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sábado, 29 de junho de 2013

MILHARES DE PERSONAGENS EM BUSCA DE UM AUTOR


Seis Personagens
Título de uma obra do dramaturgo italiano Luigi Pirandello (1867-1936), Seis Personagens em Busca de um Autor (Sei Personaggi in Cerca d’Autore), relata o drama de seis personagens que sobem ao palco do teatro em protesto por terem sido excluídos da peça pelo autor. Reivindicação: que o diretor da peça encenasse também suas próprias histórias, tornando-se o autor de suas vidas. Na confusão, abre-se uma discussão que coloca na berlinda autor, diretor, atores... um voo filosófico sobre o próprio processo criativo – e até além dele, claro. A peça se divide entre um texto “real” e a discussão paralela com os seis personagens, realidades distintas no mesmo palco. Claro, os personagens querem representar-se a si mesmos, não aceitam terem sido alijados pelo autor. Querem libertar-se do jugo dele, o verdadeiro dono da caneta, do poder.

Grupo com máscaras de Anonymous
Decidir quem são os autores de hoje, e quem é personagem de si mesmo não é apenas uma reflexão pirandelliana, é também um salto de maior envergadura na atualidade brasileira. Se são personagens sem nome, sem espaço, sem rosto, querem, por óbvio, assumir suas individualidades sem paternalismos, querem sentir-se também autores no palco da vida, ao invés de condenados a simples observadores. No palco das ruas, querem se assumir com vida própria, além da vida cotidiana de cidadão comum.

O dândi vândalo destruindo a entrada da Prefeitura de SP
O Brasil tem visto, há dias, desenfreadas multidões em busca de seus autores, personagens rebelados tanto contra os criadores, donos da caneta, quanto os diretores de cena. Não existe nesta peça espaço para partidos políticos (não há face, só persona), e os que se apresentaram buscando dividendos partidários são rechaçados e, como em algumas cenas expostas na mídia, até hostilizados pela massa. E todos maldisseram um baderneiro profissional, rapaz forte – braço bom pra lavoura, diria minha avó –, um escroque cuja maior diversão é a baderna, seja onde for! Foi ele, um desocupado bem nutrido e “sarado”, vagabundo profissional, quem esteve à frente da tentativa de invasão e depredação do prédio da Prefeitura Municipal de São Paulo. À semelhança dele, punks e skinheads, antes inimigos (alguns contratados por partidos radicais), agora unidos promoverem saques, depredações e arruaças.

Immanuel Kant
Que estamos vivenciando um fenômeno único, isso é inegável. O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) dizia que um fenômeno é um objeto do conhecimento, mas não em si mesmo, e sim na relação com quem passa a conhecê-lo, pelo ponto de vista de ideias e experiências anteriores. Isso traz a certeza de que existe um fenômeno, sim, especialmente comparando acontecimentos recentes com nossas ideias e experiências do passado.

Atores e músicos em 1968:  linha de frente
Para ser mais claro, essa revolução sem discurso e desarmada que foi plantada a partir dos vinte centavos de aumento na tarifa dos ônibus não tem nada a ver com a “passeata dos cem mil”, movimento histórico contra a ditadura, a tortura, as prisões, a censura e pela libertação dos presos políticos do final dos anos 1960. Naquela época, braços dados ou não, faziam o “escudo”, na linha de frente, Odete Lara, José Celso, Chico, Caetano, Gil, Gal, Milton, Nana e um cordão de gente da cultura, além de religiosos de batina. O ideal era um só: o fim da ditadura. Foram todos filmados, fotografados, fichados e posteriormente tiveram suas vidas vasculhadas, obras censuradas, e muitos exilados ou presos. Tudo por um ideal único e bem definido: o fim do regime.

Os personagens de hoje são quase anônimos, a organização – sim, claro, ela existe e é razoavelmente bem feita, só que não se vê – se utiliza de perfis ocultos nas redes sociais, entre seus articulados autores. Confusão, distorções e aberrações, claro, ocorrem em qualquer lugar onde se reúna uma multidão, e não é exclusividade brasileira. (Já o vandalismo é um efeito colateral burro e perigoso das aglomerações). Qualquer coisa entalada na garganta acaba sendo cuspida nesses momentos: além do “vintinho”, o que se quer é o fim da Copa 2014 (veja aí um outro fenômeno, já que até hoje éramos o “país do futebol”) e dos gastos monumentais, em troca de educação e saúde. O fim da corrupção, a prisão do José Dirceu, o grito por uma nova ordem.

