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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

O ARCO: ELO PERFEITO ENTRE FORMA E FUNÇÃO

Ponte medieval em Plön, perto de Lübeck, Alemanha

O arco teve, desde sua origem, uma aura de simbolismo, mistérios e virtudes que remontam à antiguidade. Nas construções, a forma em arco evita o estresse em um ponto só, a força de sustentação é distribuída por toda a estrutura do vão, haja vista inúmeras obras que resistem ao passar dos séculos. Fator de grande importância na sustentação de pontes, às vezes até mesmo sem uso de qualquer tipo de massa ou cola entre as peças, quer sejam elas de pedra ou produzidas com outro material, aproveitam-se da gravidade, todas as forças convergindo, distribuídas em direção ao centro.
Mstislav Rostropovich (The Telegraph)
(Nas aulas de música, era pensando nisso que eu mostrava que os dedos dos instrumentistas de cordas devem trabalhar arqueados como se a mão estivesse em repouso. Assim, eles se movimentam com a tensão bem dividida entre os músculos, ao invés de quando os dedos estão retos ou se curvam para trás, esforço concentrado que dificulta o relaxamento).
(Sobre o arco desde os longínquos tempos no extremo Oriente, para todas as áreas de interesse, da filosofia à música e relaxamento físico e espiritual,  recomendo a leitura de um sábio livrinho, "A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen", de Eugen Herriger , Ed. Pensamento)

Não há como deixar de falar no Arco do Triunfo, de Paris, um dos mais famosos monumentos do mundo. Erguido em homenagem aos heróis da Revolução Francesa e das Guerras Napoleônicas, sua construção abriga, também, a tumba do soldado desconhecido da I Grande Guerra. Inspirado no Arco de Titus (ano I d.C.), de Roma, o de Paris fez história: outros o seguiram, como o Monumento à Revolução Mexicana (início do séc. 20) e o Arco do Triunfo de Pyongyang, Coreia do norte (1982), entre muitos.
No Brasil, os belos Arcos da Lapa, no centro do Rio, são a maior obra de arquitetura dos tempos da colônia. Na verdade, trata-se um empreendimento a priori não  urbanístico: servia para sustentar um aqueduto para trazer água do Rio Carioca. Foi planejado no início do séc. 17, e as obras se arrastaram de 1660 até a conclusão, em 1723. O aqueduto dos Arcos sofreu diversos problemas ao longo dos anos; com a República, novas formas de abastecer o Rio de Janeiro foram sendo encontradas e, por feliz iniciativa, cinco anos após a Proclamação aqueles Arcos, já um símbolo da cidade, foram destinados aos bondes da Cia. de Carris Urbanos, levando passageiros à aprazível Santa Teresa, hoje bairro simples mas badalado e sempre na moda – uma espécie de Greenwich Village de Manhattan ou Vila Madalena em São Paulo. Com lindas vistas chacoalhando na subida do bonde, é cartão-postal e faz parte do roteiro turístico da cidade.
Um ravanastron e seu arco
Na música, arte em que é personagem fundamental, o arco dos instrumentos de cordas nos primórdios em tudo se assemelhava ao seu homônimo usado para arremessar flechas: vareta curvada em forma de meia-lua entre cujas extremidades era atada algum tipo de corda ou cerda retorcida. Há 2.500 anos, os nômades do Mar Cáspio já tocavam o rebab, ancestral da nossa rabeca, mas o ravanastron (tributo ao rei Ravana, de Lanka) da Índia e Sri- Lanka, é o que guarda mais semelhanças com a diversidade de instrumentos atuais.
Arcos barrocos
Com o tempo, o arco sofreu diversas transformações: das grandes curvaturas côncavas passou por uma silhueta quase retilínea até chegar ao formato atual, ligeiramente convexo. A família das antigas violas de arco era grande: a partir das chamadas da braccio, tocadas como violinos, passando pelas da gamba, entre as pernas, como no violoncelo, e o violone, que deu origem ao contrabaixo.
Giuseppe Tartini
No século 18, o relojoeiro e depois grande archetier (fabricante de arcos) François Tourte concluiu que o pau-brasil ou uma de suas variedades, como o Pernambuco, seria a madeira ideal, dada sua flexibilidade, densidade (afunda n’água) e pelos veios perfeitos, sem nós. E assim permanece até hoje. Depois, Tourte curvou a antiga vareta ligeiramente côncava ao contrário, em suave forma convexa, dotando-a de um tipo de flexibilidade que possibilitou muitos novos golpes técnicos e arcadas. O virtuose Giuseppe Tartini (1692-1770) idealizou o parafuso interno à vareta que serve para puxar uma peça de madeira chamada talão e retesar um feixe de crina de cavalo, esticada entre a ponta e a extremidade inferior. O arco passou a ser uma ferramenta até mais importante para o músico do que o próprio instrumento. Ouvi grandes solistas dizerem que preferem um violino mediano e um ótimo arco do que um ótimo instrumento e um arco ruim.
Por Debret
Poderíamos continuar a discorrer interminavelmente sobre o arco, sua importância e vasta utilização na música, abrir o leque para as centenas de instrumentos de arco e suas peculiaridades, do passado longínquo ao presente.  Poderíamos falar no arco (ou verga) do berimbau, que, por isso mesmo vergado por um fino cabo de aço e percutido com uma vareta, usa uma cabaça na parte inferior como caixa de ressonância – instrumento da capoeira: música, dança e esporte que devemos aos africanos que para cá vieram escravizados. (Recomendo de coração a leitura de um livrinho mágico, A Arte cavalheiresca do Arqueiro Zen, de Heinz Herriger). 
Violeta Parra (1917-1967)
Além de tudo, a forma do arco também é poesia, e como letra também serve à criação musical, como na linda canção de protesto “Volver a los 17”, da chilena Violeta Parra: “...el arco de las alianzas / ha penetrado em mi nido / (...) se ha paseado por mis venas / y hasta las duras cadenas / con que nos ata el destino” – música gravada por uma infinidade de artistas, de Mercedes Sosa a Joan Baez.
Falando de um arco, Chico Buarque descreve a saudade com uma imagem brilhante em “Pedaço de Mim”: um sentimento a um só tempo doce e perverso, lindo e doloroso, de alguém que nunca voltará: “Ó, pedaço de mim / Ó, metade exilada de mim / leva os teus sinais / que a saudade dói como um barco...” Para concluir: “que aos poucos descreve um arco / e evita atracar no cais”
(Com Chico Buarque e a linda e melancólica voz de Zizi Possi)



