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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

AOS MÚSICOS E AMANTES DA MÚSICA - PARTE II

(Continuação da Parte I, disponível no link à direita)Ideias se desenvolvendo, fui tomado de uma outra intenção, um depoimento sobre a condição do músico: dificuldade de estudar, insegurança profissional, precária organização das instituições e o descaso geral, sem esquecer a visão preconceituosa. Chega a surpreender que até hoje ainda existam música popular de qualidade e orquestras sinfônicas no país, fora a enorme produção de mau gosto imposta goela abaixo pelas mecas televisivas.
Um pouco de brincadeira, curiosidade, reflexão e algo de autobiografia, se além de diversão introduzir elementos musicais e ajudar o leitor a ter um quadro mais claro sobre a profissão do músico, estarei satisfeito. Preocupei-me com a reação de pessoas ou seus familiares, mas o estigma do exótico está tão incorporado à trajetória do músico que em geral o artista se diverte com o folclore criado sobre si mesmo. Qual filho não riu das maluquices do pai músico? E as estranhezas de seu vizinho compositor? Que artista pode autoproclamar-se absolutamente sério? (Em inglês, francês e alemão tocar é to play, jouer e spiel, respectivamente, que também significam brincar).
Professor de música, era natural que eu começasse a esboçar certa preocupação didática. Se for possível distrair o leitor que possui algum conhecimento musical, por que não aproveitar para enriquecê-lo com algumas pitadas de expressões técnicas ou fatos relevantes? Entre a história e a estória, concluí que a própria bibliografia já nos havia legado um ótimo repertório de curiosidades, até mesmo nos livros e compêndios ditos “sérios” sobre História da Música, onde o anedótico se veste com o charme do pitoresco. Procurei ser didático citando nomes, sempre com a preocupação de informar sobre datas, locais, obras, expressões técnicas e mesmo certo tipo de gíria profissional.
Revisitei livros e anotações em busca de informações já incorporadas ao folclore do músico, despertando minha memória oculta. Estórias que havia lido, vivido ou ouvido começaram a pipocar em minha cabeça. Usava um minigravador durante as longas horas que passava diariamente no trânsito congestionado de São Paulo.

Adoniran e o Trem das Onze
Artigos da imprensa, bate-papos, páginas de livros e anedotas, tudo se transformou em fonte. Por isso, longe deste texto o chamado rigor científico, são meras reflexões! (O apresentador de Rádio e TV Flávio Cavalcanti deliciava-se em encontrar erros nas letras das músicas. Quebrou o disco do Adoniran Barbosa (1910-1982) porque foi checar aquele famoso "se eu perder esse trem que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã" e, ao vivo, ligou e descobriu que havia mais duas viagens, a próxima às onze e meia. O desastrado rigor científico de Cavalcanti quebrou-lhe o disco ao vivo e se esqueceu de que o trem das onze poderia ser uma mentirinha do filho mimado para despedir-se da amada e voltar para casa).
Mesmo em vista da informalidade do texto, convém lembrar fontes como as cartas pessoais de grandes compositores, reproduzidas em livros como Appassionata, de Kurt Pahlen. No Conselho Municipal de Cultura de São Paulo conheci o operófilo Edson Lima, que me emprestou um livro raro, Risos e Lágrimas no Mundo da Música, de Gumercindo Saraiva, algo como as Curiosidades publicadas nos anos 1950 por Letícia Pagano. Mais lágrimas do que risos, com jeito de almanaque, Saraiva trouxe algumas estórias que pude confirmar, inspirando o bom humor do texto.
O amigo Aylton Escobar tinha um curso de pós de História da Regência, na USP,essencial para o texto sobre maestros. Músico instigante, de cultura e inteligência fora do comum, Escobar foi peça decisiva para a compreensão do regente e tudo o que é preciso para ser um deles. Fora, é claro, saber reger.
Mário de Andrade
Gostaria de ter usado a linguagem irreverente do Mário de Andrade. Infelizmente, faltou-me o talento do mestre, mas espero, inspirado nele, ter criado uma leitura agradável. Mário não freava aqueles pensamentos que às vezes nos assaltam quando lemos sobre a história chamada ‘séria’. Deixei escapar expressões como "coisa de maluco". (O filósofo e musicólogo alemão Theodor Adorno escreve "ridículo" e "o som eunucóide da jazz band com naturalidade).
Sid Vicious
Minhas desculpas aos eruditos encasacados, cujos cabelos poderão ficar arrepiados diante da simples menção a nomes como Sid Vicious, do Sex Pistols, ou Kurt Kobain, do Nirvana, entre outros. Vicious, como músico, foi muito fraco, mas é personagem muito importante para se compreender o comportamento de um artista no chamado fundo do poço.  

