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sábado, 10 de fevereiro de 2018

ERAM OS MÚSICOS ASTRONAUTAS?


O estigma de artista de vida romântica, no amplo sentido, sempre perseguiu o músico, independentemente da época em que tenha vivido. A imagem estereotipada do compositor ou instrumentista solitário, maluco e quase tísico povoa a imaginação geral. Talvez por causa da loucura do alemão Robert Schumann (séc. 19), da surdez, boemia e demência final de Beethoven (1770-1827), a morte precoce e abandonada do gênio Mozart (séc. 18) ou a cólera de Tchaikovsky (séc. 19), que para completar a sina era gay, e no regime da Rússia czarista! Tristes finais também tiveram Bach, Händel e Schütz, que morreram cegos, Chopin e Paganini, tuberculosos, e Mussorgsky, que “nadava de braçadas” na bebida.
Paganini, aliás, além de bêbado contumaz era um jogador compulsivo. No começo da carreira chegou a deixar seu violino em uma casa de penhores para alugar um fraque, mas foi jogar e, claro, perdeu tudo o que pegara emprestado. Pediu a um amigo um violino e um traje de gala, mas com o dinheiro do cachê do recital voltou à jogatina e perdeu tudo.
Essas imagens não diferem muito daquelas do nosso Noel Rosa (1910-1937), 350 músicas, morto de tuberculose aos 26 anos. Protagonista, aliás, além de extenso anedotário, de um riquíssimo embate musical com o sambista Geraldo Pereira, assassinado com um soco na barriga em um bar. Passam, também, pela imortal Billie Holiday, rainha do blues viciada em heroína, bem como Janis Joplin, e Jimi Hendrix, o guitarrista-mito do rock que solava seu instrumento até com a língua e volta e meia ateava fogo na guitarra, sobre o palco, sem falar na recente Amy Winehouse. Todos vítimas, de um jeito ou de outro, de overdose de entorpecentes (ou sufocado pelo próprio vômito, como Hendrix, após os homéricos excessos).
Somem-se ainda o saxofonista John Coltrane, os nossos “maluco beleza”, Raul Seixas, e a divina “Pimentinha”, Elis Regina. Steve Tyler, da banda Aerosmith, contou que a droga era estimulada pelos próprios empresários, em busca de maior impacto de seus artistas em cena. Disse também que, enquanto os músicos ficavam na cama, entorpecidos pelos excessos, eram roubados pelos próprios agentes. Sem falar na praga dos novos tempos, a Aids, que levou Freddie Mercury, Cazuza e Renato Russo, do grupo Legião Urbana.
O baixista Sid Vicious, do grupo inglês de “punk-rock” Sex Pistols, morreu quase adolescente, aos 21 anos. Provocador, volta e meia apanhava de alguém mais exaltado, como aconteceu nos EUA, quando teve a cara quebrada por uma mulher ensandecida – mas prosseguiu o show com sangue escorrendo pelo nariz. Seu vocalista bradava ao microfone “é um circo vivo!” Certo dia, ao acordar e sem se lembrar da noite anterior, Sid deparou-se com o corpo de sua companheira Nancy coberto de sangue. Como se não bastasse, ele foi encontrado morto por overdose.
Aeroporto de Heathrow
A mãe de Sid mandou cremar-lhe o corpo, mas escorregou e caiu com a caixa em que levava as cinzas num dos saguões do aeroporto de Heathrow, em Londres, deixando escorrer parte dos restos mortais pelas frestas do sistema de calefação. Sid foi “colega de escola” de Kurt Cobain, do grupo Nirvana – que tinha mais de calvário do que da libertação budista do título do conjunto: suicidou-se com um tiro na cabeça aos 27 anos.
Jacqueline Du Pré
Ilustrando o retrato do músico sofrido, a violoncelista Jacqueline Du Pré foi acometida de esclerose múltipla, doença degenerativa que a levou à morte em 1987, no esplendor de uma carreira sem precedentes. O célebre violinista israelense Itzhak Perlman, quando criança, queria ser jogador de futebol. Mas o destino o fez vítima da poliomielite, teve de passar às muletas e cadeira de rodas, decidindo-se pelo violino, do qual é um dos gigantes vivos. O guapo cantor Julio Iglesias queria ser goleiro do Real Madrid, até que aos vinte anos sofreu um acidente de automóvel e quase perdeu os movimentos. Pois foi no hospital que ele começou a cantar para outros doentes e enfermeiras, acompanhado de seu violão. Já deve ter batido a casa dos 250 milhões de discos.
Nasceram cegos Stevie Wonder, Ray Charles e Andrea Bocelli. Um inovador da harmonia jazzística, Django Reinhardt, com defeitos congênitos na mão, criou seu sistema pessoal nos acordes da guitarra. (Todos esses, ressalto, souberam explorar suas virtudes e até mesmo seus defeitos pela melhor música).
Uma vez popularizada essa pecha de loucos e judiados dos músicos, pesquisadores passaram olhá-la com atenção. No 1° Encontro Latino-americano de Trombones, em 1999, alguns deses schollars estiveram presentes, e ao menos duas palestras versaram sobre o tema: O Trombone e suas Conexões com a Psiquiatria, com o Dr. Sérgio F. Rocha, e As Síndromes do Trombone, pela Dra. Dorotéa Malheiros.
Aliada a essa fama de boêmios, doentes e marginalizados frequentemente emprestada aos músicos de forma genérica (são poucos entre incontáveis), existe uma outra faceta do carma, que é ter de passar inúmeras horas do dia sozinho, praticando ou escrevendo, dedicando-se com afinco ao aperfeiçoamento técnico, praticando exaustivamente para que as notas que escrever ou extrair de seus instrumentos afaguem o coração de seus ouvintes. À parte um tipo menos louvável de estrela sem maiores méritos que, frustrado, vê as pessoas na plateia mais interessadas no ‘mauricinho’ ou ‘patricinha’ ao lado nos shows. 
[Alerta: este é um retrato de tristes exceções, em meio a incontáveis músicos, 'modelos' que não devem ser seguidos: a demência é triste, e álcool e drogas atrapalham os estudos sérios e a execução. Exemplos mesmo, neste texto, são os que servem de estímulo aos que possuem defeitos físicos ou se veem privados de algum sentido ou movimentos para se realizarem como músicos na vida!]
(Continua)



