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sábado, 15 de julho de 2017

RÁDIO, BOLACHÕES E AS MÚSICAS DE ANTIGAMENTE

Chatô
A TV brasileira foi inaugurada no final de 1950 em SP, e quatro meses depois em 1951, no Rio, pelo nosso “Cidadão Kane”, nosso tycoon Assis Chateaubriand. Era a TV Tupi abrindo caminho para o futuro. Antes disso, nas rádios, na ausência de luzes de efeito, gestos e danças para glamorizar as apresentações, como na TV, a clareza da voz, a dicção e a impostação eram cruciais. Mas os ídolos radiofônicos surgidos nesse período até 1950 eram mitos que só se poderia ver ao vivo nos Teatros de Revista da Praça Tiradentes, em algumas boates de Copacabana ou do Bixiga paulistano, ou em grande estilo nos elegantes cassinos: Urca, Quitandinha, Pampulha, e todos a preços bem salgados.

O fascínio do rádio
Assim como as notícias, que vinham pelo rádio, às músicas era imposta a necessidade de uma dicção perfeita, irrepreensível. Irradiavam até cantores com orquestras inteiras, mas não havia mesas digitais com dezenas de canais, como as de hoje, apenas um único canalzinho, sendo os participantes distribuídos nos comprimidos espaços das emissoras, cantora ou cantor à frente de um solitário microfone. A orquestra era disposta no estúdio, logo depois da voz, em ordem crescente de volume: violinos, acordeão e assim por diante, até chegar na bateria, no fundo do ambiente. Assim, com criatividade, eram feitos os programas.

Carmen e Aurora Miranda
(Há um documentário de Gil Baroni, de 2009, chamado “Cantoras do Rádio”, que bem retrata a chamada “era de ouro”, disputada pelas cantoras. Isso, por causa de uma marchinha chamada Cantores de Rádio, do trio Lamartine Babo, João de Barro e Alberto Ribeiro, que estourou na voz das irmãs Carmen e Aurora Miranda: “Nós somos as cantoras do rádio / levamos a vida a cantar / de noite embalamos teu sono / de manhã nós vamos te acordar”).
Nássara: cartunista e compositor
Até o final de 1950, ano em que a TV viria para ocupar seu espaço no Brasil, ainda surgiram sucessos do rádio como a marchinha Balzaqueana, da dupla Nássara e Wilson Batista, referência à “Mulher de 30 anos”, do escritor francês Honoré de Balzac. Quem sabe um afago nas mulheres mais vividas após o sucesso de Normalista, da mesma dupla, que cantava “Vestida de azul e branco / trazendo um sorriso franco / no rostinho encantador / minha linda normalista / rapidamente conquista / meu coração sem amor?" Do mesmo ano é Antonico, de Ismael Silva, grande sucesso na voz de Gal Costa, longos anos depois: “Ó Antonico / vou lhe pedir um favor / que só depende / da sua boa vontade”.
Donga
A curiosidade é que o rádio no Brasil só veio a surgir no centenário da Independência, no mesmo 1922 da Semana de Arte Moderna, inaugurado com pompa pela transmissão de um discurso do então presidente Epitácio Pessoa! Desde antes das rádios, as músicas eram registradas em “bolachões” de 78 r.p.m., tendo sido Pelo Telefone, de Ernesto dos Santos, o Donga - um samba nascido em um terreiro de Candomblé -, o primeiro do gênero gravado, há exatos cem anos, em 1917! Os “bolachões”, traziam apenas uma música por lado, e fizeram a alegria de gerações de brasileiros. Mas o grande conforto de se poder ouvir músicas sem comprar discos veio apenas com a maravilha chamada rádio, depois de popularizado.
O "moderno" vinil
Essas gravações coexistiram com as rádios, e, no final dos anos 1940, passaram a ser registradas em HI-FI (de high fidelity, alta fidelidade), em vinil. Conseguiam comprimir doze ou mais músicas em um simples álbum, o LP (Long Playing). Depois vieram os discos estereofônicos, até que recentemente a tecnologia trouxe o CD e o DVD, MP3, MP4 e outros formatos.

Voltemos a 1949, ano do choro Brasileirinho. Segundo o pesquisador Zuza Homem de Mello, em 1947 Valdir Azevedo já havia composto um trecho da primeira parte. Um dos maiores sucessos de nossa música popular, Brasileirinho, que se tornou famoso nos gorjeios virtuosísticos de Ademilde Fonseca,  já foi tocado e gravado por uma infinidade de intérpretes até hoje: Baby Consuelo com Os Novos Baianos, Armandinho e o trio de Dodô e Osmar, Altamiro Carrilho, Yamandú Costa e o Grupo de Choro do Conservatório de Tatuí (bis de sucesso nos finais de show), entre tantos outros.
Lupicínio Rodrigues e sua caixa de fósfors
De 1947, Nervos de Aço, de Lupicínio Rodrigues, é um samba-canção amargurado, de fossa mesmo: “Você sabe o que é ter um amor, meu senhor? / Ter loucura por uma mulher / e depois encontrar esse amor, meu senhor / nos braços de um tipo qualquer”. Do mesmo ano é um clássico da Música Brasileira, Asa Branca, toada de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, um lamento candente sobre a seca no Nordeste brasileiro: “Que braseiro, que fornalha / nem um pé de plantação / por falta d’água perdi meu gado / morreu de sede / meu alazão”. Pior: ainda perdeu seu amor Rosinha, fugida da praga da seca nordestina.

