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sábado, 27 de maio de 2023

SAMUEL KERR, "SULL' ALI DORATE"

 


Se me perguntassem um dia o que eu mais gostaria de ver em um regente coral, a resposta seria curta e simples de ser entendida: Samuel Kerr. Mas se esmiuçasse, como se estivesse em um coro: clareza, confiança, empatia, o gestual claro, o respirar junto; a experiência, que é fundamental, pois espera-se um chão firme onde se depositar segurança; energia, aquela que se transmite ao bem-reger, fazer a música acompanhá-lo para poder acompanhá-la. Como pessoa, a simpatia, o sorriso sempre que possível, aquela liderança que trafega em rua de duas mãos, pois que é um fluxo de ida e volta (tentar ser um líder no pódio sem que seus liderados retribuam é um tiro no pé). Enfim, aquela presença viva, o carisma daquele que sabe galvanizar as atenções e, sem ser arrogante, com energia envolver um ambiente, seja uma pequena sala ou um auditório de grande porte. Carga pesada, tudo isso! Esta é a primeira questão: o regente está preparado para tanto? Caso negativo, a música não deslancha, ela apenas passa na nossa frente.

Samuel, ao centro, Naomi (d) e eu (e) 

Cruzava com Samuel Kerr no Teatro Municipal de São Paulo e na Escola Municipal de Música. Se não me engano, uma ou outra vez na orquestra, dividindo o palco com a Osesp do Eleazar de Carvalho (eram duas figuras diferentes, um de coro e outro de orquestra, temperamentos diversos trazendo a seu modo quase todas aquelas qualidades que listei no princípio). Samuel foi diretor da Escola Municipal de Música do Teatro Municipal nos anos 70, cargo que eu mesmo vim a ocupar vinte anos depois, já de volta ao Brasil e estabelecido em São Paulo. As mãos do Samuel lá estavam, no carinho com que ele tocou a EMM nos seus tempos de direção. Um ciclo que, após minha saída, veio a ser ocupado durante algum tempo por outra grande regente coral, a quem eu chamo até hoje ‘Magic Naomi’, que nos deixou no começo da pandemia, em 2020 – não coincidentemente, pessoa ligada a mim, e de forma mais estreita ao próprio Samuel. Certo dia, reencontramo-nos em Tatuí. Foi há poucos anos, fechando o círculo de cumplicidade e de sonhos comuns para a EMM e para a música.


Lembro-me de que foi no dia de meu aniversário, em maio de 2000, que Samuel tornou-se mestre pela UNESP – exigência da carreira, e não sua, frisava -, paralelamente ao cargo de professor daquela prestigiosa universidade, sua tese vindo a público com um trabalho de grande importância: “História da Atividade Musical na Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo – Uma Fisionomia Possível”, abordagem detalhista de longa data da tradição musical presbiteriana em São Paulo. Passando os olhos pela tese, achei-a de tamanha relevância para a música da Capital e a tradição presbiteriana que comentei, que deveria publicar o texto em forma de livro. Samuel ponderou e pediu-me sugestões, sendo que a primeira que me veio à cabeça foi minha editora de então, a Edicon, que ele fosse lá e conversasse com a responsável, ela estaria avisada. Fechou-se o acordo e, não tardou muito, logo estávamos com os exemplares nas mãos.

O jovem Samuel ao órgão

Um trecho do Boletim nº 1479 da Igreja Presbiteriana, de 13/11/1955, dedicava-se a um talentoso jovem músico: “Foi solenemente empossado o novo organista da Igreja, Samuel Kerr. Durante o culto recebeu a solene investidura de organista emérito o Prof. William Sunderland Cook, a quem foi entregue o respectivo diploma”.  Samuel, que começara a estudar música um pouco tarde, aos treze, ao assumir o posto tinha então vinte anos, muita garra e especial vocação. Naquela Igreja, Samuel plantou as sementes de um estudo cada vez mais dedicado e profundo, lapidando-se e crescendo não apenas como organista, mas também como maestro de coro e professor amado por todos os que com ele quisessem aprender. Levava assim adiante uma tradição musical do passado, de grandes compositores e regentes de coro, organistas e cantores que se entregavam com dedicação especial à arte de louvar a Deus. A Igreja Presbiteriana Unida, no Brasil, existe há mais de 120 anos, e contando-se os primeiros esforços já conta com um total de 158 anos, desde os primórdios, na atual Rua Líbero Badaró, e chegando à fusão como Igreja Presbiteriana Unida, no bairro de Santa Cecília, em 1900. Além de congregar seus fiéis, a IPU ajudou a produzir um sem-número de músicos para o país, e lá amadureceu nosso querido maestro.

Mário de Andrade

O nome de Samuel Kerr é indissociável do Coral Paulistano, fundado em 1936 por Mário de Andrade e voltado principalmente ao repertório coral brasileiro. Assistir ao maestro conduzindo o Paulistano era abrir o coração para a nossa música, apresentações da mais alta qualidade não apenas no sentido universal, mas, também, à preservação do que temos de melhor - do folclore, do molejo e do gingado, passando pelas nossas composições mais elaboradas e chegando à música contemporânea.


