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sábado, 21 de julho de 2018

O LADO OBSCURO DA VIDA E DA MORTE DE MOZART

Così fan Tutte, encenação da Ópera Nacional de Bucareste

Voltamos a falar de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), mas desta vez por outro ângulo que não o do gênio brincalhão e gozador. É uma outra vida dentro da vida, com final triste. Mozart amargou a decadência imposta pela nobreza, que passou a retirar-lhe o valioso subsídio à sua labuta. O comportamento do compositor, que às vezes afrontava os costumes da época (como nas óperas Don Giovanni, então por muitos vista como imoral, e Così Fan Tutte – Assim Fazem Todas), fora a sua adesão à tanto quanto obscura maçonaria local da época, passaram a incomodar os mecenas.
Com a doença - e depois a morte - de Joseph II, a vida de Mozart entrou em parafuso. Em seus últimos anos, endividado, gastava o que recebia. Passou a recorrer a um amigo e seu editor, Hoffmeister, que lhe emprestava alguns trocos, mas adotou o lema ‘devo, não nego, pago quando puder’. Hoffmeister disse-lhe que, se não saldasse a dívida, adeus empréstimos. E pior: se não compusesse pecinhas fáceis e popularescas para vender rápido, não mais editaria as músicas dele. Mozart não lhe poupou desaforos: preferiria morrer de fome. Cada vez mais desbocado, adorava falar e escrever besteiras.
Mozart e Constanze, em lua de mel
Já maduro, durante suas viagens mandava cartas à amada Constanze repletas de toda sorte de maluquices, entre declarações e juras de amor e saudade: ‘beijo-te 1.095.473.082 vezes’. Criava nomes e expressões existentes apenas em suas caraminholas. Para ela, criava frases e apelidos entre infantis, curiosos e ridículos, como: do teu stu! Knaller-paller. Schnip-schnap-schnur. Schneppeperl-snail’ cujo sentido parecia residir no som das palavras. Elogiava raramente seus ‘escolhidos’, e massacrava todos os incompetentes.
A corte de Mannheim
Frustrado e meio que possesso de raiva, escreveu ao pai que a orquestra de Mannheim era formada por pessoas jovens e honestas, ‘e não por velhos bêbados’, como as demais. De Leipzig, escreveu zombando da orquestra local, dizendo que era formada por gente muito velha que tocava arrastando e não conseguia chegar no andamento desejado. Claro, aquele jovem homem tornou-se siderado pelo mito da criança e adolescente prodígio e continuava ambicioso musicalmente, apesar da sombra da idade se aproximando impiedosamente: já não era mais a criança ‘predileta dos deuses’. 
Pasquale Anfossi
A prolixidade do mito vienense já foi objeto de inúmeros estudos, como o dos musicólogos italianos Enzo Amato e Alberto Vitolo, que buscavam achar defeitos na  obra dele, na falta de outra coisa para fazerem. Argumentaram que trechos de seu compatriota Pasquale Anfossi, de voos bem mais rasantes mas popular na Itália da época, aparecem nas óperas A Flauta Mágica, Don Giovanni e As Bodas de Fígaro, além do Réquiem. Segundo eles, Mozart utilizara mudanças de tempo, de harmonias e de orquestração, além de inversões de trechos da música do italiano.
Como não me dediquei a pensar nisso, restam-me as hipóteses: um muito improvável furto musical ou, o mais plausível, simples consequência da prodigiosa memória do vienense, que captava e assimilava com naturalidade tudo o que ouvia, dos pios de pássaros aos  sons das ruas, trote de cavalos e, claro, melodias, convivendo na cabeça dele sons musicais e natureza. Fico com a segunda hipótese, da influência de que músico algum, em qualquer época, conseguiu escapar, e penso inspirado no químico francês Lavoisier, contemporâneo de Mozart: em música – assim como nas outras artes – nada se cria do nada, nada se rejeita, e sem querer ou saber tudo se aproveita.
Lavoisier

