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sábado, 15 de fevereiro de 2020

QUANDO INICIAR UMA CRIANÇA NA MÚSICA?

Câmara à prova de sons externos
Em princípio, até mesmo antes de ela nascer. Mas como, alguém perguntaria. Experimentos mostram que, ao ser colocado em uma câmara com máxima vedação acústica, o indivíduo escuta dois tipos de sons: um é bem agudo, de seu próprio sistema nervoso (o “tinnitus”, som interno agudíssimo, quase sempre acompanha pessoas com perda auditiva). Os outros sons são graves: respiração, batimentos cardíacos e fluxo sanguíneo, uma espécie de sinfonia aleatória. Quando o feto estiver plenamente consolidado, são esses os sons que o futuro bebê passará a ouvir no saco amniótico. Bem antes de enxergar (quando vier “à luz”), ele já ouve e sente vibrações sonoras. Um ambiente musical, a proximidade entre o ventre materno e uma fonte sonora, tudo será vital para essa iniciação. Isso, sem falar que a música é um perfeito ansiolítico natural para a futura mamãe. (Diz Daniel J. Levitin, em seu This is your brian on music": o feto escuta música, como foi descoberto por Alexandra LaMont, da Universidade de Keele, Reino Unido.  Ela descobriu que crianças reconhecem e preferem as músicas a que elas foram expostas  na gestação um ano depois de nascerem".  London,  Penguin Books, 2019)

Gestante iniciando seu bebê na música
É claro que essa introdução deve ser começar com músicas suaves, talvez renascentistas, ou um cravo barroco - e não, claro, um heavy metal ou uma orquestra com impactos fortes de volume. Mas quando, exatamente, o feto pode começar a ouvir música? Segundo estudo supervisionado pela Dra. Debra Sullivan (PHD, Kansas Medical Center) publicado na revista americana Healthline, um feto começa a perceber sons na 18ª semana, e entre a 25ª e 26ª, por volta de sete meses de vida, ele passa a reagir a sons e ruídos. Provavelmente este é o momento ideal para a introdução da música na vida do bebê. Minha filha mais velha passou pela experiência por volta desse ponto da gestação, inclusive com headphones tocando músicas na barriga da mãe. Vem o nascimento, e o bebê já no quarto reage a um pequeno aparelho de som tocando Mozart e Bach muito suavemente, a música já não lhe era novidade. A luz, com certeza, sim.
Um parto Leboyer
Baseando-se na ideia dos sons internos da barriga da mãe e seus efeitos no feto e ao nascer, e partindo das pesquisas do obstetra francês Leboyer, autor de Pour une naissance sans violence  (traduzido aqui como “Nascer sorrindo”), cientistas aperfeiçoaram um método ideal, segundo eles. Além do nascimento dentro de uma banheira com água quente, quase na penumbra, conforme preconizado pelo francês, foi incluído um acolhedor som grave que lembraria ao bebê os misteriosos sons que ele ouvia na placenta, suavizando o choque da passagem para o mundo exterior.
Pesquisa realizada em berçário neonatal do Canadá separou os bebês em três grupos: um ouvia música rudimentar, bem simples, o segundo melodias mais elaboradas, como Mozart, e o terceiro era um grupo placebo, não ouvia música. Ao levarem os três grupos para um berçário sonoro, o de músicas básicas ficava meio apático, talvez menos com o repertório mais simples. A “turma placebo” era indiferente, mas a que ouviu Mozart reagia bastante ao compositor, preterindo o repertório básico ou o silêncio.
Pouco tempo depois a criança já fica deitada no chão com aqueles sininhos e chocalhos pendurados, tudo o que pode torná-la feliz, produzindo os próprios sons. O estímulo é sempre fundamental: música de fundo, a voz de mamãe e papai, um violão ou outro instrumento, se eles souberem tocar.  Cantando sempre no mesmo tom, os pais vão se surpreender com a criança começando a repetir um ou dois sons da música, depois uma linha inteira, uma estrofe. E vão pasmar ao ver que ela é capaz de fixar a tonalidade de cada música, uma espécie de ouvido absoluto espontâneo. Coisas como a “Lullaby” de Brahms (ouça abaixo), “Brilha, brilha”, ao som de Mozart, “Terezinha de Jesus”, sempre nas tonalidades corretas. Detalhe: tudo isso antes de o bebê balbuciar palavras.

