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sexta-feira, 26 de junho de 2015

A RESPONSABILIDADE CRIMINAL

Jornalvozdearaxa.com,br
O tema é tão controverso e complexo que não me arriscaria a expor uma posição pessoal. Há que se passar por todas as estatísticas e conhecer a população mais pobre, como vivem os menores de 18 nos rincões mais carentes. Muitos até descalços, doze anos ou menos, portando armas, traficando e praticando toda sorte de delitos. A maioria deles sem estudar, sem saneamento e vivendo em desagregação familiar. Cursam a pior de todas as escolas: a das ruas. A matéria também passa pela psicologia e pela antropologia; opiniões devem ser pesadas com bom-senso e conhecimento da prática em outros países.

Enquete recente do jornal O Progresso de Tatuí, que apontou 90% a favor e 10% contra a maioridade aos 16 anos, mostra resultado igual ao de pesquisa em larga escala nacional, uma semana depois, pela Folha de São Paulo: “Nove em cada dez apoiam maioridade penal aos 16”, diz o título da matéria (22 de junho, pág. B7). Há uma elite - no sentido vernacular, “melhor qualidade em um grupo social” (Houaiss), e não o coloquial riqueza  - bem esclarecida que é contra a redução por razões que vão desde a falta de condições carcerárias para abrigar os menores, que cedo ingressariam (embora provavelmente já vivessem) na “escola do crime”. E há um arremedo de elite que não conhece nada, apenas brada o ‘charme discreto’ de ser contra, e mal conhece o assunto para discuti-lo. Há que se distinguir uns e outros. A grande massa que parece se guiar pela vivência pessoal e cotidiana é mais favorável à redução, enquanto existe ainda outra elite bem informada que opina também pela redução. (Sem partidarismos, por favor).

Prisão de adolescente nos EUA
Sempre detestei as doutrinas sociais mais reacionárias apoiadas no distanciamento científico (na minha época de escola, “ruptura epistemológica”), mas é preciso estar de cabeça fria para refletir sobre o que defensores e detratores da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) pensam. Nem entro no mérito. Nos EUA, onde morei, vi menores sendo algemados e presos, depois de ouvirem a ladainha da 5ª emenda da Constituição - aquele “você tem direito de permanecer calado, tudo o que você disser...”. Pena que alguns últimos acontecimentos de fundo racista macularam essa imagem da conduta do policial americano, à sombra de um preconceito que é rescaldo da Guerra da Secessão, quando escravagistas queriam se separar do resto do país. 
A polícia branca falhou. E matou covardemente um jovem negro. Mas não vamos fugir do assunto. 

Um "corredor"
Meu filho mais velho tem nacionalidade americana
e mora em Seattle. Disse-me que há ao menos duas crianças, de 12 e 13, no corredor da morte, o temido death row, condenação que somente por indulto pode ser comutada. Para nós, é um exagero brutal, mas há ainda o agravante de uma questão igualmente grande que é peculiar à legislação de certos estados americanos: a pena de morte. Dados de países europeus levantados pela CRIN (Child’s Right International Network, ou Rede Internacional dos Direitos das Crianças) apontam a idade em que o menor pode ser processado criminalmente e preso em cada país:

Ao leitor devo esclarecer, mais uma vez, que não deixo juízo de valor de minha parte, dentro de meu proposto “distanciamento” dada a complexidade do assunto. Expus acima apenas um levantamento feito por uma organização internacional de defesa dos direitos das crianças. Mais uma vez, não me considero apto - e duvido quem conheça todos os dados suficientes para fazer essa contraposição - a discutir se nos países citados a criminalidade, especialmente a infantil, diminuiu, nem quais as condições especiais reservadas para eles em caso de prisão em todos esses países, discussão que envolveria um profundo estudo multidisciplinar de dimensões gigantescas. Trato aqui tão somente de colocar dois conjuntos de números que tenho às mãos sobre a mesa. No Brasil, há gente muito bem informada e fundamentada que se opõe à PEC que tramita no Congresso. Juntam-se os que têm um conhecimento superficial e pueril sobre o assunto, mas que são contra erguendo bandeira política fazendo eco ao seu grupo social. E, claro, partidariza-se e aborda-se religiosamente uma questão que é pública, de todos, e que, nos dois casos - partidos e igrejas - deveriam ser discutidos em seus grupos, intramuros, restando ao público suas conclusões pessoais. 

