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sábado, 30 de abril de 2022

PARA ENTENDER O FENÔMENO ANITTA

 

Honório Gurgel

Nascida Larissa de Macedo Machado há 29 anos, a cantora, dançarina, compositora e empresária adotou o nome artístico Anitta, mais simples e de fácil memorização, inspirado na minissérie da TV A Presença de Anita e de quebra no ícone Lolita, adolescente desejada por um professor no livro de Vladimir Nabokov (1955). Em 2012, obteve seu primeiro sucesso comercial com Meiga e Abusada; tornou-se conhecida nacionalmente em 2013, aos 20, com o hit Show das Poderosas, assinou com a Warner do Brasil e a partir daí só colecionou sucessos. Uma vocação que surgiu cedo nos cânticos religiosos em uma igreja católica de Honório Gurgel, zona norte do Rio. Abriu as portas do público latino nos EUA, incluindo parcerias com os Black Eyed Peas e Madonna, e chegou ao mercado dos países de língua espanhola e da comunidade latino-americana.

"Tonight Show"

Anitta não é a moça pobre de uma comunidade que chegou ao topo do sucesso por sorte ou apadrinhamento. Passou por um estudo técnico de administração, aulas de dança e cursos intensivos de inglês e espanhol, preparando-se para o futuro: no programa Tonight Show, de Jimmy Fallon, lançando o hit Boys don’t cry, lapidou-se para enfrentar o público especial de Coachella, na California, o maior festival de música pop do mundo. O que mais impressionou naquela entrevista foi o inglês fluente e a perfeita compreensão das perguntas feitas pelo apresentador. No programa La Resistencia, de uma TV espanhola, Anitta foi elogiada pela perfeição no idioma, em entrevista que obteve mais de 5 milhões de acessos. Seu recente single “Envolver” encabeçou a lista dos “top 50” no Spotify, e a Billboard a colocou entre “uma das celebridades mais influenciadoras na mídia social” do mundo. A essa altura, Anitta já tinha conquistado diversos prêmios e distinções, e desfrutava de trânsito livre na comunidade internacional.

Em Coachella, Palm Springs

O festival pop de Coachella em Palm Springs, na California, recebeu Anitta com entusiasmo. Reservaram-lhe dois dias especiais no evento, 15 e 22 de abril, duas sextas-feiras, em horário privilegiado, 22h, e já no dia 15 cumpriu sua promessa de levar o chamado “funk carioca” para o mundo. Cantou um pot-pourri de seus sucessos e revelou seu lado ativista: subira ao palco na garupa de uma motocicleta com collant verde, amarelo e azul, assim como diversos bailarinos, chegando a fazer uma breve preleção sobre o uso das cores da bandeira brasileira, dizendo que elas não têm dono, pertencem a todos – um claro recado aos que fazem uso partidário apropriando-se de um Símbolo Nacional. Imensos painéis eletrônicos e atores no palco mostravam um país real, a pobreza na comunidade, tudo o que se costuma encobrir com imagens lindas das praias cariocas, do Cristo Redentor e do Pão de Açúcar – que, por ironia, não era figura na apresentação, apenas fundo. Não mostrou o país tipo exportação, mas o Brasil real, sua origem, berço e local de criação.

(Soundhound)

Anitta abriu o show com Onda Diferente, tendo o parceiro de estúdio Snoop Dogg para acompanhá-la. A seguir, um séquito de bailarinos tomou o palco e, para gáudio da plateia latina, ela começou a cantar Me Gusta. Houve uma breve performance de capoeira, e após troca rápida de corpete apresentou seu hit atual, Envolver, do álbum Versions of me (Versões de Mim), lançado dias antes. A famosa e histórica revista norte-americana Rolling Stone não poupou elogios: “destemida, divertida e audaciosa”, dizendo ainda que Anitta leva a música brasileira ‘a patamares inéditos’”. Pode-se acreditar que a cantora chegou ao topo da carreira ainda um pouco nova, estourando em Lollapalooza e Coachella .

