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terça-feira, 26 de setembro de 2017

AUTRAN DOURADO, ROMANCISTA. Pai, herói e amigo - Parte I


Casa onde nasceu
(Trinta de setembro. Cinco anos que partiu!) O velho Autran não era muito de conversar sério, mas com seu jeito zombeteiro conseguia entremear conselhos sábios, tiradas filosóficas e usar a aguda visão política de um rapazola que fora inscrito no Partidão, de onde saiu por perceber que a ‘patrulha’ queria interferir em sua literatura. Viveu com os pés no barro de quem foi muito Brasil, desde as Minas Gerais de sua Monte Santo, que inspirou a mítica cidadezinha de Duas Pontes, recorrente em seus livros. Aos 19 já publicara um livro, porém a mim ensinou a não tentar ser precoce na vida, repetindo a lição que lhe havia sido dada pelo escritor Godofredo Rangel, que seguiu à risca desde o início. Não seja precoce, seja perseverante, obstinado, dizia – uma formiguinha, analisou um crítico há alguns anos, conforme veremos adiante.
Com Hélio Pellegrino e Maria Urbana, sentados no sofá
As conversas com os amigos, especialmente os que frequentavam nosso apartamento em um predinho de três andares sem elevador, se eram entre risadas com o Otto Lara Resende ou o Hélio Pellegrino, pareciam ser mais sérias nas domingueiras com Clarice Lispector, quando o assunto passeava por Schopenhauer, Goethe e Kafka. Mais tarde eu iria me iniciar nas leituras dos grandes pensadores da esquerda ‘real’, levado, como o pai no passado, pelo canto da Lorelei que, à beira do rio Reno alemão, com seu corpo deslumbrante e voz virtuosa atraía barqueiros pela sua formosura. Inebriados pelo uivo, digo, canto do vento em uma reentrância das margens do rio, os barqueiros eram lançados para dentro de um grande vão nos rochedos, e suas embarcações espatifavam-se contra as pedras, fazendo-os vítimas de suas próprias ilusões. A minha Lorelei, no caso, era o fim das torturas, a liberdade intelectual e artística e a justiça social.
Momento solene: JK, Israel Pinheiro (de pé), e Autran Dourado (óculos, à direita)
Nomeação de Pinheiro para a presidência da NOVACAP, empresa que construiu Brasília

Pois minha atração pela vigiada esquerda estudantil daqueles tempos não via a risca tênue a separá-la do ingresso em uma revolução visionária. Era tudo a que se resumia na época a vida dos jovens sonhadores, tal qual acontecera com meu pai. Um dia, em Petrópolis, ele me convidou para um chopinho no tradicional D’Angelo. Lá, falou sério sobre sua vivência, primeiro taquigrafando falas do Luís Carlos Prestes na Assembleia de Minas. Mostrou também a sabedoria acumulada nos tempos de JK, de quem foi Secretário de Imprensa. Contou sobre sua longa ‘sala’ para – sim, ele mesmo, meu então ídolo - Che Guevara.
Não foi carrancudo em um pedestal, nem foi com intenção de me desmontar, do alto de sua experiência, apenas usou a tática correta, quem sabe remanescente de seus estudos dialéticos. Falou-me da expressão “democracia y libertad”, que ouviu incontáveis vezes de um verborrágico Guevara durante horas a fio, prática dos sermões em forma de discursos do comandante Fidel.
Em um duplo movimento, ‘roque de xadrez’, o pai se aproximava do filho ombro a ombro, mostrando como aquele canto da sereia atraía os jovens para o enfrentamento da ditadura. Lembro-me especialmente de ter ouvido a expressão “bucha de canhão”: enquanto a juventude era presa, torturada e às vezes morta, os “velhos” – alguns bastante conhecidos – ficavam encastelados no controle como em um videogame, preservando-se com a desculpa de serem a ‘inteligência’ da luta armada, que haveria de prosseguir e vencer. Começou a cair ali, na chopada, meu sonho irrealizável. (Alguns dos seduzidos pela cantilena da luta: jovens como Dilma, Dirceu e Gabeira). 
Viaduto Paulo de Frontin
Fora essas raras lições, falava dos livros, da necessidade de ler, uma enfermidade sadia que contaminou seus quatro filhos. Ontem mesmo, na rua, pensando em Dom Casmurro, do Machado, lembrei-me de mais uma frase lapidar que meu pai proferiu. Eram tempos pós-tragédia da Paulo de Frontin, no Rio (“Caía a tarde feito um viaduto”, pensei nos versos do Aldir Blanc), e afirmou que se todo mundo lesse Machado de Assis menos viadutos cairiam, menos pessoas morreriam na mesa de cirurgia. Hoje arrisco, com o beneplácito dele de lá de seu merecido descanso, que menos corrupção haveria!
Machado de Assis, nosso escritor maior, como o chamava, era seu porto seguro. Entre outros, alternava o carioca com Flaubert, Joyce e Faulkner. E passava horas lendo, e em algum momento e lugar inesperados a “ideia súbita” (não acreditava em inspiração) lhe surgia. Primeiro, ia anotando tudo em taquigrafia ­– a espanhola, mais rápida, dizia, com uma ponta de orgulho -, aprendida nos tempos da Assembleia de Minas.
Era taquigrafando que anotava detalhes em cartõezinhos que levava nos bolsos, peças do quebra-cabeça com que arquitetaria um futuro livro. Uma vez traçados os contornos principais da nova obra, punha-se a escrever desesperadamente, como se estivesse ficando – ou evitando ficar, sei lá – louco. E tudo isso com uma rotina metódica, um trabalho de carpintaria, dizia ele. Sua confidente era minha mãe, Lucia, que lia seus originais, e ele não mais costumava comentar sobre o que estava fazendo. Apenas uma vez perguntou-me se havia uma sonata em Fá de fulano (não me lembro a quem ele se referiu), e eu disse que sim. Achou bonitas as palavras, pois embora gostasse de música não era nada chegado à teoria, títulos e afins. Apenas ouvia. E usou a tal sonata em um texto, soava bem, pareceu-lhe.

