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sexta-feira, 5 de maio de 2023

COMMIRNATY BIVALENTE, RNAm E COVID

 

Foto: Prefeitura de Tatuí

S
egunda-feira, 24 de abril de 2023. Pensando em uma conversa tida com um amigo no sábado, não demorei cinco minutos para decidir: Centro Municipal de Especialidades Médicas, o CEMEM, perto do centro de Tatuí, SP. A rua é movimentada, mas achei vaga no estacionamento da calçada da clínica, desci, andei um pouco, galguei o ambiente, limpo, amplo, organizado. Ali, sentei-me um pouco e puxei assunto com uma senhora de branco, gentil enfermeira, que após conferir meus dados aplicou-me no braço esquerdo uma dose da Pfizer – Commirnaty Bivalente RNAm, a chamada sexta dose de vacina contra a Covid-19. Ela é uma sequência das anteriores anti-Covid acrescida (daí o ‘bivalente’) do Ômicron B.1.1.526. Já RNA é a sigla em inglês de ácido ribonucleico, que com o ‘m’, ‘mensageiro’, forma batalhões de microscópicos cavalos de Troia que atuarão dentro do corpo para contra-atacar o vírus.


A
proveitei para, no braço direito, ter aplicada uma dose contra gripe, a Influenza Trivalente, já que esses bichinhos vão mudando ano a ano e temos de nos atualizar. Atendimento e eficiência: saí de casa e em menos de uma hora eu estava de volta almoçando. Antes que eu me esqueça, minhas experiências com vacinas aqui em Tatuí têm sido cada vez melhores. Mas é hora de colocar na pauta alguns problemas de consciência: se eu não me vacinasse, abriria guarda para que os vírus que hospedasse fizessem vítimas terceiros que não escolheram adoecer, o que é muito grave. Uma boa notícia: apesar de esta última vacina ter sido destinada a categorias etárias ou comorbidades específicas, no mesmo dia 24 o governo liberou a bivalente para todos acima de 18 anos, desde que já tenham tomado ao menos duas de Coronavac, Astrazeneca ou Pfizer até há mais de quatro meses (G1, 24/04/23). Li que era grande a preocupação do governo com a baixa procura – cerca de 18% - pela faixa etária e comorbidade iniciais, daí a liberação para os dezoito anos.


P
arece que o apelo já não era tão grande quando do pavor inicial provocado pela doença. Penso que vários fatores contribuíram para esse, digamos, descaso na campanha da vacina anti-Covid: um pouco de cansaço nessa já longa jornada, a desatenção para certos cuidados – máscaras e álcool em gel, além dos efeitos profiláticos, tinham um componente psicológico: ambientavam a tomada de certas precauções. Esse descaso é bem grande, estimulado no viés político por autoridades do nosso país, banalizando as dimensões da virulência da praga covidiana: com certeza, mesmo que um pouco mais rarefeita, o fato é que a incidência do vírus diminui, mas continua infectando. E matando.

Vibração de diapasões por simpatia

R
esolvi escrever este artigo por motivos que fincam raízes no cenário que acabo de descrever logo acima. O gatilho, para mim, veio com a decisão solidária que me deu na tradicional selfie com a carteirinha de vacinas na mão, tirada ainda na rua, e convenientemente postada em uma rede social. Muitos fazem isso, e eu não me furtei: estimula a procura pela inoculação e a solidariedade. Outro motivo: respondendo à questão de um amigo idoso na rede social sobre se “tem” de tomar esta sexta dose, expliquei o que sabia e ele se disse convencido a ser inoculado. Mais um protegido, que seja. Por fim, lembrei-me de que, apesar de meu ralo conhecimento superficial de infectologia e afins, era meu dever de cidadão fazê-lo (no sábado, durante aquele bate-papo com o amigo vizinho, fui convencido a segui-lo sem que ele tivesse de mover um dedo: brotou em mim (em música, diríamos que foi vibração por ‘simpatia’). Reproduzi o gesto, foi solidariedade, mesmo, feliz assim como eu fiquei ao ouvir a ideia do senhor idoso que se manifestou pela decisão da vacina. Afinal, a humanidade não é uma corrente?


