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sábado, 2 de dezembro de 2017

A MÚSICA PERSEGUIDA

Mstislav Rostropovich
Se no passado os músicos oficiais eram badalados e reverenciados pelos governantes, o mesmo não se pode dizer de outros tempos mais recentes. Após a revolução bolchevique de 1917, a União Soviética foi um dos responsáveis pelo êxodo de judeus para os EUA, país que os acolheu antes, durante e depois de duas guerras mundiais, colaborando para consolidar definitivamente a posição norte-americana, perfilada ao mais alto cenário da música de concerto internacional – acrescente-se aos inúmeros violinistas, Schönberg, compositor, Horowitz, virtuose do piano, 
Rostropovich, violoncelista, e muitos outros.
Igor Stravinsky
A lista de imigrantes, a incluir temporários e não-judeus, é enorme: passa também por compositores como Mahler, Strauss, Bártók, Dvorák, Toscanini, Stravinsky, Hindemith, Hovhanness... A maior parte, com certeza, dos grandes nomes do século 20. Rostropovich perdeu o visto de saída soviético em 1970, após ter escondido em sua casa o escritor dissidente Soljenítsin (O Arquipélago Gulag). Em 1974, por fortes influências políticas nos EUA, Slava, seu apelido, conseguiu visto permanente nos EUA e se fixou em Washington, DC, onde foi regente da National Symphony.  
Picasso: um retrato
Igor Stravinsky (1882-1971) nasceu filho de músicos em Oranienbaum, na Rússia. Em 1917, em plena revolução, foi para a Itália, onde conheceu o artista plástico espanhol Pablo Picasso. Naquele ano, tentou cruzar a fronteira levando consigo um retrato seu feito pelo grande pintor. Quando a polícia se deparou com o quadro, não aceitou a explicação de que se tratava de um retrato do próprio compositor: poderia ser um croqui ou estratégia de espionagem camuflada, obsessiva paranoia comunista e anticomunista daqueles tempos. De posse do quadro, Stravinsky pernoitou em Chiasso, mandando o retrato para a Embaixada Britânica em Roma, de onde um poderoso amigo, Lord Berners, remeteu a obra para Paris via mala diplomática, inviolável aos policiais curiosos e ignorantes. Uma vez recuperado o precioso quadro, Stravinsky adotou de vez o Ocidente, terminando por naturalizar-se norte-americano.
Horowitz: altíssima introspecção
Outro dos que se auto-exilaram nos EUA foi Vladimir Horowitz (1904-1989), nascido perto de Kiev, na Ucrânia. Considerado o maior gênio do Piano, era pessoal e insuperável a cada interpretação. Dizia que nunca tocava uma obra da mesma maneira duas vezes. Chegou a ser alvo do implacável crítico Virgil Thompson, que o considerava um distorcedor, deturpador de músi­cas. Ora, dane-se, deve ter pensado o mago do teclado. Talvez exatamente por sua personalidade ímpar, sua introspecção personalíssima ao tocar - pouco ao gosto dos que, como o ‘comissário do povo’ Jdanov, exigiam fidelidade ao chamado ‘realismo socialista oficial’ -, Horowitz foi perseguido.
Nicolau II e família (assassinados pelos bolcheviques)
Ainda jovem, chegou a ver seu piano atirado de uma janela durante a invasão de Kiev pelos bolcheviques, em 1918. Mas enganam-se os que pensam que antes da revolução de 1917 a vida era um chão de estrelas para os músicos: o Czar Nicolau II soltava contra eles a tropa de choque do poder, querendo forçar os compositores a escreverem peças pueris e insossas, ao seu próprio gosto.
Horowitz: Carnegie Hall em êxtase
Apesar de virtuoso incontestável, Horowitz somente alcançou glória, como tantos outros, depois de mudar-se para Nova Iorque, em 1928, já que se casara com Wanda, filha do mito Arturo Toscanini (o grande maestro tornou-se uma espécie de protetor do pianista). A carreira de Horowitz como concertista nos EUA foi tão fulgurante que talvez nenhum pianista tenha conhecido tamanha glória. Em 1965, sabendo das enormes filas de pessoas que se digladiavam para comprar ingressos para um recital no Carnegie Hall, uma multidão de curiosos aglomerou-se, e, com tanta gente na rua, correra o boato de que se tratava de um show dos Beatles.
Família Toscanini: Jazigo
Em 1986, Horowitz voltou à Rússia, mãe ingrata. Apresentou-se diversas vezes, teve seu talento finalmente reconhecido, e terminou endeusado. Mas não foi um retorno definitivo: conforme seu desejo expresso, quis o destino que ele se juntasse à família Toscanini, em Milão, onde passou a repousar para sempre ao lado da esposa e filha do maestro - amada cuja morte havia sido responsável pelo único período improdutivo e silencioso da vida do pianista, mercê do infortúnio que quase o levara à loucura.
As perseguições contra a música e os músicos, em sua quase totalidade, sempre foram políticas. No Brasil, os censores enxergavam “subversão” em tudo, sob a falsa bandeira do perigo comunista, coisa que via nos inofensivos Chico Buarque e Vandré e tantas outras ‘potenciais ameaças’. Eu mesmo, antes de um simples festival estudantil (de 2º grau!) de colégios, sofri um veto por causa de uma frase, uma simples frase: “um grito vivo de verdade”. O que viram naquelas cinco palavras, não sei. Porém, corriam perigo apenas as letras das músicas, pois de estética os ‘nossos’ censores não entendiam lhufas.

