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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

UM OUTRO PAPAI NOEL

Estácio de Sá (foto Museu da República)

“Nasci no Estácio / fui educado na roda de bamba / fui diplomado na escola de samba / sou independente, conforme se vê” (“O ‘X’ do problema”). Em 1910, no Estácio de Sá, um menino nascia a fórceps, parto delicado, com uma hipoplasia para complicar. Franzino, o queixo atrofiado moldou-lhe o perfil, a marca registrada. Na pia, foi batizado Noel. Aos 21, por pressão da família, ingressou na Faculdade de Medicina (hoje da UFRJ), mas sua educação e diploma vieram mesmo das rodas da boemia e do samba. Abandonado o curso, a música era carreira e ambiente: o Estácio foi o berço da Deixa Falar, primeira escola de samba, e Noel era apaixonado pelo ritmo.
Noel e Vadico
O Rio dos anos 1920, até a morte de Noel por tuberculose, em 1937, foi o cenário em que o sambista ergueu sua vasta obra: em pouco mais de dez anos de atividade compôs perto de 300 músicas. Fugia dos parnasianismos do passado, e seu bordado de frases, palavras e rimas são de uma simplicidade que só os gênios conseguem elaborar com tanta beleza. Era amoroso por natureza, mas combativo quando queria. Parceiros e letristas, quando não ele mesmo o poeta, afinavam com suas concepções: Vadico, principalmente, e João de Barro, o Braguinha.
Noel (Pinterest)
(Conta o folclore que Noel, já tuberculoso, estava em um bar da Lapa, após os funerais de sua mãe. Vestia uma camisa florida, até que alguém passou e o reprendeu, deveria estar de luto! Rapidamente o compositor, bom no taco que era, saiu-se com essa: “Luto preto é vaidade / neste turbilhão de dor / o meu luto é a saudade / e saudade não tem cor”. Noel também foi visto bebericando conhaque e tomando cerveja, e alguém o alertou que, tuberculoso, não deveria beber. Noel respondeu que seu médico realmente o havia proibido, e o advertiu: se não conseguisse resistir, que fosse pouco, e muito bem alimentado. “Gosto de conhaque. E como dizem que cerveja alimenta...”)
Operários, por Tarsila do Amaral
O pai do novo samba fazia a crônica do Rio, como na singela “Três Apitos”, imortalizada mais tarde por Gal Costa: “Quando o apito da fábrica de tecidos / vem ferir os meus ouvidos / eu me lembro de você”. Segue-se uma pitada - para a época – de crítica social, retrato da nova revolução industrial brasileira, como fez a artista plástica Tarsila do Amaral em sua obra “Operários”: “Você que atende ao apito / de uma chaminé de barro / por que não atende ao grito tão aflito / da buzina do meu carro”.
Noel, com o garçom: imortalizado em Vila Isabel
Bom cronista, Noel retratava o cotidiano do Rio de Janeiro fosse na Vila Isabel, no Estácio ou na Lapa boêmia. Da primeira, fez o quinhão carioca na sua ótica da divisão produtiva nacional em “Feitiço da Vila”: “...São Paulo dá café / Minas dá leite / e a Vila Isabel dá samba”. Descrevia o cotidiano com perfeição, a exemplo de “Conversa de botequim”, parceria com Vadico: “Seu garçom, faça o favor / de me trazer depressa / uma boa média / que não seja requentada / um pão bem quente / com manteiga à beça / um guardanapo / e um copo d’água bem gelado”.
As harmonias de Noel eram simples, sem encadeamentos complexos ou dissonâncias, e ele as trabalhava com invulgar preciosismo. Bom exemplo é a alternância de tonalidades maiores e menores, contrastes entre sentimentos alegres ou tristes, como em “Último desejo”, em tom menor: “Nosso amor, que eu não esqueço / e que teve seu começo numa festa de São João / morre hoje sem foguete / sem retrato, sem bilhete / sem luar, sem violão”. Já em tom maior, a falsa alegria que logo cede à tristeza, à realidade que o autor buscou fantasiar: “Se alguma pessoa amiga / pedir que você lhe diga / se você me quer ou não” – mas a melancolia foi mais forte, e se impôs em tonalidade menor: “Diga que você me adora / que você lamenta e chora / a nossa separação”.  
Com Nana Caymmi

