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sábado, 21 de setembro de 2019

GUARNIERI E VILLA-LOBOS: DOIS GÊNIOS, DUAS MEDIDAS

Camargo Guarneri, eterno gênio caipira
Há algo em comum entre os dois gênios, mas não a origem e a personalidade. Guarnieri passou 16 anos da vida em sua Tietê, São Paulo, largando o segundo ano do ‘grupo escolar’ para buscar na capital melhores chances para sua música. Villa-Lobos, carioca expansivo, gozador de rompantes histriônicos, compunha até deitado de bruços no chão, ouvindo novelas de rádio.
Villa: charuto, gravata e sinuca. 
Guarnieri e Villa, cada um a seu jeito, romperam as fronteiras do Brasil e se lançaram ao mundo. O Villa do choro e da boemia carioca alcançou reconhecimento mundial como globe-trotter. Já Guarnieri viajava, mas tinha o coração no interior, junto à invejável técnica que adquirira devido a uma facilidade extraordinária. Não se importava com marketing, era comedido e simpático como bom caipira.
Em um jantar na casa do maestro Eleazar de Carvalho, o assistente Diogo Pacheco contou-me um episódio. Rapazinho, cantor do Coral Paulistano do Theatro Municipal de SP, ele passeava pela Praia Vermelha, no Rio, e na direção contrária vinha caminhando Villa-Lobos. Abordou o maestro e puxou assunto, dizendo que o Coral havia cantado uma linda Ave-Maria dele. Villa: “mas qual? Já compus mais de mil!”
Vinte anos depois, quando do lançamento de sua biografia, Diogo respondia a indagações dos presentes. Eu fui o último: quantas Ave-Marias Villa-Lobos escreveu? Todos surpresos, Pacheco contou a história, e, curioso, perguntou-me como eu sabia daquilo. Lembrei-lhe do jantar, e ele iniciou o autógrafo: “Henrique, sabe que você também é muito divertido?” (Deu troco a uma brincadeira minha do passado).



Camargo Guarnieri, por Portinari
Conheci Guarnieri primeiro conversando no intervalo, quando ele ia reger a Osesp, depois no aniversário de seus 80 anos e no Clube Paulistano, onde umas duas vezes fui com meu filho, ‘Baby Lucas’, e o neto do compositor, ‘Baby Alexandre’ (hoje homens bem-sucedidos). Enquanto as crianças brincavam no parquinho, eu respirava palavras sábias, absorvendo o máximo, como um aprendiz de feiticeiro diante de um grande bruxo. Modesto, de tiradas geniais, ao compor era intricado como Brahms e dono de uma costura musical que tem algo a ver com o complexo bordado literário de meu pai.
Se Guarnieri foi o caipira que conquistou o mundo, Villa-Lobos foi o carioca que o fez a seu jeito, e para conhecer bem sua terra teve de explorá-la. Magnifico é o depoimento Excursão Artística Vila-Lobos, de Antonio Chechim Filho, publicação familiar de 1987, de cuja neta, Katia, ganhei um exemplar em 2008.  Chechim era funcionário da Fábrica de Pianos Brasil e, como técnico e afinador do grupo, participou da Excursão.
Villa-Lobos, Nair Duarte Nunes, Antonieta Rudge, Lucila Villa-Lobos
(Souza Lima ausente nesta foto) 

 O grupo contava com Villa, violoncelista e líder, os pianistas Souza Lima, Antonieta Rudge e Lucila Villa-Lobos; cantoras, Nair Duarte Nunes e Anita Gonçalves. A grandiosa viagem foi em 1931, o grupo sacudindo nas estradas de ferro, conhecendo e se apresentando em quase cem cidades de São Paulo (Tatuí foi a de nº 43!). No trajeto entre Bauru e Matão, apesar dos sacolejos e apitos do trem, Villa, absorto, escreveu O Trenzinho do Caipira, para violoncelo e piano, e antes mesmo da chegada havia terminado a obra. Em versão orquestral, O Trenzinho virou Tocata (4º Mvt.) de sua linda Bachianas Brasileiras nº 2.

