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sábado, 17 de abril de 2021

A CHINESA

 


Toda vez que penso nesse gentílico lembro-me dos tempos em que, ainda no colégio, cabulávamos aula para ir ao Studio Paissandu, no Rio, servir-nos do manjar da juventude da época: filmes de arte. Era um título por dia, à tarde, durante a semana, e tinha público. Ali conheci as boas fitas do Godard, talvez o mais maluco de todos os cineastas. Era ambíguo, lançava grandes questões no ar, e, mesmo ateu, rodou o belo Je vous Salue, Marie (“Eu te saúdo, Maria”), sobre a mãe do Senhor e José, o nascimento do Salvador e seu paralelo moderno. Mas a produção que mais me intrigou foi A Chinesa (La Chinoise, 1967), mesmo.


O filme foi rodado quase que inteiramente dentro de um ‘aparelho’ – nome dado a qualquer esconderijo ou local de reuniões secretas de estudantes ou revolucionários da época. Os personagens são uma socióloga maoísta e seus companheiros, entre discussões e leituras de trechos do histórico “livrinho vermelho” do líder comunista chinês Mao Zedong (Tsé-Tung), dezenas deles empilhados no apartamento. Apesar da visível pobreza técnica e da locação – alguns grandes filmes foram feitos em condições adversas e paupérrimas -, é um marco.  Para os raros sobreviventes da doutrina de Mao, uma ode ao revolucionário comunista autor de feitos heroicos, como atravessar a nado uma enorme distância (foto) - em montagens fotográficas, claro -, contraponto atlético ao estalinismo; em atrocidades, nada devia ao soviético. Havia um outro lado no filme, que me puxava pelo pé, uma crítica ao “aparelhismo” e o fascínio de parcela da juventude por Mao. Com o passar dos anos, consolidou-se em mim esse aspecto de crítica do filme -  Godard era anarquista e ironicamente ligado a um tosco existencialismo.


A China de Mao foi uma grande mentira que perdurou do golpe, em 1949, até 1976, com a morte do líder. Retratava um país sem fome, igualitário, de trabalhadores felizes nos meios de produção do Estado. Divergências, opiniões, arte, como em todo regime autoritário e autocrático, não tinham espaço, já que o onipotente regime tudo dava (mas punia exemplarmente quem não o seguisse às cegas).

Bolsa chinesa

Um salto para a atualidade, e um novo velho regime, a velha bandeira, o velho epíteto República Popular da China, o velho partido único, o mesmo discurso messiânico de seus líderes. Em 1978, dois anos após a morte de Mao, o país começou a empreender uma grande reforma econômica que hoje derrubou a linha de pobreza para 8% graças à imensa industrialização que o leva à segunda potência mundial, atrás apenas dos EUA. Conquistou assentos de importância em inúmeros organismos internacionais, como o Conselho de Segurança da ONU, a OMC e outros. O PIB chinês alcança mais de 20 trilhões de dólares, e a renda per capita (PIB do poder de compra) chega a US$ 15 mil (R$ 82 mil) anuais. A antes monolítica economia de Estado permitiu o surgimento de grandes fortunas individuais e empresas que hoje competem com as melhores do mundo, quando não produz insumos eletrônicos ou componentes pré-montados.


O mouse do meu computador é chinês! Ah, o teclado sem fio também. E meu relógio, o celular e seu carregador, a calculadora, o multímetro, o aparelho para fisio no tornozelo e, creia, os medicamentos, principalmente os genéricos, que usam insumos chineses, paquistaneses ou indianos. “Nossos” chineses costumam ser bons e duros negociantes, bem ao seu estilo mundo afora, ótimos cozinheiros ou gestores de restaurantes, massagistas de técnicas milenares, agricultores, cientistas e até gênios de nossa música ocidental, como o violoncelista franco-chinês Yo-Yo-Ma e o prodígio do piano Lang Lang (1982), que já assombrava o mundo quando criança. Ironicamente, o país socialista criou alguns dos mais poderosos bilionários do mundo, como Jack Ma, dono de uma das maiores cadeias de vendas existentes, a Alibaba (que me vendeu massageador, aliás), William Ding, poderoso tycoon dos games on-line, e Ma Huateng,  detentor das patentes de aplicativos e jogos como WeChat e League of Legends. A TikTok, de vídeos e trocas, tornou-se tão poderosa que foi proibida pelo governo norte-americano para uso no país sob alegações de viés claramente fascista e xenófobo de Trump, argumentos que não escondiam uma terrível dor de cotovelo: especialistas de todos os cantos projetam a China como a futura primeira potência mundial em alguns anos.