Emilinha Borba, "Rainha do Rádio"
Em 1944, o lindo samba carnavalesco Atire a Primeira Pedra, de autoria do Ataulfo Alves e o versátil Mário Lago, virou sensação, e as primeiras quatro palavras da frase inspirada no Evangelho de João tornaram-se de domínio popular: “atire a primeira pedra, ai, ai, ai / aquele que não sofreu por amor”. Os filmes musicais já estavam em plena voga, e a eterna Emilinha Borba emplacou na fita 'Tristezas não Pagam Dívidas”. O cinema também fez Carmen Miranda, a “Pequena Notável”, chegar aos EUA, onde esbanjou sucesso tremendo, chegando a amealhar, por treze anos a partir de 1940, a fortuna de 35 milhões de dólares, em dinheiro de hoje, e ainda foi coroada com o apelido de Brazilian Bombshell (brasileira explosiva, atordoante).  Pois salve os cantores do rádio! Vivamos a vida a cantar!

sábado, 8 de julho de 2017

CITAÇÕES BÍBLICAS, ARTÍSTICAS E A COLUNA DO IBRAHIM

Castro Alves
Na semana retrasada publiquei neste espaço um artigo intitulado “Língua Portuguesa, onde estás, que não respondes?” Talvez o pessoal de minha geração para trás, até um pouco mais para a frente, tenha sido um feliz aluno que teve boas aulas de português, e deve ter percebido ali uma citação a Castro Alves, em “Vozes d’África”. E, por achar a pergunta do poema tão familiar, eu não tenha indicado o autor. Nos versos, Alves fala de sua própria citação: “Há dois mil anos te mandei meu grito / que embalde desde então corre o infinito... / Onde estás Senhor Deus?” O poeta não precisava mencionar que seu verso aludia às palavras de Cristo, já na cruz, vislumbrando sua morte iminente: Eli, Eli, lamá sabachtháni (Mateus, 27:46, por sua vez citando o Salmo 22 de Davi). Alves citava Mateus, que citava Jesus, que citava Davi, e eu citando aqui um poema do Drummond). O Eli, Eli, lamá sabachtháni, é “Deus, Deus, por que me abandonastes?”

Alfred de Musset
Ora, no decorrer do texto fiz outra citação, coisa de meu costume: falo sobre o mal do século, em um contexto totalmente diverso do Le Mal du Siècle, de Alfred de Musset, sobre a tomada de consciência da juventude do século 19. Pode passar despercebida, mas é coisa do autor usar uma citação, seja ela oculta, explícita, óbvia, com ou sem aspas, e, quando necessário, optar pela referência. Às vezes, o contexto e o meio em que se escreve (artigo, blog, tese, publicação científica) exigem a identificação – “Castro Alves, in Vozes d’África”, por exemplo.

Em um discurso que não estava lá entusiasmando muito o público, JK bradou “Deus poupou-me o sentimento do medo”, frase repetida literalmente mais tarde por Collor de Mello. No caso de JK, meu pai, Autran Dourado, seu Secretário  de Imprensa, havia escrito a frase de efeito em um pedacinho de papel e a enfiou no bolso do paletó do Presidente. Logo, Sucesso! A plateia aplaudiu com entusiasmo! Meu pai apenas lembrara de cabeça Timóteo II-1:7: “Deus não nos deu o espírito do medo”.

Marcos e Paulo Sérgio
Há citações na Bíblia, em poesia e literatura, e claro que na música. Elis Regina foi consagrada com “Eu preciso aprender a ser só”, do Marcos e Paulo Sérgio Valle – samba-canção que muitos erroneamente atribuem a Jobim, e contagiou gerações: “sem teu amor eu não posso viver / que sem nós dois o que resta sou eu / eu assim.../ tão só”. Gilberto Gil compôs “e quando escutar um samba-canção / assim com ‘Eu preciso aprender a ser só’ / reagir e ouvir o coração responder / eu preciso aprender a só ser”. A citação era tão óbvia que a referência tornou-se desnecessária, não é costume musical.

Em um trabalho acadêmico, uma tese, um TCC, convém fazer as citações mencionando-as em rodapé, no fim do texto e na bibliografia, como manda o figurino. Se no passado Umberto Eco era a referência, com seu Como se Faz uma Tese (SP: Editora Perspectiva), o Brasil passou a normatizar tudo, como parte da ISO (International Organization for Standardization) e da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Um bom auxílio é um livrinho do prof. Gilson Monteiro, Guia para a Elaboração de Projetos, Trabalhos de Conclusão de Cursos, Dissertações e Teses (SP: Edicon, 1998). Nele, o autor discorre sobre a escolha do tema, precauções com a redação, projeto de pesquisa, revisão, metodologia, referências bibliográficas, cronograma, bibliografia e seus formatos segundo as normas.
O Houaiss tem duas acepções para o termo citação. A primeira versa sobre o que escrevi até agora, com o sentido de mencionar, fazer referência a. A outra é utilizada no meio jurídico como “intimação para que alguém, em data fixada, compareça ou responda perante autoridade judiciária...”, o que o linguista Deonísio da Silva descreve como vindo do latim ‘citatione’, declinação de ‘citatio’, chamamento, intimação” (De Onde vêm as Palavras. RJ: Lexicon, 2014). A citação, se escrita com erros graves ou for feita de forma incorreta, pode tornar-se uma “citação circunduta” e até ensejar a invalidação de todo o processo. O primeiro registro de uso da palavra data da Idade Média (1322), diz Deonísio. E essa acepção é a que mais me preocupa, nos dias de hoje, pela nossa santa protetora, a Língua Portuguesa.