Na quarta-feira, 17 de maio de 2023, baixava as mãos al niente, ao silêncio, pela última vez, o maestro frente ao seu imenso coro, que conduziria com espírito jovem e invulgar energia. Tinha então 88 anos completados doze dias antes; aniversariava um dia depois de mim, razão de eu guardar a data. Sua partida rumo à grande pausa, não sei se repentina, foi notícia que me pegou despreparado, de supetão. Um susto. (Lembrei-me da foto dele que guardo, nós juntos à amiga regente do Coro da Osesp Naomi, em uma visita que fizeram a Tatuí). É chegada a hora de entoar para Samuel o famoso coro da ópera Nabucco, de Verdi: Va pensiero, sull’ ali dorate (“Vai pensamento, sobre asas douradas”).

sábado, 20 de maio de 2023

CAVALOS SELVAGENS E O CURURU

 


um dito inglês bastante popular: “Cavalos selvagens não poderiam me arrastar daqui” (Wild horses couldn’t drag me away), com o sentido de que nada, força alguma tiraria de onde está a pessoa que fala. Quem já viu, no prado ou no cinema, cavalos selvagens em disparada ou empinando sobre as patas traseiras aquela massa de músculos, animais lindos de se ver, sabe do que falo. A expressão deu o mote para que os Rolling Stones compusessem uma bela (embora tristíssima) música sobre o tema, Wild horses, sobre as dores de um amor e cavalos selvagens. A frase pode ser entendida como “nada me arrasta daqui”, e em sentido estrito, “tenho os pés fincados neste local”. Nesse aspecto, “aqui é o meu lugar”, referindo-se a um rincão, região ou estado. No Brasil, o apelo seria o mesmo do americano: a terra em que se nasceu, que se adotou, aquela onde se viveu, cresceu, enfim, conheceu os costumes e, deste modo, sorveu a cultura local e sua  culinária, jeito de se vestir, o sotaque, o dialeto. Em todos os lugares, fala-se de um apego muito especial: os rios da terra no sangue das veias e os pés no barro do chão.

Portinari

Curiosamente
, mesmo havendo um apelo geográfico, pode acontecer de o sujeito ser levado por “cavalos selvagens” a outro lugar, longe da região onde nasceu. Bons exemplos são Villa-Lobos e seu “Trenzinho do Caipira” cultura distante de seu Rio de Janeiro natal; o norte-americano Aaron Copland com seu “Apalachian Springs” e Antonín Dvorák, nascido na Boêmia do Império Austríaco, hoje República Tcheca, mantendo o vigor de suas raízes no coração, onde quer que trabalhasse, a exemplo das “Danças Eslavas”. Assim como muitos outros compositores, seja lá onde estivessem também estaria a cultura de suas origens, base de sua formação. Em nossa música popular, Gilberto Gil canta a Bahia por atavismo em todos os cantos, enquanto Belchior e Fagner carregam seu Ceará pelos lugares que adotaram. O mesmo aconteceu com bluesmen e cantores folk americanos, e Bob Dylan seria um ótimo exemplo. Ainda pensando nas artes, temos o paulista Candido Portinari, que pintava sofridos retirantes nordestinos, sem esquecer a também paulista Tarsila do Amaral, cujas pinceladas modernistas foram do interior à metrópole das chaminés de fábricas e seus operários, espremidos entre muros.


Parece
que quanto mais se vive, mais a gente se espalha, e o último lugar onde se vive, que é onde se está, é a outra ponta do torrão natal. Vemos ‘cavalos selvagens’ até que a vida nos cerque e nos conduza para outro lugar, enquanto nossos corações deixam um pedacinho ali, outro acolá, e levam consigo um pouco dos caminhos que trilhamos. Difícil esconder de nós mesmos o tanto que acumulamos na estrada, melhor é rasgar a cortina e mergulhar na riqueza desses lugares. Os velhos Mutantes da Pompeia paulistana cantavam com tanta graça, com a brilhante e saudosa Rita Lee à frente, um futuro intergaláctico (“Dois Mil e Um”): “Astronauta libertado / minha vida me ultrapassa / em qualquer rota que eu faça” - com voz de matuto forçada (ave Rita, salve artista cosmopolita).

A turma do Cornélio Pires

, sim, os que nem cavalos selvagens arrastariam de seus lugares a troco de nada, parecem fincados na origem e destino, são parte de seu chão, e cantam, contam, pintam sua história. Os artistas de raiz, distantes dos spotlights dos estúdios de TV são estranhos à superficialidade das telas coloridas, precisam sentir com o tato o barro, a terra e o cheiro de suas nascenças, suas andanças, suas vivenças.   

Camargo Guarnieri

Conheci
bem o cururu, que é a cantoria do Médio Tietê, desafio paulista com rima de santo e viola ponteando o improviso. Foi nas plagas do cururu que compreendi uma nova universalidade. Aprendi, às vezes surpreso com as rimas de “repente”: somos astronautas caipiras tal qual cantou Rita Lee, na velocidade da luz. Li muito Mário de Andrade, que, embora cidadão urbano por excelência, ensinava seus alunos, como o tieteense Camargo Guarnieri, que é nas raízes que se encontra o alimento da criação. Assim como a turma de Cornélio Pires, jornalista também de Tietê, que trouxe a linguagem caipira mais raiz à exposição como verdadeiro gênero musical. (Curioso, não se sabe se Cornélio (1884) e Guarnieri (1907) sequer se conheceram, há um lapso de tempo e de idade desde a ida do primeiro para São Paulo, em 1914. Salvo uma convivência que não houve, ambos beberam da mesma fonte, pisaram o mesmo barreiro).


Meia
volta ao cururu: quem me estimulou no assunto foi o grande e saudoso Osvaldo Lacerda, que chegou a me mandar cartões sobre os ensinamentos do Mário de Andrade: o uso dos elementos de raiz na música de concerto – prática levada à risca pelo mestre Guarnieri. Agora veja, esse tríptico de raiz-concerto, Andrade-Guarnieri-Lacerda, que foi o grande laço nacionalista da música do século passado, respirou a brisa do Médio Tietê, e também Villa-Lobos viu a fumaça do trem em sua excursão musical pela Estrada de Ferro Sorocabana.

Josué e Zé Pinto

É
aqui que eu amarro meus cavalos, neste ponto do texto e da vida. E se assim o faço é porque me afeiçoei pela gente da região e me apaixonei por sua música, que tem jesuítas, indígenas, tropeiros, catequistas. Conheci gente como o canturião José Pinto, poeta inspirado e de mão cheia, o Josué, jeito bonachão tocando aquela viola que chamo ‘de arrimo’. É a eles que dedico este texto, em nome de todos os cururueiros. Sejam mais fortes que cavalos selvagens, e que rimas e carreiras continuem a florescer no chão por onde passem e cantem.

