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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

UM OUTRO PAPAI NOEL

Estácio de Sá (foto Museu da República)

“Nasci no Estácio / fui educado na roda de bamba / fui diplomado na escola de samba / sou independente, conforme se vê” (“O ‘X’ do problema”). Em 1910, no Estácio de Sá, um menino nascia a fórceps, parto delicado, com uma hipoplasia para complicar. Franzino, o queixo atrofiado moldou-lhe o perfil, a marca registrada. Na pia, foi batizado Noel. Aos 21, por pressão da família, ingressou na Faculdade de Medicina (hoje da UFRJ), mas sua educação e diploma vieram mesmo das rodas da boemia e do samba. Abandonado o curso, a música era carreira e ambiente: o Estácio foi o berço da Deixa Falar, primeira escola de samba, e Noel era apaixonado pelo ritmo.
Noel e Vadico
O Rio dos anos 1920, até a morte de Noel por tuberculose, em 1937, foi o cenário em que o sambista ergueu sua vasta obra: em pouco mais de dez anos de atividade compôs perto de 300 músicas. Fugia dos parnasianismos do passado, e seu bordado de frases, palavras e rimas são de uma simplicidade que só os gênios conseguem elaborar com tanta beleza. Era amoroso por natureza, mas combativo quando queria. Parceiros e letristas, quando não ele mesmo o poeta, afinavam com suas concepções: Vadico, principalmente, e João de Barro, o Braguinha.
Noel (Pinterest)
(Conta o folclore que Noel, já tuberculoso, estava em um bar da Lapa, após os funerais de sua mãe. Vestia uma camisa florida, até que alguém passou e o reprendeu, deveria estar de luto! Rapidamente o compositor, bom no taco que era, saiu-se com essa: “Luto preto é vaidade / neste turbilhão de dor / o meu luto é a saudade / e saudade não tem cor”. Noel também foi visto bebericando conhaque e tomando cerveja, e alguém o alertou que, tuberculoso, não deveria beber. Noel respondeu que seu médico realmente o havia proibido, e o advertiu: se não conseguisse resistir, que fosse pouco, e muito bem alimentado. “Gosto de conhaque. E como dizem que cerveja alimenta...”)
Operários, por Tarsila do Amaral
O pai do novo samba fazia a crônica do Rio, como na singela “Três Apitos”, imortalizada mais tarde por Gal Costa: “Quando o apito da fábrica de tecidos / vem ferir os meus ouvidos / eu me lembro de você”. Segue-se uma pitada - para a época – de crítica social, retrato da nova revolução industrial brasileira, como fez a artista plástica Tarsila do Amaral em sua obra “Operários”: “Você que atende ao apito / de uma chaminé de barro / por que não atende ao grito tão aflito / da buzina do meu carro”.
Noel, com o garçom: imortalizado em Vila Isabel
Bom cronista, Noel retratava o cotidiano do Rio de Janeiro fosse na Vila Isabel, no Estácio ou na Lapa boêmia. Da primeira, fez o quinhão carioca na sua ótica da divisão produtiva nacional em “Feitiço da Vila”: “...São Paulo dá café / Minas dá leite / e a Vila Isabel dá samba”. Descrevia o cotidiano com perfeição, a exemplo de “Conversa de botequim”, parceria com Vadico: “Seu garçom, faça o favor / de me trazer depressa / uma boa média / que não seja requentada / um pão bem quente / com manteiga à beça / um guardanapo / e um copo d’água bem gelado”.
As harmonias de Noel eram simples, sem encadeamentos complexos ou dissonâncias, e ele as trabalhava com invulgar preciosismo. Bom exemplo é a alternância de tonalidades maiores e menores, contrastes entre sentimentos alegres ou tristes, como em “Último desejo”, em tom menor: “Nosso amor, que eu não esqueço / e que teve seu começo numa festa de São João / morre hoje sem foguete / sem retrato, sem bilhete / sem luar, sem violão”. Já em tom maior, a falsa alegria que logo cede à tristeza, à realidade que o autor buscou fantasiar: “Se alguma pessoa amiga / pedir que você lhe diga / se você me quer ou não” – mas a melancolia foi mais forte, e se impôs em tonalidade menor: “Diga que você me adora / que você lamenta e chora / a nossa separação”.  
Com Nana Caymmi

