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sexta-feira, 24 de setembro de 2021

A ESTRADA


Se não fosse diretor de cinema, eu teria sido diretor de circo”. A frase de Federico Fellini pode ser compreendida na plenitude em seu filme La strada, de 1954. Anthony Quinn faz Zampanò, um brucutu que rompia correntes enroladas no peito; Giulietta Masina é Gelsomina, mulher que ele havia comprado e transformado em palhaço: artistas de rua, nas agruras das estradas tortuosas (e Gelsomina muito mais, pois apanhava de Zampanò, que lhe cortara os cabelos com uma cuia, modelava-os com sabão para ficarem espetados e caiava-lhe o rosto com talco: um palhaço à sua moda).

O Vesúvio

Também italiana
é a bela canção Io che amo solo te, de 1962, composição de Sergio Endrigo e sua música mais famosa: “Tem gente que ama mil coisas / e se perde pelas estradas do mundo / Eu, que amo só você / eu vou parar / vou te presentear / com o que resta da minha juventude”. Endrigo faz da sua amada a única, enquanto outros se perdem pelas estradas que a vida lhes oferece. Foi música-símbolo em tempos do domínio italiano nas preferências das rádios e, depois, televisões. (Não muito diferente do que o dramaturgo e crítico inglês Bernard Shaw comentara sobre a época áurea da ópera na Europa: “parece que é impossível compor em algum lugar que não seja à sombra do Vesúvio”, disse, referindo-se à Itália).

"Those ole blue eyes"

Do francês Comme d’habitude
(“Como de costume”), de Claude François e Jacques Revaux, veio My way (“Meu caminho”, ou “Do meu jeito”), de 1969, um do maiores sucessos de Frank Sinatra: “E agora o fim está perto / e eu me deparo com o cair do pano / (...) Eu viajei cada uma e todas as estradas / e mais, bem mais que isso / eu o fiz do meu jeito”. É interessante que a versão americana tenha escapado totalmente à ideia do original francês, que fala do homem que acorda e cobre a mulher que ainda dorme, receando que ela esteja com frio, ‘como de costume’. A melodia serviu bem às duas versões, sendo que em inglês nos brinda com a ambiguidade do título, referindo-se às estradas por que o cantor viajou.  

Bandeira e Vinicius

No Brasil
, estradas foram assunto para poetas como Vinicius de Moraes, em “Judeu errante”: “Hei de seguir eternamente a estrada / que de há tanto tempo venho seguindo / Sem me importar com a noite que vem vindo / como uma pavorosa alma penada”. Versos de 1933, o “poetinha” ainda bem jovem aos vinte anos, não muito definido em estilo; mostrava preocupações sociais, lado a lado com seus amores. Manuel Bandeira, vinte anos mais velho, já tinha sua marca-d’água bem delineada na poesia: “Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho / (...) Nas cidades todas as pessoas se parecem / (...) Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma / Cada criatura é única”. Salta aos olhos que, no entender do poeta, é essencial que a individualidade sobreviva na massa anônima.


Governar é abrir estradas”, foi o mote adotado por Washington Luiz para sua campanha rumo à presidência – equivalente à atual governança – do estado de São Paulo, em 1920. Cinco anos depois, elegeu-se presidente da República, tomou posse e sofreu um golpe de Estado militar em outubro de 1930, ao apagar das luzes de seu mandato, manobra que entregaria o poder a Getúlio Vargas menos de duas semanas depois.

Andreazza

O mote foi repetido
por vários candidatos e políticos, incluindo o coronel Mário Andreazza, ex-ministro dos transportes de Costa e Silva e Médici, golpista por formação e passado. Foi responsável pela ponte Rio-Niterói, tido como mandante do despejo de corpos de presos políticos junto com o concreto dentro das enormes colunas da construção. Também foi da lavra dele a rodovia Transamazônica (BR-230), iniciada durante o governo Médici, em 1969 - um aqueduto de dinheiro público com muitos ralos, ainda inacabada após 52 anos. De quebra, co-assinou o AI-5.

