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sexta-feira, 30 de outubro de 2020

O ÚLTIMO DEBATE

 


Quinta-feira, 22 de outubro. Segundo e último debate presidencial norte-americano na TV, após um encontro agendado anteriormente ser cancelado porque Donald Trump havia se recusado a discutir on-line. Simplesmente desistiu, sem insistir no “ao vivo” com a prepotência que lhe é peculiar. (Bom lembrar que ele ainda estava em fase de poder contaminar os presentes).


No primeiro debate, um Trump ensandecido se utilizava de todos os artifícios possíveis para monopolizar o encontro, uma verdadeira pirotecnia com que buscava perturbar o discurso do adversário. O mediador foi leniente quanto ao tempo sempre extrapolado de Trump. Resultado: um fracasso para o presidente. Uma pesquisa da rede CNN deu a Biden 57% das preferências e 41% a Trump, abalando as hostes republicanas.


Se ao primeiro debate assisti com tradução simultânea por uma TV brasileira – ideia sobre a qual já teci neste espaço minhas restrições -, no encontro vice-presidencial (VP) entre Kamala Harris e Mike Pence houve mais comedimento por parte do republicano, sem o estrelismo de Trump, e uma participação mais arrojada de Harris. Depois da tradução simultânea para o português do primeiro debate, para este encontro optei pela CNN americana, com letreiros em inglês – excelente, e acessível ao milhão de surdos funcionais e deficientes auditivos do país, fora os eleitores latinos, por exemplo.

Kristen Welker (El País)

Para o último debate, já entre os candidatos à presidência, optei pelo site do NY Times, sem tradução ou legendas, bem mais eficiente: era possível unir palavras e emoções dos contendores de maneira especial. A mediação, a cargo da excelente Kritsten Welker, trouxe como novidade o controle dos microfones para que certos rompantes estrelados por Trump no primeiro debate não se repetissem – ao menos não a ponto de conturbar toda a discussão. Cabe aqui lembrar um momento tragicômico: o velho Ronald Reagan, apagado da cena e como se surgido das cinzas, declarou à imprensa (sob o título “Dos anais da história dos microfones calados”), que estaria “pagando por este ‘momento microfone’”, tomando para si a novidade ao acatar a inovação, no passado. Kristen Welker permitiu algumas liberdades, sim, mas manteve tudo sob seu controle. O ambiente mais sereno, contudo, não aplacou algumas estocadas de ambas as partes.


Simbolicamente, Biden entra com sua máscara preta, e a retira antes de começar. Pouco depois, ao falar, ele a ergue, como fosse uma flâmula, lembrando a necessidade de proteção.

Houve troca de acusações, algumas infundadas, sobre ligações de ambos os lados ora com a Rússia, endereçadas a Trump, ora com a China, por parte de Biden. Inclusive sobre uma conta do primeiro em um banco chinês, maculando a assepsia do presidente em relação à sua escancarada ‘sinofobia’. Usando um velho mote republicano, insistiu que os democratas iriam aumentar impostos, ao que Biden respondeu que não os dos pobres, sua intenção seria criar uma medicina affordable - possível de ser paga pela maioria -, melhorando e ampliando o chamado Obamacare.

Crianças mexicanas retidas na fronteira

Perdi a conta de quantas vezes Trump repetiu que Biden esteve lá (no poder) durante oito anos “e não fez nada” em relação a isso ou aquilo, esquecendo-se de que seu vice, Pence, nada fez como vice-presidente nos últimos quatro anos (como se Trump lhe desse esse espaço). Biden, focando em um ponto nevrálgico, o emocional do eleitor – já não são tantos os indecisos de que ele precisa -, lembrou as crianças separadas dos pais na fronteira com o México, enquanto Trump, aparentando naturalidade, retrucou que elas “estão sendo muito bem tratadas”, como se bastasse alimentá-las e lhes dar teto.


Biden, mais uma vez, referiu-se a um certo racismo institucional, palavras que atingem em cheio Trump e seus apoiadores, entre eles os supremacistas brancos (como os Proud Boys e o Ku-Klux-Klan). Ao estilo de uma velha raposa brasileira, Trump se disse “a pessoa menos racista” do país e que, “à parte Abraham Lincoln, ninguém fez mais pela comunidade negra deste país do que eu”, sob irônicos sorrisos até de alguns republicanos na plateia, segundo o NYT. (Lincoln declarou a abolição em 22 de setembro de 1872).