Compositor genial, ninguém pode negar, talvez nosso sambista maior. Queixo quase ausente, chapéu, cigarro no canto da boca mesmo quando cantava. Suas gravações originais, dada a precariedade dos equipamentos da época e provavelmente a anomalia maxilar, registraram aquela voz anasalada, nada suave. Todo artista brasileiro que se preza gravou Noel, de Jobim a Duardo Dusek, de Nélson Gonçalves a Luís Melodia, de Aracy de Almeida a Gal Costa. Mas era João Nogueira quem cantava Noel com maior admiração, de quem dizia ser o maior sambista de todos os tempos.
A turma da bossa nova
Pelo intimismo e a influência que exerceu por décadas, mesmo após falecido, Noel poderia ser visto como um pai da bossa nova. À frente algumas décadas, faltavam apenas a influência do jazz e do impressionismo francês, como Jobim, e a batida do João Gilberto. Deu régua e compasso a Chico Buarque, especialmente nas canções do início, e até surge, lembrança importante, em “Rita”: “...levou seu retrato, seu trapo, seu prato, / que papel! / Uma imagem de São Francisco / e um bom disco de Noel”.
César Ladeira
César Ladeira, radialista famoso que recebeu o epíteto “a voz da revolução constitucionalista”, autor de cognomes como “a pequena notável” e “o rei da voz”, para Carmen Miranda e Francisco Alves, deu a Noel Rosa o título de “filósofo do samba”. Noel sabia ser bom de disputa, mas sem perder a sutileza e a sabedoria de um “filósofo”. Exemplo foi a riquíssima contenda musical com Wilson Baptista, quando lhe deu essa de troco: “Quem é você que não sabe o que diz / meu Deus do céu, que palpite infeliz / (...) pra que ligar a quem não sabe / aonde põe o seu nariz / quem é você, que não sabe o que diz”.
Pai da MPB, filósofo do samba, esteio e arrimo da bossa nova, salve Papai Noel Rosa!