Tommy e seu bongô
Quando ele conseguir ficar sentado, percussão é bom atrativo. Objetos de casa tornam-se mirlitons, instrumentos fáceis, como colher de pau, latinhas, tudo o que possa produzir sons. Com um ou dois anos, o bebê pode se interessar por instrumentos. Concertos de orquestra, choro, boa música, enfim, em bons ambientes. Do meu lado um tanto behaviorista, ligo o comportamento ao meio em que se cresceu.  Se a criança for levada a ouvir o pior, o mais barulhento, é nesse meio que sua mente será desenvolvida, e ela sofrerá reflexos de uma convivência nem tão boa quanto se desejaria. A melhor música no melhor ambiente conforta, faz uma criança saudável (nada de auditórios caros, há muitas possibilidades baratas e gratuitas). Isso é educá-la para crescer feliz desenvolvendo o potencial da mente.
Hora do contato com os primeiros instrumentos. Importante que ela mesma experimente um daqueles xilofonezinhos, uma flauta doce, brinquedos que alguma hora podem ser trocados por instrumentos com alguma qualidade. E depois um pequeno violão, quem sabe um violino?
Caruso e Helen Kellerf
Entra em campo o professor de música. As aulas de início podem ser em grupo, um poderoso meio de socialização e percepção do indivíduo no coletivo, com regras próprias e participação comum. E nunca esquecer o canto! Os que infelizmente nasceram mudos podem tocar, e os cegos desenvolvem a audição em níveis bem acima da média. Surdos podem “ouvir” pela vibração (o fenômeno Helen Keller - cega, surda e muda - gostava de “ouvir” música com os dedos. Um dia levaram-na ao grande tenor Caruso, mito da ópera, e Keller, ao colocar o indicador nos lábios dele abriu um sorriso especial, soava-lhe tão bem! Aos que têm deficiências físicas, nada impede tocar ou cantar. Assim criaremos não necessariamente musicistas, mas com certeza adultos inteligentes e sensíveis.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

UM GÊNIO CHAMADO CARTOLA, SEM CASACA E GRAVATINHA

Cartola: mangueirense até na hora do café

Fundador da Estação Primeira da Mangueira, Cartola, aliás, Angenor de Oliveira (1908-1980), fez do verde-rosa de sua agremiação bandeira de vida, de seus sambas, paixões (“verde que te quero rosa / rosa que te quero verde”, cantou, parafraseando ‘de ouvido’ García Lorca). Cartola nasceu no Catete, zona central do Rio, e foi criado um tanto nas Laranjeiras, onde aprendeu os primeiros acordes do pinho, que seu pai lhe ensinava. Mas a vida ali não lhe sorria. Cartola passou por dificuldades e resolveu adotar o Morro da Mangueira para viver. Dos terreiros de candomblé às rodas de samba, e de lá ecoando para o Rio inteiro e depois o Brasil, era com as mesmas mãos calejadas de pedreiro que compunha. Mas não se dobrava às facilidades que seu talento poderia lhe proporcionar, se fizesse sambinhas bobos para vender. 
Cartola foi gravado por boa parte dos bons cantores do país, mas direito autoral na música só existia para os que pagavam jabaculês – um “por fora” para os disk-jockeys – a fim de multiplicar execuções nas rádios e as vendas. Abriu com sua esposa o restaurante Zicartola, no Centro, em 1963, e resistiu ao golpe de 1964, até o ano seguinte. O lugar aos poucos havia se tornado, além de ponto de encontro de artistas e estudantes, reduto da intelligentsia carioca, a boemia intelectualizada, e lançou nomes como o portelense Paulinho da Viola, hoje consagrado.
Foi apenas aos 66 anos, em 1974, que Cartola gravou seu primeiro LP, cujo apelido lhe emprestava o título, e que trouxe uma das joias mais preciosas que temos, “As rosas não falam”: “Bate outra vez / com esperanças o meu coração / pois já vai terminando o verão / enfim...” Suas letras refinadas traziam palavras simples, bom gosto a toda prova, ele que era ótimo cantor e um bamba no violão de “cordas de aço”, aliás título de outra de suas músicas. Cantor de primeira, compositor de belas harmonias e melodias riquíssimas, como poeta revelou-se mestre na bordadura de letras e no casamento da fina poesia com a música: “Queixo-me às rosas / mas que bobagem / simplesmente as rosas não falam / simplesmente as rosas exalam / o perfume que roubam de ti, ai...” Versos de rara beleza que qualquer poeta gostaria de ter escrito, e que toda mulher se deleitaria ao ouvir.
Há também expressões de alegria, como “a sorrir, eu pretendo levar a vida / pois chorando eu vi a mocidade perdida” (“O sol nascerá”, com Elton Medeiros). Essa alegria da comunidade mangueirense também surge em “Alvorada”, tendo como parceiros Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho: “Alvorada lá no morro /que beleza / ninguém chora / não há tristeza /(...) o sol colorindo é tão lindo / é tão lindo / e a natureza sorrindo / tingindo, tingindo”. (Que contraste com o “Pranto de Poeta”, em que ele pensa no morro que vai chorar após sua morte, em um samba que é o Cartola falando, e só ele, tristeza serena mencionada no final deste artigo.)
Nos meus tempos de EUA, às vezes recebia alguns discos de meus pais, talvez temerosos de um possível afastamento meu das raízes brasileiras, o que nunca aconteceu. Ouvia, além do Cartola, Luiz Gonzaga, Elizeth, e claro, tudo o que me encantava. E também aproveitava os LPs, indicador esquerdo manobrando a agulha do toca-discos e o direito no lápis, fazendo das músicas ditados melódicos em uma partitura. Transcrevia uma a uma como treinamento auditivo, começando pela mais fácil, “Ensaboa, Mulata”, gravada por Cartola com sua filha Creuza, de voz bem rústica, quase um canto de trabalho. Ele: “Ensaboa, mulata, ensaboa / ensaboa” (ela emenda no ato:) “tô ensaboando / estou lavando a minha roupa / lá em casa já estão me chamando, Dondon”.
Van Gogh
Letra e música que transcendem adjetivos como sublime estão na obra-prima “O mundo é um moinho”, em que o poeta não esconde a tristeza por a mulher amada tê-lo abandonado: “Ainda é cedo, amor / mal começaste a conhecer a vida / já anuncias a hora de partida / sem saber mesmo o rumo que irás tomar”. Termina com uma feliz comparação da vida com um moinho de vento, uma roda-gigante de poucos momentos altos e muitos baixos, de erros e sofrimentos, revelando seu rancor por ter sido largado: “Preste atenção, querida / de cada amor tu herdarás só o cinismo / quando notares estarás à beira de um abismo / abismo que cavaste com teus pés” (link abaixo). Letra e melodia, de igualmente incomparável beleza, seduziram grandes nomes de nossa música, que não hesitaram em registrar o lamento de Cartola: de Beth Carvalho a Ney Matogrosso, de Cazuza a Badi Assad, com seu violão mágico.

