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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

XENOFOBIA, PRECONCEITO, RACISMO E GENOCÍDIO

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Segundo o Oxford Dictionaries, xenofobia (do grego xénos, estrangeiro, e phóbos, medo) é ‘um medo não fundamentado do que vem de fora’. Para o Houaiss, ‘desconfiança, temor ou antipatia por pessoas estranhas ao meio (...) ou pelo que é incomum’. De acordo com o trabalho liderado por Guido Bolaffi (Dictionary of Race, Ethnicity and Culture. London: Sage, 2003), ela se manifesta ‘de diversas formas (...) inclusive o medo de perder a identidade (...), suspeição de (suas) atividades, agressão e desejo de eliminar sua presença para assegurar uma pureza presumida’.

Viena: Congresso dos 80 anos da Declaração
A Declaração e Programa de Ação de Viena (junho de 1933) entende (Parte II, parágrafo 20) ‘urgente que todos os governos tomem medidas imediatas e desenvolvam fortes políticas para combater todas as formas de racismo, xenofobia, intolerância (...) por legislação apropriada, incluindo medidas penais’.

Moisés e o Êxodo (József Molnár, 1861)
A xenofobia está no cerne de interesses pessoais em que o poder ou domínio sobre regiões ou suas riquezas tem um vínculo dissimulado com o racismo. O Antigo Testamento já relata a perseguição ao povo judeu durante o Império Romano e a fuga dos hebreus para o Egito (Êxodo, 1).


Friedrich Nietzsche
Mais recentemente, Nietzsche (1844-1900), pensador e escritor alemão, insuflou (talvez não diretamente) o antissemitismo – muito mais por causa da interpretação de seus escritos pelo genro, o radical antissemita Bernhard Föster do que pelos seus próprios trabalhos. Pensamentos atribuídos a (ou ‘destilados de’) Nietzsche tornaram-se uma ideia fixa para Richard Wagner (1813-1883), maior compositor de óperas germânico.

Wagner: Judaísmo na Música
Daí resultaram publicações em que o músico empreendia verdadeiras perseguições aos compositores judeus, com foco especial em Felix Mendelssohn Bartoldy (1809-1847), mesmo que esse último sobrenome, adotado, fosse de origem cristã. Talvez a publicação mais conhecida e controversa de Wagner sobre o assunto seja O Judaísmo na Música (Judenthum in der Musik).

Hitler: Camarote na Berlin  Opera House
Adolf Hitler (1889-1945) foi grande admirador da música de Wagner, cujas óperas lhe reforçavam a ideia da raça ariana como superior. Os pontos de vista de Wagner seguramente ‘glamourizaram’ o pensamento nazista, que avançou em 1908: Eva, filha do compositor, casou-se com Houston Stewart Chamberlain, autor de um livro racista, ‘Os Fundamentos do Século Dezenove’ (Die Grundiagen des neunzehnten Jahrunderts, 1899) chancelado pelo nazismo.


As publicações de Chamberlain (foto), um inglês germanófilo que obteve nacionalidade alemã e escrevia no idioma adotivo, asseguravam a superioridade da raça ariana e tinham o antissemitismo como bandeira principal. Suas teorias ajudaram a abrir campo ao pensamento racista que conquistou espaço e resultou em brutal perseguição aos judeus pelos nazistas e países sob seu domínio, chegando à chamada ‘solução final’, o Holocausto, um dos maiores genocídios que a humanidade conheceu. Em 2007, a União Europeia aprovou uma lei que considera crime quem negar a existência daquele genocídio de mais de seis milhões de pessoas.

Não teria sido diferente com o 1,5 milhão de armênios mortos pelos otomanos e humilhados com as maiores e inenarráveis atrocidades, genocídio ainda não reconhecido pela ONU. (Recomendo o livro O Grito do Cordeiro, do meu amigo Luis Carlos Magaldi [SP: Editorial 25. 2013], ficção baseada em fatos reais coletados com esmero de descendentes dos vitimados pela cruel perseguição).

