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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A DIFÍCIL ARTE DE FAZÊ-LA SIMPLES

Dali: A Persistência da Memória (1931)
Como manifestação humana, a expressão artística às vezes tende a ser sofisticada: o artista quer cada vez mais desenvolver sua técnica, sobrepondo-a à sua imaginação. Vai às mais profundas contradições, confusões mentais e até demência, mas se não o faz de forma figurativa, como Salvador Dali (1904-1989), ele se distancia do público. A arte pode ser complexa, como a de Qorpo Santo (1829-1883) - José Joaquim de Campos Leão -, nosso poeta, escritor e dramaturgo gaúcho que chegou mesmo a passar uma curta temporada no manicômio.

Qorpo Santo
Louco que era, foi tido como uma espécie de precursor “tupiniquim” do surrealismo e do Teatro do Absurdo de Arrabal e Ionesco. Nada. Parece que o surrealismo sempre foi um estado de espírito ‘anormal’ (daí surreal), desde as telas de Hyeronimus Bosch (1450-1516), 4 séculos antes do brasileiro. É onde se transfigura a teratologia do pintor: maus espíritos e demônios, anomalias com tantos detalhes que exigem um bom tempo de apreciação, por parte do público, para compreender a obra. Pois Qorpo Santo foi personagem de suas personalidades múltiplas, de seus espíritos enlouquecidos.

David
O simples tem que ser belo, e em suas poucas informações tecer um quadro, uma escultura, uma poesia ou uma música. E o que faz o belo – vejo assim – é a feminilidade da obra, mesmo que ela represente um homem. Uma das obras-primas de Michelangelo (1475-1564) é seu Davi, uma escultura de seu desejo, envolta nos mistérios das afeições particulares do autor. A despeito do torso levemente robusto, a figura do jovem Davi tem traços sinuosos, graciosos, femininos até. Na música, clássicos como Mozart e Haydn usaram frases de contornos e terminações melódicas a que chamamos femininas.

Fuga de Bach: a complexidade dominada e organizada
Pois se no classicismo assim o foi, o que aconteceu no período barroco, que o precedeu, e no romantismo, que o seguiu, ambos de extrema complexidade na costura musical? O Barroco tinha suas regras, e se essas não fossem seguidas, a profusão de notas e acordes em tantas vozes simultâneas em contraponto resultaria em grande confusão.

E a poesia, que ora nos vem parnasiana, complexa, ora com o requinte da simplicidade? É uma frase solta, às vezes, em tom coloquial, até, mas que traz em si algum ‘achado’, algum truque a seduzir o leitor. Fernando Pessoa (1888-1935) é um mestre português dessas minúcias: “E mais que isso, só Jesus Cristo. Que não entendia nada de economia nem consta que tivesse uma biblioteca”. Uma troca de palavras simbólicas – Cristo x economia e biblioteca (símbolos do saber) -, seriam para o poeta desnecessidades para quem está acima de todo o conhecimento.

Antes disso, Pessoa já havia desmistificado o saber: “Livros são papeis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta. A distinção entre nada e coisa nenhuma”. A intelectualidade e o vigor criativo de Pessoa o credenciam para sentenciar que livros não são mais do que meras “folhas de papel pintadas com tinta” -  e o estudo, “coisa indistinta”, o que não se distingue. E negando tudo: a distinção entre “nada e coisa nenhuma”.

Há brasileiros mestres nessa arte da simplicidade, como Drummond (1902-1987), o poeta maior. Veja em Confidência de Itabirano: “Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói”. Palavras simples que levam o leitor a refletir sobre o ouro, gado e fazendas (riqueza), em contraponto à situação do poeta, funcionário público, símbolo da vida simples e regrada que ele próprio levou, vivendo dos pequenos cargos que lhe permitiram o ofício de escrever. E a fotografia de Itabira na parede, o que lhe faz sofrer, é esse pedaço do passado indelével que o acompanha, imóvel. O rasgo de inspiração vem na última frase: “mas como dói” (poderia ter dito “saudade”, mas o ‘achado’ lhe apareceu no caminho, como a pedra no de José: solução poética, pincelada de gênio).

Vinicius (marcado, ao centro): prole e amigos
A simplicidade sempre foi marca de Vinicius de Morais: em “Filhos”, ele exerce o benefício da dúvida. Bom pai, amante nada parcimonioso, o poeta deixa no ar a dúvida: “Filhos... Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos / como sabê-lo?” “Tê-los” e “sabê-lo” são as duas pontas do dilema de se ter ou não os filhos. Expressões nascidas de verbos, em movimento, do jeito que se fala: “E então começa a aporrinhação: cocô está branco / cocô está preto / bebe amoníaco / comeu botão”. Palavras simples, do dia a dia, cruéis, até (“bebe amoníaco”), fazem o pai horrorizado achar melhor não “tê-lo”. Mas – e aí reside o conflito do belo poema -, se não for assim, sem conhecer “ser pai”, como sabê-lo (o ter filhos)?

