a inquebrantável democracia americana.


Esgotadas as ações ilegais, dispersado o movimento, Biden tomou posse no dia 20 com uma pompa digna dos maiores festejos cívicos americanos, brindada com uma interpretação de The Star Spangled Banner (“A Bandeira Constelada de Estrelas”), o hino pátrio, por Lady Gaga. Trump se recolheu, mas coleciona processos que incluem acusações de ter liderado de fora a farra extremista pró-golpe do dia 6. Agora, no dia 8/11, com as eleições legislativas reativamente favoráveis aos republicanos, ele deverá assumir sua pré-candidatura com vistas ao pleito de 2024. Bilionário e grande líder, o republicano tem cacife para voltar à Presidência, com o rancor, ódio e revanchismo que lhe são característicos.

Rishi Sunak

No Reino Unido, em 25 de outubro, o Partido Conservador escolheu o jovem primeiro-ministro que responde pelo nome de Rishi Sunak, aos 42 anos.  Filho de indianos que, como tantos, imigraram para a Grã-Bretanha em 1960, Rishi tomou posse após 45 dias de uma gestão tensa e desastrosa de Liz Truss, que sucedeu Boris Johnson, um premiê mais confuso ainda, derrubado pelo partygate – uma festinha na residência oficial da Downing Street com danças, excessos e muita bebida. Nada de tão bombástico se não estivesse em pleno lockdown decretado por ele próprio durante a pandemia! Para os britânicos, um deslize imperdoável. Em consequência de sua ampla votação como parlamentar, Sunak conseguiu chegar à liderança do partido Conservador no poder, e consequentemente por estreita margem à posição de primeiro-ministro, com a desistência de rivais internos. Entre os Conservadores, que haviam se tornado os titulares do governo, foi ele quem mais se destacou – e levou.


30 de outubro de 2022. O Brasil elegeu Luiz Inácio Lula da Silva, vencendo o oponente Jair Messias Bolsonaro por uma margem - tal qual Biden nos EUA - tida como estreita de votos. No Brasil, a eleição para presidente é direta desde a CF de 1988, valendo pela primeira vez em 1989, 24 anos após o golpe de 64, eleito Fernando Collor de Mello. No recente dia 30/10, foram 118.552.353 votos válidos, dos quais 50,9% (60.345.999 votos) ficaram com Lula e 49,1% (58.206.354) com Bolsonaro. Uma diferença de 1,8%, ou 2.139.645 votos, próximo ao número total de eleitores aptos do Distrito Federal e quase a soma dos estados do Acre, Amapá, Roraima e Tocantins.

Rodésia, 1977

EUA, Brasil e Reino Unido elegeram seus mandatários por margem estreita de votos. São três democracias, mas as diferenças entre os dois primeiros já não são tão grandes; os EUA escolhem via colégios eleitorais, no Brasil o sistema é o chamado one man, one vote (um homem, um voto). A eleição se dá por maioria simples, ou seja, número de votos maior do que a metade.

A vitória que mais importa é da democracia. Poder que, de uma forma ou de outra, emana do povo, e é exercido pelo povo e para o povo. Assim foi, assim será.



 

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

FOI BONITA A FESTA, HORA DE TECER A MANHÃ

 


P
assada a ressaca da eleição, valem algumas considerações. Em primeiro lugar, venceu a Nação, pela tranquilidade com que o pleito se realizou, levando em conta as nossas dimensões continentais, polarizadas entre dois blocos, cindindo a população. O lado negativo fica por conta da ocupação de estradas não por motivos salariais e afins - que poderiam justificar uma greve dentro do que a lei permite, liberando parte da rodovia para não prejudicar os que precisam passar, como famílias e cargas especiais. Outro dado negativo foi a atuação ostensiva da PRF em estradas nacionais, principalmente do Nordeste, segundo se informou uma ‘operação padrão’ para o controle das rodovias. Felizmente, nada mais aconteceu, e, segundo do presidente do TSE, Alexandre de Moraes, no cômputo geral os passageiros continuaram as viagens após as operações, podendo exercer o seu direito de votar.