Danny, le Rouge, no comando da massa em Paris, 1968
Mas qual seria essa nova ordem? Ninguém sabe, e esse será outro fenômeno a ser compreendido, se progredir o movimento. Sem imaginar, nem de longe, que isso possa vir a se repetir, lembremos que em 1968 a estudantada francesa, tendo à frente o inteligentíssimo Daniel Cohn Bendit (1937), o Danny Le Rouge (Dany, o Vermelho), chega ao poder. Assume, e um dia depois o abandona, por não saber o que fazer.

Nesse Brasil efervescente de hoje, não há plano de poder das massas, não há sequer um plano para se chegar a algum lugar. Trata-se apenas de uma convulsão causada por um descontentamento geral dirigido a vários destinatários, sem rua e número bem definidos. Essas convulsões são o (epi)centro das atenções no país inteiro, e seus olhos voltam-se agora a Brasília. Os comandos de rua acontecem via mensagens de celular e radiotelefones, auxiliados pela organização e mobilização pelas redes sociais, arquitetadas por uma intelligentza oculta nas mensagens virtuais.

2013: ocupação do Congresso Nacional
Falta muita coisa ao movimento, especialmente as que arrastaram multidões, como no passado: a presença de líderes sindicais, estudantis e artistas de teatro e MPB. Um amigo, importante jornalista de mídia nacional, bolou uma anedota magistral: disse ele que os artistas da MPB de hoje estão se articulando para engrossar o apoio ao movimento. Aguardam, apenas, a liberação dos cachês pela Lei Rouanet. Essa é uma das diferenças gritantes: as passeatas recentes não têm face, os líderes não sobem em Kombis para discursar em megafones, artistas se calam. Os manifestantes apenas se movimentam, “buzinando a moça e comandando a massa”, e tentam evitar a repressão – que se faz necessária diante de vandalismos. Aglomeram-se à revelia de vagabundos, radicais partidários e dejetos sociais como os movimentos punk e skinhead, de modismos e nomes importados e crueldade sem pátria. Resta ver o que sobrará, se a massa não se cansará até mudar alguma coisa mais além dos 20 centavos.


sábado, 22 de junho de 2013

QUEM DITA O VALOR: A ASSINATURA OU OBRA DE ARTE?


Chase Manhattan Bank
M
eu pai dizia que, se um dia ele fosse no Chase Manhattan Bank de NY para sacar dois milhões de dólares na boca do caixa, pediriam que aguardasse, e em poucos minutos lá estaria a polícia. Porém, se o Nelson Rockefeller ligasse para o banco dizendo que precisaria sacar dez milhões, bastaria aguardar o carro-forte do banco enquanto o presidente da instituição lhe faria uma visita, entre um belo uísque 16 anos e charutos. Pois bem, isso nada mais é do que uma alegoria sobre a assinatura do autor em uma obra de arte, ou o valor que um nome agregado a uma peça ou mesmo uma apresentação pública por uma superestrela.

Joshua Bell
N
ão faltam historietas reais: há uns seis anos, o jornal “The Washington Post” preparou uma brincadeira: levou o violinista Joshua Bell, um virtuose incensado por sua música e beleza juvenil, a uma passagem do metrô da capital, D. C., para, incógnito, tocar para os transeuntes. Dito e feito, Joshua abriu sua caixa de violino no chão do lobby, e, calçando tênis, jeans, t-shirt e um boné ao contrário, como qualquer moleque, sacou seu precioso Stradivarius raríssimo e se pôs a tocar obras solo de Bach, Paganini e outros grandes compositores (veja e ouça no link abaixo). Pois bem, depois de mais de uma hora, apenas uma dúzia de pessoas havia parado para ouvi-lo durante escassos momentos. Saldo final da “apresentação”, seu estojo de violino tinha recebido caixinha de... menos de parcos 20 dólares! Curioso: no dia seguinte, Joshua se apresentou no afamado Kennedy Center de Washington D.C., com a casa lotada por um público que pagou no mínimo U$ 150 para assisti-lo.


Partitura de 4' 33", de John Cage: silêncio
John Cage (1912-1992), compositor da vanguarda americana, é autor de uma inusitada obra conceitual: 4’ 33”. Durante exatos quatro minutos e trinta e três segundos o pianista (ou músico de qualquer instrumento) fica sentado, imóvel e em absoluto silêncio. Ao final do tempo marcado no cronômetro, levanta-se e se curva para agradecer os aplausos da plateia. Quando o 4’33” de Cage é executado, costuma ser bem aceito – afinal, trata-se de um dos maiores nomes da música do século 20.

