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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O MUNDO GIRA, O BRASIL ACORDA

O título acima é inspirado em um “achado” de criação, um reclame antigo: a terra gira, a transportadora roda! Esse slogan de uma companhia de mudanças tornou-se ditado popular, e perenizou-se. Curiosos também os versos (1918) de Bastos Tigre, do tempo dos bondes: “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem a seu lado. E, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite. Salvou-o o Rhum Creosotado!” (Aliás, onde anda a poesia nos anúncios de hoje?). Ao assunto, pois:

A humanidade anda rodando para trás, prova é a organização terrorista Estado Islâmico, que nada tem a ver com Islã ou Maomé.  E o fundamentalismo que arrasta o Brasil, com tantos morcegos pendurados nas tetas da república? Corruptos acham normal suas pegadas, digitais e batons em golpes vultosos; no mínimo, deveriam se penitenciar diante do país – e devolver a César o que é de César. Escudam-se no ditado “o que não me mata, me faz mais forte” (what doesn’t kill me makes me stronger).

No Japão, corrupção é crime bárbaro, chegam a cometer o haraquiri, suicídio com facão no ventre. Mas os “nossos” desafiam a justiça, arrotam bravatas, cospem arrogância e soberba, personagens de sua ópera bufa particular, uma ópera cômica italiana. Um dos marcos desse gênero, Così fan Tutte, “Assim Fazem Todas” (1790), de Mozart, bem poderia ser lido em masculino e feminino: “Assim Fazem Todos”.

Homens e mulheres encastelados no poder deixam mamar poderosos capitalistas a troco de gorjetas milionárias, como Robin Hoods às avessas: saqueiam a nação em benefício da “nobilíssima” causa própria de se tornarem cada vez mais poderosos e opulentos. Todos filhos bastardos da chamada “Lei de Gérson”, parida ao acaso em um anúncio de cigarros estrelado por um jogador de futebol, ‘diploma legal’ que não encontra amparo em qualquer código brasileiro – até mesmo porque se locupleta ao arrepio de alguns deles. Ingênuo, em uma época em que jogador de futebol ganhava pouco, o campeão mundial aceitou dizer na propaganda: “o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo”, e amargou ver, no futuro, seu nome atrelado ao pior mau-caratismo.


Se a “Operação Mãos Limpas” (Mani Pulite) italiana prendeu centenas de pessoas, não conseguiu fazer cair de vez o pano da ópera cômica no país em que o gênero musical surgiu. Lá a corrupção ainda continua, ao estilo da máfia de origem medieval, da Camorra napolitana (séc. 19), da Cosa Nostra  ou da calabresa, exportadas até para os EUA, mas houve redução sensível na bacanal dos poderosos. Eu tinha certa ilusão quanto à “Mãos Limpas” até que, com um amigo italiano, fui a um almoço na casa de uma insuspeita autoridade daquele país -  pessoa que, por óbvio, não identificarei.

Quem nos recebeu afirmou que no Brasil as coisas vão bem melhor do que em seu país. A segunda decepção foi culinária: no Brasil não se come pizza, mas uma papa de molho e queijo com coberturas enormes sobre massa comprimida e inflada. Mas pizza, esqueci-me de dizer-lhe então, aquela turma do andar de cima divide de todos os tipos e sabores.

Na Mauritânia norte-africana, o Império Romano chamava “moros” os de pele amorenada, e mais morenos ficaram após a conquista da região pelos muçulmanos (séc. 7). Já a frase de Cícero (103-46 a.C.) “O tempora, O mores”, cai como luva nos dias de hoje: “Oh, tempos, oh, costumes”. E moral (do latim moraālis), significa boa conduta, honestidade. O primeiro casal italiano de sobrenome Moro a chegar no Brasil (1877) foi Giovanni Maria e Gertrudes.