sábado, 6 de abril de 2019

“...E UM CIGARRO PRA ESPANTAR MOSQUITO

Noel Rosa

/ vá dizer ao charuteiro / que me empreste uma revista / um isqueiro e um cinzeiro”. Noel Rosa (em parceria de 1935 com Vadico), embora médico de formação, era um fumante inveterado. Fumava tocando e até mesmo cantando, com o cigarro no canto da boca ou entre os dedos anelar e médio da mão direita. Neste samba, Conversa de Botequim, fala um exigente freguês de um ambiente que Noel conhecia bastante bem, o boteco. Sempre um cigarro e a caixinha de fósforos à guisa de instrumento de percussão na roda da mesa pelas mãos de muitos sambistas, como Cyro Monteiro.
Jean-Paul Belmondo
Frida Kahlo, Jean-Paul Belmondo, Cid Charisse, Marlon Brando, James Dean, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, uma legião de artistas e intelectuais carregava o charme nada discreto do cigarro sempre à boca ou às mãos. Clarice por pouco não morreu, em 1967, quando caiu dormindo, como de costume. Jogou-se sobre a cama, cigarro na mão, e logo veio o fogo nos lençóis. Queimaduras na mão e pelo corpo lhe deixaram marcas, mais uma cicatriz da memória já flagelada daquela menina judia ucraniana que terminou no Brasil para tornar-se uma brilhante e amada escritora e intelectual brasileira.  
O cigarro era acessório tão charmant que, em 1970, Gérson, estrela do tricampeonato mundial de futebol, foi convidado para atuar em um comercial, hoje de triste memória. Na TV, ele afirmava que “o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo”. Propaganda cujo lema, para infelicidade do tricampeão, virou sinônimo de pilantragem, falcatrua – a Lei de Gérson. Foi péssimo para a imagem do jogador, o estigma nunca o abandonou.
No final daquela década, outra propaganda de uma marca famosa de cigarros, dessa vez trazida dos EUA, mostrava um caubói-galã, ‘o homem de Virgínia’, fumando montado em um lindo cavalo. Associava o cigarro à virilidade, e de tabela a um certo prazer fálico. Em outro anúncio americano, uma linda mulher, encostada em um carro e fumando com uma piteira, fazia bico e soltava baforadas enquanto lá no fundo, meio nebuloso, meio sfumato à Michelangelo, a imagem de uma senhora às vezes carregando um carrinho com feno, outras tirando a neve da calçada com uma pá. Em miúdos, aquela linda mulher fumando em primeiro plano era a modernidade, contra o fundo de um passado de submissão. Encimando o anúncio do cigarro slims feminino, a frase you’ve come a long way, baby (você vem de longe, garota).
Fumódromo em aeroporto
Mas o apelo do cigarro foi declinando no mundo. Nos EUA, não se fuma senão em lugares como ‘fumódromos’, feitos para isso em locais como aeroportos. Salas lacradas, com má ventilação, de fora dá para se ver a estufa do veneno, todos baforando sem parar. No enorme campus Universidade de Richmond, em lugar algum se fuma. Em NY, jogar bituca na rua dá multa e as pessoas quando se conhecem costumam perguntar: are you a smoking person? (você é fumante?), o que pode encerrar ali mesmo qualquer conversa ou futura relação, caso uma delas seja fumante.  Fumar passou a ser um vício caríssimo: a média nacional do preço de um maço nos estados chega a US$ 8.50, ou R$ 33,00. Em NY, US$ 10.85, ou R$ 42,31 cada (e há quem fume dois ou três por dia!). É para frear mesmo o tabagismo. Até estancar.
Portal:  drauziovarella.uol.com.br
Um conhecido artista e figura notável cujo nome prefiro guardar por não ter a matéria comigo, disse que de todos os vícios o do cigarro é o pior. Mata, mas não traz sequer prazer ou ilusão como outras drogas, a exemplo da heroína. Curto e grosso. O Dr. Dráuzio Varella alertou que já teve pacientes de enfisema que fumavam pelo orifício da traqueotomia no pescoço, tamanha a angústia da abstinência. E também já viu muitos morrerem por tabagismo, mas maconha, nunca, sempre bem embasando suas opiniões. Conheci um senhor, músico, que estava fazendo radioterapia, o câncer havia tomado os dois pulmões. Só tinha um desejo, disse, doutor, quero fumar, nem que seja a última vez. O médico comprou-lhe um maço, fechou a varanda do quarto para não entrar fumaça e deixou-o lá fora, entregue ao prazer do vício, à sombra da morte.
Foto de  Proibindo o Proibidão (créd.: veja.com)
Escrevi há dois anos um artigo de três páginas sobre o funk, Proibindo o Proibidão, para uma revista de circulação nacional. O senador Romário seria o relator (e era voto contra) de um projeto de lei ridículo que visava a proibir bailes funk, pois neles que corriam soltos drogas, sexo livre, prostituição de menores e todos os males de que o mundo padece. Ou seja, queriam proibir o efeito apenas, o sintoma, sem atacar a doença. O projeto foi engavetado e nem entrou em pauta de votação.
Agora, o país se vê na iminência de ver baixarem o valor do IPI, imposto que encarece o cigarro em 80%, a pretexto de combater os terríveis contrabandeados. Não é preciso ser especialista para vislumbrar que o ilícito continuará, os contrabandistas também baixarão o preço, a margem de lucro dos envolvidos já é enorme. Mais barato, o apelo do cigarro será maior, e fumar será mais acessível para adolescentes. A medida é um presente bilionário que engordará as grandes indústrias e o agronegócio do ramo, são 16 bilhões anuais em vendas contra 57 bilhões gastos direta e indiretamente em saúde. Termino este artigo da mesma forma que concluí o texto sobre o funk. Há uns 20 anos, um congressista tentou lançar um projeto de Lei para lacrar os porta-malas de carros, pois era ali que trancavam sequestrados. Como querer acabar com o crime proibindo bailes funk, ou o contrabando de cigarros reduzindo o IPI. Seria dourar a pílula sem curar os males.