Philip Glass
J
á as peças de um outro compositor badalado, Philip Glass (1937), representante maior da chamada corrente minimalista norte-americana, volta e meia apresentam sequências intermináveis de três ou quatro notas apenas, uma música repetitiva que bem serve para algumas partes das trilhas de certos filmes de ação. Também nesse caso vale o nome, e a obra vale o quanto pesa esse nome. (Veja e ouça abaixo o prelúdio do ato I da Ópera Ahknaten, de Glass).



Haydn
E
isso não é de hoje: veja que, no passado, o nome de Haydn (1732-1809), por exemplo, foi usado para vender obras que possivelmente ficariam encalhadas. O famoso concerto em dó maior para violoncelo e orquestra de Haydn tem um coro grande de especialistas que afirma que a peça não é de autoria do austríaco, apenas foi feita para ser vendida com o nome dele. Outros defendem que a obra é, sim, de Haydn. De um jeito ou de outro, prova-se, mais uma vez, que uma assinatura pode revestir uma obra de arte em ouro – ou, ao contrário, em quase nada, a depender da mão que a fez, assina ou executa.
Um Joan Miró

Quando a criança faz alguns rabiscos, riscos, borrões, a professora elogia, mamãe fica orgulhosa e guarda a “obra” no álbum do bebê. Porém, se um quadro de traços semelhantes (estou sendo radical, para ilustrar) aparecer no leiloeiro Christie’s com a assinatura do catalão Joan Miró (1893-1983), autor de obras que são ícones de várias correntes modernas da pintura, levando um certificado de autenticidade acreditado (reconhecido), pode alcançar uns belos milhões de dólares.

Um Jackson Pollock

Os lindos “borrões” do também norte-americano Jackson Pollock (1912-1936) poderiam ter saído de algum papel de jornal usado para limpeza dos pincéis (exagero mais uma vez, a bem da clareza). Mas são obras de Pollock, expoente do expressionismo abstrato americano, e enchem as galerias de curiosos e apreciadores. Eu, cá, adoraria ter unzinho que fosse.

O "Três Mulatas", do Di Cavalcanti, na feira
R
ecentemente, um grande jornal de São Paulo resolveu fazer uma campanha para divulgar uma coleção de livros com obras de pintores brasileiros que passou a vender como promoção. Um autêntico Di Cavalcanti (1897-1976), “Três Mulatas” (1953), que hoje atingiria preços estratosféricos, foi estrategicamente disposto em uma barraca da feira de antiguidades e bugigangas da Praça Benedito Calixto, em São Paulo, à vista de estimados 7 mil passantes. Pois a tela “Três Mulatas” foi ignorada, não houve uma viv’alma sequer a se interessar! Porém, fosse uma exposição em museu com obras do consagrado autor, o mesmo quadro seria uma das estrelas, com certeza.

O "Contra Relevo", de Lygia Clark, recordista
E
m leilão promovido pela Philips em NY este ano, a artista plástica brasileira Lygia Clark (1920-1988) teve sua obra “Contra Relevo (objeto nº7)”, de 1959, vendida pela bagatela de R$ 4, 5 milhões, o mais alto valor pago por um trabalho de artista brasileiro em toda a história. Trata-se de um belo, porém simplíssimo quadrado, apoiado sobre um dos cantos. O quadrado é dividido em quatro quadrados menores e idênticos: um superior, um à esquerda e outro inferior, todos negros. O quadrado da direita, que ocupa ¼ do objeto, tem a cor branca. Se fosse trabalho de logotipo de um aluno de design, seria apenas isso. Mas não. A assinatura de Lygia Clark agregou o valor de suas preciosas mãos e currículo à obra, daí o peso enorme na composição do preço de venda, alcançado após acirrada disputa entre os apostadores.

Fernando Pessoa, por Almada Negreiros
Na literatura, o maior poeta português, Fernando Pessoa (1988-1935), adotava heterônimos, nomes que representavam personalidades distintas. Os mais conhecidos foram Alberto Caieiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, mas quando Pessoa assina seu próprio nome a atração é focada no autor em sua forma mais autêntica: aquele nome “que na pia lhe foi dado”, diriam os patrícios portugueses. Até coisas singelas são coroadas de genialidade quando seguem o nome de Pessoa: “O mais que isto, só Jesus Cristo, que não entendia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca”. Até hoje moderna, a poesia de Pessoa fica ali, ali bem perto do altar do grande e velho Camões.