Descendente deles, Sergio Moro, 43 anos, formou-se em direito em 1995, e em 1996 já passava em concurso para juiz federal. No ano seguinte, fez um curso na Harvard, e depois uma especialização em lavagem de dinheiro no U. S. Department of State. É mestre e doutor. No caso Banestado, decretou temporariamente a prisão de 97 pessoas por evasão de divisas. Foi juiz auxiliar no julgamento do “Mensalão”. Na Operação Farol da Colina, prendeu temporariamente 103 pessoas. Auxiliado pelo Ministério Público e a Polícia Federal, é o maestro da Operação Lava Jato, o mais profundo de todos os golpes impostos à corrupção brasileira de altos coturnos.


Rodrigo Janot (Jornal GGN)
A estratégia de Moro foi precisa: além do cuidado de separar os que têm foro privilegiado para serem julgados pelo STF, colhendo antes provas robustas à custa de informações dos empresários ligados às falcatruas, obteve agora na Procuradoria Geral da República uma denúncia inédita, acatada pela Suprema Corte, contra um senador e ex-presidente da república, e o presidente da Câmara. E o responsável pelas denúncias acaba (28 de agosto), Janot teve seu nome carimbado em referendo pelo Senado para permanecer no cargo mais dois anos. Pensava-se que os os votos dos mais recentes membros indicados à Corte poderiam pender para um lado – dos 11, apenas 3 não foram indicados pelos dois últimos presidentes -, e “comeriam na mão de seus padrinhos”. Na quinta (26 de agosto), o STF nega, por unanimidade, a anulação das delações do doleiro Youssef, dando aval para prosseguimento do feito.

Não é o caso de se lembrar do 'cria cuervos y te sacarán los ojos'. O acesso ao mais alto status no judiciário brasileiro implica em campanhas e visitas, não muito diferente da disputa por uma vaga na Academia de Letras. Mas os fatos têm desmentido, em sua maioria, um “toma lá, dá cá” geral, como se a indicação fosse um favor a ser retribuído.

STF (dizerodireito.com.br)
Certa mudança na celeridade do STF eu pude constatar pessoalmente: um agravo de 1999, em ação de 1995, foi decidido a meu favor somente após sete longos anos de espera! Um segundo, já neste ano de 2015, levou apenas dois meses, tirado o recesso judiciário, e destaco uma frase-símbolo da decisão: “Este agravo somente serve à sobrecarga da máquina judiciária, ocupando espaço que deveria ser utilizado na apreciação de processos da competência do Tribunal”. Com 100 mil processos na fila, é natural que o STF se concentre nos temas que repercutirão no futuro deste país e que a justiça cada vez mais passe a dificultar por novos mecanismos o chamado jus esperneandi (ironia de quem é do ramo). A esperança é grande. Não haverá milagre, mas é possível, neste momento de amargura e crise, sentir algum otimismo com esses novos ventos. O Brasil acorda.

No morro do Corcovado, no Rio, o famoso "gigante adormecido" (mondovazio.com.br)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

AS PALAVRAS DE CLARICE LISPECTOR

“As Palavras” é o título de um livro sobre escritos de Clarice Lispector - pensamentos, bilhetes e mensagens compilados por Roberto Corrêa dos Santos. Há um subtítulo, a seguir, “nada têm a ver com sensações”, e ainda o que eu chamaria sub-subtítulo, “palavras são pedras duras e as sensações delicadíssimas, fugazes, extremas”, bela reflexão da escritora brasileira nascida na Ucrânia. No livro, frases e parágrafos foram agrupados por temas, perpassados por um fio condutor. É impossível não achar em Clarice alguns mestres da filosofia, cujos textos ela devorava com facilidade. São associações inevitáveis e visíveis, se não nas palavras (como bem as definiu a autora), certamente nas sensações!

Salta aos olhos, logo na primeira página, uma gema preciosa que poderia ser lapidada por uma eternidade – esta última, palavra que também era um dos temas caros para Clarice. “Existe por acaso um número que não é nada? Que é menos que zero? Que começa no que nunca começou porque sempre era? E era antes e de sempre?”.