Publicação nos EUA sobre o livro de Chechim
Link para o texto completo no final do blog
Segundo Chechim, foram 8 etapas: (1) Campinas-Barretos, 8 cidades; (2) Batatal-E. S. do Pinhal, 11; (3) Serra Negra-Mococa, 7; (4) Salto-Itararé, 13; (5) Avaré-Porto Epitácio, 17; (6) Itapira - S. J. do Rio Preto, 6; (7) Jacareí-Queluz, 13, e (8) Piraju-São Paulo, 13. Villa também conheceu o resto do Brasil inteiro.
Ponteado (Chico Mineiro)
Guarnieri era o mestre da ourivesaria, dos detalhes, e sua obra passou por todas as fases, do nacionalismo ao que hoje seria vanguarda. Minha filha Marta vai defender em Londres sua tese de PHD sobre as três sonatas para violoncelo do maestro. Trabalho cansativo, difícil pesquisa, pode-se sentir o sotaque interiorano com suas danças e ponteios – não o folguedo sulino de sapateado, mas o da viola caipira, ponteado pelos dedos polegar e indicador, principalmente.

Cornélio Pires e sua turma
Achei que encontraria um conhecimento muito provável do jovem Guarnieri com a turma do também tieteense Cornélio Pires, estudioso e líder de um grupo de violeiros de música de raiz. Só que Cornélio nasceu em 1884 e Guarnieri em 1907. Quando Cornélio foi para São Paulo, em 1914, Guarnieri tinha apenas 7 anos de idade. Mas a viola já era presente na vida tieteense desde bem antes, e continua até hoje. Foi dela que Guarnieri bebeu seus ponteios, os sons das serestas, as danças. Do Villa, também, guardo alguma história muito pitoresca contada por meu pai, que com ele esteve um par de vezes (uma delas, em um jantar, aconteceu um episódio impublicável). E a Da. Mindinha, segunda esposa, que conheci no Rio no início dos anos 1970. Nossos dois gênios, em duas medidas! 

                                                                   ***
Memória de um Técnico de Piano  Brasileiro, Antonio Chechim Filho, Acerca da Excursão Artística Villa-Lobos (1931-1932):

https://www.researchgate.net/publication/328492720_Memoir_of_a_Brazilian_Piano_Technician_Antonio_Chechim_Filho's_account_of_the_Villa-Lobos_Artistic_Excursion_1931-32