Compositor genial, ninguém pode negar, talvez nosso sambista maior. Queixo quase ausente, chapéu, cigarro no canto da boca mesmo quando cantava. Suas gravações originais, dada a precariedade dos equipamentos da época e provavelmente a anomalia maxilar, registraram aquela voz anasalada, nada suave. Todo artista brasileiro que se preza gravou Noel, de Jobim a Duardo Dusek, de Nélson Gonçalves a Luís Melodia, de Aracy de Almeida a Gal Costa. Mas era João Nogueira quem cantava Noel com maior admiração, de quem dizia ser o maior sambista de todos os tempos.
A turma da bossa nova
Pelo intimismo e a influência que exerceu por décadas, mesmo após falecido, Noel poderia ser visto como um pai da bossa nova. À frente algumas décadas, faltavam apenas a influência do jazz e do impressionismo francês, como Jobim, e a batida do João Gilberto. Deu régua e compasso a Chico Buarque, especialmente nas canções do início, e até surge, lembrança importante, em “Rita”: “...levou seu retrato, seu trapo, seu prato, / que papel! / Uma imagem de São Francisco / e um bom disco de Noel”.
César Ladeira
César Ladeira, radialista famoso que recebeu o epíteto “a voz da revolução constitucionalista”, autor de cognomes como “a pequena notável” e “o rei da voz”, para Carmen Miranda e Francisco Alves, deu a Noel Rosa o título de “filósofo do samba”. Noel sabia ser bom de disputa, mas sem perder a sutileza e a sabedoria de um “filósofo”. Exemplo foi a riquíssima contenda musical com Wilson Baptista, quando lhe deu essa de troco: “Quem é você que não sabe o que diz / meu Deus do céu, que palpite infeliz / (...) pra que ligar a quem não sabe / aonde põe o seu nariz / quem é você, que não sabe o que diz”.
Pai da MPB, filósofo do samba, esteio e arrimo da bossa nova, salve Papai Noel Rosa!