Armênios perseguidos a crânios amontoados de vítimas do genocídio
Em Boston, em 1980, participei de um concerto em homenagem aos 65 anos do massacre, com a presença e a música de compositores e regentes de origem armênia, como Hovhaness (1911-2000), que lecionou no Boston Conservatory e é considerado um dos mais prolíficos e importantes autores da música norte-americana. Técnica refinada aliada ao domínio da orquestração, música, harmonia e melodias impregnadas da cultura de seu povo.

Stalin
Segundo o Oxford English Dictionary, massacre é ‘o brutal e indiscriminado assassinato de pessoas (...), em grande número’. Entre os mais conhecidos, o de Anglesey (Brittania, 61 d.C.), o de Banu Quraysa, na Arábia Saudita (627 d.C., mais de 900 mortos), o ‘Massacre dos Latinos’ (1.182), em Constantinopla, pelo Império Bizantino, o de Chipre (1.580), 50 mil cristãos gregos e armênios mortos pelos otomanos, a Noite de São Bartolomeu, em Paris (1.572), massacre de huguenotes pelos católicos, Yangzhou, na China (1645), perto de 800 mil vítimas, chegando enfim aos 4 ou 5 milhões de mortos por Stalin, e os já citados genocídio de armênios e o Holocausto, entre outros.

'Todos são estrangeiros em algum lugar'
Discriminações aparentemente inofensivas como a xenofobia podem desencadear consequências como preconceitos, e daí a coisas piores. Felizmente, muita luta tem sido empreendida em tempos recentes contra todos as discriminações – sejam por origem, raça, credo, sexo ou opção –, em parte aliadas à defesa de interesses financeiros.

A 'West-Eastern Divan Orchestra, do judeu Barenboim e o palestino Said,
com jovem de ambos os lados
Salve a música, que não conhece fronteiras! À parte certos arroubos ultranacionalistas brasileiros durante certo período, que em nada colaboraram para o nosso crescimento artístico -  basta ver que a Sinfônica do Municipal de São Paulo foi criada com mais de 80% de italianos, muitos ótimos músicos. Nos EUA e Europa, Claudio Abbado, italiano, e Simon Rattle, inglês, são os dois últimos nomes à frente da Filarmônica de Berlim, e da Sinfônica de Boston não conheço sequer um regente norte-americano. A condição para qualquer músico entrar em uma grande orquestra é apenas uma: tocar melhor. A música une as pessoas, fala todos os idiomas e promove a boa convivência dos povos, sem limitações geográficas, raciais e de idioma. 


West-Eastern Divan Orchestra apresenta
9ª de Beethoven: Ode à Alegria. Final. Legendas em inglês

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O QUE ACONTECEU COM A POESIA NA MPB?

Não é fita, é fato. Chico, Caetano, Jobim, Aldir Blanc e os que partiram, como Vinícius e Gonzaguinha. Todos muito lidos, tinham na bagagem uma cultura de peso. Conheciam não apenas o universo musical, mas também os grandes poetas da nossa língua, de João Cabral e Drummond a Olavo Bilac e Claudio Manuel da Costa aos lusitanos Camões e Fernando Pessoa. A cultura de Caetano Veloso é enciclopédia, a despeito de seu charme simplório. Já Chico tem incursões felizes na dramaturgia, como em Calabar, A Gota d’Água, adaptação para uma favela carioca da tragédia Medéia, de Eurípedes (431 a.C.), e Ópera do Malandro, adaptada de John Gay e da Ópera dos Três Vinténs, de Brecht e Weill. Mas seus livros de prosa ficam à sombra de seu talento musical.

Em ‘Chuva, Suor e Cerveja’, Caetano Veloso domina a técnica de recursos de figura de linguagem como a aliteração (repetição de sons iguais ou semelhantes): “(...) ladeira abaixo / acho que a chuva / ajuda a gente a se ver / venha, veja, deixa / beija, seja / o que Deus quiser”. “Acho que a chuva ajuda”, faz ressoar os sons ‘x’ e ‘u’ de maneira percussiva, com forte apelo rítmico. (Ouça abaixo uma boa gravação). Em ‘Irene’, Caê esbanja seu talento de poeta: “quero ver Irene rir / quero ver Irene dar sua risada”.