Bolcheviques
Outras ameaças atacaram impiedosamente a estética, principalmente a do regime soviético, caindo sobre a chamada música clássica, isso para não falar de outras formas de arte, como a pintura e a literatura. (Lembra “eles não falam do mar e dos peixes / nem deixam ver a moça, pura canção / nem ver nascer a flor...” do Milton). Era o chamado realismo socialista – não falo dos social-democratas que hoje carregam o rótulo de socialistas e comunistas no peito. Rezavam que a arte deveria apenas retratar a crítica social (aos capitalistas, claro) e enaltecer a perfeição do então ‘novo’ regime. E isso se espalhou como prática até nas células dos PCs do mundo inteiro. Mas nós, músicos, sobrevivemos a tudo isso, e prosseguiremos!

sábado, 22 de julho de 2017

CRIMINALIZANDO O FUNK – PARTE I

Escrito a partir do meu artigo para a Veja de 13 de julho

Minha posição sobre o projeto que ora corre no Senado Federal (SUG n° 17/2017), que pretende a criminalização do Funk, corre fora do escopo de qualquer credo ou ideologia; é técnica, e dentro do contexto social, como convém a um estudioso da música. A “Sugestão” foi feita pelo paulista Marcelo Alonso, ‘que ninguém sabe quem seja’, talvez candidato a candidato. Só que o cidadão arrastou 22 mil assinaturas de apoio – o suficiente para colocar a “SUG” em pauta na Comissão de Direitos Humanos do Senado. Alonso considera o gênero musical “um crime de saúde pública desta ‘falsa cultura’ denominada ‘funk’” (sic). Acusa ainda os bailes funk de “recrutar redes sociais” (...) “para atender criminosos, estupradores e crime contra a criança e o menor adolescente” (...) “uso de drogas, agenciamento, orgias e exploração sexual, estupro, pornografia, pedofilia, arruaça, sequestro, roubo e etc.” - sem explicar o que vem a ser esse “etc.”
O Senador Romário
A reação que mais repercutiu veio da cantora Anitta, hoje em franca ascensão internacional, e dirigida aos seus perto de 5 milhões de seguidores no Twitter. Ela convida “os 22 mil desinformados” que assinaram a petição a conhecerem melhor o seu país. Afirma que o funk é gerador de trabalho e renda, e pede que antes de tudo invistam em Educação. Pondera que se o conteúdo das letras não agrada, é por causa da vida nas periferias, os jovens “cresceram vendo e vivendo aquilo que cantam” – pois há dificuldade de acesso das classes mais pobres a outros assuntos, e que se tivessem tido a oportunidade hoje poderiam estar cantando sobre outras coisas. A cantora também critica a precariedade da saúde pública, além de desafiar se “quem decide nosso futuro fosse obrigado a frequentar uma escola pública sem cursinho particular”. O relator da proposta será o senador Romário, que se diz “carioca e funkeiro”, e é um dos mais assíduos e elogiados representantes do Legislativo. Tenho certeza de que o parecer do ex-jogador será contundente e certeiro. Como seus gols.

Todo brasileiro deveria conhecer, ao menos por alto, a Constituição da República. Nos EUA, é matéria da escola. Um dos pilares de nossa Carta Magna é o direito à livre manifestação. Mais ainda, a Lei Maior é de absoluta clareza especificamente no caso do respeito às manifestações artísticas, frontalmente atingidas pela proposta de criminalização de um gênero, em golpe que se pretende mortal.
Julius Cæsare
Não sou linguista ou historiador, mas por dever de ofício frequentemente a música me lança além da fronteira dos sons. Cabe, por causa disso mesmo, uma breve digressão sobre a censura, cuja origem é a mesma de cesura, que em música se traduz como um ‘corte’ em uma melodia: é o ato de suspender, interromper. Igualmente, ela passa por César (lat.: cæsare, de onde cirurgia ‘cesariana’). A censura é cirurgia dolorosa, e quem passou por ela sabe o que é.