As referências desde já serão abandonadas definitivamente, A matéria-prima sobre a qual se fundamenta este texto, reside basicamente em minha memória, na vida de músico e professor. Informações foram colhidas nas mais diversas fontes. Fatos do passado podem mesclar-se a outros recentes, e tome situações, causos e anedotas ouvidos em bate-papos ao longo de muitos anos nessa divertida estrada - como os personagens circenses do filme La Strada, de Felini - de músico. O mundo está em crise e o país à deriva, mas a música tem o condão de fazer mais suaves nossos pesadelos - assim como fez Wallace Hartley, do Titanic, que não parou a valsa enquanto o navio afundava.
Homenageio os colegas músicos, que se divertem mas amargam o dito “orquestra é como sítio, só tem duas alegrias: quando a gente entra e quando sai”. No fundo, a lida musical diverte, mas faz sofrer. Cantam em uníssono samba e fado: a gente vai levando, navegar é preciso.

[Terminada a segunda parte da introdução, em breve passarei ao texto propriamente dito - a parte mais divertida das estórias]

sábado, 16 de setembro de 2017

PARA MÚSICOS E AMANTES DA MÚSICA – PARTE I

O Aurélio acha que tudo deve ser história com agá, mas prefiro reforçar o caráter do texto com estória mesmo. Já o Houaiss identifica estória como “narrativa de cunho popular e tradicional.” (Os ingleses, corretamente, não abriram mão de story, que é bem diferente de history). Posso justificar essa escolha. A ideia de escrever este texto vinha sendo acalentada há tempos, e quase que partiu do título. Desde o início da minha carreira, seja nos conjuntos de Música Popular e orquestras, e mesmo durante os muitos anos de estudo, pude somar experiências, estórias e situações inusitadas, tão particulares do músico. Com o passar dos anos, passei a temer que essas informações pudessem se perder, pois amontoaram-se em minha memória e, por falta de espaço, muita coisa já estava sendo deletada (ah, esses neologismos de hoje).

Músicos senegaleses em bate-papo 
Conversar fiado sempre foi uma das atividades favoritas dos músicos, quando longe de seus instrumentos. O bate-papo nos bastidores, camarins ou esquinas, além de divertir servia também para saber de algum disco recente, o estilo de alguma estrela do jazz ou da regência, a performance de algum colega ou mesmo técnicas para execução de uma ou outra passagem musical. Esses assuntos, apesar de informais, com o passar do tempo acabam por se fundir, com naturalidade, no panelão da História (com agá) da Música, com seus aspectos mais insólitos e pitorescos.

Aproveitando essa interação entre formalidade e informalidade, aviso aos navegantes que grafo Música e Cultura com a inicial maiúscula ao invés de minúscula. Conforme o caso, prefiro música e cultura, assim mesmo, e por igual razão escrevo maestro ou Maestro, a depender do regente (essa última, por sua vez, é uma palavra que para mim implica em mero gerúndio, aquele que está regendo. Um Maestro é um Mestre).
PDQ Bach (fictício)
Para melhor esclarecer essas peculiaridades do texto, deve-se lembrar do inesgotável repertório de anedotas sobre a classe. Mesmo sabendo que boa parte foi extraída de casos reais, mas acabou inserida nesse verdadeiro folclore pelas mãos mágicas do tempo. Por isso neste texto qualquer semelhança entre a história e fatos ou pessoas verdadeiras na maioria das vezes não é mera coincidência.

O anedotárío sobre músicos é parte integrante do dia a dia dos profissionais, e cada orquestra tem seu piadista de plantão - como o violinista Rastelli, da Sinfônica de Campinas. Era no mínimo uma nova por dia (impossível conhecer tantas, devia inventar). Certo dia, durante um intervalo entre ensaios, no City Bar – então bar de média categoria e hoje point  e must em frente ao Centro de Convivência -, Rastelli, cercado por colegas junto ao balcão, disse: "Hoje vou contar uma de português". Do outro lado o antigo dono do bar, exclamou, irritado: "Pois não estás a ver que sou português?' Rapidamente, Rastelli retrucou: "Não tem problema, se não entenderes eu conto de novo".

O irreverente grande maestro e piadista Hans Von Büllow
Deixando de lado por enquanto o anedotárío, o conhecimento de fatos pitorescos da vida de instrumentistas, regentes e compositores é parte da vida do músico, costume que não vem de pouco tempo: talvez finque raízes em épocas tão remotas quanto as das manifestações artísticas mais primitivas (o grande Maestro Hans von Büllow costumava dizer: “No princípio era o ritmo").