Chico em "Esta Noite"
Em um velho programa da TV Record, Esta Noite se Improvisa, apresentado no final dos anos 1960 por Blota Júnior, Caetano desafiava cantores e compositores famosos. Exibia seu conhecimento do cancioneiro popular brasileiro e do além-mar, fados e modinhas portuguesas. O prêmio para o vencedor era um carrinho muito raro hoje, mas objeto de desejo na época: um Dolfine zero Km. Chico e Caê deixavam a mão perto do botão, e logo após Blota Júnior sortear e anunciar “e a palavra é”, os dois já metiam a mão na campainha. Caetano era assombroso, tudo lhe vinha de imediato, era apertar a campainha antes mesmo de acionar sua rápida memória. Em uma das palavras sorteadas pelo Blota, ‘profundo’, Chico foi mais rápido no botão, e na falta de ideia inventou: “desci pro fundo da rede...” Blota anulou, a palavra era ‘profundo’. Chico perdeu o ponto, mas não perdeu a piada. Eu era então um garoto que adorava música, e em algumas festas, com violões e gente ligada à MPB, também brincávamos do sadio joguinho de salão ‘e a palavra é’.

Vinicius: poeta 24 horas por dia
Naquele tempo era parte da vida conhecer o cinema novo de Glauber e Pereira dos Santos, assim como ícones da contracultura como Kerouak, os antipsiquiatras Laing e Cooper e os então novos pensadores de esquerda, como Marcuse. Lia-se muito do melhor, de Machado de Assis aos modernos. Compositor e poeta, Vinicius de Morais nos deixou preciosidades, como o “Soneto de Separação”, ricamente musicado por Jobim: “De repente do riso fez-se o pranto / silencioso e branco como a bruma / e das bocas unidas fez-se a espuma / e das mãos espalmadas fez-se o espanto”. (Veja e ouça abaixo, gravação de 1979)



Aldir Blanc em seu canto de livros e música
Aldir Blanc, bamba no gênero, deixou letras brilhantes como "Dois pra lá, dois pra Cá’, em que elementos do dia a dia do povo envolvem o ouvinte em um ambiente sedutor: “Sentindo frio em minh’alma / te convidei pra dançar / a tua voz me acalmava / são dois pra lá, dois pra cá”. Era o homem tímido que não sabia dançar bolero, mas a voz carinhosa de seu par o ensinou: “são dois pra lá, dois pra cá”. O cotidiano outras vezes surge na letra de maneira sutil, na forma de um simples curativo a amenizar a dor de um calo no pé: “e a ponta de um torturante ‘band-aid’ no calcanhar”. E segue o cotidiano: "no dedo um falso brilhante", "eu hoje me embriagando de uísque com guaraná". (Veja e ouça esta linda gravação de 1979, com Elis Regina, uma beleza poética cristalina)



Cazuza com o pai, o produtor João Araújo
Exemplos são infindáveis. Porém, naquele auge de criatividade dos anos 1960 a 1980, havia a inquietude juvenil, as teorias políticas sedutoras, o ler e ver bons livros e filmes, as conversas de bar que passeavam por todos os assuntos. Talvez um dos últimos nomes da boa letra popular tenha sido Cazuza. Não foi gênio em música, mas filho de João Araújo, produtor musical, conheceu bons artistas e tornou-se a voz de muitas letras emblemáticas, como em Brasil: “Brasil! Mostra tua cara / quero ver quem paga / pra gente ficar assim / (...) Qual é o teu negócio? / O nome do teu sócio? / Confia em mim”. (Veja e ouça uma gravação histórica de 'Brasil' [1989], com Cazuza e Gal Costa). E Raul Seixas, com letras inteligentes e refrões que ficaram na memória, como “eu sou a mosca que pousou na sua sopa”, com direito a escorregões em português que não acontecem com os outros poetas citados acima: “Eu nasci há dez mil anos atrás...”


