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sexta-feira, 20 de agosto de 2021

COM MEDALHAS E SEM MEDALHAS

 

Rayssa Leal

De medalhas fomos muito bem, obrigado, nessas olimpíadas, apesar da falta de apoio e compreensão do esporte e da cultura como elementos primordiais na formação do sujeito social. Em Tóquio, apesar de inevitáveis decepções, houve vitórias incríveis e até surpresas -  como a ‘Fadinha’, Rayssa Leal, de apenas 13 anos, merecedora de uma reluzente prata no Street Skate. A menina, com sua simpatia e passado de luta comum a tantos de nossos atletas, aprendia de improviso na sua vizinhança; o surfista Ítalo Ferreira, praticando sobre a tampa da caixa de isopor em que seu pai levava peixes para vender.


A conquista de Rayssa, segundo pesquisas, foi assistida por mais de 2 milhões de pessoas. É o xodó brasileiro dos Jogos pela técnica, talento precoce e simplicidade. Ao lado de seu colega de surfe Ítalo, ouro, da ginasta Rebeca Andrade, ouro e prata, e das prateadas meninas do vôlei de praia, entre outros, reluzem no peito ambicionadas medalhas. A compensação é que, no “conjunto da obra”, nossa delegação conquistou ainda mais glórias do que na recordista olimpíada anterior, Rio 2016, em que levantou um total de 19 medalhas, sendo 7 ouros. Uma surpresa e tanto para um país sem estímulo, mas pródigo em gênios do esporte por talento nato e obsessão. No final desta olimpíada, festejamos a superação de nossas próprias conquistas: 7 ouros, 6 pratas e 8 bronzes, perfazendo um total de 21: que auspicioso 12º lugar! Salve nossos atletas!


Sem pódio está nossa economia, com a taxa Selic alavancada para 5,25%, provavelmente chegando a 7,5 % até o fim do ano, segundo analistas. Com a taxa de juros nesse patamar, o sonho da casa própria vai se esvaindo, o mercado fica sem rumo e o crédito em geral se torna mais difícil, do pequeno comércio popular de venda em prestações aos grandes financiamentos: tudo é afetado. É o jogo de sempre na quadra em que uma vez na história tivemos oportunidade de levantar a bola e bater a inflação. Melhor: tivemos um Ippon (golpe perfeito do judô) em 1994, o Plano Real, que inverteu as regras do jogo e abriu caminho para uma economia mais bem sucedida e previsível (com desconto para os deslizes de praxe). Nunca é fantasia o risco futuro de um KO (knock out) em um round, como nas lutas de boxe - só que contra nós, por esta adversária indomável, a inflação que tudo devora.


Também não há pódio algum para o desemprego a 14,7%, arrastando ainda muito mais gente para baixo da linha de pobreza; o IGPM (Índice Geral de Preços do Mercado) da FGV em absurdos 33,83%, ignorado amplamente no reajuste de aluguéis – o locador ou perde seu inquilino ou leva calote; melhor ainda, condescendentemente e na defesa de sua renda, chega a não reajustar a locação. Ao contrário, os senhorios às vezes até diminuem o valor do aluguel.


Delta, 4ª da esquerda para a direita

Desclassificada ficou a condução da política antipandêmica, que teme agora uma adversária perigosa, a variante Delta. Na defensiva, autoridades federais e, por falta de informação, mesmo parte do povo, em geral, também não carregam louro algum; seguimos com escassas recompensas e muitas punições (à parte os devidos aplausos para o atual sucesso da vacinação, descontados os gols contra e protelatórios do executivo federal). Os olhos do mundo se voltam para potenciais novos recordes desta agressiva cepa em nosso Brasil: numerosa população, rincões pobres e com pouca ou nenhuma infraestrutura - um país à deriva no barco do combate à doença, enfrentando o soçobrar do negativismo. Há menosprezo genérico - e até seletivo politicamente - pelas vacinas e medidas protetivas e pela saúde pública em geral.




