LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****
Mostrando postagens com marcador cloud unknowing. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cloud unknowing. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de junho de 2020

MONGES CARMELITAS, BENEDITINOS, TIBETANOS, DOMINICANOS. E A QUARENTENA


Monte Carmelo, em Israel
A Ordem dos Irmãos da Sagrada Virgem Maria do Monte Carmelo é uma congregação que deve seu início provável ao  século 12. Perto da montanha que lhe deu nome (em árabe, monte Mar Elijah), é região produtora de azeite e vinho onde em 1948 foi fundado o Estado de Israel. Segundo a Catholic Encyclopedia, sua origem é incerta. A Ordem dos Carmelitas Descalços existe no Brasil desde o século 16.
São João, o hospitaleiro
O Rito do Santo Sepulcro é tido como tradição dos templários, e os Cavaleiros de São João Hospitaleiro uma antiga ordem religiosa-militar católica. O francês Gustave Flaubert (1821-1880) escreveu La légende de Saint Julien l’Hospitalier, sem nexo aparente com a Ordem por razão desconhecida - mas ele remete à lenda. Meu pai, Autran Dourado, traduziu-o a quatro mãos com minha mãe, Lucia: “A Lenda de São João, o Hospitaleiro”. Em “Notas à margem de uma tradução”, comentam as ideias de Flaubert sobre o escrever, a flexibilidade da gramática e a arte de traduzir.
Pietro Novelli (1613-1647)
N. S. do Carmelo
No Brasil, a Ordem dos Carmelitas Descalços (OCD) vem da seção portuguesa do Carmo, cercanias de Lisboa. Nas clausuras, as monjas dedicam-se à contemplação (“Maria escolheu a parte certa”: Lucas, 10:38-42), renunciando totalmente à vida mundana, amizades e família. Estima-se que hoje no mundo elas somem mais de onze mil.
Também monge, um beneditino anônimo do séc. 13 escreveu The cloud of unknowing, que eu traduziria para “A nuvem do desconhecimento”. No Brasil, foi publicado como “A nuvem do não-saber” – uma diferença aparentemente sutil, não obstante profunda, entre a eternidade do desconhecido e o que simplesmente existe, mas não é sabido.
Tenzin Gyatso, atual Dalai Lama
Trata-se de exercícios espirituais cujo objetivo é chegar à alta contemplação via ‘desconhecimento’: o mistério da aproximação com o celestial, tanto quanto a imperfeição humana permite. Os religiosos medievais usavam essas práticas, em tudo similares às dos monges budistas tibetanos e do Lamanismo, do líder Dalai Lama, o mais alto posto na hierarquia. Os beneditinos da Idade Média comungavam da contemplação tibetana: o nada, o desconhecimento, ou a plenitude do nirvana indiano.
Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, meu primo, é um frade dominicano conhecido por suas ideias afinadas com a vanguarda católica, o que lhe valeu prisões e a pecha de comunista. Voluntário em ações sociais como o “Fome Zero”, durante o governo Lula, Betto fez sua "reflexão sobre o poder", em “A Mosca Azul” (Rocco, 2006).
O antigo Presídio Tiradentes
Em 1971 eu morava no Rio, e fui a São Paulo com mais dois amigos ver uma feira de desenho industrial. Queria aproveitar para visitar o Betto, no Presídio Tiradentes, condenado a pena de quatro anos após uma armação forjada pelo DOPS, manobra frequente à época: “associação ao terrorismo”. Foi julgado com mais três frades. Um deles, Frei Tito, enforcou-se em um convento em Paris, vítima dos delírios persecutórios que tinha do delegado Sérgio Fleury, o abominado torturador. 
O julgamento: freis Fernando, Betto, Ives e Tito