Camões

sexta-feira, 14 de junho de 2013

COMANDANTE JUQUINHA, INDIANA JONES E A REVOLUÇÃO DE 32


Com Cristiano Machado, ao centro, comandante Juquinha, à direita, e Cordeiro de Farias, ao seu lado
José Carlos Campos Christo, o “vovô Juquinha”, mineiro até a raiz forte dos cabelos, deixou o mundo como general reformado. Muito antes de partir, em sua casa, em Belo Horizonte, ele nos recebia nas férias, sempre com seus chinelos cobertos pela metade, o paletó surrado, e sentava-se junto ao grande móvel de imbuia do velho rádio (com várias bandas de ondas curtas, onde ele procurava notícias, música clássica ou alguma ópera mundo afora). Naquele mundinho, muitas vezes, ouvi histórias e estórias. (Sim, censores acadêmicos aposentados fundamentalistas - e não é uma delícia esse neologismo, acadêmicos fundamentalistas?). Segundo o Houaiss e na pena do Guimarães Rosa a palavra estória existe sim, e opõe-se a história exatamente como em inglês: “history ou story”. (E mesmo se a palavra não existisse, seria preciso inventá-la).


Batalhão de Infantaria, em BH, hoje
Às vezes eu me sentava perto dele, a ouvir aquela voz pausada contar causos que caberiam em um filme do Indiana Jones, fosse hoje, mesmo que a série americana ainda estivesse a décadas de existir. E era como disse o Milton: “para me contar casos da campanha da Itália / e do tiro que ele não levou...” Vovô bordava com a voz as imagens cinematográficas que ilustravam meus pensamentos. Mas recheando a prosa com um pouco de história (com “agá”), vamos buscar no tempo alguns desses relatos. Em 1930, Juquinha já era comandante do Batalhão de Infantaria de Minas Gerais (12º), sediado em Belo Horizonte. Junto com Cristiano Machado, então Prefeito de BH (e futuro pré-candidato à presidência em 1950), e Cordeiro de Farias – este um dos responsáveis pela derrubada de Washington Luís -, homem que em vida adotou várias causas conspiratórias, mesmo que algumas, como diria meu pai, não fossem lá muito canônicas.


Getúlio Vergas em pleno Estado Novo
Minas uniu-se a São Paulo pela causa constitucionalista. O movimento se fortalecia e a comunicação via rádio e telefone (quando funcionava, tinha operador ouvindo) era proibitiva. Vargas exercia seu poder de ditador como um estrategista de guerra. Meu avô pegou o trem várias vezes para trocar mensagens e instruções entre os dois estados, e isso era feito...  no banheiro do trem. Ele contava que revolucionários à paisana entravam no vagão e deixavam um bilhete em local pré-combinado do banheiro. Logo ao sair, entrava outro, que lia a mensagem e a eliminava, voltando a sentar-se em seu lugar.


Rochedo da Ilha das Flores
Foi bonita a festa, pá” diria o Chico, mas não durou muito, e todos foram presos, exilados ou deportados: não tardou um navio sair do Porto do Rio de Janeiro, levando os presos para Lins (“Lugar Incerto e Não Sabido”, no jargão). Depois de dias de viagem, aportaram na ilha mais ocidental da Europa, mais precisamente a Ilha das Flores, no Arquipélago de Açores, bem longe, mas muito longe da matriz, Portugal. Havia chegado a hora de entrar em cena, agora, nosso Indiana Jones.


Ilha das Flores, no canto esquerdo superior
A ilha, do tamanho de um sítio do interior de São Paulo, era cercada por arame farpado eletrificado. Fugir dali, não havia como. Vovô contou que um dos presos era eletricista, conhecia bem do assunto. Pois vestiu nas mãos um par de botas de borracha e forçou os arames eletrificados até rompê-los, um a um. Terminado o serviço, e agora, Indiana? Pois era morrer certo na ilha ou tentar salvar-se no mar, poderiam dar a sorte de cruzar uma rota de navios. Juquinha contou que chegaram a nadar 5 Km (deve ser difícil ter noção de distância assim, 1 Km pode ser 5 e 10 Km podem ser 6).