Chico Buarque é um poeta versátil. Vai da complexidade do operário em “Construção” (“beijou sua mulher como se fosse a última”), à simplicidade interiorana e singela, com sua “Banda”: “Eu estava à toa na vida / o meu amor me chamou / pra ver a banda passar / cantando coisas de amor”. E esbanjando maior singeleza, em Gente Humilde: “São casas simples com cadeiras na calçada / e na fachada escrito em cima que é um lar / pela varanda flores tristes e baldias /como a alegria que não tem onde encostar”. Paisagem bela porque simples.


Eleazar: um corte no silêncio
O maestro Eleazar de Carvalho tinha uma genial para definir uma pausa, um silêncio: “a pausa é como uma faca” (gritando a última palavra)! “Sem lâmina / nem cabo!” (com os devidos acentos fortíssimos sobre as primeiras sílabas de lâmina e cabo). O discurso simples e belo ou o silêncio podem ser mortais como uma faca. Mesmo que sem lâmina. E nem cabo. 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

CANÇÃO PARA MANDELA

Entrada da prisão Victor Vester
Eu queria compor uma canção para Mandela. Mas como escrever para um poeta, artista de tantas vidas, logo o bardo das multidões de humilhados e ofendidos? Só um poeta encara com um sorriso a transferência para a prisão Victor Vester, aos 70 anos de idade. Naquela altura, a África do Sul já vivia uma situação-limite, aproximava-se o romper da bolha que daria início ao fim do preconceito, do famigerado ‘apartheid’, da segregação desumana e total entre irmãos. O Ministro da Educação Willem de Klerk, naquela época, já prenunciava ser impossível manter por mais tempo a situação, insustentável que estava.

Mandela e Winnie: liberdade
Qual a canção teria a medida de Mandela? O ex-ministro De Klerk assume a presidência e já anuncia a libertação do líder para o princípio de 1990. Cada minuto de espera deve ter pesado como um fardo sobre as costas amarguradas. O CNA (Congresso Nacional Africano, partido da maioria negra) e outros, são declarados oficiais, e é assinado um pacto que declara fim à violência e à exclusão, festa que levou Mandela às ruas em meio a multidões de centenas de milhares de pessoas.

Mandela e De Klerk: Prêmio Nobel da Paz
Esse garoto negro, após 27 anos de prisão degradante e aos 76 anos de idade – preso político de verdade ! – conquista a Presidência da República em 1994, nas primeiras eleições livres em solo sul-africano. Sua posse foi prestigiada por um grande número de autoridades mundiais, de braços com a imprensa, que incensava a festa: uma das maiores conquistas dos negros na história da humanidade. 

Em seus discursos, Mandela e De Klerk trocaram elogios, ambos Prêmio Nobel da Paz no ano anterior. O primeiro presidente negro da África do Sul não canta o domínio de sua raça sobre outra, e sim “uma nação arco-íris, em paz consigo mesma e com o mundo, uma sociedade onde todos possam andar de cabeça erguida e sem receios”.

Os lindos jacarandás de Pretória: o arco-íris de Mandela
Como compor uma canção para o homem dessas palavras, com sua presença, sua pura poesia? “De um dramático desastre humano que durou tempo demais deverá nascer uma sociedade que será o orgulho de toda a civilização”, disse, e exeltou em quase versos as raízes de seus compatriotas: “tal qual as mimosas e o lindo jacarandá de Pretória. Somos levados pela alegria e entusiasmo quando a relva fica mais verde e as flores se abrem”. Quem ousaria, depois da emoção daquele discurso, compor para Mandela?

Apartheid: o regime do ódio
Ouça o canto das palavras pacificadoras do maior líder negro desde sempre: “Chegou o tempo de curar as feridas, chegou o tempo de preencher as lacunas que nos separam uns dos outros, chegou o tempo de construir”. “Conseguimos galgar as últimas etapas do caminho para a liberdade em condições de paz”. Essas sábias palavras ungiram corpos e mentes sofridos, povos dominados e divididos por seus opressores, segregados até por diversos idiomas e crenças religiosas, desde a primeira bandeira holandesa fincada em seu solo, e depois pelos flamencos, franceses, alemães e britânicos.

