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sábado, 11 de novembro de 2017

O PODER DA MÚSICA – Parte IV (FIM)

Vladimir e Estragon esperando Godot, que nunca chegará
Antecipando-se ao inevitável distanciamen­to da Música do jugo dominante das Igrejas, movimento que viria a favorecer o surgimento de novas técnicas e formas de composição, como as proibições pelas todo-poderosas autoridades eclesiásticas do passado tenham evitado intervalos dissonantes, especialmente certas duas notas instáveis ao ouvido humano, sendo o “pior” deles o então proscrito trítono, uma quarta aumentada como em dó-fá sustenido, que angustiadamente pede uma resolução para o repouso, que por si nunca virá. Tal qual em Esperando Godot, do Samuel Becket, peça em que os personagens sofriam a angústia de nunca ver Godot chegar. Por causa dessa dissonância nunca resolvida, maldisseram o trítono como sendo do diabo, reputado coisa do cão, do demo, perturbador da fé! No Renascimento, o maldito intervalo foi denominado “diabolus in musica”, certamente porque, com grande dissonância, aquelas duas notinhas desfrutavam do poder de subverter a estabilidade espiritual, aquela profunda contemplação a que induziam os homofônicos cantos de antanho (as vozes em sons iguais na melodia).
Palestrina oferece música ao (a um dos) Papa(s)
A Igreja do passado, verdadeiro Estado com exércitos e armas, utilizava muito os serviços dos bons compositores em seu favor. Giovanni Pierluigi da Palestrina (1526-­1594), em 1536, ainda moleque foi admitido no Coral Pontifício do Vaticano. Casou-se com a filha de um rico mercador que vendia couro e peles para a corte papal: peles eram parte essencial nas vestimentas, assim como o couro nos sapatos, cintos, etc. Palestrina ficou em seu cargo sobrevivendo a longuíssimos onze papados, o que lhe proporcionou dindim no cofrinho e tempo para compor nada menos do que 115 missas, mais de 1000 motetes e uma longa coleção de obras diversas.
Catequese jesuíta
No Brasil, a partir de 1549, época da chegada dos primeiros missionários jesuítas, o trabalho de catequese começou com a astúcia do colonizador usando o poder da música como elemento sedutor aliado, apesar de aquelas melodias europeias parecerem aos nativos um pouco estranhas, coisa diferente de tudo que tinham ouvido nas tribos. Nos autos católicos, para melhor comunicação com seus catequizados, os religiosos costumavam embutir em ladainhas de contornos melódicos gregorianos diversos elementos indígenas, e mais tarde mesclou-se o lamento dos escravos - daí não ser mera coincidência a semelhança de certo tipo de melodia do nosso cancioneiro com modalismos eclesiásticos (tipos de escalas de notas não alteráveis, diferentemente das nossas tradicionais).
Torneio de cururu do Conservatório de Tatuí. Cenário de Jaime Pinheiro
Nas missões, seduziam os índios agregando princípios religiosos à cultura nativa na catequese (do latim, significando ‘a serviço de inculcar suas pregações nos espíritos’). Daí foi surgindo, aos poucos, um gênero chamado cururu. A palavra seria uma corruptela de cruz, era o jeito que os índios falavam (diz o dicionário que corruptela é ‘pronúncia ou escrita da palavra, expressão, etc., distanciada da linguagem de maior prestígio social’). Alguns acham que o nome cururu teria vindo da dança do mesmo nome de uma região do Mato Grosso, outros ainda atribuem a palavra à lenda do sapo cururu. Na região onde o cururu é cantado, prevalece a ideia da corruptela de ‘cruz’. Mas de que se trata esse gênero? É o desafio cantado, riquíssimo, cheio de rimas e regras, acompanhado por uma ou duas violas caipiras, maravilha que se espalhou pela região do Médio Tietê paulista, em especial Piracicaba, Tatuí, Conchas, Tietê, Laranjal, Sorocaba, Votorantim, Pardinho e Porto Feliz, entre outras.
Os curureiros improvisam rimando em ‘carreiras’ pré-combinadas ou sorteadas, ou seja, regras estabelecidas para as duplas casarem rimas nas improvisações. Como exemplo, existe a carreira a do A (casá, chegá), do Sagrado (falado, coitado), a do Divino (fino, arrimo), a temida e restrita carreira de Santa Inês (fez, vez) e a de Santa Rita (frita, aflita), entre outras. E assim, desde que os jesuítas catequizaram os indígenas, usando sua música, foram incorporando alguns elementos dos próprios nativos, até o dia em que os matutos terminaram por absorver a tradição do cururu de vez às suas raízes artísticas, passando a alçar voos próprios. Esse gênero era tão poderoso que ao se desligar das missões criou vida própria, passando a fazer parte da cultura de raiz do Médio Tietê paulista e se tornando uma tradição inconfundível pela sua riqueza melódica, poética e de criatividade nos improvisos.
La tarantella napoletana, de Bartolomeo Pinelli
Léguas atrás, no distante século XVII, prova dos poderes quase alquímicos da música, anunciava-se um ritual de cura pela música para nada menos do que mortais picadas de tarântulas! Diziam que, quando executado, certo ritmo dançante agitado e colorido por melodias rápidas e intricadas tinha o poder de salvar os que caíam enfermos, vítimas das picadas que inoculavam o poderoso veneno daqueles aracnídeos. Daí surgiu a denominação tarantela - que talvez por ser dança de caráter extremamente agitado acreditavam conseguir expulsar dos corpos das vítimas os males trazidos por aqueles peçonhentos animais. Tal qual, a Dança Ritual do Fogo do balé “El Amor Brujo” (1915), bela composição do espanhol Manuel De Falla, teria sido criada para espantar os maus espíritos, fazendo-os desaparecer na noite misteriosa. E alguns diziam até que a dança ressuscitava os mortos!
Honoré de Balzac
Pode-se encerrar esta série com uma constatação genérica de quem tem visão própria do poder da música: o escritor francês Honoré de Balzac (1799-1850) afirmou que a música é uma outra vida dentro da vida.