Renato Russo, incensado por uma geração
Depois deles, não o dilúvio, mas alguns arremedos de qualidade aqui e ali, como em Renato Russo, inteligente mas menos rico na construção e uso dos recursos poéticos. Servia melhor ao discurso direto, panfletário, como em “Que país é esse?”, título que virou lema para todos os protestos: “Nas favelas, no Senado / sujeira pra todo lado / ninguém respeita a constituição / mas todos acreditam / no futuro da nação”. São as chamadas ‘rimas pobres’, da mesma categoria gramatical, e vêm aos pares, mas a necessidade de comunicação direta e fácil lhe concedia esse favor em detrimento da veia poética. Muito aquém do Geraldo Vandré da "Disparada"

Hoje, pegue o leitor uma lista das dez mais tocadas nas rádios e TVs: entre as 100 primeiras de 2104 (site ‘Top 10 +’), Jorge & Mateus em 3º, Luan Santana, 5º, e Anitta, 9º. E ainda surgem João Bosco e Vinicius, mas não compre gato por lebre: os nomes são iguais, mas não são os grandes xarás do passado. ‘Indescritível’, deles, fica em 37º e ‘Sorte é ter Você’ é o 62º. E nada encontro que mereça atenção.

Paula Fernandes (foto: divulgação do site)
Gosto de letras do Zeca Baleiro, do José Miguel Wisnik e mesmo de outras mais simples, como as do Almir Sater, e as singelas como as da 'nova' Paula Fernandes (agora declarada MPB), cuja voz discreta e cenários de clipes lembram a adorável Karen Carpenter. Mas vivemos uma crise cultural, e a MPB não cai sozinha com ela: em todo esse processo histórico, o pensamento humano fez uma curva para baixo, reflexo da perda de referências ideológicas (“ideologia, quero uma pra viver”, gritou Cazuza), de perspectivas políticas, filosóficas e artísticas. Com a cultura de hoje em recesso escolar, sem previsão de retorno, mais a educação brasileira largada em terceiro plano, há apenas dúvidas para a pergunta do título desta matéria, não respostas.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

ANJOS DO CÉU E DA TERRA

James Tissot: A fuga dos prisioneiros judeus da Babilônia
“Os anjos e os arcanjos, querubins e serafins, não O cessam de louvar, dizendo em uma só voz: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus do universo. O Céu e A Terra estão cheios de Vossa glória. Hosana nas alturas”. Muitos devem conhecer ou ter recitado o texto acima, mesmo sem entender quem são alguns dos nomes. Pois anjos, arcanjos, querubins e serafins são todos entidades divinas, e a louvação que encima este parágrafo dispõe diversas ordens hierárquicas (sim, os anjos também têm hierarquia!). Os nomes dessas ordens de anjos teriam sido trazidos pelos judeus que ficaram cativos na Babilônia (598 a 538 a.C.), sendo que no mais alto grau dessa hierarquia ficam os arcanjos. Os serafins seriam os espíritos celestiais da primeira ordem, enquanto os querubins estariam na segunda.

Anjos do Aleijadinho
As imagens de anjos como criancinhas – às vezes, tocando liras ou trombetas - surgem com o grande pintor do Renascimento Rafael Sanzio (1483-1520) e chegam ao nosso  Aleijadinho (1730 ou 1738 a 1814), ouro-pretense que decorou com suas figuras angelicais infantis muitas igrejas da Minas barroca.