S
obrepujando esses inconvenientes, a caminho das urnas com o objetivo de escolher os governantes dos estados ainda não eleitos e, principalmente, o dirigente máximo da Nação, aflorava o orgulho de sermos brasileiros. Com apenas uma ou duas escolhas no teclado eletrônico, sem os atrasos creditados à estreia do registro biométrico, a votação transcorreu sem maiores problemas. A população compareceu e saiu com a altivez cívica do dever cumprido, escolhendo um futuro com mudanças – afinal, não é este um dos pilares da democracia, a alternância? E quem sabe não será essa a ocasião para que, já no início da próxima gestão, possamos retornar via PEC ao mandato único de cinco anos, conforme fixado anteriormente pela CF de 1988? A Emenda Constitucional 16/97 transformou o segundo mandato, ou ao menos seu ano final, em campanha para reeleição: prejuízos ao Tesouro e à normalidade do país. A reeleição, suas virtudes, vícios e vicissitudes devem ser reavaliados, e isso já se evidencia de há muito. Trata-se de assunto para o nosso Legislativo - para isso elegemos nossos representantes -, cabendo à sociedade civil exercer o legítimo direito de pressão e cobrança.

Av. Paulista

S
im, “foi bonita a festa, pá”, lembrando o Chico, a Paulista com 700 mil pessoas (segundo o The Guardian), a Cinelândia outro tanto, mais capitais e muitas cidades pelo país. O presidente eleito, aos 77, com problemas de impostação vocal, terminou seu discurso após longas, e por várias vezes dispensáveis pela longueur, apresentações de apoiadores. (Lembrou o cantor Jorge Ben, em apresentação de Charles, Anjo 45, no IV FIC: “tô rouco, Charles, tô rouco!”). Surpreendente, também, a estamina popular, gente de todas as idades, para resistir horas de pé. Sim, “foi bonita a festa, pá”, mas desde agora há de se encarar o batente: É de bom-tom o presidente eleito visitar alguns dos principais líderes mundiais – e foram 88, até 1/11! - que lhe mandaram cumprimentos, como Joe Biden (EUA), Emmanuel Macron (França), Rishi Sunak (Reino Unido), Joseph Borrel (União Europeia), Pedro Sánchez (Espanha), Antônio Costa (Portugal), XI Jinping (China), países do Mercosul, América Latina e outros.


N
esse curto espaço de tempo, até a posse de fato do eleito, no primeiro dia do ano de 2023, há que se formar talvez não um consenso da base, mas ao menos uma direção na escolha de ministérios, constituição das pastas, organogramas, indicação dos chamados cargos de livre nomeação e exoneração, que esperamos de competência técnica antes de política. E saber preservar os melhores profissionais que porventura tenham ingressado na gestão anterior. Apaziguar, mais do que nunca, pois não faltam lutas insanas: há um conflito real na Ucrânia que mata inocentes e esfacela a economia mundial, criando uma inflação no Brasil temporariamente estancada a bíceps em alguns produtos, como a gasolina, e que acomete a maioria dos países, não raro como um turbilhão. É difícil o momento, sim, mas a festa acabou, pá, e é hora de começar a arrumar a casa com disposição e vigor.


H
á que se dialogar, para que os que divergem possam ter espaço para exprimir democraticamente suas opiniões e posições; há que se contemporizar, remover barreiras e juntar os cacos que porventura possam ter resultado de embates necessários, quando civilizados, ou excedentes, se à margem dos contornos delimitados pelo Estado de Direito. Há que se pensar urgente nos que mal têm um prato de comida por dia, nos que “têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”; nos que não têm onde se abrigar, nos que estendem a mão ‘pelo amor de Deus’ para dar de comer aos seus filhos (o pelo amor de Deus da fé de cada um e mesmo dos incrédulos – voltando ao Chico, “e eu que não creio peço a Deus por minha gente, e é gente humilde, que vontade de chorar”).

Paz para o novo ano que se aproxima! Que os desejos mais profundos, libertos ou ainda represados nos corações e mentes sejam contemplados; que os homens caminhem para o destino que lhes foi traçado nas origens, que é o da fraternidade e do amor; que a vitória seja não mais do que o momento de uma disputa, e que junto a ela derrota perca o sentido de conflito - palavras cujos significados existirão de fato em nossa história. Que a paz e o direito à opinião sejam a imensa bandeira de todos, preservadas as divergências de onde emergem as soluções. Pensando agora em João Cabral, que seja uma imensa flâmula branca imaginária “se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação”.