Santos-Cubatão, 1822

Mais de um século antes, em 1838
, com Tobias de Aguiar presidente do estado de São Paulo, a Assembleia Provincial aprovou a lei nº 10, que criava uma espécie de escola, o Gabinete Topográfico, a fim de preparar engenheiros e pessoal técnico para a construção de estradas.  Não se falava ainda de automóveis, claro, os primeiros para uso popular só foram produzidos pela Ford em 1908, nos EUA. As equipes do Gabinete trabalhavam para levar estradas e pontes a lugares estratégicos até além do estado, abrindo caminho para charretes, coches, carruagens e vagões. Em 1917 já estava aberta a Calçada do Lorena na Serra, mas só em 1950 automóveis puderam trafegar pela chamada Calçada de Ubatuba.

Calçada de Ubatuba, 1950


Rodovia Presidente Dutra

Há 25 anos bem gerida pela CCR
, uma Sociedade Anônima, a Rodovia Presidente Dutra (BR-116) – Nova Dutra -, aos 70 anos de existência, deve passar por leilão internacional no dia 29 de outubro, com a promessa de modernizá-la, adotando tecnologia que é sucesso em países como os EUA, o free flow (“fluxo livre”). Aqui, porém, a novidade corre riscos, devido ao alto número de veículos inadimplentes (34%) e a sempre presente malandragem. Outra conquista, exigência do edital, seria o wi-fi ao longo dos 402 km, um grande avanço na comunicação: localizadores, segurança e emergências.


Nenhum barulho antiprivatista
, pois que assim já é desde a fundação da CCR NovaDutra (1995), que transformou a rodovia em meio rápido e bem acabado de ponte Rio-SP, muito melhor do que a maioria das sofríveis estradas federais de todo o país. Difícil será a contabilidade fechar a planejada redução de 20% no preço, nas praças de pedágio, que beneficiaria passageiros e metade do PIB brasileiro transportado pela rodovia anualmente. 

Sonhemos: “A poesia é necessária” disse Rubem Braga. “Navegar é preciso”, Fernando Pessoa. 

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

A CARTA

 


Cartas
, além de declarações de ódio ou amor, são eficientes para gravar palavras a ferro e fogo. Diz o provérbio latino: Verba volant, scripta manent (“palavra voa, escrita permanece”). São muito mais que um e-mail, WhatsApp ou Telegram, cada vez mais taquigráficos com os cacoetes de hoje.


Cartas não morrem
, se as guardarmos com zelo. As de nossos avós amarelaram com a tintura do tempo, cor de fundo para letras desenhadas, da caligrafia à assinatura final.


Romântica é a dor
de quem espera por uma carta, como em Hey, Mr. Postman (“Ei, Sr. Carteiro”), dos Beatles: ”Deve haver algum bilhete hoje / da minha garota, tão distante / por favor, Sr. Carteiro, olhe e veja / se há uma carta, uma carta para mim” (para enamorados, esperar é angústia pura). Com angústia semelhante, “Ninguém escreve ao coronel”, de García Márquez, descreve a vã espera de um militar reformado pela  chegada da carta de pagamento da pensão, entre crises asmáticas da esposa e um galo de briga com que levantava uns trocos nas rinhas.


Frédérik Chopin
(1810-1847), compositor polonês - autor de mazurcas,  noturnos, polonaises e dois concertos para piano - nutria paixão por Aurore Dupin (foto), escritora conhecida como George Sand na velha boemia da Paris que se vestia com terno e chapéu, e fumava charutos como homem. Para Chopin, parecia-lhe um rapaz, e Liszt uma viril amazona. O relacionamento entre Chopin e Sand teve muitos bilhetes e cartas (as que Sand recebia de Chopin eram sumariamente rasgadas). Se ele desconhecia o destino de suas missivas, tanto faz, importava tê-las escrito – vítima da sofreguidão, de um amor platônico que se convertia em sons no coração, e dele para suas obras, hoje repertório de dez entre dez pianistas.


Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
, “O predileto dos deuses”, viajava muito pelas cidades da Europa. Desesperadamente apaixonado por sua amada Constanze, tinha um jeito excêntrico de escrever-lhe cartas: “beijo-te 1.095.473.082 vezes”. Tratava sua cara-metade de forma absolutamente infantil, e se despedia: do teu ‘stu! Knaller-paller. Schnip-schnap-schnur. Schneppeperl-snail – que não quer dizer nada, mas o som lhe agradava como um segredinho entre jovens namorados.


Cartas, no passado
, serviam como declaração de herança e tinham efeito legal, como o Testamento de Heilingenstadt (ilustração), de Beethoven, pródigo em alterações ao ‘calor do momento’, ao sabor de seus desentendimentos familiares; deixou bens e dinheiro como herança, e inseriu em seu inventário a confissão da loucura por que estava passando, incompreendido pelos médicos: além da surdez, uma cruel depressão e a perda do juízo.


Distrito de Whitechapel
, Londres, 1888. Jack, o estripador (the ripper), nunca identificado, enviou carta à imprensa declarando-se o assassino serial, mas, assim como seu nome pode ter sido um blefe, o texto apenas um jogo para disseminar o pânico em Londres. Alcunhado “avental de couro”, aludindo aos açougueiros, tal a crueldade empregada em suas vítimas, todas mulheres, costumava buscar prostitutas do East End londrino para dilacera-las ao seu “estilo”: garganta cortada e abdômen retalhado. Ao oficial de polícia de Whitechapel enviou outra carta (foto), que “traduzo” buscando preservar a condição de semialfabetizado do criminoso: “Do inferno. Mr. Lusk., Sinho eu lhe mando metade do rin priservado eu tirei de uma mulher a outra parte fritei e comi. Estava muito bon. Posso mandar a fac ensanguentada que tirei se o Sr. eperar um pouco. Assinado: pegue-me quando puder, Mishter Lusk” (deixando escapar um possível sotaque escocês).


Getúlio Vargas
, em 23/08/54, iniciou sua carta-testamento apontando “as forças e os interesses contra o povo”, e encerrou-a com pompa e circunstância: “dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”. Matou-se com um tiro no coração (foto).

(cnj.jus.br)

7/09/21
, dia dos desfiles, da saudação à independência do Brasil. Concentrações de militantes, fanáticos e agregados em diversas cidades do país extrapolaram os limites. Não com ataques físicos, mas com a ocupação da Esplanada, em Brasília, e faixas contra a ordem e o STF. Discursos do presidente da República repetiam o que foi considerado grave ameaça ao estado de direito, pano de fundo para ofensas diretas a ministros do STF. Claro, houve reações negativas tanto por parte dos ofendidos quanto na imprensa; pior ainda, até mesmo por parte de indivíduos que convocaram militantes para a manifestação. O presidente chegara à encruzilhada, seria preciso galgá-la para sobreviver sem um tropeço fatal.

"Verba volant..."

Para tal, chamou Michel Temer
, ex-promotor,  ex-presidente e homem forte no MDB, que lhe propôs uma breve “Declaração à nação”. Temer leu a minuta ao telefone, e sua ida pessoal a Brasília foi condicionada à aceitação da carta pelo presidente. Pois foi, e com verve forense, usou a figura do “calor do momento” como justificativa possível para os excessos presidenciais. Ato contínuo, daqui e dali buscou-se apagar o incêndio, mas o recuo não agradou aos militantes. As palavras se foram (“verba volant...”), mas a imprensa, os vídeos não. Temer pensou que talvez bastasse um aceno, ceder discreta e elegantemente, mas a militância aguerrida estava incendiada.


O ex-ministro tatuiano do STF
, Celso de Mello (UOL, 11/09), lembrou a carta de Hitler para o acordo de paz de Munique na 2ª Guerra, em 1938, rompido quando os alemães invadiram Praga no ano seguinte. A carta do Führer, disse o antigo decano, fora uma farsa.