Morro da Mangueira
Cartola não se preocupava com a morte, apesar de apegado à Da. Zica e aos amigos, ao violão, à Mangueira e ao samba. Em “Pranto de poeta”,  diz que morrer não é tão ruim quando há um morro inteiro e uma escola de samba para se lembrarem dele: “Em Mangueira / quando morre / um poeta / todos choram / vivo tranquilo em Mangueira porque / sei que alguém há de chorar quando eu morrer”. (Ao final da gravação, Cartola agradece a palinha do amigo Nelson Cavaquinho, já meio bêbado: “Obrigado, Nelson”. E ele: “Ovligado, Gardola”. A gravação dessas falas teve de ser refeita para que ficasse mais compreensível).
Nelson Sargento, a caráter
Tanto era apaixonada a reverência dos amigos e admiradores do poeta que em seu velório o sambista Nelson Sargento, em homenagem, deu a palavra e o ponto final do sofrimento dos presentes: “Cartola nunca existiu. Foi apenas um sonho que a gente sonhou”.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

O POETINHA E OS ORIXÁS

Escola Nacional de Música da UFRJ
No dia 5 de setembro de 2019 o jornal O Globo trouxe matéria estarrecedora, que comentei neste espaço. Na UFRJ, conceituada universidade brasileira, estudantes de música adeptos de certa Igreja se recusaram a cantar “Toadas de Xangô”, do ilustre compositor petropolitano Guerra-Peixe (1914-1993) - aliás, de formação católica, autor do “Hino do Colégio Nossa Senhora de Fátima”. Xangô é o orixá da justiça e do poderoso trovão, nos cultos afro-brasileiros, e Guerra pensou no tema como material brasileiro por excelência. Era a fase nacionalista, sob a influência do movimento liderado por Mário de Andrade.
Eleazar de Carvalho e suas "índias", na estreia de sua ópera
O Descobrimento do Brasil, em 1939
Também na música de concerto, Villa-Lobos, o “Índio de Casaca”, compôs sobre ritos indígenas, crenças de origem africana e... um “Magnificat”, de 1958. Francisco Mignone, autor de “Festa das Igrejas”, criou “Babaloxá”, de Babalorixá, que é o sacerdote nas religiões afro-brasileiras. Contemporâneo, meu amigo Ernani Aguiar, nascido na Petrópolis do Guerra e na época ateu, compôs “Cantos Sacros para Orixás” - e três “Missa Brevis”. O paraibano José Siqueira e o cearense Eleazar de Carvalho eram diretores da Ordem dos Músicos do Brasil, fundada em 1960, organização que sofreu intervenção da ditadura em 1964. A diretoria foi defenestrada, Siqueira acusado de comunista, mas Eleazar era notório conservador. O golpe sobre a OMB foi mordaça em sindicatos e organizações de classe (o interventor lá ficou por 40 anos!) Siqueira compôs o “Oratório Candomblé” e “Macumba de Pai Zusé”, com poema de Manuel Bandeira, deísta - acreditava em Deus e ponto.
Dorival Caymmi
Na MPB, Caymmi (“Oração de Mãe Menininha”) e Caetano (“Xangô manda chamar Obatalá Guia”), devotos da Umbanda. Sérgio Ricardo e Ruy Guerra (“Saravá, Ogum, mandinga da gente continua / cadê o despacho pra acabar”), Edu Lobo, de formação católico-jesuíta, é autor de “Arrastão”, com o Poetinha (“ê meu irmão me traz Iemanjá pra mim”). Margareth Menezes gravou de “Faraó, Divindade do Egito” ao álbum “Pontos de Umbanda”.
Vinicius de Moraes, o "Poetinha", e Baden-Powell: a dupla
