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sábado, 28 de agosto de 2021

O SECRETÁRIO, O LITERATO E O PODER:

 O ANTES E O AGORA

Prestes, à beira da ilegalidade

Era
um jovem, mas com jeitinho mineiro no trato com as pessoas e habilidade na escrita, chegou a gente graúda nas artes e na política. Dono de bom papo, logo deixaria os ‘bicos’ por empregos mais sólidos. Como taquígrafo na Assembleia Legislativa (MG), veio a conhecer alguns grandes líderes, de Luís Carlos Prestes – deputado então na legalidade – a Juscelino Kubitschek, com quem trabalharia no governo. Quando o diamantinense se lançou à Presidência, lá foi ele também.


Mudou-se
de mala e cuia para o Rio, então Distrito Federal, preparando terreno para seu destino com JK no mais alto posto do país: era 1955, e tinha apenas 29 anos de idade (JK tinha predileção por assessores intelectuais que lhe escrevessem bons discursos, interpretassem seus anseios, aturassem suas manias e lhe apontassem caminhos). De mala e cuia, logo depois, veio a família, esposa e três filhos – duas meninas e um pequeno de dois anos -, instalando-se em um apartamento alugado no terceiro andar de um prédio sem elevador no Jardim Botânico, a poucos metros de onde, 46 anos depois, aconteceria o dramático sequestro do ônibus 174, vindo da PUC.

Mansão no Parque Lage

Tudo isso
é apenas uma referência. Os três filhos – um carioquinha haveria de nascer dois anos após a mudança – ficavam juntos em um quarto só, depois agregando o caçula da prole no mesmo aposento. Correrias, subidas e descidas pelas escadas a pé ou empurrando bicicletas, parecia um lugar propício à diversão: do outro lado da rua onde décadas após aconteceria o sequestro do 174, um enorme muro abrigava um bosque com uma mansão abandonada que pertencera ao engenheiro Henrique Lage e sua diva, soprano Gabriella Besanzoni, paixão que trouxe da Itália. Hoje, é um imenso parque público que preservou natureza e arquitetura, incluindo aí as cavernas com estalactites e riachos internos - e seus moradores por usucapião da natureza dormindo pendurados, os morcegos.

Henry Jr.

Para ajudar
a esposa em um de seus muitos atributos, ele costumava levar o terceiro filho para ter os cabelos podados na barbearia em frente ao Palácio do Catete, sede da Presidência. O estilo do corte seria banido passados os anos, mas hoje retornou à voga no mundo: “Príncipe Danilo”, cabelo encimando o topo da cabeça, ao redor aparado a zero. Após o corte, a recompensa: um saco de pãezinhos para o garoto picar e atirar aos cisnes no lago do Palácio, sob a vista atenta dos serviçais e motoristas. (Entre eles, João Batista, dono de um luminoso dente incisivo de ouro. Adorava tagarelar, e ao dirigir o fazia virando-se para trás, pânico dos passageiros. O carro, um velho Henry Jr. preto, tinha um plástico cobrindo a janela traseira esquerda, pois o vidro não se encontrava no incipiente mercado de peças, e a indústria automobilística brasileira simplesmente não existia).


O jovem mineiro
, com suas habilidades, cativou o presidente, que criou para ele um cargo que até então não havia, o de secretário de Imprensa, tal qual outros países, mais tarde transformado em porta-voz. (No ano 2.000, a Fundação Joaquim Nabuco publicou dois pesados volumes em uma caixa, “No Palácio com a Imprensa”. São depoimentos dos secretários e porta-vozes da Presidência, do primeiro – o capiau de Monte Santo de Minas que foi de BH para o Rio – ao último, Singer. Abre o primeiro capítulo nosso personagem - agora já podemos chamá-lo assim - seguindo-se entre outros Carlos Chagas, Alexandre Garcia, Antônio Britto e Ricardo Kotscho, até André Singer, em sucessivos governos).

JK e Lott

Cabia
ao secretário mineiro ora ajudar na redação dos discursos, ora na tarefa de esconder da população um infarto presidencial - tudo pela estabilidade democrática! Não bastaram as revoltas debeladas da FAB de Jacareanga e Aragarças, a própria posse havia sido garantida por um garboso marechal Henrique Teixeira Lott, depois Ministro da Guerra, que desfilou em seu ‘liforme’ branco cheio de medalhas com JK no Rolls Royce da Presidência, simbolizando o apoio do Exército sob seu comando ao presidente eleito pelo voto.