Um navio pesqueiro os avistou, recolheu-os e depois de longa viagem desembarcaram em Portugal. Não sei o que se passou por lá, mas foi coisa de um ano e meio na “terrinha” ou perambulando pela Europa. A sobrevivência, muito a contragosto, vinha dos Mesquita (Juquinha era um homem cheio de manias e princípios éticos, morais e religiosos, como veremos mais adiante). Isso mesmo, da família Mesquita, do jornal O Estado de São Paulo, grande financiador da revolução de 32 e padrinho de todos os presos, perseguidos, exilados e deportados por Vargas.  


Julio de Mesquita Filho, família e equipe de O  Estado de São Paulo
R
uy de Mesquita Filho, de longa história política, foi um dos idealizadores da Revolução de 1932. Preso 14 vezes no Brasil, em 1938 foi definitivamente exilado na Europa. Meu avô Juquinha, homem orgulhoso, chegou a recusar o auxílio dos magnatas da imprensa paulista, mas a carência de minha avó e sua grande prole o convenceram. Ao voltar ao Brasil, chamado pelo Governador Benedito Valadares, assumiu o posto de Chefe de Polícia de Minas, o que eu creio seria algo como hoje um Secretário de Segurança. Rigoroso que era, ele não via com bons olhos, naquela época, os flertes de meu pai, Autran, com minha mãe, Lucia, porque o jovem pretendente nutria certas simpatias, como todo intelectual novato mineiro, pelo chamado Partidão, de Luís Carlos Prestes.


O Golpe de 64 toma as ruas do Rio de Janeiro
Metódico que ele só, ia à missa toda sexta-feira, confessava, comungava e voltava de cabelo cortado rente (talvez por isso mesmo, ao nos deixar ainda tinha todos os cabelos, até a fronte, em tom grisalho, mas não branco, e isso perto dos 80 anos de idade). De manhã, mingau. No almoço, a dieta regulada, água tônica, pois quinino faz bem, e de sobremesa ameixas pretas, ajudam na digestão. Quando eclodiu o golpe de 1964, já reformado, conhecia vários de seus expoentes, alguns colegas de caserna e outros de oficial de armas.

Sylvio Frota, segundo à esquerda
Nos anos 1968 em diante, viu recrudescer o regime, apreensivo. Fulano de tal? Mas foi meu colega, não faria mal a uma mosca, assim cria ele. Até que seu xodó, o sobrinho Carlos Alberto Christo, o Frei Betto, foi preso e encarcerado por 4 anos. Sofreu, mas vovô dizia do Sylvio Frota (então Comandante do II Exército), o Frota não faria mal a ninguém, era de boa índole e coração. E assim seguiu, com o coração de ouro, crendo até o fim em seus ideais republicanos, constitucionais, de honestidade, correção e amor por seus semelhantes.

Indiana Jones
Quantas vezes não fui com ele, sempre aos domingos (e ele todos os domingos), ao manicômio da cidade, visitar o “seo” Osmar, internado fazia muitos anos? Osmar era filho da negona Joana, ama de leite e seca de meus tios, dona de autoridade na casa e famosa pelos quitutes (que não cheguei a conhecer). Chegava o domingo, lá ia ele ver o simplório Osmar. E levava o que seu afilhado do coração mais gostava: gibis, gibis, gibis, sua leitura diária.  Se fosse nos dias de hoje, talvez não mais levasse gibis do Capitão Marvel: levaria, quem sabe, DVDs do Indiana Jones - que serviriam ao pobre Osmar, assim como as estórias que vovô me contou de sua vida, à mais deleitosa e envolvente distração.



























sábado, 8 de junho de 2013

ORQUESTRANDO A NATUREZA


Vendo meia dúzia de maritacas rodopiando a árvore em frente de casa, umas lindas corujinhas, pardais e até canários que ornam nosso zoológico a céu aberto, pensei quanto prazer nos dão esses animaizinhos, nossos “pets” livres, enamorando a flora local sob a bênção da mãe natureza. E esses bichinhos, quando tocam sua música, nos ensinam, até aos que estudam tanto para reproduzir de forma imperfeita, pois que racional, a arte que eles, bichos em sua liberdade pós-moderna, fazem para alegrar o mundo. Pássaros sibilam, e alguns produzem sons agudos até o extremo de nossa limitada percepção. Eu diria que são flautas, os cantos no registro vocal de pássaros de médio porte – porque, sim, pássaros maiores têm caixa de ressonância maior do que a dos pequeninos. (Veja o beija-flor, tão belo mimo, que brinca no ar como se flutuasse: mas Deus lhe deu voz miúda demais para gorjear, como disse Gonçalves Dias do canto do sabiá: “As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá”). E a nossa graúna, cujas asas não são negras como os cabelos da Iracema, “a virgem dos lábios de mel”, como romanceou José de Alencar? A tal da graúna não é lá muito bonita, mas é altaneira, soberba e dona de seu território. E canta bem (abaixo). 




