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sábado, 25 de maio de 2019

TRADUZIR: UM DISCRETO CONVITE À TRAIÇÃO


Dei de presente para minha filha Marta, que mora em Londres, um exemplar da tradução para o inglês de Ópera dos Mortos, do meu pai. Há três edições pelo mesmo tradutor, John M. Parker, sendo uma após o Prêmio Goethe de 1982 e duas anteriores: Peter Owen (1980), Taplinger (1981) e Hamlyn (1983). Não compreendi o porquê da não tradução literal, Opera of the Dead. Parece não haver outro livro ou filme que impeça, mas o tradutor optou por The Voices of the Dead (As Vozes dos Mortos), que caberia melhor em um thriller de terror.
Uma das capas é sóbria, só traz o título. A que escolhi é uma vaga remissão ao casarão de Rosalina, personagem central do romance. A terceira mostra uma ilustração antiga que lembra o Pão de Açúcar carioca, abraçando uma baía (um Debret ou Rugendas, não fosse o barco a vapor cruzando ao fundo). Mas tudo se passa em uma fictícia cidadezinha do interior mineiro, tal como a Monte Santo em que o pai viveu! Obra do capista ou do editor?
O texto da tradução tem vários equívocos, a exemplo desta frase no original em português: “...a gente viu como foi. Como por que aqueles relógios começaram a parar”, traduzida assim: ...we saw the other times how it happened, how and why those clocks began to stop”, desse jeito, quebrando o sentido e o frasear característico do autor. Diz assim a tradução “...nós vimos das outras vezes como aconteceu, como e por que aqueles relógios começaram a parar”. Esse ‘como’, sem o ponto antes e na tradução, indica ‘de que maneira’, uma conjunção, e, no original, é ‘a exemplo de’, advérbio. 
Os títulos dos capítulos também dão suas escorregadelas: Rosalina’s Song, para Cantiga de Rosalina. Cantiga remete a um cântico monofônico (de uma voz apenas) que vem desde a Idade Média, e aqui intimista à mineira: cantarolando. Assim como a escrita do meu pai, a cantiga é introspectiva e não uma canção no sentido genérico de song, voz com acompanhamento, ou um Lied  romântico alemão. Mas não vou fixar-me apenas nesta tradução (e menos ainda fazer um elogio à traição, pensando no adágio italiano tradutore, traditore).
Meu pai, em trabalho de 1987 escrito a quatro mãos com minha mãe (professora de francês), traduziu La Légende de Saint Julien l’Hospitalier, de Gustave Flaubert (1821-1880). Em Notas à Margem de uma Tradução, ele cita o próprio autor, via Maxime Du Camps: “... o escritor é livre, conforme as exigências de seu estilo, de aceitar ou rejeitar as prescrições gramaticais que regem a língua e que as únicas leis às quais é preciso se submeter são as leis da harmonia”. Essas pequenas subversões, quando a bem da fluidez do texto, são benéficas. A escrita deve se submeter à harmonia, pensando em Flaubert, e não às impositivas regras gramaticais. Quando cabível, porém, a tradução exata é muito melhor, como nos outros casos que relatarei aqui.
O norte-americano Benjamin Moser escreveu, sobre Clarice Lispector, em 2009, Why this World (Por que Este Mundo). Uma pergunta sem interrogação, sem esperar resposta. Traduziu-o para o português em 2011 e, tal como aconteceu com Ópera dos Mortos, pecando já no título: Clarice, uma Biografia. Serviria para um jogador de futebol, cantor popular, algo assim. Mas não é Clarice. A capa do original, em inglês – a biografada com o rosto coberto pelas mãos, sob o título Why this World -, nessa tradução banaliza a personalidade complexa da escritora, mais chegada a Nietzsche, Schopenhauer e Kafka.
The Cloud of Unknowing, de um monge beneditino anônimo do séc. 13, eu traduziria para A Nuvem do Desconhecimento, de maneira fiel ao título. São textos e exercícios espirituais, um livro que me foi dado por um primo, frade dominicano. Li pausadamente no original, ensaiando exercitar-me como os monges beneditinos da época, em busca da contemplação, prática não muito diferente da de outros monges, como os do Tibet. Ou aquela que Cristo mencionou, segundo Lucas (10:38-40), “Maria escolheu a parte certa, que dela nunca será tirada”: a contemplação divina. Mas o título A Nuvem do Desconhecimento, em português, virou A Nuvem do Não Saber! (‘Desconhecimento’ e ‘não saber’ são coisas diferentes. ‘Unknown’ é exatamente desconhecido, diferente de ‘não sabido’, ‘not known’, mais afeito ao nosso jargão policial: ‘o suspeito está em Lins’ – Lugar Incerto e Não Sabido). Mera sutileza? Em português pode ser que sim.
Um amargo depoimento de William Styron (de A Escolha de Sofia), trata da depressão, passa pelo estágio da internação psiquiátrica e o ímpeto do suicídio. Mas Darkness Visible (Escuridão Visível) chegou a nós como Perto das Trevas, de sentido bastante diferente.
Muita gente compra livro pelo título, e em geral leva gato por lebre (raríssimas vezes lebre por gato). A capa, nos dias de hoje, tem importância enorme na venda, embora em algumas grandes publicações elas sejam sóbrias e não-ilustradas. A liberdade gramatical e das regras de que falou Flaubert se aplica ao escritor e, de carona, ao tradutor, quando o interpreta e revela a ideia original, sendo-lhe fiel. Contudo, não há que se fugir como regra do bom e velho literal, que às vezes pode ser a melhor fidelidade.