Geraldo Vandré

Não sou fã - talvez ouvinte ocasional - da Anitta, mas aprendi a respeitá-la e admirá-la como artista e empreendedora. Tudo o que ela faz reverte em sucesso, e isso, independentemente de preferências musicais, é assombroso. Críticas gratuitas não lhe atingem a performance, e sequer a simplicidade melódica e harmônica pode ser dita falha no contexto em que ela se situa. Se as harmonias contêm apenas coisa de dois ou três acordes a questão é do gênero, palavras percussivas baseadas principalmente no ritmo e na dança. Quanto aos poucos acordes, a ótica crítica levaria para o brejo todo nosso folclore, a música de raiz, os cantadores, o partido alto, o rock’n’roll, a folk music. Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores, do Vandré, tem apenas dois acordes, e levantou multidões: o que interessava no caso era a letra, seguindo a regra “poesia complexa, música simples, música complexa, poesia simples”, deixando o recado bem claro; já em Anitta sobrepõe-se um terceiro elemento: a dança, o gingado, a coreografia. A complexidade musical e poética não tem relevo no contexto mais amplo da cantora.


Anitta é um fenômeno e é como tal que devemos vê-la. Há um grande público a aplaudi-la, agitando o corpo num ritmo sacolejante (o grande George Clinton, ícone do funk americano, dizia “sacuda seu traseiro e sua mente seguirá”). Conquista seus louros para o Brasil em um segmento das massas, do povão, mas tem pouco acesso às  elites econômicas e culturais – e nem por isso deixa de possuir grandes méritos, incluindo ter opinião política. Atitude rara entre artistas, chegou a se oferecer para pagar a multa de 50 mil imposta por uma frágil - e felizmente efêmera - decisão do TSE aos artistas que se manifestassem politicamente no festival de Lollapalooza, no Rio. Anitta é uma artista paradoxal, imprevisível e multifacetada, um caleidoscópio das versões de si mesma.