Piccolo, ou flautim
Outros pequenos, como os canários - aves canoras, claro, de onde o nome dos bichinhos -, de voz tão melodiosa como poucas há, são o piccolo (do italiano, pequeno), ou flautim, que tem assento na banda e em grupos de choro nos momentos mais apropriados, assim como na orquestra, o famoso solo de flautim naquela marcha do John Philip Sousa, o “Washington Post” quase uma marcha nacional americana. Assim como na “Stars and Stripes Forever” (Estrelas e Listras para Sempre), a marcha oficial (e o não o hino) dos EUA, o piccolo sobrevoa a banda ou a orquestra com seus intricados floreios e volteios ornamentais. E se acaso outros são pássaros cantores de voz um pouco mais grave, não deixarão de ter na música seu instrumento para bem comparar: pois que existem outras flautas, até contralto e contrabaixo. E será que há pássaros infelizes, que não têm lá um canto dos mais agradáveis? Talvez a gralha, que tem até um verbo que lhe deve o nome: gralhar, sinônimo de grasnar, um grito meio difícil para um humano suportar por muito tempo. Mas a cada um seu lugar, ela serve bem à vida livre na natureza (abaixo)!


Violinofone
E tem pássaro que é lenda, como o Uirapuru, animal de canto sagrado da cultura indígena que foi contada magistralmente por Villa-Lobos em poema musical que fala de uma ave que fica na copa das árvores mais altas, e cujo cantar o compositor representou com o raro violinofone, uma espécie de violino com uma corneta de gramofone acoplada, bugiganga que produz um som rasgado e metálico. De tal sina, porém, o Uirapuru se livra, pois, contam os tupis-guaranis, uma linda índia o seduz, e, tal qual nos contos de fadas, vê-lo transformar-se no mais forte, belo e garboso de todos os caciques da floresta. Talvez por isso hoje ele cante como nunca, é talvez o único pássaro virtuose, codinome pássaro-músico, cujos cantos dão saltos inigualáveis entre agudos e graves (abaixo).


Pedro e o Lobo (Disney)
Aí vem Prokofiev e abre uma lição musical para ilustrar sua Pedro e o Lobo (1936), que associa instrumentos a animais e pessoas: Pedrinho, menino da breca e pequeno herói da história, surge na melodia das cordas, alegre, travesso; já o gato anda suave e depois corre ligeiro pelos dedos velozes do clarinetista, enquanto o oboé faz a caricatura do pato. O vovô, claro, fala mais grosso, e tem no fagote (mais corpulento e portanto mais grave) seu instrumento, especialmente quando canta suas reprimendas ao moleque Pedro. As trompas, metais de som mais grave, parecem rastejar, à espreita: são o perigoso lobo, o vilão da obra diante do qual os pequeninos espectadores parecem tremer de medo na plateia.
Bombo sinfônico
O som do bombo sinfônico representa o mais poderoso estrondo da natureza, o explodir do trovão, Tupã, mensageiro e deus da mitologia tupi-guarani. Pois é o bombo que ribomba (é dele que vem o verbo!) e se intromete causando grande estrondo lá pelas tantas na espalhafatosa Abertura 1812, de Tchaikovsky, em meio a citações da Marselhesa, marcha cunhada ao som da Queda da Bastilha no histórico 14 de julho de 1789, início da revolta popular francesa. Não bastassem bombos e pratos de metal, para a Abertura é comum orquestras trazerem salvas de grandes canhões de guerra quando a obra é executada ao ar livre. Já um tambor menor, a caixa clara, que é tocada com duas baquetas, lembra os sons marciais, até mesmo no famoso Bolero de Ravel, dos difíceis sussurros percutidos da introdução até o final apoteótico.  (Veja e ouça abaixo trecho da Abertura 1812 de Tchaikovsky, com trajes de época e canhões verdadeiros. Leonard Bernstein à frente da Filarmônica de Israel).