Mina de carvão na Pennsylvania

No quesito clima e meio ambiente, um de seus pontos mais fracos, Trump saiu-se mal, tentou revertê-lo em seu proveito ao afirmar que Biden iria destruir a indústria carvoeria do país, entre outras poluidoras, jogando os poderosos industriais contra o democrata.

"Fact checker" da CNN: "Trump mentiu sem parar"

Uma das berlindas do debate, como era de se esperar, foi o Coronavírus. Mais uma bravata de Trump: “estamos vencendo esta luta!” Apontada como falsa pelos fact-checkers (verificadores de fatos) do New York Times, que afirmou: “na verdade, estamos em uma terceira onda”, e que os 70 mil novos casos diários são o maior número desde julho. Biden escorregou ao dizer que os estados republicanos do meio-oeste estavam tendo picos do vírus. Analistas da CNN acham que Trump esteve bem comportado, porém “mentiu mais”. Segundo a tradicional pesquisa da emissora, 53% acham que Biden venceu o debate, e Trump, 49%.

Em destaque, os "estados oscilantes"

Os próximos passos serão conquistar os indecisos, investir nos estados com mais votos no Colégio Eleitoral e cooptar os “oscilantes”: com Biden, estão Wisconsin (10 votos no Colégio Eleitoral), Michigan (16), Pennsylvania (20) e Florida (29), enquanto Trump tem, por escassa margem, Ohio (18) e Iowa (6). O resultado desta eleição será de grande impacto para o mundo e em especial o Brasil, seguidor incondicional da política trumpiana. A despeito da recente sobretaxa de 130% pelos EUA em nossa importação de alumínio.

sábado, 24 de outubro de 2020

CELSO DE MELLO, MALUF E OS ARTISTAS

 


No dia 29/02/1988 foi publicada no Diário Oficial do Município de SP a lei nº 10.430, cujo projeto foi encaminhado à Câmara pelo prefeito Jânio Quadros. Textualmente, o diploma “dispõe sobre a reorganização dos quadros de pessoal (...), cria novas escalas de vencimentos e institui diretrizes básicas na área de administração de pessoal”. Um dos efeitos imediatos desta lei, em seu Art. 42, foi a limitação dos vencimentos máximos da remuneração do pessoal do Município com base no padrão DA-15, pouco razoável para certas situações extraordinárias do chamado Quadro de Atividades Artísticas, conforme veremos adiante.

A festa da consagração da CF de 1988, com Ulisses

Mal se passaram sete meses, em 5/10/1988 Ulisses Guimarães consagrou, com grande emoção, a nova Carta Magna, que trouxe de volta a normalidade democrática ao país, até então guiado por uma constituição distante da realidade, a de 1967, “remendada” pelos “ministros militares na presidência” e  os infamantes 17 Atos Institucionais da forja da ditadura, incluindo o teratológico AI-5, que fez terra arrasada dos direitos e garantias individuais e do Estado democrático de direito. A Constituição de 88 veio para ficar e com ela, aos poucos, retomamos o prumo da normalidade democrática. No caso em epígrafe, o inciso XI do Art. 37 da nova Carta estabelecia a maior remuneração dos servidores públicos do país, tendo em primeiro lugar como teto salarial a dos ministros do STF; aos municípios, os vencimentos dos prefeitos e aos estados e Distrito Federal os de seus governadores.


Em 4/12/1980, o então prefeito Reynaldo Emygdio de Barros sanciona a lei nº 9168, que “Reorganiza o Quadro de Atividades Artísticas”. Em seu Art. 6º, a lei criava gratificações simples para os artistas e especiais, em caso de apresentações extraordinárias, para os solistas, regentes e diretores de escolas de arte, melhorando os vencimentos dos artistas e estimulando as apresentações públicas. Com base nesta lei e a Constituição de 1988, as gratificações continuaram a ser pagas aos AAs (Quadro de Atividades Artísticas), pois continuaram a valer sob ambos os diplomas legais. Porém, na gestão 1993/1996, pela segunda vez prefeito o Sr. Paulo Maluf, o alcaide ordenou cortes diretos nos vencimentos dos artistas tendo como argumento o teto estabelecido na lei 10.430, do Jânio, criando uma situação exótica: regentes e diretores de escola organizando número maior de concertos tinham essas gratificações cortadas segundo a régua - já inconstitucional - do Jânio. Professores da Escola Municipal, Diretores de Escolas de Arte e regentes viam-se frustrados ao ver seu contracheque: trabalhavam a mais por nada.