A Torá
Convido o leitor a refletir comigo: impossível não lembrar João 1:1,2, concorda? “1. No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. 2. Ele estava no princípio com Deus”. E a Torá judaica de Clarice traz a mesmíssima ideia: Bereshit (Gênesis), 1.1: “No princípio, Deus criou os céus e a Terra”. Então, Deus já existia desde sempre, e era, como na leitura cristã, o Verbo. A esse 'ter sempre existido' Clarice chama Zero, “que nunca começou porque sempre era" (escrevi zero com Z maiúsculo, lapso que o leitor há de compreender). A equação de Clarice era Zero = Deus = Eternidade (“na eternidade não existe o tempo”, disse em outra observação). Esse Zero não era nem será, porque para Clarice “era antes e de sempre”. A origem judaica era arraigada em sua mente conflituosa!

Jean-Paul Sartre
“O Ser e o Nada” (1943), de Jean-Paul Sartre, discurso sobre o que transcende, vai além dos limites (influenciado pelo pensador alemão Heidegger, de “Ser e Tempo"), em convergências e divergências: Sartre pensava no existencialismo, o “ser para não deixar de ser”. (Dualidades à sua maneira Gilberto Gil cantou, com simplicidade e singeleza baianas: “É sempre bom lembrar / que um copo vazio / está cheio de ar”). Vamos seguir, leitor?

Meu caro, tudo isso pode parecer complicado, mas não é tanto. As palavras talvez soem um pouco difíceis porque, lembra Clarice, são “pedras duras”, mas é possível senti-las – mesmo que as sensações sejam fugazes: fugitivas, passageiras, enquanto as palavras permanecem (em latim, verba volant scripta manent, palavras ‘faladas’ voam, as escritas permanecem”).

É preciso conhecer o drama da perseguição aos judeus, a fuga com a família, a vida nômade, a imersão profunda na filosofia, que faz Clarice, como indivíduo, dissolver-se no universal. Aquele “Zero” não é um simples nada, a negação, apesar de Clarice também ter se embebido nesse tipo de leitura, da “existência que nada vale”. O judaísmo umbilical, penso, talvez lhe tenha servido de âncora (em meio à leitura de temas como o pessimismo de Schopenhauer e o niilismo de Nietzsche (nihil: nada, em latim).

Veja você que me detive sobre apenas um breve parágrafo, mas zarpamos para longe por tantas rotas na busca de compreendê-lo, quando teria bastado senti-lo. Em ainda outra frase, Clarice se mostra longe de ser uma derrotada: “do zero ao infinito vou caminhando sem parar”. Ela não se anula, transita livre e solta entre o ser e o nada, que não lhe impõem limites.

O mal do mundo moderno é que o advento da informática e o "moderno" ensino escolar criam seres binários, sabem zero ou um, esse ou aquele. Quando perguntamos a alguém as horas, respondem-nos, olhando o relógio: “são dezessete e cinquenta e sete, senhor”. Que precisão espetacular! Há não muito tempo, diriam “são quase seis da tarde, senhor”, sem as amarras dessa suspeita precisão (que provavelmente está desajustada!). Sou esquerda ou direita? Mas quem é uma coisa e quem é outra? Ora, se sou uma quem não é como eu é outra. Usam-se palavras, sem saber o que significam, mas fica “bonito na fita”.

Outra variante desse conceito simplificador são as provas de múltipla escolha, que mostram mais uma vez o vício binário: se uma resposta está certa, as demais estão erradas. Basta saber ou adivinhar a correta. Ou eliminar as erradas.

(cadeorevisor.wordpress.com)
Agora preciso encerrar, e o faço abrindo espaço para agradecer o livro, gentil presente do amigo e maestro Dario Sotelo. E se o leitor chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Porém, se lhe trouxe mais dúvidas do que certezas, sinceramente acho ótimo, mas não fui eu, agradeça à Clarice. Se lhe deu trabalho ler ou ter que reler este texto, também o tive ao escreve-lo, e revisa-lo várias outras.

(nemsantanemprofana.wordpress,com)
O importante é que uma leitura não seja somente um ocasional passatempo ou meros títulos de jornais, assuntos para bate-papos no fim de semana. Veja que para este artigo usei apenas um breve parágrafo e duas curtas frases de Clarice, mas ainda assim conseguiria prosseguir sem parar!


