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sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

INFLAÇÃO: EU JURO QUE JÁ VI O MONSTRO!

 

Maluf e Tancredo (Brasil Escola)

Havia retornado dos EUA fazia pouco tempo
. Após aqueles anos, estranhava muita coisa, voltava a um Brasil que reassumia o curso democrático: veio a eleição indireta Maluf x Tancredo, sendo o primeiro um simulacro para a continuidade sem farda de um grupo do regime; o segundo, um civil representando a esperança do povo brasileiro, mesmo que via indireta, após 20 anos de regime de força. Tancredo morreu antes de assumir, em circunstâncias que até hoje suscitam dúvidas sobre a diagnose, bem ao sabor das teorias conspiratórias. O vice, Sarney, tomou posse, e apesar de egresso da antiga Arena, era um civil à sombra do Tancredo. Mesmo com todo o frenesi despertado pela morte do eleito, o vislumbrar da redenção dos brasileiros e a proximidade de uma democracia de verdade, dizia-se que os militares “entregaram a rapadura com uma bomba-relógio dentro”: a inflação. Figueiredo, o último deles, deixou de bandeja cheia o comando do país para Sarney, 15,06% ao mês.


Ainda assustado
, passei a compreender melhor a economia descontrolada do país e o mote ‘dinheiro parado, dinheiro perdido’. As contas a pagar eu levava, pela ordem do vencimento, em uma pasta de plástico com divisórias. Como não havia Internet e outras facilidades de hoje, ia ao banco saldar meus compromissos no dia certo, aos 45 minutos do segundo tempo. Havia uma espécie de aplicação financeira chamada overnight (‘durante a noite’) que chegava a pagar 1% ao dia, percentual hoje raro de se ver em um mês em investimentos similares. Como esse 1% era cumulativo, em 30 dias chegava-se a uma cifra nominal considerável – se esquecida a inflação estratosférica. Resumindo, deixar para pagar as contas no vencimento trazia aquela sensação confortante de “lucro” que, mesmo irreal, parecia ganho diante da desvalorização diária. Com o Cruzado, de 1986, o primeiro dos grandes planos fracassados, vieram os “fiscais do Sarney”.


Volta e meia eu proseava
com o grande maestro Eleazar de Carvalho, um homem de inteligência raríssima aliada à perspicácia do nordestino alçado a cidadão do mundo, respeitadíssimo no meio musical. Certo dia, saindo do ensaio, fui com ele tomar um cafezinho perto do teatro, e, preocupado com aquela verdadeira montanha-russa de altos e baixos entre aplicações e inflação, resolvi perguntar o que ele achava daquilo tudo. Como sempre tinha uma frase lapidar na ponta da língua, respondeu: nunca vi um país fechar, mas pode sempre haver uma primeira vez. (Claro, era uma frase hiperbólica, um exagero usado na retórica e na escrita - no caso, até surreal, mas uma franca confissão de desengano.)

Collor com PC e Zélia

Fui para casa refletindo.
Não, o país não fecharia – aliás, me confortava lembrar que se não havia “fechado” em 20 anos, não seria em mais um assalto do tropel galopante da inflação à sombra do retorno “lento, gradual e irrestrito” à democracia, como dizia o general Figueiredo, último presidente militar (1979-1985) - redenção que só aconteceria de verdade com a Constituinte de 1988, abrindo as janelas para o Estado Democrático, e a eleição direta de 1990, a primeira depois de 1961! Eleito Collor de Mello, malgrado o grande erro, e daí em diante com ele, seguimos em frente tropeçando em um novo tiro no escuro, o Plano Collor, dos confiscos bancários e do submundo do “tesoureiro” PC Farias, ironicamente ligado a um presidente que, dada sua suposta beata correição, era conhecido pela alcunha de “caçador de marajás”, e quase levou o Brasil a um estrago sem precedentes. Recebeu um país com hiperinflação para entregá-lo ao fim de 1992, após a renúncia, com 25,24% ao mês.


