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domingo, 17 de fevereiro de 2019

VIOLA, MINHAS VIOLAS


Meia volta e volta e meia, instrumentos musicais surgem com nomes diversos, a depender da origem, do lugar onde vivem e até de seus formatos e construção, como fossem pessoas. Daí vários nomes para cada um, como um sujeito com vários apelidos. (E há também instrumentos com o mesmo nome, como Joões ou Marias musicais). Na bem desenhada ascendência dos instrumentos, eles adquirem personalidades, vozes e roupagens nos conformes da época ou região em que foram adotados (ou são dados por nascidos).  
Andrea Amati, professor de Stradivari
Às clássicas, tocadas com arco: a viola das orquestras e quartetos de cordas é um instrumento semelhado a um violino, pouco maior. No séc. 16 o luthier Andrea Amati organizou a família dos então recentes instrumentos, a viola ocupando o lugar que seria o da voz contralto (por isso, ‘alto’ em algumas partituras), segunda voz feminina no coral - soprano, contralto, tenor e baixo. O som flui doce como voz de mulher, só que grave e encorpado como a aparência do instrumento, é mais voix de poitrine (voz de peito) do que o violino, primeira voz e geralmente a estrela condutora da melodia-rainha.
Viola Bastarda
A antiga viola que deu origem a essa família é um instrumento com finos trastes de tripa animal espaçados ao longo do braço, e teria se espalhado pela Europa via Espanha, durante o Renascimento, ao final da ocupação mourisca na Península. A viola da braccio (braço) e a da gamba (perna) trazem suas variantes, como a viola d’amore, a arciviola e o violone, de voz mais grave e quase um contrabaixo, o popular rabecão, grande rabeca. Mas pobre da viola bastarda, surgida na Itália barroca, ainda nascitura já sofria com esse nome, embora de belo e virtuoso som!
Viola d'amore: por baixo das cordas dedilhadas, as cordas simpáticas
A viola d’amore era uma prima da viola da braccio. Tinha seis cordas dedilhadas à esquerda e até sete de simpatia, ou seja, vibravam soltas ao som das primeiras. Daí o som cheio, harmonioso, simpatias tornando-se quase amor, o d’amore já diz. A viola da spalla (ombro, em italiano), do tamanho de um pequeno violoncelo, era tocada com apoio no ombro do executante, e não raro amarrada ao cinturão do músico, para que pudesse participar de marcha, desfile ou honra pública. A viola di fagotto foi uma das inúmeras invenções dos artesãos da época. Algumas de suas cordas de tripa eram recobertas por metal, daí um som mais rasgado, que achavam assemelhar-se ao do fagote da época, que lhe deu o nome de pia.
Haydn, por J. F. Rigaud
A viola pomposa, final do período barroco, possuía cinco cordas e também era prima da viola da braccio, mas mesmo com alcunha de pompa não deu de vingar. A viola paradone italiana (séc. 17-18) tinha um irmão, baryton, tocado como a viola da gamba entre as pernas do músico. Eram seis ou sete cordas arqueadas e doze a vinte que oscilavam por simpatia, soltas, ao ressoar das que eram tocadas pelos dedos da mão esquerda e arco do músico. Haydn escreveu mais de 150 trios com o instrumento, dever de ofício de servo da arte da corte: o mecenas do compositor, o príncipe Esterhàzy, tinha no baryton/paradone seu instrumento favorito, e por missão de apadrinhado o próprio Haydn tocava junto com ele, trazendo o tcheco Antonín Kraft ao violoncelo - por prazer, um pouco de ouro ou puxassaquismo. Já havia tantas novidades a escolher, algumas invencionices duravam mais e outras, mais doidivanas, não.
Arpeggione (Strings Magazine)
Com o classicismo, essas invenções ameaçavam a escassear, mas no romantismo decolou o arpeggione, parecido com o violoncelo mas com seis cordas e trastes ao longo do braço. Schubert dedicou-lhe uma brilhante sonata que leva o nome do instrumento, peça hoje tocada por dez entre dez bons violoncelistas e os melhores contrabaixos e violas.
Viola de arame (Escola M-Arte)
Saltando no tempo e no mundo, interessa de coração a nossa riquíssima viola de arame ou caipira, tão popular no Brasil, às vezes também dita bandurra ou machete, ou ainda viola brasileira, buriti, cabocla, cantadeira, de bambu, de cabaça, de cacho, chorona, de dez cordas, ligina, de feira, de Queluz (proximidades de Lisboa!), nordestina ou sertaneja.  
Braga, Portugal, linda.
Em cada lugar há variantes de cinco ou seis ordens duplas de cordas, filhotes locais gestados ao longo de tantas jornadas, as origens convergindo à viola braguesa (de Braga, norte lusitano). Essa viola chegou, ainda rudimentar, à terra de Camões, na enorme bagagem cultural dos invasores mouros, cresceu e tomou corpo durante os 711 anos de ocupação da Península Ibérica.  Por aqui, a descendente dessa braguesa pé-vermeio é a estrela da moda de viola, do cururu, da música caipira, do sertanejo real e de um mundaréu de outros gêneros. 
Grupo Violas de Arame
Dita em geral viola de arame pelos diferentes rincões do país com todos esses nomes e apelidos, ela se utiliza, a depender do lugar e do estilo, de afinações diferentes, ao sabor do executante - dono da viola em cada região é como fosse dono da bola. Sempre com o número possível de cordas soltas e a sensibilidade e parcimônia dos dedos da mão esquerda, seduz pelo prazer de sua ressonância especial, as cordas duplas quase como dois instrumentos soando perfeitamente juntos. Algumas dessas afinações são chamadas cebolinha, cebolão, guitarra, natural, boiadeira, rio-abaixo e maxabomba, podendo ser alteradas ao prazer do bem tocar, do jeito almejado e do cantar ao calor ou ao frio de onde fez sua morada.
[Viola Minha Viola é um programa já de uns 40 anos da TV Cultura, e foi comandado pela insubstituível Inezita Barroso (1925-2015), caipira com os dois pés fincados no chão. Todos os nomes da música de raiz brasileira por lá passaram uma, duas ou dez vezes. Com a viola e os caipiras, o programa é patrimônio de nossa cultura mais verdadeira.]


