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sábado, 14 de dezembro de 2019

BEATLES, CAETANO, LSD, ABORTO, SATÃ E COMUNISMO


Em Revolution (1968), Lennon e McCartney cantam: “Você diz que quer mudar o mundo / (...) todos nós queremos mudar o mundo / (... e) que vai mudar a Constituição / (...) nós gostaríamos que você mudasse de ideia / (...) Mas se carrega imagens do camarada Mao / não vai conseguir nada de ninguém”.  Um não ao líder comunista chinês Mao Tsé-Tung e outro à ideia de alterar a intocável Constituição inglesa: o rock dos Beatles era apolítico e conservador.

Já em Back in the USSR, a dupla fala da União Soviética: “Peguei um voo da BOAC em Miami Beach / (...) cara, eu tive um sonho terrível esta noite / estou de volta à USSR / você não sabe o quanto é sortudo, garoto”. Viajando pela  antiga companhia inglesa, o personagem diz que passou mal, teve enjoo a noite inteira e se viu de retorno à União Soviética, bradando aos que ficaram “vocês não sabem como são sortudos, caras”.

Os Beatles receberam a MEB (Ordem da Maior Excelência do Império Britânico) das mãos da Rainha por levarem o nome da nação a píncaros tão altos quanto os da vitória na Segunda Guerra. Os fab four (“quatro fabulosos”) eram bem-comportados em seus terninhos de alfaiate e cabelos bem aparados.
Depois de 1970, desfeito o grupo, Lennon tornou-se um “revolucionário pacifista” que sonhava em transformar o mundo compondo no piano Steinway branco de seu amplo apartamento em um prédio na frente do Central Park nova-iorquino, em cuja calçada seria assassinado em 1980. Seus protestos iam de palavras de ordem confusas a nudes como o famoso duplo traseiro, ao lado da esposa Yoko Ono.
Caetano na passeata dos cem mil
Caetano Veloso atuou em movimentos pacíficos como a passeata dos cem mil ao lado de inúmeros artistas, intelectuais e religiosos de diversas crenças, unindo-se a eles no protesto contra a censura e as prisões.
O quatro religiosos em julgamento

(O AI-5 não poupou da cadeia gente indefesa como um escritor e amigo de meu pai, Hélio Pellegrino, ou um primo, frade dominicano, Carlos Alberto Libânio Christo, ambos por delito de opinião. Com ele, mais três frades - incluindo frei Tito, que se enforcou em um convento em Paris em 1974, vítima de delírios recorrentes após torturas -  amargaram la dura cadena. Carlos Alberto “pagou” quatro anos e ao final foi condenado a dois, restando-lhe um impagável “saldo credor”. Já Caetano e Gilberto Gil, após a prisão, partiram para o autoexílio em Londres, de onde, remoendo-se de saudades do Brasil, faziam das coisas de nosso país temas recorrentes para suas músicas).
Cetano no exílio, em Londres
Nesta altura, lendo o título deste artigo e as preleções sobre os Beatles e Caetano, o leitor bem informado sabe do que vou falar. Daí a indispensável breve digressão sobre o grupo inglês e Caê, um senhor nascido há 77 anos em Santo Amaro, Bahia. Além de compor e cantar, ele é um leitor voraz, apaixonado por Bandeira, João Cabral, Jorge Amado e Fernando Pessoa – ícone da poesia lusitana, de quem musicou  Os Argonautas: “Navegar é preciso” (atribuído a ele. Link ao final do artigo).
Flávio Cavalcanti
Em um programa de TV, o apresentador Flávio Cavalcanti sorteava cartões; vencia o primeiro entre os competidores que apertasse um botão e cantasse música e letra com a palavra dada. Caetano, disputando com Chico e outros grandes nomes, era imbatível: sabia todas as letras, mesmo em outros idiomas. Na vida, sempre que falou sobre literatura Caetano mostrou ser um leitor contumaz.
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro
Na primeira semana de dezembro, matéria da Veja trouxe um novo personagem, Rafael Nogueira, que cometeu a frase que serve de título ao assunto: “Presidente da Biblioteca Nacional associa Caetano Veloso ao analfabetismo”. Um disparate sem tamanho e, pior, vindo de uma pessoa desconhecida, atingindo um artista do porte de  Caetano.
Dante Mantovani (O Globo)
Outro “prócer” da Cultura é o novo diretor da Funarte, “maestro” (sic) Dante Mantovani: “Soviéticos infiltrados na CIA distribuíram LSD em Woodstock” (O Globo, 2/12/19) - frase alucinada, como convém ao tema. Por sua vez, na mesma data o Estadão publicou: “rock induz às drogas, ao aborto e ao satanismo”. Mantovani, que havia atacado nossa atriz maior, Fernanda Montenegro, foi empossado no lugar do renomado pianista Miguel Proença, que era titular do cargo e havia tecido elogios à artista - logo, foi exonerado (et pour cause, como se diz). Mantovani delira nas conexões entre “droga, sexo, aborto e satanismo”, ou quando diz que os Beatles teriam sido “invenção socialista para garotas abortarem” (Revista Época, 2/12/19).
Protesto na Fundação Palmares (foto: Brasil de Fato)
Sérgio Nascimento, nomeado presidente da Fundação Palmares, fechou a semana da “nova cultura” negando (detalhe: ele próprio, negro) a existência de racismo no Brasil, dizendo que a escravidão foi benéfica e que o movimento negro deveria ser extinto (ibid.). A Justiça mandou anular a nomeação, mas a União recorreu à AGU.
Richmond, VA
Os três receberam orientação direta ou indireta de Olavo de Carvalho, um ex-astrólogo que se autodeclara filósofo e é chamado de guru por seus seguidores. Sem estudos ou qualquer formação específica, foi comunista na juventude e hoje, renegando o passado, comete equívocos considerados juvenis ou simplesmente falhos pelos acadêmicos de história e filosofia. Dada sua língua ferina, já foi inúmeras vezes réu por crimes de injúria, alvo de processos por instituições, personalidades e jornalistas. De seu Bunker-clausura em Richmond, Virginia, um dos estados do historicamente conservador sudeste dos EUA, elucubra ideias e teorias radicais, excêntricas e polêmicas, objetos de adoração de seus obstinados defensores, que creem estar seguindo um gênio.