Apartheid: triste memória
O que deve cantar a poesia para quem soprou aos ventos que chegara a hora da vitória, já acalentada pela visão de outro grande líder negro, Martin Luther King, Jr., o homem que teve um sonho. O que cantar para quem proclamou em tom poético “que a justiça seja a mesma para todos, que a paz exista para todos, que haja trabalho, pão, água e sal para todos” (N. do A.: o índice de desemprego no país ainda é de 25%). “Que nunca, nunca mais este país magnífico reviva a experiência da opressão de uns sobre outros, nem sofra a indignidade de ser o pária do mundo. Que o sol jamais se ponha sobre uma realização humana tão brilhante. Que Deus abençoe a África!”

Ainda é muito pouco. Houve muito sangue, suor e lágrimas, mas ainda é muito pouco. O canto de Luther King ainda ecoava, com sua voz entoada de pastor luterano, quando a maior nação do mundo elegeu um outro negro presidente, Barak Obama. Ainda é pouco. Cuba ainda é um país de negros e miscigenados, condenados primeiro pela exploração norte-americana e a ditadura de Fulgêncio Batista (1901-1973), mas Cuba ainda não permite a aproximação de negros ao poder, o que é natural dos regimes de exceção: o privilégio das castas que controlam e não largam o poder no país. O Brasil tem uma população negra monumental, 97 milhões, segundo o IPEA, 6,5% acima dos brancos. Como diria Rousseau (1712-1778), nascidos livres, sim, mas por toda parte acorrentados.

Cotas e bolsas ajudam, mas são curativos, não aplacam a doença, lucra mais quem as concede do que o futuro em que chegará “o tempo de curar as feridas, (...) o tempo de preencher as lacunas que nos separam uns dos outros, (...) o tempo de construir”, como disse Mandela. Nossas democracias de fachada, de soluções aparentes, precisam de mártires como ele, cujos sofrimentos nos mostrem o caminho. E se democracia passa por igualdade racial, ela clama por justiça, por isso deve se aproximar a hora de o Brasil também ser presidido por um negro, como foi na África do Sul e é hoje nos EUA. Um negro eleito por todos, irmãos de cor, brancos e mestiços, para que “a justiça seja a mesma para todos, que a paz exista para todos, que haja trabalho, pão, água e sal para todos”.

Forte emoção em uma só raça, em diferentes cores
Mesmo tendo conhecido apenas pela imprensa o líder que homenageamos nesses dias, é muito difícil escrever qualquer canto para um poeta apaixonado. Pois então descanse em paz, Mandela, e divida conosco o precioso silêncio da tua esperança, e que seja o mais melodioso e sonhador silêncio que inspire a luta pela verdadeira justiça social.

[As citações entre aspas foram extraídas do histórico discurso de posse de Mandela na Presidência da África do Sul, em Pretória, em 10 de maio de 1994. Veja e ouça um trecho abaixo, com legendas]



sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

SAUDADES, BELEZAS E GENTILEZAS

Do latim ‘solítas’, saudade é uma daquelas palavras que expressam sentimento, por isso meras lembranças: como dor e angústia, ela somente é sentida em sua plenitude no momento em que está acontecendo. Saudade é assunto teimoso em músicas de diversos gêneros, e como todo tema simples, oferece ao artista um vasto mundo, abre a moldura de um quadro infinito. E é um sentimento tão forte que abre a porta sem mesmo sem bater: a pessoa querida que se despede levando seus pertences na bagagem e deixando-nos outra, de imagens e lembranças:  “a tua lembrança me dói tanto / eu canto pra ver / se espanto esse mal... / mas eu só sei dizer / um verso banal...” (Chico, em “Desencontro” - abaixo).


Há alguns mitos, no Brasil, e saudade é um deles. Termo cunhado a partir do latim, é claro que a palavra existe também em outros idiomas latinos como o espanhol (‘soledad’), francês (‘manque’) e italiano (‘rimpianto’), por exemplo. Em português, é palavra genérica, podendo referir-se a uma pessoa (‘saudade de você’) ou um local (“Ai, mas que saudade eu tenho da Bahia / ai, se eu escutasse o que mamãe dizia...”, do saudoso Caymmi). Em inglês, temos ‘homesickness’ (saudade de casa), ou ‘longing’, ‘yearning’, quando nos referimos a uma pessoa; em alemão, diz-se ‘Sehnsucht’. O mito de que o português é a única língua em que existe a palavra ‘saudade’ é invenção sabe-se lá de quem, e já é transmitido geneticamente. Pois seria então o inglês o único idioma em que existiria o verbo “saudadar” (‘to miss’), ausente de nosso vernáculo?