Dúbio como sua economia e ideologia atuais ou o filme de Godard, o país de 1,4 bilhões de habitantes tornou-se também paradigma na área médica e de pesquisa, uma produção sempre potencializada em grandes números. De lá o nosso Butantan importa insumos para a fabricação de uma vacina de pleno sucesso contra o Covid-19, e em breve terá autonomia suficiente para fabricar exclusivamente nas suas instalações de São Paulo a popular Coronavac. Isso, mesmo ante uma altamente reprovável xenofobia sob o manto de preconceito ideológico patrocinado pelos altos escalões brasileiros, uma sinofobia política que entre outras coisas tenta erguer barreiras para produtos como a tecnologia 5G chinesa, que já revoluciona o mundo. Usam as mesmas obstruções focais já empreendidas contra a vacina, mas terminaram perdendo, e hoje o consórcio sino-brasileiro domina não apenas a vacinação dos brasileiros quanto boa parte da produção interna nacional.

Chegando minha vez de ser vacinado – e que não demore tanto -, aceito outra, claro, mas ficarei contente com a segurança que sinto na chinesa. Na dúvida, claro, La Chinoise.



sábado, 13 de fevereiro de 2021

QUE TEM MEDO DO BICHO VACINA-PAPÃO?

 

Oswaldo Cruz e a Revolta das Vacinas 

Tenho acompanhado a trajetória das vacinas, como todo cidadão esclarecido. Coronavac, Pfizer, Moderna, Oxford, Sputnik V e outras. Todas elas têm suas peculiaridades, algumas vantagens e eventuais pontos negativos, mas sempre com um salto positivo em direção à erradicação da Covid-19. Trata-se, além de uma ‘guerra técnica’ de ampolas, de uma disputa econômica, nicho de uma mina de ouro. É o caso da vacina da Oxford-AstraZeneca, produzida na Inglaterra em uma cooperação anglo-sueca, que sofre um claro boicote e campanhas em países da União Europeia – obviamente, pinimba que é reflexo do Brexit.


Se há esta rixa político-econômica anglo-europeia, há outra de perfil pretensamente ideológico, preconceituosa até, de autoridades brasileiras contra a Coronavac chinesa, com ofensas de ministros e do próprio presidente via declarações de cor anedótica de não muito bom gosto: são xenofóbicas e antidiplomáticas. Por outro lado, a vacina é produzida no Brasil pelo Instituto Butantan da USP, o que faz dela um cavalo de batalha para Brasília, que estrategicamente é mais simpática à da PfizerBioNTech, produzida pela Fiocruz de Manguinhos, no Rio, munição para um embate de conotação político-eleitoral entre Brasília e o governo de São Paulo.

FioCruz

Uma questão intrigante: a rejeição da ideia da imunização por 22% do povo, talvez bastante baixa tendo-se em conta autoridades em campanha velada contra vacinas, mesmo se ridicularizadas pela imprensa estrangeira (o France 24, em 18/12/20, estampou: “Bolsonaro, do Brasil, alerta que vírus pode transformar pessoas em jacarés”, entre outras coisas). Os 22% dos brasileiros que não aceitam tomar a vacina estão em uma pesquisa Datafolha divulgada pela Isto É Dinheiro, que também ressalta que este percentual subiu absurdamente, desde os 9% registrados pelo mesmo instituto em agosto do ano passado. A mudança reflete a  sinofobia cega estimulada ‘de cima’ contra a Coronavac - apesar de todos aparelhos, componentes eletrônicos, roupas e insumos químicos chineses para remédios genéricos consumidos aos milhões diariamente no Brasil. Daqui passo de novo à Europa, desta vez à França, para buscar entender a rejeição em cada país.


Segundo o Euronews (9/12/2020), é consenso que 70% de vacinados são o número mínimo para que a imunização atinja efeito global contra a pandemia, e que os europeus estão entre os povos mais céticos quanto à imunização. Uma pesquisa reporta que os poloneses são dos mais radicais no mundo entre os que negam a vacina; também entre os povos mais céticos estão os franceses, com apenas 59% acenando que aceitariam a vacina apenas em caso de comprovada segurança e eficácia do produto, seja lá o que isso for, além do que tem sido divulgado. Espantosamente, a favor da vacina, ainda segundo o Euronews, os brasileiros contabilizam 85,36%, em primeiro lugar, seguidos pelos sul-coreanos, com 79,79%, México, com 76,25%, e EUA, 75,42, uma escala descendente de confiança na imunização em que a ‘lanterna’ fica com a Rússia, com 54,85%.