domingo, 10 de fevereiro de 2019

UNIVERSIDADE OU FACULDADE?

A Academia de Platão (Rafael Sanzio, 1.510)

Para não nos alongarmos voltando a Platão (387 a.C.) e todo o longo caminho percorrido até hoje, vale recorrer ao Houaiss, muito confiável para breves consultas. Diz o verbete universidade: “Instituição de ensino e pesquisa constituída por um conjunto de faculdades”. E sobre faculdade, esclarece: “Instituição de ensino superior (isolada ou integrante de uma universidade”). A exemplo, na USP há quase trinta Faculdades, Escolas e Institutos, cada um com número considerável de cursos.
Mais de uma vez ouvi referências a alguma ‘universidade de música’. Trata-se de algo inexistente, pois por definição vimos que uma universidade engloba diversas áreas do conhecimento. Faculdades às vezes agrupam mais de uma área, e parecem sonhar a ampliação rumo a um patamar maior, a universidade. Exemplo é um curso de música que criei e dirigi em SP, trabalho extenuante iniciado em 2005, hoje referência entre as particulares. Essa faculdade também congrega cursos de agronomia, direito e administração.
exame.abril.com
Criar um curso com o aval do MEC é como um trabalho de Hércules. Mínimo de doutores, mestres e, enfim, bacharéis, as classes seguindo um modelo padrão para todas as áreas e a pouca compreensão do ministério sobre a especificidade musical. Há entraves como aulas individuais de instrumento em um quadro de classes e horários a ser preenchido dentro de certas regras fixas; faz-se de conta que todos os alunos do curso terão aulas sozinhos na mesma hora. Após a formatura da 1ª turma, outra visita do MEC autorizará ou não o curso – no caso mencionado, foi nota máxima.
Universidade de São Paulo (Jorge Maruta/USP imagens)
Na esfera pública, conheço os meandros da USP, da qual me aposento em breve,  onde há uma ligeiramente maior autonomia. Mas a Fuvest... Bom, a adequação da Música às regras da Fuvest teve, na medida do possível, algumas poucas melhoras, mas é nonsense pensar a música inserida em um universo tão multifacetado e hermético. O problema maior hoje ainda não é só o do ingresso de alunos, mas o de professores. Eu havia chegado com um diploma de peso dos EUA, mas após poucos tempo houve uma publicação da reitoria no Diário Oficial, em nome do ‘interesse acadêmico’, dando-me prazo para fazer o mestrado.
Prof. Emérito Sábato Magaldi (arquivo pessoal)
Mas qual mestrado? Não havia tal curso em música! Como alguns colegas, pensei, escolhi e fui aceito em Artes Plásticas. Confesso que aproveitei, mas quando o Departamento de Música emplacou seus três doutores e abriu o curso de mestrado foi lá que eu concluí o título. O mesmo se deu com o doutorado: não havia ainda tal curso em música. Lá fui eu me preparar, recuperar o francês (o inglês já tinha sido o idioma no mestrado), e a sorte de ter como orientador o saudoso e imortal da ABL Sábato Magaldi. Quando chegou a vez do doutorado, foi como a forma musical ‘variações sobre um tema’: repeti a dose do mestrado, e quando o curso foi estabelecido no Departamento de Música mudei-me outra vez para lá.
(Fondazione Stauffer)
Hoje, o título de doutor é pré-requisito para ingresso nas públicas. Isso traz maior peso aos Departamentos, mas tolhe o ingresso de alguns dos melhores profissionais das Artes: sequer poderiam se inscrever estrelas internacionais como Nelson Freire e Antonio Meneses, só para citar dois nomes reverenciados internacionalmente, sem falar em tantos excelentes músicos brasileiros ou estrangeiros que residem aqui. Um hipotético aluno, ‘encadeando’ diplomas, mesmo sem ter feito apresentações de porte ou tocado em orquestra de primeira no currículo, logo se torna apto a disputar uma vaga. Essa rotina de títulos é desconhecida no exterior: meu professor de instrumento mal se formou bacharel e já era o orientador mais procurado, como solista do naipe na Sinfônica de Boston. Isso, aos 23 anos de idade.
Eleazar de Carvalho com Marguerite Long: Légion d'Honneur
Eleazar de Carvalho, nosso maestro maior, foi titular da famosa Yale University tendo apenas um bacharelado. Recebido com todas as honras e a presença do presidente brasileiro, chegou agraciado com sua cátedra e o título de doutor honoris causa da própria Yale.  