Inicialmente, para este texto, passei a registrar as estórias de forma mais ou menos aleatória, do jeito que emergiam à lembrança, esperando que alguma hora eu pudesse concatená-las sem o risco de privá-las da naturalidade com que foram surgindo. Quando esses fatos, causos e anedotas começaram a se encadear, esboçaram-se tamanhas semelhanças entre eles que o texto passou a tomar corpo de forma natural, agrupando-os em frases, parágrafos e capítulos, como em uma composição musical: entretela de temas, variações, desenvolvimentos, recapitulações, seções e finalmente movimentos. As ideias foram se sucedendo, em improviso, tecendo aqui e ali verdadeiras cadências musicais.

Muito embora minhas reflexões tentem respeitar certa cronologia, torna-se necessário com frequência preterir o tempo em favor do sentido universal que empresto ao texto. Colaboram para quebrar a sequência histórica a interferência de fatos recentes nas descrições de acontecimentos do passado longínquo e vice-versa. Posso dizer que o verdadeiro Leitmotiv do livro é a personalidade ímpar dos músicos, nem tanto sua história ou sua obra.
Gossips - Rockwell 1944
Outra característica importante a ressaltar é o aspecto da transmissão oral (gosto de dizer: aural, de aura) de boa parte dessas informações. Muitos fatos e situações narrados - seja por simples lembrança ou complementados por pesquisa - surgiram do registro de relatos ouvidos e vividos, de uma forma ou de outra também passados adiante em corrente e gravados na memória de uma verdadeira teia de interlocutores.

Consciente de que interpretava fatos que pertencem tanto a vivências pessoais quanto ao patrimônio tombado da música universal, uma vez que o trabalho tomou corpo surgiu uma natural preocupação com os personagens que surgiam em cena. Situações passam a tomar um colorido especial, dando lugar à imaginação de quem as descreve - pois isso não é interpretar? Preocupava-me, entretanto, o fato de que as estórias narradas - sujeitas, é claro, a versões - traziam frequentemente nomes de pessoas vivas e situações reais. Explico: a natureza dos causos chega, às vezes, ao absurdo, e não raro desnuda situações francamente vexatórias, surrealistas ou até mesmo pornográficas. Essas últimas, por vício corporativista e preservando certo decoro da classe, tratarei de mascarar e deixarei de pormenorizar.

[Continua na próxima edição]

sábado, 9 de setembro de 2017

SAUDADE, SAUDADAR

Reza a lenda que saudade é palavra que só existe em português, e, nas águas do nosso ufanismo hoje meio em baixa, só cá no Brasil. Mas ela também existe em outras línguas latinas, como o espanhol, añoranza, nostalgia, morriña; com o mesmo sentido, rimpianto, em italiano, ou regret, em francês. O curioso é que em romeno, língua neolatina, saudade é “dor”, o que vem de encontro ao que vamos ver, no uso em português. Mesmo não sendo língua latina, na Alemanha, que tem palavra para tudo, e se não há, criam – “terra em que se juntando tudo dá”, lembraria Vaz de Caminha –, saudade está lá, em Sehnsucht. Mas, que pena, não temos o verbo ‘saudadar’ em nosso idioma, nisso perdemos para o inglês, to miss, e o alemão, vermissen (sentir falta de), que tem ambos, verbo e substantivo!
O meu amigo e linguista Deonísio da Silva, lido por estudiosos e escritores, traz algumas observações valiosas sobre a saudade (De Onde Vêm as Palavras. RJ: Lexicon, 2014. 17ª ed.):  “do latim solitate, solidão. No português arcaico, deu origem a ‘soedade’ ‘soidade’, ‘suidade’”, embora, ressalta ele, não haja unanimidade entre os etimologistas (estudiosos da origem das palavras). Silva mostra outra pérola: “Em árabe, as palavras suad, saudá, e suaidá têm significado dramático, algo como “sangue pisado e preto no coração”. Ai, a saudade dói!
Casimiro de Abreu
Tão repleta de significados, a saudade da Pátria, da terra natal, da infância, tem sentido todo especial – tanto em são Paulo, onde é frequente dizer tenho ‘saudades’ ou ‘ciúmes’, e no Rio, Minas e Bahia, elas costumam aparecer no singular. O poeta carioca Casimiro de Abreu (1839-1860) escreveu um poema que todos conhecem, “A Saudade da Pátria e da Infância”, inspirado em Gonçalves Dias: “Oh! Que saudades eu tenho / da aurora da minha vida / da minha infância querida / que os anos não trazem mais! / Naquelas tardes fagueiras / à sombra das bananeiras / debaixo dos laranjais”. O irreverente modernista Oswald de Andrade (1890-1954) parodiou Abreu com fina picardia, em Meus Oito Anos: “Oh que saudades que eu tenho / da aurora da minha vida / (...) debaixo da bananeira / sem nenhum laranjais / (...) Eu tinha doces visões / da cocaína de infância...” Saudade de sua terra tinha Caimmy: “Ah, mas que saudade eu tenho da Bahia / ah, se eu escutasse o que mamãe dizia”, cantou ele. Que, como todo baiano, amava seu torrão apaixonadamente.
Um bom livro do meu pai
Há saudade de boas lembranças, dos grandes amores, dos bons momentos com os entes queridos que já não nos ladeiam. Do amor há a letra do imbatível Vinicius, com Carlos Lyra, em Primavera: “O meu amor sozinho / é assim como um jardim sem flor / só queria poder / ir dizer a ela / como é triste se sentir / saudade”. ‘Um jardim sem flor’, um coração vazio (em inglês, broken heart: quebrado, partido). A tristeza de não ver florir a paisagem, entregue à solidão e uma derradeira tristeza. Solidão Solitude é um livro de meu pai, Autran Dourado, publicado em 1972, que conta histórias tristes escritas mais de 20 anos antes. Várias refletem momentos da vida dele, alguns bem ruins, e outras remetem a personagens fictícios. A solidão é o irmão mais velho da saudade. 