Outra possibilidade de decidir sobre a questão foi aventada, mas logo descartada: um plebiscito. De acordo a tendência demonstrada em diversas pesquisas e enquetes, uma suposta votação possivelmente resultaria em um tsunami a favor da redução. Mas sufrágio é sufrágio. Seria a decisão e ponto. Haveria ainda uma questão controversa: menores a partir dos 16 anos já são eleitores e podem votar, claro, in rem propriam, para usar o jargão forense. O mesmo povo que elege presidentes da república e governadores votaria com a sua consciência neste caso. Por fim, perdoem-me pela insistência em abster-me de opinar sobre o assunto, mas parece-me bem delineada a tendência popular.

Segundo a PEC, caberá apenas ao Congresso decidir e, como se trata de uma EC (Emenda Constitucional), não haverá poder de veto da presidente. Os opositores da redução, se vingar, deverão apenas resignar-se, assim como tiveram de se conformar os que não ficaram satisfeitos com os resultados do último pleito para cargos majoritários ou com alguma lei ou emenda de que discordem. Se não vencer, caberá aos apologistas da medida também aceitá-la dentro das regras do jogo. Porque ou se respeita a Constituição e a democracia ou tudo não valerá mais nada, seja o resultado qual for.



sexta-feira, 19 de junho de 2015

QUANDO ENSINAR ESTRAGA O ARTISTA

Há um velho dilema que persegue os professores de arte, e uma pergunta que nunca terá uma resposta. Penso no artesão, no pintor primitivista e no músico popular de raiz. Arremato o final deste texto com uma sábia resposta para o “ensinar” o que não deve ser aprendido.

Henrique Boliani: óleo sobre madeira
Vejamos a pintura primitivista, a que dedico especial apreço. Tenho algumas peças, e entre elas três versando sobre o tema violoncelo, feitas a meu pedido, por dois artistas com um laço em comum: ambos eram porteiros. Um, da Escola Municipal de Música de São Paulo, Henrique Boliani (autor da capa de meu livro “O Arco”), e AD Jonas, porteiro da ECA/USP. O primeiro, intuitivamente, enamorou-se do cubismo e afins (ver ilustração acima), enquanto o segundo mostra qualquer coisa de pop e expressionista (ilustração abaixo).
AD Jonas: óleo sobre madeira
Francisco de Souza: acrílico sobre madeira
Uma quarta obra é de um jardineiro de Petrópolis, Francisco de Souza. 




Absolutamente surreal, imaginária, em que as proporções entre pessoas – músicos com clarineta, flauta e violão (simbolizando um contrabaixo - provavelmente o meu!) – e a poderosa magia da flora de seus jardins são totalmente distorcidas pela imaginação.

Tarsila do Amaral: Abaporu
Nenhum estudou. O Boliani eu já havia visto folheando um fascículo desses de banca de jornal, mas os outros dois, Francisco de Souza e AD Jonas, são mais ecléticos. O jardineiro tem seu jeito surrealista e modernista, mas certamente nunca viu um Salvador Dali ou as lindas “desproporções” do Abaporu da Tarsila do Amaral. O que, então, ensinar a esses nossos artistas? Técnicas de desenho, geometria, anatomia? Teríamos aí alguns grandes talentos condenados à vala comum dos artistas infelizes e frustrados. Esse é ponto central da questão, a interferência “erudita” no que já é perfeito por si, o fim da pura ingenuidade (naïveté, como se diz em francês) que é mãe da arte que brota das mãos como a semente que germina: naturalmente, sem artificialismos, curtida pela natureza.

O pequeno virtuose Yehudi Menuhin
A provocação que me trouxe o assunto foi a música. Vi filmes de adolescentes musicistas simplesmente geniais, virtuoses. Quando se trata de prodígios executando Mozart e Paganini, só há um caminho: o estudo bem orientado, a formação completa, a busca por um grande mestre de renome que lhe passe o caminho das pedras rumo aos degraus da perfeição (gradus ad parnassum). O artista prodígio, mas depois de explodir muito jovem, tem de compreender que o caminho rumo ao seu destino será longo, e deverá ser trilhado sem atalhos, independentemente da exuberância técnica que demonstrava quando criança. Esse o caso de Yehudi Menuhin, gênio violinista, que já chamava atenção aos cinco anos de idade. Aos 12 anos, já tocava os pirotécnicos Caprichos de Paganini, não muito diferente de Arthur Rubinstein, um dos maiores pianistas da história, iniciado já aos três anos de idade.