TJSP

Ora, só restava ingressar em juízo, o que foi feito. A Constituição fora ignorada e isso já seria argumento suficiente. Ingressei, com outros artistas, com Mandado de Segurança na Vara da Fazenda Pública de São Paulo, tendo o pedido de liminar deferido. Mas restava o do julgamento do mérito. A Prefeitura recorreu, como de praxe, usando de todos os embargos, agravos e recursos a que tinha direito 
– ou não tinha, mero expediente protelatório . Confirmada a sentença pelo TJSP, restou à Prefeitura recorrer ao STF, instância de matéria constitucional.

Celso de Mello (notícias.uol.com.br)

Depois deste longo preâmbulo começa, na verdade, o meu artigo. Por sorteio, o AI (Agravo de Instrumento), que em princípio visaria a reparar um erro no julgamento, mas no caso, aliás, em sua boa parte, sempre buscam empurrar o problema para os próximos governantes, caiu nas mãos do ministro José Celso de Mello Filho, sob o nº 263.180, tendo como agravante (recorrente) o Município de São Paulo, com o título da matéria “Direito Administrativo / Sistema Remuneratório e Benefícios / Teto Salarial”. 


Não tardou muito: em 1º de fevereiro de 2006, Celso de Mello prolata sua decisão – de um caso já mais do que julgado, baseando-se em uma petição comprometedora para o defensor da municipalidade: “O presente agravo é insuscetível de conhecimento”. É que a cópia do recurso extraordinário objeto do AI, era "ilegível”, pontuou o ministro, afirmando que “em tudo equivale à ausência das peças consubstanciadoras de sua interposição”. Evoca o AI 214.562-AgR/SC, do qual foi relator o insigne ministro Moreira Alves, e conclui: “Pelas razões expostas, não conheço do presente agravo de instrumento (Súmula 288/SRF). Publique-se”.

(portal.stf.jus.br)

Claro que o ministro, com seu vernáculo escorreito, seu conhecimento das letras jurídicas, sua profunda erudição hermenêutica, tudo isso aliado à ímpar elegância no decoro, não desceu a detalhes do que declarou ilegível: as cópias reprográficas, com certeza, mas com delicadeza usou a jurisprudência e deixou de lado péssima redação do Recurso Extraordinário: para agravar uma instância superior o mínimo que se pede é que haja coerência, domínio da gramática e concordância nominal e verbal.

(Diário de Tatuí)

Guardei esta decisão do ilustre ministro desde antes de me imaginar residindo na cidade em ele nascera. Dois anos após, tomaria a decisão de aceitar um cargo de diretor na acolhedora Tatuí – onde, mesmo ao aposentar-me, resolvi fincar meus pés e dedicar-me a outros afazeres. Sempre que possível, assistia na TV ao voto do decano sobre questões controversas, verdadeiras aulas de história, direito, filosofia, português, latim e bom senso.


Catorze anos depois, trago a público esta história, não apenas pela justiça feita aos artistas da capital, mas para ilustrar a reverência que todos devemos a este magnífico jurista. Encerro aqui a homenagem com uma boutade: meu avô, que foi ministro do STM, mesmo aposentado não o deixavam desgarrar-se do título – e, creiam, nem mesmo seu enorme papagaio, do poleiro na varanda do apartamento no Rio: “ministro! Ministro!”

Bom descanso, ministro.


 

sábado, 17 de outubro de 2020

O DEBATE KAMALA vs PENCE

 

Trump vs Biden (DW)

Assisti ao debate entre Donald Trump e Joe Biden, cheguei a comentar neste espaço. Não me satisfez a tradução simultânea por ótimos jornalistas brasileiros, isto porque se trata uma prática que requer técnica específica – é preciso falar e ouvir ao mesmo tempo, o que é absurdamente exaustivo. No exterior, quem trabalha com a prática geralmente faz revezamento a cada 15 minutos. Com a fadiga, perde-se em cognição e clareza, o que com o tempo restou aparente.