sábado, 14 de abril de 2018

A VOLTA DO BOÊMIO

Roda-viva

Lembro-me dos primeiros versos de uma música do Adelino Moreira cujo título acima tomei emprestado: “boemia, aqui me tens de regresso”. Ao assunto: quando famoso, o músico popular é vítima da sanha impiedosa de seus fãs, de que é exemplo aquela matilha ensandecida a devorá-lo, retratada por Chico Buarque na peça Roda Viva. A privacidade passa a ser mera figura de linguagem: artista famoso é patrimônio e objeto da volúpia coletiva. Sua saúde a todos pertence, suas preferências são divulgadas e imitadas – ou condenadas.
Como no Brasil ditaduras acontecem em períodos cíclicos, gente como Chico Buarque foi alvo de perseguição na última delas, o último regime de exceção, quando o cerco ao compositor era tão implacável que ele teve de gravar com o pseudônimo ‘Julinho da Adelaide’. O povo criava e inventava. Com Milton Nascimento, Chico compôs Cálice: “Pai, afasta de mim esse cálice” (‘cale-se’). Empregava sem parcimônia o duplo sentido e os jogos subliminares, a exemplo também do famoso Apesar de Você, samba que dava a impressão de ser dedicado a uma mulher. Vazou, ‘sem querer, querendo’, que era endereçado ao então todo-poderoso Médici. Censuraram no ato.
Amália, Geisel e Lucy
Naquela época, o cineasta e poeta Ruy Guerra escreveu para o Milton uma letra que dizia “brota em guerra e maravilha”, que esmaecia no final - “na hora, dia e futuro da espera virar...” e os mais radicais da plateia completavam com “guerrilha!”, fazendo sua rima. Outro déspota, Geisel, detestava o Chico - foi a deixa para o compositor inventar um roquezinho bem brega, dois acordes e apenas dois versos: “você não gosta de mim / mas sua filha gosta”, já que Amália Geisel havia declarado que era fã das músicas dele. Assim eram os tempos em que se sobrevivia fazendo música. Sobrevivia: conjugação vestida como uma luva.
Chico costumava secar, com os amigos Vinicius e Jobim, pelo menos uma garrafa de uísque com facilidade. O Poetinha, apelido de Vinicius de Moraes, já devia estar meio alto, e em certa roda de amigos em um bar disse, “o uísque é o melhor amigo do homem”. Foi corrigido por um conviva provavelmente sóbrio: é o cão, Vinicius, o cão é que é o melhor amigo do homem! O Poetinha, certeiro, devolveu-lhe com sua aguçada ironia: então o uísque é o cão engarrafado - frase logo celebrizada.
Véspera da estreia da peça Gota D’Água, do Chico Buarque e Paulo Pontes. Ficou difícil para nós, artistas, vermos coerência entre o discurso e a prática do compositor. Os bailarinos ganhavam menos do que um salário mínimo por até, às vezes, doze horas de ensaios diários. Nós, instrumentistas, nos rebelamos contra o descumprimento de acertos verbais e o despotismo dos irmãos produtores. Uma breve paralisação dos músicos, que já haviam decorado e sumido com as partituras, recompôs acordos e acordes e reverteu minha demissão. E eu, na tentativa de dialogar com o Chico, havia exposto o caso e nossas exigências onde o encontrei: um bar logo ali fora do Teatro Teresa Raquel, a tomar seu uísque. Ele disse que aquilo era assunto da produção, ele era apenas o autor – o problema não é meu, ficou claro. Patético. Uma ducha de água fria.
Noel Rosa e Adoniran Barbosa
Bom de samba e de copo, inspirador do Chico, o Noel Rosa de Feitiço da Vila, Conversa de Botequim e Com Que Roupa, foi flagrado em um boteco da velha Lapa carioca tomando cerveja e conhaque. Alguém passou e o repreendeu, dizendo-o irresponsável, pois sabia que Noel convalescera de uma tuberculose. O compositor riu e respondeu que seu médico o proibira terminantemente de beber, mas caso a teimosia fosse tanta, que ao menos bebesse pouco e bem alimentado. Noel disse que saiu para tomar um conhaque, e “já que se sabe que cerveja alimenta...”
O sambista quase não tinha queixo – as más línguas diziam que era para os goles descerem mais rápido –, suposta manobra de um fórceps barbeiro durante o parto, e foi flagrado em um boteco logo após o enterro de sua mãe. À vontade, camisa colorida, dedicava-se ao seu esporte predileto, o halterocopismo, levantamento de copo. Alguém disse que aquilo era um absurdo, ele deveria estar recolhido em luto. O sambista improvisou: “luto preto é vaidade / neste turbilhão de dor / o meu luto é a saudade / e saudade não tem cor”.
Madame Satã
Outro bom de samba, Geraldo Pereira, autor de Falsa Baiana e Acertei no Milhar, foi frequentador assíduo dos muquifos e bordéis da Lapa carioca e cercanias. Adepto da chamada “mardita”, brigava quase sempre depois de mamado - jargão da malandragem – e com quem estivesse na frente, fosse homem, mulher ou travesti. Em consequência de uma dessas querelas, Geraldo foi assassinado, em 1955, por um violento murro no fígado desferido pelo lendário Madame Satã, folclórico pederasta do bas-fond carioca. Com Satã ninguém mexia, ele devia ser o próprio demo encarnado.