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

TRAPALHADAS POLÍTICAS NA MÚSICA BRASILEIRA – FINAL

Comício Diretas Já
Entre os músicos, a coerência política é qualidade nem sempre presente em suas relações com o Poder Público (mais precisamente, os nobres ou governantes de plantão). Nisso alguns de nós são favorecidos, é claro, pela reconhecida tendência do povo brasileiro à rápida perda de memória - e não é preciso cairmos em tentação ou conclusões radicais e de gosto duvidoso, como professava o imortal teatrólogo Nélson Rodrigues, que dizia que a massa é ‘ignara’, é burra. Exemplo desse tipo de camaleão político é certo regente mediano que conseguia se locomover como papagaio dos piratas entre as multidões que se comprimiam nos comícios das Diretas Já (movimento que, em tempos recentes mas também já um pouco esquecidos, brigava-se pela volta do sufrágio direto para presidente, acreditem os jovens se quiserem). Também havia colocado sua arte nas mani­festações pela legalização dos partidos de esquerda, até o PCdoB, então proscritos, com a mesma desenvoltura com que, em passado nem tão remoto, animava com seus corais as festas comemorativas do golpe de 64 (daqueles mes­mos militares responsáveis pela extinção do direito de voto e de organizações e partidos de esquerda que ele depois defenderia com pátrio fervor). Gênero volátil, que sabe reger conforme a música.
O grande Lamartine Babo (radiobatuta)
Há casos de espertos apolíticos, distantes de rixas, como o composi­tor de marchas carnavalescas Lamartine Babo (1904­-1963), torcedor do América Futebol Clube do Rio de Janeiro, time para o qual compôs o hino oficial ("pois a torcida americana é assim..."). Sob pressão dos rivais, para que não o acusassem de proteger o próprio time com seu farto talento musical, Lamartine escreveu, entre outros, o hino do Flamengo ("Flamengo, Flamengo, sua glória é lutar..."), do Botafogo ("Botafogo, Botafogo, campeão de 1910...") e do Fluminense ("Sou tricolor de coração..."). Detalhe históri­co: a letra de Lamartine para o hino do Botafogo teve de ser mudada para "campeão de mil novecentos e sete", em virtude de descoberta arqueológica que bons tempos depois apontou aquele ano como o do primeiro campeonato. Não é gozação, mas soou esquisito.
Cidade de Deus, em Osasco, SP. Vista aérea ainda em fase de construção
Por fim, não se pode confundir ecletismo com interesse: lá pelos idos de 1982/83, a cúpula do Bradesco mantinha, na Cidade de Deus, uma espécie de laboratório para lavagem cerebral de famílias de bancários em Osasco, um gueto pródigo em colaboração com organizações pararreligiosas e de laços estreitos com o regime militar. Certa vez, aconteceu ali um concerto fa­buloso. Revezavam-se como narradores o comediante Lúcio Mauro e a atriz Elizabeth Savalla, malvistos pelos artistas que não comungavam do regime de exceção, sobre um palanque erguido em um parque tomado por um oceano de crianças ‘espontaneamente’ arrastadas para aquela grande jornada cívica. A profusão de bandeirinhas do Brasil dificultava enxergar até mesmo o pouco que ainda havia de grama sobre o chão. Parecia coisa do Estado Novo, ou de algum daqueles famosos regimes europeus da primeira metade do século 20.
Entre arroubos cívicos, apologias ao poder instituído (e não constituído) e outras manifestações, uma sinfônica do interior apresentou-se sob a batuta de seu incansável regente, em uma de suas intermináveis exibições, tão longas que quase wagnerianas. Depois daquele inusitado espetáculo cívico, como peixes fora d'água, os músicos da orquestra saborearam o tradicional lanche de água mineral com tangerina, sem saber o que foram fazer ali mas engolindo com apatia o azedume da fruta e o amargor da festa. Obrigações de funcionário público.
Sid Vicious em show
Assim como houve regentes de canhestras ligações políticas no passado, houve quem conseguisse apaga-las em prol de um futuro mais próspero e menos comprometedor. Da mesma forma, tanto quanto o punk Sic Vicious, que se automutilava nos palcos para deleite da plateia, há os que sensibilizam fãs exibindo sua "mutilação" (verdadeira ou não) via crucis, exposição pessoal em prol de dividendos. Mas já o auto-flagelo do punk Sid Vicious foi real e um outro viés, uma nova abordagem da compaixão alheia. 