Harvard University
O renomado educador Caio Moura Castro publicou na Veja (fev. 2005) “Harvard, quem diria, Acabou no Irajá”, parodiando a peça “Greta Garbo, quem diria...”, de Fernando Melo. Disse ele que certo dia Larry Summers, presidente de Harvard University, teria assistido a um desfile da Beija-Flor e se apaixonado. Logo trouxe mala e cuia, comprou casa em Nilópolis, convidou os melhores professores, criou ali uma Harvard tropical. Mas o MEC, ao inspecionar, acabou com o curso por estar em desacordo com as ‘regras’. Essa alegoria de Moura Castro não é cômica, é trágica.

Prova escrita da Fuvest
Agora, o pior de tudo: nas escolas superiores dos EUA - conheço mais de 30 delas -, a prova maior, decisiva, não é uma Fuvest, e sim tocar para uma banca. No Brasil, ao equiparar um vestibular de Música ao de Engenharia, perde a primeira: ao contrário dos candidatos aos outros cursos, que quase nada sabem de suas profissões almejadas, alunos de música devem chegar prontos, ou seja, tocando bem. Não se faz um violinista ou um pianista em quatro anos, a universidade apenas lapida o aluno que já tem bom desempenho. Daí a necessidade dos bons conservatórios, escolas de música ou ótimas escolas preparatórias, como as de algumas instituições americanas.
Jordan Hall, New England Conservatory
As melhores escolas superiores de música dos EUA têm 250 (Curtis), 800 (New England) ou 1.000 alunos, às vezes um pouco mais. E cômputo geral são muitas, de todos os níveis. A diferença se sente na hora da duríssima competição, que tem princípio com o ingresso no curso até uma boa colocação como músico profissional. Aos jovens músicos brasileiros, digo sempre que devem escolher bem seu professor, e uma boa universidade ou faculdade. Diploma só pelo diploma serve para começar a galgar etapas para um dia chegar a doutor e prestar concurso para lecionar em uma boa universidade. Ou para ter direito a prisão especial.


sábado, 2 de fevereiro de 2019

APERTEM OS CINTOS, O IDIOMA ENCOLHEU!


O filme Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu! (Airplane!), com Lloyd Bridges (Aventura Submarina), Leslie Nielsen (O Destino do Poseidon) e outros, lançado em 1980, foi um enorme sucesso. Aquele humor tipicamente americano da Paramount, gags e esquetes de praxe. Mas em alguns momentos não dava para segurar a gargalhada, como no esquete em que dois jovens negros conversavam naquele ‘dialeto’ bem Bronx. Ao lado deles, duas freiras, uma intrigada com o idioma em que os vizinhos estariam conversando e outra, a quem a primeira indagou: do you speak jive? (jive seria aquele dialeto, também sinônimo de curtição). A segunda respondeu yes, e passou a ‘traduzir’ a conversa para o inglês.  
Rua do Harlem, NY
O dialeto complicado dos viajantes nova-iorquinos ia ao extremo de quase não se entender o que estavam dizendo. Mas ao andar e ouvir o que se fala pelo Bronx ou o Harlem de NY, ou ainda o Roxbury de Boston e outros bairros ou distritos com cultura própria pode não ser lá muito diferente. Nem vale tentar aqueles tradutorezinhos eletrônicos, o aparelho pode dar um tilt (apresentar problema eletrônico), palavra que também pode significar algo como ‘me deu um troço’, ou 'confundi-me'.
As redes sociais e programas de mensagens do mundo inteiro, como o Facebook e o WhatsApp, se encarregam de disseminar dialetos, slangs (gírias) e corruptelas, do inglês ao português. No celular, cuja tela e teclado são mínimos, os jovens usuários tornam-se  virtuoses em escrever rápido. E curto. (Disseram-me que os menores de 25 usam os dois polegares para digitar, e os mais velhos costumam ser mais lerdos, usam um indicador). Palavras são encolhidas, por força de uma desconhecida urgência, e abreviaturas são formadas aos borbotões, como vdd (verdade), fora aglutinações de palavras, como em ‘talquei?’ (está ok?). Eis uma brevíssima lista dessas curiosidades minimalistas, elaborada com a ajuda dos universitários, meus filhos:

agr, agora
asap, as soon as possible, o mais rápido possível
bj, beijo
blz, beleza
DIY, do it yourself, faça você mesmo
ctz, certeza
dms, demais
dmr, ‘demorô’
fds, fim de semana
gnt, gente
hj, hoje
Idk, I don’t know, eu não sei;
lol, laughing out loud, rindo alto
mds, meu Deus
omg, oh, my God, oh, meu Deus
pdc, pode crer
pls, please
plmdd, pelo amor de Deus
pq, por que
qdo, quando
qq, qualquer
sry, sorry, desculpe
tlg, tá ligado?
tbm, também
tc, falar com
U R, you are, você é, você está
ur, your, seu
U2, you too, você também
vdd, verdade
wtf, what the fuck (não publicável)
wth, what the heck, que diabo.

Miguel Oniga, Regina Casé e eu (Jornal do Brasil, 1971)
Lembrei-me de um episódio da época de colégio. Não, claro que não havia essas traquitanas eletrônicas, existia apenas o mundo para inventar. Eu e um amigo, Miguel Oniga, músico e dublê de ator com uma passagem pela Globo e do qual nunca mais ouvi falar, inventamos uma brincadeira, à qual demos o nome de ‘neobabelismo’ – brincando com Babel, cidade da Mesopotâmia onde, segundo o Gênesis, 11, foi construída uma torre alta a se perder de vista, para que seu cume tocasse os Céus. Detalhe: toda a humanidade – leia-se: os povos conhecidos na região – falava um único idioma. Deus confundiu suas línguas, a construção da torre foi embargada e espalhou os homens por toda a face da Terra. Diz a lenda popular que aquela construção era tão alta que começou a desmoronar, e todos rolaram e tiveram suas línguas torcidas na queda, daí a multiplicação de idiomas e dialetos.
Street dance: hip-hop
À parte a beleza do Gênesis, voltemos ao neobabelismo. A nossa brincadeira era tornar a compreensão de um texto impossível, ou escrever muitas linhas e não dizer quase ou absolutamente nada. Ou ainda pegar um texto e complica-lo de tal forma que só nós o entenderíamos, combinando palavras inventadas. “A conspurcação etológica é uma oclusão hiperbólica da ontologia meridiana”. No caso, nada.  
Cena de rua: Bronx
Os dialetos tribais, como os dos guetos de NY, são uma forma de os grupos se organizarem em núcleos fechados para se defenderem. É claro que falar só slang (gíria), como no episódio das freirinhas do filme, não é para qualquer um. A tribo do hip-hop (‘salta-quadril’, algo assim) e seu dialeto, surgidos no South Bronx, formam uma cultura à parte: MCing e DJing, graffiti, danças como o b-boying e body-popping. Ali tudo é hive – colmeia, agrupamento de pessoas, dizem all hive, no jive. Esta última, palavra surgida na origem de certo tipo de blues dos anos 1940.

Sly & The Family Stone. Radio City Music Hall, 1974
Um cidadão não se insere em uma comunidade dessas sem conhecer-lhe o dialeto. São grupos enormes, e hoje bem espalhados, com linguagem e sotaques próprios, formando núcleos bem coesos. No início dos anos 1970, em NY, fui assistir a um show do histórico Sly & the Family Stone, ícone do funk real. Escoltado por Yinca, um baixista negro do Harlem, senti-me à vontade. Mas não entendia nada do que falavam ao meu redor, às vezes uma ou outra palavra, mas o meu vizinho de poltrona me ajudava. Parece que entre o Bronx e o dialeto da estenografia eletrônica de hoje ergue-se de uma outra torre de Babel mundial, tudo em nome da modernidade e da globalização – embora o mundo desde que existe seja um globo. 

