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sexta-feira, 26 de agosto de 2022

LITERATURA, ENGENHARIA E MEDICINA

 

Autran Dourado

“Se todo mundo lesse Machado de Assis, menos viadutos cairiam e menos pacientes morreriam nas mesas de cirurgia”, disse meu pai em 1971, referindo-se à queda do viaduto Paulo de Frontin, no Rio de Janeiro, e às condições do atendimento médico de então no serviço público no país. O desabamento de 120 metros de construção que matou 48 pessoas deu-se tanto pelo despreparo de engenheiros “amigos” contratados sem licitação quanto porque faltava controle dos pregões e compras nos tempos da ditadura. Quanto às mortes nas mãos de cirurgiões, só posso tecer minhas conjecturas, mas ante a arquitetura cirúrgica da obra de Machado só devo anuir com a frase do meu pai - ele que era como uma generosa esfinge a ser interpretada -, e trazê-la comigo até hoje.

Lincoln, em Gettysburg

Fez questão de matricular-me em um colégio jesuíta de grande reputação no Rio, apesar de ele mesmo ser ateu. Até financiou na planta um apartamento bem perto, para facilitar idas e vindas. O sistema de ensino era rigoroso, exaustivo, mas devo-lhe muito, muito além do que me apetece imaginar. Tive ainda um pouco de latim, e os professores de português, francês e inglês eram para lá de exigentes. Frequentemente, tínhamos de subir no tablado um a um, e, na frente de todos, recitar “Última flor do Lácio, inculta e bela”, algum trecho de Du Contrat Social ou o Gettysburg Address do Lincoln. E ler Montesquieu, Byron, Mark Twain, tudo no original. E Machado.


Certo início de semestre levei à mesa de almoço a lista de leituras para o período. Vi meu pai enrubescer, dilatar as narinas, limpar a boca com o guardanapo, levantar-se, bater a porta da rua e sair. Foi ao colégio, e de lá voltou. Tinha dito que filho dele não leria uma determinada obra, “aquilo”, e ponto final. Coisa muito mal escrita, para fazer dinheiro.


Num apartamento em que do escritório à sala e até as partes de cima dos armários embutidos e paredes dos corredores eram cheias de livros, de tanto convívio aquele tornou-se o meu ambiente, e eu gostava, tinha orgulho. Lembro-me de uma gravura de Cervantes, livro na mão, desenhos oníricos ao redor, em cujo frontispício se lia: “Embebedou-se tanto na leitura que passava as noites em claro”. Lembrava-me a figura paterna, que não raro cochilava, cabeça e livro tombados para baixo, o corpo esparramado sobre a cadeira de balanço de palhinha. Naqueles devaneios, figuras imaginárias, pelas mãos de Machado, Shakespeare, Flaubert e Joyce faziam-lhe diatribes e diabruras na imaginação, fermentando suas criações literárias. Mas o trabalho do pai era todo elaborado com método, método rigoroso, a construção de livros e personagens era uma elaboração de engenharia, história e cirurgia precisas – tudo a ver com a frase que reproduzi para abrir este artigo. Um trabalho de formiguinha, referiu-se a ele o crítico Humberto Werneck, autor de O Desatino da Rapaziada.


Hoje, o desatino é que a escrita no dia a dia escorrega pelos degraus da miserabilidade, especialmente porque a prática está basicamente restrita à Internet e às redes sociais. O errar nem humano mais é, parece que o querem santo; tem seu charme, e o próprio conceito de erro vai sendo abolido. Verbos conjugados sem o “r”, concordância, acentos, pontuação - e o gênero assexuado, ou hermafrodita, que permite expor menos conhecimento para errar menos, achando que é, como se dizia, pour épater la bourgeoisie, para chocar a burguesia. Porém, a burguesia não mais se abala, ela mesma aderiu em massa à péssima escrita e linguajar que chegam aos mais altos escalões da Nação – em boa parte, por causa de uma educação deficiente, e me refiro aos estudos colegiais, à cultura familiar com frequência sem exemplos a servirem de paradigma, e às redes sociais e seus dialetos.


É claro que tudo isso resulta em prováveis maus governantes e eleitores cada vez mais vulneráveis a essa chaga conhecida por ignorância, salvo quando há uma luz sobre um ou outro graças a alguma inteligência pessoal. Faltam boas escolas, bibliotecas, preparação de professores; salvam-se apenas os que buscam preparar-se “motu proprio”, espontaneamente. Já abordei aqui a experiência de Sobral, Ceará, onde um projeto-modelo levou 95% dos alunos à competência na leitura e interpretação de textos, 38% acima da média nacional! A preparação de professores tem quatro escopos principais: formação, avaliação, meritocracia e seleção. Sobral mostrou-se um exemplo a ser seguido, o estudo orbitando ao redor dos livros, sem proibir os alunos de usar recursos midiáticos e de informática.