sábado, 14 de setembro de 2019

FEFIERJ: UNE E OSSOS. UFRJ, ORIXÁS

UniRio

Comecei meus estudos universitários de música no início dos anos 1970, na Fefierj (Federação das Escolas Federais Isoladas do Estado do Rio de Janeiro), hoje UniRio. No corpo docente, professores como Hélio Sena e Sílvio Mehry, ambos com sólida formação pelo Conservatório de Moscou, e Marlene França, ex-aluna de Ginastera.  No andar de cima, as Artes Cênicas, laboratório do melhor teatro do século: Arrabal, Ionesco, Brecht.
Fefierj, a "joaninha" e o giroflex
Na entrada do prédio – de que falarei adiante -, tempos duros como os cabos das baionetas, às vezes a parada de uma “Joaninha” (coitado do simpático besourinho rubro-negro, fusca da PM com uma só luz giroflex). Volta e meia, revista de alunos e professores, preferências recaindo sobre livros de capa vermelha. Nada que coadunasse com o espírito que mantínhamos: livres para estudar e criar. Em uma aula de harmonia ao piano, lembro-me de ter apresentado um exercício para a profa Marlene França em que usei um coral de Bach. Movi vozes meio tom para cima e para baixo, troquei acidentes e por aí vai. Uma loucura dissonante, mas ela, após tocá-lo no piano, cenho franzido, ao invés de me dar um pito levantou-se com um enorme sorriso – o que mais esperar de uma compositora contemporânea?
UNE, 1947. A garra feminina
De volta ao prédio: o nome Fefierj surgiu oficialmente após a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, em 1975. Em 1979 passou a chamar-se UniRio, parte da Uferj (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). Um prédio dos anos 1930 com apenas três andares que carregava uma sina, um carma: fora a sede da proscrita UNE (União Nacional dos Estudantes)!
O prédio, incendiado durante o golpe
Faço um corte à maneira dos filmes nouvelle vague, tão ao nosso gosto, à época, para falar da UNE, e depois retornar à Fefiej. Fundada em 1937, teve participação em todos os movimentos sociais do Brasil. Na presidência, entre 60 nomes, José Serra, cujo mandato foi encerrado com o golpe de 1964, Luís Travassos, eleito em 1968 e, líder estudantil de peso,  Aldo Rebelo, político que foi ministro em vários governos. O prédio, número 132 da Praia do Flamengo e símbolo da resistência, foi invadido e metralhado no dia do golpe, 1º de abril de 1964, e logo após incendiado. Enquanto isso, soldados e milícias radicais tentavam queimar o prédio da Faculdade de Direito com os estudantes em seu interior, mas foram impedidos pelo heroico capitão Ivan Proença, que arriscou sua vida entrando no imóvel em meio a tiros e bombas para salvar os que lá estavam, obrigando seus subordinados à imediata suspensão da iminente carnificina.
O malogrado congresso de Ibiúna:captura geral
Durante o período da ilegalidade determinada pela lei ‘Suplicy de Lacerda’ (1964-79), a representação estudantil foi pulverizada em diretórios acadêmicos bem vigiados nas universidades. Mas a Une continuou clandestina, e, por isso mesmo, cada vez mais contaminada por grupos radicais. Um desastre: o 30º Congresso, com 5 mil estudantes em Ibiúna, 1968, foi desbaratado pelo número extravagante de pãezinhos e litros de leite encomendados na cidade do interior paulista. Organização sem planejamento, todos foram presos, inclusive os líderes Jean-Marc, José Dirceu, Vladimir Palmeira e Travassos.
Adicionar legenda
Depois, assume então a presidência Jean-Marc, que, levado à prisão, deu lugar a Honestino Guimarães, em 1973. Igualmente preso e, como era frequente, declarado ‘desaparecido’ (leia-se: morto). Naquele tempo, eram todos estudantes idealistas, rebeldes como qualquer jovem saudável, mas aos poucos, muitos, foragidos, foram seduzidos pela luta armada do VAR, VPR, MR-8 e outros. Depois dessas décadas e voltas e reviravoltas, formalidades e proscrição, há quem seja ingênuo o suficiente de pensar que o simples ato de retirar da UNE a prerrogativa de emitir e cobrar carteirinhas de estudante  poderia afetar  (e, sabe-se lá, neutralizar)  a organização. 
Depois do ‘corte à francesa’ para falar da UNE, à Fefierj. O diretor-interventor era o general Jayme Ribeiro da Graça, egresso do SNI (Serviço Nacional de Informações, órgão da ditadura). Agentes e alcaguetes infiltrados nas salas de aulas no Rio eram os mais calados, discretos e misteriosos, e não faziam anotações. Só com o interventor eu tive problemas, e de ordem musical, a despeito da ignorância dele em artes - achava ‘inferiores’ os instrumentos e a música indígenas. Cheguei a ser ameaçado de ‘virar flauta’, após discordar dele sobre a ‘inferioridade daqueles instrumentos primitivos feitos com ossos’.
 