Mudou a velocidade de transmissão de informações e com ela o que anda nas cabecinhas dos usuários desses gadgets ou gizmos. Globalização, palavra tão desgastada, está em voga na TV, nas universidades e nos bares, e chegou com os economistas a Davos 2019. Globalizemos. Mas querida, não encolha nossos idiomas, parodiando outro título.

domingo, 27 de janeiro de 2019

SUPERSTIÇÕES, CRENDICES E DITOS POPULARES III (FIM)


No primeiro artigo desta série falamos sobre passar sob uma escada, do gato preto, do porco e da porca, do melhor amigo do homem e várias outras superstições, crendices e ditos, entremeados com frases e ideias cuja origem por vezes mal se sabe. No segundo texto, predominaram as frases, a exemplo de ‘o que é do homem o bicho não come’, ‘procurar chifre em cabeça de cavalo’, ditos já incorporados à nossa língua de forma tão natural que se ensina e se aprende escutando e passando adiante ‘de ouvido’ (vale um trocadilho: por transmissão ‘aural’). E há coisas que por vezes nasceram das Sagradas Escrituras, mas isso quem sabe?
Neste terceiro artigo, comecemos com o ‘bode expiatório’, que é quem ‘paga o pato’. Mas de onde veio isso? Levíticos, 16. Encurtando, dois bodes foram levados ao templo, em Jerusalém. Um deles foi sacrificado e o outro deixado vivo, a fim de expiar os pecados do povo judeu. E quanto a ‘dar um bode’? Ah, é problema feio. Jards Macalé, ícone da contracultura dos anos 70: “se amarrar algum bode eu mato / se amarrar algum bode eu morro / mas eu volto pra curtir”. ‘Amarrar o bode’ é ficar bravo, enfezado, porque se alguém amarra o bicho na cerca ou em um tronco ele se torna insuportável, pois berra, geme, grita, vira o diabo, é melhor soltá-lo ou ir para bem longe.
Imagem: Freemasonry Watch
O bode na antiguidade era um animal sagrado. Também se faz presente na maçonaria, o que induz alguns leigos às vezes a associarem erroneamente os ritos maçons com coisas do diabo. Mas falar do bicho pode ser apenas uma forma de um ‘irmão’ revelar-se maçom para outro ‘irmão’. Nada com o baixo-além, mesmo porque bode não fala, não conta nada, preceito fundamental para manutenção das confidências das sociedades maçons, nas quais segredo é regra de ouro.
A cabra, por sua vez – mulher do bode, diz-se - é vista como coisa ruim, com uma tinta de machismo: a saliva do bicho seria venenosa, de ‘secar pimenteira’, o bafo de dar enjoo, e, como seu marido, Sr. Bode, também teria coisa com o Demo, pois dificultaria os partos, entre outras maldades. Mas a necessidade  é vil, leite de cabra é forte que só ele, e por mais que digam que a cabra é do capeta, é boa ‘doadora’ do melhor leite.
Certa vez, perguntei ao célebre maestro cearense Eleazar de Carvalho onde ele conseguia tanta disposição para fazer um ensaio pela manhã em Porto Alegre, um concerto de Natal conosco à tarde em SP (OSESP) e um outro à noite, com a Sinfônica da Paraíba. É que eu fui criado com leite de cabra, bradou, como bom ‘Severino’. E queijo de cabra nem se fala, é bom ‘pra mais de metro’, muito apreciado na Europa, a exemplo dos tipos finos, como camembert, bûche ou feta. ‘Cabra da peste’ ou ‘da moléstia’ é o sujeito corajoso, viril, que luta como um animal e suporta as agruras do sertão nordestino. ‘Fulano é cabra macho’!
Não desanimeis, animais, brincava meu pai. Veja o boi, calmo e gentil. Cuidado: na Índia, a vaca é um animal sagrado. Por aqui, não dá bom churrasco, daí que ‘boi na terra dos outros vira vaca’, animal que não tem qualidade para corte e é mais utilizado para ordenha e procriação, sua carne não é tão saborosa e macia quanto a do boi. Em nossa cultura, o universo do boi veio dos árabes com os lusitanos, depois de mais de 700 anos de ocupação da Península, enriquecer nossas danças e folguedos, como o bumba-meu-boi maranhense, o boi-barroso dos Pampas, o boi-bumbá da região Norte, o boi-calemba recifense e o boi de jacá paulista, eventos cheios de danças, lendas e  fantasias.
O boi também está em uma lenda quase mítica da história do Brasil dos tempos do príncipe Maurício de Nassau (séc. 17), na época das Invasões Holandesas. Nassau queria fazer uma ponte sobre o rio Capibaribe, no Recife, mas a Holanda disse que a verba, ‘só no dia que boi voar’. Ironizando a ‘matriz’, Nassau pagou a madeira e a obra do seu bolso, e no dia da inauguração fez um boi empalhado atravessar o rio pendurado em uma roldana sobre uma corda, fazendo de bondinho. Foi baseado nessa quase-lenda que Chico Buarque e o cineasta Ruy Guerra, em parceria, compuseram para a peça Calabar: “O boi ainda dá bode / qual é a do boi que revoa / boi realmente não pode / voar à toa”.  
Superstições, crendices, frases e expressões populares são parte de nossa cultura e como tal devem ser preservadas. Não se deve tomá-las como lei, tampouco desdenhá-las. Não são interpretações malucas de coisas reais, algumas que retroagem na história, contra a ciência, contra tudo e contra todos. Parece que nos tempos de retrocesso global de hoje abriu-se espaço para o obscurantismo de séculos atrás: crer que a Terra é plana, que é o centro do Universo ou do sistema solar e outras coisas há muito tempo enterradas.
Autran Dourado (O Globo)
Meu pai dizia para nós, crianças: “Meia-noite / o sol nascia / um homem nu com a mão no bolso / sentado num banco de pedra feito de pau / calado dizia: / O mundo é uma bola quadrada / que gira parada / antes morrer do que perder a vida”, motivo para risadas e pedidos para que ele repetisse, e o fazia com muito humor. É surrealista mas tão atual, essa ‘bola quadrada que gira parada’... Autran Dourado teria completado 93 anos no dia 18 de janeiro e carregava tudo aquilo, do seu interior mineiro, bom capiau que era, sem que fantasias se imiscuíssem na sua percepção da realidade e dos fatos. Conceitos há muito abandonados andam virando modismos, há quem os creia verdadeiros. Recorro a Einstein: a ciência, sem religião, é manca. E a religião, sem ciência, é cega. (Fim)
"A experiência cósmica religiosa é a mais poderosa e nobre força impulsionadora da pesquisa científica"