Comparativamente à experiência de Sobral, com 212 mil habitantes, seguem-na a boa distância outros treze municípios também do Ceará, dez de Minas e apenas sete dos 645 de São Paulo, população total de mais de 40 milhões. Não é à toa que de Sobral saem tantos primeiros lugares em competições e concursos de português e matemática no Brasil.

Groucho e Arthur, seu filho

A leitura está no centro do ensino sobralense, junto com a compreensão e interpretação de textos; há cuidado especial com as exatas, como matemática, área em que a cidade também é modelar. Leitura e redação são primordiais não apenas para formar bons cidadãos: é por intermédio do raciocínio e da compreensão de textos que lógica e percepção encontram campo fértil para o desenvolvimento do indivíduo. Talvez fosse o caso de refletirmos sobre o que disse o comediante, ator e escritor norte-americano Groucho Marx: “Eu acho televisão muito educativa: toda vez que alguém liga o aparelho vou para o quarto ler um livro”.

sexta-feira, 4 de março de 2022

CLARICE LISPECTOR, UMA UCRANIANA BRASILEIRA

 

A família Lispector. No centro, Chaya

Em dezembro de 1920
nascia, de pais judeus, Chaya Pinkhasivna Lispector, na comunidade de Podolia, em Tchetchelnyk, parte do imenso país que hoje é a Ucrânia. O casal Pinkhas e Maria Lispector, com seus três filhos - dos quais Chaya, ou Clarice, era a mais jovem -, passou pelos massacres da guerra civil que aconteceu após a queda do Império Russo, eliminando seus tzares e impondo outro regime de força. Os Lispector haviam logrado fugir para a România e de lá para o Brasil, onde tinham parentes. Saíram do porto de Hamburgo, no norte da Alemanha, e aqui chegaram no início de 1922, quando Clarice nem havia completado dois anos de idade.

Com Maury

Aos 24 anos, em plena Segunda Guerra Mundial, casou-se com o brasileiro Maury Gurgel Valente, e, por força da carreira diplomática do marido, durante quinze anos teve diversas residências na Europa e nos Estados Unidos. Voltou para o Rio de Janeiro em 1959 já separada, madura e experiente, e escreveu Laços de Família (1960), uma novela plena de símbolos místicos, A Paixão Segundo G.H. (1964), e Água Viva (1973), uma obra fenomenal. Fumante inveterada, em 1966 foi vítima de um incêndio após ter caído no sono deitada com seu indefectível cigarro na mão. Passou dois meses internada e sobreviveu por mais dez anos. Benjamin Moser, seu biógrafo norte-americano, dizia que Clarice era um dos maiores nomes judeus na literatura mundial, após Kafka. Clarice faleceu em 1977 deixando uma vasta obra, objeto de incontáveis traduções, estudos e teses que até hoje brotam com fertilidade, há sempre muito a se descobrir.

Kafka

Uma cabeça extremamente complexa, diziam. Com todos esses eventos trágicos na vida, desde a fuga da Guerra Civil Russa, o trajeto até chegar ao Brasil, a ida para a Europa com o marido em plena Guerra Mundial e a pecha de judia naquele momento, tudo confluía à linha de leitura frequente dela, de Kafka aos grandes pensadores, desde o Hegel do idealismo absoluto ao Schopenhauer do pessimismo, da metafísica de Kant a Sartre e seu existencialismo. 

Prédio da R. Jardim Botânico

Temas Amargos? Certamente, contraste para os almoços dominicais no apartamento dos Autran Dourado, meus pais, onde Clarice comia e falava, discutia assuntos literários e filosóficos enquanto degustava o prato do dia. Descreve o biógrafo Moser, em trecho que traduzo aqui: “Autran e Lucia Dourado a convidavam para almoçar quase todos os domingos. No final da tarde, sentada no apartamento deles, ela tomava um comprimido para dormir e começava a tirar suas joias para que não caísse dormindo com seus brincos e braceletes. Eles a colocavam em um táxi para mandá-la para casa, onde às vezes ela chegava dormindo” (MOSER, Benjamin. Why this world. NY: Penguin books, 2009).



Infelizmente, eu era muito novo e não tinha ideia de quem era aquela senhora. Eu queria molecar, o que era natural, não imaginava quem ela poderia ser, como resumiu Moser: “em meados dos anos 1970, a reputação de Clarice era a de um gênio excêntrico, meio que destoando da sociedade, que havia crescido em lendárias proporções”. Eu e minhas brincadeiras, os adultos na sala divagando entre Schopenhauer e Kafka, por quem ela tinha uma verdadeira obsessão. Em outro trecho de sua biografia, Moser cita: “Autran Dourado, um dos principais novelistas e intelectuais do Brasil, lembra-se de longos domingos passados com Clarice em complicadas discussões filosóficas que iam de Spinoza a Nietzsche”. Carga pesada.