 

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

REFLEXÕES SOBRE O VOTO

 

Tiradentes

E
nfim, lambendo nossas feridas, como se diz, termina neste domingo uma longa e belicosa disputa. Face a face com uma obrigação a ser cumprida com orgulho, participaremos da escolha mais importante da última década. É muito menos a opção por um nome, um rosto, é o que ele traz na bagagem: precisamos do mapa do caminho que, espera-se, deverá mudar a régua do país. Muito deverá acontecer, embora no horizonte haja poucas chances de avanços reais - difíceis de serem colecionados – e muito mais riscos. Uma falha será um tiro n’água, bala perdida com sua errante trilha de espuma perfurando o oceano. Ecoa a frase do inconfidente, repetida na peça Arena Conta Tiradentes (1967), de Augusto Boal: “Hei de armar uma meada tal que não se há de desembaraçar em dez, vinte ou cem anos”.

Constituinte de 1988: o final 

S
ofremos até hoje com erros do Império, da inevitável abolição, assim como os dos tempos da proclamação da República, do golpe de Deodoro à ditadura de Floriano Peixoto, o “marechal de ferro”. Depois, os desmandos de Getúlio e os males do longevo golpe de 1964; a censura e o recrudescimento via AI-5 até a conquista da “Constituição cidadã” de 1988, que nos libertou dos entulhos do passado, consolidou o Estado Democrático e os direitos e garantias individuais em todos os 79 incisos do Artigo 5°. Amargarmos a Carta do Império, de 1824, passamos pela de 1891 e depois as de 1934, 1937, 1946 e 1967 - esta última já na ditadura pós-64, sob a qual padecemos silentes e trôpegos por um ano, quando um ato institucional nos tirou o pouco oxigênio que restava. Duas dessas Constituições foram imposições autocráticas: a imperial, de 1824, e a de Getúlio, em 1937. A de 1934 tornou obrigatório o voto aos maiores de 18 anos e concedeu “generosamente” o direito às mulheres – enquanto vedava o sufrágio aos “mendigos e analfabetos” - cidadãos como nós, mas devidamente excluídos da sociedade.

Constituição de 1937: o golpe de Getúlio

C
om a Constituição do Estado Novo, em 1937, Getúlio rasgou, manu militari, a de 1934, promulgada a duras penas por uma Constituinte. O ditador suprimiu os partidos políticos, direitos e garantias, a liberdade de imprensa e partidária, e concentrou nas suas mãos todos os poderes. Mesmo se ora votamos e ora não, permaneceu riscado a ferro e fogo o amargor dos grilhões físicos ou da censura à opinião. O Brasil sempre esteve fadado a engolir arroubos autocráticos, varrendo para o lixo da sadia liberdade dos indígenas em suas origens à dos negros então livres da África - sequestrados para o trabalho desumano e cruel em nossos engenhos, fazendas e cidades. Tirando fora uma existência anterior desconhecida, que se esvanece na fumaça dos tempos pré-descobrimento, o país ainda vive a plena liberdade e os direitos garantidos após 1988, ano a que devemos boa parte do que usufruímos como cidadãos - malgrado a fome, a injustiça social, a devastação de florestas, a rapinagem das riquezas e uma das piores distribuições de renda do mundo.

Caronte

T
udo isso serve à reflexão sobre o direito que exerceremos no dia 30 de outubro: o de escolher os mandatários da nação e do estado para os próximos quatro anos. Voto, do latim votum, é promessa, desejo, palavra que surge em nossa língua de tantas formas, com sentidos os mais diversos, rumando à mesma direção: voto de castidade e de pobreza, de boas festas ou de felicidade; voto por acórdão, unânime, de Minerva, de qualidade ou por maioria simples; o ex-voto, que é oferenda pela cura de uma doença por um santo milagreiro que é cura ou jura, coisa entranhada em nossa cultura. Escolheremos os dirigentes que nos guiarão nos anos vindouros – lembrando a mitologia grega: Teseu nos conduzindo pelo labirinto ou Caronte em seu barco sabe-se lá para onde?  Soa, ao fundo, o Va, pensiero, sull’ali dorate, belíssimo coro da ópera Nabucco, de Verdi, sobre a libertação do povo hebreu escravizado na Babilônia, hoje um segundo hino italiano (“Vá, pensamento, sobre as asas douradas”). Há que serem líderes que olhem de verdade para os mais pobres, os descalços, os que têm fome, os que  não possuem onde morar, pois são esses que precisam mais que nós da opção escolhida.

