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segunda-feira, 1 de outubro de 2018

RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM

Em minha primeira infância não tinha havido ainda o golpe de 64. Veio com meus 11 anos. Na verdade, fora experiências do grêmio escolar, eu só vim a nascer aos 15 anos, como na música “aos 15 anos eu nasci em Gotham City”, do Jards Macalé. Naquele mesmo ano, morria assassinado no restaurante Calabouço o estudante Édson Luís, de 19. Disse à minha mãe que eu iria ao cortejo, e ela até resolveu ir junto. Passando na rua que leva ao cemitério São João Batista, a multidão impressionava. Veio do centro, com o refrão “mataram uma criança, poderia ser seu filho”.
Artistas como Odete Lara, Eva Wilma, Norma Bengell e Ruth Escobar nos 100 mil
No colégio, vi os padres paramentados indo à passeata dos 100 mil, juntando-se a atores, intelectuais, estudantes, religiosos, todos os que se sentiam amordaçados pela censura e pelas graves violações, como prisões sem sentido, torturas e desaparecimentos. Havia muito medo. Meu pai, por ter trabalhado como porta-voz de JK, mais ainda, porque os intelectuais do gabinete estavam sendo presos. E vieram prisões de amigos e conhecidos como Hélio Pellegrino, Ênio Silveira (preso oito vezes) a turma do Pasquim e muitos outros. No colégio, resolvemos fazer um festival de MPB, e até lá enfiaram a censura prévia. Não me cortaram a música, mas uma frase singela: “um grito vivo de verdade”. Por quê? Meu pai, receoso de chegar a sua vez, eliminou livros de casa e pediu que eu sumisse também com minhas leituras teóricas dos filósofos.
A 'Joaninha' e os policiais
Entrando na faculdade, juntei-me ao pessoal mais inteligente, do diretório, e logo vi serem presos Alexandre, que voltou com o peito queimado de cigarros, minha amiga Mônica Tolipan e Luísa. Por quê? Eu e meus irmãos, com meu tio, chegamos a ser parados e espremidos no muro com fuzis, como fôssemos bandidos. Mudei de faculdade, fui para a excelente FEFIERJ, embora sob a intervenção do gen. Jayme Ribeiro da Graça.
À frente do prédio, sempre um fusquinha com um giroflex, as temíveis ‘Joaninhas’, paranoia do povo, com suas revistas nos cabelos e nos livros. Foi recolhida até a Nova História da Música do Carpeaux, de capa vermelha. E valia a instrução policial: dois, ok, prestar atenção, três, podia ser plano, abordar! Nessa altura, meu pai teve a visita de um agente do SNI, que viera em seu encalço. Lá embaixo, deram uma volta e ele ouviu que, quando no Palácio, arrumara um emprego no IAPETEC para a filha do agente. O sujeito disse que iria contornar e que subisse, pois minha mãe devia estar nervosíssima.
Meu pai convidou-me para um chopp a dois. Desvendou quem era meu ídolo de então, Che Guevara, a quem ele havia aturado durante horas fazendo sala para JK. Mais informações, a de que os chefões da guerrilha estavam loucos para cooptar jovens quadros para servirem de bucha de canhão, a exemplo do Gabeira, mais velho do que eu. Aí encerrei minha “carreira”. Foi uma ducha de água fria. Naquela conversa, olhos nos olhos, decidi me afastar da leitura política e me dedicar à minha arte, a música. Estudava muito, tive a sorte de ter grandes professores, como Ladislav Bálek, solista da Sinfônica de Praga. Consegui uma aprovação nos Estados Unidos, e lá fui eu em 1977 para Boston, onde estudei com o grande Edwin Barker e com o compositor McKinley. Casado, já estava me acomodando nos EUA. Fui convidado para ajudar a reorganizar uma antiga grande orquestra no Brasil. “Um belíssimo salário”, disse minha mãe. Recebi, como sempre, uma revista enrolada depois de lida, para eu ficar a par do que se passava no país. Na capa, à frente de uma multidão, como o pôster do filme “Sacco e Vanzetti”, Lula comandava os manifestantes. Eu, ainda com as costas lenhadas pela vida no Brasil, disse para mim mesmo: ‘esses caras estão loucos, morrerão todos!’. Mas eram os novos tempos surgindo.
Em 1982, vim de mala e cuia para o novo emprego. Chegando, nove baús no Cais do Porto, soube que o projeto inteiro ruíra. Como eu estava preparado, não me preocupei muito. Inicialmente, fui para Campinas, onde fiquei 2 anos. Depois, Osesp. Vi o começo do fim da ditadura, com a eleição de Tancredo e a inevitável posse de Sarney. Farsa, mas logo chegaríamos ao voto direto. Essa epopeia durou mais de 20 anos, e não meses como disse Castelo Branco, disfarçando ou não. Sucederam-se, desde 1964, os Atos Institucionais. Oito dias depois do golpe,  o AI-1 simplesmente delegou ao ‘comando’ o poder de alterar a Constituição, entre outros. Foram cortando os poderes, até que aquele fatídico AI-5 acabou com o país.  Não havia mais nada.
Figueiredo e seu bom amigo Abi-Ackel, contrabandista de joias
Os militares – e não as fardas, que prezo muito – enriqueceram, a exemplo do próprio Castelo, cel. Andreazza, autor da ponte Rio-Niterói e da Transamazônica, superfaturando aos montes todas as compras (não havia a lei de licitação de hoje, 8.666 - aliás, como disse o Getúlio, 'a lei, ora, a lei'). Abi-Ackel, homem forte de Figueiredo, tinha um comércio de esmeraldas em Miami. Um preposto, que levava mais uma remessa de joias parta o escritório de Ackel em Miami, foi preso na alfândega americana com o equivalente a 20 milhões de dólares em gemas na época. 

O eng° José Jobim, que trabalhou na Itaipu, revelou que contaria tudo sobre os US 30 bi, superfaturadíssimos, da obra. Eram tempos de Figueiredo, e hoje se sabe que na verdade, como vários outros, Jobim foi 'suicidado' pendurado em  uma árvore, fato recentemente confirmado. À dona de uma farmácia disse que estava sendo sequestrado, em um bilhete no balcão.
Eliezer Batista, “dono” das mineradoras, embora malvisto desde o Jango, teve Castelo que lhe afagou com a Cemig. Eliezer deixou para seu filho Eike uma das maiores fortunas do mundo. Ao gen. Golbery coube a fenomenal Dow Chemical. A corrupção grassava por todos os cantos, mas com Imprensa, Judiciário e Legislativo manietados - quando existiam -, era benevolente com os piores alcaguetes transformados em agentes, achacando, extorquindo, como aconteceu comigo em um acidente de automóvel que teve o azar de ser protagonizado pela filha de 19 anos de um “extra” do SNI. Meu pai, sob ameaça de extorsão, buscou nos cartórios do Fórum, onde trabalhava, o nome do agente. 20 ações de roubo dormindo em uma gaveta. Esse foi o contragolpe. A questão se encerraria em juízo.

[Usei para título o livro do James Joyce, como faço frequentemente até para abrir a mente dos leitores]