H
oje todos já sabemos muito mais do que sabíamos sobre o vírus Covid e suas variantes e cepas, às vezes elegantes e eruditas com o alfabeto grego a reboque. Há três anos tudo era temor contra esses vírus franco-atiradores invisíveis. Medo, muito medo. À medida que novas cepas foram surgindo e a vacinação no mundo mostrava certo progresso, vimos que é no coletivo que ela funciona: já sabemos que não vai desaparecer, veio para ficar, mas a inoculação em massa diminuiu os efeitos que levaram muita gente à internação ou à morte. E agora, estamos protegidos? Em tese, parece que será uma luta constante: manter o nível de infecção muito baixo, quase nulo, cujos efeitos seriam pouco significativos em grande escala. Porém, para tanto é preciso que a campanha não arrefeça e continue o esclarecimento público, assim como que as pessoas atendam aos apelos quando convocadas em suas vezes. Foi assim com a pólio e outras doenças. Ao contrário, o negacionismo vai muito além de “pinga mata isso”, “já tive, estou imunizado” e balelas assim: negar o potencial do vírus é abrir flancos para mais formas de ataque.

Os flagelos das vacinas em 1904

J
á houve uma “Revolta das Vacinas” contra a campanha do Dr. Oswaldo Cruz, em 1904, quando a peste bubônica, a tuberculose, a febre amarela, a cólera e a varíola tomavam conta das ruas e sua população, em grande número recém-liberta da escravidão, sem que lhe fosse oferecida moradia condigna e sequer o saneamento necessário.   Mas o Brasil, terra do Oswaldo Cruz, continua sendo um dos bastiões dessa luta. É preciso ajudar, cada um colocar o seu grãozinho de areia. As vacinas protegem e são de graça, ou, melhor dizendo: nós todos pagamos, por meio de impostos,  que nos retornam com os antivírus e nos são de direito!

Obrigado por tudo, enfermeiros!



 


sábado, 27 de março de 2021

SAÚDE!

 


Do latim salus, utis, no sentido de ‘salvação, conservação da vida’ [Houaiss], de onde ‘saudar’. Em várias línguas latinas, como o português, a palavra soa no mesmo tom: salud, em espanhol e salute, italiano, e costuma associar a nossa mente àquele brindar de champanhe, festas, coisas alegres, entretenimento fantasiado de alegria. Desejamos saúde também nos aniversários como o bem mais precioso da nossa existência, e antes do sucesso na carreira ou coisas materiais. Há quase um século, Mário de Andrade, o do Macunaíma, ironizou: “muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são” (interprete livremente a “saúva” como qualquer mal que destrói, e saúde nosso bem) maior).


Ser saudável, na concepção pós-moderna, é ser ‘sarado’, malhador, ter o corpo moldado, barriga de tanquinho, o que não impede este falso ideal romano de escamotear algum mal ou doença. Descartes (1596-1650) discorreu sobre o dualismo mente-corpo, abrindo nova visão sobre o monismo dos gregos - a unidade das partes. No passado, o poeta romano Juvenal (55/60 a 127 d.C. - ilustração), em sua Sátira X, tornava unas as duas esferas da vida: orandum est ut sit mens sana in corpore sano (ore por uma mente sã em um corpo são). Visão hoje nada ocidental, faz mais sentido entre os budistas, os taoístas e hinduístas. Nossa cultura foi bastante impregnada de filosofias como o hedonismo, o prazer como bem maior, hoje transbordando na indústria do consumo, do sexo como máquina de vender e de sentimentos materialistas como posse, poder e luxo.