domingo, 20 de janeiro de 2019

SUPERSTIÇÕES, CRENDICES E DITOS POPULARES - II


No artigo anterior falamos de passar debaixo da escada, gatos pretos, poderes do sal, dos malefícios de se comer manga com leite e manga com ovo – ‘pode dar febre tifoide’, dizem. Não desdenhe: faz parte da nossa cultura, das superstições universais ou mais localizadas, como as celtas, as portuguesas levadas pelos mouros, as de origem africana e, claro, as genuinamente brasileiras - ‘que ninguém sabe o que seja’, diria Cecília Meireles. Pois são as indígenas: brasileiríssimas (afinal, ‘o que é do homem o bicho não come’). E tentar entende-las é ‘procurar chifre em cabeça de cavalo’.  
Ferradura indígena (diz o anúncio) usada americana
Temos os amuletos, e para os que conhecem o interior logo vem à mente a ferradura, que barra o azar e o mau-olhado, diz o populacho. Mas não a compre em uma loja, ela tem de ser achada, caída do casco de um animal, caso contrário será apenas uma peça de ferro que vira ‘macumba pra turista’ (como diria Mário de Andrade), coisa para fazer um troco nas vendinhas. A tradição da ferradura diz que ela deve ser pendurada em um só prego no meio, do lado de dentro da casa e acima da altura do dono. (Os céticos dizem ‘se ferradura desse certo burro não puxava carroça’).
Figa de ouro 15 K da era vitoriana
Além da ferradura, há a figa contra o mau-olhado, esculpida tendo o polegar entre os dedos indicador e médio da mão direita fechada. Carregadas pelo dono, de madeira, osso, pedra ou ouro são da boa sorte, e guardadas atraem dinheiro. Costuma-se pendura-las em um cordão no pescoço, às vezes no pulso, para criar corpo-fechado ao seu dono – só não recomendo testá-la. Na falta de uma figa, pode-se mostra-la com a própria mão - o que, obviamente, só deve funcionar se a pessoa visada também acreditar nisso. Caso contrário, será como ‘tirar leite de vaca morta’.
Narciso, por François Lemoine (séc. 19)
O espelho é outro amuleto universal. O historiador Câmara Cascudo (1898-1986), em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, lembra a astrologia, a ornamentação mágica e o poder que tem aquele quadro mágico de vidro contra ‘forças adversas’, pois seu lado brilhante é impenetrável, o olhar não atravessa – aliás, deve ser por isso que ‘Narciso acha feio o que não é espelho’, pois não vê o mundo do outro lado. Mas há precauções: o estudioso Moacyr Costa Ferreira lembra que a tradição manda cobri-lo na primeira semana de luto. À frente do espelho deve-se guardar silêncio, e se dá de ele quebrar assim sem mais indica a morte próxima do dono da casa. Às mulheres, pede que nunca amamentem na frente de um espelho, pois a criança começará a falar tarde!
Tamanduá e seu abraço
De curioso, a gente vai se lembrando de tantas e descobrindo sua origem! Abraço de tamanduá é uma delas. Tal ‘mamífero desdentado’ (do tupi ‘tamandu’a’), que se encontra em quase toda a América Latina, possui garras fortes nas patas dianteiras, de grande serventia para abrir formigueiros, onde fica seu principal alimento. Mas consta que, ao andar com as patas anteriores levantadas, como um bípede, ele está esperando sua presa. Ao vê-la, um abraço! Com as garras, joga o bicho no chão, mata-o e espera vir o seu verdadeiro repasto, as formigas que vão devorar a carniça. O abraço do tamanduá é uma espécie de ‘beijo do Judas’, uma saudação de traidor, um voo de urubu. Prefiro o ‘abraço de urso’, que aperta, deixa o amigo sem ar mas não mata.