Veio um hiato, iniciado com Itamar em 1994
, quando foi criada a URV (Unidade Real de Valor) e logo deu-se início à desindexação monetária. A inflação já estourava em 46,58% a.m., e em julho daquele ano, sob a liderança de Fernando Henrique no ministério da Economia, veio uma nova moeda, em paridade com o dólar, chamada Real (BRL). FHC assume a presidência em 1995, e consegue manter a estabilidade da moeda, seguido em boa parte por Lula, Dilma e Temer.

Centrão (Gazeta do Povo)

Em sua posse, Jair Bolsonaro
recebeu uma inflação bastante razoável, 3,75% a. a. (IBGE). Porém, seria ingênuo debitar os números crescentes atuais apenas na conta do presidente. Dividem essa conta a conjuntura internacional e a pandemia, que sufocam a atividade econômica. Coadjuvantes são uma gestão errática, o índice do IPCA, em 10,06% a.a., seguido pela saltitante taxa básica de juros (Selic), ora em 9,25%, remédio com efeitos colaterais no afã de conter a maldita inflação. Não há política econômica, apenas projeta-se reformas disso e daquilo. Paulo Guedes não decide sem o aval superior, e teve seu raio de ação desviado para a Casa Civil do ministro Ciro Nogueira, do chamado Centrão, que passa a ter o poder de brecar as decisões da pasta da economia, controlando-a.

Chicago Boys com Pinochet, ditador do Chile 

Da mesma forma que seria ingênuo
debitar a inflação apenas na conta do presidente, também seria fazê-lo ao ministro da Economia, perdido entre as teorias liberais dos chamados “Chicago Boys” do Milton Friedman e uma retórica vaga e oscilante. Trata-se de um conjunto de ações que, desorganizadas em uma gestão confusa de per si, ameaça perder régua e compasso entre volumosos gastos públicos: esbanjamentos, mordomias, orçamento secreto, benesses salariais para setores privilegiados com vistas à reeleição e outras sangrias aos cofres públicos. Seja quem for, o eleito que ocupar o cargo em 2023 precisará de um grande ministro e muito boa sorte.

                                                                



sábado, 20 de abril de 2019

BREVE MEMÓRIA DAS MINHAS CRISES ECONÔMICAS


Descrevo como cidadão, claro que não-especialista, um passeio pelos espinhos das crises que conheci, em cada etapa da vida. Afinal, foram tantos reveses financeiros e políticos, angústias pouco conhecidas nos países desenvolvidos! A partida é de até eu sair do Brasil, em 1977: números nada confiáveis, índices de inflação maquiados pelo expurgo dos itens chamados sazonais ou que imporiam danos à mentira oficial. Cifras embelezadas por fórmulas magistrais, mas a coisa não ia bem. Já entre o 1968 do AI-5 e 1974, houve um estratosférico investimento em infraestrutura que abriu um imenso rombo no Tesouro, camuflado por benefícios indiretos ao povo, o “milagre brasileiro”. Como disse Tom Jobim, ‘o Brasil não é para principiantes’. Todos têm de ser um pouco de tudo, de médico e de louco, de técnico de futebol e economista.
Deixei o país naquele obscuro cenário, governo Geisel. Nos anos de exterior as rádios de ondas curtas ironicamente me informavam bem mais do que a censura permitia no Brasil. O gen. Golbery, eminência parda um pouco mais esclarecida do regime, passou ao Médici o contraste entre os números oficiais e a pobreza: “A economia vai bem, mas o povo vai mal”. Já o ex-ministro Delfim Netto escancarou a prática concentradora de renda vigente: “Vamos primeiro fazer o bolo crescer, para depois repartir”. 