 (A escrita também “voa”, só os fatos permanecem, talvez)

sábado, 11 de setembro de 2021

INÚTIL PAISAGEM


Mas pra quê / pra que tanto céu / pra que tanto mar / pra quê / De que serve esta onda que quebra / e o vento da tarde / de que serve a tarde / inútil paisagem”. Ao lembrar esta obra-prima de Jobim e Aloísio de Oliveira (1964, pleno golpe), pensei como eles: pra que tanta formosura, tanta exuberância e perfeição? Falo do Rio de Janeiro, de sua natureza, do colar de espuma adornando o decote das praias. Penso em tudo de magnífico que o universo, guiado pela mão divina, lá deu de construir; mas penso também em conflitos, milícias, maracutaias, rachadinhas, crimes, mortes ‘morridas e matadas’. (E quando falo ‘mortes morridas’ – penso no Severino de “Morte e Vida”, do poeta João Cabral: a dos que foram chamados ao soar do pêndulo do relógio da vida, um badalo aguardado ou repentino: é a sedução mortal do porvir, o fado). Penso também nos óbitos que poderiam ter sido evitados. Mas por que o Rio, perguntariam? 80% das novas infecções por Covid-19 na cidade são da variante Delta, a mais silente de todas, com duas vezes mais contágios e internações (G1, 27/08) - medusa de tentáculos invisíveis.


Pode ser / que não venhas mais / que não voltes nunca mais / De que servem as flores que nascem / pelos caminhos / se o meu caminho / sozinho é nada”. Nosso subconsciente, sem querer (querendo?), associa música e poesia a fatos cotidianos. Sejam as que vêm convidando à reflexão, como “Inútil paisagem”, ou as que nos assediam do nada, caindo-nos tal qual um insight: clareza súbita, luz que se projeta à nossa frente. Penso na associação que me veio ao pensamento, a infinita beleza da paisagem carioca em contraste com o mal que assola a cidade, elo que me ocorreu após ter lido notícias sobre a Delta à noite ao acordar com o sopro do dia, o lume da manhã trazendo-me afago em versos de graça intensa. Mas...


Pensem nas crianças / mudas telepáticas / pensem nas meninas / cegas inexatas / Pensem nas mulheres rotas alteradas / pensem nas feridas / como rosas cálidas”, poesia de corte profundo que convoca à reflexão pela caligrafia desenhada de Vinicius de Morais, em “Rosa de Hiroshima” (1954), tal como depois faria o compositor Krzysztof Penderecki em sua “Trenodia para as Vítimas de Hiroshima” (1960). Penso no padroeiro do Rio, São Sebastião, nos lindos versos a ele dedicados por Gil e Milton: “Sebastian, Sebastião / diante de tua imagem / tão castigada e tão bela / penso na tua cidade / peço que ores por ela”. A oração de Gil, devoto dos ritos católicos e afro-brasileiros no mais puro sincretismo baiano, vem somar-se às nossas preces. Em pleno ressurgimento da pandemia em sua versão mais multiplicadora, o carioca se rende aos luaus, pagodões, bailes funk e grandes aglomerações em praias e bares, amargo convite extensivo à Alfa, Beta e Gama - e também à Delta, o vírus já ameaçando soletrar todo o alfabeto grego.


São Paulo
, terra da garoa e da pujança, dos arranha-céus, celeiro do capital que é pilar da economia brasileira, vem tendo algumas ações e resultados positivos, no contexto geral do país, com redução de infecções e mortes. Porém, da primeira vítima da Delta reverberou o temor da contabilidade negativa, aquela progressão geométrica que tanto nos assusta. Em ano pré-eleitoral, há dificuldade de agir mais incisivamente para acossar a nova cepa como se fosse um exército inimigo. Parece que aguardamos o momento de assistir ao avanço de uma enorme onda a cobrir ruas e prédios, “ver emergir o monstro da lagoa” (como disse o Chico). Ou não, “quem sabe faz a hora”, do menestrel Vandré? O “Trem das onze”, a Paulista, a música caipira que ainda resiste aos modismos do liquidificador da TV, a cidade que de noite se ronda à procura de um amor pode sofrer como o Sebastião do Rio: “cada parte do teu corpo / cada flecha envenenada”.