Um belo pé de jurema
A (o) jurema, do tupi yu, (espinho), + rema (em que vasa), é uma árvore da família das leguminosas cuja casca possui poderes alucinógenos. Era usada pelos pajés para fazer uma infusão branca a que atribuíam poderes afrodisíacos – mas ingerida em grande quantidade pode matar. “A ema gemeu / no canto do jurema / será que é o nosso amor, ó morena / que vai se acabar” (Jackson do Pandeiro). Seria por causa do sonho desfeito, do erotismo onírico que a casca enfeitiçou, que a árvore envenenaria o amor moreno?
O Brasil é rico em alho. Ele afasta bruxos e bruxarias (quem viu O Caçador de Vampiros, filme de Polanski com a divina Sharon Tate, depois assassinada por uma seita macabra?) É um bulbo da família das aliáceas migrado de Portugal, afasta a mandinga e o mau-olhado. Planta-se por cá pelos seus poderes medicinais, além de tempero e alimento, sem falar na lenda. Não só os vampiros do filme, o alho afasta também a mula sem cabeça, o caipora, o lobisomem. Ótimo para dar gosto especial aos bons pratos, tem suas virtudes contra inflamações e gripes. Cuidado: o cheiro forte ao se morder um dente de alho afasta pretensão amorosa – salvo se a parte desejada também der sua dentada. Paulo Maluf disse que à noite colocava dois dentes de alho em um copo d’água e o bebia pela manhã. Se, além de remédio, alimento ou proteção contra o mau agouro, no caso do político dá impressão de ter funcionado bem por muito tempo. Pelo sim, pelo não, ‘mais vale um burro vivo do que um doutor morto’.
(Talvane Sobreira)
Cascudo, em sua Antologia do Folclore Brasileiro, fala das tradições vindas de Portugal. Conservamos várias delas, como as que falam sobre dentes de crianças. Os dentinhos de leite que caem, jogados no telhado enquanto se diz ‘Mourão, Mourão, leva este podre e devolve o meu são’, têm o poder de fazer nascerem dentes fortes. Já no Norte-Nordeste, quem primeiro ver um dentinho despontando na gengiva de um bebê deve dá-lo um agrado branco e resistente, para a dentição do pequeno crescer forte e alva. Entre os índios, o colar de dentes diz muito: ‘queres conhecer um homem, olhe com atenção para seu colar’, porque o guerreiro usa o adorno como galardão e insígnia, tal qual os militares. E quanto mais bonitos, mais sorte trazem. (Cont.)


sábado, 12 de janeiro de 2019

SUPERSTIÇÕES, CRENDICES E DITOS POPULARES - I


Talvez você já tenha hesitado ao passar sob uma escada no caminho. Se foi adiante, talvez de maneira desafiadora, provou que não teme. Talvez possa ter desviado, relembrando o pero que las hay, las hay dos mexicanos, sobre as bruxas (‘eu não creio, mas que elas existem, existem’). Sei de dois casos de morte de pintores de paredes que caíram da escada, um deles conhecido meu, e, por falta de capacete e cinto, e culpa do dono do imóvel ou da empresa, foram vitimados por fratura no crânio e cervical. Meu medo vem da lembrança de que a escada pode cair com pintor e tudo, mas se ela for de boa qualidade com cinto de segurança – e sem o pintor - eu passo. O grande historiador Câmara Cascudo (1898-1986) credita essa superstição à imagem da ascensão social de quem está na escada, daí quem passar por baixo estará se rebaixando sob quem vence na vida (Dicionário de Folclore Brasileiro). Mas e se o homem da escada estiver descendo, pergunto? Evita-se, em todo caso, quem sabe, pois ‘burro velho não perde a mania’, reza o ditado popular.