 

sábado, 13 de maio de 2023

DE REPENTE,

 


...tudo na vida pareceu um quadro impressionista: paleta de muitas cores, paisagens, a beleza natural dos traços cheios de detalhes, um conjunto encimado por um céu azul como nada. Tudo isso junto, parecia que a natureza emoldurava aquele paraíso, as águas límpidas refletindo em nossos olhos, nosso pensar. (Mas por que essa poesia? Por que tão de repente? Quem viu esse quadro, esse óleo? Não seria simples ilusão, uma conspiração de sonhos, pensamentos etéreos e de boas ideias?)


N
a sexta-feira, cinco de maio, o etíope Tedros Adhanom, presidente da Organização Mundial de Saúde (ONU), com sede na Suíça, veio a público para declarar – ou decretar? - o fim do ciclo de emergência da pandemia. Desastre. Muitos tradutores apressados, ao redor do mundo, reproduziram a fala como, ao som de trompetes, a saudação ao fim da pandemia de Covid-19, como foi inicialmente compreendido pelos ouvintes mais afoitos, desavisados e repetidores de esquina. Soava-lhes como um salvo-conduto para a volta àquela vida boa de praia, aglomerações, abraços efusivos e sacudidos, beijos de simpatia ou amor, um novo paraíso construído com tijolos de fantasia e argamassa de pura ilusão, lembrando os bons tempos. As normas da própria OMS definem quando se declara o fim de uma pandemia, coisa não tão simples quanto pareceu ao grande público. A AIDS, por exemplo, ainda é uma pandemia viva, e, mesmo que em pequena escala e sob controle, ainda cabe como uma luva dentro da definição: “doença infectocontagiosa (...) caracterizada por alta morbidade e mortalidade (...) em curto espaço de tempo, por várias regiões do mundo” (Houaiss. Etim: do grego pan, todo, e demia, doença que atinge uma população). Para se ter uma ideia, o último diagnóstico da varíola (doença original, nada a ver com a recente ‘dos macacos’) aconteceu, solitário, apenas em 1977, o que levou a OMS a declarar a doença, em seu estado original, como extinta, após longos anos. Ademais, tal ‘ciclo de emergência da pandemia’ não poderia, jamais, ser lido como fim da pandemia em si, nem ao pé da letra.


T
ambém o diretor-executivo da OMS, Michael Ryan, tentou emendar o soneto, dizendo que a emergência pandêmica acabou, “mas a ameaça não. A batalha não acabou, e provavelmente não haverá um ponto em que a OMS anunciará o fim da pandemia”. O próprio Tedros disse que “foram quase sete milhões de mortes reportadas à OMS, mas sabemos que o número é muito maior, ao menos 20 milhões”. E, arrependendo-se (UOL, 5/05/23): "A pior coisa que qualquer país pode fazer agora é usar esta notícia (...) para baixar a guarda, desmantelar os sistemas que construiu ou enviar a mensagem de que a covid-19 não é mais motivo de preocupação".

Varella: El País 

N
a mesma noite da declaração de Tedros, a GN, em longa série plena de depoimentos, deixou claro que, em hora nenhuma, a pandemia teria acabado, batendo o pé com firmeza, pois ela continua viva como nunca, apenas com menor número de internações, intercorrências e mortes. No programa falou-se até em negacionismo, e o Dr. Dráuzio Varella, juntando tudo, chegou a mencionar a palavra estupidez: sobrancelhas franzidas, expressão dura, estava mais irritado com tudo aquilo do que raramente se vira antes. Varella sempre lutou pela vacina e por salvar vidas, como um todo; renomado cientista que é, nunca deixaria passar uma expressão que sequer insinuasse este mal entendido. É da vida dele, o talento especial que exibe ao falar, ao se fazer compreender. Mas para quem ouve notícias picadinhas, por alto, deve-se evitar esse tipo de sutileza, que pode sobrepassá-lo sem aviso como um trator.


E
stamos em pleno deslanche inicial da subvariante arcturus, da omicron, e vis-à-vis às portas da nova fase da campanha: a da vacina bivalente, que já lota as geladeiras das unidades de saúde do país. É difícil este começo, especialmente dada a “indolência natural do povo brasileiro”, como dizia Mário de Andrade. Faltou nesses anos cooperação de setores dos mais altos escalões; pior ainda, o recente escândalo das carteiras de vacinação, surrealistamente para não serem vacinados devido a interesses escusos ou supostas posições ideológicas exatamente aqueles que tinham poder sobre o quê, quando e onde inocular a população. Um péssimo exemplo. O modelo bivalente ora nos postos de saúde tem dois alvos, como o próprio nome diz: tanto as cepas mais antigas quanto as mais recentes. A última delas, Arcturus, surgida na Índia, país mais populoso do mundo (1,5 bi de habitantes), já toma corpo na Europa e ‘estreou’ no Brasil recentemente. Se por um lado ela mata em escala bem mais reduzida, alastra-se com maior facilidade e joga aos leitos e emergências número significativamente menor de pacientes. Mas o bicho ainda vive, Vivinho da Silva, diriam antigamente. 


F
oi tudo doce ilusão, ou tudo não passou de um mal-entendido? Talvez entre a pronúncia do Dr. Tedros Adhanom, da OMS, a redação do discurso, certo enfado e a quase sempre plana e rasa intepretação ao falar? Perdeu-se o sentido da coisa e criou-se um novo vírus, este virtual e multicelular, pioneiro em fazer confusões, campeão na arte de desinformar, material fértil para fake news de todos os gêneros. As equipes desses cirurgiões das palavras têm atuado rápido nesse tortuoso e bem sustentado caminho do equívoco; reinventam o que, pelo simples prazer ou dever de mal informar, já vinham fazendo: “Fez-se do amigo próximo o distante / fez-se da vida uma aventura errante / De repente, não mais que de repente” (Vinicius de Moraes).