Arcanjo Gabriel e Maria, em óleo de Fra Angelico (séc. 15)
Os arcanjos (do grego arkhos, principal, e aggelos, mensageiro) são a oitava e mais alta hierarquia celestial. Do judaísmo ao protestantismo, passando pelos católicos e ortodoxos, os arcanjos estão presentes, com diferenças pontuais. Os arcanjos seriam Gabriel, o mensageiro que anunciou a Maria a vinda de Cristo pelo seu bendito ventre (Lucas, 1:26); Rafael, do poder da cura divina (Tobias, 3:17); Uriel (Esdras II), o instrutor do profeta Ezra que porta espada e chama, a luz divina; Miguel (do hebraico ‘tal qual Deus’), que atacou Satã e os anjos do mal (Livro de Daniel e Apocalipse, 12:7-9, e entre os islamitas) e Salatiel, o arcanjo da intercessão divina (Esdras III, 5:16). Por fim, Jegudiel (apenas entre os ortodoxos) representa a glória divina e Jeremiel (Esdras II ou IV) é o que exalta Deus e sua bênção.

Drummond, o "gauche de Itabira" (estátua em Ipanema, Rio)
Carlos Drummond, em seu ‘Poema de Sete Faces’ (1964), descreveu sua desventura com um anjo: “Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: vai, Carlos, ser gauche na vida” (N. do A.: pronuncia-se ‘gôch’). Gauche é uma pessoa tímida, retraída, talvez destinada a ser ‘errada’, atrapalhada como o querubim do Chico Buarque, em ‘Até o Fim’ (1978): “Quando eu nasci veio um anjo safado / o chato do querubim / e decretou que eu estava predestinado / a ser errado assim ...” . Oito anos depois de Chico e vinte e dois depois de Drummond (1986), em ‘Bagagem’, a poetisa Adélia Prado contou a versão de seu anjo com um toque feminista: “Quando nasci um anjo esbelto / desses que tocam trombeta, anunciou: / vai carregar bandeira. / Cargo muito pesado pra mulher / essa espécie ainda envergonhada”.



Os temíveis Hells Angels
Os Hells Angels (nome do clube de motociclistas Hells Angels Motorcicle Club, HAMC) começaram a se organizar no final dos anos 1940, na Califórnia, e até hoje são considerados uma organização perigosa pela Justiça americana por sua associação a crimes como roubos, pancadarias, assassinatos, tráfico e exploração do lenocínio. Distinguem-se por andarem sempre em bandos, com suas jaquetas de couro com o dístico ‘Hells Angels’ ornando em semicírculo suas costas.

Armamentos de gangue de Hells Angels apreendidos pela polícia de Los Angeles
Roncam suas supermotos, as possantes Harley Davidson, símbolos de seu poder, sempre em alta velocidade. A chegada de um grupo de ‘Hells’ a qualquer lugar dos EUA é motivo para preocupação da polícia, do comércio e população locais, porque os bandos estão sempre associados ao que há de pior. Mas o charme (gauche!) de suas jaquetas de couro tornou-se grife entre os motociclistas das classes média e rica de todos os países, incluindo o Brasil. Uma jaqueta dos Hells é luxo só, e atinge preços altíssimos, se original mesmo surrada (uma cópia barata custa na faixa de 100 dólares). O nome Hells Angels evoca os anjos do Inferno, seguidores de Lúcifer, bem distantes dos benditos arcanjos.

Guardian Angels de Londres
Já os Guardian Angels (Anjos da Guarda) são uma organização voluntária internacional que tem mais de 130 grupos pelo mundo. Criada em 1979, em Nova Iorque, por Curtis Sliwa, ao contrário dos Hells Angels, são pela paz, e partiram de um movimento de jovens para combater a violência, assaltos e depredação dos metrôs nova-iorquinos por perigosas gangues. Apesar de realizarem apreensões e prisões sem terem poder de polícia, os Guardian Angels tiveram apoio - se não oficial, ao menos dos discretos olhos fechados - dos dois últimos prefeitos da metrópole americana, o inovador Rudolph Giuliani e Michael Bloomberg, que capitalizaram os resultados dessas milícias nas contabilidades da chamada ‘tolerância zero’ nova-iorquina contra o crime. Grupos de ‘Angels’ chegaram a receber treinamento tático não oficial das polícias de NY e Chicago, e para passarem uma imagem de bons meninos, passaram a promover ações sociais e culturais comunitárias.