Como Noel e Geraldo, Nelson Cavaquinho raramente se afastava de um copo. No final da gravação de Pranto de Poeta, do Cartola, autor dos lindos versos “em Mangueira quando morre / um poeta todos choram”, promoveu-se no final da música um afago entre os dois sambistas: Cartola disse obrigado, Nelson, ao que este respondeu “ovligado, Gardola”. Na segunda tentativa melhorou, mas ficou no disco, voz arrastada. Nascido muito pobre, Nelson construía toscos instrumentos com caixas de charutos, fazendo de arames as cordas. Mais tarde, quando teve seu primeiro violão ‘de loja’, usava afinação  mais baixa, não se conformava com a tensão das cordas e  sonoridade, estridente para ele. Afinal, estava acostumado à caixa de charutos e aquele som fanhoso dos arames frouxos, roucos como a voz dele!
Um instrumento de caixa de charutos, de três cordas, bem mais sofisticado, com os "cortes em 'F'" dos violinos 


sábado, 10 de fevereiro de 2018

ERAM OS MÚSICOS ASTRONAUTAS?


O estigma de artista de vida romântica, no amplo sentido, sempre perseguiu o músico, independentemente da época em que tenha vivido. A imagem estereotipada do compositor ou instrumentista solitário, maluco e quase tísico povoa a imaginação geral. Talvez por causa da loucura do alemão Robert Schumann (séc. 19), da surdez, boemia e demência final de Beethoven (1770-1827), a morte precoce e abandonada do gênio Mozart (séc. 18) ou a cólera de Tchaikovsky (séc. 19), que para completar a sina era gay, e no regime da Rússia czarista! Tristes finais também tiveram Bach, Händel e Schütz, que morreram cegos, Chopin e Paganini, tuberculosos, e Mussorgsky, que “nadava de braçadas” na bebida.
Paganini, aliás, além de bêbado contumaz era um jogador compulsivo. No começo da carreira chegou a deixar seu violino em uma casa de penhores para alugar um fraque, mas foi jogar e, claro, perdeu tudo o que pegara emprestado. Pediu a um amigo um violino e um traje de gala, mas com o dinheiro do cachê do recital voltou à jogatina e perdeu tudo.
Essas imagens não diferem muito daquelas do nosso Noel Rosa (1910-1937), 350 músicas, morto de tuberculose aos 26 anos. Protagonista, aliás, além de extenso anedotário, de um riquíssimo embate musical com o sambista Geraldo Pereira, assassinado com um soco na barriga em um bar. Passam, também, pela imortal Billie Holiday, rainha do blues viciada em heroína, bem como Janis Joplin, e Jimi Hendrix, o guitarrista-mito do rock que solava seu instrumento até com a língua e volta e meia ateava fogo na guitarra, sobre o palco, sem falar na recente Amy Winehouse. Todos vítimas, de um jeito ou de outro, de overdose de entorpecentes (ou sufocado pelo próprio vômito, como Hendrix, após os homéricos excessos).
Somem-se ainda o saxofonista John Coltrane, os nossos “maluco beleza”, Raul Seixas, e a divina “Pimentinha”, Elis Regina. Steve Tyler, da banda Aerosmith, contou que a droga era estimulada pelos próprios empresários, em busca de maior impacto de seus artistas em cena. Disse também que, enquanto os músicos ficavam na cama, entorpecidos pelos excessos, eram roubados pelos próprios agentes. Sem falar na praga dos novos tempos, a Aids, que levou Freddie Mercury, Cazuza e Renato Russo, do grupo Legião Urbana.