Trata-se da mesma melancolia expressa pelo “Poetinha”, com Jobim, em Chega de Saudade (1958), talvez a pedra fundamental da bossa-nova: “Chega de saudade / a realidade / é que sem ela não há paz, não há beleza / é só tristeza / que não sai de mim, não sai”. Está tudo lá: quando o Poetinha fala de saudade, a tonalidade da canção é menor, que é geralmente preferida para expressar sentimentos como tristeza. E modula (passa) para tom maior, na segunda parte, que ajuda a expressar alegria, um rasgo de esperança a reavivar o coração: “Mas, se ela voltar / se ela voltar, que coisa linda / que coisa louca”. Melodia e harmonia falam com a letra. E todas juntas, em coro, cantam a saudade.

João de Barro
Em 1948, João de Barro - coautor, com Pixinguinha, do imortal choro Carinhoso - compôs, com Antonio Almeida, a singela toada A Saudade Mata a Gente, com gosto das coisas do campo: “...e na rede, nas noites de frio / meu bem me abraçava pra me agasalhar / (...) A saudade é dor pungente, morena / a saudade mata a gente, morena” (lembra a suad árabe, “sangue pisado e preto no coração”).

Dolorida também é a saudade pintada por Chico Buarque em Pedaço de Mim, décadas depois de João de Barro: “Oh, pedaço de mim / Oh, metade afastada de mim”, para ilustrar assim seu sofrimento: “...que a saudade dói como um barco / que aos poucos descreve um arco / e evita atracar no cais”. O desenho de um arco no mar é raro achado, coisa da erudição do compositor e de sua habilidade de escrever.


Falamos, há dias, de fé, e agora de saudade. Como é difícil tentar expressar alguma coisa a respeito de fé, credo, algo que se tem ou não, e, caso não, pode-se sempre vir a ter em um átimo. Tudo o que se puder escrever sobre ela não é mais do que uma gota no oceano que a palavra encerra. Tanto é que ainda não se concluiu nada, nem haverá de ser, à altura de sua natureza divina. E a saudade é um sentimento terreno, mas como avança sobre caminhos do coração torna-se igualmente difícil descrever, pensar com objetividade, o que só podemos tratar nos assuntos materiais. E cada um vê a saudade da cor que quer: Noel Rosa, após o funeral de sua mãe, foi para casa e vestiu-se, chapéu e camisa florida, direto para o boteco, para curtir sua fossa no velho conhaque. Alguém passou, viu, e lascou uma severa reprimenda: “Noel, cruzes, sua mãe acaba de ser enterrada e você aí no boteco, e com camisa colorida! Você deveria estar de luto!” Noel pegou sua caixinha de fósforos e improvisou: “luxo preto é vaidade / nesse turbilhão de dor / o meu luto é a saudade / e saudade não tem cor”. Percepção do gênio.

sábado, 2 de setembro de 2017

Palavra difícil, e infinita. Do latim fides, de onde fidelidade, confidência, fidedigno, é confiança em uma verdade sem necessidade de prova, uma vez que convicção de natureza pessoal. A "fidelidade amorosa”, para o linguista Deonísio da Silva, “é insistentemente requerida entre os amantes”. Trata-se, portanto, de palavra dissociada de ciência, tanto que assim está dela distinta no binômio fides et scientia. (Mas correm paralelas: “Ciência sem religião é imperfeita, religião sem ciência é cega”, disse Albert Einstein).