A Delta
já atinge São Paulo e bate forte no Rio, sempre refém do que há de pior, e que torna inútil qualquer paisagem. Há uma ventania de centro-noroeste, cruzando o país com suas cornucópias subterrâneas de verbas, dutos com ida e volta, pessoas sem cargos intermediando negócios com vacinas e até um motoboy a fazer vaivéns de 117 milhões em dois anos. Uma expectativa geral advinda do cataclisma anunciado, “que ao findar vai dar em nada / nada, nada, nada, nada...”, palavras do Gil em “Se eu quiser falar com Deus”. Corre um rio de ações daqui e dali no STF, pautado pela Constituição e com a cautela que o momento demanda. E eis que até mesmo a Anvisa suspendeu o uso da proxalutamida, um bloqueador hormonal que vinha sendo alardeado pelo executivo como novo “tratamento preventivo”, mas cujos relatórios sobre testes em humanos reportadamente podem ter encoberto mortes (BBC News, 20/07). Há uma CPI que tropeça nos meandros políticos, barganhas e trocas de apoios, manobras de plenário, mas que ao menos vem expondo feridas, como as de Sebastião: “cada parte do teu corpo / cada flecha envenenada”. O mártir foi amarrado a um tronco e sacrificado pelas setas das milícias de Diocleciano, imperador de Roma.


De que serve
, então, esta paisagem, se nos é inútil? Ela sobreviverá em plena formosura após cessadas as intempéries que nos assolam! Há boas expectativas, mas por ora há um véu negro a encobri-las - talvez como em “A perdida esperança” do Vinicius: “permanecerei imutável e austero / certo de que, de amor, sei o que ninguém soube / Como uma estátua prisioneira de um castelo / a mirar sempre além do tempo que lhe coube”.

E assim venceremos.



 


sexta-feira, 3 de setembro de 2021

A INFORMÁTICA NÃO É, DE TODO, UM MAL

 


Há muitos anos
li uma frase de autor desconhecido, apesar das especulações de sempre, que considero genial: “A informática veio para resolver problemas que antes nunca existiram”. Parece anedota, mas é ‘verdade verdadeira’, como diz o popular, figura de linguagem usada até mesmo no meio jurídico. Basta pensar na informática em si, um campo em que a cada hora se cria uma novidade. Logo surge um vírus, um trojan, o diabo, fazendo com que o mundo consuma mais dinheiro na pesquisa e fabricação de ‘antídotos’ para cada nova cepa de pandemia digital. E, claro, na ponta é sempre o consumidor quem vai pagar o pato e a fatura.

A "Geração Espontânea", de Darwin

Golpes de toda monta
surgem como fossem a geração espontânea imaginada por Darwin: brotam em árvores para assaltar o “cidadão de bem”, termo já bem desgastado pelo sectarismo de hoje. E quando se pensa que tudo está sob controle, surge uma nova invenção (como diria o Nélson Rodrigues, para seduzir a ‘massa ignara’ - leia-se: todos nós). Veja o whatsapp: um aplicativo multiplataforma para celular que se transformou em fonte de golpes e ferramenta de extorsão. Amigo ou parente que teria mudado de número escreve para pedir dinheiro ao incauto cidadão – “é só pra cobrir uma despesa e amanhã devolvo”... Só que, no caso, amanhã não vai ser outro dia, esse amanhã nunca virá.


E há o novo golpe
(Folha, 28/08), com o logo do Ministério da Saúde, sobre a 3ª dose da vacina: o sujeito recebe mensagem dizendo que foi sorteado para a inoculação extra, bastando apenas clicar no link do fabricante desejado. Mas...Todos os caminhos levam a Roma, e todos os links entregam o cidadão ao hacker.


Vem o Banco Central
e lança mais uma invencionice eletrônica, panaceia para todos os males financeiros que aparentemente veio para privilegiar os mais pobres – os que possuem celular, bem entendido. Talvez para fazê-los viver o charme discreto das classes mais altas, que passa TEDs, DOCs e afins: o PIX (de pictures, ou ainda pixels, em inglês).