Ex-votos



É
de se lamentar o uso e abuso das notícias falsas, as fake news, ofensas, o acobertamento “nada canônico” – diria meu pai - de fatos e dados; a artilharia de bits e bytes no anonimato de uma tecnologia que cada vez mais foge ao controle da sociedade - pior, cujo futuro sequer imaginamos. Vimos avançarem novas palavras e expressões: bots, deep fakes e cyberwar, fora as já velhas hackers, likes e zap (esta última, redução mais fácil do que o original, What’sApp, trocadilho com a expressão what’s up? - “o que é que há?” Sai o up, entra o app, de application).

Falsos padres

A
lguém se arrisca a prever um cenário midiático para 2026? Com tudo isso e os gabinetes do bem ou do ódio, com o concurso de apologias ou execrações a Igrejas que nem deveriam ter entrado no tabuleiro, candidatos exóticos, ataques violentos aos tribunais superiores - e recursos a essas instâncias quando conveio -, faltou ética e acima de tudo civilidade a personagens dessa cruzada surreal. Basta relembrar como têm sido esses dias.


É
chegado o momento de, com o simples pressionar de um dedo, escolhermos os melhores. Na cabine, lá com nossos botões, sem mentiras, mídia e pressões a nos atormentarem, finalmente cravaremos a decisão final para presidente e governador. Mas atenção, seremos cúmplices dos que escolhermos! Não é um jogo, mas se acertarmos, a sorte estará lançada. Porém, se errarmos...

 

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

TIPOIAS, SISTEMAS PÚBLICOS DE SAÚDE, PARALELISMOS

 

(CNN)

Às
vezes, rascunhando um texto, somos atropelados por alguma ideia. Daí nos lançamos a pesquisar outros problemas, e quem sabe ainda aprender alguma coisa mais de nosso idioma. Explico. Ao sentar-me para escrever, fui desviado do tema escolhido: minha filha Marta me liga de Londres e avisa que Thomas, meu netinho de 8 anos, fraturou a clavícula. Pânico: assim de longe, tudo parece visto com lupa, a mente não tem limites. Conhecendo o NHS, sistema de saúde londrino, fiquei mais tranquilo, e esperei (o National Health System foi criado no pós-guerra para acesso irrestrito e gratuito de todos os cidadãos. Medicina privada existe, mas é para uns raros aquinhoados que, na emergência, correm para o NHS, claro).


Exame
geral, chapa de raios-x, laudo: fratura na clavícula. Nada grande, chororô, muita dor, um sling de gaze e pronto. A médica disse que ele poderia tirar para dormir, houve quem dissesse que não. Eu, daqui, fiquei com meu bom senso e a palavra dela – são pessoas que inspiram preparação e confiança - e a lógica: o sling é um suporte para retirar o peso do braço do ombro quando sentado ou de pé. Daqui mesmo, de Tatuí, comprei um sling especial, em uma grande loja de departamentos de Londres.  Uma tipoia chique, que abriu caminho para uma nova lição: eu sabia de slingshot, conhecido aqui pela forma abrasileirada de ‘estilingue’ - atiradeira, ou ainda bodoque. O termo remete a funda, uma faixa que, girada no ar, lança uma pedra, tal como fez Davi para derrubar Golias.


Em
menos de 24h, o sling que comprei chegou na residência da minha filha, para conforto do moleque. Confortável, leve, ajustável, fácil de colocar e tirar. Segunda lição: de onde tipoia, se em inglês é sling? Dicionário. Claro, tipoia só podia vir do tupi, ti’poya, “barraca feita de folhagem”, dada a semelhança com a cobertura de uma oca. A palavra gerou outras, tão rica que é nossa língua portuguesa brasileira, acepções como “espécie de rede com que as indígenas mantinham os filhos às costas ou escanchados nos quadris”. Notável! Refere-se a apoios de tamanhos diversos, e eis enfim o ‘nosso’ significado: “tira de pano que se amarra ao pescoço para apoiar braço enfermo”. Quanta riqueza, quanta história aprendemos com os indígenas brasileiros de todas as etnias, quanto vocabulário! Se pesquisarmos a fundo, há uma vastidão de palavras e costumes que enriquecem nossa cultura e a dos que estavam aqui antes de nós (só temos a agradecer e pedir desculpa, mea culpa, pelo descaso ou violência de alguns).