Um dos vinte quadros que Clarice pintou na vida foi dedicado aos meus pais, anfitriões dominicais de repastos e colóquios de Clarice, obra que nós, herdeiros, decidimos por acordo vender e hoje está nas mãos da escritora Nélida Piñon. Outra grande amizade da escritora foi Lúcio Cardoso, que, vítima de um AVC, ficou incapacitado para escrever – mas não para pintar seus quadros, o que fazia manobrando pinceis e tintas entre os dedos dos pés (aquilo me assustou quando, pequeno, uma vez fui com meu pai visitá-lo). Lucio e Clarice mantinham uma verdadeira paixão, embora platônica: ele foi um dos primeiros artistas a assumir sua homossexualidade naquele tempo.

"Eu escrevo para salvar a vida de alguém,
provavelmente a minha própria"

Em 2022, Clarice completaria 102 anos. Foi uma vida entre os pogroms na Guerra Civil Russa, o terror stalinista na terra que deixara, sua mudança para a Europa em plena Segunda Guerra levando o carma da herança judaica, a angústia de escritora após o golpe de 1964... O que seria dela agora, diante da invasão russa à Ucrânia? “Esse traço de desespero que Clarice Lispector revela é comum nos escritores contemporâneos. Mas assume para nossa escritora um caráter trágico, porque Clarice Lispector é escritora mulher e porque está diante de sua própria morte” (GUIDIN, M. Lígia. Roteiro de leitura – A hora da estrela. SP: Ed. Ática, n/d). Ouçamos sobre outras Clarices: “Que mistério tem Clarice / pra guardar-se assim tão firme / no coração”, de Capinam e Caetano (1968), e “choram Marias e Clarices” (1989), lindo poema de Aldir Blanc que fala da viúva de Vladimir Herzog, assassinado em uma cela do DOPS.

Ataque a KIev

Schopenhauer talvez não seja pensamento para nos emaranharmos neste momento, Clarice. Nossas reflexões têm de ser pragmáticas, um dia após cada dia, assombrados diante de uma pandemia devastadora, o barril de petróleo acima de 100 USD que vai catapultar a inflação no mundo com a fome e o desemprego que crescerão deste flagelo imposto ao teu país. A tua hora vive em nós, Clarice. O presidente que poderíamos te dar sinaliza aos invasores e não os repudia: tenta dizer-se neutro, pelos "nossos" interesses.

sábado, 28 de agosto de 2021

O SECRETÁRIO, O LITERATO E O PODER:

 O ANTES E O AGORA

Prestes, à beira da ilegalidade

Era
um jovem, mas com jeitinho mineiro no trato com as pessoas e habilidade na escrita, chegou a gente graúda nas artes e na política. Dono de bom papo, logo deixaria os ‘bicos’ por empregos mais sólidos. Como taquígrafo na Assembleia Legislativa (MG), veio a conhecer alguns grandes líderes, de Luís Carlos Prestes – deputado então na legalidade – a Juscelino Kubitschek, com quem trabalharia no governo. Quando o diamantinense se lançou à Presidência, lá foi ele também.


Mudou-se
de mala e cuia para o Rio, então Distrito Federal, preparando terreno para seu destino com JK no mais alto posto do país: era 1955, e tinha apenas 29 anos de idade (JK tinha predileção por assessores intelectuais que lhe escrevessem bons discursos, interpretassem seus anseios, aturassem suas manias e lhe apontassem caminhos). De mala e cuia, logo depois, veio a família, esposa e três filhos – duas meninas e um pequeno de dois anos -, instalando-se em um apartamento alugado no terceiro andar de um prédio sem elevador no Jardim Botânico, a poucos metros de onde, 46 anos depois, aconteceria o dramático sequestro do ônibus 174, vindo da PUC.

Mansão no Parque Lage

Tudo isso
é apenas uma referência. Os três filhos – um carioquinha haveria de nascer dois anos após a mudança – ficavam juntos em um quarto só, depois agregando o caçula da prole no mesmo aposento. Correrias, subidas e descidas pelas escadas a pé ou empurrando bicicletas, parecia um lugar propício à diversão: do outro lado da rua onde décadas após aconteceria o sequestro do 174, um enorme muro abrigava um bosque com uma mansão abandonada que pertencera ao engenheiro Henrique Lage e sua diva, soprano Gabriella Besanzoni, paixão que trouxe da Itália. Hoje, é um imenso parque público que preservou natureza e arquitetura, incluindo aí as cavernas com estalactites e riachos internos - e seus moradores por usucapião da natureza dormindo pendurados, os morcegos.