(Final da série)

sábado, 4 de novembro de 2017

O PODER DA MÚSICA - PARTE III

Eloise Mental Hospital
Em 1875, o psiquiatra francês Dr. Chonet reportou casos de cura pela música, como o de uma jovem epilética. Em 1936, o Dr. Altschuller do Eloise Mental Hospital, de Detroit, EUA, iniciou estudos sobre reabilitação de enfermos com música, e em 1944, o sueco Aleks Pontvik criou o Instituto de Terapia Musical, reportando curas que vão da asma à hipertensão. René de Castro, no Diário de São Paulo de 1° de novembro de 1951, chega a dividir a ideia em categorias: violino para os deprimidos, flauta para os tuberculosos, Beethoven para reumáticos e Mozart para cardíacos.
Hal Lingerman publicou As Energias Curativas da Música, em que sugere, baseado em suas pesquisas, obras para as mais diversas horas do dia. Seu texto aconselha, para os que se levantam, alguma música calma, que prepare o primeiro contato com a dura realidade do dia a dia; para os que apenas acordam mas querem tirar mais uma soneca, algo como os concertos para flauta de Vivaldi ou o Concerto para Clarineta de Mozart. No acompanhamento musical de um jantar, para boa digestão, alerta que convém evitar percussão pesada, como tímpanos e tambores diversos, além de metais como trombones e trompetes. E sugere para os bons repastos o Concerto para Piano nº 1 de Chopin, além, claro, da Música para Refeições, de Telemann.

Após um dia estafante de trabalho, ainda segundo Lingerman, coisas alegres e suaves, como o Canon de Pachelbel ou o Clair de Lune, de Debussy. Finalmente, como recurso para combater um dos males que afligem parte da humanidade, a insônia, subproduto do ritmo de vida neurótico e barulhento das metrópoles, Lingerman recomenda o Prelúdio à Tarde de Um Fauno, de Debussy, ou o Acalanto de Brahms. Mas tiro e queda mesmo, diz, seria a Ária da Corda Sol, de Bach - garantia de um sono verdadeira­mente relaxante. Diante desses argumentos, alguém pode concluir que a felicidade do dia parece caber em um simples e único CD de áudio.
Gênio da física apaixonado por música, Albert Einstein, criador da Teoria da Relatividade e um dos mais poderosos cérebros já nascidos neste planeta, adora­va seu violino, que costumava tocar para relaxar (ao ouvir Yehudi Menuhin pela primeira vez, Einstein disse que passou a ter convicção ainda mais profunda de que Deus existe). Tocava seu violino enquanto maquinava cálculos e teorias tão abstratos quanto inalcançáveis para os pobres mortais. Revolucionou a física e o pensa­mento científico modernos, e não era um músico medíocre, a se depreender das raríssimas gravações disponíveis, como uma performance ao violino com acompanhamento de piano, bastante musical. Parece que só não foi um ótimo violinista porque a dedicação à física não lhe dava o tempo de praticar o mínimo, que na arte musical não é pouco. Prova de que inteligência e talento musical não estão neces­sariamente divorciados, até pelo contrário, costumam caminhar de mãos dadas.