Como este é um tema que incomoda setores nada olímpicos, no sentido da tradição grega da antiguidade de congraçamento, empurraram-nos goela abaixo uma questão abjeta como o “voto impresso e auditável”, mesmo diante do sucesso de nosso sistema eletrônico de 25 anos – plenamente auditável, aliás -, reconhecido mundo afora. O tema, de derrota previsível, colocou o bode na sala, fez cortina de fumaça, serviu de boi de piranha e tentou esconder a realidade debaixo do tapete, alvoroçando o poder legislativo e ofendendo o judiciário. Instiga a população para uma luta de pugilismo coletivo sem árbitro, como na recente pancadaria baiana atrás do trio elétrico (foto).  




Pódio sim, quem diria, para a classe empresarial! Todo-poderosos da mais fina elite, os 500 signatários de uma “Carta aberta à sociedade” expressam seu profundo descontentamento com a condução - ou falta dela - de nossa economia, a “tergiversação” dos males que atingem nossa sociedade, da saúde do povo à tributária e política, passando a “boiada” oculta pelo "voto impresso e auditável". O manifesto da elite econômica traz um número expressivo de signatários, pesos pesados como os Trajano, do Magazine Luiza, Schalka, da Suzano e José Olympio, do Credit Suisse, além de economistas de ponta como Armínio Fraga, Marcílio M. Moreira, Maílson da Nóbrega, Rubens Ricúpero e André Lara Resende, gente que não tem o costume de se manifestar politicamente e não se rende a qualquer segmento partidário – embora entre eles haja vários que se arrependeram de emprestar seu apoio à candidatura vitoriosa na eleição de 2018.


Definitivamente, não é uma manifestação que possa receber a “pecha infamante” de comunista, como diz o famoso manifesto de Marx e Engels, ou sequer “de esquerda”, expressão que hoje serve ao mesmo propósito derrogatório, fugindo às origens históricas no antigo Parlamento da monarquia francesa.



Salve os nossos medalhistas!



sábado, 20 de abril de 2019

BREVE MEMÓRIA DAS MINHAS CRISES ECONÔMICAS


Descrevo como cidadão, claro que não-especialista, um passeio pelos espinhos das crises que conheci, em cada etapa da vida. Afinal, foram tantos reveses financeiros e políticos, angústias pouco conhecidas nos países desenvolvidos! A partida é de até eu sair do Brasil, em 1977: números nada confiáveis, índices de inflação maquiados pelo expurgo dos itens chamados sazonais ou que imporiam danos à mentira oficial. Cifras embelezadas por fórmulas magistrais, mas a coisa não ia bem. Já entre o 1968 do AI-5 e 1974, houve um estratosférico investimento em infraestrutura que abriu um imenso rombo no Tesouro, camuflado por benefícios indiretos ao povo, o “milagre brasileiro”. Como disse Tom Jobim, ‘o Brasil não é para principiantes’. Todos têm de ser um pouco de tudo, de médico e de louco, de técnico de futebol e economista.
Deixei o país naquele obscuro cenário, governo Geisel. Nos anos de exterior as rádios de ondas curtas ironicamente me informavam bem mais do que a censura permitia no Brasil. O gen. Golbery, eminência parda um pouco mais esclarecida do regime, passou ao Médici o contraste entre os números oficiais e a pobreza: “A economia vai bem, mas o povo vai mal”. Já o ex-ministro Delfim Netto escancarou a prática concentradora de renda vigente: “Vamos primeiro fazer o bolo crescer, para depois repartir”. 