Henry Jr.

Para ajudar
a esposa em um de seus muitos atributos, ele costumava levar o terceiro filho para ter os cabelos podados na barbearia em frente ao Palácio do Catete, sede da Presidência. O estilo do corte seria banido passados os anos, mas hoje retornou à voga no mundo: “Príncipe Danilo”, cabelo encimando o topo da cabeça, ao redor aparado a zero. Após o corte, a recompensa: um saco de pãezinhos para o garoto picar e atirar aos cisnes no lago do Palácio, sob a vista atenta dos serviçais e motoristas. (Entre eles, João Batista, dono de um luminoso dente incisivo de ouro. Adorava tagarelar, e ao dirigir o fazia virando-se para trás, pânico dos passageiros. O carro, um velho Henry Jr. preto, tinha um plástico cobrindo a janela traseira esquerda, pois o vidro não se encontrava no incipiente mercado de peças, e a indústria automobilística brasileira simplesmente não existia).


O jovem mineiro
, com suas habilidades, cativou o presidente, que criou para ele um cargo que até então não havia, o de secretário de Imprensa, tal qual outros países, mais tarde transformado em porta-voz. (No ano 2.000, a Fundação Joaquim Nabuco publicou dois pesados volumes em uma caixa, “No Palácio com a Imprensa”. São depoimentos dos secretários e porta-vozes da Presidência, do primeiro – o capiau de Monte Santo de Minas que foi de BH para o Rio – ao último, Singer. Abre o primeiro capítulo nosso personagem - agora já podemos chamá-lo assim - seguindo-se entre outros Carlos Chagas, Alexandre Garcia, Antônio Britto e Ricardo Kotscho, até André Singer, em sucessivos governos).

JK e Lott

Cabia
ao secretário mineiro ora ajudar na redação dos discursos, ora na tarefa de esconder da população um infarto presidencial - tudo pela estabilidade democrática! Não bastaram as revoltas debeladas da FAB de Jacareanga e Aragarças, a própria posse havia sido garantida por um garboso marechal Henrique Teixeira Lott, depois Ministro da Guerra, que desfilou em seu ‘liforme’ branco cheio de medalhas com JK no Rolls Royce da Presidência, simbolizando o apoio do Exército sob seu comando ao presidente eleito pelo voto.


Como pessoa
, aquele secretário de governo era um cidadão de extrema simplicidade: dirigia sua Kombi, onde carregava filhos e dedicada esposa nos poucos passeios que o tempo lhe permitia; ou nas viagens a BH para visitar a família – às vezes, levava a empregada e quituteira, para deixá-la em Conselheiro Lafaiete, perto de BH, para que também visitasse os seus. Gostava, além dos muitos livros, de escrever alucinadamente, visitar e receber amigos, começando pelos mineiros velhos de guerra Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara e Paulo Mendes Campos – além de Clarice Lispector, em almoços domingueiros. Uísque, chope? Raros, o tempo não o permitia. Pôquer? Um ou outro, só de brincadeira. “Para quem foi criado em Monte Santo está bom demais”, dizia.

Escrevi este artigo por duas razões. A primeira, abordar a diferença de estilo de vida entre um titular de alto cargo público daquele tempo e os de hoje: gastos exorbitantes, alta remuneração e penduricalhos de toda sorte que catapultam os salários ano a ano. A segunda, e para mim a principal: lembrar Autran Dourado – o escritor, secretário de imprensa mineiro e, antes de tudo, pai -, que no dia 18 de janeiro passado faria 95 anos; homenageá-lo pelo dia dos pais, 8, e no dia 28, quando sai a edição do semanal de O Progresso, para o qual há anos escrevo artigos. Uma feliz conjunção em torno do número 8, o do infinito, se deitado. Do tamanho do amor e da admiração que nutrimos por ele.



