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domingo, 9 de outubro de 2016

A IMPORTÂNCIA DA ESCOLHA

Meryl, esplêndida e premiada
A Escolha de Sofia é um livro de autoria do norte-americano William Styron, também conhecido por seu Darkness Visible (mal traduzido para Perto das Trevas). Em "Darkness", narra sua luta contra a depressão bipolar - ora na mania, quando se sentia eufórico e poderoso, ora no fundo do poço. Nesse percurso, pródigo em pensamentos suicidas, escolhe enfrentar o inferno e afinal encontra a sonhada cura. Um relato digno de suas melhores narrativas. Lembra a música do filme “M.A.S.H.”, de Altman, sobre a escolha maior: “suicídio é indolor / e traz muitas mudanças / e eu posso pegar ou largar se eu quiser”.
O inferno de Aushwitz
Escolha de Sofia talvez tenha sido seu livro mais vendido e apreciado, um romance bem nova-iorquino. Publicado em 1979, trata do relacionamento entre três pessoas que dividem um quarto em uma pensão no Brooklyn, bairro com grande população judaica. Um aspirante a escritor vindo do sul se relaciona com um judeu e sua amante polonesa, Sophie, católica que foi levada à força com suas crianças ao campo de Auschwitz na II Guerra, mas escapou. Especialmente após o filme homônimo estrelado pela excelente Meryl Streep, Styron tornou-se figura controversa por causa de sua visão pessoal sobre o Holocausto, tida como não muito politicamente kosher (diria, em hebraico,).
Cecília Meireles
Falando de literatura, lembro "Escolha o seu Sonho" da nossa Cecília Meireles. Nesse livro, a autora borda com habilidade sobre palavras que ilustram seu sentimentos de felicidade, o lado onírico (dos sonhos), a solidão e a escolha de sonhar como caminho da felicidade. Esboça críticas a diversos pensamentos relativos à liberdade, à morte, aos ideais cívicos da França revolucionária (Liberté, egalité, fraternité) e ao nosso “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”, do Hino da Proclamação da República, letra de Medeiros e Albuquerque com música do grande Leopoldo Miguez.
Leopoldo Miguez
O Hino de Miguez havia sido o grande vencedor do concurso para escolha do Hino Nacional Brasileiro. O resultado do certame, contudo – ouvido o “clamor popular” por Deodoro - foi alterado para dar lugar ao atual, de Francisco Manuel da Silva com letra de Osório Duque Estrada (incorporada oficialmente apenas em 1922). Havia escolha em “ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil” no Hino de Miguez, embebido nos mesmos ideais positivistas do “Ordem e Progresso” e nos pensamentos maçônicos que vieram do Império, atravessaram a Proclamação e permearam a República.
E eis Cecília Meireles refletindo sobre sua escolha do dia: "Hoje eu queria ler livros que não falam de gente, mas só de bichos, de plantas, de pedras: um livro que me levasse por essas solidões da natureza, sem vozes humanas, sem discursos, boatos, mentiras, calúnias, falsidades, elogios, celebrações..." As angústias da nossa genial Cecília Mereles vêm de sua infância no Rio, e suas inquietudes a levaram a escrever um dos poemas mais lindos da nossa língua: O Romanceiro da Inconfidência, em que narra a epopeia de Tiradentes. 
Escolha é palavra recorrente na Bíblia, e tem diversos significados: está em Mateus, 22: 14 “Portanto, muitos são chamados, mas poucos, escolhidos!” (da Bíblia de João Ferreira de Almeida, primeira tradução para o português diretamente dos três idiomas das escrituras sagradas. A do Antigo Testamento foi concluída por Almeida em 1681 e o conjunto dos volumes impressos apenas em 1819). Os escolhidos serão os contemplados com a graça divina.
Nos evangelhos, o verbo escolher e suas conjugações têm um sentido todo especial. “Maria escolheu a parte certa, que não lhe será tirada”, em Lucas 10:38, refere-se ao estado contemplativo, de encontro em patamar superior com o Pai. Marta reclamou ao Senhor que Maria só fazia contemplá-lo, ao passo que ela, sozinha, cuidava dos afazeres da casa. Muitas traduções interpretam a resposta de Cristo como “a melhor parte”, mas a expressão não sugere a mais preguiçosa ou proveitosa? Não, é mais correto ‘a parte certa’, a contemplação do Senhor (agathen merida, em grego, a segunda palavra com diversos significados). Conheci um professor doutor em Teologia da Universidade de Chicago que dominava os três idiomas das Sagradas Escrituras: aramaico, grego e hebraico, a depender do Testamento e do livro. Ele me esclarecia muitas dúvidas quanto ao sentido das passagens e as traduções corretas, mas infelizmente perdi o contato.  
Há a opção dos indecisos: quem nunca brincou de “uni duni te, salame minguê, um sorvete colorê, o escolhido foi você”? Joga-se aí ao acaso alguma opção pouco previsível a depender do número de possibilidades e do objeto com que se inicia a contagem. Ah, e o bem-me-quer, mal-me-quer de criança, despetalando uma margarida, das primeiras brincadeiras de sonhos de amor infantis, plenos de inocência!
Julio Cesar no Rubicone
Aleatória é palavra vem do grego alea, sorte - haja vista a famosa frase alea iacta est, usada em latim pelo grande Imperador Julio César ao decidir atravessar o rio Rubicone, entre a Itália e a antiga Gália Cisalpina. Na música aleatória (aqui, alea: sorte, acaso), os elementos temáticos, rítmicos e estruturais (combinados ou em sua totalidade) são escolhidos ao acaso pelo intérprete. Conhecida na época como música de vanguarda, teve como marco o Music of Changes (1951), de John Cage, mas experiências já haviam feitas por Mozart (séc. 18) e mesmo Rameau (séc. 17/18)!


Saber escolher é uma virtude. Muitos preferem o conformismo, o “seja o que vier”, como Julio Cesar, lançando sua tropa ao rio Rubicone. Fazer escolhas conscientes, sem jogar ao acaso, ao subjetivo ou à paixão, é que leva na maior parte das vezes ao acerto e ao sucesso. 

(Abaixo, Escolha de Hércules. 2 árias do Oratório Hércules. G. F. Händel)

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