A qualidade musical passa a não render tanto, mas assume contornos de uma espécie de São Sebastião, mártir francês do terceiro século  perseguido por Diocleciano, imperador de Roma. Amarrado a um tronco, Sebastião foi flechado várias vezes, tendo seu rosto sido retratado com expressões entre fé e sofrimento, nas antigas ilustrações. Entre essas figuras do punk-rock e as dos clássicos que expõem sua dor há quase que um reverso do espelho, ou seja, o espectador vê o que deseja ver, seja o sofrimento real ou o virtual.
André Rieu
Regente é quem está regendo, lembro pela enésima vez, e maestro é o mestre. Um que faz sucesso com suas habilidades de showman sem se meter em política e pouco sabendo reger é o holandês André Rieu. Adepto da chamada easy listening, só rege valsas de Strauss como O Danúbio Azul e música popular romântica e melosa. Como violinista, não passaria em uma prova para a OSESP. No entanto, respeitando o gosto de cada um, tem grande espaço na mídia e atrai multidões mesmo cobrando ingressos caríssimos. Seu passado parece ser limpo, sem ligações políticas duvidosas, a não ser as naturais de quando precisa “vender seu peixe”, parece que dentro da legalidade.

Narciso. Uma obra-prima de Caravaggio
Creio apenas que ele se excede ao apresentar crianças-prodígio, ‘candidatas a Mozart’, o que também arrebata plateias – muito embora os infantes sejam comparáveis, para dizer o máximo, a pencas de crianças talentosas de nossas escolas de música do Brasil. Com esses passes, emoldura seu espelho. Pois Narciso, como se sabe, acha feio o que não é espelho.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

AOS MÚSICOS E AMANTES DA MÚSICA - PARTE II

(Continuação da Parte I, disponível no link à direita)Ideias se desenvolvendo, fui tomado de uma outra intenção, um depoimento sobre a condição do músico: dificuldade de estudar, insegurança profissional, precária organização das instituições e o descaso geral, sem esquecer a visão preconceituosa. Chega a surpreender que até hoje ainda existam música popular de qualidade e orquestras sinfônicas no país, fora a enorme produção de mau gosto imposta goela abaixo pelas mecas televisivas.
Um pouco de brincadeira, curiosidade, reflexão e algo de autobiografia, se além de diversão introduzir elementos musicais e ajudar o leitor a ter um quadro mais claro sobre a profissão do músico, estarei satisfeito. Preocupei-me com a reação de pessoas ou seus familiares, mas o estigma do exótico está tão incorporado à trajetória do músico que em geral o artista se diverte com o folclore criado sobre si mesmo. Qual filho não riu das maluquices do pai músico? E as estranhezas de seu vizinho compositor? Que artista pode autoproclamar-se absolutamente sério? (Em inglês, francês e alemão tocar é to play, jouer e spiel, respectivamente, que também significam brincar).
Professor de música, era natural que eu começasse a esboçar certa preocupação didática. Se for possível distrair o leitor que possui algum conhecimento musical, por que não aproveitar para enriquecê-lo com algumas pitadas de expressões técnicas ou fatos relevantes? Entre a história e a estória, concluí que a própria bibliografia já nos havia legado um ótimo repertório de curiosidades, até mesmo nos livros e compêndios ditos “sérios” sobre História da Música, onde o anedótico se veste com o charme do pitoresco. Procurei ser didático citando nomes, sempre com a preocupação de informar sobre datas, locais, obras, expressões técnicas e mesmo certo tipo de gíria profissional.
Revisitei livros e anotações em busca de informações já incorporadas ao folclore do músico, despertando minha memória oculta. Estórias que havia lido, vivido ou ouvido começaram a pipocar em minha cabeça. Usava um minigravador durante as longas horas que passava diariamente no trânsito congestionado de São Paulo.