Hitler e Goebbels
O Brasil sobreviveu aos enormes prejuízos de diversos períodos de censura aguerrida, a exemplo do Estado Novo, com seu DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), sob o comando de Lourival Fontes, à semelhança do Goebbels de Hitler. Também foi o caso do regime de exceção que chegou ao ápice a partir de 1968, com o AI-5. A censura atingiu os intelectuais, escritores, professores, artistas e a imprensa. No período mais negro do regime a espada rondava os artistas, as faculdades, escolas, festivais, e se instalava nas redações dos jornais. Chico Buarque cansou-se de submeter suas músicas ao crivo dos censores, elas passaram a ser invariavelmente proibidas. Chegou a adotar o pseudônimo de Julinho da Adelaide, e com ele conseguiu ver liberadas pérolas como “Acorda, amor / eu tive um pesadelo agora / sonhei que tinha gente lá fora / batendo no portão, que aflição / era a ‘dura’, numa muito escura viatura...”
Ouça e veja "Acorda, amor", com Chico

Stalin em um exemplo perfeito de "realismo socialista"
Na União Soviética de Stalin (1922-1953) imperou o chamado realismo socialista bolchevique, sob o comando de Jdanov, fiel escudeiro e censor-mor do regime. Não buscavam apenas coibir ‘vícios burgueses’, queriam obrigar todo artista a escrever, compor ou pintar sob a ótica militarista, propagandeando os soviéticos e suas ‘maravilhas’. O regime obrigou compositores a reverem sua estética, período em que a qualidade da produção musical decaiu acentuadamente. As pinturas tinham jeito de fotografias, já que elas, como arte, não serviam à revolução (leia-se: o poder do Estado).

Volonté, como o Chefe de Polícia
O que ajuda a manter um regime ou, nesse caso do funk, um ‘pensamento de exceção’, é a censura da liberdade de que têm medo e não apraz aos falsos profetas por alguma razão obscurantista. Em um filme de Elio Petri (1970), “Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita”, o Chefe de Polícia italiano reúne seus policiais para um discurso que entrou para a história do cinema. Do alto de sua soberba e prepotência, ao final de sua fala exaltada, o personagem maravilhosamente representado por Gian Maria Volonté gritou: repressione è civiltà – repressão é civilização! E tome aplausos da claque. Quando assisti ao filme, a ameaça me arrepiou: vi ali, na Itália, o espelho do que acontecia no Brasil.

Fahrenheit 451
Esse projeto que quer criminalizar o funk também me fez lembrar outro filme, o Fahrenheit 451, de 1966, obra do cineasta François Truffaut, sobre o livro de Ray Bradbury.  Na fita, bombeiros não apagavam fogo, apenas queimavam armas perigosas com lança-chamas: os livros! (Daí o título: 451 graus Fahrenheit é a temperatura da queima do papel, equivalente a 233 Celsius). Nesse ritmo, chegaremos lá.

(Continua na próxima semana)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

UMBERTO E O ECO DE SUA OBRA ABERTA

O pêndulo de Foulcault
O trabalho que marcou em minha vida o nome de Umberto Eco, nascido na Itália em 1932, não foram seus belos romances e escritos literários mais conhecidos, como o romance O Nome da Rosa e sua incursão no ocultismo, na cabala e nos templários, “O Pêndulo de Foulcault”. Foi, sim, sua “Obra Aberta” (1962), que me iniciou, ainda novo, na liberdade de interpretar minhas leituras, músicas e a arte em geral, longe das amarras impostas pelos (ou aos) artistas em formas conclusivas e “definitivas”.

O indeterminado, o imprevisível, o duplo ou múltiplo sentido passaram às vezes a ser a parte mais rica nas minhas observações sobre a arte. A ideia de que uma obra se abre a bem mais do que uma única interpretação me deu uma ferramenta importante até mesmo para a revisão de conceitos e conhecimentos já adquiridos.

(filmow.com)
Machado de Assis criou sua Capitu, do romance Dom Casmurro, de 1899, que conta dos olhos de cigana, “oblíquos e dissimulados” da meiga jovem. Ao correr da trama, Machado cuidou de semear aqui e ali coisas que, a partir de certo ponto da leitura, se unem não em uma conclusão – pelo contrário, abrem uma rica dúvida. Afinal, Capitu traíra ou não Bentinho? O mestre não quis fechar uma conclusão em nosso nome. Pelo contrário, deixou que os leitores concluíssem – ou não.

