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sábado, 30 de janeiro de 2021

BIDEN E GAGA: POSSE E POSE

 


Posse é a detenção do uso ou fruição de alguma coisa ou direito. Ou seja, em termos práticos não equivale à propriedade – a exemplo de um imóvel, quando esta implica em domínio completo da coisa. Valho-me desta comparação simplesmente para lembrar que a posse pode ser um direito, mas não dá, em princípio, o direito do proprietário do bem. Por analogia, vale aplicar o conceito à investidura em um cargo público de mandatário da nação, um presidente (muito embora alguns, como os ditadores e protoditadores, desejem que ter a posse e a propriedade são a mesma coisa). Por quatro ou cinco anos, o cidadão investido de um cargo eletivo - legisladores, presidente, governadores - exerce o poder que lhe foi conferido pelo povo na forma lei de seu país.


Em seu juramento, conforme o Art. 78 da Constituição Brasileira, ao tomar posse o presidente assume o compromisso de “manter e defender a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil” durante o período para o qual foi eleito.  Nos EUA, ao tomar posse, o mandatário diz: “Juro solenemente que cumprirei com fidelidade o cargo de presidente da República e que farei o melhor que puder, preservarei, protegerei e defenderei a Constituição dos Estados Unidos”. Os dois discursos se afinam no cerne da democracia republicana: a Constituição da República (do latim res publica, ou coisa pública, palavra que por si deixa claro que a posse, em uma democracia, não se identifica com a propriedade de uma pessoa).


A posse de um Chefe de Nação não prescinde de solenidade! No caso dos EUA, isso implica em grande pompa, protocolos, tradições, respeito, ordem. Ao menos uma dessas tradições foi rompida no dia 20 de janeiro: o ex-presidente Donald Trump negou-se a transmitir o cargo – no Brasil, “passar a faixa” – ao eleito Joseph R. Biden Jr., preferindo evadir-se para a Florida (foto), deixando claro que, do alto de sua soberba, ele consideraria a passagem uma humilhação. Em 1801, o segundo presidente, John Adams, não fez a transmissão para Thomas Jefferson, que o substituiu na ainda então inacabada Casa Branca. Em 2021, apenas uma tradição, introduzida por Ronald Reagan, não foi rompida por Trump: deixou sobre a mesa oficial do novo presidente, repetindo o gesto dos cinco últimos mandatários ao deixar o cargo, uma carta, que Biden resumiu a um adjetivo: “generosa”. O conteúdo permanece em sigilo e dá margem às mais variadas ilações.


Soldados e guardas com seus uniformes de gala e canhões festivos distribuíam-se pelos arredores e locais onde a caravana de Biden passou ou estacionou. Não houve a aclamação pública de muitos milhares de cidadãos devido a dois temores, o segundo mais recente: a Covid-19 e algum ataque de vândalos – isso, apesar dos 20 mil soldados fortemente armados na área do Distrito de Colúmbia; os seguranças que acompanhavam a pé a limo presidencial e seu comboio – devendo usar até o próprio corpo para defender o 46º presidente americano eleito -, os agentes secretos, atiradores de elite, barreiras e barricadas. Não fosse a deplorável invasão do Capitólio no dia 6 e a Covid, teria acontecido uma festa popular digna de memorável “pompa e circunstância” - binômio que dá título a seis marchas militares do compositor inglês Edward Elgar (1857-1934).


E por falar em música, o show foi roubado por Lady Gaga, que surgiu esplendorosa com uma enorme saia vermelha digna de uma nobre do passado, blusa preta e uma águia dourada sobre o peito. Comedida, sabia quem era o dono da festa, a quem cumprimentou com o devido respeito e discrição. À curta introdução da Banda, seguiu-se a voz da cantora como eu nunca tinha ouvido, no o belo Hino Nacional americano Star Spangled Banner, no espírito original do anthem inglês (e mais lindo se cantado a cappella, sem acompanhamento). Gaga só destoou na palavra final, “a terra dos livres / e o lar dos bravos”, quando fez um melisma jazzístico fora do espírito sóbrio da interpretação.