A grande imprensa escrita, falada, televisada e mídias diversas tem usado “citação” com sentido de ‘menção’, em pleno assunto judicial. Pode ser sobre alguém intimado ou tornado réu no caso da Operação Lava Jato ou aquele cujo nome simplesmente foi mencionado, erro que presta um péssimo serviço à informação, à língua portuguesa, ao direito e, claro, à imagem do cidadão inocente. O fato de alguém ter sido “citado” pode ter a gravidade de uma intimação do STF para torná-lo réu ou apenas a menção na imprensa sem nenhuma referência jurídica ao cidadão, prejudicando-lhe a vida, de seus familiares e seu trabalho. Se você esteve em uma festa de casamento e é pessoa conhecida ou pública, cuidado! Você poderá ser mencionado em uma dessas delações e a imprensa pode lhe... citar! Citado na Lava Jato! Coisa feia! Os amiguinhos de seus filhos podem fazer bullying na escola e você ver sua clientela encolher.


Ibrahim Sued
Com essa confusão, prefiro apenas mencionar pessoas e voltar às minhas citações poéticas, de prosa, discursos e afins. Concluo citando Miguel Gustavo, autor de Café Society (1955), grande sucesso do passado: “Enquanto a plebe rude na cidade dorme / eu ando com Jacinto que é também de Thormes / Teresas e Dolores falam bem de mim / já fui até citado / na coluna do Ibrahim”. 


Gravação de Jorge Veiga

sábado, 1 de julho de 2017

MÚSICA NO CINEMA: FORMANDO GERAÇÕES

Uma das paixões do cinema de minha juventude, uma época tão rica culturalmente - as artes em franca explosão, a rebeldia dos jovens queria mudar o mundo com paz - foi o filme Easy Rider, uma aventura sobre duas motos com Peter Fonda, que já vinha de um filme sobre uma viagem alucinógena com LSD (The trip, 1967) - meio apavorante pela tensão e pela sensação de se estar perdido em um labirinto. Já Easy Rider, com Dennis Hopper como coadjuvante, traz o jovem Fonda, filho do lendário Henry Fonda e irmão da belíssima Jane. Na trama, Fonda e Hopper correriam o longo caminho entre Los Angeles, na costa oeste dos EUA, até New Orleans, terra natal do blues e do jazz no centro-sul do país (3.030 Km de estrada!). O custo total da produção foi, em dólares corrigidos para 2017, de 2,6 milhões – valor insignificante nos dias de hoje. No entanto, o sucesso foi tal que arrebatou a quantia de U$ 333,4 milhões (também corrigidos) de bilheteria nas primeiras semanas.
Típico shotgun
Talvez o maior segredo para sucesso tão estrondoso não tenham sido as motos Harley Davidson, paixão dos jovens rebeldes da Califórnia, mas principalmente a trilha sonora, que lançou o sucesso Nascido para ser Selvagem (Born to be wild): “Ligue o seu motor / encare a estrada / procurando aventura / do jeito que ela vier / (...) tome o mundo em um abraço de amor / dispare todas as suas armas de uma vez / e... exploda no espaço”. Para descrever a cena final, só o jargão americano: dois rednecks (“pescoços vermelhos”, queimados pelo sol na estrada ou no trabalho braçal) em uma picape típica do interior, avistam a dupla de hippies motoqueiros. Logo, o shotgun (“arma de fogo”, termo usado genericamente até hoje para o passageiro, o “assento do carona”) puxa o rifle que está pendurado em um suporte por trás de sua cabeça, costume que ainda persiste na região, abre a janela e derruba os dois viajantes, em uma cena inesquecível do mestre cinegrafista húngaro László Kovács.
A trilha sonora teve ídolos da época, como Hendrix (Easy rider), The Byrds (The ballad of easy rider), de Bob Dylan, e o grupo Steppenwolf (Born to be wild e The pusher - O Traficante). A música embalou o filme e atraiu público, apesar da atuação de Fonda, sem maiores atrativos, mas com o sobrenome de seu pai ajudando. E Hopper foi um mero papel secundário na trama e sofrível ator. Quem assistiu ao filme uma vez, na época, deve ter retornado várias outras ao cinema.
Cabe aqui menção a Noviça Rebelde (The sound of music), ainda de 1966, premiadíssimo sucesso com Julie Andrews baseado na história da Família Trapo (1949), que rendeu monumentais 2,5 bilhões de dólares de hoje, logo nas primeiras semanas de exibição. Mas, claro, minha geração torceu o nariz: achávamos infantil, “coisa de maricas”, “água com açúcar”.
Marilyn, com Tony Curtis (sax) e Jack Lemmon (contrabaixo), atrás
Ironicamente, Quanto mais Quente Melhor (Some like it hot, de 1959) fora blindado da ácida crítica dos jovens porque contava uma história de músicos estrelada pela diva Marilyn Monroe, frente a uma banda formada por mulheres que tinha Tony Curtis e Jack Lemmon – só que travestidos. Marilyn era uma diva perfeita, idolatrada mais pelo seu charme e seu corpo do que propriamente sua atuação como atriz. Era venerada por todos, do presidente JF Kennedy ao fenômeno da cultura pop, o artista plástico Andy Warhol.
Cyd Charisse
Antes de Julie e Marilyn, o histórico Cantando na Chuva (1952) arrebatou pela dança perfeita de Gene Kelly e Debbie Reynolds, sem falar nos passos das memoráveis longuíssimas pernas da Cyd Charisse, que fez suspirar corações e imaginações. Era o apogeu dos sucessos musicais da MGM (Metro-Goldwin-Mayer), que havia eclodido com Um Americano em Paris (1951, com Gene Kelly), Era uma Vez em Hollywood (1974), e antes de tudo O Mágico de Oz (The wizard of oz), de 1939, com uma infantil Judy Garland, então com 17 anos, imortalizada pela interpretação de Over the rainbow: “Em algum lugar / além do arco-íris / bem lá em cima / há uma terra / de que ouvi uma vez falar / em uma canção de ninar”.
Chaplin (1940, já com som) em O grande Ditador
Antes de o som surgir no cinema, havia legendas ou simplesmente se “falava” com imagens, a exemplo do mestre Charles Chaplin e seus grandes sucessos com Carlitos, um ícone e símbolo mundial. Lindos são O Garoto (1921), O Circo (1928) e Tempos Modernos (1936). Muitos músicos cresceram fazendo acompanhamento musical em cinemas de todo o mundo, sentados ao piano ou outros instrumentos e musicando as cenas conforme as imagens. Salas antigas do Rio, como o Cine Odeon, na chamada Cinelândia, hospedaram pianistas ou pequenos grupos, dando-lhes emprego.

