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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

UMBERTO E O ECO DE SUA OBRA ABERTA

O pêndulo de Foulcault
O trabalho que marcou em minha vida o nome de Umberto Eco, nascido na Itália em 1932, não foram seus belos romances e escritos literários mais conhecidos, como o romance O Nome da Rosa e sua incursão no ocultismo, na cabala e nos templários, “O Pêndulo de Foulcault”. Foi, sim, sua “Obra Aberta” (1962), que me iniciou, ainda novo, na liberdade de interpretar minhas leituras, músicas e a arte em geral, longe das amarras impostas pelos (ou aos) artistas em formas conclusivas e “definitivas”.

O indeterminado, o imprevisível, o duplo ou múltiplo sentido passaram às vezes a ser a parte mais rica nas minhas observações sobre a arte. A ideia de que uma obra se abre a bem mais do que uma única interpretação me deu uma ferramenta importante até mesmo para a revisão de conceitos e conhecimentos já adquiridos.

(filmow.com)
Machado de Assis criou sua Capitu, do romance Dom Casmurro, de 1899, que conta dos olhos de cigana, “oblíquos e dissimulados” da meiga jovem. Ao correr da trama, Machado cuidou de semear aqui e ali coisas que, a partir de certo ponto da leitura, se unem não em uma conclusão – pelo contrário, abrem uma rica dúvida. Afinal, Capitu traíra ou não Bentinho? O mestre não quis fechar uma conclusão em nosso nome. Pelo contrário, deixou que os leitores concluíssem – ou não.

A riqueza machadiana é tão grande e importante em nossa literatura que a dúvida em Dom Casmurro serviu a um inteligente trabalho (2008), oportuníssimo nos cem anos de morte do autor, “Capitu mandou flores” organizado por Rinaldo de Fernandes. Nessa obra, diversos autores brasileiros consagrados dão sua versão, cada um em seu breve conto, ao chamado enigma de Capitu.  Meu pai, Autran Dourado, escreveu uma variação sobre o tema “Missa do Galo”, outro conto de Machado, pródigo em segredos, suspeitas e traições.

Os móbiles do norte-americano Alexander Calder (1898-1976), que se compõem e se transformam livremente ao sabor das correntes de ar, as séries musicais móveis e permutáveis do belga Henri Pousseur (1929-2009) e a música aleatória são momentos mais recentes dessa liberdade. Mas Haydn (1732-1809) já havia composto sua Sinfonia nº 45, “Sinfonia do Adeus”, uma obra cujo final apenas se dissolve, esmaece-se tal qual as velas que os músicos vão apagando antes de se retirarem gradativamente, uma tentativa de convencer seu mecenas, o príncipe Esterhàzy, a abandonar seu longo retiro de verão em que arrastava compositor e orquestra inteira, para que logo pudessem retornar aos seus lares. (Veja e ouça, abaixo, o “finale” da Sinfonia do Adeus, Farewell, regida por Igor Gruppman, com canoplas - spots - no lugar de velas)


Eleazar de Carvalho usou essa sinfonia quando foi convidado para ser professor na Universidade de Yale (EUA), em plena crise com a então secretária de cultura, deixando no ar a expectativa de volta ou não. Retirou-se no meio e a cena das chamas se repetiu, até que o saudoso Aírton Pinto, spalla da Osesp, extinguisse sozinho a última, encerrando no escuro o concerto. Uma forma sem a coda (final, conclusão) clássica, apenas uma lenta transmutação dos sons, cada vez mais suaves, em silêncio. E foi a obra aberta de Eleazar: despedida? (Talvez. Mas não foi embora, acabou com um pé aqui e outro lá).
O velho amigo e grande spalla Aírton Pinto

Assim é (se lhe parece). "Isto não é um cachimbo"
Franz Schubert (1797-1828) compôs sua 8ª Sinfonia, que ficou conhecida como “Inacabada” por ter apenas dois movimentos, fugindo à tradição romântica. Schubert simplesmente a deixou assim, e não há, além de meras suposições, razões para se crer que ela não teria sido concluída. O dramaturgo italiano Luigi Pirandello (1867-1936) escreveu “Assim é se lhe parece”, um exercício sobre a ambiguidade, realidade versus aparência, peça teatral em que exercita o paradoxo, as múltiplas visões, contraste com o rigor do chamado “realismo socialista”, que viria a ser gestado exatamente a partir daquele mesmo ano (1917) pela revolução russa; a “estética” comunista impunha à arte uma só visão, suposto retrato fiel da verdade única, a serviço da causa soviética. Ao avesso, em 1952, ocaso do stalinismo, John Cage apresentou sua obra 4’33”, na qual um ou mais instrumentistas sobem ao palco e não executam sequer uma nota durante quatro minutos e trinta e três segundos cravados. Propõe ao público não um silêncio, mas o refletir, a percepção dos ruídos, sejam eles da própria respiração ou movimentos da plateia, pensamentos, uma construção abstrata e ao acaso.

A “Obra aberta”, como disse, foi a luz para minha compreensão – ou seria “descompreensão”? - da arte através dos tempos. Um autor como ele, que desfrutou de influências díspares como James Joyce e Kant, lidava com a obra de arte de todas as formas e se sentia livre para descobrir significados múltiplos, aliando-se à teoria da arte de massas pensada por Marshall McLuhan (1911-1980) em The medium is the massage. (Título traduzido como “O meio é a mensagem”, que perde a riqueza de dois belos triquestroques – ou trocadilhos, no popular -, massage, massagem, no lugar de message, e mass-age, “era das massas”).



A versatilidade de Umberto Eco, seu trânsito com grande erudição por tantos caminhos, seu histórico de professor nas universidades de Bologna (It.), Columbia, Harvard e Yale (EUA), Toronto (Ca.) e no Collège de France fazem dele um baluarte da cultura dos séculos 20 e 21. Sua contribuição assume proporções únicas, especialmente pensando no amplo leque de áreas em que se aprofundou com grande sabedoria. Ainda é cedo para o mundo perceber que suas concepções prosseguirão muito além do que concluiu e encerrou no dia 19 de fevereiro deste ano, quando fechou seu ciclo de vida - mas deixou-nos sua fértil produção, verdadeira obra aberta. 


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