Susan Page

Já para o chamado VP Debate (vice-presidência), optei pela CNN, em inglês. À medida que os debatedores falavam, eram exibidas captions no mesmo idioma – além de maior clareza para os estrangeiros e o público, em geral, some-se o contingente de deficientes auditivos e surdos funcionais, nos EUA, que é de dez milhões de pessoas. As legendas surgiam com ligeiro e esperado delay (atraso) técnico, mas reproduziam as falas quase à perfeição. A mediadora Susan Page atuou bem, mas volta e meia deixava Mike Pence extrapolar seu tempo para além dos dois minutos estabelecidos. Não houve aberrações como no debate dos candidatos titulares, ofuscado pelo exibicionismo de Trump. Page ironizou que não seria uma entrevista, mas um debate, e, com larga experiência, foi a primeira vez que uma profissional do jornalismo escrito (USA Today) fazia um voo solo como mediadora na TV.


Os separadores de acrílico entre os debatedores  eram naturais, em tempos de Covid-19. E Mike Pence mostrou-se muito mais comedido do que seu parceiro de chapa, Trump, ao passo que a candidata a vice de Joe Biden, Kamala Harris, esteve bem mais à vontade do que seu par na contenda anterior. Mostrou simpatia, abriu largos sorrisos, foi convincente e falou com clareza. Mas o que fez deste debate “VP” tão importante?


Em junho de 2021, Trump completará 75 anos de idade; se eleito, encerrará a gestão com 79. Já Joe Biden fará 79 em novembro deste ano e encerraria sua gestão aos 84, o que confere ao “fator VP” maior evidência: Trump, apesar de 4 anos mais novo do que Biden, está com Covid-19, um tratamento envolto em briefings nebulosos e contradições, e, como acontece frequentemente, sequelas da doença são uma possibilidade a se considerar. Para Kamala Harris, 55, a idade, os tempos de Black Lives Matter, o eleitorado feminino e as pressões de Trump contra imigrantes latinos com status legal ou os ilegais, além da questão da fronteira do México, pesam a seu favor na contabilidade. Mike Pence, 61, conta com o velho conservadorismo americano, a aguerrida extrema-direita e o segmento evangélico, sua opção religiosa, enquanto algumas posições mais avançadas de Kamala levam radicais a imputar-lhe a pecha de anticatólica – principalmente por “trumpistas”, à frente o seu líder.  
Kamala & Pence (Marie Claire)

O prestigioso jornal The New Tork Times, em sua edição de 8 de outubro, fez uma análise do debate. Convidou, para tanto, nada menos do que 17 especialistas para opinar sobre o encontro. Houve divergências, claro, e uma sutil tendência ao empate: Jamelle Bouie viu o jogo amarrado, com cada debatedor cumprindo sua missão: com loas de Pence aos feitos – ou nunca feitos - de Trump, e Kamala exaltando as propostas mais populares de Biden. Elizabeth Bruenig disse que Pence pode ser evangélico, mas não tem carisma, e deu o pódio a Kamala. Christopher Buskirk acha que Pence levou, com seu jeito calmo, profissional, competente e focado, e Linda Chavez acha que Kamala foi com certeza a vencedora: deu-se melhor no debate com Pence do que Biden contra Trump. Apontou-a como exemplar ao exigir paridade no tempo, dadas as ‘extrapoladas’ de seu rival. Os demais analistas variaram entre essas observações.

NYT: Editorial

Na manhã do debate, o mesmo The New York Times, a despeito das divergências apontadas pelos analistas convidados ao pós-programa, já havia retomado uma prática de tempos mais recentes na grande imprensa norte-americana: retirara a máscara para assumir sua opção política. Em editorial com chamada na primeira página, uma foto de um Biden sereno à frente de um lago de águas igualmente serenas como um grande espelho, conclama: “Eleja Joe Biden, América”, e, logo abaixo, “O ex-vice-presidente é o líder de que nossa nação precisa agora”.


Mais um dia, e a imprensa traz a notícia de que a decisão dos organizadores do debate seguinte foi pelo modo on-line, por proteção aos presentes. Logo em seguida, Trump manda informar que não participará, em que pese ainda estar em fase que representaria algum perigo de contágio para Biden e o mediador - mas não insistiu no “ao vivo”, apenas pontuou que não irá. O que o deixou confortavelmente defeso em duas hipóteses: primeiro, apresentar-se como um candidato que milhões de pessoas já sugestionadas poderiam enxergar como doente – qualquer mínima palidez,  a voz, uma tossida, um pigarro, talvez, já chamariam a atenção. Segundo, a equipe médica pode tê-lo alertado severamente de que ele não deveria comparecer devido aos óbvios riscos. Como bom investidor em jogatina (Casino Trump ou o Trump Plaza, em Atlantic City) e bom jogador, ele sabe a hora de apostar pesado. Ou, matreiro, de blefar.