Muito doente, Mozart começou a compor um Réquiem, música fúnebre. Trabalhava por insistência de um misterioso freguês, sempre vestido de luto, que o atormentava com frequência. Transtornado e provavelmente já confuso por alguma estranha doença, tomado por quase alucinações, elucubrava que a obra teria sido encomendada para seu próprio funeral. Talvez já perturbado pelo medo do fim, a fraqueza avançando, além de suspeitas infundadas de envenenamento pelo compositor Antonio Salieri - na verdade um amigo e, por que não, invejoso do prodígio. A ilação sobre o envenenamento, aliás, foi romanticamente explorada no filme Amadeus, de Milos Forman, sobre texto de Peter Shaffer.
Monumento em homenagem - tardia
Mozart morreu aos 35 anos de idade encerrando sua incomparável carreira tão precocemente quanto a iniciou. Foi enterrado, conta-se que na presença de uma ou duas pessoas e seu cão, que acompanhavam a charrete que levava o féretro. Cabe o cruel dito popular: ‘morreu com a boca cheia de formiga e um cachorro velho lambendo-lhe a cara’, retrato de um final desafortunado. Somente dezessete anos depois a viúva Constanze, que à época do enterro estava severamente adoentada, buscou visitar o túmulo do amado, ficando arrasada pois não encontrara onde o corpo havia sido enterrado.
Reconstrução facial de Mozart
Para completar, o crânio de Mozart teria sido roubado - não para que se pesquisasse o que havia na cachola daquele gênio, mas por motivo fútil: um idiota apropriou-se da peça, dando-a de presente ao irmão de um anatomista de nome Hyrill. O crânio fora recuperado, muito se especulou, mas em 2006 um exame de DNA refutou definitivamente a teoria. (E como há teorias sobre a vida e a morte desse gênio! Autores bem qualificados tecem diferentes ideias, de similares a divergentes ou... dissonantes). A alegria da criança genial e prodigiosa descambou para a penúria e a desgraça, até que lhe sobreviesse a morte. Restou viva sua grandiosa obra, uma contribuição de impossível mensura para a humanidade, e que assim será até o final dos tempos.


sábado, 14 de julho de 2018

O PRODÍGIO E A PRECOCIDADE NA ARTE

PERIGOS QUE SEDUZEM 
CRIANÇAS E PAIS


Já pensei, falei e escrevi sobre Mozart (1756-1791) muitas vezes. E será difícil, sempre, pensar o futuro da música sem nos lembrarmos do prodígio de Salzburg, menino travesso como qualquer outro, embora quase sobrenaturalmente bem-dotado. Já vi ilações sobre a data de registro de nascimento feita ‘a posteriori’, forçando para baixo a idade do menino, mas isso, diria meu pai, é coisa de especula. Poderiam as mãos habilidosas de papai Leopold ter colaborado nas composições precoces de monumental talento? Talvez um pouco, é coisa que não saberemos. Nada há que levante dúvidas quanto à predestinação daquela criança. Não dá para bater de frente com o torrencial de informações sobre o pequeno Wolfgang, precoce como raros, se não o topo da lista.
O tricordiano Godofredo Rangel
[Meu pai, o escritor Autran Dourado, contava sobre os conselhos que, ainda adolescente, recebeu do autor mineiro Godofredo Rangel após ler um dos contos dele, a pedido: ainda bem que você não é precoce. Estude, leia, leia. Orientou-o a mergulhar nos grandes clássicos, bebendo na rica fonte dos mestres da literatura. Godofredo achava que o canto da sereia da precocidade poderia atrapalhar grandes talentos que deveriam se desenvolver per ardua, e não apenas per talentum. A trilha construída por meu pai foi lembrada por um crítico como a de uma ‘formiguinha da literatura’, da labuta diária – talvez aludindo à fabula atribuída a Esopo e narrada por La Fontaine, sobre esse animalzinho e a cigarra.]