sexta-feira, 19 de junho de 2020

MONGES CARMELITAS, BENEDITINOS, TIBETANOS, DOMINICANOS. E A QUARENTENA


Monte Carmelo, em Israel
A Ordem dos Irmãos da Sagrada Virgem Maria do Monte Carmelo é uma congregação que deve seu início provável ao  século 12. Perto da montanha que lhe deu nome (em árabe, monte Mar Elijah), é região produtora de azeite e vinho onde em 1948 foi fundado o Estado de Israel. Segundo a Catholic Encyclopedia, sua origem é incerta. A Ordem dos Carmelitas Descalços existe no Brasil desde o século 16.
São João, o hospitaleiro
O Rito do Santo Sepulcro é tido como tradição dos templários, e os Cavaleiros de São João Hospitaleiro uma antiga ordem religiosa-militar católica. O francês Gustave Flaubert (1821-1880) escreveu La légende de Saint Julien l’Hospitalier, sem nexo aparente com a Ordem por razão desconhecida - mas ele remete à lenda. Meu pai, Autran Dourado, traduziu-o a quatro mãos com minha mãe, Lucia: “A Lenda de São João, o Hospitaleiro”. Em “Notas à margem de uma tradução”, comentam as ideias de Flaubert sobre o escrever, a flexibilidade da gramática e a arte de traduzir.
Pietro Novelli (1613-1647)
N. S. do Carmelo
No Brasil, a Ordem dos Carmelitas Descalços (OCD) vem da seção portuguesa do Carmo, cercanias de Lisboa. Nas clausuras, as monjas dedicam-se à contemplação (“Maria escolheu a parte certa”: Lucas, 10:38-42), renunciando totalmente à vida mundana, amizades e família. Estima-se que hoje no mundo elas somem mais de onze mil.
Também monge, um beneditino anônimo do séc. 13 escreveu The cloud of unknowing, que eu traduziria para “A nuvem do desconhecimento”. No Brasil, foi publicado como “A nuvem do não-saber” – uma diferença aparentemente sutil, não obstante profunda, entre a eternidade do desconhecido e o que simplesmente existe, mas não é sabido.
Tenzin Gyatso, atual Dalai Lama
Trata-se de exercícios espirituais cujo objetivo é chegar à alta contemplação via ‘desconhecimento’: o mistério da aproximação com o celestial, tanto quanto a imperfeição humana permite. Os religiosos medievais usavam essas práticas, em tudo similares às dos monges budistas tibetanos e do Lamanismo, do líder Dalai Lama, o mais alto posto na hierarquia. Os beneditinos da Idade Média comungavam da contemplação tibetana: o nada, o desconhecimento, ou a plenitude do nirvana indiano.
Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, meu primo, é um frade dominicano conhecido por suas ideias afinadas com a vanguarda católica, o que lhe valeu prisões e a pecha de comunista. Voluntário em ações sociais como o “Fome Zero”, durante o governo Lula, Betto fez sua "reflexão sobre o poder", em “A Mosca Azul” (Rocco, 2006).
O antigo Presídio Tiradentes
Em 1971 eu morava no Rio, e fui a São Paulo com mais dois amigos ver uma feira de desenho industrial. Queria aproveitar para visitar o Betto, no Presídio Tiradentes, condenado a pena de quatro anos após uma armação forjada pelo DOPS, manobra frequente à época: “associação ao terrorismo”. Foi julgado com mais três frades. Um deles, Frei Tito, enforcou-se em um convento em Paris, vítima dos delírios persecutórios que tinha do delegado Sérgio Fleury, o abominado torturador. 
O julgamento: freis Fernando, Betto, Ives e Tito

Um simbólico STF de então ‘reduziu’ a pena de Betto para dois anos, quando ele já havia cumprido quatro – ‘haver’ que nunca será saldado (ou esquecido). Contou-me que, enquanto recluso, contemplava – talvez assim tenha sobrevivido, na transcendência da eternidade daqueles anos para um átimo.
Frades no átrio (foto: Jorge Butsuem)
Passada a meia-noite, éramos três amigos chegando ao Convento dos Dominicanos em Perdizes. Recebeu-nos o frei Paulo, que nos xingou de tudo pelo adiantado da hora, mas nos hospedou e juntou-se a nós em uma roda de violão e caipirinha. Dia seguinte, depois do café da manhã, era outro Convento: fomos para uma espécie de átrio, onde os frades, silenciosos, liam suas bíblias ou meditavam, contemplavam em devoção monástica! Mas visitar o Betto? Nunca, o regime dele era incomunicável.
Vinte anos depois, eu o procurei. Saímos para um café, voltamos, um pouco de história e política. Falei-lhe de ansiedade e preocupação (andava com insônia). Betto então deu-me um exemplar de The Cloud of Unknowing  (NY: Paulist Press, 1981). Fazia os exercícios na ordem, em posição de lotus. Um dia, acordei sentado, dor no pescoço da cabeça caída, o sol nas frestas da janela: exercitando a mente, eu havia dormido!
Igreja do Convento dos Dominicanos
Betto e eu nos vimos outras poucas vezes, a última em uma missa para a qual ele havia me convidado, em 2002, dedicada ao prefeito assassinado Celso Daniel. Igreja lotada, celebrou-a à frente de uma dúzia de frades, com direito a uma emocionante homilia, mesmo estando ele com o direito aos sacramentos ‘cassado’ pelo Vaticano.
Marta, de pé, e Maria, contemplando
Da reclusão encoberta dos pés à cabeça das monjas da Ordem Carmelitas até o Rito do Santo Sepulcro e a Lenda de São João Cavaleiro, dos monges tibetanos e indianos aos beneditinos e sua ‘nuvem do desconhecimento’, da contemplação de Maria no Evangelho de Lucas ao isolamento inerente a esses estados espirituais, há muito que aproveitar dessa quarentena forçada pela pandemia. Fora da TV, videogames, novelas, leituras, redes sociais  e comida: meditação,  autoconhecimento, exercícios de abstração do mundo terreno,  pensamentos -  ou, ainda melhor, a desejada ausência deles -, em períodos diários. Para os que creem, rezas ou orações.
Jovem chinesa pratica o Tai Chi Chuan 
A sintonia com o universo também está em  várias modalidades de Yoga ou suaves movimentos de Tai Chi Chuan. Os exercícios que nos elevam e ajudam a cumprir esses tempos de pena em nossos presídios particulares é um caminho para, durante e depois do isolamento social, absorvermos as sequelas do retorno à vida que antes chamávamos ‘normal’. Se o transitar neste período de quarentena tem sido difícil, também o será a volta. 
                                                                            ***
Livro: Memórias de Isolamento - Saudosos Velhos Amigos e outras crônicas:
memoriasdeisolamento@gmail.com
Canal no Youtube (todos os programas): youtube.com/autrandourado