Stefani Joanne Angelina Germanotta nasceu no coração de Manhattan, em 1986. Iniciou-se no piano aos 4 de idade, e apesar de saber ler música preferia tocar de ouvido, talento não lhe faltava. Aos dezessete, ingressou na Tish School for the Arts da New York University. Fez sucesso com hip-hop, tornou-se empreendedora, envolveu-se com o rock e o drama e estourou nas paradas americanas. Talvez por essa ampla experiência e grande sensibilidade, aliadas à sua formação, tenha cativado tanto as atenções na festa de Biden. Ao emprestar sua voz magnífica – que confesso pouco ter ouvido até a cerimônia a que assisti - Gaga sabia que estava colaborando não apenas para a posse do 46º presidente americano, mas para a esperança de que Biden transforme seu país, aproxime nações, conforme disse em seu brilhante discurso - que é o que todos queremos, de lá e cá, além-fronteiras norte-americanas.


Não foi realizada ali, simultaneamente como de praxe, a despedida de gala de mais um mandatário, apesar da presença de três dos quatro últimos presidentes, pois Trump voou para a Florida: Bush, republicano, Clinton e Obama (foto), democratas, com as respectivas ex-primeiras damas (Carter teve um impedimento e cordialmente declinou). Houve, sim, um ato simbólico maior, o expurgo moral de um líder abaixo de quaisquer superlativos, um homem que abalou seu país e o mundo, enevoando o brilho e a honra da nação americana. Resta a Biden e Kamala Harris, agora presidente do Senado, restaurá-lo.



sábado, 23 de janeiro de 2021

OS ALQUIMISTAS CHEGAM A MANAUS

 


Alquimia é palavra que vem do árabe al-kīmyiā, dos tempos mais antigos. Refere-se a práticas protocientíficas, ou seja, não-científicas.  (Proto é um antepositivo que quer dizer algo como pré, como em protótipo, algo que prepara, antecede, como a Protofonia da Ópera Il Guarany, de Carlos Gomes. Pejorativamente, significa um arremedo, algo que não pretende ser). Os alquimistas dos primeiros tempos tentavam, sem base alguma, purificar e transformar metais como chumbo em espécies nobres, como ouro. Buscavam criar algum produto químico que tornasse os homens imortais, curasse qualquer doença e encontrasse a Pedra Filosofal, que teria o condão de transformar materiais e rejuvenescer, razão pela qual era tida como símbolo de uma bênção universal a se alcançar.


Em sua música “Os alquimistas estão chegando” (1974), Jorge Ben descreve: “São pacientes, assíduos e perseverantes / executam segundo as regras herméticas / desde a trituração, a fixação / a destilação e a coagulação”. Mostrou-os como seres exóticos, imersos naquelas crendices, ilações e supostos experimentos científicos. Os pós-alquimistas de Jorge Ben seriam os dos tempos modernos, que persistem com suas práticas obscurantistas até os dias de hoje, exercendo certo fascínio sobre quem ouvir explicações rápidas, simplórias e retrógradas sobre assuntos que deveriam ser analisados e comprovados pela ciência.




Desde os meus tempos de estudante, o trinômio aplicado à filosofia era basicamente o da chamada dialética de Hegel: A tese seria uma ideia a ser analisada, a antítese, como a palavra diz, seu contrário, para colocá-la à prova, e finalmente a síntese, após esse confronto: uma ideia resumida, ou conclusão. Processo semelhante acontece com o direito e a ciência, com denominações diversas mas princípios lógicos comuns.