É certo que, no caso de Mozart, cabem aquelas palavras atribuídas (embora não seja comprovadamente o real autor) a Abraham Lincoln: pode-se enganar a todos por algum tempo; é possível enganar alguns por todo o tempo, mas ninguém pode enganar a todos o tempo todo. Não enganou Mozart, perenizado como gênio inconteste, precocidade a toda prova.
O que se sabe é que o menino, aos tenros quatro anos, já tocava muito bem o cravo, memorizando peças com facilidade. Aos seis, escreveu pequenos minuetti e um allegro. Aos sete, já teria tido publicadas algumas pequenas peças e aos treze já enveredava por um dos mais complexos gêneros musicais, a ópera. Tendo ouvido um Miserere que era sempre cantado na Capela Sistina, o adolescente, chegando em casa, sentou-se ao cravo executou-o de memória, com perfeição.
Mozart: finalizando Don Giovanni
Ciente de sua genialidade mas nunca tomado pela soberba, Mozart não sucumbiu à clássica estupidez de muitos gênios. Um dia, foi procurado por um jovem compositor iniciante que lhe pediu orientação sobre como escrever uma sinfonia. Mozart, já consagrado na Europa, disse-lhe para escrever primeiro coisas simples como baladas. Surpreso, o aspirante o questionou, dizendo que ele, Mozart, havia composto sinfonias aos dez anos de idade. E ouviu como resposta que, diferentemente do curioso, não perguntara a outros como fazê-lo.
Linz, a antiga beleza arquitetônica
O compositor produzia prolixamente, encabularia até copistas de seu tempo (hoje há softwares que fazem cópias no lugar dessa classe de profissionais infelizmente em vias de extinção). Bom exemplo dessa fertilidade exuberante é que, já adulto, de retorno à Áustria, em 1783, Mozart escreveu ao pai dizendo que não tinha sinfonia alguma pronta na bagagem, mas que estava confirmada uma apresentação em Linz. Sem mais problemas, o concerto foi realizado na data prevista. O compositor havia chegado na cidade apenas quatro dias antes, em trinta de outubro, e foi após esse ínfimo prazo que viu executada com sucesso sua nova sinfonia, que levou o subtítulo Linz, de número 36.
Encenação de Don Giovanni,: Metropolitan Opera de NY
Na véspera da estreia da magnífica Don Giovanni, Mozart ainda trabalhava na abertura da peça, a ser ensaiada e executada no dia seguinte. A ópera obteve grande sucesso. As suas sinfonias de número 39 a 41, aliás entre as mais belas, três sinfonias inteiras, friso, já eram dotadas da boa arquitetura de um compositor maduro. E foram compostas em menos de dois meses. Se há estudiosos que apontam no conjunto de obras de Mozart nada menos do que cinquenta e duas sinfonias, achando um trecho do que seria uma aqui, talvez um movimento acolá, no frigir dos ovos restam-nos 41 completas, sendo a última a elaborada Jupiter, conhecida pelo número K. 551, na catalogação de Köchel, adotada no mundo inteiro. Mas 41 sinfonias são parte de um caudaloso repertório, na juventude de seus 35 anos , e já seriam suficientes para justificar uma longa vida de trabalho de qualquer bom compositor.
Para fazer um contraponto entre a precocidade e  a ourivesaria, pensemos em Brahms (1833-1897), que, na contramão de Mozart, teria sido um bom exemplo para Godofredo Rangel dar ao meu pai, a fim de que ele não se deixasse seduzir pelo que chamei, no início deste texto, de ‘canto da sereia’ do prodígio. Ainda passeando entre os gênios – o prodígio e o elaborado, da complexidade, da reflexão imensa -, lembro-me sempre de Brahms (1833-1897) e sua grandiosa Sinfonia nº1, que já foi chamada por alguns de 10ª de Beethoven, embora pessoalmente ache que essa obra pouco tem a ver com 9ª do outro. O primeiro movimento teve uma versão no início dos anos 1860, e o esmero e a tapeçaria de vozes, solos, harmonia, enfim, a complexidade da obra, levaram longos, longos anos para serem magistralmente concluídos à perfeição. Cada artista deve saber seu lugar, sua época e seu ritmo, que lhe mostrarão o caminho a seguir. Deve-se estimular crianças desde cedo, claro, mas com cautela para não ver embotar algum talento que não logre, por excesso, ascender ao topo tão cedo quanto parece atrair o canto da sereia. Há um infindável número de grandes artistas e mesmo gênios que amadureceram a seu tempo, sem terem sido prodígios.