Mas trilha sonora não foi a opção principal de todos, caso da cineasta Suzana Amaral, que filmou A Hora da Estrela (1985), baseada em obra de Clarice Lispector, que deu à amadora Marcélia Cartaxo o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim. Suzana filmou também um livro de meu pai, Autran Dourado: Uma Vida em Segredo (2001, com a estreante Sabrina Greve, melhor atriz no Festival de Brasília). Nele, muito pouca música de fundo, às vezes apenas um Sakuhashi (flauta japonesa usada na meditação Zen) suave e distante, outras um absoluto silêncio, fora os poucos diálogos. Suzana é devotada budista e adepta da meditação oriental, o que explica sua concepção. Achava que a música, quando existisse, não poderia interferir no que suas imagens queriam transmitir. Lembrei-me do que pensava Beethoven: o som é prata, e o silêncio é ouro.

sábado, 24 de junho de 2017

LÍNGUA PORTUGUESA,

Onde estás que não respondes?

"Semáfaro"? E cadê a crase?
É de arrepiar o estado da nossa língua pátria. Não adianta culpar os alunos, a coisa vem mais de cima. E nem os mal pagos professores, o problema está ainda mais acima deles. Não é preciso ser um erudito, daqueles empedernidos de toga e capelo da Universidade de Coimbra, no Olimpo de seus mais de 700 anos. Gasta-se dinheiro na confecção de placas, e em muitas o que vemos pelas ruas são verdadeiras aberrações, recordistas de erros e maluquices. O que custa ao menos pedir um palpite a alguém confiável para evitar essas sandices? Pior ainda, escrevem quase sempre de forma correta 50% off, sale e afins. Tudo bem que queiram parecer mais chiques – antigamente o chique era o francês -, mas não seria necessária a versão.
Billy Blanco
O secretário de Educação do estado do Rio, Wagner Victer, logo no dia seguinte à sua posse foi entrevistado por um telejornal. Discretos, os apresentadores, com o novo titular no áudio, iniciaram a conversa com a âncora perguntando “secretário, o senhor nos ouve?” Um segundo após, ele responde: “ovo sim!” (Vídeo logo abaixo). Palmas para os dois jornalistas que ficaram impassíveis e poderiam perder o controle, como já vimos muita gente famosa fazer. É preciso ter estômago, fígado para encarar uma dessas sem sair da linha. Dei uma boa risada, mas logo depois percebi que eu me divertia com uma coisa muito triste, digna daquela música do arquiteto e grande compositor Billy Blanco: “o que dá pra rir dá pra chorar / questão só de peso e medida / problema de hora e lugar / mas tudo são coisas da vida...” E esse era o caso. Chorar.