Escola  de Música da UFRJ
45 anos depois, rebobinam o filme, mas às avessas: Semana passada (O Globo, 5/09/19), ressurgiu travestido e com força o mesmo preconceito. Na conceituada UFRJ, estudantes de certa seita religiosa autodenominada Igreja recusaram-se a cantar as Toadas de Xangô (‘orixá das artes’), do petropolitano Guerra-Peixe. Um dos alunos disse “e se eu ‘receber’ (obs.: ‘incorporar’) alguma ‘entidade?’” A professora Andrea Adour tentou explicar, mas os novos radicais, que hoje se multiplicam como gremlins, não compreenderam. Villa-Lobos também compôs sobre crenças indígenas e religiões afro (Xangô), tal como Francisco Mignone (Babaloxá), meu amigo Ernani Aguiar (Cantos Sacros para Orixás), José Siqueira (Oratório Candomblé) e Camargo Guarnieri (Macumba para Pai Zuzê, com letra do Drummond). Na MPB, Caymmi (Oração de Mãe Menininha), Sérgio Ricardo (“mandinga da gente continua”), Caetano (“Xangô manda chamar Obatalá Guia”), Edu Lobo (“ê meu irmão me traz Yemanjá pra mim”), Vinicius (Canto de Ossanha). Um coro universitário que não canta as raízes de seu povo leva a música para longe de sua nação!
A direção da Escola de Música da UFRJ não é de generais, mas a história é ingrata: alunos inverteram seu papel no tabuleiro, encarnando a xenofobia e a intolerância do antigo interventor da Fefierj. Sinal dos tempos, um retrocesso com troca de papeis. Farta matéria para cientistas sociais!