Depois desta breve introdução, um assunto de extrema gravidade: no mundo, o Brasil, em particular, vive o que será o pior desastre sanitário, a pior das pandemias de sua história. Aqui morre-se nas filas dos corredores engarrafados de hospitais, faltam insumos, equipamentos e cilindros de oxigênio. Com o número de contágios e leitos ocupados, doentes internados ou em espera e óbitos em expansão, ainda falta pessoal, em todos os níveis de atendimento. Cenário dramático? Não, teratológico – dos entes monstruosos, do demo mesmo. Salve os profissionais engajados que purgam esse dia a dia, que têm um amor profundo pelo que fazem, arriscam suas vidas pela do próximo. Salve os voluntários ou empresas que, em diversos lugares, sozinhos ou organizadamente, em grupos, arrecadam alimentos como podem em quantidade ainda bastante tímida para enfrentar esta guerra. Dão de comer a vítimas da fome, aos desvalidos, descalços, aos que vivem em situação de rua, desempregados e famílias esfomeadas, por mais modesta que a ajuda seja. Que quadro dantesco ruiu sobre um país que merece tudo, pelo seu povo, sua linda natureza tão maltratada, sua miscigenação, riqueza única que se traduz nas artes como a pintura, a música, a dança, nas manifestações populares e tradições folclóricas!


Em sua longa experiência de luta contra endemias, epidemias e pandemias, o Brasil alcançou um pódio, o mundo inteiro reconhece. Devemos à luta de Oswaldo Cruz, desde 1904, essa tradição nacional da vacina como instituição e bandeira, o que nos faz admirados mundialmente. Recebi as vacinas de praxe, mesmo porque sem elas não poderia ser matriculado em escolas, e assim também foi com meus filhos. Essa cultura da vacina, como tantas outras iniciativas de sucesso, a exemplo do uso obrigatório de cinto de segurança, é parte de nossas vidas, e não está sujeita a ideologias, crenças, manias ou medos infundados, – muitas vezes sob estímulo de uns poucos. Se no início foram medidas coercitivas, hoje o dever tornou-se direito, os resultados estão na história e seus efeitos revertidos em prol da vida.


Há um aparato monumental a gerir a Saúde no país: ministério, secretarias, agências. A máquina pública - e louvemos nosso SUS, muitas vezes negligenciado - é gerida por pessoas, e delas depende: de sua competência, expertise, vontade e independência como agentes técnicos especializados. Para piorar, em nível federal, onde as ações deveriam ser centralizadas, em pouco mais de dois anos já tivemos 4 gestores: Mandetta, médico e político com vida útil de um ano e quatro meses que suportou os conflitos com as ingerências leigas e disparatadas do executivo; Teich, um médico tímido em tudo que ‘durou’ 29 dias; um general de exército, Pazuello, que não vai completar um ano na cadeira e cujo misterioso e longo processo de exoneração e substituição compromete mais ainda a conjuntura das operações. No lugar dele, um outro médico, Queiroga, forjado na ideologia oficial (se é que se pode chamar de ideologia), vem tentando maquiar com dúbias declarações o que realmente veio fazer: mais do mesmo. Mais da mesma negligência, inação, falta de prumo e rumo e nada da logística que se espera enérgica e contundente para combatermos a praga do século. Não será rezando por essa “cartilha”, a mesma do antecessor, como ele mesmo repetiu, que veremos alguma luz. Senhores, deixem as orações conosco e trabalhem.


Ante previsões apocalípticas de cientistas daqui e do exterior de até 4 mil óbitos diários no país em coisa de dois meses, o que nos restará? Encolhermos ante o medo até nos transformarmos em insetos, como na Metamorfose de Kafka, ou, em um ímpeto de loucura, lembrando Caetano, “abrir as janelas para que entrem todos os insetos” e flertar com o vírus? Pior ainda, como no tema do filme M.A.S.H.: “suicídio é indolor, ele traz muitas opções, e eu posso usá-las ou não, se eu quiser”? Nunca! O bem mais precioso do universo é e será a vida. Seguiremos na luta pela saúde, não importam os nomes das saúvas.