JK e meu pai (à direita)
Concordância verbal é luxo, e a nominal está em extinção. Os políticos de hoje, quando improvisam, em sua grande parte “cometem” coisas absurdas. E mesmo quando leem os textos preparados por seus assessores, o resultado pode não ser tão melhor – a culpa das gafes e erros é de algum assessor mal escolhido? Daí penso que se um secretário de Educação diz “eu ovo, sim”, tudo é possível. No passado, autoridades tinham seus escribas, e era de bom-tom falar bem. JK cercou-se de gente dona de boa escrita: o poeta Augusto Frederico Schmidt, Geraldo Carneiro e meu pai, Autran Dourado, seu secretário de Imprensa (cargo hoje chamado Porta-voz) nomeado aos 30 anos, entre outros. JK gostava de exibir seus dotes de bom par nos  bailes – era o chamado “pé de valsa” – e de usar em público um português escorreito. Para isso tinha seus redatores. Michel Temer, para não falar de obscuros tempos passados, parece tentar manter sua persona erudita, e gosta de uma mesóclise (“fá-lo-ei”), mas dá suas escorregadelas quando diz “as coisas que eu gosto”, quando o correto seria “de que”. Tudo bem, não é dos piores e nem mesmo foi o Sarney do “Marimbondos de fogo”, hoje acadêmico da ABL.
O mal do século nos atinge as redações dos grandes jornais impressos e da TV. Um dos maiores do país no início deste mês publicou como matéria principal uma manchete assustadora: “Assassinato é causa da morte de 48% dos jovens”. O que transparece em primeiro lugar é o absurdo, depois vem a confusão. Morreram assassinados 48% dos jovens brasileiros? Não. “A principal causa da morte entre os jovens é o homicídio”, seria algo mais inteligível. Não há ninguém para ler ao menos essas manchetes de capa (o cartão de visita da edição e do jornal)? Um copidesque mais bem informado? Um título é quase um breve resumo de uma matéria inteira. Se ele confunde, que será do conteúdo? Não digo que todos temos de escrever como linguistas especializados, mas estamos perdendo na correção da escrita e na compreensão em todos os níveis.
Um texto na Internet comentou um erro de um repórter da Globo: “Gafe de repórter da Globo vira piada nas redes sociais”, com direito a foto de estúdio do programa. Mas assassinaram o vernáculo logo na primeira linha: “Em transmissões ao vivo, erros são ‘pacíveis’ de acontecer...” Isso mesmo. Será que a intenção era fazer uma ligação com paz (“pacem”, em latim), e que o pessoal das TVs deveria ser mais pacífico? Não, essas coisas não deveriam ser passíveis de acontecer, tanto a gafe do repórter da Globo quanto o erro da matéria online.
No dia a dia, a concordância, o plural, a crase e a vírgula transfiguraram-se em água benta: cada um tira o que quer (ou põe). Acontece nas redes sociais, transborda nas placas e anúncios, trabalhos e provas escolares. Aquelas regrinhas da escola sumiram das salas de aulas? E ainda vem o absurdo Acordo Ortográfico, de 1990, que visava a unificar a escrita e a fala dos países de língua portuguesa – acordo na verdade só cumprido pelo Brasil. Passaram a complicar ainda mais o que já estava consolidado: agora é pão de mel (feito de mel?) e não mais pão-de-mel, pé de moleque (pé do menino?) no lugar de pé-de-moleque, expressões que soavam como uma palavra só, tinham sentido em si.

Tiraram o acento de pára, do verbo parar, mais uma confusão que poderia ser evitada muitas vezes mesmo acatando a nova ortografia. Exemplo é a recente manchete de capa de um grande jornal: “Tempestade para São Paulo”. Ora, seria o título um pedido a São Pedro para que despeje um aguaceiro sobre a cidade? Não serviria “Tempestade paralisa São Paulo”? O maldito Acordo Ortográfico veio para complicar ainda mais, e lembra a famosa frase do Chacrinha, o hilário guru “profeta” da comunicação televisiva: “eu não vim para explicar, mas para confundir”. Certo estava ele quando disse “quem não se comunica se trumbica”, uma de suas frases lapidares. 

sábado, 17 de junho de 2017

NAPOLEÃO, LUÍS BONAPARTE E O BRASIL


O mais ilustre cidadão da Córsega, nascido logo após a ocupação da ilha pela França, aos 16 anos Napoleão já era oficial de artilharia. Sua trajetória política alinhava-se ao seu engajamento intelectual e sua formação filosófica; com isso, tornou-se cônsul de grande poder no triunvirato francês. O país estava arrasado pela corrupção e a crise geral, o povo revoltado com toda a classe política, que assaltava os cofres públicos e deixava as mentes entorpecidas ante os desmandos dos governantes.
Partitura adulterada por Beethoven
Napoleão como cônsul foi implacável com a corrupção, colocando o país de volta nos eixos, e tornou-se um ícone para a França, que o inflou de forma tal que em 1804 sagrou-se Imperador. (Corte de cena: desde 1803 Beethoven vinha trabalhando em sua terceira sinfonia, concluída pouco antes da sagração napoleônica. Revoltado com a autocoroação do  imperador e convicto de suas ideias republicanas, Beethoven tomou-se de raiva tal que riscou a dedicatória na partitura original de orquestra da obra, chegando a rasgar o papel. Riscou do frontispício o nome “Buonaparte”, a quem havia dedicado a peça, fato narrado por seu aluno e secretário Ferdinand Ries. A sinfonia passou a se intitular “Eroica”, e triunfou abrindo caminho para a transição que mais adiante haveria de revolucionar a música, do classicismo ao romantismo. A partitura original com a profunda rasura feita com fúria pelo compositor se encontra na biblioteca Gesellschaft der Musikfreunde, em Viena).