sábado, 6 de abril de 2019

“...E UM CIGARRO PRA ESPANTAR MOSQUITO

Noel Rosa

/ vá dizer ao charuteiro / que me empreste uma revista / um isqueiro e um cinzeiro”. Noel Rosa (em parceria de 1935 com Vadico), embora médico de formação, era um fumante inveterado. Fumava tocando e até mesmo cantando, com o cigarro no canto da boca ou entre os dedos anelar e médio da mão direita. Neste samba, Conversa de Botequim, fala um exigente freguês de um ambiente que Noel conhecia bastante bem, o boteco. Sempre um cigarro e a caixinha de fósforos à guisa de instrumento de percussão na roda da mesa pelas mãos de muitos sambistas, como Cyro Monteiro.
Jean-Paul Belmondo
Frida Kahlo, Jean-Paul Belmondo, Cid Charisse, Marlon Brando, James Dean, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, uma legião de artistas e intelectuais carregava o charme nada discreto do cigarro sempre à boca ou às mãos. Clarice por pouco não morreu, em 1967, quando caiu dormindo, como de costume. Jogou-se sobre a cama, cigarro na mão, e logo veio o fogo nos lençóis. Queimaduras na mão e pelo corpo lhe deixaram marcas, mais uma cicatriz da memória já flagelada daquela menina judia ucraniana que terminou no Brasil para tornar-se uma brilhante e amada escritora e intelectual brasileira.  
O cigarro era acessório tão charmant que, em 1970, Gérson, estrela do tricampeonato mundial de futebol, foi convidado para atuar em um comercial, hoje de triste memória. Na TV, ele afirmava que “o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo”. Propaganda cujo lema, para infelicidade do tricampeão, virou sinônimo de pilantragem, falcatrua – a Lei de Gérson. Foi péssimo para a imagem do jogador, o estigma nunca o abandonou.
No final daquela década, outra propaganda de uma marca famosa de cigarros, dessa vez trazida dos EUA, mostrava um caubói-galã, ‘o homem de Virgínia’, fumando montado em um lindo cavalo. Associava o cigarro à virilidade, e de tabela a um certo prazer fálico. Em outro anúncio americano, uma linda mulher, encostada em um carro e fumando com uma piteira, fazia bico e soltava baforadas enquanto lá no fundo, meio nebuloso, meio sfumato à Michelangelo, a imagem de uma senhora às vezes carregando um carrinho com feno, outras tirando a neve da calçada com uma pá. Em miúdos, aquela linda mulher fumando em primeiro plano era a modernidade, contra o fundo de um passado de submissão. Encimando o anúncio do cigarro slims feminino, a frase you’ve come a long way, baby (você vem de longe, garota).
Fumódromo em aeroporto
Mas o apelo do cigarro foi declinando no mundo. Nos EUA, não se fuma senão em lugares como ‘fumódromos’, feitos para isso em locais como aeroportos. Salas lacradas, com má ventilação, de fora dá para se ver a estufa do veneno, todos baforando sem parar. No enorme campus Universidade de Richmond, em lugar algum se fuma. Em NY, jogar bituca na rua dá multa e as pessoas quando se conhecem costumam perguntar: are you a smoking person? (você é fumante?), o que pode encerrar ali mesmo qualquer conversa ou futura relação, caso uma delas seja fumante.  Fumar passou a ser um vício caríssimo: a média nacional do preço de um maço nos estados chega a US$ 8.50, ou R$ 33,00. Em NY, US$ 10.85, ou R$ 42,31 cada (e há quem fume dois ou três por dia!). É para frear mesmo o tabagismo. Até estancar.
Portal:  drauziovarella.uol.com.br
Um conhecido artista e figura notável cujo nome prefiro guardar por não ter a matéria comigo, disse que de todos os vícios o do cigarro é o pior. Mata, mas não traz sequer prazer ou ilusão como outras drogas, a exemplo da heroína. Curto e grosso. O Dr. Dráuzio Varella alertou que já teve pacientes de enfisema que fumavam pelo orifício da traqueotomia no pescoço, tamanha a angústia da abstinência. E também já viu muitos morrerem por tabagismo, mas maconha, nunca, sempre bem embasando suas opiniões. Conheci um senhor, músico, que estava fazendo radioterapia, o câncer havia tomado os dois pulmões. Só tinha um desejo, disse, doutor, quero fumar, nem que seja a última vez. O médico comprou-lhe um maço, fechou a varanda do quarto para não entrar fumaça e deixou-o lá fora, entregue ao prazer do vício, à sombra da morte.
Foto de  Proibindo o Proibidão (créd.: veja.com)
Escrevi há dois anos um artigo de três páginas sobre o funk, Proibindo o Proibidão, para uma revista de circulação nacional. O senador Romário seria o relator (e era voto contra) de um projeto de lei ridículo que visava a proibir bailes funk, pois neles que corriam soltos drogas, sexo livre, prostituição de menores e todos os males de que o mundo padece. Ou seja, queriam proibir o efeito apenas, o sintoma, sem atacar a doença. O projeto foi engavetado e nem entrou em pauta de votação.
Agora, o país se vê na iminência de ver baixarem o valor do IPI, imposto que encarece o cigarro em 80%, a pretexto de combater os terríveis contrabandeados. Não é preciso ser especialista para vislumbrar que o ilícito continuará, os contrabandistas também baixarão o preço, a margem de lucro dos envolvidos já é enorme. Mais barato, o apelo do cigarro será maior, e fumar será mais acessível para adolescentes. A medida é um presente bilionário que engordará as grandes indústrias e o agronegócio do ramo, são 16 bilhões anuais em vendas contra 57 bilhões gastos direta e indiretamente em saúde. Termino este artigo da mesma forma que concluí o texto sobre o funk. Há uns 20 anos, um congressista tentou lançar um projeto de Lei para lacrar os porta-malas de carros, pois era ali que trancavam sequestrados. Como querer acabar com o crime proibindo bailes funk, ou o contrabando de cigarros reduzindo o IPI. Seria dourar a pílula sem curar os males.


segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O MEDO



Talvez a representação plástica mais impactante sobre o medo seja a obra-prima O Grito (1893), do norueguês Edvard Munch. Seduzido pelas portas maravilhosas que o simbolismo lhe abria de maneira bem pessoal, Munch também foi influenciado pelos expressionistas alemães. Mas que mistério inominado teme a figura retratada por Munch? 
Para mim o quadro remete a figura concreta, uma fotografia: a da menina Kim Phuc, sem roupas e desesperada, tentando fugir do ataque de bombas Napalm na guerra do Vietnã. Em O Grito, a boca escancarada, as mãos espalmadas sobre faces e orelhas, um cenário de linhas sinuosas como fossem as ondas sonoras do berro incontido. Para maior impacto, Munch pintou nuvens como representação de sangue: dor.
Quem tem Medo de Virginia Woolf? (1962) é o título de uma peça do grande teatrólogo americano Edward Albee. Aborda os conflitos de um homem e uma mulher de meia-idade com seus convidados, um casal de jovens. O título é uma blague com o nome da escritora Virginia Woolf (1882-1941) sobre Quem tem Medo do Lobo Mau (‘Who’s afraid of the Big Bad Wolf?), de ‘Os três Porquinhos’, desenho animado infantil de Walt Disney.  
Clarice Lispector passeia com Freud e Kierkegaard (“a angústia é a vertigem de liberdade”). Especialmente no filósofo dinamarquês, trava-se o embate entre medo e liberdade, duas faces opostas ligadas à raiz de uma mesma origem. Se Freud separou medo, susto e angústia, cada um com seus signos, Clarice os uniu, tornando essa trindade coesa e apavorante, praticamente um sentimento uno em sua obra, na qual passeiam a ‘condenação à liberdade’ de Sartre e Kafka, em seu livre mas amargo mundo surreal interior.
Milton Nascimento, na brilhante Caçador de Mim (1981, nos estertores da ditadura), falou sobre ignorar o medo: “Nada a temer senão o correr da luta / nada a fazer senão esquecer o medo, medo / Abrir o peito à força numa procura / fugir às armadilhas da mata escura...” É um desafio de peito aberto ao medo, o enfrentar a luta como inevitável. Mas Jobim, como sempre, prefere seu lado dócil e enamorado: “...teus olhos morenos / me metem mais medo / que um raio de sol”.
Jackson do Pandeiro curte à moda bem faceira a simplicidade e a pureza de seu medo, o de perder um amor: “A ema gemeu (...) / será que é o nosso amor, ó morena / que vai se acabar? / Você bem sabe que a ema quando canta traz no meio de seu canto um bocado de azar / Eu tenho medo, morena / eu tenho medo / (...) desse amor se acabar”.
O medo é como venda nos olhos e abismo na estrada de um povo. Ele não pensa, só teme as consequências, meio caminho da espiral da alucinação. Já o líder que mostra destemor é um chefe a ser respeitado. Bom exemplo foi um certo discurso meio xoxo de JK a um público apático. Meu pai, secretário de imprensa da Presidência e responsável por muitos textos palacianos, achou por bem arriscar num pedaço de papel colocado no bolso do paletó de JK uma frase de impacto, de inspiração bíblica e volta e meia lembrada: “Deus poupou-me o sentimento do medo!” JK bradou-a com tamanha verve e convicção que o público saiu da letargia e irrompeu em sorrisos e aplausos solidários. Havia medo: houve ameaça de golpe logo na posse, malograda com a presença do Mal. Lott, as fracassadas revoltas militares de Aragarças e Jacareanga. Havia razão de sobra para o medo, que só viria a se impor como todo-poderoso sistema após 1964, alguns anos depois.
Restos de armênios
Existe medo maior do que aquele sentido nos corredores da morte? O que vinha do odor  dos campos de Auschwitz, Treblinka e Sobibór? Dos armênios durante o genocídio pelos otomanos de 1,5 milhão de seus irmãos de sangue? Ora, no Vietnã oficiais americanos faziam vista grossa para injeções de morfina (e mesmo heroína) nos soldados, o ‘front’ se transformava em um espetáculo indolor, pleno de cores e delírios. Já os inimigos foram mortos a seco, a dor perfurando as tripas e o fundo d’alma.
O Brasil sempre foi pródigo em períodos de medo: os massacres da colonização, a escravatura, as chibatadas e punições sem lei, as matanças de índios, as crueldades contra os inconfidentes, o esmagar com sangue nos olhos diversas revoltas populares. A mais longo termo, as ditaduras, como as de Floriano, Getúlio e a de 1964. O medo era real até nos sonhos, como aquele retratado por Chico: “Acorda, amor / eu tive um pesadelo agora / sonhei que tinha gente lá fora / (...) Era a ‘dura’, numa muito escura viatura...”. O medo do número crescente de prisões, torturas, medo de sair na rua, a angústia de estar sem saber próximo do que se chamaria ‘síndrome do pânico’, assídua nos divãs de psicanalistas e consultórios de psiquiatras de hoje, transtorno cada vez mais comum entre os cidadãos: o fim da estrada é simplesmente o terrível medo de ter medo (a literatura sobre a síndrome em todos os idiomas é vasta).
Impor o medo é estratégia tão antiga quanto o próprio homem. Resume Macchiavelli, em O Príncipe (XIX.12): “O príncipe que quer conservar seu domínio às vezes é instado a praticar o mal”. Seja pela força bruta, aliada a outras ferramentas de molestamento físico e mental, seja pelo cerceamento do cidadão, cada vez mais podado em sua opinião e arbítrio. Imagem impiedosa é ficcionalmente estampada em Alphaville (1965, filme de Jean-Luc Godard), um lugar onde sentimento e amor eram vetados. Há também 1984, de George Orwell, texto de 1949 que espelha o doloroso perigo do império nazista, então já derrocado.
Disse Nelson Mandela: “Aprendi que coragem não é ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O homem de bravura não é o que não sente medo, mas o que o conquista”.