Josquin des Prés
Um dos primeiros compositores que souberam aproveitar seus dotes artísticos para arrancar dinheiro de reis, papas e nobres, ao mesmo tempo em que produzia grande número de encomendas para particulares, foi o renascentista Josquin des Prés (1440-1521), da Picardia francesa, que viveu na Itália. Josquin chegou a receber encomendas de outros países da Europa para as mais diversas ocasiões e finalidades. Temperamental, mesmo solicitado frequentemente, não se descuidava do lazer, compondo apenas quando dava na telha, descumprindo caprichosamente boa parte dos prazos.

A Igreja muito utilizou as cativantes propriedades espirituais da Música. Ouça um bom canto gregoriano, do século VI, vozes graves e sinuosos melismas (arabescos melódicos ornamentais). Esses cantos tinham a singular propriedade de prender a atenção dos fiéis durante o culto, elevando seus espíritos à comunhão com Deus. Também chamado cantochão, o canto gre­goriano  remonta à época do Papa Gregório I, que normatizou a música religiosa. Nada a ver com outro Papa Gregório, o XIII, que por sua vez decretou novo calendário, escamoteando para isso 11 dias de nossa História e fazendo conta de chegada com o ano bissexto. A música, antes subjugada ao poder da religião, passou a progredir fora da Igreja durante o classicismo, quando na pressa cega de escapar das amarras eclesiásticas infelizmente foi caindo nas malhas de governantes de vários matizes e ambiciosos empresários.

Banda de rock de padres, em Milwaukee
Não é à toa que muitas igrejas que agora proliferam no mundo, a reboque da propaganda e da mídia, utilizam teclados, guitarras, baterias e canções de louvor para cativar seus jovens frequentadores, antigo privilégio quase exclusivo de certos segmentos evangélicos, desde Lutero e os grandes compositores protestantes, como Bach. Já um padre chamado Marcelo Rossi, astro carismático de quase dois metros de altura, vendeu milhões de cópias de CDs com as músicas cantadas e dançadas em seus shows­-missas (e como se trata de certo tipo de modismo, um astro tanto pode ser seduzido por alguma TV de olho em seu sucesso quanto ter caído no esquecimento em algum tempo, destino frequente de estrelas de rápida ascensão).

Juca Chaves disse que uma coisa pode ser igual à outra: após um show em Salvador, em 1999, um fã perguntou-lhe por que ele não havia feito qualquer piada sobre o todo-poderoso senador baiano Antonio Carlos Magalhães. Juca respondeu que só contava anedotas sobre política, nunca sobre religião. Por fim, rendendo-se à TV e à mídia eletrônica, a música foi perdendo qualidade e se transvestindo, passando a moldar o gosto do povo. (Continua na próxima edição)