Drummond e a "Pedra no meio do caminho"
Ler é um aprendizado constante, um convite à reflexão! E se ao escrever este artigo tive de pensar em significados, raízes, origens, e pesquisar, foi para que minhas palavras não parecessem pedras tão mortas quanto as que Clarice descreveu. Buscar o conhecimento, por si, não traz às pessoas a felicidade. Mas, com certeza, lhes dá os meios de se prepararem
com Aquele que nos conforta (Filipenses, 4:13), quando topamos com as tais pedras no meio do caminho. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

HIROSHIMA, MEU AMOR

Poster original
Hiroshima mon amour é um filme de 1959 dirigido pelo cineasta francês Alain Resnais, com roteiro da escritora franco-vietnamita Marguerite Duras. Em japonês, o subtítulo complementa o sentido da obra-prima: “Um affair de 24 horas”. Foi o grande marco da Nouvelle Vague francesa, movimento que inspirou o Cinema Novo brasileiro de Glauber Rocha, Cacá Diegues e Joaquim Pedro.

A trama aborda uma neurótica relação de um dia e meio entre “Ela”, uma atriz francesa (interpretada por Emmanuelle Riva), e “Ele”, arquiteto japonês (Eiji Okada). São intensas e neuróticas conversas, diálogos plenos de cortes para inserções de cenas tenebrosas que levam o público a alterar a respiração. Resnais haveria de repetir essa técnica cinematográfica de inserir fatos passados a momentos presentes ao menos mais uma vez, em “O ano passado em Marienbad” (1961). Essas alternâncias entre um estranho caso de amor imaginário e trechos reais de documentários sobre os efeitos da bomba lançada sobre Hiroshima chegam a provocar náusea, como na cena em que uma mulher, em frente ao espelho, passa a mão nos cabelos, e esses lhe caem aos tufos, efeito decorrente da pós-hecatombe nuclear.

Os diálogos entre Ela e Ele costuram as cenas românticas com tensão. Ele, cuja família sucumbira no dia fatídico, dizia que Ela ignorava tudo, não sabia nada, enquanto Ela murmurava, separando as sílabas: “Hi-ro-shi-ma”. No passado, por ter tido um caso com um soldado alemão na França, Ela havia sido execrada e humilhada, e teve a cabeça raspada como punição, fato que se associa com facilidade à cena real da vítima com os cabelos em queda.

Alain Resnais
Contratado para fazer um breve documentário, Resnais, enfant térrible, exigiu, sem esperar êxito, que o roteiro fosse escrito por Duras e as cenas fossem gravadas na França e no Japão. A produção franco-nipônica aceitou as exigências do cineasta, e o deixou livre para criar com a roteirista. O cinema começaria, a partir daí, a trilhar novos rumos. O ícone Jean-Luc Goddard disse que o filme parecia um diálogo entre Faulkner (escritor) e Stravinsky (compositor). O alemão Eric Rohmer vaticinou que “em coisa de trinta anos saberemos que ‘Hiroshima’ foi o filme mais importante feito após a II Guerra”. O respeitado François Truffaut disse que, depois de “Hiroshima”, era impossível fazer cinema como antes. (Existe uma versão completa na Internet, com tradução em espanhol. Abaixo, o trailer do filme).


Mrs. Enola Gay Tibbets
Enola Gay era mãe do piloto Cel. Paul Tibbets, que aprovou a “superfortaleza voadora” na fábrica da Boeing, e, com o nome materno, batizou o B-29. Tibbets sabia que a ordem de despejar se referia a alguma bomba especial, mas ao ver os primeiros efeitos, descobriu seu potencial. Para quem viu, como eu, o Enola em exposição, pode ter vivido a mesma sensação de quando subi, em 2006, ao segundo andar do prédio vizinho às Torres Gêmeas de NY, único lugar então permitido para observar a “terra arrasada”: silêncio e medo absurdos, um vazio dilacerador no coração.
A "Superfortaleza Voadora"

Cel. Tibbets, pronto para a missão sobre Hiroshima
A aeronave era um monstro quadrimotor de 30m de comprimento e 44m de wingspan (amplitude das asas, de uma ponta à outra). Foi essa máquina enorme e lerda (alcançava meros 355 Km/h), que transportou a Little Boy – “Garotinho”, nome eufemístico para a mais poderosa arma de destruição em massa jamais feita pelo homem. (Abaixo, uma impressionante reconstituição cinematográfica do lançamento da bomba).
video