sábado, 7 de julho de 2018

DO TESTAMENTO DE HÄNDEL A VON KARAJAN


E OS DEGRAUS PARA A PERFEIÇÃO

Frontispício autográfico do oratório Messias
Handel, Händel ou Haendel? Nós já falamos aqui das brigas que aprontavam Bach e Händel, cada um de seu lado. Mas vejamos o último não como pessoa, sim como brilhante e prolífico compositor, de quem se destaca, entre incontáveis obras, o monumental Messias. Foi músico contra a vontade do pai, mas o Príncipe da Saxônia o fez aceita-lo assim, diante do enorme talento. O jovem Händel mudou-se para a Inglaterra, onde por questão de idioma, por seu interesse, retirou o trema de seu sobrenome. Alguns adotam literalmente a pronúncia correta, com a contração das vogais ‘a’ e ‘e’ por extenso: Haendel. Eu, particularmente, opto sempre pela grafia original, com o saudoso trema sobre o ‘a’.
O testamento: Händel teria pedido ao Criador, já no leito derradeiro, que o levasse em uma sexta-feira santa. E assim cumpriu o Senhor: morreu em uma sexta da Paixão e foi enterrado como inglês honorário na Abadia de Westminster, com direito a pomposo funeral. Em seu testamento, de 1750, deixou certa quantia em dinheiro para o criado Peter. Já biblioteca, instrumentos e grande parte de sua poupança ficaram para Christopher Smith. Para o primo Christian e a prima Johanna Friderika, sobrinha, e alguns amigos, deixou quantias que variavam de cem a duzentas libras. Teve certo conforto em vida, porém bastante menos do que merecia o seu patrimônio musical. (Aqui cabe uma dúvida levantada pelo insuspeito historiador Hans Neunzig: por que Händel teria premiado Christopher com altas benesses especiais na divisão? Por que não há registro de mulheres na vida de Händel? A pergunta pode soar ao leitor ‘moderno’, cheio de preconceitos,  como uma ilação e convida a possíveis visões machistas, quando não homofóbicas).
Karajan. (Foto: The Guardian)
O mito Karajan: Herbert von Karajan foi um dos mais famosos regentes de todos os tempos. Desfrutou das mordomias que Händel e outros não tiveram, e à frente da Filarmônica de Berlim exerceu como poucos um poder quase ilimitado. Marca registrada, regia de olhos cerrados, em profunda introspecção. Em uma gravação para TV, pediu aos técnicos que o focalizassem de olhos fechados, parte de seu mise-en-scène, a maior parte do tempo. Sentado, pernas cruzadas, teria comentado que achava simplesmente enfadonho ver músicos tocarem.
Toscanini e Karajan
Disputa no Céu: Isto evoca mais anedotas: encontraram-se no Céu Toscanini, Furtwängler e Karajan, que tentavam, a todo custo, decidir no berro quem teria sido o regente número um. Furtwängler disse que seu domínio técnico e o amplo conhecimento da cultura europeia o fizeram o melhor de todos. Ao que Toscanini retrucou que não, por causa de sua precisão rítmica,  fidelidade ao autor e, entre outras virtudes, porque Deus o havia feito assim. Karajan, indignado, deu um salto a esbravejou ‘eu não fiz ninguém não’! Por essas e outras, diz a sabedoria das anedotas, é que falam que a diferença entre Deus e um regente é que Deus não fica pensando que é um maestro!
Músicos e regentes descem ao Inferno: Há também a do músico que chegou ao Inferno para cumprir sua pena, sem direito a infindáveis recursos, embargos e instâncias de todos os níveis. Percebeu que havia vários enormes caldeirões sobre fogo intenso, onde eram cozinhados músicos de todas as especialidades. Os caldeirões tinham à sua frente capetas-fiscais, para evitar que algum esperto saltasse fora da água escaldante: usavam seus tridentes para que os recalcitrantes retornassem ao fundo. Porém, o noviço percebeu que havia um caldeirão sem capeta para fiscalizar, mas apesar disso algumas cabeças subiam e logo afundavam, misteriosamente. O novato indagou o porquê. O capeta-chefe, pernas sobre um banquinho e palitando os dentes, respondeu-lhe que aquele caldeirão era o dos maestros, ele nem se preocupava. E explicou que cada vez que um deles tentava subir, outros puxavam-no por baixo. Claro, uma pilhéria sobre histórica disputa entre os regentes. Se não há orquestra para todos os que querem ser músicos, existem senão raríssimas oportunidades para bons regentes, cálculo por demais óbvio.
Os degraus do Paraíso: Bernard Haiting, por décadas regente da famosa Concertgebouw de Amsterdam, conta que um dia, convidado, Karajan subira as imponentes escadas de onde se vislumbra o augusto órgão de tubos, rosto erguido e nariz empinado como um monarca dirigindo-se ao seu altíssimo trono, deixou escapar que aquelas escadas foram feitas para ele. Seriam elas um gradus ad parnassum (degraus para o paraíso, a perfeição)? Não se sabe se esse folclore todo é realmente verdade, mas que é um quadro da profissão, lá isso é. Diz um amigo linguista que, entre a verdade oficial e a lenda, às vezes é melhor ficarmos com a segunda.
George Philipp Telemann
Telemann e as redes sociais: Retornando aos velhos tempos, seu contemporâneo George Philipp Telemann (1681-1767), prolífico como boa parte de seus pares, escreveu quase uma cantata para cada domingo, setenta e oito ofícios, quarenta óperas, 44 paixões, concertos, sonatas e música de câmara, entre tantas. Amparados pelo Poder Público ou Igrejas, sobrava tempo para que os compositores se dedicassem com exclusividade à sua nobre arte – além de comer, beber, amar e nada mais. E com um detalhe: sem smartphones, redes sociais, trânsito e outros males de hoje a atrasá-los.
O pequeno Mozart: apresentando-se em Versailles
O menino mágico: Um pouco adiante no tempo, encontramos um outro grande compositor cujo volume de produção alcançou, em sua boa parte, insuperável qualidade: Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) talvez o maior talento da história. Desde cedo, papai Leopold se aproveitava dos extraordinários dotes de seu moleque para explorá-los e faturar na Europa, fazendo crescer-lhe a fama no piano e no violino. Chamavam-no “o pequeno mágico”, consumação do músico extremamente precoce, exótico, indomável e de habilidades tidas como divinas, por isso mesmo conhecido também como “o predileto dos deuses”.

sábado, 30 de junho de 2018

BACH E HÄNDEL: ENTRE TAPAS E BEIJOS

Bach, sisudo
Já falamos, neste espaço, sobre a farta produção do compositor Johann Sebastian Bach (1685-1750). No período em que foi Konzertmeister (mestre de concerto), ele compôs uma cantata por mês e às vezes uma peça para cada domingo ou feriado. (Já sua prova para o cargo de Kapellmeister - mestre de capela - da Igreja foi tão extensa que em tudo se assemelhava, guardadas as proporções, a uma sustentação oral no plenário para investidura em nossos altos cargos jurídicos: os temas incluíram latim, bíblia e legislação).