sábado, 21 de outubro de 2017

O PODER DA MÚSICA - PARTE II

Leverkhün
Os misteriosos feitiços da Música, se por um lado pareciam magia e atraíam as mulheres, na outra ponta provocavam a cobiça dos outros homens. Mas tem seu reverso. O virtuosismo musical sempre foi uma grande ambição, mesmo que enrustida, de qualquer artista, desde o mais medíocre. Um romance de Thomas Mann, Doktor Faustus, penetra fundo na enorme ambição do homem de transcender seus próprios conhecimentos mortais e poderes: um músico (Leverkhün), personagem principal, entrega a alma ao diabo, esperando do acerto extrair virtuosidade excepcional, história que vem de lenda do século XV e já foi narrada também por Goethe.
Tartini e seu sonho
O grande violinista do século 18 G. Tartini escreveu uma obra virtuosística para seu instrumento: O Trilo do Diabo. Prolixa em recursos pirotécnicos, a obra extrai um grande arsenal de efeitos possíveis de serem realizados sobre as quatro cordas de um violino. Pois foi durante um sonho, segundo relatou o próprio Tartini, que o diabo em pessoa lhe apareceu, e passou a executar para ele uma estranha peça. Quando acordou, o composi­tor simplesmente pôs-se a registrar em partitura o que ouvira. Talvez impres­sionado com o pesadelo e evitando futuros contatos com o capeta em pessoa (sabe-se lá se o demo exigiu algo em troca), Tartini dedicou-se a requerer de seus alunos escalas muito lentas - ao contrário do que exige seu louco Trilo do Diabo. Talvez, assim, mantivesse seus meninos nos braços dos anjos, com certeza muito melhor companhia do que seu macabro visitante noturno.
O diabo de Torcello, Veneza. No colo, Judas
Que diabo, digo, que tanto o capeta vem se infiltrar nos assuntos da Música? Do grego Diabolo, o latim diabolôs, entre vários significados, é aquele que separa, divide. Portanto não é nada doce o músico dizer "estou com o maestro atravessado por aqui", com gesto de corte na garganta. Em hebraico, mais próximo das religiões ocidentais e algo mais próprio às negociações fortuitas com o baixo além, satan é inimigo - o que significa, aviso aos ambiciosos, que vender a alma ao demo é entregá-la ao adverso – o que exige os devidos cuidados.
Propriedades mágicas a mais universal das artes parece ter: experimentos com galinhas poedeiras, nos EUA, constataram que a produção de ovos aumenta quando o dono da gran­ja irradia algum Mozart nos alto-falantes distribuídos entre as incubadoras das penosas. Cientistas aus­tralianos comprovaram, há alguns anos, que o hábito da escuta musical melhora o raciocínio matemático das crianças com melodias simples e lógicas, ressaltando que são formas com as quais os infantes se relacionam melhor.
Smashing Pumpkinns
À música de Mozart é reputada certa capacidade de desobstrução de alguns condutores mentais ocultos: testes de QI realizados em adolescentes que ouviram as obras do compositor antes de uma bateria de exames psicológicos constataram resultados melhores do que os daqueles que não ouviram nada. Ou que, provavelmente, passaram o dia anterior fazendo omelete de seus neurônios ao som de algum indigesto “pancadão”. Mas essa barulheira não ataca apenas neurônios: um professor de Música da Universidade de Princeton, Peter Jeffrey, processou o grupo de rock Smashing Pumpkins por perdas e danos ocorridos durante um show em 1997, vítima de lesões irreversíveis em seus ouvidos, a Perda Auditiva por Indução de Ruído (PAIR). Abriu também uma outra ação judicial contra a Siebe North, empresa que fabricou os filtros auriculares que comprara na entrada do auditório para se proteger dos excessivos decibéis do grupo.
Os pesquisadores Vincent e Thompson coletaram estatísticas que comprovam a influência da música sobre a pressão arterial. Como exemplo, a revista da American Medical Association publicou há uns anos uma pesquisa que conclui que médicos que ouvem música durante inter­venções cirúrgicas mantêm pressão sanguínea e pul­sação em nível mais baixo do que os que não ouvem nada durante as estafantes horas de trabalho con­centrado e angustiante. Segundo o estudo, 92% dos cirurgiões mais calmos eram ouvintes contumazes dos melhores autores da música clássica. 
Outra experiência, realizada durante uma corrida de bici­cletas em Nova Iorque, revelou que a frequência acelerada dos bati­mentos cardíacos dos ciclistas em geral baixava quando eles passavam por uma orquestra estrategicamente colocada em um local – onde, curiosamente, a velocidade média dos competidores chegava a subir 10%. Uma clínica psiquiátrica de Richmond, EUA, obteve significativo sucesso em experiências musicais com ex-combatentes traumatizados, e o francês Vergnés chegou a afirmar que as ondas sonoras podem alterar a movimentação de substâncias no interior das células, abrindo caminho para uma avenida de novas teorias e especulações.

Marilyn Manson
Contra tudo e contra todos, Dr. Wolf Adler, um louco de pedra da Universidade de Columbia, também nos EUA, tentou a todo custo contradizer o mundo inteiro, argumentando que até a melhor das melodias força o sistema nervoso, sendo prejudicial ao organismo. Razão pela qual pediu a um senador dos EUA que elaborasse projeto de lei proibindo concertos públicos, ao ar livre, requerimento devidamente engavetado. Engrossaram o coro dos que concordam com os alegados malefícios da música aqueles que a ela atribuem o massacre de vinte e cinco estu­dantes de uma escola secundária de Littleton, EUA, em 1999, em show dos bizarros Marilyn Manson e Rammstein. Mas quem levou o crédito pelo desastre não foi a música, e sim a loucura ensandecida do grupo e o volume ensurdecedor. (Continua na próxima semana). 