Como pessoa
, aquele secretário de governo era um cidadão de extrema simplicidade: dirigia sua Kombi, onde carregava filhos e dedicada esposa nos poucos passeios que o tempo lhe permitia; ou nas viagens a BH para visitar a família – às vezes, levava a empregada e quituteira, para deixá-la em Conselheiro Lafaiete, perto de BH, para que também visitasse os seus. Gostava, além dos muitos livros, de escrever alucinadamente, visitar e receber amigos, começando pelos mineiros velhos de guerra Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara e Paulo Mendes Campos – além de Clarice Lispector, em almoços domingueiros. Uísque, chope? Raros, o tempo não o permitia. Pôquer? Um ou outro, só de brincadeira. “Para quem foi criado em Monte Santo está bom demais”, dizia.

Escrevi este artigo por duas razões. A primeira, abordar a diferença de estilo de vida entre um titular de alto cargo público daquele tempo e os de hoje: gastos exorbitantes, alta remuneração e penduricalhos de toda sorte que catapultam os salários ano a ano. A segunda, e para mim a principal: lembrar Autran Dourado – o escritor, secretário de imprensa mineiro e, antes de tudo, pai -, que no dia 18 de janeiro passado faria 95 anos; homenageá-lo pelo dia dos pais, 8, e no dia 28, quando sai a edição do semanal de O Progresso, para o qual há anos escrevo artigos. Uma feliz conjunção em torno do número 8, o do infinito, se deitado. Do tamanho do amor e da admiração que nutrimos por ele.



sexta-feira, 20 de agosto de 2021

COM MEDALHAS E SEM MEDALHAS

 

Rayssa Leal

De medalhas fomos muito bem, obrigado, nessas olimpíadas, apesar da falta de apoio e compreensão do esporte e da cultura como elementos primordiais na formação do sujeito social. Em Tóquio, apesar de inevitáveis decepções, houve vitórias incríveis e até surpresas -  como a ‘Fadinha’, Rayssa Leal, de apenas 13 anos, merecedora de uma reluzente prata no Street Skate. A menina, com sua simpatia e passado de luta comum a tantos de nossos atletas, aprendia de improviso na sua vizinhança; o surfista Ítalo Ferreira, praticando sobre a tampa da caixa de isopor em que seu pai levava peixes para vender.


A conquista de Rayssa, segundo pesquisas, foi assistida por mais de 2 milhões de pessoas. É o xodó brasileiro dos Jogos pela técnica, talento precoce e simplicidade. Ao lado de seu colega de surfe Ítalo, ouro, da ginasta Rebeca Andrade, ouro e prata, e das prateadas meninas do vôlei de praia, entre outros, reluzem no peito ambicionadas medalhas. A compensação é que, no “conjunto da obra”, nossa delegação conquistou ainda mais glórias do que na recordista olimpíada anterior, Rio 2016, em que levantou um total de 19 medalhas, sendo 7 ouros. Uma surpresa e tanto para um país sem estímulo, mas pródigo em gênios do esporte por talento nato e obsessão. No final desta olimpíada, festejamos a superação de nossas próprias conquistas: 7 ouros, 6 pratas e 8 bronzes, perfazendo um total de 21: que auspicioso 12º lugar! Salve nossos atletas!


Sem pódio está nossa economia, com a taxa Selic alavancada para 5,25%, provavelmente chegando a 7,5 % até o fim do ano, segundo analistas. Com a taxa de juros nesse patamar, o sonho da casa própria vai se esvaindo, o mercado fica sem rumo e o crédito em geral se torna mais difícil, do pequeno comércio popular de venda em prestações aos grandes financiamentos: tudo é afetado. É o jogo de sempre na quadra em que uma vez na história tivemos oportunidade de levantar a bola e bater a inflação. Melhor: tivemos um Ippon (golpe perfeito do judô) em 1994, o Plano Real, que inverteu as regras do jogo e abriu caminho para uma economia mais bem sucedida e previsível (com desconto para os deslizes de praxe). Nunca é fantasia o risco futuro de um KO (knock out) em um round, como nas lutas de boxe - só que contra nós, por esta adversária indomável, a inflação que tudo devora.


Também não há pódio algum para o desemprego a 14,7%, arrastando ainda muito mais gente para baixo da linha de pobreza; o IGPM (Índice Geral de Preços do Mercado) da FGV em absurdos 33,83%, ignorado amplamente no reajuste de aluguéis – o locador ou perde seu inquilino ou leva calote; melhor ainda, condescendentemente e na defesa de sua renda, chega a não reajustar a locação. Ao contrário, os senhorios às vezes até diminuem o valor do aluguel.