Segundo o Houaiss, consiste em uma das três primeiras virtudes teológicas, “pela qual o homem aceita as verdades reveladas por Deus”. No uso laico, é “confiança absoluta em alguém ou algo”, e, para a filosofia, “crença religiosa sem fundamento em argumentos racionais, embora eventualmente alcançando verdades compatíveis com aquelas obtidas por meio da razão”.

Francis John Wade
Na liturgia latina, o ‘credo’ (de credum in unum deum patrem, ‘creio em um Deus Pai’) é a terceira parte do Ordinário da missa, geralmente entoada entre o Evangelho e o Ofertório. Adeste Fideles (Vinde, Fieis), canção de Natal surrupiada pelo rei D. João IV, que a proclamou de sua autoria, chegou a ser Hino de Portugal, mas foi composta por John Wade no século 18: “Vinde, fieis, alegres e triunfantes / vinde, vinde para Belém / vejam o nascido Rei dos anjos / (...) Vinde, adoremos ao Senhor”. Esta canção só podia ser executada em locais autorizados, uma vez que o compositor era católico e a Inglaterra Anglicana. Em Portugal, deu lugar a ‘A Portuguesa’, de Lopes de Mendonça e Alfredo Keil, oficializada como Hino Pátrio em 1911: “Heróis do mar, nobre povo / nação valente, imortal / (...) Entre as brumas da memória / Ó Pátria, sente-se a voz”.

Do ponto de vista legal, fé significa “credibilidade que deve ser dada ao documento no qual se funda”. O tabelião anota: “o referido é verdade e dou fé” (presunção de autenticidade), uma vez que a pessoa investida do cargo tem “fé pública”. Entre os judeus, fé é emunah, acima de dogmas, e tem um sentido profundo na longa tradição hebraica. Está arraigada no sangue e nunca abandonada na tortuosa história de perseguições e peregrinações de seu povo desde a mais remota origem, pela própria natureza.

Na música popular, a fé está presente sob diversas formas, porém mais comumente no sentido religioso, como em Andar com Fé, de Gilberto Gil: “Andá com fé eu vou / que a fé não costuma faiá / que a fé tá na mulher / a fé tá na cobra coral / Oh, Oh, num pedaço de pão”. Para Milton Nascimento e Beto Guedes, a fé é a bússola, que guia todos em seus caminhos: “Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada / (...) vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada/ o brilho cego de paixão e fé, faca amolada”. A paixão e a fé brilham como uma lâmina! A letra faz mais referências bíblicas: “Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia / beber o vinho e renascer na luz de todo dia”, levando-nos com clareza ao pão e o vinho, símbolos do corpo e do sangue de Cristo, por Ele repartidos na última ceia (“tomai e comei”, “tomai e bebei”).

Na poesia, a fé aparece nos escritos pagãos, fora dos círculos religiosos, especialmente quando se fala de relações amorosas. Ora, existe declaração mais feliz do que o Soneto de Fidelidade, do Vinicius? “Que não seja imortal, posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure”. Ou, quase que prosa, também do ‘Poetinha’, como o chamava Jobim, em Da Fidelidade: “Há alguma coisa maior que nós mesmos, que é a fidelidade a nós mesmos. Flor espantosa que vive das águas cáusticas e das terras apodrecidas da prodigiosa extensão humana”.

Fidelio: frontispício
Fidelis, de fiel, sincero, na Igreja Católica dá nome a um santo: Fidélis de Sigmaringa (Sigmaringen), adversário do calvinismo, da Ordem dos Capuchinhos e jurista, que é celebrado em 24 de abril. De Fidelis também veio Fidelio, que inspirou Beethoven na linda música homônima para a ópera com texto de Sonnleithner e Georg Treitsche, baseado em Léonore ou l’Amour Conjugal, sobre drama de Bouilly. Léonore, disfarçada de homem, conseguiu entrar em uma prisão de Tours, durante a Revolução Francesa, com o intento de libertar seu amado.

Fidel e o superior da Igreja Ortodoxa
Após o fracasso da estreia (1805), em Viena, Beethoven fez inúmeras modificações e trocou o título. Chegou a ter três versões: Leonore I, II e III – esta última tem a abertura considerada a mais bela, e com certeza a melhor de todas, e, confesso, particularmente a mais prazerosa de se tocar. Renomeada Fidelio, a ópera finalmente obteve grande sucesso na estreia de 1814, anos depois da primeira versão. De Fidelio, também, vem Fidel, como o próprio Castro cubano, de família católica, que estudou em colégios Jesuítas de Havana, sempre expulso por mau comportamento.