sábado, 14 de outubro de 2017

O PODER DA MÚSICA - Parte I

Paus de chuva
Desde o início dos tempos, a Música tem assumido papel de destaque em nossa civilização. Desde aquele troglodita que, sobressaindo-se na arte de se comunicar com pessoas, coisas e deuses por meio de gritos, ruídos e batidas no peito, logo foi designado pelo chefe para animar a tribo, declarar guerra, comunicar-se à distância, expulsar demônios e mesmo mudar o tempo - até hoje, entre nossos indígenas, existe um longo chocalho de nome pau de chuva. Fora a tradição que sobrevive em nossos dias: encomendar o corpo dos defuntos.
Serra do Montejunto
O Instituto Português do Patrimônio Histórico e Antropológico (IPPFIA) divulgou resultados de escavações feitas no final de 1994 na Serra do Montejunto, próximo a Lisboa. Entre adereços, objetos e ossadas de mais de cem trogloditas, foi encontrado um fêmur de veado com uma escala de quatro orifícios. É mais do que comprovada a existência de instrumentos musicais rudimentares entre os homens pré-históricos, que como se vê não buscavam apenas a própria sobrevivência. (Divertida é a anedota sobre o ancestral encontrado por supostos arqueólogos lusitanos, em algum sítio pré-histórico. Um esqueleto descoberto dentro de uma espessa parede de construção milenar trazia uma placa no peito: "Guinness Livro dos Recordes - campeão mundial de esconde-esconde").
Entre os sumérios, os músicos tinham atribuições funerárias, talvez razão pela qual nas gravuras aparecem com os semblantes tristes. Dez sécu­los antes de Cristo, David acalmava Saul com sua lira e mantinha um coral de centenas de vozes para seus salmos, além de orquestras que contavam com até dezenas de trombetas, e nomeava sacerdotes milhares de cantores e centenas de mestres. Os assírios, setecentos anos antes de Cristo, já conheciam a kithara, instrumento de cordas com jeito de lira.
Kithara

Antiga Flauta de Pã
Os gregos - fora as contribuições do matemático Pitágoras, que organizou boa parte do sistema em que baseia a música ocidental - já sabiam que o deus Apoio, além de ideal de beleza, era protetor da Música. E que Pã tocava uma flauta de sons misteriosos com a qual iria conquistar o amor da ninfa Syrinx. No início do século 20, o compositor Claude Debussy criou belíssima obra que leva o nome da ninfa, talvez a peça mais famosa das escritas para a flauta transversal solo.
Caronte em seu barco: a fuga do Inferno
Com sua lira, Orfeu narcotizou Caronte, para que o conduzisse em seu barco ao inferno, de onde resgataria sua amada Eurídice. A Odisséia e a Ilíada de Homero eram can­tadas, sendo que na primeira delas Ulisses foi seduzido pelo canto das sereias, vozes sedutores que quase o levaram ao naufrágio. Entre os romanos, a Música também tinha papel de destaque. Exércitos usavam fanfarras para animar seus desfiles. E Nero, que era o vencedor hors-­concours de suas maratonas de canto, dedilhava uma Lira enquanto via Roma pegar fogo.
Barbarella (Jane Fonda) e a tortura de Duran
Mais recente, Jules Verne já fazia seu Capitão Nemo, como fosse um Nero moderno, inebriar-se entre prelúdios e fugas no órgão de tubos de seu submarino, preparando-se para a grande explosão. O vilão intergaláctico Duran delirava com o som hipnotizante de seu órgão de tubos em cujo interior havia um mecanismo erótico, no qual prendera a estonteante heroína espacial Barbarella, utilizando o instrumento como máquina de prazer e tortura - iniciando com afagos prazerosos em ritmos suaves, para afinal punir sua prisioneira com um fortíssimo, para conduzi-la à morte. Por prazer.
Curioso é que em 1475, em Florença, governantes já faziam uso político da arte musical. Músicos municipais eram obrigados a tocar para o povo de uma sacada da Prefeitura todos os sábados à noite em loas ao governo, louvando-o por ter ministra­do justiça. Pois um quarto de século antes de Pedro Álvares Cabral aportar, bem antes de Getúlio Vargas e do rádio, aqui já havia sido inventada uma versão florentina da Voz do Brasil ou da Semana do Presidente!
Encantador de serpente
Nas ruas de Nova Delhi, na Índia, cobras venenosas  domesticadas dançam sinuosas ao som de flautistas de turbante. E quem não se lembra de ter lido, na infância, a fábula do século XV O Flautista de Hamelin, que conduziu os ratos da cidade para longe, atraídos pelo seu sopro mágico, até se afogarem em um rio? Sapos são exímios cantores. O canto do acasalamento desse anuros é feito com a boca fechada, boca chiusa, como pediu Villa-­Lobos na Bachianas 5, para soprano e violoncelos. Os machos cantam para atrair as fêmeas, e emitem um som grave de sua barriga para evitar outros machos que por engano possam abraçá-los por trás. Já a canção do medo é executada com a boca bem aberta, e o som que usam para demarcar seu espaço é percussivo, usado para bem delimitar seu território.