Em sexto lugar na lista dos descrentes das vacinas, a Espanha, com 54,3%, um dos países mais afetados pelo vírus, vive uma peculiaridade estratégica: o governo está preparando uma lista fechada com o registro de pessoas que se recusam a serem vacinadas. Os dados serão divididos com outros países da União Europeia, disse o ministro da Saúde Salvador Illa (foto), informou a BBC News (29/12/20). O ministro enfatizou que a vacinação não será compulsória, mas fica claro que o registro comum na UE é uma forma coercitiva de fazer o cidadão procurar a vacina – tanto é que, desde o anúncio de que haverá esse controle e a comunicação aos órgãos de saúde dos países europeus, os 54,3% de novembro despencaram subitamente para espantosos 28%. 


Há uma questão cultural envolvida, certa tradição antivacina em diversos segmentos de vários países. Uma amiga de origem inglesa, ao invés de levar os filhos ao posto de saúde para se vacinarem contra o sarampo, seguiu certa orientação paralela não-ortodoxa para procurar saber quais amiguinhos deles estavam em casa com a doença, e daí provocar o contato entre as crianças – mesmo que, como se sabe, nenhum contágio – fora o risco! - é tão eficiente quanto a imunização. Uma amiga francesa seguia a mesma ideia. Como todo bom gaulês, admirava coisas esotéricas e magias, a ponto de deixar o Brasil de volta para Paris já ungida mãe de santo, lá começando a jogar búzios, fazer adivinhações e até prometer a cura de doenças ou um amor de volta. Talvez o povo com maior número de leitores do “mago” Paulo Coelho, criador de histórias mágicas, fantásticas e esotéricas, seja o francês. A própria cultura da França é milenarmente rica em duendes, faunos, feiticeiros e perseguições reais a supostos bruxos e bruxas, como aconteceu com Jeanne D’Arc (1431).


No Brasil, fui imunizado contra diversas moléstias - a carteirinha de vacinação era exigida quando da matrícula nas escolas. Assim foi com meus filhos, e essa “compulsoriedade indireta” passou a fazer parte de nossa cultura, sem nunca mais ser questionada. Daí esses 22% de antivacinas representarem bem acima do que deveria se o estímulo à não-vacinação e contra a quarentena, patrocinado de maneira não-oficial pelo Executivo como catalisador das mentes enfraquecidas, via declarações e redes sociais. Com a vacina precoce, rígidos protocolos sanitários e ação enérgica pelos governos, já estaríamos com a pandemia sob controle.

 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

A CAVALGADA DAS VACINAS

 


Vale
citar um trecho da famosa A Cavalgada das Valquírias, da ópera Die Walküre, de Wagner, mais conhecida do grande público pelo aterrorizante ataque aos vietcongs por uma revoada de helicópteros, no filme Apocalypse Now, de Francis Coppola (1979). No Brasil, ensaiamos a batalha, enquanto quase 200 centros do mundo pesquisam vacinas, com cerca de oito já em conclusão. As mais adiantadas trabalham sobre dois princípios, o RNA (material genético) modificado ou o próprio vírus atenuado (explicação simplificada da pesquisadora Isabela Autran, da Fapesp/USP). Em São Paulo, a chinesa CoronaVac já descarregou um bom número de vacinas prontas e 600 litros para serem envasados. A americana Pfizer, associada à BioTechnet/FioCruz, espera até 95% de eficácia nos testes realizados, e já fez acordos com a União Europeia, os EUA e países latinos como Chile, Peru e México. Mas nossa burocracia anda em marcha lenta, apesar da urgência. 


Há outros empecilhos à negociação com a Pfizer, principalmente a necessidade de se armazenar o produto a uma temperatura de absurdos -70ºC, o que provavelmente descarta a totalidade das geladeiras dos postos de saúde, quase todos os SUS e afins. O país tem 5.570 municípios, muitos deles bastante pequenos, e várias metrópoles, como São Paulo e Rio, sem falar no campo e nas aldeias indígenas, que ficariam de lado. A Bahia já se adiantou e comprou certo número de freezers especiais, mas parece que será suficiente para pouco além da capital, Salvador. Se para os menores municípios do país três ou cinco deles poderiam servir, quantos, somente na área urbana da capital paulista, seriam necessários?