Sacco e Vanzetti (ao centro)
Nos EUA, um dia recebi de minha mãe, pelo correio, exemplar de um semanário com o Lula na capa, um sindicalista liderando a massa em greve, como no filme Sacco e Vanzetti. Era um sinal de que já começava a abertura ‘lenta, gradual e irrestrita’. De volta ao Brasil, a posse do Sarney, opção simpática aos militares criada para fazer média na dobradinha com Tancredo, que preferia ter como vice o Antonio Ermírio de Moraes. Mas o plano Ermírio vazou e o maranhense dos ‘marimbondos de fogo’ foi para o banco de reserva. Tancredo morreu e tomou posse Sarney, parte daquele bem-bolado com o ‘antigo regime’. O governo, ao ‘entregar a rapadura’, deixou nas mãos de Sarney uma inflação que chegaria a 84,3% ao mês.
Maestro Eleazar de Carvalho
Eu guardava as minhas contas mensais em uma pasta dividida como um calendário, para pagá-las apenas no dia de cada vencimento: deixava minha conta corrente quase zerada, mas a aplicação no overnight dava fácil 1% ou mais ao dia! Eu tinha um bom emprego, mas e o futuro? Preocupado, perguntei ao maestro Eleazar de Carvalho, mestre dos mestres, o que ele achava. Ele cravou uma lapidar, sempre rebobinada em minha cabeça como fosse um filme: “professor, nunca vi um país fechar, mas pode sempre haver uma primeira vez”. Era 1985.
Posse de Collor: empáfia e prepotência 
O Brasil não fechou, e Sarney passou a criar factoides, como os seus ‘fiscais’, insuflando o povo com o questionável instinto policialesco de denunciar remarcações de preços no comércio. Em 1990, o país votou pela primeira vez em 26 anos por pleito direto, elegendo um dândi, Fernando Collor, um moralista ‘contra a corrupção’, eterno discurso  que seduz as massas desiludidas e cansadas. O ‘caçador de marajás’ mais adiante cairia na rede que fingira armar na caça aos lapinas do dinheiro público. Com apenas três meses de governo, a ministra Zélia Cardoso de Mello lançou um plano (que deveria se chamar “Merlin”) a fim de salvar a economia. Deixou perplexo até o Fidel Castro, ao sequestrar uma quantia de cada conta bancária acima de 50 mil NCz$ (cruzados novos), hoje R$ 17 mil, às vezes poupança de vida. Esse valor foi decidido por sorteio, regado a bom uísque na proa de um iate em Angra, no Rio. Alea jacta est, como disse Júlio César, enfrentando a correnteza e o inimigo, para chegar a Roma e ser sagrado imperador. Mas o alea (do grego: dado de jogar, sorte) de Collor foi aleatório, imprevisível e inconsequente. Eu tinha dinheiro confiscado na poupança mas havia autorização para sacar quem comprovasse dívidas: salvaram-me dois talões de boletos para pagar um terreno.
Descíamos a ladeira aos trancos e barrancos, tiraram três zeros aqui, outros três depois, ilusão de que mais as moedas valem quanto menor for o número de dígitos. E, jogada de mestres cogitada já no tempo de Itamar, concretizou-se o Plano Real (mérito do FHC!). Com riscos calculados e a paridade entre a nova moeda forte e o dólar, sossegaram a besta-fera da inflação.
A Sagração da Primavera: Constituição Federal, outubro de 1988
Hoje, fala-se outra língua: um desemprego que já vinha de antes, as finanças do país afundando nos lodos abissais da Previdência, dos enormes juros da dívida pública e dos gastos descontrolados da máquina administrativa. A Previdência tem de mudar, e rápido, mas não como gestada nos gabinetes palacianos. Uma reforma que não sacrifique ainda mais os pobres, idosos e o povo em geral. Só que a lábia corporativista e eleitoreira de bancadas do Congresso haverá, fatalmente, de criar obstáculos e piorar qualquer texto, à maneira (mas sem o discurso e o charme) da Constituição de 88, uma vistosa colcha de retalhos.
Reformar a Previdência parece o canto da sereia, panaceia para todos os males. Porém, maiores são os juros da dívida pública, assunto por demais intricado para os mortais, e o urgente freio nos gastos públicos, na máquina administrativa dos três poderes e das Forças Armadas, mordomias e privilégios que deverão resguardar a qualquer custo: os que detêm o poder político estão de mãos dadas com os mandachuvas do poder econômico.
Um dia chamarei meus netinhos, quando puderem entender, para explicar o árduo caminho do sucesso da nossa economia. Ou seu retumbante fracasso.