Luís Bonaparte
Luís, sobrinho de Napoleão, sagrou-se imperador, à sombra e semelhança de seu tio. No célebre 18 brumário, aliás muito bem analisado pelo historiador Karl Marx em “O 18 brumário de Luís Bonaparte”(1852), Luís seguiu o modelo do tio, Napoleão, dando um golpe de estado e assumindo-se monarca absoluto.

Mas o Napoleão   cônsul havia modernizado o estado e a educação e criado os códigos penal e civil, além de reduzir o poder do clero. Era também, dentro de suas atribuições geniais, ótimo analista de Machiavelli: há uma edição de O Príncipe comentada e com diversas críticas suas ao pensador florentino. Gosto de um exemplo em especial: “Preocupações pueris. A glória acompanha sempre o poder, independentemente dos meios utilizados para sua obtenção” - sobre atitudes criminosas e o assassinato de compatriotas para se chegar ao poder. Mas “A arte da guerra” (Dell'Arte de la Guerra), de Machiavelli, foi sim a maior inspiração de Bonaparte! Estudioso da história, dono de uma soberba e uma fome de poder que aumentava com sua popularidade, escrevia sobre sua própria inteligência de estratego e líder. Sua volúpia pelo poder descambou na determinação de dominar a Europa, feito que inspiraria outros estrategistas, do século 20 ao atual.
Santa Helena
A ambição dominadora do Napoleão imperador terminou por dilapidar os cofres públicos cuja sangria ele mesmo havia antes estancado, e o país, a exemplo do que acontece após os grandes genocídios e guerras, entrou em colapso político e econômico. Sem saída, foi forçado a abdicar ao trono e isolou-se na ilha de Elba, perto da costa da Itália. Mas voltou à França, reassumiu o controle dos exércitos, e sobreveio a histórica batalha de Waterloo. Em 1815, foi exilado na ilha de Santa Helena, uma distante possessão atlântica inglesa, onde veio a morrer em 1821.

Vale conhecer o pensamento de Napoleão, suas reflexões políticas, aforismas e análises. No livro Manuel du chef. Aphorismes choisis (“Manual do chefe. Aforismas escolhidos”), com material compilado por Jules Bertaut, há pérolas de toda ordem. Napoleão comparava sua paixão pelo poder com a de “um violinista ao seu instrumento, que dele extrai acordes, harmonia e notas”, confissão de que o poder era a vocação mais profunda de sua alma. Achava que a frieza era a maior virtude de um homem predestinado a ser um líder, e que era preferível ser amado do que proferir lindos discursos. Por isso, para ele a inteligência de usar seus atributos era maior do que a força, mero instrumento para fazerem avançar suas ambições. Napoleão narrou em seus escritos um contraponto com grandes comandantes do passado, como Aníbal frente ao exército de Cartago e César na conquista da Gália, ambos fortes líderes sem os quais “seus exércitos não seriam bem-sucedidos”. E considerava-se sábio ao dizer que nunca dava sua palavra, e essa seria a melhor forma de mantê-la. E que ouvia a todos, mas nunca dizia o que iria fazer.


Golpe de Getúlio: O Estado  Novo
Adiantando o relógio da história e a longa distância no mapa, o Brasil vem de turbulências e revoltas, com intervalos de alguns aparentes sucessos, mas graves ruínas provocadas nos pós-golpes – e eles foram tantos, e tantas foram as tentativas -, entre os quais se destaca o longo retrocesso de 1964/1985, após o qual já estava enraizada a corrupção, e a economia foi entregue aos civis em frangalhos. Leis e Constituição rasgadas, as atrocidades cometidas lembrariam as do Napoleão  imperador. Se sobreveio depois um ordenamento legal e constitucional, hoje transborda, emoldurada por um aparente estado democrático de direito, a corrupção em todos os níveis públicos e privados em suas múltiplas facetas, mascaradas por vaidades extremas que despertam suspeitas na conduta de boa maioria dos integrantes dos três poderes. Não há mais lugar para um novo clone de Luís Bonaparte, a repetir trechos de nossa desastrada história. O Brasil parece já ter se descolado dessa fase, e não haverá mais Napoleões e Luíses com suas tropas ou milícias na atual correlação de forças, ao menos enquanto perdurar o estado de direito, mesmo que respirando por aparelhos. 

sábado, 10 de junho de 2017

MORENA POESIA

“Sei que a noite inteira eu vou cantar / até segunda-feira quando volto a trabalhar / morena...”/ (...) ”seu abraço meu emprego / quando chego no meu lar / morena...” O Chico sabia exaltar as morenas, e parece que sempre as preferiu na vida, desde a Marieta até as mais recentes. E louvou as morenas revolucionárias, bem ao seu feitio: “Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela / será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela/ (...) Morena, bichinha danada, minha camarada do MPLA” (pronuncia-se “Emepéla”: Movimento Popular pela Libertação de Angola).  “Passando pelo regimento ela faz requebrar a sentinela”. Ou na fase mais lírica, tão mais suave e apaixonada: “Morena, dos olhos d’água / tira os seus olhos do mar. / Vem ver que a vida ainda vale / o sorriso que eu tenho / pra lhe dar”.

Que fascínio especial a morena exerce sobre poetas e compositores? E desde bem antes de José de Alencar: “Iracema, a virgem dos lábios de mel / que tinha os cabelos mais negros que as asas da graúna / e mais longos que seu talhe de palmeira”. Castro Alves também revela suas atrações pela cor, seja apenas dos cabelos, pela pele jambo, ou pela cor negra, como em sua Morena Flor: “Ela tem uma graça de pantera / no bem-comportado andar de menina / no molejo que vem quase se espera / que de repente lhe salte em cima”.