sábado, 7 de setembro de 2019

GETTYSBURG E OUTROS DISCURSOS


Tempos de colégio, rígida disciplina de estudos e leitura. Aprendíamos de tudo na decoreba: português (“Última flor do lácio, inculta e bela”, recitada sobre um praticável), latim básico; francês, Do Contrato Social de Rousseau (l’homme est né libre, mais partout il est met dans les fers”, ‘o homem nasce livre, mas por todo lado ele está acorrentado’); geografia, memorizando e desenhando em mapas mudos as capitais e rios dos países e estados.
Lord Byron
Um inglês pesado: Shelley, Byron, Wordsworth. Mais tarde, como músico, vim a dar real importância àquela bendita decoreba! Em plena ditadura, a Declaração Universal dos Direitos do Homem, assinada pelo Brasil na ONU em 1948 e traduzida em mais de 500 idiomas, da qual os radicais de hoje só ouviram falar da metade do título: ‘direitos humanos só para bandidos’, afirmam os ignorantes da história. Um acordo monumental pleno de ideais, por uma vida melhor em um planeta severamente ameaçado.
O dircurso de Gettysburg
Memorizamos o Gettysburg Address, proferido em 18/11/1863 durante a guerra civil por Abraham Lincoln, in memoriam aos soldados mortos na batalha acontecida na cidade do mesmo nome. Optei aqui pelo último manuscrito do próprio Lincoln, entre mais de cinco versões do texto. Tradução que busca ser fiel dentro da minha compreensão, com as devidas anotações: “Quatro vicênios¹ e sete anos atrás nossos pais construíram, neste continente, uma nova nação, concebida em liberdade e dedicada à proposição de que todos os homens nascem iguais”². (1. Um score, ou vicênio, significa um período de vinte anos, Lincoln se referia a 87 anos antes daquela data. Usei ‘quatro vicênios’, ao invés de four score no singular. 2. Traduzi ‘todos os homens nascem iguais’, já que are created, ou, literamente,  ‘são criados’, entre nós confunde-se com 
criação, educação).
Prossegue: “Agora estamos envolvidos3 em uma grande guerra civil, testando se aquela4 nação ou qualquer outra, assim concebida e dedicada, pode resistir longamente” (3. Engaged, ao pé da letra, seria ‘engajados’, mas o sentido é de empenho, comprometimento – a palavra também pode significar ‘noivos’. Mas entre nós soaria político. 4. Por ‘aquela nação’ refere-se à que foi construída pelos antepassados: digo ‘esta nação’, a nossa. “Nós viemos para dedicar uma porção desta5 terra como lugar de descanso final para aqueles que deram suas vidas para que aquela6 nação sobrevivesse.  É ao mesmo tempo justo e apropriado que nós o façamos” (5. Para that, no caso, ‘aquela’, uso ‘desta’. 6. Aquela, a dos sonhos. Algumas repetições que em inglês soam naturais foram trocadas, a bem da clareza em português. E Lincoln, advogado nascido de família pobre e fervorosamente batista em uma cabana Kentucky, refere-se sempre ‘àquela’ terra, remetendo ao tempo do país erguido pelos seus antepassados e de seus ouvintes. O estilo tem certo tom de prayer, oração em súplica comum aos grandes oradores americanos que o seguiram – Rev. Luther King, Jr, e Rev. Jesse Jackson, por exemplo.