 

sábado, 13 de fevereiro de 2021

QUE TEM MEDO DO BICHO VACINA-PAPÃO?

 

Oswaldo Cruz e a Revolta das Vacinas 

Tenho acompanhado a trajetória das vacinas, como todo cidadão esclarecido. Coronavac, Pfizer, Moderna, Oxford, Sputnik V e outras. Todas elas têm suas peculiaridades, algumas vantagens e eventuais pontos negativos, mas sempre com um salto positivo em direção à erradicação da Covid-19. Trata-se, além de uma ‘guerra técnica’ de ampolas, de uma disputa econômica, nicho de uma mina de ouro. É o caso da vacina da Oxford-AstraZeneca, produzida na Inglaterra em uma cooperação anglo-sueca, que sofre um claro boicote e campanhas em países da União Europeia – obviamente, pinimba que é reflexo do Brexit.


Se há esta rixa político-econômica anglo-europeia, há outra de perfil pretensamente ideológico, preconceituosa até, de autoridades brasileiras contra a Coronavac chinesa, com ofensas de ministros e do próprio presidente via declarações de cor anedótica de não muito bom gosto: são xenofóbicas e antidiplomáticas. Por outro lado, a vacina é produzida no Brasil pelo Instituto Butantan da USP, o que faz dela um cavalo de batalha para Brasília, que estrategicamente é mais simpática à da PfizerBioNTech, produzida pela Fiocruz de Manguinhos, no Rio, munição para um embate de conotação político-eleitoral entre Brasília e o governo de São Paulo.

FioCruz

Uma questão intrigante: a rejeição da ideia da imunização por 22% do povo, talvez bastante baixa tendo-se em conta autoridades em campanha velada contra vacinas, mesmo se ridicularizadas pela imprensa estrangeira (o France 24, em 18/12/20, estampou: “Bolsonaro, do Brasil, alerta que vírus pode transformar pessoas em jacarés”, entre outras coisas). Os 22% dos brasileiros que não aceitam tomar a vacina estão em uma pesquisa Datafolha divulgada pela Isto É Dinheiro, que também ressalta que este percentual subiu absurdamente, desde os 9% registrados pelo mesmo instituto em agosto do ano passado. A mudança reflete a  sinofobia cega estimulada ‘de cima’ contra a Coronavac - apesar de todos aparelhos, componentes eletrônicos, roupas e insumos químicos chineses para remédios genéricos consumidos aos milhões diariamente no Brasil. Daqui passo de novo à Europa, desta vez à França, para buscar entender a rejeição em cada país.


Segundo o Euronews (9/12/2020), é consenso que 70% de vacinados são o número mínimo para que a imunização atinja efeito global contra a pandemia, e que os europeus estão entre os povos mais céticos quanto à imunização. Uma pesquisa reporta que os poloneses são dos mais radicais no mundo entre os que negam a vacina; também entre os povos mais céticos estão os franceses, com apenas 59% acenando que aceitariam a vacina apenas em caso de comprovada segurança e eficácia do produto, seja lá o que isso for, além do que tem sido divulgado. Espantosamente, a favor da vacina, ainda segundo o Euronews, os brasileiros contabilizam 85,36%, em primeiro lugar, seguidos pelos sul-coreanos, com 79,79%, México, com 76,25%, e EUA, 75,42, uma escala descendente de confiança na imunização em que a ‘lanterna’ fica com a Rússia, com 54,85%.


Em sexto lugar na lista dos descrentes das vacinas, a Espanha, com 54,3%, um dos países mais afetados pelo vírus, vive uma peculiaridade estratégica: o governo está preparando uma lista fechada com o registro de pessoas que se recusam a serem vacinadas. Os dados serão divididos com outros países da União Europeia, disse o ministro da Saúde Salvador Illa (foto), informou a BBC News (29/12/20). O ministro enfatizou que a vacinação não será compulsória, mas fica claro que o registro comum na UE é uma forma coercitiva de fazer o cidadão procurar a vacina – tanto é que, desde o anúncio de que haverá esse controle e a comunicação aos órgãos de saúde dos países europeus, os 54,3% de novembro despencaram subitamente para espantosos 28%. 