 

sexta-feira, 5 de maio de 2023

COMMIRNATY BIVALENTE, RNAm E COVID

 

Foto: Prefeitura de Tatuí

S
egunda-feira, 24 de abril de 2023. Pensando em uma conversa tida com um amigo no sábado, não demorei cinco minutos para decidir: Centro Municipal de Especialidades Médicas, o CEMEM, perto do centro de Tatuí, SP. A rua é movimentada, mas achei vaga no estacionamento da calçada da clínica, desci, andei um pouco, galguei o ambiente, limpo, amplo, organizado. Ali, sentei-me um pouco e puxei assunto com uma senhora de branco, gentil enfermeira, que após conferir meus dados aplicou-me no braço esquerdo uma dose da Pfizer – Commirnaty Bivalente RNAm, a chamada sexta dose de vacina contra a Covid-19. Ela é uma sequência das anteriores anti-Covid acrescida (daí o ‘bivalente’) do Ômicron B.1.1.526. Já RNA é a sigla em inglês de ácido ribonucleico, que com o ‘m’, ‘mensageiro’, forma batalhões de microscópicos cavalos de Troia que atuarão dentro do corpo para contra-atacar o vírus.


A
proveitei para, no braço direito, ter aplicada uma dose contra gripe, a Influenza Trivalente, já que esses bichinhos vão mudando ano a ano e temos de nos atualizar. Atendimento e eficiência: saí de casa e em menos de uma hora eu estava de volta almoçando. Antes que eu me esqueça, minhas experiências com vacinas aqui em Tatuí têm sido cada vez melhores. Mas é hora de colocar na pauta alguns problemas de consciência: se eu não me vacinasse, abriria guarda para que os vírus que hospedasse fizessem vítimas terceiros que não escolheram adoecer, o que é muito grave. Uma boa notícia: apesar de esta última vacina ter sido destinada a categorias etárias ou comorbidades específicas, no mesmo dia 24 o governo liberou a bivalente para todos acima de 18 anos, desde que já tenham tomado ao menos duas de Coronavac, Astrazeneca ou Pfizer até há mais de quatro meses (G1, 24/04/23). Li que era grande a preocupação do governo com a baixa procura – cerca de 18% - pela faixa etária e comorbidade iniciais, daí a liberação para os dezoito anos.


P
arece que o apelo já não era tão grande quando do pavor inicial provocado pela doença. Penso que vários fatores contribuíram para esse, digamos, descaso na campanha da vacina anti-Covid: um pouco de cansaço nessa já longa jornada, a desatenção para certos cuidados – máscaras e álcool em gel, além dos efeitos profiláticos, tinham um componente psicológico: ambientavam a tomada de certas precauções. Esse descaso é bem grande, estimulado no viés político por autoridades do nosso país, banalizando as dimensões da virulência da praga covidiana: com certeza, mesmo que um pouco mais rarefeita, o fato é que a incidência do vírus diminui, mas continua infectando. E matando.

Vibração de diapasões por simpatia

R
esolvi escrever este artigo por motivos que fincam raízes no cenário que acabo de descrever logo acima. O gatilho, para mim, veio com a decisão solidária que me deu na tradicional selfie com a carteirinha de vacinas na mão, tirada ainda na rua, e convenientemente postada em uma rede social. Muitos fazem isso, e eu não me furtei: estimula a procura pela inoculação e a solidariedade. Outro motivo: respondendo à questão de um amigo idoso na rede social sobre se “tem” de tomar esta sexta dose, expliquei o que sabia e ele se disse convencido a ser inoculado. Mais um protegido, que seja. Por fim, lembrei-me de que, apesar de meu ralo conhecimento superficial de infectologia e afins, era meu dever de cidadão fazê-lo (no sábado, durante aquele bate-papo com o amigo vizinho, fui convencido a segui-lo sem que ele tivesse de mover um dedo: brotou em mim (em música, diríamos que foi vibração por ‘simpatia’). Reproduzi o gesto, foi solidariedade, mesmo, feliz assim como eu fiquei ao ouvir a ideia do senhor idoso que se manifestou pela decisão da vacina. Afinal, a humanidade não é uma corrente?


H
oje todos já sabemos muito mais do que sabíamos sobre o vírus Covid e suas variantes e cepas, às vezes elegantes e eruditas com o alfabeto grego a reboque. Há três anos tudo era temor contra esses vírus franco-atiradores invisíveis. Medo, muito medo. À medida que novas cepas foram surgindo e a vacinação no mundo mostrava certo progresso, vimos que é no coletivo que ela funciona: já sabemos que não vai desaparecer, veio para ficar, mas a inoculação em massa diminuiu os efeitos que levaram muita gente à internação ou à morte. E agora, estamos protegidos? Em tese, parece que será uma luta constante: manter o nível de infecção muito baixo, quase nulo, cujos efeitos seriam pouco significativos em grande escala. Porém, para tanto é preciso que a campanha não arrefeça e continue o esclarecimento público, assim como que as pessoas atendam aos apelos quando convocadas em suas vezes. Foi assim com a pólio e outras doenças. Ao contrário, o negacionismo vai muito além de “pinga mata isso”, “já tive, estou imunizado” e balelas assim: negar o potencial do vírus é abrir flancos para mais formas de ataque.

Os flagelos das vacinas em 1904

J
á houve uma “Revolta das Vacinas” contra a campanha do Dr. Oswaldo Cruz, em 1904, quando a peste bubônica, a tuberculose, a febre amarela, a cólera e a varíola tomavam conta das ruas e sua população, em grande número recém-liberta da escravidão, sem que lhe fosse oferecida moradia condigna e sequer o saneamento necessário.   Mas o Brasil, terra do Oswaldo Cruz, continua sendo um dos bastiões dessa luta. É preciso ajudar, cada um colocar o seu grãozinho de areia. As vacinas protegem e são de graça, ou, melhor dizendo: nós todos pagamos, por meio de impostos,  que nos retornam com os antivírus e nos são de direito!