 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

IVAN LINS, O MENESTREL UNIVERSAL


Ivan Guimarães Lins (1945), filho de militar, foi um jovem estudante como qualquer outro, e como muitos interessou-se pela música. Começou os estudos de piano tarde, aos 18, quando já tinha um caminho traçado para a vida, o curso universitário de química, sua futura área de concentração acadêmica. Mas fez tal qual Noel Rosa, que largou a medicina, e Chico Buarque, a arquitetura, entre muitos outros exemplos.  Foi no núcleo universitário que se entregou à música até o ponto de ter de se decidir entre a ciência e a arte, e resolveu-se pela paixão. Como eram tempos da ditadura elevada ao seu mais alto grau (pós-1968, ano do AI-5), era inevitável que o apelo político alguma hora se tornasse mais forte em suas criações. Em 1970, no Maracanãzinho, Ivan ficou em segundo lugar no histórico Festival de MPB, sempre ao piano, tocado de seu jeito muito pessoal e percutido, acordes fechados e simples, às vezes secos, influências da soul music.
Com Elis Regina
Enquanto sua música premiada na competição - “O amor é meu país” - fazia sucesso, houve quem a achasse ufanista. “Madalena” (1970), estourou nas paradas pela voz de Elis Regina com uma poesia de Ronaldo Monteiro de Souza que é um grito de dor de cotovelo – “Ê Madalena /o meu peito percebeu / que o mar é uma gota / comparado ao pranto meu” -, enquanto a música laureada, “O amor é o meu país”, era o brado de um louco apaixonado e errante: “Eu queria, eu queria, eu queria/ um segundo lá no fundo de você / eu queria me perder, ah, me perdoa / porque eu ando à toa sem chegar”.
Eram tempos do programa cult de TV da Globo “Som Livre Exportação” que mostrava o que acontecia na MPB. Participei como instrumentista de um grupo de uma dessas gravações, dirigida pelo produtor Walter Lacet, em um programa no qual já estrelavam Os Mutantes, Ivan Lins, Baby e Os Novos Baianos e outros tantos. Ivan ainda navegava no sucesso de “Madalena”, talvez passando ao largo da vanguarda pop de Os Mutantes e da politização de alguns. Antes de iniciar uma tomada de vídeo de uma canção romântica com Ivan, o diretor Lacet pediu a algumas garotas presentes que pusessem a mão no queixo, repousando sobre ele as cabeças como se estivessem apaixonadas, em um ângulo filmado entre o vão da tampa aberta do piano e o corpo do instrumento – truque de marketing que lembra Franz Liszt (1811-1886), inovador do passado que pagou do bolso mocinhas para chorarem durante suas apresentações.
Eram dias de Vandré, Chico Buarque, Sérgio Ricardo, Sidney Miller, todos engajados, e das universidades vigiadas, dos protestos contra o regime e a censura, um crescente movimento popular que fez Ivan engatar seu romantismo em marcha mais lenta, até conhecer o poeta Vítor Martins, e aos poucos se familiarizava com as aflições de sua geração.
Ivan Lins, com Vítor Martins em primeiro plano
Da parceria de Ivan Lins com Vítor Martins, iniciada em 1974, surgiu um belo LP cuja música principal dava nome ao título do álbum: “Somos todos iguais esta noite”, subtítulo “É circo de novo” (1977), uma alegoria sobre os tempos em que vivíamos. O circo era uma menção poética ao cerco político exercido sobre toda uma geração: “Nós vivemos debaixo do pano / pelo truque mal feito dos magos / pelo chicote dos domadores / e o rufar dos tambores”. A incursão no trato de assuntos além daquelas paixões e dores de cotovelo do início foi gradativa e mostrou um outro Ivan Lins, bem evoluído musicalmente, com a poesia mais elaborada e cheia das figuras de linguagem de seus parceiros. Mas foi outro letrista, porém, que trouxe Ivan Lins a um engajamento mais aguerrido: Maurício Tapajós. É dele a letra de “Aparecida”, uma alusão aos presos políticos desaparecidos, que passou rente ao fio da navalha da censura: “Diz, Aparecida / sumir desse jeito não tem cabimento / me conta quem foi, por que foi / e tudo o que você passou / preciso saber seu tormento / preciso saber da aflição”. E veio a magnífica "Cartomante": "Nos dias de hoje é bom que se proteja / ofereça a face  pra quem quer que seja", para encerrar com essa metáfora sobre o baralho e o momento político, um vaticínio, quase: "Cai o rei de espadas / cai o rei de ouros / cai o rei de paus / cai, não fica nada".
Gravação de "We are the world"
Enquanto se preocupava com seu país, novas portas se abriam. Ivan chegou a ser reconhecido nos EUA: suas músicas haviam sido gravadas por estrelas como Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, George Benson e Quincy Jones. Foi convidado a participar da histórica gravação feita por uma constelação de astros mundiais do movimento USA for Africa, músicos se alternando na canção We are the world (1985). Importante: antes de se internacionalizar, Ivan havia passado por uma fase nacionalista, mais raiz, de que é exemplo um baião moderno, com seção rítmica sofisticada, “O velho sermão”: “Um velho de barba bem comprida / numa praça bem perto da estação / com Jesus numa cruz bem encardida / contava histórias do sertão” (letra de Ronaldo Monteiro de Souza). Na mesma linha ‘pé no chão’, abraçou o sertanejo de raiz, com “Ituverava”, homenagem ao município paulista onde nasceu o parceiro, cantada em terças paralelas como fazem os caipiras, uma lindíssima moda de viola com letra de Vítor Martins gravada em 1977. Houve ainda a incursão do músico no folclore, com “Bandeira do divino”, registrada pela dupla caipira Pena Branca e Xavantinho.
Com o Grammy Latino (HTFORUM)
Em sua longa estrada, Ivan Lins foi um universitário romântico e sonhador, foi vanguarda de uma tintura bem pessoal, foi artista militante como tantos de seu tempo e foi internacional. Sempre com ótimas parcerias, gravou e foi gravado no exterior, recebeu um Grammy Award (1997) e foi nove vezes laureado com o Grammy Latino, mas nunca se esqueceu de suas raízes, como vimos em “Ituverava”, “O velho sermão”, sua versão da “Bandeira do divino” e a marcha-rancho moderna “Dona Palmeira”. 
Um brasileiro cosmopolita!