terça-feira, 26 de setembro de 2017

AUTRAN DOURADO, ROMANCISTA. Pai, herói e amigo - Parte I


Casa onde nasceu
(Trinta de setembro. Cinco anos que partiu!) O velho Autran não era muito de conversar sério, mas com seu jeito zombeteiro conseguia entremear conselhos sábios, tiradas filosóficas e usar a aguda visão política de um rapazola que fora inscrito no Partidão, de onde saiu por perceber que a ‘patrulha’ queria interferir em sua literatura. Viveu com os pés no barro de quem foi muito Brasil, desde as Minas Gerais de sua Monte Santo, que inspirou a mítica cidadezinha de Duas Pontes, recorrente em seus livros. Aos 19 já publicara um livro, porém a mim ensinou a não tentar ser precoce na vida, repetindo a lição que lhe havia sido dada pelo escritor Godofredo Rangel, que seguiu à risca desde o início. Não seja precoce, seja perseverante, obstinado, dizia – uma formiguinha, analisou um crítico há alguns anos, conforme veremos adiante.
Com Hélio Pellegrino e Maria Urbana, sentados no sofá
As conversas com os amigos, especialmente os que frequentavam nosso apartamento em um predinho de três andares sem elevador, se eram entre risadas com o Otto Lara Resende ou o Hélio Pellegrino, pareciam ser mais sérias nas domingueiras com Clarice Lispector, quando o assunto passeava por Schopenhauer, Goethe e Kafka. Mais tarde eu iria me iniciar nas leituras dos grandes pensadores da esquerda ‘real’, levado, como o pai no passado, pelo canto da Lorelei que, à beira do rio Reno alemão, com seu corpo deslumbrante e voz virtuosa atraía barqueiros pela sua formosura. Inebriados pelo uivo, digo, canto do vento em uma reentrância das margens do rio, os barqueiros eram lançados para dentro de um grande vão nos rochedos, e suas embarcações espatifavam-se contra as pedras, fazendo-os vítimas de suas próprias ilusões. A minha Lorelei, no caso, era o fim das torturas, a liberdade intelectual e artística e a justiça social.
Momento solene: JK, Israel Pinheiro (de pé), e Autran Dourado (óculos, à direita)
Nomeação de Pinheiro para a presidência da NOVACAP, empresa que construiu Brasília

