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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

UM GÊNIO CHAMADO CARTOLA, SEM CASACA E GRAVATINHA

Cartola: mangueirense até na hora do café

Fundador da Estação Primeira da Mangueira, Cartola, aliás, Angenor de Oliveira (1908-1980), fez do verde-rosa de sua agremiação bandeira de vida, de seus sambas, paixões (“verde que te quero rosa / rosa que te quero verde”, cantou, parafraseando ‘de ouvido’ García Lorca). Cartola nasceu no Catete, zona central do Rio, e foi criado um tanto nas Laranjeiras, onde aprendeu os primeiros acordes do pinho, que seu pai lhe ensinava. Mas a vida ali não lhe sorria. Cartola passou por dificuldades e resolveu adotar o Morro da Mangueira para viver. Dos terreiros de candomblé às rodas de samba, e de lá ecoando para o Rio inteiro e depois o Brasil, era com as mesmas mãos calejadas de pedreiro que compunha. Mas não se dobrava às facilidades que seu talento poderia lhe proporcionar, se fizesse sambinhas bobos para vender. 
Cartola foi gravado por boa parte dos bons cantores do país, mas direito autoral na música só existia para os que pagavam jabaculês – um “por fora” para os disk-jockeys – a fim de multiplicar execuções nas rádios e as vendas. Abriu com sua esposa o restaurante Zicartola, no Centro, em 1963, e resistiu ao golpe de 1964, até o ano seguinte. O lugar aos poucos havia se tornado, além de ponto de encontro de artistas e estudantes, reduto da intelligentsia carioca, a boemia intelectualizada, e lançou nomes como o portelense Paulinho da Viola, hoje consagrado.
Foi apenas aos 66 anos, em 1974, que Cartola gravou seu primeiro LP, cujo apelido lhe emprestava o título, e que trouxe uma das joias mais preciosas que temos, “As rosas não falam”: “Bate outra vez / com esperanças o meu coração / pois já vai terminando o verão / enfim...” Suas letras refinadas traziam palavras simples, bom gosto a toda prova, ele que era ótimo cantor e um bamba no violão de “cordas de aço”, aliás título de outra de suas músicas. Cantor de primeira, compositor de belas harmonias e melodias riquíssimas, como poeta revelou-se mestre na bordadura de letras e no casamento da fina poesia com a música: “Queixo-me às rosas / mas que bobagem / simplesmente as rosas não falam / simplesmente as rosas exalam / o perfume que roubam de ti, ai...” Versos de rara beleza que qualquer poeta gostaria de ter escrito, e que toda mulher se deleitaria ao ouvir.
Há também expressões de alegria, como “a sorrir, eu pretendo levar a vida / pois chorando eu vi a mocidade perdida” (“O sol nascerá”, com Elton Medeiros). Essa alegria da comunidade mangueirense também surge em “Alvorada”, tendo como parceiros Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho: “Alvorada lá no morro /que beleza / ninguém chora / não há tristeza /(...) o sol colorindo é tão lindo / é tão lindo / e a natureza sorrindo / tingindo, tingindo”. (Que contraste com o “Pranto de Poeta”, em que ele pensa no morro que vai chorar após sua morte, em um samba que é o Cartola falando, e só ele, tristeza serena mencionada no final deste artigo.)
Nos meus tempos de EUA, às vezes recebia alguns discos de meus pais, talvez temerosos de um possível afastamento meu das raízes brasileiras, o que nunca aconteceu. Ouvia, além do Cartola, Luiz Gonzaga, Elizeth, e claro, tudo o que me encantava. E também aproveitava os LPs, indicador esquerdo manobrando a agulha do toca-discos e o direito no lápis, fazendo das músicas ditados melódicos em uma partitura. Transcrevia uma a uma como treinamento auditivo, começando pela mais fácil, “Ensaboa, Mulata”, gravada por Cartola com sua filha Creuza, de voz bem rústica, quase um canto de trabalho. Ele: “Ensaboa, mulata, ensaboa / ensaboa” (ela emenda no ato:) “tô ensaboando / estou lavando a minha roupa / lá em casa já estão me chamando, Dondon”.
Van Gogh
Letra e música que transcendem adjetivos como sublime estão na obra-prima “O mundo é um moinho”, em que o poeta não esconde a tristeza por a mulher amada tê-lo abandonado: “Ainda é cedo, amor / mal começaste a conhecer a vida / já anuncias a hora de partida / sem saber mesmo o rumo que irás tomar”. Termina com uma feliz comparação da vida com um moinho de vento, uma roda-gigante de poucos momentos altos e muitos baixos, de erros e sofrimentos, revelando seu rancor por ter sido largado: “Preste atenção, querida / de cada amor tu herdarás só o cinismo / quando notares estarás à beira de um abismo / abismo que cavaste com teus pés” (link abaixo). Letra e melodia, de igualmente incomparável beleza, seduziram grandes nomes de nossa música, que não hesitaram em registrar o lamento de Cartola: de Beth Carvalho a Ney Matogrosso, de Cazuza a Badi Assad, com seu violão mágico.