A jovem Anne-Sophie Mutter, em seu début com Karajan em Berlim
Exemplos mais modernos foram a jovem musa de Von Karajan, a violinista Anne-Sophie Mutter, levada pelo maestro a solar com a Filarmônica de Berlim aos treze anos de idade, e mais recente ainda o fenômeno Lang-Lang, que aos dois anos se apaixonou pelo piano e aos três começou seus estudos; com cinco, apenas, venceu o Shenyang Piano Competition, concurso nacional da China. Terminou na afamada Curtis Institute, da Philadelphia, e, com o tempo, o amadurecimento fez seu fogo de virtuose infantil conhecer uma interpretação mais estudada, mais cautelosa, sem perder a exuberância natural. (Veja e ouça abaixo Lang Lang, tocando a Rapsódia Húngara nº 2, de Liszt)

Agora, sem traçar uma linha divisória entre o primitivismo e o estudado, o que acontece quando uma criança é um prodígio em viola caipira, sanfona, rabeca? Mostra-se exímia desde cedo nessa arte, tão pura, parte do verdadeiro folclore, de nossas raízes, arrimo sem o qual nossa arte, mesmo a mais moderna, passa a perder o sentido? Ensinar-lhe técnica de violão, dedilhados, postura “correta”, leitura, métodos, solfejo, harmonia? Se for por opção dela seguir uma carreira diversa, que lhe fique ao livre arbítrio, e somente dela, será uma escolha pessoal. (Veja e ouça abaixo uma menina virtuose na viola de cocho, não identificada, registrada pela rádio mexicana La Campesina).

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Léo Canhoto e Robertinho, após "banho de loja" de "maestro" e mídia
A interferência externa pode ser daninha. Há muitos anos, um certo compositor brasileiro de formação clássica, ‘maestro’ como tantos por aí e enfronhado na MPB com ares de irreverência erudita, inseminou na música sertaneja pura dos que foram trabalhar nas construções de São Paulo outras influências – que logo passaram a ser o principal, deixando a raiz original, por sua vez, passar ser a simples influência. Foi o início do pior. Para fazer sucesso na hora, aproximou-os da Jovem Guarda: óculos escuros, costeletas, anéis, roupas modernosas e “carrões”, mudando os temas de porteiras de fazenda para os carangos de então, como o hoje raro Karmann Ghia, e apartamentos na Augusta. Assim, começou a deturpação, em detrimento das origens dos próprios artistas – que, claro, acharam muito mais interessante largar a construção e receber dinheiro com as breguices que lhes impunham os produtores do que preocuparem-se com sua arte.

Torneio de Cururu: José Pinto (esquerda) e Josué
Conservatório de Tatuí. Foto: Kazuo Watanabe
Sou fã do Cururu, desafio do Médio Tietê, que desde a época das missões uniu coisas indígenas e influências musicais portuguesas à religião dos missionários. Criamos no Conservatório de Tatuí um Torneio de Cururu anual que repercute em toda a região,  abrigamos a festa, estimulamos a prática, festejamos com eles e aplaudimos os riquíssimos improvisos e os acirrados desafios. Porém, nunca devemos “ensiná-los” nada, pois o mestre deles é a tradição, de avô para pai, de pai para filho, cujo aprendizado se dá na prática, olhando, ouvindo, experimentando. Ensinar-lhes prosódia, rima, harmonia, forma, técnica vocal... seria condenar à morte uma tradição tão brasileira. 

Nesse ponto, minha opinião é de respeito a Noel Rosa: “O samba é um privilégio / ninguém aprende samba no colégio...”


sexta-feira, 12 de junho de 2015

PAPA FRANSCISCO ENTROU NA RODA

O título acima é mera lembrança da antiga canção infantil, e me veio à cabeça trazido pelo senhor Jorge Mario Bergoglio, um argentino que há dois anos tornou-se o 266º papa da Igreja Católica e o primeiro nascido em continente americano em 1.200 anos. É também o primeiro Papa jesuíta.