O mundo corre 'no vácuo’ do Reino Unido, que já enviou por ferrovias vacinas para centros estratégicos para começar a imunização em massa no dia 8 de dezembro, após aprovação que o assessor para saúde norte-americano Anthony Fauci (foto) – cuja permanência no cargo já foi anunciada por Biden, declarou apressada e perigosa. Os valores em real mencionados no parágrafo anterior mostram que esta vacina seria para uma abastada elite urbana e ‘ungidos’: a US$ 40 (R$ 210) pelas duas doses, mais transporte e freezers para armazenamento de milhões delas, chega-se a um custo estratosférico.


O tipo de freezer que a vacina da Pfizer requer existe em centros de pesquisa, como o Butantan, a Fiocruz e outros, e já são utilizados para experimentos, guarda de órgãos destinados a transplantes, fora as instituições privadas de reprodução assistida, ou seja, congelamento de esperma, óvulos ou embriões (foto), ‘hospedagem’ ridiculamente cara, acessível apenas a uma casta muito rica. Se vários centros não poderiam esvaziar suas geladeiras, outros não abririam mão das fortunas que auferem privadamente, portanto deve haver apenas mais alguns centros, como o HC, o Emílio Ribas e outros públicos, além de Hospitais como o A. Einstein e alguns laboratórios, que também não podem simplesmente esvaziar seus conteúdos.


Cada freezer desses custa US$ 20 mil (mais de R$ 85 mil), fora o transporte, o que lançaria as cifras a níveis exorbitantes. Existe a possibilidade de se adquirir maletas especiais para até 15 dias de transporte, o que somado ao preço total seria impagável. Enquanto isso, a celebrada AstraZeneca/Oxford teve de suspender seus testes e recomeçar devido a uma falha de protocolo, o que atrasa ainda mais nossa batalha particular.


Correndo por fora, a chinesa da Sinovac, CoronaVac/Butantan, que tem custo dez vezes menor e funciona em dose que esperamos única, com eficácia a ser numericamente comprovada, e pode ser armazenada entre 2 e 8ºC em simples geladeiras de postos de saúde ou do SUS. O governo do estado de São Paulo comprou e já recebeu um lote pronto e insumos para envase pelo Instituto Butantan, ficando grandes volumes para mais adiante. O Butantan sofreu uma reforma (foto acima) e se prepara com a ajuda da Fapesp e do Todos pela Saúde (Itaú-Unibanco).


Contudo, aparentemente, há um impasse. O presidente da República já reiterou que não comprará a vacina chinesa, pura e simplesmente, não se sabe se por questão ideológica ou outro motivo desconhecido. Técnico-científico, sabemos que não é, fora bravatas como a do ministro da Economia, sobre “evidências empíricas” (sic), coisa desprovida de sentido cientifico (Estadão, 3/12). E a Anvisa, a ser dirigida por Jorge Luiz Kormann (foto), um tenente-coronel olavista nomeado pelo presidente cujo nome deverá ser ratificado pelo Congresso no dia 19 de dezembro, já vem obstruindo e procrastinando o ingresso da vacina chinesa há tempos.


Porém, um fato recente parece esquecido: Em 6 de fevereiro deste ano o presidente sancionou lei nº 13.979, decretada pelo Congresso, ante a iminência da catástrofe anunciada. Diz o preâmbulo: “Dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública (...) decorrente do coronavírus responsável pelo surto de 2019” (sic). E, no caput do Art. 3º: “poderão ser adotadas, entre outras, as seguintes medidas”. Entre elas, diz o inciso VIII: “autorização excepcional (...) para a aprovação de produtos sujeitos à vigilância sanitária sem registro na Anvisa, desde que: a) registrados por autoridade sanitária estrangeira”.

Em tempo: cavalgada ou cavalhada vem de cavalgata, um desfile que representa o duelo de lanças e espadas entre azuis e vermelhos, cristãos e mouros, do sul do Brasil a Minas e Bahia, tradicional folguedo introduzido no país, como tantos outros, por influência da ocupação mourisca da Península Ibérica.