Esta aparente contradição do longevo ditador cubano é muito bem espelhada em Frei Betto, que teve nada menos do que 2 milhões de exemplares de seu “Fidel e a Religião” vendidos em Cuba, país com menos de 12 milhões de habitantes – edição seguramente subsidiada pelo regime. Entre questões de fé, não há contradições: ela tanto pode surgir como dúvida na vida de padres, pastores ou outros, quanto, até, significar uma ‘recaída’ entre ateus, caso de alguns que conheci, fato que geralmente acontece em idade mais avançada. E há muitos casos de conversão de materialistas históricos. Talvez porque, não conseguindo explicar o sentido de toda uma vida trilhada, desistem de fazê-lo via scientia, terminam por acatar os desígnios impenetráveis da fides.  

sábado, 26 de agosto de 2017

O LATROCÍNIO E O POLITICAMENTE CORRETO


Direito não é o meu ramo, mas procuro entender um pouco para aqui viver (“o Brasil não é para principiantes”, dizia Tom Jobim). Há o ‘politicamente correto’, no dia a dia, mas não sei o porquê desse ‘adocicar’ tudo. Vejamos o latrocínio. Código Penal, Art. 157, § 3º: “Se da violência resulta morte, a reclusão é de 20 a 30 anos, sem direito da multa”. Ora, se não tenho o douto saber, uso a lógica para questionar a redação: ‘morte morrida ou morte matada’, como se diz no popular? Se a morte é ‘matada’ tem de haver dolo, intenção de matar a vítima, e aí se configura o latrocínio. Se ela é um idoso cardíaco que enfarta no ato do roubo, o assaltante está quase lindo, leve e... logo solto, pois houve ‘apenas’ um assalto.

O Código de 1940
Dizem que latrocínio é ‘roubo seguido de morte’: o criminoso roubou a vítima, e depois a matou. Daí a dialética impõe a inversão da ordem - e se houve morte seguida de roubo? Não é latrocínio? Aparentemente não. Mas é. O que parece uma simples omissão vem explicado mais abaixo no mesmo artigo. A depender do citado § 3º, não, mas, ora, pois é sim. Uma primeira variável: se o bandido armado, com o produto do roubo na mão, desiste ou não logra matar, isso configura o quê? Claro, um roubo simples, na falta do ‘crime de morte’. A segunda variável: o assassino, no afã de despistar sua autoria, leva objetos de valor da vítima assassinada, cena de um roubo aparente para esconder uma vendeta - vingança por desavença ou motivo passional.

Resumindo, o latrocínio não integra as estatísticas de homicídios porque houve roubo! Simples assim. Ora, diz o bom português que tirar a vida de alguém é homicídio e ponto. A estatística serve para uma conclusão ‘politicamente correta’, e está aí a língua portuguesa que não me deixa mentir. Por que não é robbery with homicide (‘roubo com homicídio’), como nos EUA? Aqui seria o Art. 157 combinado com o caput do 121 e suas agravantes, ponto.

Em Goiás (ver imagem ao lado), o aumento do número de latrocínios foi da ordem de 18,5%, enquanto o de homicídios dolosos 3,6%. Em bom português, s.m.j. (salvo melhor juízo), o aumento no número de homicídios foi de 22,1%. Já no Estadão de sábado, dia 18/08/17, há estatísticas referentes a São Paulo em matéria do caderno ‘Metrópole’ – “Latrocínio atinge maior patamar em 14 anos”: São Paulo teve 237 casos de ‘roubo seguido de morte’ até julho deste ano. Logo ao lado, lê-se: “Já homicídio tem em julho menor taxa desde 2001”, ou seja, a balança desequilibra bruscamente para o roubo nos homicídios. Uma autoridade nacional chegou a afirmar que “o latrocínio é o roubo mal sucedido”!

Heitor dos Prazeres
‘Politicamente incorretos’, um negro, Heitor dos Prazeres, compôs e uma negra, Zaíra de Oliveira, gravou Meu Pretinho (de 1931, disponível no blog do amigo Luís Antonio de Almeida, em www.mis.rj.gov.br/blog/meupretinho/). Que tal Preta, Pretinha, dos Novos Baianos, o mesmo jeito dengoso de chamar um amor? Hoje seriam devidamente ‘limados’ pela patrulha? E por que nos EUA, com histórico de escravidão como aqui, diz-se Black Music, Black Power? O negro lá só tem horror de ser chamado nigger, que o associa à Nigéria dos escravos do passado - “A mulher é o nigger do mundo”, compôs Lennon. Por isso, eles preferem ser blacks (cena em NY: “Como prefere o seu café, senhor? Black, pedi, para evitar aquele aguado “chafé”. A garçonete abriu um lindo sorriso e esfregou o indicador no outro braço: “assim como eu?” Eu disse: “yeeeessss”. Feliz, trouxe-me o café, que simpatia!). 