Obrigado por tudo, enfermeiros!



 


sexta-feira, 28 de abril de 2023

TRANSGÊNEROS, ARQUEOLOGIA E IDIOMA

 


V
ilma Gryzinski publicou na Veja de 19/4/2023 o artigo “Os EUA também estão na ‘decadança’”? (“O declínio da superpotência tem algum fundo de verdade”). Discorre sobre tudo, citando uma ironia do intelectual conservador francês Patrick Buisson: “a sociedade ocidental se suicida dançando”. Fala de delírio coletivo e até de uma seita adepta de princípios radicais. Cito uma aberração destacada por Gryzinski, entre outros apontamentos: “...sem contar que o mundo da ciência está sendo assolado pela mesma doença ocidental da autocrítica alucinada, além de acusações de que a matemática, a física e outras áreas são racistas e sexistas. E quanto mais absurda a tese mais sucesso faz na academia: até a arqueologia entrou na dança, com a promessa de uma ala ‘anarquista’ de não mais definir o sexo das ossadas ancestrais, para não designar erradamente esqueletos – acredite se quiser - que tinham opção de gênero diferente daquela que os ossos e o DNA nos contam”.


S
im, é isso! Parece necessário respeitar a opção sexual de esqueletos da pré-história (sic), sua escolha de gênero. E daí a generalizarmos e cairmos no engodo que toda generalização traz, podemos crer que a essa altura tais “antropólogos anarquistas” já estão lá na frente a fazer a taxonomia (classificação sistemática em categorias) dos animais pré-históricos trans: dinossaures, brontossaures, pterodátiles e outros, ficando dispensados alguns como os T-rex, que já vêm com a desinência (fim, sufixo) “x” pronta: haja ‘anarquismo’. Além de desinventarem nosso vocabulário parece quererem avançar sobre outras ciências, além da arqueologia. Misture-se bem tudo isso, acrescente-se a dita “inteligência artificial”, algumas pitadas de modismo e teremos aí o homo ignorant” dos novos tempos: feito para repetir as asneiras que lhe ensinam–programam e assumir seu personagem, negando o conhecimento científico anterior. Pronto para vigiar e ser vigiado por seus pares, algo como no surreal filme “Alphaville” (1965), do francês Jean-Luc Godard (onde, numa cidade imaginária, além de obrigada a seguir os frios ditames do computador central, “Alpha-Soissante”, ‘desvios’ como falar de amor eram proibidos,). Há uma corrida científica, na área do chamado STEM (ciências da tecnologia, engenharia, matemática e natureza): a China, prestes a se tornar a maior economia do mundo, prepara quase cinco milhões de graduandos por ano, enquanto os EUA fazem menos de 500 mil, cada vez mais sujeitos a modismos e ideias malucas.


D
o lado de cá, na banda brasileira, qual seria o papel de um professor sério nesse imbróglio crescente? Afastar a grafia incorreta, pois embora aparentemente muito mais simples, a pseudomoderna de hoje só coaduna muito bem com a escrita de dois ágeis polegares digitando no teclado de “smartphones”; ensinar o que se chama “norma culta”, que vem a ser o conjunto de regras e padrões linguísticos empregados por pessoas de alta escolaridade, tal qual a língua falada e escrita por juristas, pesquisadores e cientistas. Ou seja: a turma das ossadas transexuais dos “x” ou “es” não entra.

Charles Dickens

N
ada contra a gíria bem usada e os neologismos bem escolhidos, além da transexualidade – afinal, os idiomas, como ela, são dinâmicos. Mas certa fixação adolescente em transgredir todos os idiomas até mesmo por ignorância léxica e gramatical, e, pior, a ciência mundão afora, tem de ser, por dever de ofício, alvo de toda a classe dos formadores de opinião na luta contra a proliferação de tantos vícios e desvios. [Abro aqui espaço para o uso desses dialetos na língua inglesa, segundo o escritor norte-americano Christopher Moore (1957): “Do ‘londonês’ de Dickens aos ‘fakes’ de Salinger, dos ‘beatniks’ de Kerouac às loucuras de Cheech & Chong e daí aos neologismos do Hip-hop, dialetos sempre foram usados como forma de uma geração se distinguir das outras”. Ou seja, segregar para se defender, tentando manter o isolamento de sua tribo].

Segundo Buisson, o delírio coletivo perpassa um fundo de realidade - mesmo se a defesa dos transgêneros virar uma seita obscura que exige adesão a princípios como intervenções médicas radicais em crianças! Até onde vai o fanatismo? Mas isso não seria uma ideia medieval, antes de mais nada?


O
utro perigo é a pasteurização, o estreitamento da mente e da escrita. Em 2014, uma certa Patrícia Engel Secco surgiu no Minc com um projeto de distribuição de livros simplificados, para fácil leitura. E foi-se iniciar logo com Machado de Assis, ícone da nossa língua portuguesa. Coisa para ganhar dinheiro fácil via incentivo fiscal, logo esbarrou em séria oposição. Eu havia trabalhado com a então nova ministra Marta Suplicy no Instituto Florestan Fernandes e na Prefeitura de SP, além de estado com ela em alguns encontros, e tomei a liberdade de deixar um depoimento. Não demorou, a resposta: “Prezado Henrique Autran, o projeto apresentado pela escritora (...) não é mais do meu alcance, pois foi autorizado para captação de recursos em 2009. Espero que isso não ocorra mais e que, daqui para a frente, autores consagrados passem por critérios mais rigorosos. Informo, ainda, que fiquei contrariada ao tomar conhecimento do fato, pois iniciativas como essa maculam os grandes escritores”. Não sei no que deu o projeto, do qual não mais se falou, e espero nunca ouvir meus netos e eventuais bisnetos lendo a que já foi chamada “Última flor do Lácio, inculta e bela” de forma abreviada, deturpada e enxugada por conta de modismo ou simples ignorância.

