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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

TRAPALHADAS POLÍTICAS NA MÚSICA BRASILEIRA – FINAL

Comício Diretas Já
Entre os músicos, a coerência política é qualidade nem sempre presente em suas relações com o Poder Público (mais precisamente, os nobres ou governantes de plantão). Nisso alguns de nós são favorecidos, é claro, pela reconhecida tendência do povo brasileiro à rápida perda de memória - e não é preciso cairmos em tentação ou conclusões radicais e de gosto duvidoso, como professava o imortal teatrólogo Nélson Rodrigues, que dizia que a massa é ‘ignara’, é burra. Exemplo desse tipo de camaleão político é certo regente mediano que conseguia se locomover como papagaio dos piratas entre as multidões que se comprimiam nos comícios das Diretas Já (movimento que, em tempos recentes mas também já um pouco esquecidos, brigava-se pela volta do sufrágio direto para presidente, acreditem os jovens se quiserem). Também havia colocado sua arte nas mani­festações pela legalização dos partidos de esquerda, até o PCdoB, então proscritos, com a mesma desenvoltura com que, em passado nem tão remoto, animava com seus corais as festas comemorativas do golpe de 64 (daqueles mes­mos militares responsáveis pela extinção do direito de voto e de organizações e partidos de esquerda que ele depois defenderia com pátrio fervor). Gênero volátil, que sabe reger conforme a música.
O grande Lamartine Babo (radiobatuta)
Há casos de espertos apolíticos, distantes de rixas, como o composi­tor de marchas carnavalescas Lamartine Babo (1904­-1963), torcedor do América Futebol Clube do Rio de Janeiro, time para o qual compôs o hino oficial ("pois a torcida americana é assim..."). Sob pressão dos rivais, para que não o acusassem de proteger o próprio time com seu farto talento musical, Lamartine escreveu, entre outros, o hino do Flamengo ("Flamengo, Flamengo, sua glória é lutar..."), do Botafogo ("Botafogo, Botafogo, campeão de 1910...") e do Fluminense ("Sou tricolor de coração..."). Detalhe históri­co: a letra de Lamartine para o hino do Botafogo teve de ser mudada para "campeão de mil novecentos e sete", em virtude de descoberta arqueológica que bons tempos depois apontou aquele ano como o do primeiro campeonato. Não é gozação, mas soou esquisito.
Cidade de Deus, em Osasco, SP. Vista aérea ainda em fase de construção
Por fim, não se pode confundir ecletismo com interesse: lá pelos idos de 1982/83, a cúpula do Bradesco mantinha, na Cidade de Deus, uma espécie de laboratório para lavagem cerebral de famílias de bancários em Osasco, um gueto pródigo em colaboração com organizações pararreligiosas e de laços estreitos com o regime militar. Certa vez, aconteceu ali um concerto fa­buloso. Revezavam-se como narradores o comediante Lúcio Mauro e a atriz Elizabeth Savalla, malvistos pelos artistas que não comungavam do regime de exceção, sobre um palanque erguido em um parque tomado por um oceano de crianças ‘espontaneamente’ arrastadas para aquela grande jornada cívica. A profusão de bandeirinhas do Brasil dificultava enxergar até mesmo o pouco que ainda havia de grama sobre o chão. Parecia coisa do Estado Novo, ou de algum daqueles famosos regimes europeus da primeira metade do século 20.
Entre arroubos cívicos, apologias ao poder instituído (e não constituído) e outras manifestações, uma sinfônica do interior apresentou-se sob a batuta de seu incansável regente, em uma de suas intermináveis exibições, tão longas que quase wagnerianas. Depois daquele inusitado espetáculo cívico, como peixes fora d'água, os músicos da orquestra saborearam o tradicional lanche de água mineral com tangerina, sem saber o que foram fazer ali mas engolindo com apatia o azedume da fruta e o amargor da festa. Obrigações de funcionário público.
Sid Vicious em show
Assim como houve regentes de canhestras ligações políticas no passado, houve quem conseguisse apaga-las em prol de um futuro mais próspero e menos comprometedor. Da mesma forma, tanto quanto o punk Sic Vicious, que se automutilava nos palcos para deleite da plateia, há os que sensibilizam fãs exibindo sua "mutilação" (verdadeira ou não) via crucis, exposição pessoal em prol de dividendos. Mas já o auto-flagelo do punk Sid Vicious foi real e um outro viés, uma nova abordagem da compaixão alheia. 