Vale lembrar o “Poetinha”, neste atual surto de retrocesso cultural que vivemos, fenômeno de que foi reflexo o incidente no coral da UFRJ. Vinicius de Moraes (1913-1980) foi diplomata, homem culto e erudito. Mas a paixão dele, além da poesia – preciosista na difícil arte dos sonetos! -, era a música popular, contando para isso com parceiros do naipe de Jobim, Toquinho e Baden-Powell, este último fabuloso violonista e bom colega de copo e de samba. É da dupla o “Canto de Ossanha” (veja e ouça abaixo). Ossanha, ou Osanyin, é o orixá das ervas medicinais, representado no sincretismo por São Benedito. A gravação original teve arranjo do maestro Guerra-Peixe, por coincidência ou não admirador da cultura afro-brasileira. A obra foi concluída pela dupla na frente de Elis Regina, que a gravou e fez estourar nas paradas: “O homem que diz dou, não dá / porque quem dá mesmo não diz”. Do Poetinha e Baden são também “Lamento de Exu” e “Canto de Iemanjá”. Exu é o orixá da disciplina e da adivinhação, intermediário entre homens e deuses, enquanto Iemanjá é o orixá das águas e filha de Olokun, senhor dos mares.



O Poetinha com Mãe Menininha de Gantois
A dupla Poetinha/Baden-Powell também nos deu “Canto do Caboclo Pedra-Preta” (“Pandeiro quando toca faz Pedra-Preta chegar / viola quando toca faz Pedra-Preta chegar”). “Canto de Xangô” celebra a entidade que vive nas pedreiras: “Sou filho de rei / muito lutei pra ser o que sou / eu sou negro de cor / mas tudo é só amor em mim / Xangô Agodô”. Uma curiosidade: foi o carioca Poetinha, já iniciado, quem levou Maria Bethânia, de Santo Amaro, ao terreiro da Mãe Menininha de Gantois, em Salvador. A cantora ingressou no Candomblé em 1971 e descobriu-se filha de Iansã, uma das três mulheres de Xangô, e de Ogum, o guerreiro, e também de Oxóssi (Oxoce), orixá da caça. Profundamente enraizados na cultura baiana, os cultos afro-brasileiros fazem parte do dia a dia de incontáveis cidadãos brasileiros, e, como não poderia deixar de ser, fornecem rica matéria-prima para muitos artistas.
Grupo Olodum (YouTube)
Em Gil, Caetano, Caymmi e compositores baianos, em geral, a cultura afro-brasileira corre livre nas veias. A própria “Axé music”, popularizada por Daniela Mercury e o grupo Olodum (de Olodumarê, orixá do destino), leva esse nome porque axé, força sagrada dos orixás, é uma espécie de bênção no Candomblé. A dupla Poetinha-Baden passou a afinar com esse mundo. Parecem de real convicção os laços de Vinicius com o Candomblé, ele que era conhecido como “o carioca mais baiano do mundo” e autoproclamado “o branco mais negro do mundo”, e é tanto quanto verossímil que tenha se convertido de fato e de fé. Em “Samba da Bênção”, o Poetinha pede, nome a nome, para que seja abençoado por uma longa série de pessoas conhecidas, para ao final pedir saravá! (salve!), palavra de origem banta.
Maestro Guerra-Peixe: Xangô

Já os chamados “eruditos” da música de concerto sempre viram nas culturas indígena e afro-brasileira matéria-prima fértil para suas obras. Se comungavam ou não de uma ou outra crença, isso não vem lá ao caso, que aqui é o fruir artístico. Interessa, sim, aos estudiosos, visando ao aprofundamento de suas indagações históricas e estéticas.  Mas universidade é lugar de aprendizado via pesquisa, produção, criação, questionamento. O que não se pode é deixar o ambiente acadêmico ser contaminado pelo obscurantismo ou fundamentalismo de qualquer espécie ou origem, seja religioso ou ideológico, e tornar-se uma pedra inamovível no caminho da cultura e do conhecimento. 
Axé, Poetinha!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

UM OUTRO PAPAI NOEL

Estácio de Sá (foto Museu da República)