terça-feira, 26 de setembro de 2017

AUTRAN DOURADO, ROMANCISTA. Pai, herói e amigo - Parte I


Casa onde nasceu
(Trinta de setembro. Cinco anos que partiu!) O velho Autran não era muito de conversar sério, mas com seu jeito zombeteiro conseguia entremear conselhos sábios, tiradas filosóficas e usar a aguda visão política de um rapazola que fora inscrito no Partidão, de onde saiu por perceber que a ‘patrulha’ queria interferir em sua literatura. Viveu com os pés no barro de quem foi muito Brasil, desde as Minas Gerais de sua Monte Santo, que inspirou a mítica cidadezinha de Duas Pontes, recorrente em seus livros. Aos 19 já publicara um livro, porém a mim ensinou a não tentar ser precoce na vida, repetindo a lição que lhe havia sido dada pelo escritor Godofredo Rangel, que seguiu à risca desde o início. Não seja precoce, seja perseverante, obstinado, dizia – uma formiguinha, analisou um crítico há alguns anos, conforme veremos adiante.
Com Hélio Pellegrino e Maria Urbana, sentados no sofá
As conversas com os amigos, especialmente os que frequentavam nosso apartamento em um predinho de três andares sem elevador, se eram entre risadas com o Otto Lara Resende ou o Hélio Pellegrino, pareciam ser mais sérias nas domingueiras com Clarice Lispector, quando o assunto passeava por Schopenhauer, Goethe e Kafka. Mais tarde eu iria me iniciar nas leituras dos grandes pensadores da esquerda ‘real’, levado, como o pai no passado, pelo canto da Lorelei que, à beira do rio Reno alemão, com seu corpo deslumbrante e voz virtuosa atraía barqueiros pela sua formosura. Inebriados pelo uivo, digo, canto do vento em uma reentrância das margens do rio, os barqueiros eram lançados para dentro de um grande vão nos rochedos, e suas embarcações espatifavam-se contra as pedras, fazendo-os vítimas de suas próprias ilusões. A minha Lorelei, no caso, era o fim das torturas, a liberdade intelectual e artística e a justiça social.
Momento solene: JK, Israel Pinheiro (de pé), e Autran Dourado (óculos, à direita)
Nomeação de Pinheiro para a presidência da NOVACAP, empresa que construiu Brasília