The Guardian, 8 de outubro

Para piorar a situação de Trump, caso acontecesse o debate, no dia 8 de outubro o britânico The Guardian trouxe uma notícia de grande repercussão, especialmente entre religiosos, a direita radical e a maioria conservadora: o tratamento alardeado por Trump como potencial em sua cura, o Regeneron, é um coquetel de anticorpos que utiliza células de fetos colhidas em abortos eletivos (por opção da gestante), prática por ele combatida obstinadamente. Pura lenha na fogueir
a.

 

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

DEBATE: DESGASTE, DEBACLE

 

Donald Trump, Joe Biden e Chris Wallace

O primeiro confronto da disputa eleitoral entre Donald Trump e Joe Biden, em 29 de setembro, teve cenas lamentáveis. Mas antes de comentar o debate, em si, não gostei da tradução simultânea por dois jornalistas, uma especialidade sobre a qual ambos, por mais que dominem o inglês, parece não terem a expertise. Eu já fiz simultânea na Rádio Cultura FM – e nunca mais -, achei uma loucura, e só depois vim a descobrir que se trata de atividade que pressupõe estritas normas técnicas: uma amiga na Alemanha é tradutora em uma grande rádio - a cada quinze minutos tem de ‘passar o bastão’ (o microfone), a outro profissional. A fadiga perturba a cognição e a fala. Melhor teria sido uma tradução por legendas para quem quisesse, além do áudio original.


Um ponto negativo logo recai sobre o mediador, que nada arbitrou, foi omisso e até conivente com a constante interferência de Trump nas falas do adversário, ao estilo de nossas velhas raposas: não deixar o contendor se expressar. Se Biden foi por demais comedido e retrucava com sorrisos irônicos, Trump parecia um boxeador revirando-se sozinho para monopolizar o ringue. Por vivência própria, acho que tirando os naturais excessos de rua o povo americano é atento a essas questões, e o bipartidarismo local permite mudanças com uma pequena lufada.

Pesquisa de intenção de voto

O impacto imediato do debate, em si, conforme pesquisa da CNN americana, foi 60% favorável a Biden e 28% a Trump - uma surpresa para o presidente, que já entrou de mau humor e visivelmente transtornado - a ´pesquisa nacional já havia reportado 55% x 41%. Seguiu-se o desgaste, segunda palavra do título deste artigo. Trump dirigia bravatas a Biden durante as falas dele e do democrata de forma intermitente, sempre olhando direto para o opositor. Biden, ao contrário, dava estocadas em Trump com voz mais suave e olhando firme para a câmera - os eleitores.

Proud Boys

Dia seguinte, 30 de setembro. O conceituado The New York Times não poupou críticas e adjetivos: “Conversa atravessada, mentiras e zombaria”. Ataques virulentos a que Biden respondeu com singeleza: “Isso é tão antipresidencial”. Pior: Trump furtou-se de condenar o grupo supremacista branco Proud Boys (“Garotos Orgulhosos”). Diversas associações e milícias, entre elas a velha Ku Klux Klan, com longo rastro de perseguições e assassinatos de negros americanos, apoiam o candidato. O jornal inglês The Guardian destacou que o Proud Boys teria recebido de Trump o indicativo de standby, apelo à milícia para ficar alerta durante a campanha.

(Isto É)

Os danos dos impropérios de Trump à sua própria campanha não podem ser negligenciados ou minorados: estamos em tempos de Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”), amplo movimento de resistência antirracista que tomou corpo após o monstruoso assassinato de George Floyd em Minneapolis, quando um policial esmagou-lhe o pescoço com a bota durante mais de oito minutos. Joe Biden marcou presença por videoconferência nos funerais de Floyd em Houston e, com isso, saiu fortalecido diante da comunidade negra e seus simpatizantes, enquanto Trump se reservava a um absoluto recolhimento e expressivo silêncio.