Um simbólico STF de então ‘reduziu’ a pena de Betto para dois anos, quando ele já havia cumprido quatro – ‘haver’ que nunca será saldado (ou esquecido). Contou-me que, enquanto recluso, contemplava – talvez assim tenha sobrevivido, na transcendência da eternidade daqueles anos para um átimo.
Frades no átrio (foto: Jorge Butsuem)
Passada a meia-noite, éramos três amigos chegando ao Convento dos Dominicanos em Perdizes. Recebeu-nos o frei Paulo, que nos xingou de tudo pelo adiantado da hora, mas nos hospedou e juntou-se a nós em uma roda de violão e caipirinha. Dia seguinte, depois do café da manhã, era outro Convento: fomos para uma espécie de átrio, onde os frades, silenciosos, liam suas bíblias ou meditavam, contemplavam em devoção monástica! Mas visitar o Betto? Nunca, o regime dele era incomunicável.
Vinte anos depois, eu o procurei. Saímos para um café, voltamos, um pouco de história e política. Falei-lhe de ansiedade e preocupação (andava com insônia). Betto então deu-me um exemplar de The Cloud of Unknowing  (NY: Paulist Press, 1981). Fazia os exercícios na ordem, em posição de lotus. Um dia, acordei sentado, dor no pescoço da cabeça caída, o sol nas frestas da janela: exercitando a mente, eu havia dormido!
Igreja do Convento dos Dominicanos
Betto e eu nos vimos outras poucas vezes, a última em uma missa para a qual ele havia me convidado, em 2002, dedicada ao prefeito assassinado Celso Daniel. Igreja lotada, celebrou-a à frente de uma dúzia de frades, com direito a uma emocionante homilia, mesmo estando ele com o direito aos sacramentos ‘cassado’ pelo Vaticano.
Marta, de pé, e Maria, contemplando
Da reclusão encoberta dos pés à cabeça das monjas da Ordem Carmelitas até o Rito do Santo Sepulcro e a Lenda de São João Cavaleiro, dos monges tibetanos e indianos aos beneditinos e sua ‘nuvem do desconhecimento’, da contemplação de Maria no Evangelho de Lucas ao isolamento inerente a esses estados espirituais, há muito que aproveitar dessa quarentena forçada pela pandemia. Fora da TV, videogames, novelas, leituras, redes sociais  e comida: meditação,  autoconhecimento, exercícios de abstração do mundo terreno,  pensamentos -  ou, ainda melhor, a desejada ausência deles -, em períodos diários. Para os que creem, rezas ou orações.
Jovem chinesa pratica o Tai Chi Chuan 
A sintonia com o universo também está em  várias modalidades de Yoga ou suaves movimentos de Tai Chi Chuan. Os exercícios que nos elevam e ajudam a cumprir esses tempos de pena em nossos presídios particulares é um caminho para, durante e depois do isolamento social, absorvermos as sequelas do retorno à vida que antes chamávamos ‘normal’. Se o transitar neste período de quarentena tem sido difícil, também o será a volta. 
                                                                            ***
Livro: Memórias de Isolamento - Saudosos Velhos Amigos e outras crônicas:
memoriasdeisolamento@gmail.com
Canal no Youtube (todos os programas): youtube.com/autrandourado