 

sexta-feira, 14 de abril de 2023

ANJOS

 

Anunciação: Fra Angelico

Os anjos e os arcanjos, os querubins e serafins, não o cessam de louvar dizendo em uma só voz: santo, santo, santo, é o Senhor Deus do universo. Céus e terras estão cheios de vossa glória. Hosana nas alturas”. Oração dos tempos de criança, despertou-me curiosidade sobre os anjos (nos EUA, 70% dos habitantes creem neles!). A palavra vem de ággelos, em grego, de onde angelus, em latim. São personagens celestiais de tão grande vulto que no séc. 4 teólogos criaram a hierarquia angelical e sua organização. São nove entidades, entre elas os citados anjos, arcanjos, querubins e serafins. Um anjo com uma espada levou a mensagem de expulsão de Adão e Eva do Paraíso, e um outro abençoado teve a missão de levar à Virgem Maria a notícia de que ela daria vida a Jesus, gestado em seu ventre. Entre os anjos, sete se destacam: Gabriel, Miguel, Rafael, Raguel, Remiel, Sariel e Uriel (SILVA, Deonísio. “De onde vêm as palavras”. RJ: Lexicon, 2014, 17ª ed.). Angelus” é também a tradicional oração do Papa no Vaticano: Dominum nuntiavit Mariae (“O anjo do Senhor anunciou a Maria”).



E
m nossa música e poesia, eles também existem, e mais do que nunca são irreverentes: “Quando nasci veio um anjo safado / o chato do querubim / e decretou que eu estava predestinado / a ser errado assim” (“Até o fim”, Chico). Outro desses anjos arteiros é o de Drummond, em “Poema de sete faces”: “Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / Disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida”. Bem aqui na Terra, os “Guardian Angels” (Anjos da Guarda), organização fundada em 1975  em NY, tinham, entre suas missões, passear em grupos pelo metrô de NY evitando assaltos, ajudando idosos, crianças perdidas. Vestiam jaquetas que lembravam outros anjos, os “Hell’s Angels” (Anjos do Inferno), briguentos em suas possantes motos Harley Davidson, que faziam arruaça por onde passavam. Fundado em 1948, na California, EUA, os HA tinham como primeira exigência que o “Angel” possuísse uma Harley 1.200 cc, uma máquina com força de touro e rugido de leão. Sua “capital”, Los Angeles, 2ª cidade dos EUA com 4 milhões de habitantes, foi tomada dos indígenas para a Espanha por Juan Rodríguez Cabrillo em 1781, de onde o nome em espanhol da metrópole (em português, “Os Anjos”).


N
o dia 4 de abril, logo abaixo do título e antes mesmo do headline da capa – “A barbárie vai à escola” -, o jornal O Estado de São Paulo publicou uma lista apavorante: “5/4/23 Blumenau, Sta. Catarina, 4 mortos, 5 feridos; 23/7/23 São Paulo, 1 morto, 4 feridos; 25/11/22 Aracruz, ES, 4 mortos, 13 feridos; 26/9/22 Barreiras, BA, 1 morto; 4/5/21 Saudades, SC, 5 mortos; 13/3/19 Suzano, SP, 8 mortos, 11 feridos; 6/11/17 Alexânia, GO, 1 morto; 20/10/17 Goiânia, GO, 2 mortos, 4 feridos; 26/9/11 São Caetano do Sul, SP, 1 morto; 7/4/11 Rio de Janeiro, RJ, 12 mortos, 22 feridos; 29/1/03 Taiuva, SP, 1 morto, 3 feridos; 28/10/02 Salvador, BA, 1 morto”. Não seria preciso explicar, mas este é um gráfico por extenso dos ataques, da violência, dos assassinatos e das chacinas que vêm acontecendo em escolas de crianças, aparentemente sem explicação alguma.


N
o dia 8/4, em Blumenau, na creche Cantinho Bom Pastor, 9 crianças foram atingidas por facadas e machadinha, fazendo de quatro delas vítimas fatais. Uma, com escoriações e a mandíbula trincada, conseguiu escapar. Recebeu seu pai, em desespero: “Pai, estou vivo”. Este o breve desdobramento do final do último lamentável episódio. Nos funerais das crianças faziam flutuar estrelinhas, como fosse cada um dos anjos perdidos. Sim, a palavra mais ouvida foi “anjo” – pela inocência das crianças, pela pureza de suas tenras idades, pelo que representam em um país tomado pela violência, belicismo e mortes, ataques em geral sem qualquer coisa que lhes dê fundamento, além de simplesmente matar. São maníacos contagiados pela onda que preocupa vários outros países: entre meus contatos nos EUA, sei que eles não apenas compartilham das nossas dores, há uma espécie de mea culpa sem razão alguma, por uma prática importada de lá. Sim, são anjos, salvos do mal que os atacou. Ou levados por outros anjos onde se encontrarão com tantos anjos-crianças para sempre. Resta aos que ficaram, seus pais, às comunidades, o medo, o medo, o medo.


O
Brasil, com seus 5.570 municípios, não poderia ficar à parte desse pânico. Tatuí, por exemplo, com seus 124 mil habitantes (2021), chegou a estampar na capa do jornal O Progresso (9/4/23), encabeçando as notícias: “Ameaças alteram rotina das escolas locais”. Noticiou como reação local um encontro da Polícia Civil, PM, GCM, secretários de Segurança e Educação, além de docentes e gestores. Ainda na capa, um cartaz encontrado na escola “José Celso de Melo”: “Todo mundo dessa escola vai morrer”. Segundo Telma Vinha, pesquisadora de violência escolar, câmeras, detectores de metal e segurança por si não são soluções, ajudam mas não vão ao fulcro da questão: “Traz segurança para a sociedade, mas não (...) diminui o discurso de ódio” (Estadão, 9/4/23). Há fanatismo, há psicopatia, há os que querem seu tempo de fama nas mídias sociais e na imprensa, a que custo for.