Il Libro del Cartegiano
No século 15 Jean Tinctoris afirmava que a Música servia para louvar a Deus, pôr o diabo a cor­rer, salvar os doentes e provocar paixões. Em 1528 Baldessar Castiglione, em II Libro del Cortegiano, assegurou: "não existe pronta cura e remédio para mentes fracas mais completo e valioso do que a Música, também útil para agradar as mulheres, cujos corações ternos e doces logo são penetrados pela melodia e alimentados com suavidade”. Não admira que antigamente, como hoje, elas tenham certa ‘queda’ por músicos, e tenham a arte deles como “o mais aprazível alimento do espírito". Eurípedes dizia que cantos mágicos podem fazer os doentes de amor voltarem a si. No século 18, Robert Burton afirmou que a Música é remédio para as mentes tristes e antídoto contra a melancolia. E há muito mais para contar, como veremos no próximo capítulo. 

sábado, 7 de outubro de 2017

AUTRAN DOURADO, ROMANCISTA . Pai, amigo e herói - Parte II

Com alguns favoritos à mão
(Termino o texto a partir de onde havia parado na Parte I) 

Eventuais falhas em meus livros seriam corrigidas se fosse possível, mas tudo foi escrito com cinzel sobre pedra. Voltando ao pai, aquele estado pós-livro não fazia bem ao velho Autran. Fases deprimidas, brechas na intensa volúpia literária, a doença de escriba que o fazia escrever cartas e artigos aos borbotões, produção impressionante para quem usava uma máquina. Pouco simpático ao computador, cada vez que começava a digitar tinha de ter rápidas aulas para reaprender - menos pela modernidade do que por certo ‘tremor essencial’ nas mãos, doença de quem escreve, explicava repetindo o médico. 
Lev Tolstoi
Perguntei-lhe se o tempo consumido por Lev Tolstoi para escrever Guerra e Paz não poderia ter-lhe rendido muito mais livros se na época houvesse computadores. Ele foi categórico, nunca! Guerra e Paz é o que é porque foi escrito a bico de pena! Entendi que era, em tempos modernos, o que ele fazia na velha máquina, e só não escrevia com caneta porque tinha uma péssima caligrafia, que herdei dele. Tinha de pensar antes de cada tecla, cada sílaba, cada palavra. Aqueles corretivos maravilhosos não existiam ou não se dera bem com eles, acho que preferia pensar a conta-gotas enquanto escrevia. Tolstoi fora meticuloso como um relojoeiro, o bico de pena molhado com parcimônia na tinta, letras desenhadas para o texto planejado a cada palavra.
Servidor público da Justiça, meu pai viu abater-lhe a maldita aposentadoria compulsória, que viria aos poucos arrefecer sua febre criativa. Com o passar dos anos foi ficando ainda mais introvertido. O caipira do sul de Minas ainda conservava aquele humor característico e frases lhe brotavam da cabeça, forma de se comunicar com o mundo exterior, a família e os já menos frequentes amigos. Sair da vida de trabalho cotidiano foi-lhe fechando o casulo, e ele parecia se conformar com aquele fado.
Cabana de Henry Thoreau  em Walden Pond: reconstituição
Continuou escrevendo, mas já havia bons anos que evitava noites de autógrafos, seja por necessidade de isolamento, timidez ou pela dificuldade de tornar seus garranchos dedicatórias legíveis.  Virou, assim, uma espécie de Henry Thoreau de Botafogo, fechado em sua cabana imaginária, um escritório cercado de livros por todos os lados, na falta da água de um lago como o do norte-americano. De seu refúgio, saía quase que apenas para comer ou dormir, o que só conseguia à custa de medicamentos. 
Cervantes entre seus livros, sonhos e insônia
Os médicos pareciam seus reféns, as consultas eram economicamente narradas por minha mãe, companheira de vida, braço direito e às vezes também esquerdo dele. Era ela quem o acompanhava aos consultórios e escondia trancados os comprimidos, dosando-os conforme a prescrição e não segundo a cabeça já tanto quanto confusa de meu pai. Nessa fase, passou a ser usual cochilar na cadeira de balanço com um livro na mão, cena que fazia par com a gravura pendurada na parede ao seu lado, em que se via Don Quixote entre muitos livros e Cervantes, esparramado sob o dístico “embebeu-se tanto na leitura que passava as noites em claro”. Era o retrato daquela fase paterna.
Vem-me agora à cabeça um episódio de passado bem distante, lembro-me com detalhes e conto para concluir esse breve depoimento. Entreguei ao meu pai um dia, na hora do almoço, alguns títulos de livros pedidos pelo colégio. Ao ver um deles, arregalou os olhos, limpou a boca com o guardanapo, e, sem dizer nada, abriu a porta e desceu. Soube depois que tinha ido ao meu colégio, e exigiu que retirassem aquela publicação, seu filho não iria ler aquilo e ponto final.
A Monte Santo de antigamente
Se eu o vi furioso raras vezes, uma delas foi nesse dia, e ensinou-me a evitar esses novos best-sellers de ocasião. Dizia que escrever porcaria para vender ele também sabia, bastava juntar suspense, traição, escrita de gibi e uma pitada de sacanagem. Mas recusava-se a fazer isso abrindo mão da sua literatura. Best-sellers no Brasil são reles 20 mil exemplares vendidos, se passar muito além comece a desconfiar, alertou-me. Literatura em nosso país é útil para poucos, infelizmente. Para mim, que fui criado em Monte Santo, está muito bom, falava.
Na vida, na escrita, na música, aprendi que temos de fazer o que muito bem definiu meu pai na sua carpintaria literária o crítico Humberto Werneck: um trabalho de formiguinha. Werneck publicou em jornal artigo sobre um saudável bate-boca de amigos entre o Autran Dourado e o Fernando Sabino. Meu pai sempre instigou Sabino a escrever algo de maior fôlego, completo, deveria esquecer um pouco as breves crônicas e partir para o que, em música, chamamos ‘grande forma’ - no caso da literatura, o romance. Sabino já havia feito sucesso com seu O Encontro Marcado (1956), mas, passaram-se mais de 20 anos e ele continuou amarrado às suas divertidas crônicas. Provocado, Sabino vaticinou que o romance havia morrido. O velho Autran saiu-se com essa, dando aquela risada de sempre: engraçado, o Fernando, desaprendeu a nadar e quer esvaziar a piscina!
Tanto já foi escrito sobre a obra de meu pai que eu não poderia entrar nessa seara já tão desbravada sem ser um especialista estudado no ramo. Por isso, preferi mostrar o escritor como o homem e pai Autran Dourado, com suas imperfeições e manias, seu jeito tão mineiro e caipira de ser e viver, sem desfrutar da fama que a soberba, a vaidade e a busca por exposição poderiam tê-lo proporcionado, se dado fosse à exposição pública e às colunas sociais. Autran Dourado foi apenas uma coisa a vida inteira: um escritor, e isso bastou para justifica-la como ideal. O resto foi amor, família e ganha-pão. 