Há uma questão cultural envolvida, certa tradição antivacina em diversos segmentos de vários países. Uma amiga de origem inglesa, ao invés de levar os filhos ao posto de saúde para se vacinarem contra o sarampo, seguiu certa orientação paralela não-ortodoxa para procurar saber quais amiguinhos deles estavam em casa com a doença, e daí provocar o contato entre as crianças – mesmo que, como se sabe, nenhum contágio – fora o risco! - é tão eficiente quanto a imunização. Uma amiga francesa seguia a mesma ideia. Como todo bom gaulês, admirava coisas esotéricas e magias, a ponto de deixar o Brasil de volta para Paris já ungida mãe de santo, lá começando a jogar búzios, fazer adivinhações e até prometer a cura de doenças ou um amor de volta. Talvez o povo com maior número de leitores do “mago” Paulo Coelho, criador de histórias mágicas, fantásticas e esotéricas, seja o francês. A própria cultura da França é milenarmente rica em duendes, faunos, feiticeiros e perseguições reais a supostos bruxos e bruxas, como aconteceu com Jeanne D’Arc (1431).


No Brasil, fui imunizado contra diversas moléstias - a carteirinha de vacinação era exigida quando da matrícula nas escolas. Assim foi com meus filhos, e essa “compulsoriedade indireta” passou a fazer parte de nossa cultura, sem nunca mais ser questionada. Daí esses 22% de antivacinas representarem bem acima do que deveria se o estímulo à não-vacinação e contra a quarentena, patrocinado de maneira não-oficial pelo Executivo como catalisador das mentes enfraquecidas, via declarações e redes sociais. Com a vacina precoce, rígidos protocolos sanitários e ação enérgica pelos governos, já estaríamos com a pandemia sob controle.

 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

A GUERRA DAS VACINAS

 


Era o ano de 1904. Presidente da República, Rodrigues Alves ainda enfrentava os ranços da ditadura de Floriano Peixoto, que já vinha de Deodoro, tempos eivados pelo forte estigma positivista de Comte e Durkheim. O grande médico sanitarista Oswaldo Cruz liderava uma campanha de vacinação em massa contra o vírus da varíola, doença que matava em 30% dos casos e deixava os sobreviventes com sequelas como cegueira e bolhas, feridas e cicatrizes pelo corpo. Houve campanha mundial de vacinação em massa, mas a OMS somente veio a declarar a doença extinta em 1980.


Por trás do movimento que ocasionou uma rebelião popular, chamada Revolta da Vacina, havia uma trama dos velhos positivistas para deflagrar um golpe de Estado, estimulando o movimento na capital da República, Rio de Janeiro. O povo, insuflado, não se conteve e foi às ruas: uma lei imporia aos cidadãos não-vacinados uma série de restrições, tais como viagens, empregos, matrículas em escolas e até casamentos. O país já estava assolado pela febre amarela e a peste bubônica, e o medo da vacina antivariólica balançava sobre a cabeça do povo como a espada de Dâmocles. O golpe de Estado aconteceu, levou 30 vidas, centenas à prisão e deportou outros tantos. Mas teve vida curta: oito dias.


Um século e quinze anos depois, sobre um outro vírus, o SARS-CoV-2, ou Covid-19, no dia 25 de novembro de 2020 o conceituado jornal norte-americano The New York Times publicou matéria intitulada “Depois de admitir erro, AstraZeneca enfrenta difíceis questões sobre sua vacina”, e disse que “alguns dos participantes do experimento somente receberam uma dose parcial da vacina”. E mais: “especialistas disseram que a divulgação irregular pela farmacêutica comprometeu a confiança”. Importante lembrar que o NY Times é um jornal americano e que a vacina da AstraZeneca uma parceria privada com a Universidade de Oxford, menina dos olhos dos ingleses na pesquisa contra o vírus.