Pois minha atração pela vigiada esquerda estudantil daqueles tempos não via a risca tênue a separá-la do ingresso em uma revolução visionária. Era tudo a que se resumia na época a vida dos jovens sonhadores, tal qual acontecera com meu pai. Um dia, em Petrópolis, ele me convidou para um chopinho no tradicional D’Angelo. Lá, falou sério sobre sua vivência, primeiro taquigrafando falas do Luís Carlos Prestes na Assembleia de Minas. Mostrou também a sabedoria acumulada nos tempos de JK, de quem foi Secretário de Imprensa. Contou sobre sua longa ‘sala’ para – sim, ele mesmo, meu então ídolo - Che Guevara.
Não foi carrancudo em um pedestal, nem foi com intenção de me desmontar, do alto de sua experiência, apenas usou a tática correta, quem sabe remanescente de seus estudos dialéticos. Falou-me da expressão “democracia y libertad”, que ouviu incontáveis vezes de um verborrágico Guevara durante horas a fio, prática dos sermões em forma de discursos do comandante Fidel.
Em um duplo movimento, ‘roque de xadrez’, o pai se aproximava do filho ombro a ombro, mostrando como aquele canto da sereia atraía os jovens para o enfrentamento da ditadura. Lembro-me especialmente de ter ouvido a expressão “bucha de canhão”: enquanto a juventude era presa, torturada e às vezes morta, os “velhos” – alguns bastante conhecidos – ficavam encastelados no controle como em um videogame, preservando-se com a desculpa de serem a ‘inteligência’ da luta armada, que haveria de prosseguir e vencer. Começou a cair ali, na chopada, meu sonho irrealizável. (Alguns dos seduzidos pela cantilena da luta: jovens como Dilma, Dirceu e Gabeira). 
Viaduto Paulo de Frontin
Fora essas raras lições, falava dos livros, da necessidade de ler, uma enfermidade sadia que contaminou seus quatro filhos. Ontem mesmo, na rua, pensando em Dom Casmurro, do Machado, lembrei-me de mais uma frase lapidar que meu pai proferiu. Eram tempos pós-tragédia da Paulo de Frontin, no Rio (“Caía a tarde feito um viaduto”, pensei nos versos do Aldir Blanc), e afirmou que se todo mundo lesse Machado de Assis menos viadutos cairiam, menos pessoas morreriam na mesa de cirurgia. Hoje arrisco, com o beneplácito dele de lá de seu merecido descanso, que menos corrupção haveria!
Machado de Assis, nosso escritor maior, como o chamava, era seu porto seguro. Entre outros, alternava o carioca com Flaubert, Joyce e Faulkner. E passava horas lendo, e em algum momento e lugar inesperados a “ideia súbita” (não acreditava em inspiração) lhe surgia. Primeiro, ia anotando tudo em taquigrafia ­– a espanhola, mais rápida, dizia, com uma ponta de orgulho -, aprendida nos tempos da Assembleia de Minas.
Era taquigrafando que anotava detalhes em cartõezinhos que levava nos bolsos, peças do quebra-cabeça com que arquitetaria um futuro livro. Uma vez traçados os contornos principais da nova obra, punha-se a escrever desesperadamente, como se estivesse ficando – ou evitando ficar, sei lá – louco. E tudo isso com uma rotina metódica, um trabalho de carpintaria, dizia ele. Sua confidente era minha mãe, Lucia, que lia seus originais, e ele não mais costumava comentar sobre o que estava fazendo. Apenas uma vez perguntou-me se havia uma sonata em Fá de fulano (não me lembro a quem ele se referiu), e eu disse que sim. Achou bonitas as palavras, pois embora gostasse de música não era nada chegado à teoria, títulos e afins. Apenas ouvia. E usou a tal sonata em um texto, soava bem, pareceu-lhe.

Depois que terminava de escrever uma obra, a ressaca. Um dia ouvi uma frase do Jorge Luis Borges, o livro só acaba quando está impresso. Pura verdade que eu só vim a confirmar mais tarde, em minhas teses e livros técnicos, que só dei por terminados depois de vê-los impressos, seguros nas mãos. Coisa de formiguinha, pai! (Continua na próxima semana)