Depois que terminava de escrever uma obra, a ressaca. Um dia ouvi uma frase do Jorge Luis Borges, o livro só acaba quando está impresso. Pura verdade que eu só vim a confirmar mais tarde, em minhas teses e livros técnicos, que só dei por terminados depois de vê-los impressos, seguros nas mãos. Coisa de formiguinha, pai! (Continua na próxima semana)

sábado, 11 de março de 2017

PORQUE NÃO SOU ESCRITOR

Gustave Flaubert
O leitor mais atento pode ter estranhado a razão de eu ter usado, para este título, ‘porque’ conjunção causal explicativa, e não ‘por que’, expressão interrogativa. Guardo a explicação para o final do texto. Também, não deixa de ser uma brincadeira com o leitor sobre as regras gramaticais, que uso mas sem idolatrá-las, até distorcendo-as ou violando-as conscientemente, como recomendava Flaubert, quando apraz ao autor, pelo bem do estilo de escrever.

Fernando Sabino
O título ‘escritor’ ficou ainda mais claro para mim quando, por ocasião do falecimento de meu pai, em 2012, o crítico literário e articulista Humberto Werneck escreveu sobre um caso divertido que acontecera com o Fernando Sabino. Na conversa, meu pai, seu amigo, dissera que passara a vida inteira em “trabalho de formiguinha para ser romancista”. E que se escrevesse poesia certamente seria um lixo.

Humberto Werneck
Insistia que Sabino, seu dileto amigo, tentasse publicar algo mais do que crônicas, enveredasse pelo romance, pela verdadeira literatura. Werneck assim publicou a boutade em O Estado de São Paulo, uma semana depois da partida do meu pai (2012):

Autran Dourado
“Nos anos 70, trocou divertidas farpas com Fernando Sabino quando o amigo, inebriado pelo sucesso do primeiro romance, O Encontro Marcado (1956), que o impedia de reincidir no gênero, andou apregoando que o romance estava morto (sic). Gozado o Fernando”, comentou meu pai: “foi campeão de natação, e agora, que já não dá conta de nadar, quer esvaziar a piscina..." Essa uma tirada típica do velho Autran.

Sabino voltaria a tentar o romance, com O Grande Mentecapto, mas o trabalho de elaborar uma grande trama literária lhe parece ter morrido após mais duas tentativas. Já meu pai continuou a ser formiguinha, e construiu uma obra já consolidada internacionalmente que deixou um lastro de quinze romances, nove livros de histórias mais curtas, um de memórias e seis de ensaios. Por isso, foi considerado pela Unesco autor de textos que figuram entre as obras representativas da literatura universal.