Einstein e Oppenheimer
O Manhattan Project (no início, o QG da intelligentsia ficava na ilha novaiorquina, na Broadway St), foi um plano norte-americano apoiado pelo Reino Unido e Canadá. Einstein foi grande entusiasta dos experimentos com a reação nuclear em cadeia, e enviou uma carta que chegou às mãos do presidente americano Roosevelt mostrando o potencial de letalidade do urânio 235 em armas nucleares. Depois, declarou: “Eu sempre condenei o uso da bomba contra o Japão” (EINSTEIN, Albert. “Einstein on Peace”. NY: Nathan & Norden ed., 1960). Depoimento cuja veracidade é muito questionada, aliás.


Gladys Owens (à direita), operadora do Calutron
O secretíssimo trabalho diuturno de cientistas comandados pelo físico J. R. Oppenheimer chegou a empregar 130 mil pessoas, todas sem a menor noção de onde a pesquisa deveria chegar. (Na imagem acima, à direita, Gladys Owens, operadora do Calutron, passou mal ao descobrir sua foto em exposição sobre a bomba, 50 anos após o ataque! Não tinha ideia do objetivo daquele projeto, só sabia de suas atribuições como funcionária) 

"Little Boy" aguardando carregamento
A Little Boy parecia uma bomba comum: 4,4 T e apenas três metros de comprimento. A explosão emitiu raios-x pelo contato com o ar aquecido a até 6.000o C (temperatura comparável à da superfície do sol), em velocidade maior do que a do som, uma “bola de fogo”, cuja luz poderia cegar (essa temperatura de 6.000º C referia-se à superfície, pois no centro estima-se ter chegado a 1 milhão de graus Celsius). Vinte minutos depois, a tempestade incandescente. No total, podem ter sido 166 mil as vítimas do ataque, incluindo as seis mil que haviam escapado, mas morreram depois por graves sequelas. Em 7 de maio, os nazistas já haviam se rendido aos aliados; no dia 9 de agosto, Nagasaki foi bombardeada por outro artefato nuclear; dia 15, pouco após os massacres de Hiroshima e Nagasaki, e ante a declaração de guerra pela União Soviética, o Japão, acossado, se entrega. Essa rápida sequência encerrou a II Guerra, o maior conflito mundial da história. A bomba foi necessária? Do Eixo, contra os aliados, só havia sobrado o Japão! (Alguém duvida que as pesquisas com outros tipos de artefatos mais poderosos - a bomba de nêutrons é apenas um deles - ainda continuam?)

Vinicius de Moraes, que conseguia extrair beleza até do sofrimento e da infelicidade, nos deixou uma pérola de poema, “Rosa de Hiroshima”: “Pensem nas crianças / mudas telepáticas / pensem nas meninas / cegas inexatas / pensem nas mulheres / rotas alteradas / pensem nas feridas/ como rosas cálidas / mas, oh, não se esqueçam / da rosa da rosa / da rosa de Hiroshima / a rosa hereditária / a rosa radioativa / estúpida e inválida / a rosa com cirrose / a anti-rosa atômica / sem cor sem perfume / sem rosa, sem nada”. Essa Rosa é uma nefasta senhora que acaba de completar 70 anos, e se dói lembra-la, nunca se poderá esquecê-la. É uma tatuagem invisível e indelével que todos, homens e mulheres, carregamos e nossos filhos e netos carregarão, alarme para que um dia a humanidade não termine, ela mesma, por abrir as portas do Juízo Final.


sexta-feira, 7 de agosto de 2015

BEATLES E DIAMANTES, COMO OS DE LUCY, SÃO PARA SEMPRE


Leonard Bernstein
Em meu carro ouço sinfonias de Beethoven com Karajan, de Brahms, com Zubin Mehta, Poemas Sinfônicos de Richard Strauss, suítes de Bach com Casals e muita música popular, muito Beatles. Disse o maestro Leonard Bernstein (1918-1990) que o conjunto inglês foi a melhor coisa que aconteceu na música popular vocal no século 20! Romântica, apaixonada e singela do início, aos poucos aperfeiçoada em forma e conteúdo, deu um salto em 1966, com o LP Help!, três anos após a estreia em disco, Please, Please me (1963).