“Nasci no Estácio / fui educado na roda de bamba / fui diplomado na escola de samba / sou independente, conforme se vê” (“O ‘X’ do problema”). Em 1910, no Estácio de Sá, um menino nascia a fórceps, parto delicado, com uma hipoplasia para complicar. Franzino, o queixo atrofiado moldou-lhe o perfil, a marca registrada. Na pia, foi batizado Noel. Aos 21, por pressão da família, ingressou na Faculdade de Medicina (hoje da UFRJ), mas sua educação e diploma vieram mesmo das rodas da boemia e do samba. Abandonado o curso, a música era carreira e ambiente: o Estácio foi o berço da Deixa Falar, primeira escola de samba, e Noel era apaixonado pelo ritmo.
Noel e Vadico
O Rio dos anos 1920, até a morte de Noel por tuberculose, em 1937, foi o cenário em que o sambista ergueu sua vasta obra: em pouco mais de dez anos de atividade compôs perto de 300 músicas. Fugia dos parnasianismos do passado, e seu bordado de frases, palavras e rimas são de uma simplicidade que só os gênios conseguem elaborar com tanta beleza. Era amoroso por natureza, mas combativo quando queria. Parceiros e letristas, quando não ele mesmo o poeta, afinavam com suas concepções: Vadico, principalmente, e João de Barro, o Braguinha.
Noel (Pinterest)
(Conta o folclore que Noel, já tuberculoso, estava em um bar da Lapa, após os funerais de sua mãe. Vestia uma camisa florida, até que alguém passou e o reprendeu, deveria estar de luto! Rapidamente o compositor, bom no taco que era, saiu-se com essa: “Luto preto é vaidade / neste turbilhão de dor / o meu luto é a saudade / e saudade não tem cor”. Noel também foi visto bebericando conhaque e tomando cerveja, e alguém o alertou que, tuberculoso, não deveria beber. Noel respondeu que seu médico realmente o havia proibido, e o advertiu: se não conseguisse resistir, que fosse pouco, e muito bem alimentado. “Gosto de conhaque. E como dizem que cerveja alimenta...”)
Operários, por Tarsila do Amaral
O pai do novo samba fazia a crônica do Rio, como na singela “Três Apitos”, imortalizada mais tarde por Gal Costa: “Quando o apito da fábrica de tecidos / vem ferir os meus ouvidos / eu me lembro de você”. Segue-se uma pitada - para a época – de crítica social, retrato da nova revolução industrial brasileira, como fez a artista plástica Tarsila do Amaral em sua obra “Operários”: “Você que atende ao apito / de uma chaminé de barro / por que não atende ao grito tão aflito / da buzina do meu carro”.
Noel, com o garçom: imortalizado em Vila Isabel
Bom cronista, Noel retratava o cotidiano do Rio de Janeiro fosse na Vila Isabel, no Estácio ou na Lapa boêmia. Da primeira, fez o quinhão carioca na sua ótica da divisão produtiva nacional em “Feitiço da Vila”: “...São Paulo dá café / Minas dá leite / e a Vila Isabel dá samba”. Descrevia o cotidiano com perfeição, a exemplo de “Conversa de botequim”, parceria com Vadico: “Seu garçom, faça o favor / de me trazer depressa / uma boa média / que não seja requentada / um pão bem quente / com manteiga à beça / um guardanapo / e um copo d’água bem gelado”.
As harmonias de Noel eram simples, sem encadeamentos complexos ou dissonâncias, e ele as trabalhava com invulgar preciosismo. Bom exemplo é a alternância de tonalidades maiores e menores, contrastes entre sentimentos alegres ou tristes, como em “Último desejo”, em tom menor: “Nosso amor, que eu não esqueço / e que teve seu começo numa festa de São João / morre hoje sem foguete / sem retrato, sem bilhete / sem luar, sem violão”. Já em tom maior, a falsa alegria que logo cede à tristeza, à realidade que o autor buscou fantasiar: “Se alguma pessoa amiga / pedir que você lhe diga / se você me quer ou não” – mas a melancolia foi mais forte, e se impôs em tonalidade menor: “Diga que você me adora / que você lamenta e chora / a nossa separação”.  
Com Nana Caymmi