A nova ‘pedra filosofal’
parece transformar latão em ouro fazendo do pacato cidadão um pagador à vista - que seja de três vinténs, como na peça de Brecht e Weill (1928) adaptada da “Ópera dos Mendigos”, de John Gay. Orgulhoso, ele saca seu celular e paga, toca a pagar, é tão fácil, não? O negociante, ou credor, agradece penhoradamente.  É a maravilha, salvo-conduto para a Pasárgada de Manuel Bandeira - “tem um processo seguro / de impedir a concepção / Tem telefone automático / tem alcaloide à vontade...”

(folhadaregiao)

No dia 26 de agosto
, o Estadão publicou matéria que escancarava o título “Roubo com PIX dispara em SP; sequestros-relâmpagos crescem 39%”. E descreve uma cena dramática: André Chaves e sua noiva param em um sinal vermelho no centro de São Paulo. Em um segundo, o vidro da passageira é estilhaçado, um sujeito rouba o celular e foge por entre os veículos. Resultado: em meia hora Chaves havia perdido R$ 5,8 mil, transferidos via PIX. Pior ainda são os que envolvem o sequestro do dono do celular que, ao toque do cano gelado de um 38 ou uma .40, transfere tudo o que tem para a conta que o bandido mandar. Na garupa do roubo, vem ainda o perigo de estupros, agressões e mesmo assassinatos. A depender da fragilidade da vítima, basta uma faca de cozinha para consumar o crime.

"Bob Fields", à direita, e Castelo Branco

No dia seguinte
, 27 de agosto, novamente segundo o Estadão, a Polícia fez soar o alarme da escalada vertiginosa dos sequestros-relâmpagos, 39%, e logo o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, anunciou mudanças para prover melhor segurança às operações com o PIX, falando em uma salvadora limitação no horário das transações. Neto do ultra-ortodoxo economista Roberto Campos, ministro do governo militar de Castelo Branco tido como “americanista” e "entreguista" pelos críticos – de onde o apelido “Bob Fields” -, o atual presidente do BC não prima pela argúcia do avô, personagem de parte de nossa triste história: a maior vantagem do PIX, para os bandidos e sequestradores, é exatamente poder levantar sua féria em plena luz do dia, sem que ninguém - ou quase – perceba, fazendo sua operação tão rapidamente quanto um mago prestidigitador. Ou discretamente, com a vítima sob sua mira. Após as 20h, só se poderá “pixar” (e vamos neologizando) até R$ 1 mil. Não sabe o ilustre presidente do BC, nascido em berço de ouro, que R$ 1 mil é muito dinheiro tanto para a vítima pobre quanto para o bandido pé de chinelo! Portanto, às favas com limitações de horários. E esqueçam os sensores biométricos, que reagirão sob os dedos das vítimas conforme a dança e à medida que lhes é apontado um cano de arma ou o brilho de um punhal.


Particularmente
, torço o nariz para bancos e nuvens virtuais, prefiro o convencional, sem pequenas operações via PIX ou investimentos milagrosos em Bitcoins. Sem lenço nem documento, lembro Caetano, eu vou.  Ouço sobre muitos outros problemas relacionados ao novo sistema de transferência do BC, como aquele digitozinho a mais que escorrega na operação e não tem volta; o pagador depende da boa-fé de quem recebeu por engano ou lá se vai seu pouco mas rico dinheirinho. Pior de tudo, o PIX é um atrativo também para engambelar sob coação as presas mais fáceis, já que qualquer um pode usá-lo: adolescentes, moças e idosos, deixando-os vulneráveis a ainda outros malfeitos.


Com a economia em frangalhos
, os preços nos píncaros, o desemprego chegando a 15%, o comércio estagnando, a Selic prometendo chegar a 8% na virada do ano e a comida escassa em incontáveis residências, seriam esses novos gadgets eletrônicos uma espécie moderna de ‘ópio do povo’, mais um factoide a dourar a pílula, já tão amarga, da sobrevivência neste país?