terça-feira, 26 de setembro de 2017

AUTRAN DOURADO, ROMANCISTA. Pai, herói e amigo - Parte I


Casa onde nasceu
(Trinta de setembro. Cinco anos que partiu!) O velho Autran não era muito de conversar sério, mas com seu jeito zombeteiro conseguia entremear conselhos sábios, tiradas filosóficas e usar a aguda visão política de um rapazola que fora inscrito no Partidão, de onde saiu por perceber que a ‘patrulha’ queria interferir em sua literatura. Viveu com os pés no barro de quem foi muito Brasil, desde as Minas Gerais de sua Monte Santo, que inspirou a mítica cidadezinha de Duas Pontes, recorrente em seus livros. Aos 19 já publicara um livro, porém a mim ensinou a não tentar ser precoce na vida, repetindo a lição que lhe havia sido dada pelo escritor Godofredo Rangel, que seguiu à risca desde o início. Não seja precoce, seja perseverante, obstinado, dizia – uma formiguinha, analisou um crítico há alguns anos, conforme veremos adiante.
Com Hélio Pellegrino e Maria Urbana, sentados no sofá
As conversas com os amigos, especialmente os que frequentavam nosso apartamento em um predinho de três andares sem elevador, se eram entre risadas com o Otto Lara Resende ou o Hélio Pellegrino, pareciam ser mais sérias nas domingueiras com Clarice Lispector, quando o assunto passeava por Schopenhauer, Goethe e Kafka. Mais tarde eu iria me iniciar nas leituras dos grandes pensadores da esquerda ‘real’, levado, como o pai no passado, pelo canto da Lorelei que, à beira do rio Reno alemão, com seu corpo deslumbrante e voz virtuosa atraía barqueiros pela sua formosura. Inebriados pelo uivo, digo, canto do vento em uma reentrância das margens do rio, os barqueiros eram lançados para dentro de um grande vão nos rochedos, e suas embarcações espatifavam-se contra as pedras, fazendo-os vítimas de suas próprias ilusões. A minha Lorelei, no caso, era o fim das torturas, a liberdade intelectual e artística e a justiça social.
Momento solene: JK, Israel Pinheiro (de pé), e Autran Dourado (óculos, à direita)
Nomeação de Pinheiro para a presidência da NOVACAP, empresa que construiu Brasília