Adoniran e o Trem das Onze
Artigos da imprensa, bate-papos, páginas de livros e anedotas, tudo se transformou em fonte. Por isso, longe deste texto o chamado rigor científico, são meras reflexões! (O apresentador de Rádio e TV Flávio Cavalcanti deliciava-se em encontrar erros nas letras das músicas. Quebrou o disco do Adoniran Barbosa (1910-1982) porque foi checar aquele famoso "se eu perder esse trem que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã" e, ao vivo, ligou e descobriu que havia mais duas viagens, a próxima às onze e meia. O desastrado rigor científico de Cavalcanti quebrou-lhe o disco ao vivo e se esqueceu de que o trem das onze poderia ser uma mentirinha do filho mimado para despedir-se da amada e voltar para casa).
Mesmo em vista da informalidade do texto, convém lembrar fontes como as cartas pessoais de grandes compositores, reproduzidas em livros como Appassionata, de Kurt Pahlen. No Conselho Municipal de Cultura de São Paulo conheci o operófilo Edson Lima, que me emprestou um livro raro, Risos e Lágrimas no Mundo da Música, de Gumercindo Saraiva, algo como as Curiosidades publicadas nos anos 1950 por Letícia Pagano. Mais lágrimas do que risos, com jeito de almanaque, Saraiva trouxe algumas estórias que pude confirmar, inspirando o bom humor do texto.
O amigo Aylton Escobar tinha um curso de pós de História da Regência, na USP,essencial para o texto sobre maestros. Músico instigante, de cultura e inteligência fora do comum, Escobar foi peça decisiva para a compreensão do regente e tudo o que é preciso para ser um deles. Fora, é claro, saber reger.
Mário de Andrade
Gostaria de ter usado a linguagem irreverente do Mário de Andrade. Infelizmente, faltou-me o talento do mestre, mas espero, inspirado nele, ter criado uma leitura agradável. Mário não freava aqueles pensamentos que às vezes nos assaltam quando lemos sobre a história chamada ‘séria’. Deixei escapar expressões como "coisa de maluco". (O filósofo e musicólogo alemão Theodor Adorno escreve "ridículo" e "o som eunucóide da jazz band com naturalidade).
Sid Vicious
Minhas desculpas aos eruditos encasacados, cujos cabelos poderão ficar arrepiados diante da simples menção a nomes como Sid Vicious, do Sex Pistols, ou Kurt Kobain, do Nirvana, entre outros. Vicious, como músico, foi muito fraco, mas é personagem muito importante para se compreender o comportamento de um artista no chamado fundo do poço.  

As referências desde já serão abandonadas definitivamente, A matéria-prima sobre a qual se fundamenta este texto reside basicamente em minha memória, na vida de músico e professor. Informações foram colhidas nas mais diversas fontes. Fatos do passado podem mesclar-se a outros recentes, e tome situações, causos e anedotas ouvidos em bate-papos ao longo de muitos anos nessa divertida estrada - como os personagens circenses do filme La Strada, de Felini - de músico. O mundo está em crise e o país à deriva, mas a música tem o condão de fazer mais suaves nossos pesadelos - assim como fez Wallace Hartley, do Titanic, que não parou a valsa enquanto o navio afundava.
Homenageio os colegas músicos, que se divertem mas amargam o dito “orquestra é como sítio, só tem duas alegrias: quando a gente entra e quando sai”. No fundo, a lida musical diverte, mas faz sofrer. Cantam em uníssono samba e fado: a gente vai levando, navegar é preciso.

[Terminada a segunda parte da introdução, em breve passarei ao texto propriamente dito - a parte mais divertida das estórias]