Morro da Mangueira
Cartola não se preocupava com a morte, apesar de apegado à Da. Zica e aos amigos, ao violão, à Mangueira e ao samba. Em “Pranto de poeta”,  diz que morrer não é tão ruim quando há um morro inteiro e uma escola de samba para se lembrarem dele: “Em Mangueira / quando morre / um poeta / todos choram / vivo tranquilo em Mangueira porque / sei que alguém há de chorar quando eu morrer”. (Ao final da gravação, Cartola agradece a palinha do amigo Nelson Cavaquinho, já meio bêbado: “Obrigado, Nelson”. E ele: “Ovligado, Gardola”. A gravação dessas falas teve de ser refeita para que ficasse mais compreensível).
Nelson Sargento, a caráter
Tanto era apaixonada a reverência dos amigos e admiradores do poeta que em seu velório o sambista Nelson Sargento, em homenagem, deu a palavra e o ponto final do sofrimento dos presentes: “Cartola nunca existiu. Foi apenas um sonho que a gente sonhou”.

sábado, 14 de abril de 2018

A VOLTA DO BOÊMIO

Roda-viva

Lembro-me dos primeiros versos de uma música do Adelino Moreira cujo título acima tomei emprestado: “boemia, aqui me tens de regresso”. Ao assunto: quando famoso, o músico popular é vítima da sanha impiedosa de seus fãs, de que é exemplo aquela matilha ensandecida a devorá-lo, retratada por Chico Buarque na peça Roda Viva. A privacidade passa a ser mera figura de linguagem: artista famoso é patrimônio e objeto da volúpia coletiva. Sua saúde a todos pertence, suas preferências são divulgadas e imitadas – ou condenadas.
Como no Brasil ditaduras acontecem em períodos cíclicos, gente como Chico Buarque foi alvo de perseguição na última delas, o último regime de exceção, quando o cerco ao compositor era tão implacável que ele teve de gravar com o pseudônimo ‘Julinho da Adelaide’. O povo criava e inventava. Com Milton Nascimento, Chico compôs Cálice: “Pai, afasta de mim esse cálice” (‘cale-se’). Empregava sem parcimônia o duplo sentido e os jogos subliminares, a exemplo também do famoso Apesar de Você, samba que dava a impressão de ser dedicado a uma mulher. Vazou, ‘sem querer, querendo’, que era endereçado ao então todo-poderoso Médici. Censuraram no ato.
Amália, Geisel e Lucy
Naquela época, o cineasta e poeta Ruy Guerra escreveu para o Milton uma letra que dizia “brota em guerra e maravilha”, que esmaecia no final - “na hora, dia e futuro da espera virar...” e os mais radicais da plateia completavam com “guerrilha!”, fazendo sua rima. Outro déspota, Geisel, detestava o Chico - foi a deixa para o compositor inventar um roquezinho bem brega, dois acordes e apenas dois versos: “você não gosta de mim / mas sua filha gosta”, já que Amália Geisel havia declarado que era fã das músicas dele. Assim eram os tempos em que se sobrevivia fazendo música. Sobrevivia: conjugação vestida como uma luva.
Chico costumava secar, com os amigos Vinicius e Jobim, pelo menos uma garrafa de uísque com facilidade. O Poetinha, apelido de Vinicius de Moraes, já devia estar meio alto, e em certa roda de amigos em um bar disse, “o uísque é o melhor amigo do homem”. Foi corrigido por um conviva provavelmente sóbrio: é o cão, Vinicius, o cão é que é o melhor amigo do homem! O Poetinha, certeiro, devolveu-lhe com sua aguçada ironia: então o uísque é o cão engarrafado - frase logo celebrizada.