Pois minha atração pela vigiada esquerda estudantil daqueles tempos não via a risca tênue a separá-la do ingresso em uma revolução visionária. Era tudo a que se resumia na época a vida dos jovens sonhadores, tal qual acontecera com meu pai. Um dia, em Petrópolis, ele me convidou para um chopinho no tradicional D’Angelo. Lá, falou sério sobre sua vivência, primeiro taquigrafando falas do Luís Carlos Prestes na Assembleia de Minas. Mostrou também a sabedoria acumulada nos tempos de JK, de quem foi Secretário de Imprensa. Contou sobre sua longa ‘sala’ para – sim, ele mesmo, meu então ídolo - Che Guevara.
Não foi carrancudo em um pedestal, nem foi com intenção de me desmontar, do alto de sua experiência, apenas usou a tática correta, quem sabe remanescente de seus estudos dialéticos. Falou-me da expressão “democracia y libertad”, que ouviu incontáveis vezes de um verborrágico Guevara durante horas a fio, prática dos sermões em forma de discursos do comandante Fidel.
Em um duplo movimento, ‘roque de xadrez’, o pai se aproximava do filho ombro a ombro, mostrando como aquele canto da sereia atraía os jovens para o enfrentamento da ditadura. Lembro-me especialmente de ter ouvido a expressão “bucha de canhão”: enquanto a juventude era presa, torturada e às vezes morta, os “velhos” – alguns bastante conhecidos – ficavam encastelados no controle como em um videogame, preservando-se com a desculpa de serem a ‘inteligência’ da luta armada, que haveria de prosseguir e vencer. Começou a cair ali, na chopada, meu sonho irrealizável. (Alguns dos seduzidos pela cantilena da luta: jovens como Dilma, Dirceu e Gabeira). 
Viaduto Paulo de Frontin
Fora essas raras lições, falava dos livros, da necessidade de ler, uma enfermidade sadia que contaminou seus quatro filhos. Ontem mesmo, na rua, pensando em Dom Casmurro, do Machado, lembrei-me de mais uma frase lapidar que meu pai proferiu. Eram tempos pós-tragédia da Paulo de Frontin, no Rio (“Caía a tarde feito um viaduto”, pensei nos versos do Aldir Blanc), e afirmou que se todo mundo lesse Machado de Assis menos viadutos cairiam, menos pessoas morreriam na mesa de cirurgia. Hoje arrisco, com o beneplácito dele de lá de seu merecido descanso, que menos corrupção haveria!
Machado de Assis, nosso escritor maior, como o chamava, era seu porto seguro. Entre outros, alternava o carioca com Flaubert, Joyce e Faulkner. E passava horas lendo, e em algum momento e lugar inesperados a “ideia súbita” (não acreditava em inspiração) lhe surgia. Primeiro, ia anotando tudo em taquigrafia ­– a espanhola, mais rápida, dizia, com uma ponta de orgulho -, aprendida nos tempos da Assembleia de Minas.
Era taquigrafando que anotava detalhes em cartõezinhos que levava nos bolsos, peças do quebra-cabeça com que arquitetaria um futuro livro. Uma vez traçados os contornos principais da nova obra, punha-se a escrever desesperadamente, como se estivesse ficando – ou evitando ficar, sei lá – louco. E tudo isso com uma rotina metódica, um trabalho de carpintaria, dizia ele. Sua confidente era minha mãe, Lucia, que lia seus originais, e ele não mais costumava comentar sobre o que estava fazendo. Apenas uma vez perguntou-me se havia uma sonata em Fá de fulano (não me lembro a quem ele se referiu), e eu disse que sim. Achou bonitas as palavras, pois embora gostasse de música não era nada chegado à teoria, títulos e afins. Apenas ouvia. E usou a tal sonata em um texto, soava bem, pareceu-lhe.

Depois que terminava de escrever uma obra, a ressaca. Um dia ouvi uma frase do Jorge Luis Borges, o livro só acaba quando está impresso. Pura verdade que eu só vim a confirmar mais tarde, em minhas teses e livros técnicos, que só dei por terminados depois de vê-los impressos, seguros nas mãos. Coisa de formiguinha, pai! (Continua na próxima semana)