Castro Alves
O grande poeta baiano faz uma alegoria com a graciosa pantera, fera felina, embora graciosa, como diz, mas veja nas entrelinhas “sempre se espera (...) lhe salte em cima”. Era uma poesia com uma sensualidade tão pura – e tão diferente dos às vezes ofensivos e grosseiros ataques de hoje. Com isso, encanta, e devia encantar quem o lia. E a morena que os poetas cantavam eram as negras, mestiças, índias ou simplesmente as de escuras melenas, que populavam o imaginário do país. O Brasil ainda não tinha a rica diversidade – miscigenada ou não – de raças como hoje, após os europeus, notadamente os alemães e italianos, trazerem ou aqui se unirem às mulheres locais, deixando filhos com traços de loiras e ruivas.

Loira e de olhos claros, só a mãe d’água, cantada por Gonçalves Dias, no passado mais distante:  “...mil peixinhos brilhantes / mais luzentes e mais belos / que o ouro dos meus cabelos...” devia cantar a “mãe” da lenda. “Mais louras que as folhas crestadas / (...) enroscam-se as tranças / quais seres de luz”. Segundo o historiador Câmara Cascudo, em consonância com Basílio de Magalhães (“Folclore no Brasil”), a “mãe” original veio trazida de há muito pelos portugueses, vindo a sofrer modificações nas cores da pele e dos cabelos posteriormente.

Em nosso folclore, a exemplo de uma das muitas versões da lenda da Iara (há as morenas e até as de cabelos verdes), que se assemelha, sem ser sereia, à Lorelei, frequente no Rio Reno alemão, visão que atraía os barqueiros. Esses, inebriados pela beleza nunca vista da moça e sua voz tão bela soçobravam e espatifavam seus barcos sobre as pedras (na verdade, o canto dela era o vento, uivando ao fazer um semicírculo em uma grande reentrância nos altos rochedos). Nossa Iara veio da mãe d’água, que não era sereia, e penteava suas longas melenas sentada sobre uma pedra no meio da correnteza. E arrastava os homens para o fundo do rio.

Salve a imortal Marina, do Caymmi: “Marina, Marina morena, você se pintou / Marina, você faça tudo, mas faça o favor / não pinte este rosto que eu gosto...”, e de onde mais seria Marina? Da Bahia, região morena por natureza, apesar de hoje algumas estrelas, sabe-se lá o porquê, tingirem seus cabelos de loiro para buscarem sucesso. Mas não bastariam a voz e a beleza da cor da baiana? Também nordestino, Alceu Valença nos brindou com “Morena tropicana, eu quero teu sabor / Ai! Ai! / Ioiô! / Ioiô”. Entre as musas de cabelos escuros, as nordestinas são as preferidas de artistas como Luiz Gonzaga, o “Lua”, com seu jeito inconfundível: “Vem, morena, pros meus braços / vem, morena, vem dançar / quero ver tu requebrando / quero ver tu requebrar / (...) resfulego da sanfona / inté o sol raiar”.

Mário Lago
De Mário Lago e Aracy de Almeida brotaram letra e música desta marchinha de carnaval, que tantos novos amores atou nos bailes da vida: “Linda morena, morena / morena que me faz penar / a lua cheia que tanto brilha / não brilha tanto quanto o teu olhar”. Jobim troca de astros, lua pelo sol, como bom ipanemense: “...mas seus olhos morenos me metem mais medo / que um raio de sol / oh, Lígia / Lígia”.

Lembro um lindo soneto do poetinha Vinicius de Moraes: “Como uma jovem morena / linda, esgalga, penumbrosa / parece a flor colhida / ainda orvalhada / justo no instante de tornar-se rosa”. Se há um louvor à morena e sua beleza, há também uma conotação sensual que é de uma singeleza infantil. E delicada como as gotas de orvalho que ele canta, tal como a poesia da pantera de Castro Alves. Joaquim Manuel de Macedo foi um dos precursores do romantismo brasileiro na literatura, com A Moreninha, de 1844. Texto repleto de mistério, profecias, juras de amor e simbolismos, obteve tanto sucesso que fez Joaquim desandar de seus estudos de medicina para se entregar por inteiro à literatura. O mais recente Ignácio de Loyola Brandão, paulista de Araraquara, tem na cidade natal velhas paixões. A uma delas, o trem de ferro, dedicou um livro de crônicas, e escolheu para título outra paixão, um dos melhores textos: A Morena da Estação.

A morena é musa dos poetas pela origem do nosso povo. 

sábado, 3 de junho de 2017

QUAL O IDIOMA DA MÚSICA?

Grupo Na Ponta do Dedo
O chorão toca seu bandolim, criado no século 18 a partir da bandola italiana. Usa uma palheta (como o plectrum do antigo cravo). No grupo, o cavaquinho, também conhecido como Braguinha, veio da Braga lusitana, onde se chamava viola braguesa; o violão descende do alaúde (al-ud) e seus parentes, introduzido pelos mouros durante a ocupação da Península Ibérica (711-1453). Pode ter seis ou sete cordas, e faz a ‘baixaria’. O pandeiro, saído do adufe árabe, cuida do ritmo, enquanto a flauta (do francês flûte, encontrada até em osso na pré-história) leva a melodia, às vezes seguida também pelo banjo, introduzido na África pelos árabes no séc. 17. O choro é música que nasceu da mistura do schottish - escocês, claro -, da polca polonesa e do samba (de semba, em dialeto de Luanda), por sua vez mesclado com maxixe, mistura de vários gêneros.