sábado, 9 de setembro de 2017

SAUDADE, SAUDADAR

Reza a lenda que saudade é palavra que só existe em português, e, nas águas do nosso ufanismo hoje meio em baixa, só cá no Brasil. Mas ela também existe em outras línguas latinas, como o espanhol, añoranza, nostalgia, morriña; com o mesmo sentido, rimpianto, em italiano, ou regret, em francês. O curioso é que em romeno, língua neolatina, saudade é “dor”, o que vem de encontro ao que vamos ver, no uso em português. Mesmo não sendo língua latina, na Alemanha, que tem palavra para tudo, e se não há, criam – “terra em que se juntando tudo dá”, lembraria Vaz de Caminha –, saudade está lá, em Sehnsucht. Mas, que pena, não temos o verbo ‘saudadar’ em nosso idioma, nisso perdemos para o inglês, to miss, e o alemão, vermissen (sentir falta de), que tem ambos, verbo e substantivo!
O meu amigo e linguista Deonísio da Silva, lido por estudiosos e escritores, traz algumas observações valiosas sobre a saudade (De Onde Vêm as Palavras. RJ: Lexicon, 2014. 17ª ed.):  “do latim solitate, solidão. No português arcaico, deu origem a ‘soedade’ ‘soidade’, ‘suidade’”, embora, ressalta ele, não haja unanimidade entre os etimologistas (estudiosos da origem das palavras). Silva mostra outra pérola: “Em árabe, as palavras suad, saudá, e suaidá têm significado dramático, algo como “sangue pisado e preto no coração”. Ai, a saudade dói!
Casimiro de Abreu
Tão repleta de significados, a saudade da Pátria, da terra natal, da infância, tem sentido todo especial – tanto em são Paulo, onde é frequente dizer tenho ‘saudades’ ou ‘ciúmes’, e no Rio, Minas e Bahia, elas costumam aparecer no singular. O poeta carioca Casimiro de Abreu (1839-1860) escreveu um poema que todos conhecem, “A Saudade da Pátria e da Infância”, inspirado em Gonçalves Dias: “Oh! Que saudades eu tenho / da aurora da minha vida / da minha infância querida / que os anos não trazem mais! / Naquelas tardes fagueiras / à sombra das bananeiras / debaixo dos laranjais”. O irreverente modernista Oswald de Andrade (1890-1954) parodiou Abreu com fina picardia, em Meus Oito Anos: “Oh que saudades que eu tenho / da aurora da minha vida / (...) debaixo da bananeira / sem nenhum laranjais / (...) Eu tinha doces visões / da cocaína de infância...” Saudade de sua terra tinha Caimmy: “Ah, mas que saudade eu tenho da Bahia / ah, se eu escutasse o que mamãe dizia”, cantou ele. Que, como todo baiano, amava seu torrão apaixonadamente.
Um bom livro do meu pai
Há saudade de boas lembranças, dos grandes amores, dos bons momentos com os entes queridos que já não nos ladeiam. Do amor há a letra do imbatível Vinicius, com Carlos Lyra, em Primavera: “O meu amor sozinho / é assim como um jardim sem flor / só queria poder / ir dizer a ela / como é triste se sentir / saudade”. ‘Um jardim sem flor’, um coração vazio (em inglês, broken heart: quebrado, partido). A tristeza de não ver florir a paisagem, entregue à solidão e uma derradeira tristeza. Solidão Solitude é um livro de meu pai, Autran Dourado, publicado em 1972, que conta histórias tristes escritas mais de 20 anos antes. Várias refletem momentos da vida dele, alguns bem ruins, e outras remetem a personagens fictícios. A solidão é o irmão mais velho da saudade. 