Alban Berg compôs um belíssimo Concerto para Violino, ‘À Memória de um Anjo’ (1935), em homenagem a Manon Gropius (filha do grande arquiteto alemão Walter Gropius e Alma, ex-esposa do compositor Gustav Mahler), adolescente vitimada pela poliomielite. Pois anjos são as crianças que nascem com o coração mais puro, castidade que começam a perder durante da vida cotidiana, à medida que crescem. Anjos são também alguns poucos adultos e idosos, por sua bondade, amor ao próximo, à justiça e à paz. E, antes de todos esses, anjos são os nascituros que deixam a vida pouco antes ou logo após nascerem, mas plantam com seu curto sopro de vida mais uma semente para os que ficam.
Rafaello Sanzio (Putti): querubins (1512-1513)


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

FREVO: UM OUTRO CARNAVAL BRASILEIRO

Vinicius
“A gente trabalha o ano inteiro / por um momento de sonho / pra fazer a fantasia / de rei ou de pirata ou jardineira / pra tudo se acabar na quarta-feira”. O ‘Poetinha’ Vinicius de Morais, com a simplicidade e riqueza de sempre, bem descreveu o carnaval: “a felicidade do pobre parece / a doce ilusão do carnaval”, canta o início da estrofe. A poupança suada do ano inteiro para comprar o pano e costurar a fantasia, para um sonho de apenas três dias que termina na quarta-feira! Uma espécie de ‘ópio do povo’, talvez? Ora, aos muito ricos cabe a ‘happy hour’, a viagem ao Caribe, festas todos os fins de semana - um ‘ópio’ bem mais longo e dispendioso do que a curta diversão dos que vivem nos morros e periferias.

Carnavalescas modelos 
(Já escrevi muito sobre carnaval, em especial sobre os desfiles das escolas, que a TV transfigurou de coisas simples, como blocos e cordões, até chegar à Avenida como festa de pobre para rico e gringo verem, coisa que Mário de Andrade chamava de “macumba pra turista”. Estrelas da TV e modelos seminuas, sem samba no pé, tornaram-se o adereço principal dos desfiles, abrindo alas na imprensa e lentes das câmeras durante o ‘tríduo momesco’: uma gigantesca ‘selfie’ global.)

O belo Mardi-Gras de New Orleans
Mas existem outros carnavais. Os franceses, os norte-americanos, como de New Orleans, os lendários carnavais de Veneza, mas há outras lindas folias brasileiras que vale conhecer, em especial aquelas mais distantes do ‘Sul-maravilha’, como dizia o Henfil. Uma das mais impressionantes é a do frevo, palavra que vem de ‘frever’ - popular para ‘ferver’, dada a agitação da dança de ritmo frenético, no embalo da frevança (ou frevolência).

No Recife do final século 19 surgiram os sinais da nova dança, cujo nome mereceu o primeiro registro em um artigo de 1908 do jornalista Osvaldo de Almeida. O frevo mescla influências da capoeira e do maxixe à polca-marcha, tudo misturado em um caldeirão musical pelos músicos de bandas militares e civis, com rápidos dobrados, polcas, marchinhas e choros. Os instrumentos do frevo são adequados à portabilidade pelos músicos: clarinetas, requintas, saxofones, metais (trompetes, trombones e tuba) e percussão.

Passo do Frevo
Junto ao grupo de músicos segue o alvoroço da multidão, energizada pelo grande número de síncopas e contratempos com deslocamentos de acentos rítmicos. Os nomes dos passos vão de curiosos a divertidos: capoeira, coice de burro, ferrolho translado, parafuso, pernada e tesoura. Com sombrinhas nas mãos e passos quase olímpicos, a dança exige uma energia de folião e preparo de atleta.