domingo, 9 de outubro de 2016

A IMPORTÂNCIA DA ESCOLHA

Meryl, esplêndida e premiada
A Escolha de Sofia é um livro de autoria do norte-americano William Styron, também conhecido por seu Darkness Visible (mal traduzido para Perto das Trevas). Em "Darkness", narra sua luta contra a depressão bipolar - ora na mania, quando se sentia eufórico e poderoso, ora no fundo do poço. Nesse percurso, pródigo em pensamentos suicidas, escolhe enfrentar o inferno e afinal encontra a sonhada cura. Um relato digno de suas melhores narrativas. Lembra a música do filme “M.A.S.H.”, de Altman, sobre a escolha maior: “suicídio é indolor / e traz muitas mudanças / e eu posso pegar ou largar se eu quiser”.
O inferno de Aushwitz
Escolha de Sofia talvez tenha sido seu livro mais vendido e apreciado, um romance bem nova-iorquino. Publicado em 1979, trata do relacionamento entre três pessoas que dividem um quarto em uma pensão no Brooklyn, bairro com grande população judaica. Um aspirante a escritor vindo do sul se relaciona com um judeu e sua amante polonesa, Sophie, católica que foi levada à força com suas crianças ao campo de Auschwitz na II Guerra, mas escapou. Especialmente após o filme homônimo estrelado pela excelente Meryl Streep, Styron tornou-se figura controversa por causa de sua visão pessoal sobre o Holocausto, tida como não muito politicamente kosher (diria, em hebraico,).
Cecília Meireles
Falando de literatura, lembro "Escolha o seu Sonho" da nossa Cecília Meireles. Nesse livro, a autora borda com habilidade sobre palavras que ilustram seu sentimentos de felicidade, o lado onírico (dos sonhos), a solidão e a escolha de sonhar como caminho da felicidade. Esboça críticas a diversos pensamentos relativos à liberdade, à morte, aos ideais cívicos da França revolucionária (Liberté, egalité, fraternité) e ao nosso “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”, do Hino da Proclamação da República, letra de Medeiros e Albuquerque com música do grande Leopoldo Miguez.
Leopoldo Miguez
O Hino de Miguez havia sido o grande vencedor do concurso para escolha do Hino Nacional Brasileiro. O resultado do certame, contudo – ouvido o “clamor popular” por Deodoro - foi alterado para dar lugar ao atual, de Francisco Manuel da Silva com letra de Osório Duque Estrada (incorporada oficialmente apenas em 1922). Havia escolha em “ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil” no Hino de Miguez, embebido nos mesmos ideais positivistas do “Ordem e Progresso” e nos pensamentos maçônicos que vieram do Império, atravessaram a Proclamação e permearam a República.
E eis Cecília Meireles refletindo sobre sua escolha do dia: "Hoje eu queria ler livros que não falam de gente, mas só de bichos, de plantas, de pedras: um livro que me levasse por essas solidões da natureza, sem vozes humanas, sem discursos, boatos, mentiras, calúnias, falsidades, elogios, celebrações..." As angústias da nossa genial Cecília Mereles vêm de sua infância no Rio, e suas inquietudes a levaram a escrever um dos poemas mais lindos da nossa língua: O Romanceiro da Inconfidência, em que narra a epopeia de Tiradentes. 