quinta-feira, 4 de junho de 2020

AUTOR E ESTILO, O PUNGUISTA E O LÉXICO DA PANDEMIA


Entender a própria escrita é fundamental para redigir melhor. Nos assuntos acadêmicos usei normas e cânones da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), que padroniza as técnicas de produção - princípios básicos, como rodapés, citações, recuos, bibliografia. Em um jornal ou revista cedo a outras regras bem mais brandas, a depender da linha do veículo e do público que o lê.
Em meu blog a coisa muda de figura. Liberdade de redação, imagens, diagramação, a busca por um estilo (Millôr se gabava: “enfim, um escritor sem estilo”). Tudo fora das limitações dos ‘toques’ (caracteres com espaços) e o quanto na publicação me é reservado. Já na crônica há fatos com algum sabor literário, mas longe da ‘grande forma’, um romance, como na música uma sinfonia.
Se há estilo no que escrevo, ele foi consolidado desde a escola e as leituras da adolescência. Essencial foi a presença constante de meu pai, o escritor Autran Dourado, que após mais de 30 livros e uma dúzia de traduções deixou uma obra inconfundível. Lições paternas... Uma frase, um comentário que fosse me bastavam. Lembro-me de ouvi-lo falar em seduzir o leitor para “bater-lhe a carteira”: distraí-lo para chegar ao que realmente interessa. Ficou marcado.
Livros dele, como Poética de Romance – Matéria de Carpintaria, trazem orientações sobre o escrever e a boa língua portuguesa. Por revelar truques e artifícios, um colega escritor fez uma piada, disse que ele estaria ‘entregando tudo’ do ofício. Eu penso que essa técnica do pungueio já começa pelo título do texto (pungueio é o que faz o punguista, batedor de carteiras, acabo de descobrir no Houaiss procurando sobre o ato do meliante. Aliás, se o leitor que procura uma palavra no dicionário ampliará seus horizontes e vocabulário).
Jorge Luís Borges
Ao enviar um texto para o editor, costumo avisar que o título definitivo está no corpo do artigo, e não no nome do arquivo do e-mail, já que mudar é uma rotina que só é encerrada após clicar em ‘enviar’. O que me   lembra o argentino Jorge Luís Borges (1989-1996), segundo quem a obra só termina quando está impressa.
Morte de Inês de Castro
Véspera da entrega de minha tese de doutorado. Dez pesados volumes no chão da sala e eu folheando o meu, até que foi se desencadeando um processo enlouquecedor: ah, isto não! Apagava com o velho ‘branquinho’ e corrigia com caneta. Cheguei a colar uma tirinha de papel impresso sobre algumas palavras em cada um dos volumes. Fechei tudo e fui dormir, pois sempre haveria o que mudar, nunca estaria satisfeito, e com o texto entregue eu me libertaria (lembrei Camões: “Inês é morta”).
Autran Dourado, escritor
Meu pai era um artesão, um ourives dos minúsculos rabiscos taquigráficos criptografados nos cartõezinhos que levava no bolso. Depois, passava a elaborar o texto  tecla por tecla, palavra por palavra em sua Remington. Datilografava, corrigia no papel, batia tudo novamente, relia, corrigia. E alguém ainda lhe disse o senhor escreve complicado, tive de ler três vezes, ele respondeu mas eu escrevi vinte! (Tento aí um pouco do diálogo no estilo paterno, sem aspas ou travessões).
Com um pouco de experiência, percebi que o melhor é esboçar de vez um ‘boneco’ do artigo – algo como o ‘copião’, a matriz bruta de um filme -, para alterá-lo e editá-lo aos poucos. Fechado meu ‘textão’, releio umas duas vezes no dia seguinte, depurando-o, as datas e fontes anotadas, e no dia subsequente e depois no outro, até dá-lo  por concluído.