A riqueza machadiana é tão grande e importante em nossa literatura que a dúvida em Dom Casmurro serviu a um inteligente trabalho (2008), oportuníssimo nos cem anos de morte do autor, “Capitu mandou flores” organizado por Rinaldo de Fernandes. Nessa obra, diversos autores brasileiros consagrados dão sua versão, cada um em seu breve conto, ao chamado enigma de Capitu.  Meu pai, Autran Dourado, escreveu uma variação sobre o tema “Missa do Galo”, outro conto de Machado, pródigo em segredos, suspeitas e traições.

Os móbiles do norte-americano Alexander Calder (1898-1976), que se compõem e se transformam livremente ao sabor das correntes de ar, as séries musicais móveis e permutáveis do belga Henri Pousseur (1929-2009) e a música aleatória são momentos mais recentes dessa liberdade. Mas Haydn (1732-1809) já havia composto sua Sinfonia nº 45, “Sinfonia do Adeus”, uma obra cujo final apenas se dissolve, esmaece-se tal qual as velas que os músicos vão apagando antes de se retirarem gradativamente, uma tentativa de convencer seu mecenas, o príncipe Esterhàzy, a abandonar seu longo retiro de verão em que arrastava compositor e orquestra inteira, para que logo pudessem retornar aos seus lares. (Veja e ouça, abaixo, o “finale” da Sinfonia do Adeus, Farewell, regida por Igor Gruppman, com canoplas - spots - no lugar de velas)


Eleazar de Carvalho usou essa sinfonia quando foi convidado para ser professor na Universidade de Yale (EUA), em plena crise com a então secretária de cultura, deixando no ar a expectativa de volta ou não. Retirou-se no meio e a cena das chamas se repetiu, até que o saudoso Aírton Pinto, spalla da Osesp, extinguisse sozinho a última, encerrando no escuro o concerto. Uma forma sem a coda (final, conclusão) clássica, apenas uma lenta transmutação dos sons, cada vez mais suaves, em silêncio. E foi a obra aberta de Eleazar: despedida? (Talvez. Mas não foi embora, acabou com um pé aqui e outro lá).
O velho amigo e grande spalla Aírton Pinto

Assim é (se lhe parece). "Isto não é um cachimbo"
Franz Schubert (1797-1828) compôs sua 8ª Sinfonia, que ficou conhecida como “Inacabada” por ter apenas dois movimentos, fugindo à tradição romântica. Schubert simplesmente a deixou assim, e não há, além de meras suposições, razões para se crer que ela não teria sido concluída. O dramaturgo italiano Luigi Pirandello (1867-1936) escreveu “Assim é se lhe parece”, um exercício sobre a ambiguidade, realidade versus aparência, peça teatral em que exercita o paradoxo, as múltiplas visões, contraste com o rigor do chamado “realismo socialista”, que viria a ser gestado exatamente a partir daquele mesmo ano (1917) pela revolução russa; a “estética” comunista impunha à arte uma só visão, suposto retrato fiel da verdade única, a serviço da causa soviética. Ao avesso, em 1952, ocaso do stalinismo, John Cage apresentou sua obra 4’33”, na qual um ou mais instrumentistas sobem ao palco e não executam sequer uma nota durante quatro minutos e trinta e três segundos cravados. Propõe ao público não um silêncio, mas o refletir, a percepção dos ruídos, sejam eles da própria respiração ou movimentos da plateia, pensamentos, uma construção abstrata e ao acaso.

A “Obra aberta”, como disse, foi a luz para minha compreensão – ou seria “descompreensão”? - da arte através dos tempos. Um autor como ele, que desfrutou de influências díspares como James Joyce e Kant, lidava com a obra de arte de todas as formas e se sentia livre para descobrir significados múltiplos, aliando-se à teoria da arte de massas pensada por Marshall McLuhan (1911-1980) em The medium is the massage. (Título traduzido como “O meio é a mensagem”, que perde a riqueza de dois belos triquestroques – ou trocadilhos, no popular -, massage, massagem, no lugar de message, e mass-age, “era das massas”).



A versatilidade de Umberto Eco, seu trânsito com grande erudição por tantos caminhos, seu histórico de professor nas universidades de Bologna (It.), Columbia, Harvard e Yale (EUA), Toronto (Ca.) e no Collège de France fazem dele um baluarte da cultura dos séculos 20 e 21. Sua contribuição assume proporções únicas, especialmente pensando no amplo leque de áreas em que se aprofundou com grande sabedoria. Ainda é cedo para o mundo perceber que suas concepções prosseguirão muito além do que concluiu e encerrou no dia 19 de fevereiro deste ano, quando fechou seu ciclo de vida - mas deixou-nos sua fértil produção, verdadeira obra aberta.