Compositor genial, ninguém pode negar, talvez nosso sambista maior. Queixo quase ausente, chapéu, cigarro no canto da boca mesmo quando cantava. Suas gravações originais, dada a precariedade dos equipamentos da época e provavelmente a anomalia maxilar, registraram aquela voz anasalada, nada suave. Todo artista brasileiro que se preza gravou Noel, de Jobim a Duardo Dusek, de Nélson Gonçalves a Luís Melodia, de Aracy de Almeida a Gal Costa. Mas era João Nogueira quem cantava Noel com maior admiração, de quem dizia ser o maior sambista de todos os tempos.
A turma da bossa nova
Pelo intimismo e a influência que exerceu por décadas, mesmo após falecido, Noel poderia ser visto como um pai da bossa nova. À frente algumas décadas, faltavam apenas a influência do jazz e do impressionismo francês, como Jobim, e a batida do João Gilberto. Deu régua e compasso a Chico Buarque, especialmente nas canções do início, e até surge, lembrança importante, em “Rita”: “...levou seu retrato, seu trapo, seu prato, / que papel! / Uma imagem de São Francisco / e um bom disco de Noel”.
César Ladeira
César Ladeira, radialista famoso que recebeu o epíteto “a voz da revolução constitucionalista”, autor de cognomes como “a pequena notável” e “o rei da voz”, para Carmen Miranda e Francisco Alves, deu a Noel Rosa o título de “filósofo do samba”. Noel sabia ser bom de disputa, mas sem perder a sutileza e a sabedoria de um “filósofo”. Exemplo foi a riquíssima contenda musical com Wilson Baptista, quando lhe deu essa de troco: “Quem é você que não sabe o que diz / meu Deus do céu, que palpite infeliz / (...) pra que ligar a quem não sabe / aonde põe o seu nariz / quem é você, que não sabe o que diz”.
Pai da MPB, filósofo do samba, esteio e arrimo da bossa nova, salve Papai Noel Rosa!

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

OS 94 ANOS DO VELHO AUTRAN

band.uol.com.br

Difícil mesmo é escrever sobre o pai da gente. O apelo emocional exige cuidado, para que a escrita não se dobre à paixão - mesmo que seja falando da literatura de um escritor acima de qualquer suspeita, sobre quem tantos já falaram. Recordar é preciso, especialmente para os que tiveram felicidade de com ele aprender no dia a dia, no almoço, no jantar, ter o privilégio da companhia nos finais de semana, quando disponíveis.
A Monte Santo antiga
Em um 18 de janeiro como este nasceu em 1926 um menino, capiau de Patos de Minas, batizado Waldomiro (não usava, preferia só Autran Dourado, já complicado o suficiente). Muito cedo, foi levado por seu pai, Telêmaco, juiz de direito, com a mãe Alice e irmãos, para Monte Santo, perto da divisa de onde à noite se vislumbra a suave tenda das luzinhas da paulista Mococa. Ali, foi criado moleque da terra, “menino curió”, dizia, e como a cidade era muito pequena, já andando com pernas próprias deu de dividir seu tempo com São Sebastião do Paraíso, quase três vezes maior. (Ainda pequeno, uma senhora analfabeta pedia-lhe que lesse trechos de um livro ilustrado sobre a I Guerra. Não tinha “sabência” para ler aquilo, então criava sobre o que entendia. Aí talvez o começo de tudo).
Como se as duas cidades ainda não lhe bastassem, aos dezessete foi para a capital mineira descobrir um novo mundo, cidade grande que o acolheu com seu belo horizonte, nome com que fora batizada. Aprendeu taquigrafia – a espanhola, mais rápida, explicava -, que iria acompanhá-lo a vida inteira (em cartõezinhos, resumia nos curtos sinais as ideias de um novo livro).
UFMG
Em BH, estudou Direito na UFMG, para a qual já idoso viria a dedicar em testamento todo seu acervo de mais de cinco mil livros - era o que cabia em casa, rodeando as paredes de seu escritório, corredores, sala e quartos dos filhos, até na parte de cima dos armários embutidos. 
Tudo agora recompõe na universidade o ambiente caseiro de que mais gostava, aquele onde sua obra alcançara plena maturidade. Uma espécie de versão mineira de seu cantinho de escritor, no Rio, para onde havia se mudado em 1954. Com a posse de Juscelino Kubitschek, que tinha apreço especial por ele, foi trabalhar no Palácio do Catete, na capital da República. Em 1958, foi nomeado Secretário de Imprensa da Presidência, o pioneiro no cargo hoje chamado Porta-Voz.
Com JK, na entrada do Palácio do Catete