Coronas sobre notas
Penso em quatro tipos básicos de títulos: o que diz pouco e deixa o texto trabalhar sozinho; um segundo, que como uma reportagem abre logo o jogo (serve também para aquele preguiçoso ‘leitor de títulos’); um outro ‘bate a carteira’, como dizia meu pai, atrai o cidadão para mais adiante levá-lo ao que interessa. Variante minha é “Corona, fermata, grande pausa e cadenza”. Por mais estranhos que esses termos sejam ao leigo em música,  ‘corona’ apela ao subconsciente do leitor, onde está hospedado sem pedir licença o medo do vírus da pandemia. É isso que ele, até sem saber, vai procurar - e lá pelas tantas encontrar. Por fim, há um quarto tipo, quase um mapa do caminho do texto, que é o caso do presente artigo, um roteiro a ser cumprido sobre uma sequência pré-concebida.
[Falando de português e pandemia, existe um estranho léxico particular da doença. Repórteres de TV generalizam com ‘a’ Covid, quando o substantivo é de dois gêneros (Houaiss): a Covid é a doença, o Covid é o vírus (daí, vacina contra o Covid, fulano está com a covid). Em boa parte das emissoras fala-se récorde de contaminações, como no inglês record. Em português, o correto é recorde mesmo (acentua-se o 'o'); por razões óbvias, algumas TVs não querem menção a certa concorrente, daí a pronúncia exótica. Já mesmo em um assunto legal dizem que fulano foi citado no caso dos respiradores, quando na verdade foi apenas mencionado. Parece que o sujeito foi intimado ou preso por alguma autoridade. Por isso, tenho evitado citar uma pessoa, menciono-a apenas. Mas cito, claro, letras de músicas, frases, livros. Outro vício: não cabe ‘mandato judicial’ algum para busca ou prisão: possui mandato quem é investido de cargo eletivo ou por designação com prazo certo. Mandado é quando a autoridade manda cumprir uma ordem]
memoriasdeisolamento@gmail.com
A ideia deste artigo, da escrita aos vícios covidianos, surgiu com o livro que acaba de me chegar às mãos. Em Memórias de Isolamento, de minha autoria, observo o que tenho aprendido nessas décadas. O título demorou a surgir: não quis combinar a preposição ‘de’ com artigos definidos ou indefinidos, como em “Memórias do Cárcere”, do Graciliano, ou “Memórias de um sargento de milícias”, do Manuel de Almeida. Gosto da simples preposição em Mémoires de Guerre, do De Gaule. Sentido tão amplo que serve até para a guerra pandêmica que estamos vivendo.
[Assista ao segundo programa do meu Canal:
 https://www.youtube.com/watch?v=L-xbNHbPIYw&t=3s ]

sexta-feira, 1 de maio de 2020

DON QUIXOTE E O INIMIGO INVISÍVEL

Miguem de Cervantes Saavedra
“O espirituoso cavaleiro Don Quixote de la Mancha”, de onde “Don Quixote”, do espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616), é uma obra que tem recebido, desde sempre, os melhores comentários pela sua grandeza. Levantamento de Chrisaphis Angelique publicado no The Guardian em 2012 exibe no título o panteão a que é alçada a obra: “É o melhor livro do mundo, dizem os maiores autores”. O personagem é tão importante no Ocidente que, ao par de outros países, em português é substantivo dicionarizado: “indivíduo ingênuo e generoso, que luta inutilmente contra as injustiças” (Houaiss). Um quixote, portanto, é aquele lutador incansável que enfrenta, sem esperar vencer, os mais terríveis inimigos. 