O guitarrista trabalha seus licks, trechos curtos em progressão, e riffs, padrões rítmico-melódicos. Costuma usar pedais como o sustain e o wah-wah (o som lembra o da surdina de trompetes nas velhas big bands), entre outros. Os grupos procuram gigs (do inglês) ou cachês (do francês cachet) para serviços em clubes ou boates (do francês boîte, caixa, pequeno ambiente), para depois se divertirem em uma jam-session, brincadeira de músicos (J.A.M.: jazz after midnight), quando o trabalho já terminou. Os acordes são escritos em cifras no mundo inteiro: “Cmaj7”, dó maior com sétima maior (major) e “Dmin7”, ré menor com sétima menor (minor), ambas em inglês).

Na música clássica, acontece o tempo todo: desde “sonata” (it.) peça tocada, ao invés de “cantata”, cantada. Sonata depois passou a designar uma forma-padrão de movimentos; “sinfonia” (do grego) é o agrupamento de vozes, sons, depois também uma forma composicional definida. Pavana vem do francês pavane, dança palaciana. O pianista pode tocar um “impromptu” (do latim, improviso), uma “balada” (do francês ballade), canção de espírito narrativo, ou uma polonaise (polonesa, em francês) como em obras de Chopin. Pode-se tocar uma passagem em piano, suave, quem sabe mezzo-forte (em italiano); cantar com voix de poitrine (voz de peito, em francês), ou boca chiusa (boca fechada), como na Bachianas 5, de Villa-Lobos.

Os instrumentos de arco podem ser tocados de centenas de formas: legato, sem interrupção no som, spiccato (do italiano spicare, separar), com o arco saltando, jeté, ‘atirado’, sul tasto, executado próximo ao tasto, peça de ébano sobre a qual os dedos da mão esquerda pressionam as cordas. Talvez um detaché, ‘destacado’, em francês, col legno, ‘com a madeira’, em italiano, percutindo a vareta do arco na corda, portato (do italiano), sequência de notas levemente separadas, articuladas em uma mesma direção, e tantas outras. Há várias formas de se tocar cada um desses ‘golpes’, a depender da escola estilística e da época. E há os termos mistos, que juntam dois ou até três idiomas, como em col legno gestrichen (italiano-alemão), um movimento em que a vareta do arco é ‘raspada’ sobre a corda, juntamente com a crina, e detaché off-string (francês-inglês), destacado, com o arco carregado fora da corda, sem nela repousar.

A harpa, de cordas dedilhadas, pode tocar près de la table (do francês, ‘perto da mesa’, o tampo harmônico, caixa de ressonância do instrumento. O profissional que constrói ou repara instrumentos de cordas é o luthier ou liutaio, em francês e italiano, respectivamente (de luth, alaúde, que vem do árabe al’ud). As madeiras do violino também levam nomes estrangeiros, principalmente italiano, como accero e abeto.
Eu poderia discorrer sobre o assunto ad libitum, expressão latina que em música significa que o instrumentista ou cantor deve executar sua parte com liberdade, sem mensurar o tempo. No meu Dicionário de Termos e Expressões da Música (SP: Ed. 34, 2004), coletei mais de 10.270 verbetes em diversos idiomas, mas sem incluir biografias para “engordar” o texto: são apenas termos e expressões. Mas será que todos os músicos são versados nessa babel de termos? Claro que não!
Os que fazem a música pura, a linda música de raiz, do baião ao xaxado, do cururu à moda de viola, do vaneirão à guarânia, do desafio ao samba de partido alto e o pagode - aquele de verdade, a tenda montada no quintal lembrando um pagode chinês, e não o modismo da TV, bem diferente.

(Oscar Pereira da Silva)
Todos usam instrumentos cuja origem para eles não importa realmente, e fazem sua arte por herança oral (diria até “aural”), coisa de pai para filho. Usam a viola caipira (ou um de seus outros 12 nomes) afinada em cebolinha, cebolão, rio abaixo, rio acima, conforme a região e o estilo. Pegam no ‘pinho’, sua viola de arame, e com incrível habilidade avançam na técnica chegando mesmo ao virtuosismo, simplesmente pela prática. No samba, podem tocar surdo de 1ª ou de 2ª (o tempo mais forte), e às vezes instrumentos que sabem apenas ser de origem africana, como afoxé e agogô, e isso lhes basta.


Esses artistas sabem que sua música sai do coração, tocam quase sempre por prazer e dedicação de devoto, não pensam em ser “sertanejos pop” e ficarem ricos. Sua arte é para sua comunidade, seus amigos, em quintais e bares, para quem quiser ouvir. Não pedem cachê, basta-lhes uma cervejinha barata ou uma 'manguaça' para abrir a garganta. Fazem desse amor à arte profissão de vida. E não carecem de quem os ensine teoria e afins: se ensinarem, estraga.