Como Francisco de Assis, amante dos pássaros
Bergoglio decidiu adotar o nome papal Francisco, e, de forma bem pessoal, sem um número romano a segui-lo, desde logo denotando leve distanciamento de práticas antigas, cobrindo com fina seda imaginária coisas que podem ser associadas a riqueza e pompa. Recebeu a mitra papal do cardeal Joseph Ratzinger, o hoje Papa Emérito Bento XVI, em um momento de suma importância, meio ao desenrolar de acordos, abraços e sussurros nos corredores da Santa Sé. Após anos de papado, havia um mundo a ser reerguido, e o homem escolhido para a missão de suceder Bento XVI chamou-se Francisco, nome não escolhido à toa: a Ordem Franciscana é conhecida pelos seus sacerdotes, que assumem a ferro e fogo o voto de pobreza e uma vida monástica de recolhimento e orações.
Francisco de Assis 

Bergoglio torcedor
Hoje, o mundo gira em torno de marketing, de imagens, a mídia é poderosa. Mas ao invés de ser por ela isolado, Francisco consegue fazer dessa máquina cruel uma brisa de paz soprando a seu favor. No começo, achei que eram nuvens passageiras a troca do crucifixo de ouro por um simples, a opção por vestes humildes, o transporte coletivo, os aposentos discretos e modestos, o pagar o hotel de seu próprio bolso. Novos signos e símbolos passaram a mostra-lo como o homem comum e sábio, um genuíno líder – um homem do povo que, mesmo graduado e com mestrado, ouvinte de música clássica e contumaz na melhor literatura, como todo bom argentino é também entusiasta de um time de futebol.

Ignacio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus
Estudei em colégio jesuíta, e a ele devo uma formação que talvez não pudesse ter tido em nenhum outro da época. Contudo, fermentava um certo sentimento em relação aos padres que, para nós, eram um tanto ambíguos em sua posição contra a ditadura. Ainda abraçavam um conservadorismo já fora de época, de que nos salvavam professores de renome que investiam em seus alunos de forma extracurricular até em suas residências!

O Papa Negro Adolfo Nicolás
Certo dia o colégio recebeu, em visita ao Brasil, o chamado Papa Negro, como até hoje é chamado o Superior Geral da Companhia de Jesus. Ao chegar, foi-lhe mostrado o novo e moderno prédio, na frente de outros mais antigos. 
A construção passou a abrigar administração, dormitórios para padres e ajudantes, salas de jogos e lazer. O Superior teria observado: “bonito prédio, mas o que os senhores fizeram por aquilo lá atrás?”, apontando para uma favela ao pé do morro.

Banco do Vaticano
Deu-me mais uma vez a impressão de que nossos padres estavam se afastando da própria filosofia jesuíta em sua origem, e a Ordem foi passando a não mais abrigar nossas aspirações. Boa parte de nós tornaram-se não-praticantes ou ateus já no curso colegial. Passou-se bom tempo, e a Igreja Católica viu-se frente à ameaça de quebra do Banco do Vaticano, o que seria uma tragédia. Salvo pelo Banco Ambrosiano, ergueram-se forças para mudar, e foi eleito Karol Wojtyla, grande simpatizante da organização Opus Dei. Após seu papado como João Paulo II, Wojtyla teve como sucessor outro simpatizante do Opus Dei, Bento XVI, que durante seu curto exercício papal não conseguiu resolver disputas internas, problemas financeiros (a crise de 2013) e, principalmente, faltava-lhe o carisma popular de seu antecessor.

As palavras de Francisco, longe de sua erudição de berço, são simples, ele fala com o povo e constrói um perfil ímpar de pacificador, como voz desse binômio de perfeita harmonia: a sabedoria e o perdão. Coube a Francisco abrir-se para todos os cristãos, judeus, ateus, muçulmanos, oferecendo-lhes seus braços com palavras de irmão. E caberá a ele recuperar um prestígio que a Igreja Católica estava perdendo nas novas gerações, especialmente nos grandes centros urbanos. Mais ainda: abriu diálogo com os religiosos adeptos da Teologia da Libertação, movimento com que a Igreja havia rompido, convidando-os ao diálogo.