Sacco e Vanzetti (ao centro)
Nos EUA, um dia recebi de minha mãe, pelo correio, exemplar de um semanário com o Lula na capa, um sindicalista liderando a massa em greve, como no filme Sacco e Vanzetti. Era um sinal de que já começava a abertura ‘lenta, gradual e irrestrita’. De volta ao Brasil, a posse do Sarney, opção simpática aos militares criada para fazer média na dobradinha com Tancredo, que preferia ter como vice o Antonio Ermírio de Moraes. Mas o plano Ermírio vazou e o maranhense dos ‘marimbondos de fogo’ foi para o banco de reserva. Tancredo morreu e tomou posse Sarney, parte daquele bem-bolado com o ‘antigo regime’. O governo, ao ‘entregar a rapadura’, deixou nas mãos de Sarney uma inflação que chegaria a 84,3% ao mês.
Maestro Eleazar de Carvalho
Eu guardava as minhas contas mensais em uma pasta dividida como um calendário, para pagá-las apenas no dia de cada vencimento: deixava minha conta corrente quase zerada, mas a aplicação no overnight dava fácil 1% ou mais ao dia! Eu tinha um bom emprego, mas e o futuro? Preocupado, perguntei ao maestro Eleazar de Carvalho, mestre dos mestres, o que ele achava. Ele cravou uma lapidar, sempre rebobinada em minha cabeça como fosse um filme: “professor, nunca vi um país fechar, mas pode sempre haver uma primeira vez”. Era 1985.
Posse de Collor: empáfia e prepotência 
O Brasil não fechou, e Sarney passou a criar factoides, como os seus ‘fiscais’, insuflando o povo com o questionável instinto policialesco de denunciar remarcações de preços no comércio. Em 1990, o país votou pela primeira vez em 26 anos por pleito direto, elegendo um dândi, Fernando Collor, um moralista ‘contra a corrupção’, eterno discurso  que seduz as massas desiludidas e cansadas. O ‘caçador de marajás’ mais adiante cairia na rede que fingira armar na caça aos lapinas do dinheiro público. Com apenas três meses de governo, a ministra Zélia Cardoso de Mello lançou um plano (que deveria se chamar “Merlin”) a fim de salvar a economia. Deixou perplexo até o Fidel Castro, ao sequestrar uma quantia de cada conta bancária acima de 50 mil NCz$ (cruzados novos), hoje R$ 17 mil, às vezes poupança de vida. Esse valor foi decidido por sorteio, regado a bom uísque na proa de um iate em Angra, no Rio. Alea jacta est, como disse Júlio César, enfrentando a correnteza e o inimigo, para chegar a Roma e ser sagrado imperador. Mas o alea (do grego: dado de jogar, sorte) de Collor foi aleatório, imprevisível e inconsequente. Eu tinha dinheiro confiscado na poupança mas havia autorização para sacar quem comprovasse dívidas: salvaram-me dois talões de boletos para pagar um terreno.
Descíamos a ladeira aos trancos e barrancos, tiraram três zeros aqui, outros três depois, ilusão de que mais as moedas valem quanto menor for o número de dígitos. E, jogada de mestres cogitada já no tempo de Itamar, concretizou-se o Plano Real (mérito do FHC!). Com riscos calculados e a paridade entre a nova moeda forte e o dólar, sossegaram a besta-fera da inflação.
A Sagração da Primavera: Constituição Federal, outubro de 1988
Hoje, fala-se outra língua: um desemprego que já vinha de antes, as finanças do país afundando nos lodos abissais da Previdência, dos enormes juros da dívida pública e dos gastos descontrolados da máquina administrativa. A Previdência tem de mudar, e rápido, mas não como gestada nos gabinetes palacianos. Uma reforma que não sacrifique ainda mais os pobres, idosos e o povo em geral. Só que a lábia corporativista e eleitoreira de bancadas do Congresso haverá, fatalmente, de criar obstáculos e piorar qualquer texto, à maneira (mas sem o discurso e o charme) da Constituição de 88, uma vistosa colcha de retalhos.
Reformar a Previdência parece o canto da sereia, panaceia para todos os males. Porém, maiores são os juros da dívida pública, assunto por demais intricado para os mortais, e o urgente freio nos gastos públicos, na máquina administrativa dos três poderes e das Forças Armadas, mordomias e privilégios que deverão resguardar a qualquer custo: os que detêm o poder político estão de mãos dadas com os mandachuvas do poder econômico.
Um dia chamarei meus netinhos, quando puderem entender, para explicar o árduo caminho do sucesso da nossa economia. Ou seu retumbante fracasso.