Herbert Von Karajan
Faço agora um paralelo entre ‘a pessoa que escreve e o escritor’ com ‘aquele que rege e o maestro’. Hoje a ‘produção’ de maestros no Brasil é como a “geração espontânea” da antiguidade. Eu me autodenomino maestro porque quero (ou seria uma autofagia oculta?). Muitos, muitos regem, mas, como os que escrevem e não são necessariamente escritores, serem regentes não significa serem ‘maestros’. Em outras línguas, não há paralelo: chef d'orchestre, em francês, conductor, inglês, e Dirigent, alemão. Na Itália, diz-se que é maestro o mestre, independentemente até do instrumento.

Isaac Karabtchevsky
Quem confere então tal título no Brasil, perguntaria o leitor. Os músicos! Nem a imprensa, nem a universidade, nem o público, apenas os músicos, que reconhecem na liderança que os guia estarem diante de um mestre - do italiano “maestro”.  Nem quando músicos o dizem por respeito ou costume, mas quando têm gabarito musical que lhes confere esse poder de ‘unção’, de dar a quem os rege o galardão de líder de orquestra, é que se ergue um maestro. Disse uma vez o célebre Isaac Karabtchevsky: é maestro quem possui na cabeça as 9 sinfonias de Beethoven para reger amanhã, entre outros cavalos de batalha. Na questão requisitos, como músico eu endosso o maestro paulistano de anos muito bem vividos musicalmente aqui e no exterior, hoje aos 83.

Silvio Romero (1851-1914)
Há e houve ensaístas e críticos, e gente preciosa, como o Humberto Werneck, que mencionei acima (a imprensa recente desgastou “citar”, devido à Lava Jato, provocando confusão quanto uso da palavra, entre o ‘mencionar’ e a 'citação judicial'). Afrânio Coutinho, o mestre Antonio Cândido, Alceu de Amoroso Lima, e, do século 19, Sílvio Romero, sem me esquecer do professor emérito da Usp e membro da ABL Alfredo Bosi, independentemente de serem também poetas ou escritores. É um ofício trabalhoso, cheio de espinhos, cujo protagonista tem de estar pronto para receber de volta farpas dos criticados.

Cecília Meireles
Dos poetas, artesãos de dificílima arte, temos muitos, desde o versátil Gonçalves Dias à Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Drummond (o “poeta maior”), João Cabral, dos meus favoritos, e tantos outros. Cronistas da imprensa temos aos montes, alguns que admiro pela memória e versatilidade no jornalismo, destacando Carlos Heitor Cony, o saudoso Gullar, Sérgio Augusto, bem versado em cinema, o às vezes debochado e cáustico Arnaldo Jabor, e outros menores que servem para encher página de jornal, cujos nomes declino de mencionar, por respeito à classe dos que emitem boas opiniões fora da aparente (mas não transparente) isenção das notícias.

Marlos Nobre
Entre compositores, o mesmo. Escrevi dezenas de peças curtas, mas nem por isso sou compositor. No máximo, um ‘cronista da composição’. Um compositor que merece esse título tem de ter escrito uma ou mais sonatas, ou peças cuja complexidade mostrem sua expertise no tema, quem sabe chegar a uma ópera ou sinfonia. Sou modestíssimo artesão, outra coisa são Guarnieri, Villa-Lobos ou Marlos Nobre, entre outros. Componho, mas não me atrevo a usar o título de compositor.

Escrevi alguns livros, quase todos técnicos, fora uma brincadeira musical publicada como diversão. Mas nada de literatura. Minha obra mais importante é o Dicionário de Termos e Expressões da Música, que tem trânsito entre músicos em geral. Nunca pensei em me aventurar pela literatura, pois o trabalho deveria ter sido iniciado como meu pai, aos dezenove. Gostaria, até, claro, a coisa me atrai, mas sei dos meus limites.  Sou músico, e está na alma, mesmo que não persista diretamente na atividade devido a problemas que, há anos, me obrigaram a deixar de exercê-la diretamente. Dirijo escolas de música há 28 anos. Mas quanto a escrever, digo que não sou do ramo, apenas faço minhas crônicas.

Porque não sou escritor.