Pois minha atração pela vigiada esquerda estudantil daqueles tempos não via a risca tênue a separá-la do ingresso em uma revolução visionária. Era tudo a que se resumia na época a vida dos jovens sonhadores, tal qual acontecera com meu pai. Um dia, em Petrópolis, ele me convidou para um chopinho no tradicional D’Angelo. Lá, falou sério sobre sua vivência, primeiro taquigrafando falas do Luís Carlos Prestes na Assembleia de Minas. Mostrou também a sabedoria acumulada nos tempos de JK, de quem foi Secretário de Imprensa. Contou sobre sua longa ‘sala’ para – sim, ele mesmo, meu então ídolo - Che Guevara.
Não foi carrancudo em um pedestal, nem foi com intenção de me desmontar, do alto de sua experiência, apenas usou a tática correta, quem sabe remanescente de seus estudos dialéticos. Falou-me da expressão “democracia y libertad”, que ouviu incontáveis vezes de um verborrágico Guevara durante horas a fio, prática dos sermões em forma de discursos do comandante Fidel.
Em um duplo movimento, ‘roque de xadrez’, o pai se aproximava do filho ombro a ombro, mostrando como aquele canto da sereia atraía os jovens para o enfrentamento da ditadura. Lembro-me especialmente de ter ouvido a expressão “bucha de canhão”: enquanto a juventude era presa, torturada e às vezes morta, os “velhos” – alguns bastante conhecidos – ficavam encastelados no controle como em um videogame, preservando-se com a desculpa de serem a ‘inteligência’ da luta armada, que haveria de prosseguir e vencer. Começou a cair ali, na chopada, meu sonho irrealizável. (Alguns dos seduzidos pela cantilena da luta: jovens como Dilma, Dirceu e Gabeira). 
Viaduto Paulo de Frontin
Fora essas raras lições, falava dos livros, da necessidade de ler, uma enfermidade sadia que contaminou seus quatro filhos. Ontem mesmo, na rua, pensando em Dom Casmurro, do Machado, lembrei-me de mais uma frase lapidar que meu pai proferiu. Eram tempos pós-tragédia da Paulo de Frontin, no Rio (“Caía a tarde feito um viaduto”, pensei nos versos do Aldir Blanc), e afirmou que se todo mundo lesse Machado de Assis menos viadutos cairiam, menos pessoas morreriam na mesa de cirurgia. Hoje arrisco, com o beneplácito dele de lá de seu merecido descanso, que menos corrupção haveria!
Machado de Assis, nosso escritor maior, como o chamava, era seu porto seguro. Entre outros, alternava o carioca com Flaubert, Joyce e Faulkner. E passava horas lendo, e em algum momento e lugar inesperados a “ideia súbita” (não acreditava em inspiração) lhe surgia. Primeiro, ia anotando tudo em taquigrafia ­– a espanhola, mais rápida, dizia, com uma ponta de orgulho -, aprendida nos tempos da Assembleia de Minas.
Era taquigrafando que anotava detalhes em cartõezinhos que levava nos bolsos, peças do quebra-cabeça com que arquitetaria um futuro livro. Uma vez traçados os contornos principais da nova obra, punha-se a escrever desesperadamente, como se estivesse ficando – ou evitando ficar, sei lá – louco. E tudo isso com uma rotina metódica, um trabalho de carpintaria, dizia ele. Sua confidente era minha mãe, Lucia, que lia seus originais, e ele não mais costumava comentar sobre o que estava fazendo. Apenas uma vez perguntou-me se havia uma sonata em Fá de fulano (não me lembro a quem ele se referiu), e eu disse que sim. Achou bonitas as palavras, pois embora gostasse de música não era nada chegado à teoria, títulos e afins. Apenas ouvia. E usou a tal sonata em um texto, soava bem, pareceu-lhe.

Depois que terminava de escrever uma obra, a ressaca. Um dia ouvi uma frase do Jorge Luis Borges, o livro só acaba quando está impresso. Pura verdade que eu só vim a confirmar mais tarde, em minhas teses e livros técnicos, que só dei por terminados depois de vê-los impressos, seguros nas mãos. Coisa de formiguinha, pai! (Continua na próxima semana)