Luiz Gonzaga, Sivuca e Capiba, no centro do grupo
De Surubim (nordeste de Pernambuco) saiu o maior nome da história do gênero, o compositor Capiba (1904-1997), que já teve um trio (chamado “O Mundo Pegando Fogo”) com os magos Hermeto Pascoal e Sivuca.

Instrumental do frevo (Revista O Grito!)
O frevo guarda pouca ou quase nenhuma semelhança com as danças baianas, que têm profundas raízes negras, como batuques, maracatu e coco. O gênero pernambucano possui várias modalidades, como o frevo (ou marcha) de bloco, que usa instrumentos como flautas e clarinetas agregados a cordas como bandolins, violões e banjos, além da percussão. O frevo de rua é o ritmo típico do carnaval pernambucano, é dança de agitação eletrizante, agitadíssima. As músicas do frevo de rua geralmente não possuem letra, pois é quase impossível dançar o ritmo e cantar, tanto pelo enorme movimentação corporal quanto pela sofisticação das linhas melódicas e o alto volume do instrumental. Há também o frevo de abafo, cuja música exige dos metais (trompetes, trombones e bombardinos) notas longas em alto volume; o gênero serve, como o nome sugere, para o grupo abafar o som de uma outra banda que se aproxima.

Frevo de bloco
E há o melancólico frevo-regresso, que canta a saudade e a tristeza do retorno, nas madrugadas das quartas-feiras de cinzas, cortejo para casa ao fim dos dias de festa. E o frevo-canção tem similaridades com o samba-canção carioca (comum nos bailes), mas tem personalidade própria, não é um afluente do gênero do Rio de Janeiro.

Clube Vassourinhas de Olinda
O frevo tornou-se muito popular no Brasil inteiro com o conhecido Vassourinhas (no plural mesmo), composto por Matias da Rocha e Joana Batista Ramos em 1909 para o baile do Clube Carnavalesco Vassourinhas. Além de ser a música mais tocada e repetida nos carnavais de Olinda e Recife, Vassourinhas costuma ser parte da agitação dos finais de baile de Norte a Sul, junto com Cidade Maravilhosa e o Hino do Flamengo, cantado por todos os torcedores, para levantar o pessoal. Quem conhece a letra “Se essa rua fosse minha / eu mandava ladrilhar / com pedrinhas de brilhante / pra Vassourinhas passar”? (Depois passou-se a cantar “com pedrinhas de brilhante / para o meu amor passar”. A letra do Vassourinhas foi adaptada do cancioneiro popular brasileiro, cantada em passo lento, e traz de forte influência ibérica: "Se essa rua, se essa rua fosse minha / eu mandava, eu mandava ladrilhar / com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante / para o meu, para o meu amor passar")

Mestre Zé Keti
O frevo faz parte do fim de baile no Brasil inteiro, preparado pelo descanso da lindíssima marcha-rancho Máscara Negra, de Zé Keti, em ritmo bem lento: “Tanto riso, oh, quanta alegria / mais de mil palhaços no salão / arlequim está chorando pelo amor da Colombina / no meio da multidão”. Voltando ao frevo, por sua importância cultural, o gênero foi declarado Patrimônio Imaterial da Humanidade em 2012 pela UNESCO.

A linda Recife. Destaque para a Sinagoga, provavelmente
herança do período de ocupação holandesa
O Sudeste e Sul brasileiros não elevam à altura devida a importância cultural de Pernambuco para o país, e na música popular, seu frevo, folguedo surgido bem antes da formação da primeira escola de samba carioca (Estácio de Sá). O espetáculo da frevança agita o público, acelera corações, sangue a ‘frever’, contagiando a todos com uma enorme e luminescente alegria. (Veja e ouça, abaixo, o Vassourinhas, em ótima e virtuosística gravação. Logo depois, um recifense nato, o insigne compositor Marlos Nobre, executando ele mesmo, ao piano, seu Frevo nº 2, prova de que a música de concerto é permeável - e deve, como queria Mário de Andrade - a todas as influências da melhor música popular brasileira)