A lapidação formal e a maturidade de música e letra foram graduais, mas a revolução veio apenas depois, inovando com genialidade: o álbum Sgt. Peppers (1967) marca o início da experiência do conjunto com drogas, depois atenuada em Let It Be (1970), menos arrojada mas de perfil mais maduro. Comento a seguir, em breve retrospectiva, os álbuns que foram mais marcantes para mim.

Please, Please me (1963) foi o primeiro LP, estreia do grupo, e falava de amor com simplicidade bastante juvenil: love era palavra recorrente, mas há uma feliz sutileza em benefício da dubiedade poética já nessa faixa-título: Please é por favor, mas to please é satisfazer, portanto o título pode ser traduzido como “por favor, me satisfaça, ou me dê prazer”. As entrelinhas das letras são sempre ricas, e há citações e alusões que passam despercebidas de quem não conhece bem o idioma e a linguagem popular. Nesse álbum, a faixa Do you want to know a secret, de George Harrison, é uma cândida declaração de amor: “Ouça, você quer saber um segredo? / você promete não contar? / (...) Mais perto, deixe-me sussurrar em seu ouvido / dizer as palavras que você quer ouvir / estou apaixonado por você...”.

O LP A Hard Day’s Night (1965), com todas as faixas por Lennon e McCartney, também fala de amor, mas já surgem aqui e ali decepções pessoais e dúvidas, como em I Should Have Known Better (“Eu Deveria ter Percebido Melhor”), fora o amplo significado de um desabafo na faixa-título: “tem sido uma noite de um dia difícil” (N. do A.: “tem sido” indica que essa noite era uma constante nos últimos tempos). No álbum seguinte, do mesmo ano, o grupo faz novas e arrojadas incursões.

Help! (1965) traz na capa o quarteto em pose inusitada (cada um aparece com os braços em diferentes posições). A figura nada mais seria do que um de código de semáforo, antiga linguagem de bandeiras que os marinheiros usavam para enviar mensagens de seus navios. 
Robert Freeman, o fotógrafo, com imagem de Lennon ao fundo

No caso, a intenção inicial seria simbolizar as iniciais “H, E, L, P”. Mas não. Robert Freeman, o fotógrafo da capa, não gostou do arranjo dos braços com essas iniciais e as mudou aleatoriamente. No final, a posição acima, dando lugar à estética, resultou em N. U. J. V. - ou seja, nada a ver. (Houve quem fizesse alusão a algum outro código de semáforos - pura especulação - em que os sinais resultariam em um palavrão de quatro letras. Era comum fãs inventarem de tudo sobre capas e faixas, para alegria dos fab four (fabulosos quatro).


The Night Before (“A Noite de Ontem”) invoca momentos de amor em uma noite passada: “trate-me como você fez na noite de ontem”. A faixa-título é pura solidão: “Help! Preciso do amor de alguém / Help, você sabe que eu preciso de alguém...” Em You’re gonna Lose that Girl já surgem ciúme e cobiça: “Você vai perder essa garota / (...) Se você não sair com ela esta noite / ela vai mudar de ideia”.

A obra-prima musical e poética, talvez a mais sublime do grupo, Yesterday (McCartney), na perfeita forma AABA - sendo “A” para as duas estrofes que se iniciam por YesterdaySuddenly e a quarta e última por Yesterday. “B” é a terceira e penúltima: Why she... A obra-prima se encerra com dor de cotovelo: “Por que ela tinha de ir / eu não sei, ela não queria dizer...” (O despeito de Lennon por Paul ter escrito  Yesterday era tão grande que ele usou sua música How did You Sleep como desabafo no álbum solo Imagine (1971). Diz a letra de Lennon: “a única coisa que você fez foi Yesterday”, entre outras diretas e indiretas. Sobre isso, declarou depois: “usei meu ressentimento e a separação de Paul e dos Beatles com essa música. Eu não ando por aí com esses pensamentos na cabeça o tempo todo”).