Trata-se da mesma melancolia expressa pelo “Poetinha”, com Jobim, em Chega de Saudade (1958), talvez a pedra fundamental da bossa-nova: “Chega de saudade / a realidade / é que sem ela não há paz, não há beleza / é só tristeza / que não sai de mim, não sai”. Está tudo lá: quando o Poetinha fala de saudade, a tonalidade da canção é menor, que é geralmente preferida para expressar sentimentos como tristeza. E modula (passa) para tom maior, na segunda parte, que ajuda a expressar alegria, um rasgo de esperança a reavivar o coração: “Mas, se ela voltar / se ela voltar, que coisa linda / que coisa louca”. Melodia e harmonia falam com a letra. E todas juntas, em coro, cantam a saudade.

João de Barro
Em 1948, João de Barro - coautor, com Pixinguinha, do imortal choro Carinhoso - compôs, com Antonio Almeida, a singela toada A Saudade Mata a Gente, com gosto das coisas do campo: “...e na rede, nas noites de frio / meu bem me abraçava pra me agasalhar / (...) A saudade é dor pungente, morena / a saudade mata a gente, morena” (lembra a suad árabe, “sangue pisado e preto no coração”).

Dolorida também é a saudade pintada por Chico Buarque em Pedaço de Mim, décadas depois de João de Barro: “Oh, pedaço de mim / Oh, metade afastada de mim”, para ilustrar assim seu sofrimento: “...que a saudade dói como um barco / que aos poucos descreve um arco / e evita atracar no cais”. O desenho de um arco no mar é raro achado, coisa da erudição do compositor e de sua habilidade de escrever.


Falamos, há dias, de fé, e agora de saudade. Como é difícil tentar expressar alguma coisa a respeito de fé, credo, algo que se tem ou não, e, caso não, pode-se sempre vir a ter em um átimo. Tudo o que se puder escrever sobre ela não é mais do que uma gota no oceano que a palavra encerra. Tanto é que ainda não se concluiu nada, nem haverá de ser, à altura de sua natureza divina. E a saudade é um sentimento terreno, mas como avança sobre caminhos do coração torna-se igualmente difícil descrever, pensar com objetividade, o que só podemos tratar nos assuntos materiais. E cada um vê a saudade da cor que quer: Noel Rosa, após o funeral de sua mãe, foi para casa e vestiu-se, chapéu e camisa florida, direto para o boteco, para curtir sua fossa no velho conhaque. Alguém passou, viu, e lascou uma severa reprimenda: “Noel, cruzes, sua mãe acaba de ser enterrada e você aí no boteco, e com camisa colorida! Você deveria estar de luto!” Noel pegou sua caixinha de fósforos e improvisou: “luxo preto é vaidade / nesse turbilhão de dor / o meu luto é a saudade / e saudade não tem cor”. Percepção do gênio.