No dia 15/01, a revista Isto é noticiou: “Pazuello montou e financiou força-tarefa para disseminar cloroquina em Manaus”. Seria essa sua alquimia, a que não precisa de explicações além de obsessão ou mania (aqui, no sentido de psicopatia) de sua lavra ou de seu chefe, a quem obedece cegamente? O mundo inteiro não reconhece benefício algum na droga – até pelo contrário, é um produto danoso à parte psíquica. Ainda no dia 30 de novembro, em Roma, a EMA (agência de medicamentos da União Europeia) alertou que o uso da medicação, em qualquer de suas denominações, seria responsável por distúrbios psiquiátricos. Todas as pesquisas mundiais apontavam não apenas ineficiência contra a Covid, mas também a periculosidade do produto, já estocado em larga escala pelo governo brasileiro. Pazuello, fiel servo, deveria saber disso – se não como cientista ou médico, coisas que ele não é, ao menos como ministro, leitor de jornais por obrigação, costume que ele parece não ter.


No mesmo mês de novembro, Pazuello já havia sido alertado para um iminente colapso no estoque de oxigênio, enquanto sua força-tarefa despejava cloroquina nos hospitais de Manaus. Privilegiou a alquimia do mandatário da nação em detrimento do oxigênio e, consequentemente, da vida de inúmeros cidadãos manauenses.


No dia 14 de janeiro, um conceituado jornal espanhol, El País, noticiava: “Morrer sem oxigênio em Manaus, a tragédia que escancara a negligência política na pandemia”, ressaltando que “após minimizar a crise, Planalto e Governo do Amazonas correm contra o relógio para transferir doentes para outros estados (...) Só “nos primeiros dias de janeiro, morreram 1.654 pessoas no estado, mais do que entre abril e dezembro”. E em 15 de janeiro: “O estado brasileiro do Amazonas está ficando sem oxigênio durante onda de Covid-19 “, ressaltando que o Brasil tem o segundo maior número de mortes, depois dos EUA. No mesmo dia, a CNN americana informava que 60 bebês prematuros foram transportados para São Paulo, a 3.875 km dali. Ainda naquele dia, o Estadão trazia matéria com o título: “Entenda o que aconteceu em Manaus”: “capital do Amazonas voltou a registrar recordes de internações e sepultamentos; situação foi agravada na quinta-feira quando a falta de estoque de oxigênio levou pacientes à morte por asfixia”. 


No dia 16, O prestigioso BBC News britânico estampou: “Hospitais do Brasil ficam sem oxigênio para os pacientes do vírus”, enquanto no dia 17 a americana CNN escancarava: “Saúde Pública no estado brasileiro do Amazonas em ‘colapso’, enquanto as infecções por Covid-19 transbordam”. No mesmo dia,  o diário Ouest France deu a manchete: “A Covid-19 asfixia novamente a cidade de Manaus” - “Já tendo passado pela pandemia na primavera, a capital do estado do Amazonas se encontra sem leitos de hospital e com falta de oxigênio. A preocupação se elevou quando uma variante do vírus foi detectada”. E assim multiplicaram-se notícias aqui e pelo mundo. Brasília distribuiu fortunas em curandeirismo à luz do dia, com sua enviesada catequese política, ao passo que um número crescente de mortos se acumulava, conforme se pôde ver nesta breve compilação de matérias publicadas em apenas quatro dias.


O compositor Sidney Miller, cult nos anos 60/70, cantou: “Duas doses de ácido lisérgico / ou uma bomba de gás lacrimogêneo / qual das duas que você prefere / na sua linda tenda de oxigênio?” A letra era simbólica - claro, tempos de ditadura -, mas como poesia ela pode ser entendida de várias formas, as palavras se transmutando na fecundidade do pensamento. Hoje, entre o delírio de uma droga sem efeitos além da vã esperança em momento de agonia ou a morte certa em tenda de oxigênio exaurida. 
Ou deitado no corredor.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          

sábado, 16 de janeiro de 2021

O QUE ACONTECEU NAQUELE DIA ENTRE A CONSTITUIÇÃO E A INDEPENDÊNCIA?