Fez algumas declarações tanto quanto impiedosas na época sobre o boato da morte de Paul, coisas do gênero “se criaram esse hoax é porque você já estava morto mesmo”. Apesar disso, Imagine foi um marco absoluto na música solo de Lennon.

Timothy Leary, o professor-guru de Harvard
Em 1967, a revolução: Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (“O Clube da Banda dos Corações Solitários do Sargento Pepper”). Se os dois álbuns anteriores foram gravados no mesmo ano, 1965, o grande salto foi dado apenas longos dois anos após, colorido por experiências com LSD - iniciais de League of Spiritual Discovery (“Liga da Descoberta Espiritual”), criada por Timothy Leary (1920-1996), psicólogo do projeto Harvard Psilocybin até a droga ser declarada ilegal e professor e assistente serem demitidos da universidade.

O cartaz do Circo Real de Franque:
inspiração
Uma das faixas de Sgt. Pepper’s, Lucy in the Sky with Diamonds (“Lucy no Céu com Diamantes”) leva as iniciais LSD. Mas a alucinação vem bastante explícita: “Pinte-se a si mesmo em um barco, num rio / com árvores de tangerina e céus de marmelada / alguém te chama, você responde bem devagar / a garota com olhos de caleidoscópio”. Em With a Little Help from my Friends, de Ringo Starr, também há clara alusão a drogas: “Eu fico ‘chapado’ com uma pequena ajuda dos amigos”. Correndo por fora, Lennon, o mais culto dos quatro, assina a faixa Being for the Benefit of Mr. Kite (“Para o Benefício de Mr. Kite”), uma citação de um cartaz de 1843 do Circo Real de Pablo Franque.

Abbey Road (1969), hoje nome de rua histórica e turística em Londres por causa do sucesso que o álbum homônimo causou, é um LP cuja capa mostra o quarteto atravessando-lhe a faixa de pedestres. Entre as músicas, Something (alguma coisa), de Harrison, e Come together (“Venha Junto”), de Lennon, título de duplo sentido: o verbo to come tanto quer dizer “vir” quanto, no popular, “gozar” (ter orgasmo), a exemplo do famoso relax and come. E fica mais evidente com o verso na íntegra: come together “agora mesmo / sobre mim”.

O George Harrison místico
E Here comes the Sun (“Aqui vem o Sol”), de Harrison, é um lindo tributo ao astro-rei, à alegria, os sorrisos voltando às faces, glorificando o gelo do inverno a se derreter lentamente. Tudo típico da visão de Harrison, desde logo fascinado por filosofias hinduístas, que depois misturou com leituras cristãs, como em My Sweet Lord (no mesmo ano de 1970), não por acaso em um álbum cujo título que faz alusão a um dos últimos corais sobre versos de Lutero: “Tudo Deverá Passar”. “Eu realmente Vos quero ver, Senhor (...) / mas demora tanto, meu Senhor, meu doce Senhor” (entra o backing vocal de três garotas: Halleluja (“Aleluia”), alternando com Hare HareHare Krishna, Hare Hama e Krishna Krishna. Abaixo, Tributo em memória de George Harrison, com amigos – Billy Preston, Eric Clapton, Ringo Starr, o filho de George e cantores).

O álbum final, Let it Be (1970), também nome de uma música de McCartney, faz referência velada à maconha -, depois que a fase alucinógena do grupo já havia arrefecido: “quando eu me encontro com problemas / “Mother Mary” vem a mim / sussurrando palavras de sabedoria / deixa assim...” (Mother Mary é um dos nomes da marijuana, no espanhol mexicano). Outra incursão no tema cannabis sativa está na faixa Jojo, da dupla: "Jojo saiu de casa em Tucson, Arizona, por alguma erva (grass) da Califórnia". 

Os Beatles foram a grande revolução cultural e de costumes do século 20, e ninguém além deles mudou mais a juventude de gerações. Tornaram-se clássicos para sempre, como diamantes.


[Todas as traduções são do autor, e absolutamente livres - aliás, como convém à poesia]