Erfurt
Bach produzia muito, mas como necessitava de boa renda para o sustento de sua enorme prole, em 1730 chegou a escrever a um amigo, Erdmann, queixando-se da saúde pública da cidade de Erfurt, que “lamentavelmente havia melhorado muito”. Para piorar, completou, o saneamento havia progredido a olhos vistos, e por causa disso já escasseavam as encomendas de músicas para cerimônias fúnebres. (Parece não muito sincera a afirmação de Bach de que ele havia trabalhado incessantemente a vida inteira, e que quem pegasse no batente como ele obteria os mesmos resultados. Era falsa modéstia, ele se sabia genial: ego inflado, escreveu nada menos que 37 peças a partir das iniciais de seu sobrenome, B-A-C-H - em alemão, Si bemol, Lá, Dó e Si).

Fagotista, por Gerard Portielje
O compositor era muito rancoroso e cheio das vaidades, tanto que após um de seus intermináveis ensaios não hesitou em ameaçar na praça Geyersbach, um jovem fagotista que teria feito à boca miúda bochichos desairosos sobre o mestre após uma repreensão. Bach já havia registrado queixa contra ele, e, naquele dia, na rua, enquanto alguns colegas tentavam apartar a briga, o músico brandia um pedaço de pau e Bach passou a ameaça-lo ensaiando de sacar a espada. Valeu-lhe uma reprimenda superior pela impaciência como chefe.

Apesar do pavio curto, o temperamento do mestre fora do trabalho era em geral o de um bonachão que gostava de levar músicos e amigos a um café ou cervejaria para rir, beber, cantar e tocar com os colegas. Mas o talento de brigão era recorrente: em 1717 queria porque queria ser Kappelmeister de Sachsen-Weimar, para cujo duque trabalhava, mas o cargo que lhe foi negado. Vencidos os argumentos, passou do sério e foi devidamente retirado do palácio e preso. Um mês depois, a prisão foi relaxada (palavra que soa mais para afrouxar do que soltar)

John Taylor e suas desastradas intervenções
Já muito idoso, Bach estava cego e apoplético, e um cirurgião inglês, John Taylor, foi chamado para aliviar o sofrimento do mestre. Esforçou-se para curá-lo, mas foi malsucedido, e levou-o de vez à morte (Taylor tentou salvar Händel, dois anos depois, e igualmente falhou, deixando-o cego). E se a ciência da época não era mais de serventia ao mestre, restou-lhe apelar em súplicas à misericórdia do Pai. Pouco antes de se encontrar com Aquele de dizia ter sido sua única fonte de inspiração, ainda chegou a conhecer seu neto, filho de Johann Christian e Elizabeth. A esposa Anna Magdalena trouxe-lhe rosas, e ele as apreciou, achou-as maravilhosas apenas tocando-as com os dedos, dizendo que pelo tato podia sentir-lhes a beleza.

A bela, jovem e talentosa esposa Anna Magdalena
No leito de morte, Bach pediu ao genro Christian que pegasse partitura e pena, e passou a ditar nota por nota o coral Com Isto, Apresento-me Diante do Vosso Trono. Também solicitou aos presentes, ao seu redor, que cantassem Todos os Homens Deverão Morrer, coral por ele composto sobre versos de Lutero. Com um sorriso, inteiramente cego àquela altura, disse que, finalmente, seus olhos veriam o Salvador. Depois de tal súplica e da devoção de uma vida inteira, o Senhor finalmente acedeu em recebê-lo, naquele julho de 1750. Partiu de forma absolutamente conformada, entregando-se, como parece ter antevisto na declaração de amor, um tanto mórbida, que havia deixado no livro de notas dedicado à esposa: “estando tu ao meu lado, irei com alegria para a morte e o descanso. E como será lindo meu fim, se tuas belas mãos me cerrarem os olhos”.