O baixista Sid Vicious, do grupo inglês de “punk-rock” Sex Pistols, morreu quase adolescente, aos 21 anos. Provocador, volta e meia apanhava de alguém mais exaltado, como aconteceu nos EUA, quando teve a cara quebrada por uma mulher ensandecida – mas prosseguiu o show com sangue escorrendo pelo nariz. Seu vocalista bradava ao microfone “é um circo vivo!” Certo dia, ao acordar e sem se lembrar da noite anterior, Sid deparou-se com o corpo de sua companheira Nancy coberto de sangue. Como se não bastasse, ele foi encontrado morto por overdose.
Aeroporto de Heathrow
A mãe de Sid mandou cremar-lhe o corpo, mas escorregou e caiu com a caixa em que levava as cinzas num dos saguões do aeroporto de Heathrow, em Londres, deixando escorrer parte dos restos mortais pelas frestas do sistema de calefação. Sid foi “colega de escola” de Kurt Cobain, do grupo Nirvana – que tinha mais de calvário do que da libertação budista do título do conjunto: suicidou-se com um tiro na cabeça aos 27 anos.
Jacqueline Du Pré
Ilustrando o retrato do músico sofrido, a violoncelista Jacqueline Du Pré foi acometida de esclerose múltipla, doença degenerativa que a levou à morte em 1987, no esplendor de uma carreira sem precedentes. O célebre violinista israelense Itzhak Perlman, quando criança, queria ser jogador de futebol. Mas o destino o fez vítima da poliomielite, teve de passar às muletas e cadeira de rodas, decidindo-se pelo violino, do qual é um dos gigantes vivos. O guapo cantor Julio Iglesias queria ser goleiro do Real Madrid, até que aos vinte anos sofreu um acidente de automóvel e quase perdeu os movimentos. Pois foi no hospital que ele começou a cantar para outros doentes e enfermeiras, acompanhado de seu violão. Já deve ter batido a casa dos 250 milhões de discos.
Nasceram cegos Stevie Wonder, Ray Charles e Andrea Bocelli. Um inovador da harmonia jazzística, Django Reinhardt, com defeitos congênitos na mão, criou seu sistema pessoal nos acordes da guitarra. (Todos esses, ressalto, souberam explorar suas virtudes e até mesmo seus defeitos pela melhor música).
Uma vez popularizada essa pecha de loucos e judiados dos músicos, pesquisadores passaram olhá-la com atenção. No 1° Encontro Latino-americano de Trombones, em 1999, alguns deses schollars estiveram presentes, e ao menos duas palestras versaram sobre o tema: O Trombone e suas Conexões com a Psiquiatria, com o Dr. Sérgio F. Rocha, e As Síndromes do Trombone, pela Dra. Dorotéa Malheiros.
Aliada a essa fama de boêmios, doentes e marginalizados frequentemente emprestada aos músicos de forma genérica (são poucos entre incontáveis), existe uma outra faceta do carma, que é ter de passar inúmeras horas do dia sozinho, praticando ou escrevendo, dedicando-se com afinco ao aperfeiçoamento técnico, praticando exaustivamente para que as notas que escrever ou extrair de seus instrumentos afaguem o coração de seus ouvintes. À parte um tipo menos louvável de estrela sem maiores méritos que, frustrado, vê as pessoas na plateia mais interessadas no ‘mauricinho’ ou ‘patricinha’ ao lado nos shows. 
[Alerta: este é um retrato de tristes exceções, em meio a incontáveis músicos, 'modelos' que não devem ser seguidos: a demência é triste, e álcool e drogas atrapalham os estudos sérios e a execução. Exemplos mesmo, neste texto, são os que servem de estímulo aos que possuem defeitos físicos ou se veem privados de algum sentido ou movimentos para se realizarem como músicos na vida!]
(Continua)