Novaiorquinas
Existe um forte sentimento por nossa pátria, povo ufano, mas é preciso colocar os pingos nos ‘ii’ para que nossas emoções não sufoquem a razão. “Mulher brasileira em primeiro lugar”, cantou Benito de Paula – coisa compreensível, resquício das gloriosas copas do mundo das ditaduras, daquele ‘ame-o ou deixe-o’. É verdade que uma das maiores concentrações de mulheres bonitas no Brasil se encontra em uma faixa da zona sul carioca que vai do Leblon e Ipanema a Copacabana, e a beleza ali já é herança genética. Mas não nos esqueçamos das lindas praias da Califórnia. Manhattan parece um desfile da Vogue, mas... falando em desfile, e as russas? Uma enquete internacional sobre os países do mundo levantou onde se encontram as mulheres mais lindas do mundo. Entre elas e as brasileiras, claro, sorriem as eslovenas, venezuelanas, colombianas, ucranianas, libianas, angolanas e norte-americanas.

Entre as megalópoles, no item hospitalidade e cordialidade, segundo pesquisa entre viajantes internacionais frequentes sai na ‘pole’ a “Big Apple”, Nova Iorque. Entre Rio, São Paulo e outras cidades, inclusive americanas, tenho de concordar. NY é uma grande metrópole que se torna pequena, interiorana, e isso constatei muitas vezes. Entrar no elevador do hotel pela manhã e ser recebido com um “o senhor teve uma boa noite?”, “tenha um muito bom dia”, e ao voltar, “tenha uma boa noite de sono”: são coisas cotidianas.

Os apertos de mão são efusivos, em uma reunião você é uma pessoa importante para todos, e isso é mútuo. Caronas, pedidos de companhia para um almoço ou jantar, convites seguem qualquer compromisso. “Nós ficamos muito honrados com sua participação” (e tome souvenirs), é o mínimo que dizem na saída de uma conferência. Nas lojas, nos restaurantes, o atendimento é impecável. E no Natal, ah, nem se fala: deseja-se “Merry Christmas” até para poste, como se diz. É o espírito de Natal, deixam escapar sorrindo cristãos brancos e negros, judeus ou muçulmanos.

(Abaixo, uma mensagem de Natal de um novaiorquino por adoção, John Lennon, comemorando o fim das guerras, cheio de esperança)


Vinicius de Morais
Meia volta e de volta à saudade, alimento de poetas como Vinicius de Morais: “O meu amor sozinho / é assim como um jardim sem flor / (...) / como é triste se sentir / saudade / (...) Estrela, eu lhe diria / desce à terra, o amor existe / e a poesia só espera ver / nascer a primavera / para não morrer”. Mas Chico, outro mestre do pincel dos versos, tinge a saudade na ponta de faca cortante: “oh, pedaço de mim / oh, metade afastada de mim / leva o teu olhar / que a saudade é o pior tormento / é pior do que o esquecimento / é pior do que se entrevar / (...) Oh, pedaço de mim / oh metade exilada de mim / leva os teus sinais / que a saudade dói como um barco / que aos poucos descreve um arco / e evita atracar no cais” (em “Pedaço de mim”, sem comentários - veja e ouça abaixo).


João de Barros
Se Chico é cruel, sofredor é o grande João de Barro: “a sôdade é dor pungente, morena / a sôdade mata a gente”: é alguma coisa do mal, tanto que é preciso “matá-la”, antes que ela mate a gente. O carnavalesco Zé Keti matou a saudade de uma breve noite um carnaval passado: “a mesma máscara negra / que esconde teu rosto / eu quero matar a saudade / vou beijar-te agora, não me leve a mal / hoje é carnaval...”

Noel Rosa
Saudade, beleza e gentileza, tudo são coisas tão pessoais que se torna impossível medi-las: haveríamos de ter um parâmetro, um modelo que nos guiasse o julgamento. Mas não há. Julgamos pelos nossos próprios umbigos e, às vezes, intestinos, no sentido de algo profundamente interior e pessoal. Sentimos falta de tudo e todos que nos faltam, morem longe ou já partidos, e isso é saudade. 



Cartola e dona Zica
Noel Rosa, repreendido por usar uma camisa estampada em um boteco após o funeral de sua mãe, sentenciou: “luxo preto é vaidade, neste turbilhão de dor. O meu luto é a saudade, e saudade não tem cor”. A beleza maior da mulher pode ser a da companheira de vida inteira. De resto, a beleza de que o povo fala é apenas estética, curvada a certos padrões culturais determinantes e hoje, especialmente, às imposições da mídia. E gentileza deveria ser obrigação.