"Se alguém é gay e procura pelo Senhor e tem boa intenção, quem sou eu para julgar?"
Francisco continua fiel à doutrina de sua Igreja, e como tal não cabe qualquer questionamento leigo, posto que é questão religiosa: para ele a vida começa a partir da concepção, matrimônio é a união entre um homem e uma mulher, e ponto. Contudo, em episódio recente, ele não foi compreendido por muitos: ao aproximar-se a Parada Gay de São Paulo (7 de junho), foi lembrada uma frase em que Francisco afirmou, meses atrás: “quem sou eu para julgar?”. Bastou para que muitos desavisados - ou maldosos – apontassem ali a “apologia ao pecado”, o que é um profundo engano: Francisco abençoa a todos, e, mesmo declaradamente pelo tradicional matrimônio católico, vê o movimento como uma manifestação de seres humanos, filhos de Deus, que fizeram suas opções ou cresceram com elas, e por isso sofrem toda sorte de discriminação e violência. (Claro que essa abertura desagradou parte mais conservadora do clero, sem falar em outras Igrejas ou seitas que se declaram religiões). 

Tomé, o que precisou ver
Infelizmente, poucos hoje sequer leem jornal, e muitos tiram conclusões precipitadas de títulos ou subtítulos, figurinhas e montagens, tomando como verdade o que se reproduz nas redes sociais e fazendo-se reféns dela. Guardadas as proporções e lugares, um admirado ministro do STF decidiu pela legalidade da “Marcha pela Maconha”, mas os apressados de sempre interpretaram isso de forma errônea: o fato é que o magistrado reconheceu o direito à manifestação pública, mas não emitiu opinião pelo uso da erva e muitíssimo menos sequer tomou partido. As pessoas são o que se revelam desde seu interior, nos seus gestos, na sua honestidade e integridade em sua missão neste mundo. E isso exige distanciamento para não se envolver em certos méritos. Mas os inconformados, pior do que Tomé, preferem nem ver para não crer. Cegam-se.



Habemus Papam, Franciscus!

quarta-feira, 3 de junho de 2015

BRASIL, PAÍS DOS CONTRASTES. E DA MENTIRA.

Os livros de história do colégio afirmavam: “O Brasil é um país de contrastes”. Mas até encontrar minha real dimensão da frase tive de viver muito. Pouco importa a intenção do autor do texto, pois pensando como o dramaturgo Pirandello, “assim é se lhe parece”, ou seja, tanto faz a intenção, o que interessa mesmo é o que parece ser ao leitor. Garoto ainda, pensei: esses contrastes estão na natureza! Verdade é que há um nordeste seco, a caatinga, e há um sul de clima meio temperado, jeito de europeu.


Mas nos EUA os contrastes são muito maiores! Há um calor intenso na Florida, por exemplo, regiões geladas perto dos Grandes Lagos, divididos com o Canadá. Em algumas grandes cidades, como NY e Boston, na costa leste, há tanto fortes nevascas (blizzards), temperaturas abaixo de - 15o e verões acima de 40o à sombra. Há regiões chuvosas (Buffalo, NY, é “campeã”), e desertos como os do Sudoeste e o Mojave, no sul da Califórnia, o mais escaldante.
Deserto de Mojave

Rev. Martin Luther King, Jr.
Em alguns estados americanos há pena de morte, em outros não. Em alguns, aos 18 anos jovens podem comprar bebidas destiladas, em outros apenas após os 21. O preconceito racial pouco mudou desde a luta e assassinato de Martin Luther King, Jr., até as recentes crises com morte a tiros e riots.  Contrastes sociais resultam de preconceitos: lá, negros são mais negros e brancos mais brancos do que no Brasil. 
Placa dos tempos da segregação oficial

Onde, então, nossos grandes contrastes?



Não seriam, talvez, o abismo social entre a massa de deserdados e o pequenino topo da pirâmide, seleto grupo de donos fortunas em paraísos fiscais, que pode comprar um dos 200 mil imóveis que brasileiros possuem em Miami? Há os que comem calango com farinha na mão e há os que degustam caviar com vinho Échezeaux de mais de mil dólares a garrafa.

Sim, são nossos contrastes, concluo eu, já deixando o livro no passado. Ah, a escravidão no Brasil foi abolida! Foi? É só pensar nas diferenças. 