sábado, 9 de setembro de 2017

SAUDADE, SAUDADAR

Reza a lenda que saudade é palavra que só existe em português, e, nas águas do nosso ufanismo hoje meio em baixa, só cá no Brasil. Mas ela também existe em outras línguas latinas, como o espanhol, añoranza, nostalgia, morriña; com o mesmo sentido, rimpianto, em italiano, ou regret, em francês. O curioso é que em romeno, língua neolatina, saudade é “dor”, o que vem de encontro ao que vamos ver, no uso em português. Mesmo não sendo língua latina, na Alemanha, que tem palavra para tudo, e se não há, criam – “terra em que se juntando tudo dá”, lembraria Vaz de Caminha –, saudade está lá, em Sehnsucht. Mas, que pena, não temos o verbo ‘saudadar’ em nosso idioma, nisso perdemos para o inglês, to miss, e o alemão, vermissen (sentir falta de), que tem ambos, verbo e substantivo!
O meu amigo e linguista Deonísio da Silva, lido por estudiosos e escritores, traz algumas observações valiosas sobre a saudade (De Onde Vêm as Palavras. RJ: Lexicon, 2014. 17ª ed.):  “do latim solitate, solidão. No português arcaico, deu origem a ‘soedade’ ‘soidade’, ‘suidade’”, embora, ressalta ele, não haja unanimidade entre os etimologistas (estudiosos da origem das palavras). Silva mostra outra pérola: “Em árabe, as palavras suad, saudá, e suaidá têm significado dramático, algo como “sangue pisado e preto no coração”. Ai, a saudade dói!
Casimiro de Abreu
Tão repleta de significados, a saudade da Pátria, da terra natal, da infância, tem sentido todo especial – tanto em são Paulo, onde é frequente dizer tenho ‘saudades’ ou ‘ciúmes’, e no Rio, Minas e Bahia, elas costumam aparecer no singular. O poeta carioca Casimiro de Abreu (1839-1860) escreveu um poema que todos conhecem, “A Saudade da Pátria e da Infância”, inspirado em Gonçalves Dias: “Oh! Que saudades eu tenho / da aurora da minha vida / da minha infância querida / que os anos não trazem mais! / Naquelas tardes fagueiras / à sombra das bananeiras / debaixo dos laranjais”. O irreverente modernista Oswald de Andrade (1890-1954) parodiou Abreu com fina picardia, em Meus Oito Anos: “Oh que saudades que eu tenho / da aurora da minha vida / (...) debaixo da bananeira / sem nenhum laranjais / (...) Eu tinha doces visões / da cocaína de infância...” Saudade de sua terra tinha Caimmy: “Ah, mas que saudade eu tenho da Bahia / ah, se eu escutasse o que mamãe dizia”, cantou ele. Que, como todo baiano, amava seu torrão apaixonadamente.
Um bom livro do meu pai
Há saudade de boas lembranças, dos grandes amores, dos bons momentos com os entes queridos que já não nos ladeiam. Do amor há a letra do imbatível Vinicius, com Carlos Lyra, em Primavera: “O meu amor sozinho / é assim como um jardim sem flor / só queria poder / ir dizer a ela / como é triste se sentir / saudade”. ‘Um jardim sem flor’, um coração vazio (em inglês, broken heart: quebrado, partido). A tristeza de não ver florir a paisagem, entregue à solidão e uma derradeira tristeza. Solidão Solitude é um livro de meu pai, Autran Dourado, publicado em 1972, que conta histórias tristes escritas mais de 20 anos antes. Várias refletem momentos da vida dele, alguns bem ruins, e outras remetem a personagens fictícios. A solidão é o irmão mais velho da saudade. 