N
a Nova Zelândia, onde 51 pessoas foram mortas, foi criada em 2019 a Christchurch Call to Action, que hoje reúne 120 governos, ONGs e empresas tecnológicas. Um supremacista branco matara meia centena em ação transmitida online por todo o mundo! Nesta luta, é preciso entendermos antes as mentes do que os atos. A herança política do que as armas. E proteger os nossos anjos.

 

sexta-feira, 7 de abril de 2023

BALA DE PRATA

 


D
e todos os tipos de munição, a bala confeccionada com prata – e às vezes ouro –, segundo rezam nossas lendas e folclore, é a única capaz de matar vampiros, lobisomens e outros seres aterrorizantes de todos os rincões brasileiros. A origem da lenda remonta ao século 18 na França: um monstro chamado de “A Fera de Geauvaudan”, morta por um caçador conhecido como Jean Chastel (algo como João do Castelo), em cujo chapéu carregava medalhas de Nossa Senhora, que seriam derretidas no fogo e fundidas em balas de prata (embora tal folclore já seja bem antigo, mais atrás ainda, antes das armas de fogo, flechas de prata tinham o mesmo poder - não graças à prata em si, creio, mas ao poder da Virgem Maria, de cujas medalhas era extraído o precioso metal). Enfim, tais balas de prata tinham, nessas lendas, o poder de aniquilar feras, lobisomens, vampiros e o que viesse de coisa ruim pela frente. Era um estampido e só.


E
ntre nós, nos dias de hoje, a expressão “bala de prata” adquire um outro sentido, além do poder sobrenatural, o da bala única: não se deve errar o alvo, pois, caso aconteça, haverá um final terrível. Nos EUA, no filme western-espaguete “O Dólar Furado” (1965), Giuliano Gemma, caubói italiano no papel de um ex-capitão do Exército Confederado americano, recebe a missão de matar o bandido Black Jack. Em um duelo de bala única, Gemma recebe um tiro no peito, cai e fica largado no chão. Depois – ele simulara estar morto - levanta-se: uma moeda de um dólar no bolso esquerdo da camisa o impedira de morrer - daí o título do filme. Talvez pouco tenha a ver com “A Fera de Geauvaudan” e “O Dólar Furado”, mas aqui no Brasil “bala de prata” permanece com o sentido de munição poderosa, e em geral uma só.

Edson Luís no Calabouço

C
laro, não compartilhamos literalmente desse folclore, mas há algum sentido quando se diz que o governo tem uma “bala de prata” no caso Arcabouço Fiscal, proposta gestada principalmente no gabinete de Haddad e nos aposentos palacianos, e com seus aliados. No caso da economia brasileira atual, fala-se muito em “bala de prata” quando se refere a âncora fiscal ou regra fiscal. Mas preferiram chamar o alvo de “arcabouço fiscal”, estrutura que sustenta a economia do país. Não simpatizo com a palavra arcabouço, de tantos sentidos, como esqueleto, armação, madeirame, e nem todos bons, talvez, para uma bala salvadora. (Eu diria a um analista freudiano que associo arcabouço imediatamente a calabouço, terrível cárcere subterrâneo, a masmorra, e o restaurante estudantil homônimo, o Calabouço, do Rio, onde, aos 18, foi assassinado Edson Luís, crime que provocou   o movimento que foi um dos estopins para o AI-5). Arquitetura ou resto de ossos? Bom, qual seja. Optou-se por arcabouço, que vingou como estrutura preparada para o controle dos gastos públicos, projeto que ainda vai ao Congresso Nacional – agora sim, na forma de bala de prata, não sei se munição única mas com certeza aquela que faria sossegar a fera e daria ao novo governo a segurança de que precisa em uma sociedade tão dividida, um Congresso tão disforme. O fato é que, se perdida esta bala, cunhar outra a tempo de proporcionar a viabilidade de tanta mudança desde já será missão quase impossível. De armação, a estrutura poderá se transformar em esqueleto. Um arcabouço de ossos. Não seria a última bala, mas ficaria cada vez mais difícil. Resta saber se Haddad tem o dólar de ouro para colocar no bolso e aguentar o rojão.

Keynes

E
m 2017, o governo Michel Temer conseguiu aprovar a lei do teto de gastos, que amarrou as contas de despesas de cada ano às do ano anterior - ou seja, não seria possível gastar mais do que no ano passado. Tão simples quanto parece, mas eficiente? A proposta de Haddad tenta equilibrar metas de superavit (diferença para mais entre receita e despesa) e controle de gastos a partir da evolução das receitas. A lei de Temer é tida como impeditiva aos benefícios sociais propalados por Lula desde sempre, mas a proposta acordada até agora pelo governo e parte do Congresso não é compreendida a fundo por leigos - como eu. Em princípio, o aumento de gastos sobreviverá, mas tendo como referência o desempenho da receita, com piso de 0,6% e aumento, inflação à parte, de até 2,5%. Pronto? Claro que não. Os números e a terminologia me são familiares, mas os detalhes de que preciso para compreender esta imensa equação estão longe de minha vã economia, que vai mais para o lado filosófico do que do financeiro. Fico com Smith, Marx, Keynes e Galbraith, e dá para compreender alguma coisa com esse número de pensadores e suas filosofias. Afinal, Haddad não é formado em economia, fez apenas um mestrado na USP, e nem o  foi FHC, ex-ministro da Fazenda de Itamar, sem formação específica no ramo.

Mobile de Calder

E
m vista disso, não vejo bala única ou de prata, como as nossas comentaristas dos telejornais da TV adoram dizer -, nem gosto de arcabouço. Não há apenas uma saída, um caminho, e é óbvio que todos eles são móveis, algo como uma escultura flutuante de Alexander Calder, peças oscilando como pêndulos no ar sem se chocarem, mantendo a harmonia como em tantos universos: a música, os corpos celestes, a cadência das ondas do mar. Os grandes economistas que conheci, os melhores, eram artistas, ou quase. Criam que cálculos e contabilidades caberiam melhor aos calculistas e contabilistas, e a eles próprios a estrutura e a filosofia. Porque tudo isso não é matéria de cálculo: é muito mais de pensamento, como a música que sai do papel para a fruição dos que a ouvem.