Händel e sua espada, por Philip Mercier
Cenas de desavenças que nada devem às de Bach foram protagonizadas por George Friederich Händel (1685-1759). Ambos tiveram música e brigas em comum, além de fracassos nas mãos do cirurgião John Taylor. Durante um ensaio de uma ópera de autoria de Johann Mattheson, este, que fora tutor de Händel, tentou afasta-lo do cravo, irritado que estava – naquela época, era comum uma espécie de regência dividida entre o cravista e o primeiro violino, coisa que, claro, nunca daria certo. Após alguns bate-bocas, a discussão resvalou para a baixaria, passando de meros xingatórios aos tapas, e depois com ambos desembainhando suas adagas. Mas a fama de impaciente e agressivo de Händel já era conhecida desde quando, possesso de ódio, tentou atirar pela janela Cuzzone, uma soprano de nome um tanto impróprio que se atrapalhava para cantar uma ária da sua ópera Ottone, Re di Germania, em um ensaio.


[O compositor escapou de ser vítima fatal de um golpe certeiro de seu antigo mestre, salvo de uma espadada graças a um dos enormes botões de sua capa – coisa de filme “caubói-espaguete” italiano, como o herói Giuliano Gemma, em O Dólar Furado, na cena em que sobreviveu a um tiro certeiro no coração, felizmente escudado por uma moeda no bolso esquerdo superior de seu colete – daí o título do filme. No caso de Händel, deve tê-lo ajudado também sua protuberante barriga a almofadar o botão do sobretudo contra um golpe da ponta da espada. Ajudou a salvá-lo de alguma injúria maior ser um comilão assumido e inveterado – mestre, além da música, em instrumentos como o garfo e a faca].