Ah, e as harpas, não há como escapar do lugar comum, as celestiais harpas, instrumentos cujos ancestrais mais primitivos aparecem nas mãos dos anjos nas gravuras, óleos e esculturas de todos os séculos e origens! Debussy (1862-1918) compôs a linda Catedral Submersa (“La Cathédrale Engloutie”), para piano, mas Stokowski (1882-1997) criou uma versão orquestral, e usou o som da harpa para evocar o movimento das águas a penetrar a catedral, como fosse um enorme aquário. O violoncelo, em seu registro médio, faz a linda voz chorosa do cisne no Carnaval dos Animais, de Camille Saint-Saëns, que destina jocosamente aos contrabaixos, no seu registro mais grave, o passo cadenciado, arrastado e paquidérmico dos elefantes.
Não falta lugar nessa festa musical para os cavalos, muito bem representados pelos arcos das cordas saltando em “ricochet” (aliás, ótimo exercício técnico), na abertura da ópera Guilherme Tell, de Gioachinno Rossini (1792-1868), trecho meio desgastado pelos surrados filmes de caubói do passado. Após a abertura, Rossini finalmente traz à cena seu herói, Guilherme Tell, a fim de que este busque desviar o amor enorme e obsecado de Arnold por Mathilde, tentando insuflar-lhe ódio a Gessler, irmão da própria amada – um invasor maldito, que precisavam expulsar. 

Habitavam este mundo todos os sons bem antes de nós, e, se um dia tudo vier a acabar (e o será por nossa máxima culpa), serão eles, os sons da natureza, os últimos sinais de vida a se calarem no planeta - razão pela qual a música, enquanto existirmos, não pode parar de imitá-los, cortejando nossa sobrevivência. Não desanimeis, animais!



sábado, 1 de junho de 2013

COMO ERA GOSTOSO O MEU LATIM!


Monges do Mosteiro de São Bento
No princípio era o Verbo. Do latim verbum, palavra, mas cujo significado é muito mais amplo, como a existência, e nunca uma simples palavra conjugável como em português. A oração diz Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, ora pro nobis, Cordeiro (Agnus, de onde Agnes, Inês) de Deus, que tirai o pecado do mundo, orai por nós; ou ainda miserere nobis, tenha misericórdia de nós. A missa do Mosteiro de São Bento, do Rio, é uma das únicas a conservar a bela tradição do canto gregoriano, do século IX, surgido do chamado canto romano, que com a liturgia imposta pelo Império Franco terminou por desaparecer. (Canto Gregoriano Beneditino: veja e ouça abaixo).


Concílio Vaticano II
No colégio, ainda peguei a missa em latim: cantada, mais elevava os espíritos. Hoje, com a missa em português (desde após o Concílio Vaticano II), que teve o objetivo de tornar a cerimônia mais acessível, compreensível (seria mesmo o caso de compreender?), tenho cá minhas dúvidas se a troca do mais espiritual pela comunicação direta terrena conquista melhor seus objetivos. Ainda que restem as frases bíblicas mais famosas, traduzidas de forma questionável, como a que vemos nos para-choques de automóveis: “tudo posso naquele (sic) que me fortalece”. Fortalecer tem a mesma raiz fort, de confortar, portanto mais plausível de entender “por meio daquele que me conforta”, convenhamos mais afeito ao Senhor do que simplesmente ficar mais forte. 
égio, ainda peguei a missa em latim: 

No Colégio, de formação jesuíta, tínhamos aula de latim, creio que até um ano após minha saída da escola – outra perda irreparável para as gerações que se seguiram, pois deixaram de prover uma rica fonte de conhecimento para os alunos. O lema mens sana in corpore sana (mente sã em corpo sadio) estava nas paredes e no vestíbulo (lat.: vestibülum, pórtico). Meu severo professor não apenas nos incutia o latim como também o que fosse ligado à história da chamada “língua morta” (morta?), como o soneto Língua Portuguesa, de Olavo Bilac (1865-1918): “Última flor do Lácio, inculta e bela / és a um tempo esplendor e sepultura / ouro nativo, que na ganga impura / a bruta mina entre os cascalhos vela...”. Pois aquela última flor do Lácio não é senão nossa língua cantada por Bilac, a última que brotou do latim vulgar daquela região da Itália (Lazio). E tudo recitávamos de cor, um a um, subindo no púlpito por vez cada um, transpirando com medo de errar ou tropeçar (essa talvez tenha sido minha estreia contra o chamado stage fright, ou medo de palco).


Ilustração de Gustave Dore para O Inferno, de Dante
Uma vez cumprida a missão da récita, vinha o alívio e aquele desejo reprimido de, moleques, vermos o próximo colega cair. Quem começou a matar o latim, dizem muitos italianos, foi Dante Alighieri (1265-1321), em sua La Divina Commedia, que teria dado o empurrão para que surgisse o idioma italiano.