Delta, 4ª da esquerda para a direita

Desclassificada ficou a condução da política antipandêmica, que teme agora uma adversária perigosa, a variante Delta. Na defensiva, autoridades federais e, por falta de informação, mesmo parte do povo, em geral, também não carregam louro algum; seguimos com escassas recompensas e muitas punições (à parte os devidos aplausos para o atual sucesso da vacinação, descontados os gols contra e protelatórios do executivo federal). Os olhos do mundo se voltam para potenciais novos recordes desta agressiva cepa em nosso Brasil: numerosa população, rincões pobres e com pouca ou nenhuma infraestrutura - um país à deriva no barco do combate à doença, enfrentando o soçobrar do negativismo. Há menosprezo genérico - e até seletivo politicamente - pelas vacinas e medidas protetivas e pela saúde pública em geral.




Como este é um tema que incomoda setores nada olímpicos, no sentido da tradição grega da antiguidade de congraçamento, empurraram-nos goela abaixo uma questão abjeta como o “voto impresso e auditável”, mesmo diante do sucesso de nosso sistema eletrônico de 25 anos – plenamente auditável, aliás -, reconhecido mundo afora. O tema, de derrota previsível, colocou o bode na sala, fez cortina de fumaça, serviu de boi de piranha e tentou esconder a realidade debaixo do tapete, alvoroçando o poder legislativo e ofendendo o judiciário. Instiga a população para uma luta de pugilismo coletivo sem árbitro, como na recente pancadaria baiana atrás do trio elétrico (foto).  




Pódio sim, quem diria, para a classe empresarial! Todo-poderosos da mais fina elite, os 500 signatários de uma “Carta aberta à sociedade” expressam seu profundo descontentamento com a condução - ou falta dela - de nossa economia, a “tergiversação” dos males que atingem nossa sociedade, da saúde do povo à tributária e política, passando a “boiada” oculta pelo "voto impresso e auditável". O manifesto da elite econômica traz um número expressivo de signatários, pesos pesados como os Trajano, do Magazine Luiza, Schalka, da Suzano e José Olympio, do Credit Suisse, além de economistas de ponta como Armínio Fraga, Marcílio M. Moreira, Maílson da Nóbrega, Rubens Ricúpero e André Lara Resende, gente que não tem o costume de se manifestar politicamente e não se rende a qualquer segmento partidário – embora entre eles haja vários que se arrependeram de emprestar seu apoio à candidatura vitoriosa na eleição de 2018.


Definitivamente, não é uma manifestação que possa receber a “pecha infamante” de comunista, como diz o famoso manifesto de Marx e Engels, ou sequer “de esquerda”, expressão que hoje serve ao mesmo propósito derrogatório, fugindo às origens históricas no antigo Parlamento da monarquia francesa.



Salve os nossos medalhistas!



sexta-feira, 6 de agosto de 2021

FRIO: DOIS LUGARES, DOIS OLHARES

 


Estados Unidos, julho de 1977. A primeira vez que tive contato com um frio de doer foi em Brighton, New England, lugar onde fui morar, estudar e trabalhar. Sim, estava bastante frio, mas ao chegar ao apartamento que um amigo me cedeu por uns tempos, bastou ligar a calefação elétrica para o sol lá fora fazer cara de verão. Esgotado da viagem, arrumei minhas coisas e fui dormir cedo. Quando acordei passei pela sala e, atônito, vi uma massa branca por fora da porta envidraçada da varanda. Olhei para o pátio, mas onde os portões dos prédios, onde os carros? Desci, e ao lado de vizinhos pasmei olhando a portaria de vidro: uma imensa parede branca.


Logo, pessoas com pás e enxadas uniram-se solidariamente para abrir uma passagem daquele iglu, digo, prédio, para a rua a fim de podermos sair. Mas para onde? Não havia metrô externo, uma colina de neve cobria os trilhos, nem loja aberta. Voltei para o apartamento e fui procurar comida. Nada. Apenas uma cebola, que comi crua com sal, devidamente fatiada, meio ardida, mas era o que tinha. Liguei a TV, e aí o susto: jornalistas exaltados, avisos de alerta, números para ligar por socorro em casos extremos de fome ou frio. Aquela nevasca era a maior blizzard dos últimos 150 anos, soube depois, coisa nunca vista por toda aquela população. Uma deixa para me agasalhar com casaco estofado com pena de ganso, botas, gorro e cachecol no rosto e sair à procura de alimentos. Andando por cima dos carros, guiando-me por entre aquelas longas antenas antigas, atravessei a linha férrea e... Salve! Encontrei a longa fila de um mercadinho! Pela neve da linha férrea, em declive, exibiam-se pessoas de esqui, o que me distraiu do gelo até poder entrar no ambiente da loja.