Godofredo Rangel
Na literatura começou cedo, publicando já aos dezenove anos; foi aconselhado por um escritor mineiro, Godofredo Rangel, que o dissuadiu do mito do artista precoce. O pai concordou que melhor seria trilhar o caminho da formiguinha, a labuta diária, construir uma literatura coesa e única em personagens e cenários, quase todos da cidade mítica de Duas Pontes, que criara à imagem e semelhança de sua vivência interiorana.
Seguiram-se muitos livros, diversos deles traduzidos para o inglês, alemão, francês, espanhol e outros idiomas. Com Teia, a segunda publicação, aos 21 anos, foi agraciado com o Prêmio do Jornal das Letras. Seguiram-se diversos outros, como o Jabuti, o Machado de Assis, o Prêmio Camões, o Goethe de Literatura, e viu a inclusão de seu trabalho nas Obras Representativas da Unesco. Quis o destino que a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cultural Brasileiro fosse entregue simbolicamente à família meses após sua partida, em 2012.
Machado de Assis
Com suas tramas, riscos, bordados e carpintarias, consolidou um estilo único, inconfundível, livre de academicismos, arquitetura que desenvolvera tanto na própria labuta quanto nas leituras e releituras incansáveis de mestres como Machado de Assis, Faulkner e Flaubert. Difícil é escolher o melhor livro: parece-me que será sempre o último que reler, mas o que mais me seduz é Ópera dos Mortos (talvez por isso, foi o último!), do qual peço a ele licença para reproduzir um trecho:
O relógio de pêndulo que foi de meus pais
“Não adiantava parar os relógios. Ainda bem que eles deixaram a pêndula na copa. De duas bolas, em formato de 8; tem pêndula mais bonita, de capelinha. Relógio de 8 é muito comum, até enjoa. Relógio de capelinha é que é mais bonito. Mas igual o relógio-armário (quando ele desceu, veio e parou, olhou parando na cara de cada um, foi assim mesmo que ele fez ou foi Rosalina? no dia do enterro, veio e parou o relógio-armário), igual o relógio da sala não tinha igual, nem nunca viu um assim tão rico, antigo de velho. O relógio da copa, quando chegar a vez, ela é que ia parar. Gostava de ouvir as batidinhas, o tique-taque gostoso no vaivém da pêndula. (...) As pancadas das horas, a musguinha vindo. (...) Minueto, Rosalina diz que é minueto”.
O coro dos relógios, nessa Ópera dos Mortos, a ourivesaria de cada momento, cada único momento e cada um após o outro, diversos relógios cujo oscilar dos pêndulos seria interrompido, cada um a sua vez, com a morte de cada pessoa do casarão. Tensões elaboradas, um crochê intricado e denso. (Musicalmente me lembraria Brahms, os momentos se sucedendo em ondas de pensamentos e angústias onde navegar o leitor: um desenvolvimento pleno de encadeamentos, cadências e dinâmicas, temas e contratemas recorrentes, como em uma sinfonia do alemão).

Melhor assim, saudar o velho Autran por seu trabalho, nada de remoer no dia do nascimento os tempos difíceis que precederam sua partida. É dia de agradecê-lo por ter vindo a este mundo nos deixar tudo o que produziu com humildade, sempre avesso a badalações. Uma obra para a posteridade, sem nunca pensar em enriquecer, bons livros não dão dinheiro, falava. “Também sei escrever um best-seller: leitura bem fácil, suspense, traição e uma pitadinha de sacanagem”. Só que nunca o fez.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