 


Nunca fui fã daquele tipo de enlatados americanos como SWAT (Armas Táticas e Especiais) e Miami Vice, mas confesso que, na falta de sono, qualquer thriller serve: o suspense, ironicamente, me embala até o ponto de desligar a TV e cair como criança nos braços de Orfeu. Filmes épicos, sim, Sansão e Dalila e El Cid, sempre me prenderam a atenção de forma especial, em parte porque versados sobre fatos históricos, outro tanto porque costumavam ser muito bem feitos.


A história da humanidade já é emocionante por si, apesar de sempre sangrenta e carregada de violências de todos os tipos. Desde 1240, em tempos de barbárie da invasão contra o Tibet, foram dezenas de ataques da Mongólia a outros países e territórios, tendo como bandeira a fome insaciável por conquistas. Em 1296, o ataque da Escócia sobre a Inglaterra, e já em 1480 o avanço sobre Rhodes pelo Império Otomano, que também atacou a Áustria em 1596. Em 1693, a Mongólia é tomada pela China, e em 1792 a Polônia toma a Rússia. A lista é imensa, até chegarmos à barbárie moderna: duas grandes guerras, o genocídio dos nazistas sobre o povo judeu e de armênios pelos otomanos. A conquista e o domínio de um povo sobre outro pela força bruta parece remontar ao tempo de Neandertal.


Um corte e uma pergunta: o que aconteceu naquele dia 6 de janeiro de 2021 entre as avenidas Constituição e Independência – nomes tão simbólicos! – em Washington DC? O Capitólio, símbolo americano e casa do Legislativo, iria ratificar o nome dos recém-eleitos Joe Biden e Kamala Harris como presidente e vice. No dia 8, a editora-chefe do famoso jornal USA Today organizou nomes, fatos e personagens, muito além de simples provocação de jovens baderneiros.


Rudolph Giuliani (foto), ex-prefeito de NY e homem forte de Donald Trump, naquele dia 6 subiu em um palanque no National Mall exigindo mais dez dias para investigar a eleição americana – como se investigar não fosse um processo sobre dados concretos e reais, e sim passar uma peneira até em água para ver se surge uma fraude. Aos gritos de “acabou a conversa!”, buscava radicalizar de vez a já formada balbúrdia. A seguir, o presidente Trump ergue-se para a multidão, já estimulada por mentiras e gritos de guerra como os de Giuliani - “julgar pelo combate!” E o próprio presidente, suposto guardião da República e dos ideais americanos, conclama a massa a seguir para o Capitólio para levar à cerimônia “alguma ousadia e audácia”.


Trump no comando: “Vamos descer a avenida Pennsylvania rumo ao Capitólio (...) falar com nossos republicanos – os fracos, porque os fortes não precisam de nossa ajuda – nós vamos tentar dá-los o tipo de orgulho e ousadia de que eles precisam para que nos devolvam o país” (registrado pelo USA Today). Havia até manifestantes pendurados em árvores, e o trajeto delineado por Trump foi seguido à risca. O show estava feito. O jornalista Chris Quintana revela ter ficado chocado com a festividade da cena, comparando-a a um festival de música ou algo parecido. Muitos faziam selfies em frente ao Capitólio antes de invadirem o prédio.


Um louco com uma capa que trazia o lema Keep America Great posava ao lado de uma rústica forca engrossando o coro “parem o roubo”. Outro, de chifres como um viking, aboletou-se em um gabinete. Jornalistas descrevem a imagem de fanatismo e insanidade, tão avessos à democracia simbolizada pelo enorme monumento a George Washington, ali à frente do prédio do Capitólio. Manifestantes ensandecidos foram recebidos por forças do Congresso de forma descrita por repórteres como “suave” e “complacente”, até convidando a guarda a juntar-se a eles. Não, nem The Capitol é Das Kapital e nem esse mob a revolução russa - unindo proletários, líderes políticos e soldados em prol de um ideal. Mesmo porque não havia um ideal, apenas um presidente debatendo-se em causa própria e seus fanáticos seguidores. Um invasor, perguntado pela jornalista do Congresso Chrystal Hayes se a Polícia havia tentado contê-los, simplesmente deu uma gargalhada: “eles foram derrotados”; “os agentes foram muito corteses conosco, nós passamos direto por eles”. A descrição do USA Today foi de que a repressão teria sido “suave”.