Upa, Neguinho, de Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo, era uma espécie de intermezzo da peça Arena Conta Zumbi (1965), da dupla. Insistente, à diva Elis Regina foi permitido mudar até partes da música, criar breques e colocar vírgula no título, fazendo da composição música à parte, aliás um de seus maiores sucessos. Nego algum - como se diz no popular, independentemente de raça - reclamou.  Tributo a Martin Luther King, de Ronaldo Bôscoli e Simonal, foi grande sucesso na voz do segundo, homenagem ao líder negro americano que exortava seu povo à batalha por direitos iguais: “Sim, sou um negro de cor / meu irmão de minha cor / (...) Luta mais! Que a luta está no fim”. Quem não conhece o Negrinho do Pastoreio, uma espécie de lenda de origem afro do final do século 19? Está proscrita?
Luís Antônio Marcondes: nome artístico "Neguihno da Beija-Flor"


Ataulfo Alves lançou em 1956 um samba corrido, Mulata Assanhada: “Ó mulata assanhada / que passa com graça fazendo pirraça / (...) tirando o sossego da gente”. Na esteira, veio “É luxo só”, de Ari Barroso e Luís Peixoto, outra ode à mulata: “Olha, esta mulata quando dança / é luxo só”. Foi a glória. A palavra também existe em outras línguas, como inglês (mulatto) e francês (mûlatre).
Recentemente, o escritor tatuiano Ivan Camargo lançou o livro Golpe Baixo (SP: Ed. Kazuá, 2017), cuja contracapa resume direto o assunto: “soma uma série de ‘histórias quase apolíticas e nada corretas’, todas buscando, com bom-humor, questionar e satirizar o ‘coitadismo’”. No capítulo que dá título ao livro, uma pérola como “pena que vão cortar só metade de uma perna”, disse o idoso sobre um jovem companheiro de quarto que dormia,“tava torcendo para que arrancassem o pingolim dele até a raiz”. “Odilo! – interveio a esposa, acentuando não ser nada produtivo à educação do menino aquele linguajar de calão chulo”. Odilo garantiu que os atuais pré-adolescentes sabem mais palavrões do que ele próprio aprendera durante toda a vida.


Semelhante é a questão do linguajar do funk brasileiro, hoje alvo de uma proposta no Senado que tenta proibir o gênero, tendo como um dos muitos motivos o teor pornográfico das letras. Ora, elas refletem o que os jovens ouvem e falam nas periferias, mas ferem os ouvidos dos que se acham mais puros. Outra: acaso trocar deficiente por ‘portador de necessidades especiais’ atenuou perdas físicas? Dizer afrodescendente ajudou a acabar com o racismo? Não, se não for o contrário. Lembrando o “coitadismo” de que fala Camargo em seu Golpe Baixo, eu acho que certamente aumentou a segregação. Da mesma forma que suavizar as estatísticas dos homicídios varrendo a maior parte deles para sob o tapete do latrocínio não salvou uma única vida.

sábado, 19 de agosto de 2017

HERÓIS SEM NENHUM CARÁTER


Calabar
Domingos Fernandes Calabar (1609-1635), nascido na hoje alagoana Porto Calvo, talvez tenha sido o maior traidor, o popular ‘traíra’, da história do Brasil. Era dono de um engenho em Pernambuco, então nome da Capitania, enorme gleba que açambarcava algo como cinco estados do Nordeste brasileiro. Quando os holandeses invadiram o Brasil, Calabar tornou-se o que seria um ‘quinta-coluna’, para usar uma expressão surgida três séculos depois, na guerra civil espanhola: um escarrado traidor da pátria. Como brasileiro, Calabar deveria ter defendido a matriz, mas virou a casaca e aliou-se aos holandeses, colaborando com os invasores da pátria (pessoalmente, não sei se a expulsão daquela gente da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais foi a melhor opção).

Calabar, a peça
Pelas histórias já folclóricas ao redor de seu nome, o personagem foi tema de uma peça musical de Chico Buarque e Ruy Guerra: Calabar, o Elogio da Traição (1973). O texto quase conseguiu escapar da implacável caneta do ministro Armando Falcão. Quase, a peça terminou censurada. Chico e Ruy Guerra, com essas dissimulações, burlaram a censura algumas vezes, fazendo, por alegorias e fantasias, crítica velada aos tempos da ditadura. A peça mostrava um apanhado de boas músicas e letras, como Cala a Boca, Bárbara: “Ele sabe dos caminhos dessa minha terra / no meu corpo se escondeu / minhas matas percorreu / os meus rios, os meus braços / Ele é o meu guerreiro / nos colchões de terra / nas bandeiras, bons lençóis / nas trincheiras, quantos ais, ai...”