PARA EMPREENDER A GUERRA


Le giorno se n’andava e l’aere bruno / toglieva gli animai che sono in terra / (...) ed io soy uno / m’apparecchiava para sostener la guerra.
O Inferno, por Gustave Doré (1832-1883)
Assim Dante começa La Divina Commedia (Il Inferno, Canto I)*, poemas escritos entre 1308 e 1320. O sol nem raiara, o céu acinzentado cobria os animais sobre a terra (...) e eu me preparava para empreender a guerra. Escrito na primeira pessoa em três partes (Inferno, Purgatório e Paraíso), La Commedia está nos primórdios da literatura italiana e ajudou a consolidar a língua toscana e os padrões do idioma do país. Dante é o personagem que se prepara para a guerra.
O cavalo de Troia, por Giovanni Domenico Tiepolo (c. 1760)
Da Grécia, são famosas as guerras de Troia (1250-1240 a.C.), as Médicas (de Medas, entre gregos e persas, de 499 a 479 a.C.), a do Poloponeso, entre Esparta e Atenas (431-404 a.C.), e as de Alexandre, O Grande (334-323): o cerco a Tiro e as batalhas de Gaugamela, Górdia, Granico, Hispades e Isso, onde o macedônio venceu Dario III, rei dos persas. Entre as guerras romanas, as Samnitas (264-290 a.C.), as três Púnicas (264-146 a.C.), as Macedônicas (215-168 a.C.), a dos Três Reinos da China (220-265 a.C.), a dos oito Príncipes (291-306), a de Gália (58-50 a.C.) e a invasão das Ilhas Britânicas (43 a.C.).
A queda de Acre, derrota final das Cruzadas 
A Era Cristã viveu inúmeras guerras e invasões, como a tomada da Península Ibérica pelos Muçulmanos (711), a da Normanda (1066), a longeva série de Cruzadas (1096-1231), um sem-número de enfrentamentos cujo bordão era o poder: conquista e domínio de riquezas, religiões e raças. Sobre esse poder debruçou-se um dos primeiros teóricos, Niccolò Machiavelli (1469-1527), em “O Príncipe” e “A Arte da Guerra”, sabedoria mais tarde compartilhada por Napoleão Bonaparte (1769-1821) em escritos sobre o florentino e em seu “Manual do Líder”. Mas se prosseguirmos com as guerras napoleônicas (1792-1814) não haverá espaço para o assunto principal. Saltemos ao expansionismo russo via União Soviética e as duas guerras de proporções mundiais, uma de 1914-1918 e a segunda, entre 1939 e 1945, que envolveu quase o mundo inteiro ante o nazifascismo de Hitler e o fascismo corporativista de Mussolini.
Outubro de 1999. Eu lançava, na ADUSP (Associação dos Docentes da USP), um livro sobre a história da música contada de um jeito irreverente, enfastiado que estava com o árido trabalho de doutorado. Ao meu lado, contrastando, o seríssimo argentino Osvaldo Coggiola, professor titular de História, lançava o livro “Imperialismo e Guerra na Iugoslávia - Radiografia do Conflito nos Bálcãs” (SP: Ed. Xamã, 1999), assunto da época. Coggiola buscou fatos que fincam raízes no passado e que nos levam a melhor compreender mesmo outros mais recentes. Ele ponderou muito bem que os conflitos na Península Balcânica, que envolveram 13 países, assemelhavam-se aos tempos que antecederam tanto a primeira quanto a segunda guerras mundiais, sendo os protagonistas decisivos do século EUA, Europa e Rússia. Um elemento precioso: o cenário foram os países mais poderosos na luta pelo domínio do combustível fóssil, o ouro negro: petróleo. Depois da exposição de Coggiola inverti o pensamento: naquela cena, o protagonista era, sim, o óleo - aos EUA, Europa e Rússia cabiam papeis de comprimários naquela ópera do Inferno.
Foto: The Atlantic
Na virada para 2020, Donald Trump mata, entre quatro outros, por pontaria certeira ou por acaso, o general Qassem Suleimani, líder da Força Quds, o segundo homem mais poderoso do Irã, um radical amado pelo seu povo. A morte de Suleimani despertou a ira do Aiatolá supremo, Ali Khamenei, e expôs o mundo a um grande perigo: haverá revide. Diz o estudioso Chales Lister que só não se sabe quando, como e aonde (a exemplo do bombardeio da  embaixada dos EUA em Bagdá e a inédita ordem de remoção das tropas americanas no Iraque). Outro estudioso, Bruce Riedel, ex-agente da CIA especializado em Oriente Médio, é mais pessimista: a guerra que os EUA estão iniciando "será uma guerra maior do que nunca”. Segundo David Sanger, do The New York Times, em 2015 Trump abandonou o acordo nuclear, o que, na calada, deixara o Irã à vontade para retornar ao enriquecimento de urânio e à produção de armas letais de médio e longo alcance.
Tropas americanas no Iraque
No momento em que escrevo, 3.700 soldados norte-americanos estão no olho do furacão, de um total de 70 mil no Oriente Médio. Não se sabe a modalidade da guerra que já assusta, há apenas a bandeira da morte de um radical adorado pelos xiitas cujo cadáver, ainda fresco, desperta manifestações e gritos de “morte aos Estados Unidos”. Mas esse ódio será restrito a uma guerra que afete o país, o Iraque, o Kuwait ou veremos algo de proporções desconhecidas? (Gilberto Gil teve seu pesadelo, em 1967, em Lunik 9: “Guerra diferente das tradicionais / guerra de astronautas nos espaços siderais”).
Senado dos EUA (NY Times)
Observo três vetores no ataque a Bagdá e no inchaço dos contingentes americanos no Oriente Médio: primeiro, o petróleo; segundo, o impeachment de Trump em pauta no Senado - não provável, mas colocar o processo em segundo plano e surgir como herói da causa são parte das intenções do presidente. Alimentado pelo ufanismo e engordado após um século de guerras sangrentas, grande parte do povo deverá estufar o peito em defesa de Trump, lançando areia sobre os olhos de muitos. Last but not least (por fim, mas não por último), o terceiro vetor: este é o ano em que Trump buscará a reeleição. É nesses meses de corrida que ataques costumam vitaminar fortemente a popularidade presidencial. Porém, o que costuma se seguir, ao fim, é uma queda acentuada – e o risco de uma derrota nas urnas. Um salto sem paraquedas espetaculoso no escuro, levando o mundo inteiro.
*ALIGHIERI, Dante. La Divina Commedia. Ostiglia: Ed. Mondatori, 1963. Breves explicações sobre trechos da Commedia me foram resumidas, informalmente, pelo então colega da FFLCH Lorenzo Mami: a simbologia da escrita, o que descreveu Dante, e a arte do florentino.