Cinco pessoas morreram, sendo que uma pela Polícia e outras quatro vítimas de ferimentos. Um desses, oficial do Capitólio, veio a falecer na sexta, dia 8. Porém, mesmo com a certificação da chapa Biden-Harris na Presidência, após a evacuação de autoridades e seu posterior retorno, ficaram perigosamente feridas a República e a democracia americanas. Tudo isso provocado por um fanático orador e aliciador da extrema direita dos EUA, o próprio presidente, que deveria defender os valores mais caros à nação. Surpreende-me especialmente – lembrando a espetaculosa SWAT, que citei no começo deste texto - a quase inação das forças policiais no episódio – por ter vivido naquele país, sei que é um lugar onde com Polícia não se brinca. À parte a costumeira truculência dos agentes nesse tipo de manifestação, um carro que desobedeça à ordem de parar é uma sinalização para agentes atirarem.


Bloqueado pelo Twitter e Facebook por incitação à violência, contra as normas das redes, um presidente já mudo e imobilizado aguarda o dia 20 para amargar, com frustração, a diplomação de Biden-Harris à Casa Branca. Esperamos agora ver uma América grande de verdade, digna de seu patrimônio: (...) “a terra dos livres e o lar dos bravos” (do hino Star Spangled Banner) – e sob o império da lei.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

SOBRE O BRASIL E A ARGENTINA

 


A
Argentina é um país amigo que apesar das diferenças culturais tem em comum conosco a bagagem latina. Algumas diferenças: dominada pelos espanhóis, a Argentina proclamou sua independência em 9 de julho de 1816. O Brasil, “descoberto” e colonizado pelos portugueses, tornou-se independente seis anos depois, em 7 de setembro de 1822. A Argentina é um vasto país: 2.800 mil km² (8º maior do mundo), quase 33% de nosso território, 8.510 mil km² (5º).


D
emograficamente, não se repete tal proporcionalidade: com quase 212 milhões de habitantes, o Brasil tem 4,86 vezes a população do país vizinho, de 43,6 milhões. Na música, porém, somos bem chegados: o imponente teatro Colón (1908), de Buenos Aires, Meca da ópera na América Latina que passou a receber as grandes companhias, inspirou a ideia de fundação dos teatros Municipal do Rio (1909) e de São Paulo (1911). Aqui é terra de Villa-Lobos e Guarnieri, lá, de Maurício Kagel e Ginastera; esbarrando nas tênues fronteiras entre o clássico e o popular, cá temos Jobim, eles Piazzolla. E se exaltamos o samba e a bossa nova, lá eles desfrutam do maravilhoso tango. Cá se toca violão e sanfona, lá violino e bandoneón. Enquanto falamos e escrevemos em português, entre eles é o espanhol, belo idioma, tão similar!


O
futebol é paixão nos dois países! A seleção argentina levou duas copas do mundo (1978 e 1986), aqui colecionamos cinco (58, 62, 70, 94 e 2002), longe de uma equivalência em termos populacionais. Em ídolos somos parceiros: Pelé (80 anos), o mestre perfeccionista, vigoroso e temido pelos adversários, e o mago Diego Maradona, um artista simplesmente  venerado, um ícone de sua terra, para tristeza do povo falecido em 2020 aos 60 de idade. Ambos célebres por escreverem a história do futebol recente com gols, dribles e lances homéricos.