Véspera da estreia da peça Gota D’Água, do Chico Buarque e Paulo Pontes. Ficou difícil para nós, artistas, vermos coerência entre o discurso e a prática do compositor. Os bailarinos ganhavam menos do que um salário mínimo por até, às vezes, doze horas de ensaios diários. Nós, instrumentistas, nos rebelamos contra o descumprimento de acertos verbais e o despotismo dos irmãos produtores. Uma breve paralisação dos músicos, que já haviam decorado e sumido com as partituras, recompôs acordos e acordes e reverteu minha demissão. E eu, na tentativa de dialogar com o Chico, havia exposto o caso e nossas exigências onde o encontrei: um bar logo ali fora do Teatro Teresa Raquel, a tomar seu uísque. Ele disse que aquilo era assunto da produção, ele era apenas o autor – o problema não é meu, ficou claro. Patético. Uma ducha de água fria.
Noel Rosa e Adoniran Barbosa
Bom de samba e de copo, inspirador do Chico, o Noel Rosa de Feitiço da Vila, Conversa de Botequim e Com Que Roupa, foi flagrado em um boteco da velha Lapa carioca tomando cerveja e conhaque. Alguém passou e o repreendeu, dizendo-o irresponsável, pois sabia que Noel convalescera de uma tuberculose. O compositor riu e respondeu que seu médico o proibira terminantemente de beber, mas caso a teimosia fosse tanta, que ao menos bebesse pouco e bem alimentado. Noel disse que saiu para tomar um conhaque, e “já que se sabe que cerveja alimenta...”
O sambista quase não tinha queixo – as más línguas diziam que era para os goles descerem mais rápido –, suposta manobra de um fórceps barbeiro durante o parto, e foi flagrado em um boteco logo após o enterro de sua mãe. À vontade, camisa colorida, dedicava-se ao seu esporte predileto, o halterocopismo, levantamento de copo. Alguém disse que aquilo era um absurdo, ele deveria estar recolhido em luto. O sambista improvisou: “luto preto é vaidade / neste turbilhão de dor / o meu luto é a saudade / e saudade não tem cor”.
Madame Satã
Outro bom de samba, Geraldo Pereira, autor de Falsa Baiana e Acertei no Milhar, foi frequentador assíduo dos muquifos e bordéis da Lapa carioca e cercanias. Adepto da chamada “mardita”, brigava quase sempre depois de mamado - jargão da malandragem – e com quem estivesse na frente, fosse homem, mulher ou travesti. Em consequência de uma dessas querelas, Geraldo foi assassinado, em 1955, por um violento murro no fígado desferido pelo lendário Madame Satã, folclórico pederasta do bas-fond carioca. Com Satã ninguém mexia, ele devia ser o próprio demo encarnado.

Como Noel e Geraldo, Nelson Cavaquinho raramente se afastava de um copo. No final da gravação de Pranto de Poeta, do Cartola, autor dos lindos versos “em Mangueira quando morre / um poeta todos choram”, promoveu-se no final da música um afago entre os dois sambistas: Cartola disse obrigado, Nelson, ao que este respondeu “ovligado, Gardola”. Na segunda tentativa melhorou, mas ficou no disco, voz arrastada. Nascido muito pobre, Nelson construía toscos instrumentos com caixas de charutos, fazendo de arames as cordas. Mais tarde, quando teve seu primeiro violão ‘de loja’, usava afinação  mais baixa, não se conformava com a tensão das cordas e  sonoridade, estridente para ele. Afinal, estava acostumado à caixa de charutos e aquele som fanhoso dos arames frouxos, roucos como a voz dele!
Um instrumento de caixa de charutos, de três cordas, bem mais sofisticado, com os "cortes em 'F'" dos violinos