 

sábado, 1 de abril de 2023

ETARISMO: O LADO OBSCURO DA IDADE

 


A
pós uma busca pelos dicionários, definições muito simples convergem para pontos e situações semelhantes. Incomum mesmo é a palavra. Refere-se ao preconceito por idade, discriminação de pessoas mais velhas. Não encontrei referências aos de menor idade, embora ache que este preconceito também exista. Já o idadismo é apenas um sinônimo dicionarizado que remete à palavra-mãe etarismo. Uma outro termo, ageísmo, não tem registro nos compêndios que busquei, mas, óbvio, vem de age (idade, em francês ou inglês). Em dicionários de inglês a palavra ageism existe, assim como em francês, o que leva a crer que, em nossa língua, seja um simples anglicismo ou galicismo, vícios tão comuns em nosso cotidiano.


N
ão me lembro de quando surgiu em mim algum preconceito – e por autodefesa mesmo nem sei se já tive. Minhas referências são ambíguas, e, se foi um etarismo precoce, foi “do bem”. Pode ser que a fase da vida em que o etarismo se mostre mais evidente seja a adolescência, quando não se quer a companhia de crianças e menos ainda de idosos de todas as faixas etárias, aqueles a quem simplesmente se chama “coroas” (de trinta ou oitenta anos, a depender da idade de quem vê). O adolescente põe em conflito o passado de criança e o futuro que enfrentará, quando idoso. Em termos de preconceito, nossas vidas parecem centradas nesses tempos de adolescentes, e, talvez por isso mesmo, cercados nas duas pontas, os tempos de antes de agora e os de pós-jovens. Mas o futuro, afinal, sabemos inexorável.



U
ma reflexão que é de lei, a paixão entre os dois extremos: quanto mais distantes mais forte. Lembro de minha mãe, quando estava com netos e bisnetos. Como diz o popular, neto é filho com açúcar. Quem não pode observar isso em casa pode vê-lo nas redes sociais, onde  vovó, vovô e seus netos são uma constante; todos lindos, podem tudo. Retrato perfeito é o “Poema enjoadinho”, do Vinicius de Moraes: “Cocô está branco / cocô está preto / bebe amoníaco / comeu botão (...) / Porém que coisa / que coisa louca / que coisa linda / que os filhos são!” Os dois extremos, avós e bebês, são onde se tocam e se fecha um círculo, a circunferência da vida. O reencontro consigo mesmo, o começo e o fim, esse amor que nada mais é do que a paixão pela própria vida. Contempla-se os pequenos como Maria contemplava Cristo. (Resposta do Senhor ao questionamento a Marta sobre a aparente inação da irmã: “Maria escolheu a parte certa” - Lucas, 10:39-42).

Foto: G1

A
gora surge um preconceito cruel e já frequente nesses novos tempos: uma senhora de 46 anos, que nunca tivera a oportunidade de estudar em um curso superior, foi hostilizada em vídeos nas redes sociais ao ingressar em uma faculdade de Bauru (SP). Mas há um motor reverso na sociedade: sob uma pressão imensa que contaminou até suas vidas particulares, as três alunas agressoras acabaram por abandonar o curso; a vítima, discreta e feliz, pôde iniciar os estudos. Em outro caso, uma estudante de 59 anos de São Paulo foi vítima em uma reunião de docentes de uma escola pública onde fazia estágio. “Alguns professores falavam alto e um deles disse que era melhor parar porque tinha uma senhorinha” (Folha, 16/03/23). Como nos dias de hoje tudo tende a ser coletivizado, repercutindo o acontecido com a caloura de Bauru um movimento começou a surgir na forma de uma “corrente do bem”:  uma caloura de 42 anos do curso de engenharia, em Minas Gerais, expôs seu caso no grupo e em três dias teve cinco milhões de acessos e três mil comentários (G1, 15/03/23). Esses seriam de fato casos óbvios de etarismo.


O
espírito que move essas ações preconceituosas é o mesmo que alimenta o racismo, a xenofobia, a homofobia e outros, fantasiados de bullying e imbuídos de um tipo de segregacionismo que lembra os fascistas. Com o mundo dando uma guinada à direita – que boa parte das pessoas sequer sabe o que é -, não surpreende que surjam esses comportamentos, que nos anos 70/80 praticamente não existiam: havia uma massa de estudantes, profissionais liberais e uma intelectualidade; emblemáticos, música, literatura e cinema os alimentavam, fazendo da rejeição aos regimes radicais sua bandeira. Hoje, este novo tipo de extremismo de direita pode chegar a um perigoso radicalismo, e deve ser combatido com cautela, pois é daninho à vida de uma sociedade fraterna e de paz.
Juventude fascista 


U
m fato cotidiano: quem tem 50 ou mais e está desempregado tem muito menos chances no mercado de trabalho, quando não impossível: frequentemente, logo na entrevista, ele sente que seu tempo de “vida útil” como empregado já está terminando. Custos das licenças médicas, faltas ao serviço, multa na demissão, limite de horário e tempo de serviço são fatores que trabalham contra o candidato. O ingresso em um emprego regular é difícil, o fator idade pesa sem dó. E, no caso, não parece preconceito - ou não transparece - mas preponderam razões financeiras do empregador.  No ambiente de trabalho, sim, pode surgir claro o etarismo: o olhar de soslaio, o falso sorriso, o falso tapinha nas costas... E o mais velho se sentindo cada vez mais preterido aqui e ali, deixado meio de canto.


N
ão sofro nem exerço qualquer forma de etarismo: não estou em competição para nada. Aposentado, faço do meu quarto escritório e escrevo o que quero, para lugares e pessoas de quem eu gosto. O etarismo se esconde atrás do medo daquele “mais” que os experientes podem produzir, na sala de aula ou no trabalho: efeito colateral da insana competição da vida.