sábado, 25 de novembro de 2017

A MÚSICA A SERVIÇO DO PODER (Final)

Joan Baez
Ao emoldurar uma poesia, a música abre novos horizontes. Na Música Popular – vide alguns pop stars, como Joan Baez e Bob Dylan, apóstolos da luta contra a guerra do Vietnã - a mensagem política nas letras flui e chega melhor aos ouvidos quanto mais simples for a estrutura melódica e harmônica. Já a música panfletária costuma ser pobre de harmonia e melodia, visando às massas. Exemplo é Bandiera Rossa, dos radicais italianos do passado, inspirados na Revolução Soviética (e tanto quanto radical e blasfêmica): Avanti, popolo, facciamo greve / viva Lenine, viva Kruschev /  Bandiera rossa, color di vino / viva Lenine, viva Stalino / A mezzanotte, cielo stellato / Il santo papa, sarà inforcato.
Brecht e Weill
Um caso emblemático foi o de Kurt Weill (1900-1950), compositor alemão que se associou ao teatrólogo Bertold Brecht - parceria que resultou nas célebres Mahogonny (1927) e  Ópera dos Três Vinténs (1928), paródia sobre a Ópera dos Mendigos, de John Gay (1728). (Chico Buarque aproveitou Weil-Brecht na sua Ópera do Malandro). Como Eisler, Weill abandonou a linha romântica e a expressão musical de sentimentos para veicular em suas obras ideias revolucionárias.
Vandré e Caminhando: voz, violão e dois acordes
Geraldo Vandré,  compositor de Caminhando (Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores), conquistou, em 1968, o 2° lugar no Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro, ante a gritaria inconformada do público do Maracanãzinho, que achou a vencedora Sabiá, de Chico Buarque e Jobim, uma cançoneta boba e alienada. Não haviam se dado conta de que se tratava de uma canção do exílio ("Vou voltar, sei que ainda vou voltar / para o meu lugar / foi lá e é ainda lá / que eu hei de ouvir cantar / uma sabiá ..." Mesmo com o 2º lugar, Caminhando virou hino de todos os movimentos populares de 1968 em diante. A carreira de Vandré foi bruscamente interrompida durante uma turnê em Goiás (das trevas, viera o nefasto AI-5). O compositor descobriu que apenas ‘acreditando nas flores’ não venceria o canhão. Era pouco lirismo, singeleza, para muito chumbo.
Na iminência de ser preso, Vandré passou à clandes­tinidade. Saiu do Brasil, deu alguns giros e terminou em Paris, cidade que adotou até seu retorno, em 1973, negoci­ado com os militares (no terrível período Médici). Pisou emocionado o solo brasileiro e leu um texto, na TV Globo, onde dizia querer integrar-se à “nova realidade social brasileira”. E que dali em diante só queria fazer canções que falassem de amor e paz. Era a autocrítica pública para nossos "soviéticos" às avessas daquele período. Compôs Fabiana, em homenagem à FAB, mas não voltou batendo muito bem da bola. Tive um diálogo surreal com ele no café do Edifício Copan, em cujo pulguento cinema ensaiou a Osesp temporariamente. Por volta de 1989, com a bênção da Erundina, que o paparicava, volta e meia aparecia na Escola de Municipal de Música querendo mostrar alguma peça para piano que queria clássica (muito melhor era a Disparada!), e eu comecei a fugir dele de vez em quando. Era insistente, e nada poderia fazer para ajudá-lo naquela "viagem".
Caetano e Nelson
O libreto é a única maneira mais consistente de se expressar uma mensagem política na ópera. Mesmo assim, na maioria das vezes é praticamente impossível entender o que os cantores estão dizendo, independen­temente de o idioma ser alemão, italiano ou francês: expressam-se com dicção difícil de compreender pela plateia. Rameau (séc. 17/18), durante um ensaio de sua ópera Les Paladins, pediu à orquestra um tempo muito mais rápido. Foi quando a soprano reclamou que naquele andamento o público não entenderia o texto. O compositor disse que não fazia a menor diferença, bastava entenderem a música. Há também problemas de registro vocal, como quando Nelson Gonçalves, dono daquele vozeirão, gravava com Caetano, bem mais intimista. Caetano pediu ao Nelson que subisse um pouco o tom, pois achava difícil articular as palavras com notas tão graves. Nelson respon­deu, à queima-roupa: "vai falando, como faz o João Gilberto".
La Callas
Maria Callas, em uma récita de I Puritani, em 1949, iniciou a ária Son vergin vezzosa - sou virgem caprichosa - com um sonoro son vergin viziosa - sou virgem viciosa. Mas apenas um punhado de aficionados de ouvidos treinados perceberam. (Callas bem que poderia ter tido sua gafe listada como mondegreen, palavra que veio de laid him on the green - deitou-o na grama, trecho de letra de música que uma jornalista da Califórnia nos anos 50/60 havia entendido como Lady Mondegreen, escorregada – ou barrigada - que deu nome ao neologismo).
Villa-Lobos não gostava do bel canto de mãos juntas no peito ou no colo: ele queria ouvir claramente a soprano dizer: ‘a cantar o cariri...’ Bernstein compartilhava da necessidade de se entender o que os solistas cantam, e isso se reflete em suas Candide e West Side Story, por exemplo. Chegou a afirmar que a melhor coisa que aconteceu para a música vocal no século 20 foram os Beatles.