Lincoln, no Gettysburg Address

Nos grandes momentos nacionais, o cidadão americano é convicto de suas tradições democráticas e simpático ao tom dos discursos mais sóbrios, embora empolgantes, como o lendário Gettysburg Address, de Lincoln, o I Have a Dream, de Martin Luther King, Jr, e o do candidato à vaga democrata Jesse Jackson, chegando aos eleitos Carter, Bush, Clinton e Obama. Todos, opções à parte, buscaram demonstrar nos discursos e debates sua capacidade de dirigir a nação com seriedade e foco objetivo. Resumindo, a maioria quer alguém que governe com perfil sereno, sem prescindir da autoridade que é reservada ao homem mais poderoso do mundo: um líder forte, mas controlado.


Trump tem revelado seu lado radical, defensor das desigualdades. No caso do OCA (conhecido como Obamacare, de 2003), proferiu o disparate de que um amplo atendimento à saúde pública seria arriscar o país em uma espécie de socialismo. Saúde é conhecida mazela americana, e o eleitor razoavelmente esclarecido sabe que o maior sistema de saúde pública do mundo, o NHS, foi criado após a Segunda Guerra em um Reino Unido longe de ser “socialista” – termo que Trump usa depreciativamente para quem defende melhorias sociais. O SUS brasileiro foi lançado, à imagem e semelhança do NHS britânico, pela Constituição que restaurou de vez a democracia em nosso país em 1988 - e que ninguém diga, apesar das carências do sistema, que é ‘coisa de socialista’: foi quase unanimidade.

TrumpTower, em NY

O megamilionário Trump já entrou na arena meio fora de prumo com a revelação, recentíssima, de que ele não recolhera Imposto de Renda por onze anos, e em tempos mais recentes pífios US$ 750 em um ano, ou seja, R$ 4.200, com o dólar a R$ 5,60, desconto anual similar ao de um professor da nossa rede pública de ensino. Trump tem suas “torres” milionárias, redes de hotéis, clubes de golfe e investimentos mundo afora. Foi um fiasco. Começara, então, a debacle do título deste artigo.


Às 0h23 de 2 de outubro, Trump informa que está com Covid, azedando de vez o caldo. O NY Times ressaltou: "É difícil imaginar que isto não dará fim às esperanças dele para a reeleição', disse Rob Stutzman, um consultor republicano, apontando as 'zombarias contra as precauções mais óbvias' do Sr. Trump” (contra a Covid-19). Com previsão de ficar vários dias internado (NYT, 3 out), resta aguardar. Não há informações realmente confiáveis, só contradições. O mundo aguarda.

sábado, 3 de outubro de 2020

A AUSÊNCIA PESA, OS SENTIMENTOS FLUTUAM


A vida não escolhe dia e hora para nos pregar peças. Sequer as mais dolorosas, como levar pessoas que amamos e admiramos, sejam familiares e amigos ou ótimos e estimados colegas profissionais. Este ano o destino nos tem sido especialmente cruel, precisa parar por aí. Chega de arcar com o peso que nos traz a falta, por mais contraditório que isso pareça. (Sentimentos não conhecem leis da gravidade, pairam acima delas; a ausência sim, pesa como um fardo às costas).


O que flutua é a memória que nos abraça e se espalha como um grande sopro, um soffione (em italiano, aquela flor-pompom que se pulveriza, multiplicando-se em micropartículas, voando à menor brisa ou ao mais puro assoprar de uma criança). Tal qual “A felicidade” do Vinicius: “como a gota de orvalho / numa pétala de flor / Brilha tranquila / depois de leve oscila / e cai como uma lágrima de amor”.


No último domingo, 20 de setembro, deixou este palco mundano o grande flautista Jean-Noël Saghaard. Deixou-nos com a mesma simplicidade com que veio da França para o Brasil e logo tornou alvo de elogios por seu timbre puro e aveludado. Foi o melhor Bolero de Ravel que já ouvi, e olhem que foram às dezenas, no palco ou na plateia. Jean captava o espírito etéreo daquele solo de abertura sobre o qual todo o resto se erguia e se encorpava, equilibrista como fosse em mágica, até o repentino desmoronamento final. Grande músico, excelente professor, amigo sincero, tinha a personalidade forte e uma introspecção de que só os verdadeiros artistas dispõem. Foi-se como a gota de orvalho do Vinicius, e tão suavemente como quando seu instrumento mágico abria a obra de Ravel.