Cemitério Nacional do Soldado, hoje: Gettysburg, Phladelphia
Aos honrosos mortos na guerra, mais adiante, ele declara ser melhor “nós aqui dedicarmos devoção cada vez maior à causa pela qual eles entregaram seu último grande gesto7 de dedicação – a que aqui estamos fortemente determinados8 para que esses homens não tenham sido mortos em vão9”. (7. Last full measure, em português, ao pé da letra, ‘última medida inteira’, seria coisa sem  pé nem cabeça: a expressão com a palavra, aqui, tem sentido de ‘último ato com plena devoção’. 8. Highly resolved, ‘altamente determinados.: To resolve aqui tem sentido de forte empenho, não de resolver. E ‘altamente com forte determinação’ soaria redundante. 9. Diz: these dead (...) didn’t die in vain: ‘estes mortos não morreram em vão’ soaria muito estranho entre nós).
E finaliza: “que esta nação, ‘sob a proteção de Deus’10, tenha um renascimento11 de liberdade – e que o governo deste povo, pelo povo, para o povo, não desaparecerá da Terra12. (10. Lincoln diz “under God”, ‘sob Deus’. 11. A new birth of liberty, li como ‘um renascimento da liberdade’! ‘Um novo nascimento’, não soa bem entre nós. 12. Shall not perish from Earth: ‘não perecerá da Terra’? Melhor ‘não desaparecerá’).
Usei o ‘Gettysburg’ como exemplo da dificuldade de se traduzir um simples texto, que é compreender para contar. Literatura? Extremamente difícil; poesia? Missão impossível. O ideal seria ler no original, o que não é acessível a todos, embora seja exigência em cursos universitários, de pós e pesquisa. Vejo o Gettysburg de Lincoln ao lado de ‘Eu Tive um Sonho’ (1963), de Luther King, Jr, um desafio pela igualdade, e o de Jesse Jackson na Convenção Democrata de 1988 (vi na TV e me emocionei); Roosevelt, ‘Deveres da Cidadania Americana’ e Kennedy (1961), em seu ‘Discurso de Posse’ (‘Não perguntem o que a América fará por vocês, mas o que juntos poderemos fazer pela liberdade do homem’). Esses estão entre os mais importantes discursos da história dos EUA.
Na história, desde ‘A Terceira Filípica’, de Demóstenes (342 a.C.), o ‘Discurso de Alexandre, O Grande’, na Índia (326 a.C.), até ‘Nós lutaremos nas Praias’ (1940), de Churchill (imagem acima), ‘O Apelo de 18 de Junho’, por De Gaulle, pela BBC londrina, exortando os franceses  a não abandonarem a luta contra os nazistas, e tantos outros.
JK: discurso de posse
No Brasil, entre os discursos mis marcantes, o da posse de JK (1956), sob ameaças de golpe, composto a quatro mãos por Augusto Frederico Schmidt e meu pai, o escritor Autran Dourado, autor da frase de efeito: ‘Deus poupou-me o sentimento do medo’; o de Jango na Central do Brasil, grande desculpa para o golpe de 1964, e finalmente o do deputado Márcio Moreira Alves, um dos estopins do AI-5: “...cada pai, cada mãe (...) a presença dos seus filhos nesse desfile é o auxílio aos carrascos que os espancam e os metralham nas ruas”.
E quem serão os escribas e os oradores de hoje?