O incrível Itzhak Perlman
Bom, voltemos à Alemanha nazista, onde fechávamos o assunto Kurt Weill, que, perseguido pela Gestapo, fugiu em 1933 levando Bertold Brecht. Bebia nas fontes revolucionárias e ainda por cima era judeu. O mundo conhece a tradição dos grandes violinistas judeus, certamente a maioria dos melhores de todos os tempos, que nos deu nomes como Heifetz, Menuhin, Stern, Zuchermann, Gingold, Perlman e Milstein, entre muitos e muitos outros. Nos campos de concentração o violino era frequentemente tolerado pelos soldados alemães, para seu próprio deleite musical. Para os confinados, além de servir como distração e passatempo durante seu intenso sofrimento, era também uma forma inteligente de transportar, sem chamar atenção, alta quantias – tudo o que a família tinha – para o caso de lograrem sair do Inferno enclausurado dos nazistas. (Lembrei-me agora de uma divertida história de Itzhak Perlman, que teve um violino milionário roubado de seu camarim, após um recital. Sorte dele, alguém viu a peça em uma loja de penhores, e Perlman comprou o instrumento de volta por um preço ridículo - não mais do que US$ 50). O apego dos judeus a violinos é algo que tem história no holocausto nazista. Daí o correr de seu som nas veias de gerações.

A música na política foi um desastre, exceção à Revolução Francesa, com a Marseillaise: cruel, plena de sangue, mas tão bela e empolgante!  Não foi música panfletária, apesar da letra violenta e conclamatória: serviu ao levante do povo pelo fim do regime e até hoje é o hino da pátria, aliás um dos mais admirados do mundo, que surge até como citação no meio da monumental Abertura 1812, de Tchaikovsky (com direito a um instrumental enorme e até salvas de canhões), escrita em celebração ao rotundo fracasso do ataque de Napoleão ao seu país, a Rússia.