Joaquim Silvério
Joaquim Silvério dos Reis (1756-1819), quase dois séculos após Calabar, foi outro grande traidor da história do país. Por encontrar-se com as finanças combalidas pelos impostos extorsivos da Coroa Portuguesa, Silvério foi convidado e bandeou-se para o lado dos inconfidentes mineiros, na esperança de que o sucesso da empreitada o livrasse da quebradeira em suas finanças mordidas pelas pesadas taxas da Matriz. Porém, seduzido pela possibilidade de Portugal perdoar suas dívidas e dar-lhe um bom carguinho no governo, transformou-se em delator de seus amigos inconfidentes.

6400 réis
Não se sabe o que levou em troca, mas passou quase um ano preso na Ilha das Cobras, para seu desgosto. Depois desse episódio, o máximo que conseguiu foi uma pensão vitalícia de 200 mil réis que o deixou com sustento para amargar seu papel de delator e traidor dos ideais do povo, pecha que ninguém gostaria de levar em vida por trinta anos, e que perdura até hoje, mesmo após sua morte. (Os duzentos mil réis não deviam ser lá muita coisa, já que havia moedas de 4.000 na época).

Joesley Batista (Estadão)
Do latim delatio, onis, denúncia, a delação premiada de hoje é uma espécie de toma lá dá cá amparada por lei trocada entre o réu e a Justiça, em colaboração que pode render ao primeiro penas mais suaves e privilégios. Pode haver redução de um a dois terços de prisão ao delator, fora algumas benesses que escapam aos prisioneiros comuns. Tudo isso está no Código Penal Brasileiro, disciplinado por lei de 1999. Assim, o traidor da bandidagem, bandido que também é, delata tudo, no gozo do guarda-chuva da Justiça: o que aconteceu e até o que possivelmente nunca acontecera. Pior: perante muitos cidadãos comuns, chega até a ser admirado, por entregar notórios políticos de reputação pouco ilibada, ou, como se diz no popular, “de família quase boa”.

Ilustração para o Dr. Faustus de Marlowe (+  1564)
Pior de tudo, parece que o delator passa a sentir alguma espécie de prazer, uma sensação fálica, uma certa libido trazida por vaidade, uma ‘energia vital’, um psicanalista freudiano talvez conclua assim. Delatar mais e mais, até o que não houve, a Justiça que se vire para provar sua ilação, pois a fome e sede do delator com o tempo parece não terem mais limites. Tal qual o personagem do Dr. Faustus, de Thomas Mann, que entregou sua alma ao diabo em troca de poderes desmedidos como músico: “Destruído pelo extraordinário, seu gosto arruinado para qualquer outra coisa, ele vai no mínimo deteriorar-se no desespero de executar o impossível”. É também uma versão pós-moderna do “seja marginal, seja herói” (1968), do revolucionário artista Hélio Oiticica. O delator deve sentir-se como o próprio Dimas, santo católico, o “bom ladrão”, crucificado ao lado do Senhor, que Dele ouviu (Lucas, 23:38): “em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso”.

Grande Otelo como Macunaíma
‘Herói sem nenhum caráter’ é descrição do personagem Macunaíma, um romance (1928) de Mário de Andrade, navegando ainda nas águas da Semana de Arte Moderna de 1922. O nosso herói é indígena, e com Mário faz chacota do povo brasileiro, repetindo aqui e ali a frase “ai, que preguiça”, entre cenas surreais e anedóticas. Macunaíma fica possesso quando sua pedra da sorte, um muiraquitã, é roubada por um comerciante peruano, o gigante Piamã. O herói arrasta seus irmãos em busca do resgate do talismã, mesmo sabendo que o gigante inimigo era antropófago.

Nascimento de Macunaíma, segundo José Celso Martinez
Voltado à cultura indígena, e na contramão do romantismo literário pré-1922, Macunaíma é o próprio anti-herói, um escracho. Tornou-se um ícone de tanta importância para a cultura brasileira que o cineasta Joaquim Pedro de Andrade fez de Macunaíma um dos melhores filmes do nosso cinema (1969), com Grande Otelo no papel do ‘herói’. Macunaíma nasce – ou melhor, é parido – tendo sua mãe de cócoras, costume indígena que facilita o parto. Na verdade, Grande Otelo cai do útero de sua mamãe de cabeça no chão, em uma cena das mais hilárias do nosso cinema.


Todos os traidores são heróis “sem nenhum caráter”, mas Macunaíma foi apenas um simpático preguiçoso, nada mais.