Seriam gelados todos os invernos, com neve quatro a seis meses no chão por ano, mesmo que sem aquela tragédia de 77. O lado bom: depois de engolir flocos na rua, como criança, ver nevar de casa, gelar uma cerveja colocando-a para fora da janela por cinco a dez minutos. Ah, os pinheiros e maples cobertos de neve, arte da natureza - mas olhando do quentinho de dentro, privilégio a ser desfrutado por quase todos. Sim, digo quase todos por causa dos moradores de rua, miseráveis, geralmente nas bocas da saída de ar quente das estações de metrô. Os pobres que ainda tinham onde morar eram impedidos por lei de serem despejados, o que seria como condená-los à morte. O mesmo valia para o corte por falta de pagamento das contas de luz e do óleo que aquecia as caldeiras nos porões.


Ricaços partiam com seus esquis rumo a algum resort como Aspen, Colorado, para se divertirem com garbo e estilo entre um chocolate quente e um conhaque. Porém, havia um lado triste, amargurante: o frio não era só festa, era seletivo pela natureza da sociedade americana, dividida em maioria privilegiada e pobres, gente açoitada pelas lufadas de vento baixando as temperaturas de até -15°C para -30°C ou ainda menos, fenômeno chamado windchill factor (fator de gelo do vento, por aqui conhecido suavemente como sensação térmica).

(Mapa: Climatempo)

Tatuí, julho de 2021. Conforme as previsões meteorológicas, uma frente fria se abatera sobre o Brasil nos últimos dias. No quarto onde escrevi este texto, no dia 30, o termômetro registrava internamente 10°C, e do lado de fora, acredite, a mesma temperatura, tendo marcado 0°C durante a madrugada. O país sofre com o frio, as casas não são preparadas, não há calefação e os que mais penam são os peões de obra, pessoal de serviços externos e entregas – a mais dura parte cabendo aos motoboys de delivery, moto-táxis, que têm de se locomover deslocando ar contra si mesmos. (O Inmet disponibiliza uma tabela de cálculo da sensação térmica que pode ser resumida da seguinte forma: a cada 7 km/h de velocidade, o vento faz cair 1°C, ou seja, se a temperatura é de 10º, como no dia em que escrevi este artigo, e o vento chega a 21 km/h, a sensação térmica é de 7ºC. Para um motociclista dirigindo a 42 km/h, a sensação será de apenas 4°C).


O frio tomou, mesmo que em diferentes proporções, todo o país, e nevou em diversas cidades do sul; houve onde a sensação térmica chegasse a -6,5°C com previsão de cair ainda mais. Com roupas não preparadas, casacos comuns e na falta de luvas e botas especiais, o sofrimento é ainda maior. (Nas residências, também, sem as mantas térmicas de lã de vidro internas às paredes e forros como nos EUA, por exemplo, o frio é impiedoso. As raras que possuem uma lareira são privilegiadas – porém, apenas nos ambientes em que ficam, as pessoas ao redor como em adoração ao fogo). Rio e Salvador, fregueses contumazes de calor intenso de 42°C ou mais, viveram momentos de rigoroso inverno, de 15°C na primeira cidade e 24° na segunda. (Contraste: lembro-me de que quando chegava a primavera, em Boston, com os 15°C do Rio estudantes desciam às ruas de shorts e camisetas regata, som ligado alto, para jogar bola e festejar. Deve ter sido essa, concluo eu, a alegria do russo Igor Stravinsky ao compor seu célebre balé orquestral “A sagração da primavera”, um marco na história da música).


É inegável que dez ou vinte minutos na geada ou na neve, com as crianças bem agasalhadas, podem ser prazerosos, divertidos. Para os adultos, uma doce alegria infantil que quase sempre termina em vinho ou chocolate quente. Mas é preciso nunca esquecer que há uma população sofrendo: os sem-teto, moradores de rua. (Fora os muitos que perderam a vida por causa do frio). Os que vivenciam o gelado intenso na carne merecem atenção especial das autoridades e de todos nós, privilegiados.