stoneclinic.com

Volto
ao Brasil de doze anos atrás, quando meu filho Pedro, hoje engenheiro, era um meninão uns 4 anos mais velho do que meu neto hoje. Também jogando futebol, em São Paulo, caiu, machucou-se, foi levado a um hospital particular distante, na Zona Sul, e... Clavícula fraturada. A médica que o atendeu disse que teria de operar, e passou a descrever com detalhes como seriam as cirurgias (sim, duas, uma para fazer o serviço e outra para desfazer) – isso, na frente do menino, já pálido! Corri daqui para São Paulo e levei-o a uma clínica especializada na Vila Clementino. Não, nada de cirurgia, não é o caso, só tipoia, disse o médico. Trouxe-o a Tatuí, onde ele morava comigo, e mais uma consulta, com um ótimo ortopedista da cidade (e há vários!): tipoia. Nossos médicos falam a língua dos tupis-guaranis, quem diria. Assim, livrei-me do procedimento invasivo da médica de São Paulo, além das implicações que poderiam advir para o garoto, inclusive psicológicas, uma vez que ele já teria passado por uma torturante cirurgia imaginária ao assistir à descrição pormenorizada do procedimento.  Mas não. Com a tipoia, algum tempo depois tudo isso era assunto esquecido.


Fora
a parte léxica, houve a visão médico-hospitalar de dois países com sistemas públicos diferentes, gratuitos e para todos (a rede privada inglesa é para a mais casta elite, apenas). O NHS do Reino Unido – que na verdade são três - os NHS England, Scotland e Wales - foi criado em 1948, três anos após o fim da Segunda Guerra, e é 100% custeado com dinheiro público. No Brasil, quarenta anos depois, a Carta de 88, chamada “Constituição Cidadã”, criou o Sistema Único de Saúde, à imagem e semelhança do NHS. O sistema inglês consome 45% dos gastos em bens e serviços de Saúde (fonte: ONS, 2001 Census). As despesas governamentais chegam a R$ 14,5 bi (câmbio de 7/10). Quanto a nós, o site Transparência Brasil do mesmo ano (2001) pede desculpas mas... está “fora do ar”. Diz o federacaors.org.br, o Ministério da Saúde, principal mantenedor, o SUS recebeu um corte de 20% no orçamento de 2022.

Klinik NHS

Se
o nosso sistema público ainda não chega àquele NHS dos bons tempos, é pura questão financeira: orçamento cortado, rendimentos baixos, falta de equipamentos e aparelhos de todos os tipos, instalações, medicamentos e insumos. Lá, os salários vão do básico, R$ 14.130,00, ao do especialista, R$ 24.290,00, pelo câmbio de 7/10 (fonte: The Complete Guide to NHS Doctors, in BMJ Careers, 22/08/22). Isso, fora extras, bônus e gratificações. Mesmo considerando o custo de vida inglês, a diferença é gritante.


Em
decorrência dessa fratura na clavícula vim a descobrir que o sling inglês nada mais é do que uma tipoia ajustável, de material sintético. A origem da palavra tipoia é riquíssima, e traz à lembrança o grande Mário de Andrade, com sua ironia modernista: “Você sabe o francês singe, mas não sabe o que é guariba? Pois é macaco, seu mano, que só sabe o que é da estranja”.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

DEBATE: DISCUSSÃO OU POEMA

em tom satírico e alegórico?


Para discorrer sobre o debate, busquei o étimo de palavras e expressões. Além dos equívocos de que poderia ser vítima, aumenta a compreensão da matéria. Recorri ao basilar, com o etimologista Deonísio da Silva (De Onde Vêm as Palavras, ed. Lexicon). Diz ele que ‘debate’, com o sentido que tem em uma disputa eleitoral, vem do inglês to debate. Para o Oxford Dictionary, “uma discussão formal sobre um tema em um encontro público ou Parlamento”. “No debate são alegadas razões a favor e contra determinado tema”, completa Deonísio. E há outra acepção, que pode ser novidade para o leitor como foi para mim: “...poema dialogado, de tom satírico e alegórico, muito em voga na Idade Média”.


O Houaiss cita débat, do francês do século 13: “controvérsia, querela”, e entre seis acepções para a palavra destaco uma que serve de forma especial a este caso: “agitar veementemente o corpo e/ou membros (ou qualquer espécie de apêndice locomotor), na tentativa de livrar-se de sujeição física <a mosca debatia-se na teia da aranha>”. Sobre esses dois sentidos nos debruçaremos.