A qualidade musical passa a não render tanto, mas assume contornos de uma espécie de São Sebastião, mártir francês do terceiro século  perseguido por Diocleciano, imperador de Roma. Amarrado a um tronco, Sebastião foi flechado várias vezes, tendo seu rosto sido retratado com expressões entre fé e sofrimento, nas antigas ilustrações. Entre essas figuras do punk-rock e as dos clássicos que expõem sua dor há quase que um reverso do espelho, ou seja, o espectador vê o que deseja ver, seja o sofrimento real ou o virtual.
André Rieu
Regente é quem está regendo, lembro pela enésima vez, e maestro é o mestre. Um que faz sucesso com suas habilidades de showman sem se meter em política e pouco sabendo reger é o holandês André Rieu. Adepto da chamada easy listening, só rege valsas de Strauss como O Danúbio Azul e música popular romântica e melosa. Como violinista, não passaria em uma prova para a OSESP. No entanto, respeitando o gosto de cada um, tem grande espaço na mídia e atrai multidões mesmo cobrando ingressos caríssimos. Seu passado parece ser limpo, sem ligações políticas duvidosas, a não ser as naturais de quando precisa “vender seu peixe”, parece que dentro da legalidade.

Narciso. Uma obra-prima de Caravaggio
Creio apenas que ele se excede ao apresentar crianças-prodígio, ‘candidatas a Mozart’, o que também arrebata plateias – muito embora os infantes sejam comparáveis, para dizer o máximo, a pencas de crianças talentosas de nossas escolas de música do Brasil. Com esses passes, emoldura seu espelho. Pois Narciso, como se sabe, acha feio o que não é espelho.