Aírton Pinto

Em um dos vídeos que nesses dias procurei para lembrar Jean-Noël chamou a atenção a figura de Bruce Mack, violinista e amigo, também professor de Escola Municipal de Música de São Paulo com quem eu tinha certa afinidade, talvez por ele ter nascido na Boston onde vivi. Bruce foi-se de repente, o coração tão aberto aos seus alunos e amigos não suportou um ataque traiçoeiro. Próximo a ele, em primeiro plano na cena, o spalla da Osesp, Aírton Pinto, exímio violinista, um bostoniano honorário que tocou por anos na famosa sinfônica, e cuja imensa capacidade não interferia nas amizades sinceras. Coincidentemente, foi em Boston, em 2009, que eu recebi a notícia da partida de Aírton, exatamente onde ele havia feito seu segundo lar, pelo telefonema de um amigo que recebi no hotel. A notícia veio no mesmo dia em que eu havia ouvido falar o nome dele ao menos cinco vezes, em visita ao New England Conservatory e à Boston Symphony. Bruce e Aírton, surgindo como lembranças do vídeo do Jean!


Há  seis meses, em 26 de março deste 2020, saía de cena Naomi Munakata, que foi regente do Coro Sinfônico da Osesp. Nascida em Hiroshima, admirada professora e maestrina, foi vitimada pelo mal do século, a Covid-19. Vez por outra levava seus apetrechos para cozer Sukiyaki em minha casa, e a certa altura meu já impaciente filho Lucas, então com três anos de idade que saía para uma volta deitado no banco de trás do fusca de Naomi, espécie de simpatia que o trazia de volta dormindo (talvez já prenúncio da paixão que viria a  desenvolver por automóveis, seu métier e profissão).


Em 31 de outubro de 2015, já havia ‘caído o pano’ para Martha Herr, brasileiríssima soprano norte-americana, uma de nossas vozes mais lindas: das melhores Bachianas nº 5 do Villa-Lobos e o melhor Exsultate Jubilate de Mozart, emocionava até com o singelo “Over the rainbow”, do filme “O mágico de Oz”. Em 2003, desempenhou à perfeição no Municipal de São Paulo o papel-título de Olga, ópera de Jorge Antunes e Gerson Valle – e como sua personagem, Martha resistiu o quanto pôde - não ao nazismo, mas a outro mal que lhe assaltara o corpo.


No dia 4 de agosto de 2007, já tinha nos deixado o violoncelista polonês Zygmunt Kubala. Ao abrir um recital em uma igreja em Ouro Branco, Minas Gerais, mal terminou a primeira frase e caiu, vítima de ataque fulminante. Companheiro de algumas turnês e festivais, ele dizia que esperava morrer fazendo o que melhor sabia: tocar seu instrumento. Desejo cumprido, assim foi-se, inspiradíssimo, embalado pela uma introspecção sem par e som inimitável.


No meio musical, temos sofrido diversas outras grandes perdas nesses anos, desde Eleazar de Carvalho, maestro maior de cuja vida musical e pessoal desfrutei em vários momentos. Mestre dos mestres, nascera na cearense Iguatu em 1912 e tinha fama de durão (mas coração de geleia, digo eu). Pouco tempo antes daquele 12 de setembro de 1996, no leito que o embalaria ao sono derradeiro, escreveu-me um cartãozinho com a caligrafia já mal ajambrada, mas ainda invejável, retorno carinhoso a um bilhete que eu tinha enviado desejando-lhe pronto restabelecimento - apesar de sabermos quase impossível.



Espero que Jean-Noël tenha sido o último grande músico amigo a nos deixar sem mais, ao menos até o final deste fatídico ano de 2020, que ficará na memória como com ferro o gado é marcado. Mal se vão 9 meses e 2020 já tem se mostrado implacável com as queimadas recordes no Pantanal (996% a mais desde 2018) e na Amazônia; as invasões de terras dos indígenas que aqui nos receberam há mais de meio milênio; a devastadora crise econômica e uma pandemia para cujo fim o povo, espelhando-se em algumas autoridades, não colabora como seria do seu dever. 

Empilham-se centenas de mortos por dia, enquanto é aguardada para já uma fada cientista com seu condão mágico cem por cento eficaz, que vacinará de pronto a totalidade do povo e nos devolverá o livre viver. Contudo, infelizmente, o ano não terminará fácil assim, e a vida seguirá para os que tiverem a fortuna de tê-la.

(The Guardian)