O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, bem lá atrás, no séc. 18, escreveu, em “Do Contrato Social”: “O homem nasce livre, mas por todos os lados ele continua acorrentado”. Vale até hoje. 



Chiaroscuro de
Giovanni Baglione (1603)
Na arte barroca, predominava o claro-escuro, a figura-fundo, na música barroca isso e também o forte-piano: o contraste. 

Sem contraste, surge uma mistura só, as coisas podem ficar meio indistintas, especialmente se transportadas da arte à vida real: Igrejas invadem a política, fazendo exatamente o que a Bíblia não prega, políticos famintos pelo poder e o vil metal, qualquer troco de 30 dinários, a câmbio de hoje.




Dinários como os de Judas
uma pátria que diz educar e corta 9 bi do orçamento para a educação. Há gente com passado nada casto que se diz honesta porque é “de berço e religiosa”, e há devotos dominicais poderosos com condenações internacionais. Há criminosos da adolescência à chamada “melhor idade”, mas há contraste com os adeptos de coisas sadias como o ciclismo e a maratona mortos por facadas ou atropelamento, como recentemente um médico carioca, ou nosso saudoso professor de fagote da Escola Municipal de Música de São Paulo, o austríaco Gustav Busch.

Não há contraste na chamada "carteirada", preâmbulo de lei que não está escrita, cujo Art. 1o. diz “sabe com quem está falando?” (Ela vem de cima, sem esperar resposta). Já houve juiz que se achou acima da lei dos homens, um desembargador que assaltou os cofres públicos na construção de portentoso foro trabalhista, e há até advogados de grande expertise que ficaram milionários na defesa de corruptos condenados.

E se há um contraste enorme entre o que se diz e o que se faz, especialmente antes ou depois do poder, há também o contraste da lucidez: um frade, meu primo Betto, amigo pessoal de um ex-presidente, declarou recentemente que os alardeados avanços sociais do governo facilitaram o acesso aos bens pessoais de consumo - um micro-ondas, até um “carrinho no pé do morro”, mas não avançou sobre os bens sociais verdadeiros: “essa família continua no barraco, sem saneamento, transporte público e segurança de qualidade”. (Esse, o contraste sadio: a livre crítica e a autocrítica que a enriquece. Betto já a ensaiara em 2004, quando abandonou uma assessoria de governo e lançou o livro “A Mosca Azul – Reflexão sobre o Poder”).

A mentira, com certeza, é prática muito mais antiga do que a própria origem desta palavra, por volta do século XI, na Lusitânia. Ela é o anti-contraste, mas pode surgir por mágica: “O que é bom a gente mostra, o que é ruim se varre para debaixo do tapete”, disse um certo ministro do passado, sem perceber que o microfone do estúdio de TV estava “aberto”. “Ganhei 200 vezes na loteria”, disse um famoso ex-deputado, em 1993. “No Brasil não há espaço para ditadura” (Costa e Silva, em 1964), ou “não tenho conta em banco estrangeiro”, repete ad nauseum outro conhecido deputado.

Uma brincadeira com um lemmon, em venda de carros usados
A mentira é um só lado, um sem-contraste que passa um produto de má-fé, gato por lebre. Ela vende um carro de segunda mão condenado – nos EUA conhecidos como lemmons, limas -, vende imagens falsas e encobre malfeitos de uns e seus amigos ou companheiros. E se é verdade que a prostituição foi a primeira profissão do mundo, ela certamente começou escondida atrás de uma grande mentira. A história é sempre contada pelo vencedor, teria dito George Orwell (para alguns, ou Karl Marx, mais provável), e por isso mesmo é a grande depositária de mentiras.

Goebbels em um de suas longas interlocuções com Hitler
A maior das mentiras é a censura, porque não permite contrastes, ela quer que seu lado prevaleça, impõe-se para que sua falsidade impere como verdade absoluta e se torne, como o vencedor que conta a história, a chamada “verdade verdadeira”, final e inquestionável. 

A pior mentira pretende encarnar-se verdade, após repetida indefinidamente, como pensava Goebbels, que foi braço direito de Hitler, seu ministro da propaganda e depois sucessor do Führer como chanceler. Possuía títulos universitários em 4 universidades, incluindo um doutorado em Heidelberg, mas ordenou a queima de livros que considerava perniciosos à "causa alemã" (leia-se: ideologia nazista). 

Salve o contraste!