Gatuno ligeiro de passos suaves!
O gato é símbolo de destreza, agilidade – daí ser um apelido comum para o ladrão – ou gatuno, não por acaso -, ladino na arte da ‘subtração do alheio’. Quem mata um gato tem sete anos de azar, já o bichano tem sete de vida - ‘g’ é a sétima letra do alfabeto, motivo para diversas associações.  Sete é o número da perfeição, disse lá atrás Pitágoras. Pela beleza e pisar elegante, também se chama a moça de ‘gata’ e o rapaz, por extensão, de ‘gato’.
Já a crendice de que gato preto traz má sorte vem dos tempos medievais, pois ele seria uma espécie de reencarnação das bruxas queimadas em praça pública, por isso o estigma do azar. Mas o bichano é lindo, quem tem não larga. Olhos claros enormes, pelo negro reluzente, lindo que ele só. E não me chame gato algum de sujo, só porque ele odeia água: lava-se boa parte do tempo com sua língua áspera, deixando a pelugem lisa, brilhosa, livre dos fios soltos e boa de se acariciar. A limpeza do bichano nada a ver com o que os humanos chamam de ‘banho de gato’, meia-boca, para sair correndo ou por preguiça mesmo.
O porco não tem a mesma fama de limpo, apesar de por vezes não viver na lama, chafurdando-se na pocilga: uns dormem dentro de casa e até na mesma cama de seu dono ou dona, nada tão raro nos EUA. E quando a porca torce o rabo? Se há alguma briga na vara, o jeito de pará-los é pegar o mais atrevido – dizem que a porca - pelo rabicó e torce-lo até que a contenda chegue ao fim. Há quem fira a dignidade do bicho, menosprezando-o com a comparação: ‘homem é igual porco, só se descobre o valor depois de morto’. 
Outra: a origem do termo ‘chico’ para designar o animal vem dos portugueses, que por isso mesmo deram ao lugar onde esses bichos vivem o nome de chiqueiro. Há os tipos criados em ambientes limpíssimos para reprodução ou abate, mas tanto quanto anêmicos e róseos, daí no caso não se dever chamar o criadouro de chiqueiro. Alojamento, talvez?
Já o cão, melhor amigo do homem, tem lá seus poderes e magias particulares. Quando o animal uiva, deve-se dizer ‘todo o agouro pro seu couro’, e o animal se calará. Ao cruzar com um cão na rua, se você tiver medo de um ataque é infalível dizer ‘São Roque, São Roque, São Roque’. (Nunca experimentei, e pelo sim, pelo não, evitaria fazê-lo com conhecidas raças violentas). Quem deixou o cão em segundo lugar foi o ‘poetinha’, Vinícius de Moraes. Certa vez, já meio embriagado, disse em uma roda de bar que ‘o uísque é o melhor amigo do homem’, no que foi prontamente corrigido: ‘poeta, o melhor amigo é o cão!’, aparte treplicado de imediato por Vinicius: ‘então o uísque é o cão engarrafado!’.
Sobre elementos minerais, segundo Câmara Cascudo, diz-se que, misturado à areia, sal com pedaços de unha,  roupa ou cabelo é feitiço brabo se espalhado sobre a pegada de uma pessoa - coisa que somente a água do mar, poderoso elemento salgado, pode dissolver. O sal desfaz feitiços e pecados, ideia que vem de muito longe e foi incorporada ao batismo da Igreja Católica, talvez devendo a costumes orientais muito antigos, quando o empregavam para afastar coisa ruim.
O sal possui inúmeras virtudes, como tempero, cicatrizante de feridas e conservante de carnes e peixes – que seriam da carne seca e do bacalhau sem ele? E tem seu lado do bem muito preservado, pois que tira mau agouro e olho grande se passado na cabeça durante o banho, e expulsa os maus espíritos se colocado em uma tigela atrás da porta, fora inúmeras outras utilidades.
Escravos de engenho (Debret)
Conhecida é a crença ‘manga com leite mata’. Os senhores de engenho cultivavam mangueiras nas propriedades, pois os frutos serviam de alimento para os escravos, não custavam nada e cresciam às pencas. Já o leite era a conta certa da ordenha da manhã, tinha vida curta e destinava-se ao desjejum exclusivo da família. Como os escravos, esfomeados, metiam seus canecos nos baldes de leite, os capatazes foram incumbidos de comentar junto aos cativos que havia gente que tomava leite e comia manga morrendo nos engenhos das cercanias. Os negros ficavam com as mangas e a caça eventual, e para beber apenas a água dos riachos. Mas a mentira pegou e é crendice de muitos até os dias de hoje, tempos em que os mais espertos saboreiam deliciosos sorvetes, sucos, milkshakes ou batidas de manga – feitos da fruta com leite ou seu creme. (Cont.)