Escolha é palavra recorrente na Bíblia, e tem diversos significados: está em Mateus, 22: 14 “Portanto, muitos são chamados, mas poucos, escolhidos!” (da Bíblia de João Ferreira de Almeida, primeira tradução para o português diretamente dos três idiomas das escrituras sagradas. A do Antigo Testamento foi concluída por Almeida em 1681 e o conjunto dos volumes impressos apenas em 1819). Os escolhidos serão os contemplados com a graça divina.
Nos evangelhos, o verbo escolher e suas conjugações têm um sentido todo especial. “Maria escolheu a parte certa, que não lhe será tirada”, em Lucas 10:38, refere-se ao estado contemplativo, de encontro em patamar superior com o Pai. Marta reclamou ao Senhor que Maria só fazia contemplá-lo, ao passo que ela, sozinha, cuidava dos afazeres da casa. Muitas traduções interpretam a resposta de Cristo como “a melhor parte”, mas a expressão não sugere a mais preguiçosa ou proveitosa? Não, é mais correto ‘a parte certa’, a contemplação do Senhor (agathen merida, em grego, a segunda palavra com diversos significados). Conheci um professor doutor em Teologia da Universidade de Chicago que dominava os três idiomas das Sagradas Escrituras: aramaico, grego e hebraico, a depender do Testamento e do livro. Ele me esclarecia muitas dúvidas quanto ao sentido das passagens e as traduções corretas, mas infelizmente perdi o contato.  
Há a opção dos indecisos: quem nunca brincou de “uni duni te, salame minguê, um sorvete colorê, o escolhido foi você”? Joga-se aí ao acaso alguma opção pouco previsível a depender do número de possibilidades e do objeto com que se inicia a contagem. Ah, e o bem-me-quer, mal-me-quer de criança, despetalando uma margarida, das primeiras brincadeiras de sonhos de amor infantis, plenos de inocência!
Julio Cesar no Rubicone
Aleatória é palavra vem do grego alea, sorte - haja vista a famosa frase alea iacta est, usada em latim pelo grande Imperador Julio César ao decidir atravessar o rio Rubicone, entre a Itália e a antiga Gália Cisalpina. Na música aleatória (aqui, alea: sorte, acaso), os elementos temáticos, rítmicos e estruturais (combinados ou em sua totalidade) são escolhidos ao acaso pelo intérprete. Conhecida na época como música de vanguarda, teve como marco o Music of Changes (1951), de John Cage, mas experiências já haviam feitas por Mozart (séc. 18) e mesmo Rameau (séc. 17/18)!


Saber escolher é uma virtude. Muitos preferem o conformismo, o “seja o que vier”, como Julio Cesar, lançando sua tropa ao rio Rubicone. Fazer escolhas conscientes, sem jogar ao acaso, ao subjetivo ou à paixão, é que leva na maior parte das vezes ao acerto e ao sucesso. 

(Abaixo, Escolha de Hércules. 2 árias do Oratório Hércules. G. F. Händel)