sábado, 31 de agosto de 2019

SOBRE A PESQUISA CIENTÍFICA


Fui parecerista ad hoc da Fapesp, coisa de dois anos. Desconhecendo a comissão que fez o convite, aceitei, consciente de que não receberia pelo trabalho voluntário. Minha área não era a produção científica das chamadas exatas, mas a do campo das humanas, comunicações e artes, e os projetos chegavam e eram devolvidos pela Internet com as avaliações, sem poder identificar meus interlocutores. Como em todas as vezes em que fiz banca, fui jurado ou perito, uma vez parecerista busquei ser correto e justo: rejeitei projeto fraco de um conhecido mas dei aval à proposta de um desafeto.
A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) foi criada pela Constituição Estadual de 1947 (Art. 123): “O amparo à pesquisa científica será propiciado pelo Estado, por intermédio de uma Fundação, organizada em moldes que forem estabelecidos em lei”. Determina, para custeio, ‘não menos do que meio por cento da receita ordinária’ (O complexo de receitas do Estado, números que hoje seriam fenomenais). Em 1989, o decreto 29.598 estabeleceu a autonomia das universidades, assegurando-as  não-ingerência externa na quase totalidade dos atos. Novos percentuais couberam à Constituição Estadual, do mesmo ano, que reservou à Fapesp 1% da arrecadação tributária (ICMS), e somente dela. À USP, Unesp e Unicamp couberam, primeiramente, 6,5%, e mais tarde 9,57%.
Problemas: (1) Sutilezas de interpretação. A LOA /2017 propunha “até” aqueles percentuais, o que é muito diferente do original “no mínimo”, apesar de o governo insistir que ambas eram a mesma coisa. (2) “Abertura de crédito suplementar”, transferência de verbas já dedicadas de uma rubrica para outra. Ou: a Assembleia Legislativa naquele ano transferiu da Fapesp, sob protestos da comunidade científica, 120 milhões, 12,63% do repasse total, mas, por inconstitucional, teve de devolvê-los. (3) Impopular eufemismo, o “contingenciamento” – que significa “não há cortes no orçamento, mas ‘n%’ vocês não podem usar”. (4) A crise econômica e a queda na arrecadação, mas esse é um exercício de futurologia em que eu, leigo, sequer ousaria adentrar. Coisa para um economista de sólida formação tributária com uma bola de cristal milagrosa nas mãos.
CWTS Journal
Associada à Fapesp e ao CNPq, em 2019 a USP foi classificada pela CWTS holandesa em 8° lugar no mundo por sua produção científica, e ficou entre as 150 melhores universidades do mundo, segundo o Academic Ranking of World Universities (ARWU)! Quase totalidade do que se produziu nesses 73 anos de Fapesp e 68 de CNPq reverteu à população - de novos tratamentos médicos à obra de Graciliano Ramos. Uma plêiade de cientistas trabalhando pela comunidade em prol da coisa pública.
(Foto: Brasil 247)
O CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa), órgão federal – cujo repasse de verbas é feito a bel-prazer do governo -, tem sido foco de imensos cortes, tão dramáticos que culminaram agora com a suspensão de 40 mil bolsas. Criado pela lei 1.310/51 para ser responsável pela organização de todos os sistemas de suporte à pesquisa, o Conselho chegou a levar o Brasil, ao lado da Fapesp e outros, a ingressar no ‘clube’ dos dezoito países que representam, cada, ao menos 1% da produção científica mundial.
César Lattes
O mentor do CNPq, César Lattes, falecido em 2005, foi parceiro na descoberta do ‘méson-pi’, que deu a Cecil Powell o Nobel de Física em 1950, mas a coautoria do brasileiro foi preterida injustamente. Como deferência, em 1999 o sistema nacional de catalogação de currículos e pesquisas de cientistas e acadêmicos passou a se chamar ‘Plataforma Lattes’. O físico Joaquim da Costa Ribeiro, falecido em 1960, foi o descobridor do ‘efeito termodielétrico’, e ocupou boa parte de sua vida estudando a radioatividade. Foi o único brasileiro a ter assento no Comitê Consultivo da ONU para Aplicações Pacíficas da Energia Nuclear.
Crodowaldo Pavan
Crodowaldo Pavan (1919-2009), biólogo, estudou na USP a convite de André Dreyfus, um dos criadores da Universidade, e logo tornou-se docente. Foi presidente do CNPq (1986-1990), e após se aposentar rumou para Oak Ridge, EUA, onde criou um laboratório de genética celular de âmbito nacional; depois, foi professor catedrático na Texas University, em Austin. Catalogar todos os avanços creditados a esses órgãos e pesquisadores seria um trabalho de envergadura monumental.
Stephen Hawking, o gênio.
Não há semana que não traga novidades: no dia em que escrevo, a USP divulgou mais um avanço na área de química e biomedicina: cientistas conseguiram associar o metabolismo da gordura ao desenvolvimento de uma das doenças degenerativas mais terríveis, a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), que começa a devorar vidas desde cedo, a exemplo de Stephen Hawkins - um dos maiores físicos da história. Só nessa área, somem-se Alzheimer, Parkinson, vários tipos de câncer, Aids, drogas que salvam vidas e um sem-número de moléstias que receberam inestimável contribuição dos pesquisadores.
Estudos sobre pontes, viadutos e barragens – que tanto caem! -, novos materiais, combustíveis não-fósseis, controle de poluentes, descobertas arqueológicas, teorias antropológicas, estudos da história, cultura e artes, abrem uma enorme estrada rumo a novas descobertas.
Laboratório na Yale University
O custo disso? Material e equipamentos, e ao pesquisador-bolsista não um salário, mas o mínimo que possa prover seu sustento, o suficiente para passar dias inteiros em laboratórios e bibliotecas, sempre em contato com o mundo, seja via internet ou no exterior. A labuta desses bolsistas, docentes e orientadores abre caminho para dias melhores. Porque sem pesquisa científica e universidade pública de alto nível o destino nos reservará a medíocre subserviência aos países que as priorizam. E deles passaremos a comprar com royalties o que deixarmos de produzir.