"Embebedou-se tanto na  leitura que passava as noites em claro"
(Por Gustave Doré)
No escritório de meu pai, em casa, entre as várias estantes de livros, havia uma reprodução de gravura do francês Gustave Doré (1832-1883) mostrando um Cervantes já meio descompassado, o corpo escorregando na poltrona entre vilões imaginários, livro na mão esquerda e espada erguida na direita. Lanças, brasões, seres estranhos fazendo-lhe um pórtico surreal com uma cabeça gigante ao chão, provavelmente decepada. Um dístico encimava toda aquela imagem alucinante e bem definia Cervantes: “Embebedou-se tanto na leitura que passava as noites em claro”. Talvez fosse o lugar para que meu pai ali se embriagasse não apenas com Cervantes, mas também Faulkner, Flaubert, Joyce, Goethe, Machado e Bandeira, no cantinho em que ele desbravava seu mundo à parte.
Don Quixote, por Pablo Picasso 1955
O fidalgo Alonso Quixano, de La Mancha - “terra dos moinhos” no centro da Espanha -, leitor de escritos sobre cavalarias, assume-se cavaleiro errante, Quixote de la Mancha. Para acompanhá-lo, busca um homem tosco do campo, Sancho Panza (do esp.: pança, opulenta barriga). Nomeia-o seu escudeiro, até mesmo pela paciência dele com as histórias malucas do fidalgo.  Quixote confunde-se cavaleiro com os personagens de seus livros. Alucinado, proclama-se Don e nomeia o velho cavalo Roncinante (‘cavalo sem força’). To tilt windmills  (“balançar moinhos”) tornou-se expressão popular em inglês, e representa lutar erraticamente contra inimigos invisíveis, imaginários ou reais –para Quixote, tanto fazia como quanto fez se era um ou outro. Há um sem-número de gravuras e desenhos do fidalgo montado em Roncinante, Sancho Panza a tiracolo, enfrentando moinhos como os de sua terra, armado com lança e protegido por um escudo, como se aqueles engenhos fossem seus adversários mortais. Um texto pleno de alegorias e sátiras, um marco que volta sua ironia para as tradições de escribas do passado.
Hoje, temos dezenas ou centenas de milhares de quixotes lutando não contra quimeras, mas entes invisíveis a olho nu, reais e devastadores - inimigo imperecível, arduamente domável, apenas, que atende pelo nome de Covid-19. É mais do que sabido que, se realmente controlarmos a ameaça, ela ficará latente, embora viva para sempre, como acontece com a influenza, a Aids, a peste bubônica, o ebola e a pólio, só para citar alguns exemplos. Uma vez domado, o vírus terá sua futura vacina acrescentada à velha lista, até que um próximo grande mal surja como novo tsunami.
Gráfico da trajetória do NHGP
Verdade que nesses novos tempos, especialmente a partir do século 20, a ciência tem evoluído em espiral ascendente, graças ao advento dos computadores – de lerdos monstrengos para cálculos e o enorme Univac até as supermáquinas de hoje, que performam milhões de cálculos por segundo. O “Human Genome Project”, de 1990, avançou muito mais rápido em suas decodificações do que os 20 anos que haviam sido previstos: terminou em 2003. A cada nova geração e upgrade, os equipamentos galgavam, eles próprios, saltos em progressão geométrica. Penetrar nos ácidos nucleicos que controlam todos os tipos de vida – como o RNA e o DNA – é algo que agora acontece em velocidade espetacular. Mas quem domina as técnicas são pessoas como nós, cada vez mais preparadas, pesquisadores científicos das nossas universidades, principalmente, vanguarda que alguns não estimulam e sequer reconhecem, seja por não enxergarem meio palmo à frente do nariz ou por interesses outros.
Forma junto aos incansáveis pesquisadores, em pequenos, mas altos passos (vacinas, fármacos, suportes como respiradores, testes, etc.), a legião de bravos médicos, enfermeiros e técnicos que, em turnos de trabalho nos limites do suportável, colocam suas próprias vidas em jogo para salvar pessoas. Eles precisam de todo o apoio das autoridades, nunca de seu descaso. Universidades públicas federais e, para ser claro, principalmente as estaduais paulistas - que têm suporte de instituições como a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) -, fazem de seus laboratórios os castelos de onde, qual novos fidalgos, se armam para empreender a guerra. As federais, com cortes de verbas no fomento de pesquisas, conquistam além do possível por puro amor à luta, dada a falta de condições mínimas.
A Batalha Naval do Riachuelo, cópia por Vítor Meireles
Vêm à mente frases que são parte da nossa história: “Considero minha obra uma carta que escrevi à posteridade, sem esperar resposta”, disse Villa-Lobos, a representar agora a humildade e devoção com que todos esses profissionais, de pesquisadores e médicos até o pessoal de apoio,  encaram suas batalhas contra o vírus. Mais: pensando em embates, vem-me a Batalha do Riachuelo (1865), em plena guerra do Paraguai, quando o Almirante Barroso conclamou: “O Brasil espera que cada um cumpra com o seu dever”. Deus salve todos esses quixotes, gloriosos quixotes.
Don Quixote e Sancho Panza, de  Gustave Doré