sábado, 23 de junho de 2018

ERROS E DEFEITOS NO MODO DE CANTAR O HINO NACIONAL


MAS POR QUE O TITE NÃO CANTA?
Martin Braunwieser, um trunfo brasileiro
Martin Braunwieser nasceu em 1901 na Salzburg de Mozart, sendo filho de um Mestre de Capela. Após estudos e cargos na Europa chegou ao Brasil em 1928. Dono de inteligência e cultura ímpares, foi professor e músico atuante em São Paulo. Começou a trabalhar, anos depois, na Prefeitura, a convite de Mário de Andrade. Pesquisou o folclore brasileiro, compôs e regeu, e veio a falecer em 1991 - estive na casa dele e sua filha Renata acho que por volta de 1986.
Martin Braunwieser foi Professor de Canto Orfeônico dos Parques Infantis Paulistanos, e observou, além de horrores ao ouvir o Hino Nacional, a quase impossibilidade de a criançada canta-lo corretamente. Caprichoso, resolveu anotar as inúmeras falhas recorrentes tanto na música quanto na letra. Seu livrinho Erros e Defeitos no Modo de Cantar o Hino Nacional, a que devo o título deste artigo, foi publicado pelo Arquivo Municipal e é hoje avis rara, fui encontra-lo garimpando em alguns sebos.
As semicolcheias preguiçosas
O maestro compilou absurdos que podem passar despercebidos aos leigos, mas que não conferem nem com a partitura nem com o que normatiza a legislação sobre o assunto (sobre a qual falaremos mais adiante), tanto do lado rítmico-melódico, a composição de Francisco Manuel da Silva, quanto da letra, de Osório Duque Estrada. Constatou erros graves nas acentuações, desde já no primeiro compasso: ‘Ouviram’, pesando fortemente o Ou, quando na verdade o acento deveria recair sobre o vi, sílaba seguinte. E observou que nunca cantavam como estão escritos os grupos, com enérgicas notas pontuadas já desde o primeiro verso,  'arredondavam' o ritmo por instinto (ver ilustração acima) - Mário de Andrade falava da 'índole preguiçosa do povo brasileiro’.
O maestro coletou pérolas como “Ipinanga”, “Ipi-ianga”, “heróito”,  “heróisto” e por aí vai, atentados como “do que a terra margarida”, “em teus seios ó liberdade” (ora, são dois, devem ter pensado os infantes), ao todo 130 principais erros! Quanto à parte melódica, essa parecia missão impossível, já que a música fora escrita como Marcha Triunfal, para banda, em 1822 (hino vem da tradição do anthem luterano, que deu origem ao anglicano Deus Salve a Rainha, assim como o Star Spangled Banner americano). Depois, foi-lhe adaptada uma letra em 1831, celebrando a data da abdicação. Tornou-se o Hino ao Sete de Abril (“Os bronzes da tirania / já no Brasil não rouquejam”), e atravessou décadas até ser ungido Hino Nacional por Deodoro, em decisão nada canônica: quem havia 'levado' o concurso fora Leopoldo Miguez, com uma bela letra de Medeiros e Albuquerque: “Liberdade, Liberdade / abre as asas sobre nós! / Das lutas na tempestade / Dá que ouçamos a tua voz!” Este Hino chegou a ser publicado no Diário Oficial, mas Deodoro convocou um concurso - que teve como vencedor o mesmo Miguez. O marechal-presidente, parece que “ouvindo o clamor deste povo”, entregou o primeiro lugar a Francisco, e recompensou Miguez, como consolação, com o cargo de diretor do Instituto Nacional de Música. E ficamos com a Marcha Triunfal repaginada.
A letra só foi oficializada via decreto de Epitácio Pessoa em 1922, ano marcado pela Semana de Arte Moderna de poetas como Manuel Bandeira, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia. A letra de Osório é escrita em ordem inversa, característica do parnasianismo do século anterior, o que dificulta a compreensão. “As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico”, seria o primeiro verso em ordem direta, só para servir de exemplo. (E pasme! Os integrantes do Coral do Parque do Ipiranga, bem ali ao lado do riacho, não sabiam onde fora proclamada a Independência!)
O Obelisco, em foto de Petria Chaves
Um depoimento pessoal: há muitos anos, depois de um programa na Rádio Band em que eu falava da música e o prof. Pasquale Cipro Neto da letra do Hino, levaram-me em uma van da Band para um ponto bem movimentado, o Obelisco do Ibirapuera. Ali, irradiaram que os que cantassem o Hino corretamente levariam dez computadores. Pararam quase três dezenas de carros, mas em vão, ninguém acertava. Com o passar do tempo os patrocinadores pediram que pelo amor de Deus fossem dados os prêmios. Bom, passei a dar os parabéns a um a cada dois ou três ‘competidores’. Com certa tristeza, sim, mas era o trato: entregar os dez computadores.
Francisco Manuel (Arquivo FBN)
Vamos à Lei 5.700, dos símbolos pátrios, e leis e decretos subsequentes, que trataram de normatizar tanto a Bandeira Nacional quanto o Brasão de Armas, o Selo e, claro, o Hino Nacional, que deve ser executado em Si bemol maior ou Fá maior, a depender da solenidade e ocasião, e a pulsação sempre a 120 b.p.m (batidas por minuto, ou seja, duas por segundo). Dada a característica instrumental, a despeito da beleza da música de Francisco Manuel, que estudou com Neukomm, ex-aluno de Haydn, compreende-se a dificuldade de se cantar o Hino, originário da Marcha Triunfal de 1822, composta para ser executada apenas por instrumentos. Resumindo, marcha é uma coisa e hino é outra, mas vale a intenção e a beleza melódico-harmônica.
A versão em Fá maior é cantada duas vezes, a primeira começando por “Ouviram do Ipiranga” e a segunda “Deitado eternamente”. Agora, cuidado! a versão instrumental, em Si bemol maior, deve ser executada apenas uma vez, ou seja, a primeira parte (em que se cantaria 'Ouviram'), e sem o canto! Por isso, se nos jogos da Copa você pensou que o Tite não sabe cantar – eu nunca ouvi nem sei se o faz bem ou mal -, seguramente sabe como se portar, sendo ele o único a proceder corretamente, ao lado dos jogadores com sua ‘mímica labial’. E olhando para a frente, para o futuro, como civis, e não para a bandeira, tradição cerimonial de respeito dos militares, por favor.



sábado, 16 de junho de 2018

A NECESSIDADE DO REGENTE DE ORQUESTRA



Muitos leigos perguntam se o maestro é mesmo necessário, especialmente quando veem orquestras de câmara conduzidas por seu violino solista, costume muito antigo. Um bom conjunto de câmara, a depender da peça, nas músicas que não abusam de alterações de andamento, como complicados accelerandi ou ritardandi (o inverso), pode tocar parte do repertório sozinho. Mas para a maior parte das músicas que vão do pico do romantismo aos dias de hoje a coisa é bem mais complicada. Ígor Stravinski (1882-1971) disse que a carreira dos regentes na maior parte das vezes se faz com obras do período romântico. E que as músicas do chamado período clássico ‘eliminam’ o regente, ele não é lembrado.

Orquestra de Câmara: sem regente
Houve tentativas de extinguir a figura do regente, e várias nos anos 1920, na então recém-criada União Soviética do igualitarismo sedutor Marx de e Lênin. Conforme lembrou o amigo, compositor e regente Aylton Escobar, logo alguém se sobressaía e os olhos dos colegas a ele se voltavam nas entradas – gestos que indicam o início de uma peça, uma seção, ou alguma alteração de andamento. Também na orquestra, como é da natureza humana, uns eram mais do que os outros. Nos grandes grupos, contudo, a figura do regente teve de prevalecer, impondo-lhes disciplina musical na complexidade.