sábado, 6 de abril de 2019

“...E UM CIGARRO PRA ESPANTAR MOSQUITO

Noel Rosa

/ vá dizer ao charuteiro / que me empreste uma revista / um isqueiro e um cinzeiro”. Noel Rosa (em parceria de 1935 com Vadico), embora médico de formação, era um fumante inveterado. Fumava tocando e até mesmo cantando, com o cigarro no canto da boca ou entre os dedos anelar e médio da mão direita. Neste samba, Conversa de Botequim, fala um exigente freguês de um ambiente que Noel conhecia bastante bem, o boteco. Sempre um cigarro e a caixinha de fósforos à guisa de instrumento de percussão na roda da mesa pelas mãos de muitos sambistas, como Cyro Monteiro.
Jean-Paul Belmondo
Frida Kahlo, Jean-Paul Belmondo, Cid Charisse, Marlon Brando, James Dean, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, uma legião de artistas e intelectuais carregava o charme nada discreto do cigarro sempre à boca ou às mãos. Clarice por pouco não morreu, em 1967, quando caiu dormindo, como de costume. Jogou-se sobre a cama, cigarro na mão, e logo veio o fogo nos lençóis. Queimaduras na mão e pelo corpo lhe deixaram marcas, mais uma cicatriz da memória já flagelada daquela menina judia ucraniana que terminou no Brasil para tornar-se uma brilhante e amada escritora e intelectual brasileira.  
O cigarro era acessório tão charmant que, em 1970, Gérson, estrela do tricampeonato mundial de futebol, foi convidado para atuar em um comercial, hoje de triste memória. Na TV, ele afirmava que “o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo”. Propaganda cujo lema, para infelicidade do tricampeão, virou sinônimo de pilantragem, falcatrua – a Lei de Gérson. Foi péssimo para a imagem do jogador, o estigma nunca o abandonou.
No final daquela década, outra propaganda de uma marca famosa de cigarros, dessa vez trazida dos EUA, mostrava um caubói-galã, ‘o homem de Virgínia’, fumando montado em um lindo cavalo. Associava o cigarro à virilidade, e de tabela a um certo prazer fálico. Em outro anúncio americano, uma linda mulher, encostada em um carro e fumando com uma piteira, fazia bico e soltava baforadas enquanto lá no fundo, meio nebuloso, meio sfumato à Michelangelo, a imagem de uma senhora às vezes carregando um carrinho com feno, outras tirando a neve da calçada com uma pá. Em miúdos, aquela linda mulher fumando em primeiro plano era a modernidade, contra o fundo de um passado de submissão. Encimando o anúncio do cigarro slims feminino, a frase you’ve come a long way, baby (você vem de longe, garota).
Fumódromo em aeroporto
Mas o apelo do cigarro foi declinando no mundo. Nos EUA, não se fuma senão em lugares como ‘fumódromos’, feitos para isso em locais como aeroportos. Salas lacradas, com má ventilação, de fora dá para se ver a estufa do veneno, todos baforando sem parar. No enorme campus Universidade de Richmond, em lugar algum se fuma. Em NY, jogar bituca na rua dá multa e as pessoas quando se conhecem costumam perguntar: are you a smoking person? (você é fumante?), o que pode encerrar ali mesmo qualquer conversa ou futura relação, caso uma delas seja fumante.  Fumar passou a ser um vício caríssimo: a média nacional do preço de um maço nos estados chega a US$ 8.50, ou R$ 33,00. Em NY, US$ 10.85, ou R$ 42,31 cada (e há quem fume dois ou três por dia!). É para frear mesmo o tabagismo. Até estancar.
Portal:  drauziovarella.uol.com.br
Um conhecido artista e figura notável cujo nome prefiro guardar por não ter a matéria comigo, disse que de todos os vícios o do cigarro é o pior. Mata, mas não traz sequer prazer ou ilusão como outras drogas, a exemplo da heroína. Curto e grosso. O Dr. Dráuzio Varella alertou que já teve pacientes de enfisema que fumavam pelo orifício da traqueotomia no pescoço, tamanha a angústia da abstinência. E também já viu muitos morrerem por tabagismo, mas maconha, nunca, sempre bem embasando suas opiniões. Conheci um senhor, músico, que estava fazendo radioterapia, o câncer havia tomado os dois pulmões. Só tinha um desejo, disse, doutor, quero fumar, nem que seja a última vez. O médico comprou-lhe um maço, fechou a varanda do quarto para não entrar fumaça e deixou-o lá fora, entregue ao prazer do vício, à sombra da morte.
Foto de  Proibindo o Proibidão (créd.: veja.com)
Escrevi há dois anos um artigo de três páginas sobre o funk, Proibindo o Proibidão, para uma revista de circulação nacional. O senador Romário seria o relator (e era voto contra) de um projeto de lei ridículo que visava a proibir bailes funk, pois neles que corriam soltos drogas, sexo livre, prostituição de menores e todos os males de que o mundo padece. Ou seja, queriam proibir o efeito apenas, o sintoma, sem atacar a doença. O projeto foi engavetado e nem entrou em pauta de votação.
Agora, o país se vê na iminência de ver baixarem o valor do IPI, imposto que encarece o cigarro em 80%, a pretexto de combater os terríveis contrabandeados. Não é preciso ser especialista para vislumbrar que o ilícito continuará, os contrabandistas também baixarão o preço, a margem de lucro dos envolvidos já é enorme. Mais barato, o apelo do cigarro será maior, e fumar será mais acessível para adolescentes. A medida é um presente bilionário que engordará as grandes indústrias e o agronegócio do ramo, são 16 bilhões anuais em vendas contra 57 bilhões gastos direta e indiretamente em saúde. Termino este artigo da mesma forma que concluí o texto sobre o funk. Há uns 20 anos, um congressista tentou lançar um projeto de Lei para lacrar os porta-malas de carros, pois era ali que trancavam sequestrados. Como querer acabar com o crime proibindo bailes funk, ou o contrabando de cigarros reduzindo o IPI. Seria dourar a pílula sem curar os males.