Revertere ad Locum Tuum


Meu latim básico tornou-se uma peça a mais na vida, uma ferramenta que ajuda em tudo, até compreender nossa língua. Mesmo nos EUA, ganhei uma disputa em que ninguém acertou a questão – ali constava a palavra nullipara -, e levei um ponto dos mais difíceis, pois se o latim aqui no Brasil é “língua morta”, lá, então, nem chegou a nascer. Nem mesmo na área do direito, pois que lá é o anglo-saxão, enquanto aqui seguimos o greco-romano. Pois cravei nullipara como simples dedução minha: nullus, nulo, nunca, e para, do verbo parere ou parir, o que me levou a cravar a definição: mulher que nunca teve filhos. Os dísticos latinos são lindos, mas o povo muitas vezes não sabe o que significam: non dvcor, dvco, ou seja, não sou conduzido, conduzo, lema da flâmula do brasão da cidade de São Paulo, assim como o de Tatuí, Per ardvua surrexi (ergui-me por dificuldades), símbolo da luta desde o estabelecimento do vilarejo até a fundação do município, em 11 de agosto de 1826. Ao se passar por algum pórtico de um cemitério, uma frase emblemática pode não ser compreendida: Revertere ad locum tuum; porém, trata-se de nada mais do que um acolhedor “voltarás para o lugar de onde viestes”. A bandeira de Minas ostenta o glorioso lema latino que se tornou símbolo da Inconfidência: Libertas quæ sera tamen: Liberdade ainda que tardia!


Em direito, nem se fale. Não há ministro do STF, desembargador ou magistrado (aliás, palavras advindas de minister e magister, conselheiro e mestre, em latim) que não produza grande efeito às suas sentenças, às vezes de enorme erudição, em meio a doutrinas (lat.: doctrina, ensino) e jurisprudência (de juris, direito). Pois é na leitura dos autos e nas oitivas (oitiva: do lat.: audire, ouvir), onde ele logo vê o chamado fumus boni juris, a conhecida “fumaça” do bom direito, ou seja, quando transparece a luz da sugestão para a decisão. Ipso litero, ou seja, literalmente, o magistrado sabe que veritas evidens non probanda, quer dizer, a verdade em evidência não precisa ser provada, e que verba volant, scripta manent – palavras voam, mas a escrita permanece. Sabe, quando urge, tomar decisão inaudita altera pars (sem ouvir a outra parte).


Eugenia Uniflora
O
diretor de uma faculdade assina uma decisão ad referendum (para ser referendada posteriormente) do Conselho, e o faz in totum, na totalidade, podendo decidir até mesmo ultra petita, além do que foi requerido na petição. O advogado que não tem o domínio dessas expressões, data venia (com a devida licença), além de perder tempo pesquisando pode equivocar-se ao interpretá-las. Por isso mesmo, o bom vernáculo (lat.: vernaculus: de casa – aqui, a língua pátria) aliado ao bom latim é grande ferramenta dos representantes e julgadores, deixando aos autores ou réus menos letrados apenas os navios, que, abobalhados e perdidos, resta-lhes ficar a ver. E nem falemos de ciências como a botânica, a exemplo de eugenia uniflora, a pitanga, e cannabis sativa, popularmente conhecida como maconha.


Por fim, em música, o uso do latim vem desde os primeiros estudos teóricos, e é recorrente: do gradus ad parnassum (degraus para a perfeição, título de diversos métodos), ad libitum (toda a liberdade ao intérprete), cantus firmus (lat.: canto fixo), uma linha melódica sobre a qual se constrói um texto polifônico), e formas como o Benedictus, parte do rito romano, além das publicações litúrgicas como o Antiphonale e o Rituale. Mozart teria decorado um miserere (misericórdia) que ouvira tocar uma só vez, aos 6 anos, repetindo-o de memória no cravo, ao chegar em casa. Ad finen (ao final, no extremo), a própria palavra Missa serve de título para grandes obras, como a Missa Solemnis, de Beethoven (veja e ouça abaixo a grandiosa obra), e advém da língua-mãe: Ite missa est – ide, este é o final. 

Amen.

Beethoven, Missa Solemnis. Coro de 260 cantores: London Philarmonic Choir, London Symphony Choir, regência de Sir Colin Davis e solistas. Total, com entrevista: 1h39. Início da execução: aos 07min.