C
ontudo, há um viés belicista que frequentemente extrapola todos os limites do razoável, tanto entre brasileiros e argentinos quanto entre estes e uruguaios, uma rivalidade ferrenha que se pode creditar ao passado histórico, desde as guerras do Prata e da Cisplatina (1825-1828), quando da disputa territorial entre o Brasil e a Argentina envolvendo a província onde hoje fica a República do Uruguai.


H
á uns 20 anos, fui participar de um debate na Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), em São Leopoldo, RS. Logo no princípio da conversa reparei que na plateia um grupo menor sentava-se isolado em uma área à esquerda. No intervalo, indaguei a um colega debatedor, que me explicou: meio à parte, sentavam-se os uruguaios. À direita, a partir do meio para cima, os argentinos, e, na frente, um bom número de brasileiros. Assaltou-me uma sensação desconfortante. Ora, éramos todos músicos, e naquela mesa eu me sentia à vontade com um uruguaio, um argentino e talvez outro brasileiro.


T
erminadas nossas exposições, fomos levados a uma bela churrascaria. Lá chegando, sentei-me à mesa onde já estavam alguns uruguaios. O papo começou bem, à nossa frente uma imensa ‘costela no bafo’ - à argentina, aliás -, assando bem ali no chão para nos provocar, até que entra um grupo maior, com certa euforia. Da cadeira do lado, meu vizinho uruguaio perguntou:
¿son los argentinos? Respondi que sim, e no ato, após trocarem poucas palavras entre si, retiraram-se. Até em nosso meio musical essa rixa transparece, especialmente em ‘ringue’ livre, o trabalho, e aqui, mesmo entre os residentes e os naturalizados.


V
oltando à Argentina, temos muito em comum: ambos sobrevivemos a violentas ditaduras durante longos períodos (10 anos, eles, e 21, nós) - tortura, mortes, censura e até ‘acordos’ entre as repressões dos dois países, tristes laços que 'desapareceram' de um hotel até com nosso pianista Tenório Jr. No passado, ambos tivemos líderes populistas com um pé no fascismo mussolinista, Perón e Getúlio.


E
m 2020, na saúde, o presidente argentino Alberto Fernández anunciou que na terça-feira, dia 5 de janeiro de 2021, daria início à vacinação em massa com a Sputnik-V russa contra a Covid-19. O Brasil ainda claudica, entre o negacionismo e a inércia, deixando o povo mercê de uma nova e imprevisível onda da doença. Enquanto isso, o Senado argentino – sem entrar em discussões ideológicas ou de credo – aprovou, por 38 contra 29 votos e uma abstenção, o aborto espontâneo até a 14ª semana de gravidez.


R
acismo e Xenofobia andam de braços dados, preconceitos que têm como mote a ideia de supremacia e superioridade de uma raça ou país sobre outro (entre regiões atende nos dicionários pelo nome de regionalismo). São eles os instigadores do ódio, das guerras, das violações aos direitos dos cidadãos e obstáculos ao diálogo pelas conquistas sociais entre países, regiões e cidades. Surgem como muralhas de preconceitos entre Sul e Nordeste, brancos e pretos, cariocas e paulistas ou mesmo uma cidade e outra - genericamente, todos os que se considera fora do seu time.


T
emos o que admirar nos argentinos, pois se em várias coisas os superamos, em outras por eles somos superados - trata-se de nobreza de hermanos vecinos estendermo-nos as mãos. Afinal, há que se reconhecer que em 1936 a Argentina já havia recebido o Nobel da Paz, com Saavedra, enquanto o de 1970 foi desviado de Dom Hélder Câmara por uma guerra de informações tendenciosas e falseadas do presidente Médici com seus diplomatas em Oslo e Paris. A Argentina voltou ao Nobel da paz com Esquivel em 1980. Salve, latinos! Como tal, devemos nos orgulhar também de Jorge Mario Bergoglio – Francisco, o Papa – um líder sábio, pluralista, generoso e à frente de seu tempo.