sábado, 9 de dezembro de 2017

HINOS E MAESTROS - I

Trovadores de Berlim
No Brasil, assim como na maior parte da Europa, a música de concerto sempre esteve - e, parece, deverá permanecer - atrelada à tutela oficial. Uso a expressão ‘música de concerto’ porque erudito é palavra que implica em saber pro­fundo, o que não costuma ser o caso. A música dos trovadores, por exemplo, assim como depois as valsas e polcas, era essencialmente popular, mas hoje é vista pela ótica clássica, porque já é história.
Duke Ellington e Orquestra
E clássica, em si, é designação que deveria se restringir a um período específico da história da música ou a compositores da música popu­lar imortalizados pela qualidade, como Tom Jobim, Duke Ellington, Beatles e Glenn Miller. Esse “erudito” tem razão histórica aqui no Brasil, e já abordei o assunto antes, mas cabe ressaltar que palavra tão estranha, que afasta o público leigo, não tem correspondente em outro idioma que não o tupiniquim. Vide classical music, musique classique, klassische Music e musica classica, em inglês, francês, alemão e italiano.
Pedro II
Desde as suas origens, a música de concerto no Brasil tem dependido das benesses do poder público. É o Estado que banca a quase totalidade das orquestras sinfônicas que ainda teimam em sobreviver. No Império, D. Pedro I tinha grande interesse musical. Tanto que compôs o Hino à Independência: "Já podeis da pátria filhos" (que costumam pronunciar "fi-ílhos")... Participava regularmente como primeiro - como não poderia deixar de ser - clarinetista da orques­tra da Corte, e estudou com os melhores nomes da época: Padre José Maurício, Marcos Portugal e Neukomm (ex-aluno de ninguém menos do que Haydn). Apaixonado pelas artes, D. Pedro chegou a mandar alguns nobres viverem no andar de baixo do palácio, depois que os músicos reclamaram de suas instalações. Aos ilustres despejados, o Imperador disse que com uma penada (ainda não havia sido cria­da a caneta, e por conseguinte a canetada) fazia um barão, mas nunca um artista.
Salão Imperial de Música - Petrópolis (detalhe)
No Palácio Imperial de Petrópolis, hoje Museu Imperial, turistas apinham-se para observar as relíquias de nosso Império (principalmente os norte-americanos, embasbacados diante de coroas e cetros, inconformados por não terem tido um rei, à imagem e semelhança de sua pátria-mãe, a Inglaterra). Entre móveis e utensílios, têm lugar de destaque no Museu cravos, espinetas e harpas, uma vez que não havendo sequer uma vitrola, à época, à nobreza restava curtir ao vivo nos palácios as últimas do hit-parade europeu - fidalgos e viajantes mais abastados traziam partituras em suas bagagens. A tradição imperial parece quase ter continuado: o jovem Dom Joãozinho de Orleans e Bragança fez prova para ingresso (era crooner de boate) na Ordem dos Músicos junto comigo, nos idos de 1971, com direito a loas: era o “sangue azul” na entidade.
Brasílio Itiberê
O Império, é verdade, foi um grande mecenato (com o chapéu do povo). Entre os músicos amparados pela Corte está um quase desconhecido do grande público, o paranaense Brasílio Itiberê (1846­/1913), autor da famosa composição Sertaneja. Inicialmente, o Imperador premiou Itiberê com uma carreira diplomática, man­dando-o à Prússia e depois à Itália, para aprimorar seus estudos musicais. Depois de algumas via­gens pela América Latina, Itiberê morreu em Berlim, sufocado pelo carma das medalhas e galardões de sua vida: teve um acesso de insolação, durante um interminável desfile militar sob sol escaldante, caindo duro e fechando o paletó bem perto do kaiser Guilherme II.
Mário de Andrade
A irreverência do povo brasileiro não respeita sequer os símbolos pátrios. Todos conhecem paródias infames do Hino à Independência ("Já podeis da pátria filhos" vira "Japonês tem quatro filhos") e do Hino Nacional Brasileiro (o popular “virundum”), de Francisco Manuel da Silva (1795/1865). Logo na introdução o cinismo tupiniquim já começa a avacalhar:  "Laranja da China, laranja da China, laranja da China / abacate, limão doce e tangerina". O grande Mário de Andrade, verdadeiro mecenas de coração (e só, porque o bolso não ajudava) e guru estético-cultural da primeira metade do século, já dizia que, dada a índole preguiçosa do povo brasileiro, aquele ritmo com notas pontuadas do nosso Hino (que cacófato!) Nacional, de caráter enérgico, marcial, é transformado em colcheias - indolentes, preguiçosas, sempre atrasadas colcheias.
Francisco Manuel da Silva foi prolífico com­positor de hinos para bajular governantes de todos os tipos: chegou a escrever mais de uma dúzia deles, e com esperteza os adaptava para diversas ocasiões. Em 1832 compôs seu Hino ao Sete de Abril (data da abdicação, em 1831), estraçalhado em crítica por Justiniano José da Rocha, e, a partir dele, o Hino Nacional da República. E Francisco não era lá flor que se cheirasse, pois em 1844 passou a integrar o corpo de censores do Conservatório Brasileiro de Música.

Maestro Tulio Colacioppo (centro)
Um episódio trágico envolvendo o Hino Nacional aconteceu durante uma apresentação da Sinfônica Municipal de São Paulo, regida pelo maestro Túlio Colacioppo na cidade paulista de Americana, em março de 1993. O episódio pareceu um felinesco palco desmoronando pela incompetência dos que o planejaram, montaram e reformaram. Uma lástima! Músicos feridos, instrumentos pessoais danificados. Para quebrar o gelo dessa tragédia, lembro que o divertido Colacioppo saiu-se com essa em ensaio de uma sinfonia de Tchaikowsky com a Osesp: pediu à orquestra que fizesse um bom con­certo. Afinal, disse, "tá fazendo cem anos que a bicha morreu". (Continua com Colaccioppo e os Hinos na próxima semana. Abaixo, um vídeo da tragédia de Americana, notícia no mundo inteiro).