Sir John Bell

No dia seguinte, 26 de novembro, foi a vez do jornal britânico The Guardian noticiar: “Vacina Oxford/AstraZeneca será submetida a novo teste global”, e, completando, “críticos questionam a informação de que ela poderia proteger até 90% das pessoas contra o coronavírus”. Sir John Bell, assessor do governo para assuntos de saúde e professor emérito de medicina, segundo o jornal, desmentiu as informações de que o teste anterior não havia sido corretamente aplicado ou reportado, e disse, literalmente, que “nós não estaríamos ‘cozinhando’ isso enquanto seguíamos em frente”, e que esperava que informações completas e abalizadas por analistas seriam publicadas no jornal de medicina Lancet, no fim de semana”.

Instituto de Ciências Biológicas/USP

Logo no dia seguinte, 27 de novembro, o The Times noticiou: “Antivacinas exploram confusão sobre a vacina de Oxford”: “militantes antivacinação apegam-se à crítica feita à AstraZeneca para respaldar teorias não fundamentadas sobre segurança, e argumentaram que falhas nos experimentos poderiam causar prejuízo à ciência”. De um lado, um noticiário mais azedo do americano NYT, e do outro uma velada defesa da vacina de Oxford pelo britânico The Times. Enquanto isso, entrava um tertius na briga, o grupo antivacina. No Brasil, a microbiologista Natália Pasternak, do ICB/USP e presidente do IQC, apresentou, no Estadão de 27 de novembro,  uma opinião mais técnica, não-política, dizendo que os voluntários a que se refere a suposta falha do consórcio deveriam ter sido simplesmente excluídos da experiência (o que nos induz a crer que a falha ainda poderia ser corrigida).

Sputnik 5

Enquanto a Rússia mantém sob um véu sua vacina, a Sputnik-5 (nome do primeiro satélite a levar animais ao espaço), a China entra em estágio de finalização para a fase 3 da CoronaVac. Enquanto o mundo avança e o que se vê é uma “guerra mundial das vacinas” e uma corrida pela cura, por aqui há uma queda de braço entre os governos federal, via Anvisa, e do estado de São Paulo, que tem o modelo chinês como seu futuro grande trunfo político. Trata-se de uma guerra particular, talvez uma batalha intestina dentro de um conflito de ampla escala, uma disputa estratégica em que os dois governantes travam um embate cujo maior prejudicado será o povo, caso haja obstruções, impedimento ou procrastinação sem motivos científicos de rigor que embasem a Agência de Vigilância.

Sede da Pfizer nos EUA

Enquanto isso, seguem em paz a Johnson & Johnson e a Pfizer americanas, esta última com uma das maiores farmacêuticas do mundo, com sede em NY, receita anual de US$ 51,75 bilhões e ativos de US$ 167,489 bilhões em 2019 (perto de um trilhão de Reais). Em 1987, Gilberto Gil profetizava em uma música, coincidentemente batizada Lunik-9: “Guerra diferente / das tradicionais / guerra de astronautas / nos espaços siderais”. Não, ainda não chegamos a esta modalidade, mas sim a outra, uma espécie de guerra fria do capital, do poder, do lucro e das ambições de governantes, da disputa pela prevalência de um país sobre o outro, uma Guerra Mundial das Vacinas.

Oswaldo Cruz

A disputa de âmbito nacional torna-se uma questão política, talvez uma Batalha das vacinas. E o célebre Oswaldo Cruz, herói brasileiro na campanha de 1904, que dá nome à FioCruz, sede brasileira da AstraZeneca/Oxford e um dos dois maiores centros de pesquisa sobre Covid no país, amargaria ver tanta disputa, tanta ganância e tanta política, e, entrando em campo pela linha de fundo, os velhos antivacinas – e não mais os positivistas do início do século 20, mas os novos donos de outras bandeiras tão retrógradas quanto as deles.