sábado, 25 de maio de 2019

TRADUZIR: UM DISCRETO CONVITE À TRAIÇÃO


Dei de presente para minha filha Marta, que mora em Londres, um exemplar da tradução para o inglês de Ópera dos Mortos, do meu pai. Há três edições pelo mesmo tradutor, John M. Parker, sendo uma após o Prêmio Goethe de 1982 e duas anteriores: Peter Owen (1980), Taplinger (1981) e Hamlyn (1983). Não compreendi o porquê da não tradução literal, Opera of the Dead. Parece não haver outro livro ou filme que impeça, mas o tradutor optou por The Voices of the Dead (As Vozes dos Mortos), que caberia melhor em um thriller de terror.
Uma das capas é sóbria, só traz o título. A que escolhi é uma vaga remissão ao casarão de Rosalina, personagem central do romance. A terceira mostra uma ilustração antiga que lembra o Pão de Açúcar carioca, abraçando uma baía (um Debret ou Rugendas, não fosse o barco a vapor cruzando ao fundo). Mas tudo se passa em uma fictícia cidadezinha do interior mineiro, tal como a Monte Santo em que o pai viveu! Obra do capista ou do editor?
O texto da tradução tem vários equívocos, a exemplo desta frase no original em português: “...a gente viu como foi. Como por que aqueles relógios começaram a parar”, traduzida assim: ...we saw the other times how it happened, how and why those clocks began to stop”, desse jeito, quebrando o sentido e o frasear característico do autor. Diz assim a tradução “...nós vimos das outras vezes como aconteceu, como e por que aqueles relógios começaram a parar”. Esse ‘como’, sem o ponto antes e na tradução, indica ‘de que maneira’, uma conjunção, e, no original, é ‘a exemplo de’, advérbio. 
Os títulos dos capítulos também dão suas escorregadelas: Rosalina’s Song, para Cantiga de Rosalina. Cantiga remete a um cântico monofônico (de uma voz apenas) que vem desde a Idade Média, e aqui intimista à mineira: cantarolando. Assim como a escrita do meu pai, a cantiga é introspectiva e não uma canção no sentido genérico de song, voz com acompanhamento, ou um Lied  romântico alemão. Mas não vou fixar-me apenas nesta tradução (e menos ainda fazer um elogio à traição, pensando no adágio italiano tradutore, traditore).
Meu pai, em trabalho de 1987 escrito a quatro mãos com minha mãe (professora de francês), traduziu La Légende de Saint Julien l’Hospitalier, de Gustave Flaubert (1821-1880). Em Notas à Margem de uma Tradução, ele cita o próprio autor, via Maxime Du Camps: “... o escritor é livre, conforme as exigências de seu estilo, de aceitar ou rejeitar as prescrições gramaticais que regem a língua e que as únicas leis às quais é preciso se submeter são as leis da harmonia”. Essas pequenas subversões, quando a bem da fluidez do texto, são benéficas. A escrita deve se submeter à harmonia, pensando em Flaubert, e não às impositivas regras gramaticais. Quando cabível, porém, a tradução exata é muito melhor, como nos outros casos que relatarei aqui.
O norte-americano Benjamin Moser escreveu, sobre Clarice Lispector, em 2009, Why this World (Por que Este Mundo). Uma pergunta sem interrogação, sem esperar resposta. Traduziu-o para o português em 2011 e, tal como aconteceu com Ópera dos Mortos, pecando já no título: Clarice, uma Biografia. Serviria para um jogador de futebol, cantor popular, algo assim. Mas não é Clarice. A capa do original, em inglês – a biografada com o rosto coberto pelas mãos, sob o título Why this World -, nessa tradução banaliza a personalidade complexa da escritora, mais chegada a Nietzsche, Schopenhauer e Kafka.
The Cloud of Unknowing, de um monge beneditino anônimo do séc. 13, eu traduziria para A Nuvem do Desconhecimento, de maneira fiel ao título. São textos e exercícios espirituais, um livro que me foi dado por um primo, frade dominicano. Li pausadamente no original, ensaiando exercitar-me como os monges beneditinos da época, em busca da contemplação, prática não muito diferente da de outros monges, como os do Tibet. Ou aquela que Cristo mencionou, segundo Lucas (10:38-40), “Maria escolheu a parte certa, que dela nunca será tirada”: a contemplação divina. Mas o título A Nuvem do Desconhecimento, em português, virou A Nuvem do Não Saber! (‘Desconhecimento’ e ‘não saber’ são coisas diferentes. ‘Unknown’ é exatamente desconhecido, diferente de ‘não sabido’, ‘not known’, mais afeito ao nosso jargão policial: ‘o suspeito está em Lins’ – Lugar Incerto e Não Sabido). Mera sutileza? Em português pode ser que sim.
Um amargo depoimento de William Styron (de A Escolha de Sofia), trata da depressão, passa pelo estágio da internação psiquiátrica e o ímpeto do suicídio. Mas Darkness Visible (Escuridão Visível) chegou a nós como Perto das Trevas, de sentido bastante diferente.
Muita gente compra livro pelo título, e em geral leva gato por lebre (raríssimas vezes lebre por gato). A capa, nos dias de hoje, tem importância enorme na venda, embora em algumas grandes publicações elas sejam sóbrias e não-ilustradas. A liberdade gramatical e das regras de que falou Flaubert se aplica ao escritor e, de carona, ao tradutor, quando o interpreta e revela a ideia original, sendo-lhe fiel. Contudo, não há que se fugir como regra do bom e velho literal, que às vezes pode ser a melhor fidelidade.