O debate de 29/09 teve de tudo, um pouco do sentido emprestado dos americanos e da alegoria da mosca na teia de aranha – ou, quem sabe, “eu sou a mosca que pousou na sua sopa”, do Raul Seixas. Entretanto, pouco debate se viu, e se alguém tentou, o fez para si, sem interessar a resposta – arte em que é mestre Ciro Gomes. A ironia de Bolsonaro a Lula, chamando-o de ex-presidiário – “indivíduo que cumpre pena em presídio”, segundo o Houaiss –, além de equivocada foi inoportuna. Sem entrar no mérito, Lula não passou 580 dias em um presídio, mas numa sala da Superintendência da P. F. em Curitiba, condenado em segunda instância no TRF-4 e liberado pelo STF (proibição de prisão imediata após condenação em segunda instância). Inciso LVII do Art. 5º da Carta de 1988: “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Não houve trânsito em julgado da condenação em sede de última instância recursal. Poderia ser chamado de “ex-preso”, mas ainda assim ironicamente, em um debate que deveria pretender-se uma disputa cordial entre senhoras e cavalheiros.

ofuxico.com

Fora intermitentes reprimendas do mediador William Bonner, houve desatinos e bravatas, com Simone Tebet chamando Soraya Thronicke de “Bolsonara”, pedindo logo depois perdão pelo ‘lapso’ – ora, ambas são colegas de anos de Senado e a segunda foi aluna da primeira... Soraya perguntou ao Padre Kelmon: “o senhor não tem medo de ir para o Inferno?” E eis uma dele: “Pessoas sem roupa, uma atrás da outra, com o dedo, né, você sabe aonde...” Soraya criou o mote para os memes mais populares: “porque o senhor é um padre de festa junina”.


Simone prometeu que os jovens que terminassem o ensino médio receberiam um prêmio de cinco mil reais, como se estudar fosse uma gincana premiada. Por sua vez, Lula, atabalhoado, deixou Kelmon invadir-lhe o tempo, e ainda o estimulou indiretamente, atiçando a discussão no seu turno. (Deveria ter deixado o púlpito, o Padre falando sozinho para microfones que seriam desligados).


Enfim, qual o papel que ‘Padre’ Kelmon estaria desempenhando no jogo (a serviço de quem?). Repetiu-se o questionamento sobre seu status clerical (negado em ofício público de 14/09 por Dom Tito Paulo George Hanna, arcebispo da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia no Brasil). Bonner foi didático: “o senhor sabe que o debate tem regras e que o senhor concordou com elas?” Memes de todos os tipos e espécies tomaram as redes sociais por conta do ‘padre’. Desde vestimentas de festa junina, passando por montagens de Soraya ao lado de Kelmon junto a uma fogueira tendo como legenda a pergunta sobre o Inferno, um surto de criatividade. Se o debate perdeu em seriedade, a Internet ganhou em deboche e escárnio.

Sátira romana

Fico com a segunda definição do Deonísio da Silva: “tom satírico e alegórico, muito em voga na Idade Média”. A sátira seria, na literatura latina, uma espécie de poesia burlesca, cômica, contra instituições e costumes, um gênero que faz alusão à zombaria do coro satírico grego. A alegoria traduz ideias de maneira figurada, cada elemento disfarçando a realidade, mas representando-a. Quesito nos desfiles das escolas de samba, nas fantasias e carros alegóricos, também completa a ideia do termo.

Juan Muñoz: Conversation Piece

Kelmon foi a estrela da noite. Preparado nos bastidores pelo “filho 02”, tornou-se conversation piece: aquele objeto decorativo, geralmente um kitsch, que, colocado no centro da mesa, serve para puxar assunto quando chegam visitas do nada. Lula foi presidente duas vezes e era líder em todas as pesquisas (fora duas delas, fake, que invertiam os nomes na “pole”). Bolsonaro é o runner-up da corrida, Simone e Soraya são novamente senadoras e Ciro um experiente e eterno postulante que joga sozinho. Kelmon foi um outsider, e uma sátira de si mesmo. Presente o excesso de regras e candidatos, ausente a disciplina. Que tenha sido uma lição.


Terminado o 1º turno com grande abstenção (32 mi), Lula superou Bolsonaro em menos do que as pesquisas mostravam. Há um novo quadro, com expectativa de debates “olhos nos olhos” entre ambos: Ciro e Tebet tiveram juntos 8,5 mi votos (3,6 e 4,9 mi, respectivamente). Bolsonaro ficou em segundo, abaixo 6,18 mi votos de Lula, e precisa do equivalente a 72,6% dos 8,5 mi de Ciro e Simone (e ambos já declararam apoio a Lula!). Um novo debate promete ser acirrado, porém que seja mais sóbrio, como o momento exige.