Trata-se da mesma melancolia expressa pelo “Poetinha”, com Jobim, em Chega de Saudade (1958), talvez a pedra fundamental da bossa-nova: “Chega de saudade / a realidade / é que sem ela não há paz, não há beleza / é só tristeza / que não sai de mim, não sai”. Está tudo lá: quando o Poetinha fala de saudade, a tonalidade da canção é menor, que é geralmente preferida para expressar sentimentos como tristeza. E modula (passa) para tom maior, na segunda parte, que ajuda a expressar alegria, um rasgo de esperança a reavivar o coração: “Mas, se ela voltar / se ela voltar, que coisa linda / que coisa louca”. Melodia e harmonia falam com a letra. E todas juntas, em coro, cantam a saudade.

João de Barro
Em 1948, João de Barro - coautor, com Pixinguinha, do imortal choro Carinhoso - compôs, com Antonio Almeida, a singela toada A Saudade Mata a Gente, com gosto das coisas do campo: “...e na rede, nas noites de frio / meu bem me abraçava pra me agasalhar / (...) A saudade é dor pungente, morena / a saudade mata a gente, morena” (lembra a suad árabe, “sangue pisado e preto no coração”).

Dolorida também é a saudade pintada por Chico Buarque em Pedaço de Mim, décadas depois de João de Barro: “Oh, pedaço de mim / Oh, metade afastada de mim”, para ilustrar assim seu sofrimento: “...que a saudade dói como um barco / que aos poucos descreve um arco / e evita atracar no cais”. O desenho de um arco no mar é raro achado, coisa da erudição do compositor e de sua habilidade de escrever.


Falamos, há dias, de fé, e agora de saudade. Como é difícil tentar expressar alguma coisa a respeito de fé, credo, algo que se tem ou não, e, caso não, pode-se sempre vir a ter em um átimo. Tudo o que se puder escrever sobre ela não é mais do que uma gota no oceano que a palavra encerra. Tanto é que ainda não se concluiu nada, nem haverá de ser, à altura de sua natureza divina. E a saudade é um sentimento terreno, mas como avança sobre caminhos do coração torna-se igualmente difícil descrever, pensar com objetividade, o que só podemos tratar nos assuntos materiais. E cada um vê a saudade da cor que quer: Noel Rosa, após o funeral de sua mãe, foi para casa e vestiu-se, chapéu e camisa florida, direto para o boteco, para curtir sua fossa no velho conhaque. Alguém passou, viu, e lascou uma severa reprimenda: “Noel, cruzes, sua mãe acaba de ser enterrada e você aí no boteco, e com camisa colorida! Você deveria estar de luto!” Noel pegou sua caixinha de fósforos e improvisou: “luxo preto é vaidade / nesse turbilhão de dor / o meu luto é a saudade / e saudade não tem cor”. Percepção do gênio.