Frank Battisti: quando a orquestra aplaude o maestro de pé (Xpress)
Bernstein imprimia sua personalidade sacudindo a batuta e às vezes dando pequenos saltos. Osawa chegava a se agachar nos pianíssimos, enquanto para os ataques fortíssimos reservava um gesto, às vezes com ambas as mãos, que eu apelidei de ‘golpe do machado’. Exemplo de boa regência controlada vi em 1980, tocando em uma master class do maestro Frank Battisti, que aliás já esteve no Brasil, em Tatuí. A demonstração foi dirigida a um jovem que tentava em vão fazer com que os músicos do Wind Ensemble da NEC iniciassem perfeitamente juntos o Pássaro de Fogo, de Stravinsky. Disse-lhe que não precisava tanto da batuta – ali, até olhos e sobrancelhas eram mais importantes. Battisti pegou-lhe a batuta e com um discretíssimo golpe, que eu diria de mestre, iniciou a peça com absoluta precisão. Ah, e além dos regentes econômicos há os franciscanos, de mínimos gestos.

Zukermann, o solista regente
O grande violinista, violista e dublê de regente Pinchas Zukermann, dono de cachês altíssimos, liderava a orquestra de Saint-Paul e costumava solar nos concertos. Bastava um gesto do corpo, um olhar, um movimento de arco. Sério no palco, meio moleque fora dele, não hesitou em tirar seu violino do estojo e tocar em plena rua de Vancouver - com a brincadeira, auferiu uns trocos e degustou um belo frango assado.  

Giuseppe Verdi
Voltando aos primórdios da regência, desde Lully (1632-1687) maestros tornaram-se assunto saboroso na língua áspera dos instrumentistas. Por essas e outras, o grande compositor de óperas italiano Giuseppe Verdi (1813-1901) costumava referir-se à orquestra, à boca pequena, como la divina canaglia, lembrando a Divina Comédia (séc. XIV) de seu conterrâneo Dante. Episódios reais muitas vezes tendem a se transformar em anedotas, rapidamente incorporadas ao repertório da classe, seja um fato real, com os coloridos de praxe, ou os que talvez nunca existiram e surgem como fato em conversas aqui e ali, sabe-se lá se ‘verdade verdadeira’, a vera veritas. Um conhecido maestro, em um ensaio, reclamou da afinação da terceira trompa. O primeiro do naipe, rindo, disse maestro, a terceira faltou hoje. Diz a lenda que o maestro retrucou dizendo-lhe que então quando o terceiro viesse era para avisá-lo (fazendo troça, mas meio encabulado pela gafe. Pior o remendo do que a sonata).

Bach em família 
Já em tempos distantes, Johann Sebastian Bach não se conformava com murmurinhos crueis, prática comum a nove entre dez músicos de orquestra. E ficava uma onça quando sabia que o assunto eram suas divinas habilidades musicais. Ora, resmungou, eu trabalho como um operário! (A ele se reputa a autoria da frase ‘a música é 10% inspiração e 90% expiração’). Admirável que ele tenha feito tudo o que fez como genial e prolífica formiguinha da música e à parte ainda duas dezenas de filhos, legando-nos numerosa obra musical. E descendentes.

Caymmi: "nas ondas verdes do mar"
Ao contrário de Bach, o genial baiano Dorival Caymmi deixou-nos os talentos de Nana, Dori e Danilo e compôs pouco mais de uma canção por ano de vida. Cantava ‘365 igrejas a Bahia tem’ – se a vida é um dia após o outro, daria para passar um ano inteiro a percorre-las. Webern, nascido em 1873, também foi um compositor para lá de econômico - o conjunto de sua obra não soma três horas de duração, caberia em pouco mais de dois CDs. Morreu em 1945 baleado por um soldado americano, vítima da perseguição a um genro seu procurado por atuar no mercado negro, durante a ocupação aliada da Áustria.

Felix Mendelssohn
Ao revés da produção econômica, retornamos ao prolífico  Bach, autor de algumas obras fartamente caudalosas, como suas duas Paixões: Segundo Mateus e Segundo João. A primeira delas possui nada menos que 78 seções, e em uma das vezes em que toquei houve intervalo para jantar, fazendo daquela tarde-noite um concerto extenuante, mas compensador para o espírito e o estômago. Graças à Paixão Segundo Mateus que Bach, que andava quase esquecido, foi redescoberto por Felix Mendelssohn (1809-1847), que a regeu depois de quase dois séculos. Um crítico, sabe-se lá se por causa do antissemitismo que grassava na época, escreveu, destilando seu veneno mais desaforado, que aquela ‘descoberta’ da longuíssima Paixão de Bach terminou de matar Cristo para lustrar a vaidade de Mendelssohn.