sábado, 24 de agosto de 2019

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DEFLORES

“Tamba-tajá me faz feliz / que o meu amor me queira bem / que seu amor seja só meu, de mais ninguém”. É uma canção sobre lenda indígena (registrada pelo paraense Waldemar Henrique), que na voz dengosa e merencória da Fafá de Belém, lançou-a em 1976. Da cultura tupi-guarani, que triste história! Um valoroso índio Macuxi e uma linda moça da tribo se enamoraram e amavam-se profundamente, casando-se conforme os rituais. Um dia, o infortúnio: ela adoeceu, nem andar conseguia. Para mantê-la junto de si, por onde quer que andasse o índio a carregava em uma espécie de rede nas costas. O fardo pesava demais quando ele percebeu que sua cara-metade havia morrido. Arrasado, enterrou-se junto com ela à beira de um riacho. Tempo passou e um dia nasceu ali uma frondosa planta, Tambatajá. Parte do ano ela descansa, para depois renascer plena de vida, espalhando colorido pelos bosques e florestas: verde, vermelho, roxo e às vezes prata.
Tambatajá: o renascer na Sagração da Primavera.

(Eu também achava que minha Tambatajá havia morrido, mas de triste deixei o vaso no lugar. Pois renasceu, viveu e hibernou de novo. Agora, com a partida do inverno, já ressurge da terra, lindas folhas em pares grande-pequena, simbolizando casais.)
Tambatajá dormindo, plantei uma Ráfia (Raphia Farinifera) de pequenas mas generosas copas de folhas compridas. Das três dezenas de espécies, há uma africana que pode chegar a 10m de altura. Se jovem, usam-na trançada; velha, serve para fazer uma espécie de cera; e sendo vinífera, dos frutos pode-se fazer licor. As domésticas, meninotas de apenas 2m de altura como a minha, são ornamentais e vicejam o ano inteiro.
O jardim de inverno já encorpava, melhor partir para o quintal: Ixora, uma das mais de 300 espécies de rubiáceas conhecidas. Dezenas, vermelhas e amarelas para compor com o arredor. Do sânscrito, Ishvara tem seus significados, e para a maioria dos hindus é Shiva (‘o auspicioso’), uma das divindades. Seus pequenos buquês de minúsculas flores também podem deixar de brotar, mas voltam a florir quando o clima favorece.
Completei o jardim da frente com uma espécie de palmeira, o Salgueiro Jerivá (Syagrus Romanzoffiana), uma das inúmeras espécies brasileiras, entre as folhagens de um enorme Chorão (S. Babylonica)  e seis Podocarpos (Podocarpus Macrophyllus) junto à casa. O Jerivá chega a 5m, pouco mais, e quando adulto se orna de coquinhos adocicados que fazem a festa de passarinhos, maritacas e papagaios.
Papiro Ebers
O salgueiro era conhecido pelos egípcios há mais de 3.500 anos, conforme o papiro de Ebers. O ácido salicílico de sua casca servia para alijar dores e ferimentos, mas se ingerido, ai da flora intestinal e do estômago! Em 1897, o laboratório alemão Bayer formulou o ácido acetilsalicílico, reduzindo os efeitos colaterais: AAS, Aspirina e, claro, Bayaspirina, entre outras).
Para graça do meu pequeno jardim interno, plantei Lírios da Paz (Stathiphyllum Wallisi). Em pouco tempo surgiram lindas flores, branquíssimas, entre folhagens verdes misteriosamente brilhantes. Na Síria, diz-se que a planta absorve os maus espíritos, que se transmutam em bons eflúvios como lindas flores, alvas como leite. Chegou aqui trazida da América Central, onde era cultivada para trazer perfume às moradas.
Dracenas
Agreguei uma Dracena (Dracaena Terminalis), de folhagens arroxeadas, e, par com ela, Crótons Vermelhos (Codiaeum Variegatum). Suspenso e também combinando, um Lambari Roxo (Tradescantia Zebrina), fora uma Samambaia (Polypodium Persicifolium). Ah, e as pequenas Suculentas (belas variações ornamentais de cactos).
Cróton: em floração

Os girassóis da paixão de Van Gogh
Os incas já conheciam as propriedades dos Girassóis: mascavam as sementes, extraíam óleo e admiravam sua  reverência ao astro-rei: as flores movimentam-se de acordo com a luz solar, por isso são ditas heliotrópicas, vivem pelo astro que os guia, tal qual os planetas de nosso sistema o gravitam, em deferência. Thomas, meu neto de cinco anos que nasceu e mora em um lugar onde se estimula o gosto por plantas, flores e natureza – Londres é 40% área verde! -, ganhou em uma festa sementes de Girassol e aqui as plantou em um vaso. No começo, cuidados extremos, muita água todos os dias, tarefa da qual me encarrego e aproveito para fotografar, enviando ao pequeno jardineiro londrino imagens de seus ‘bebês’, crescendo a cada dia.
O título deste artigo se deve a ele ser o único sobre plantas que escrevi; nele, de carona, vai uma homenagem ao compositor Geraldo Vandré, a quem conheci em 1989. Termino evocando o lindo coral Jesu bleibet meine Freude (Jesus, minha eterna alegria) da Cantata 147, composta por Bach sobre melodia de Johann Schop. Música que inspirou o Rancho das Flores (1961) do Vinicius de Morais, cantada ora em compasso ternário composto, como em Bach (9/8), ora em um quaternário meio forçado, fazendo-a espécie de marcha-rancho. Uma ode às flores que dão vida a nossas vidas: “Olhem bem para a Rosa, não há mais formosa/ é a flor dos amantes, é a rosa-mulher/ que em perfume e nobreza vem antes do cravo/ e do lírio e da hortênsia/ e da dália e do bom crisântemo/ e até mesmo do puro e gentil mal-me-quer”. “Satisfeita da vida/ vem a Margarida dos que têm paixão/ e agora é a vez da Papoula vermelha/ que dá tanto mel pras abelhas/ e alegra este mundo tão triste/ com a cor que é a do meu coração”. E assim passeia o ‘Poetinha’, desfilando seu rosário de pétalas, cada uma com suas virtudes. (Ouça abaixo, o Rancho das Flores)

[O leitor deve ter percebido que escrevi os nomes das plantas com iniciais maiúsculas. Como pessoas, com elas se conversa, mas não carece de coisa falada, bastam coração e pensamento].