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sexta-feira, 26 de novembro de 2021

MATHEUS 19, BERTOLD BRECHT E ORÇAMENTO SECRETO

 

 


“Então lhe trouxeram algumas crianças para que lhes impusesse as mãos, e orasse; mas os discípulos os repreenderam. Jesus, porém, disse: deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, porque dos tais é o reino dos céus”. (Matheus, 19:13-15; trad. J. F. D'Almeida, 1681: foto).


Diversas organizações ao redor do mundo
dedicam-se a crianças desnutridas e doentes cujas figuras esquálidas se assemelham nos mais diversos países, como Etiópia, Haiti, ou entre nossos Yanomamis. Difícil é não se emocionar e até não sentir-se fraco quando, na TV, uma ONG chamada Médicos sem Fronteiras ou a WFP (World Food Program) expõem crianças que não têm pátria, sua nacionalidade é o mundo. Distribuem sachês de complemento alimentar fazendo de refeição, medem-lhes os perímetros dos braços como escalas de desnutrição, pesam-nas em espécies de gangorras – já não suportam o próprio peso de pé, nem de suas protendidas barrigas. É o preço da desigualdade, da guerra, da violência, do racismo, do desinteresse dos poderosos. A nacionalidade deles é a miséria, não conhecem outra.


Contribuir para essas instituições
e inúmeros voluntários é como ajudar seus próprios filhos ou netos (sinta-os como seus). Uma colaboradora francesa do Médicos sem Fronteiras foi quem acompanhou o triste final do haitiano Jean Gerald, oboísta que havia chegado ao Brasil para estudar no Conservatório de Tatuí. Depois de desaparecer da cidade e terminar em Port-au-Prince, capital do Haiti, foi ela quem, em meio a seus afazeres humanitários, deu a terrível notícia: Jean havia sido morto em um incêndio suspeito no quarto do casebre em que dormia. Os colaboradores dessas organizações estão nos locais que lhes foram designados para o que der e vier - acima dos serviços médicos ou de enfermagem, tornam-se bons samaritanos pela natureza de sua missão.


O dramaturgo alemão Bertold Brecht
(1898-1956) fez uma breve e histórica incursão na alienação social: “O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil que de sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado...” Sim, Brecht chama a atenção para o fato de a alienação ser cúmplice, portanto também culpada, pelo que há de ruim no mundo, e parece não ter fim. O alienado finge não ver miséria e desigualdade; se não, pior, fecha os olhos, tornando-se cada vez mais insensível e cruel. Transforma-se, sem se dar conta, de passivo a ativo na miséria de tantas crianças, neste mundo tão desigual em que vivemos.


Mais ativo ainda
é o mundo da corrupção pública. Este é o campo em que são semeadas ilusões para colheita de votos, dos votos o poder, e dele o dinheiro, e mais poder, assim por diante. A distribuição de emendas de relator, na roleta dos mais altos escalões, são especialmente pródigas em ralos de dinheiros públicos para a obtenção de favores. A fim de tornar essa “distribuição amigável” de riqueza invisível aos olhos de todos – contra a moralidade e a publicidade que são impostos pela Constituição no trato com a coisa pública -, tentaram o malfadado ‘Orçamento Secreto’, que recebeu uma definição surpreendentemente bastante clara do vice-presidente Hamilton Mourão: “é manobra que beneficia apoiadores do governo” (O Globo, 17/11). Contribui-se, assim, para as pautas mais escusas e obscuras no Congresso, confabuladas nos celulares e na intimidade dos gabinetes. No dia 5/11, a ministra do STF Rosa Weber decidiu pela suspensão “integral e imediata da prática”. No dia 10, a malfadada conduta recebeu 8 votos a zero no plenário do STF, com duas divergências: o neófito Nunes Marques e Gilmar Mendes. Mais uma vez, Mourão saiu em campo, declarando que a interferência do STF foi oportuna.


Um volume enorme de recursos
(20,1 bi em 2020) vai como ‘agrado’ para votos dos parlamentares em questões de interesse palaciano, como o chamado "tratoraço": distribuição de tratores como fossem gorjetas. Além da transição atabalhoada do Bolsa Família para Auxílio Brasil – e houve problemas desde o app do celular ao montante sacado pelos contemplados mesmo após longas filas nas agências da Caixa. Ah, a culpa de tudo é a falta do ‘orçamento secreto’, que impediu os nebulosos repasses aos interessados nos valores prometidos! Enquanto a farra, antes, continuava na distribuição de ‘favores’ a altíssimo custo, agora os culpados passam a ser a moralidade e a publicidade escamoteadas da vista de todos, longe do mesmo povo que sofre e precisa do auxílio financeiro.


Não menos deprimentes
do que as cenas referidas no princípio deste texto, crianças desnutridas e morrendo no Haiti, Madagascar ou Etiópia, são os depoimentos na TV sobre a ‘nossa’ fome infantil: a mãe que não se alimenta todos os dias para que os filhos tenham um mínimo para comer, ou a que faz de uma carcaça de geladeira carrinho de mão para trabalhar como catadora – reprovada pela cooperativa -, tudo isso é culpa direta não apenas de muitos agentes públicos, mas indiretamente também de nossos ‘analfabetos’, os que ignoram o bom exercício político – que exige honestidade, raciocínio e espírito humanitário (do outro lado, os que o atacam negativamente com palavras e atos cegos, fanatizados).


É preciso estancar a corrupção
 de qualquer que seja a forma que ela surgir travestida; quem sofre primeiro são os pequenos, que mais dependem de ajuda. Que logrem sobreviver a esta dura jornada com suas famílias: deixai irem a elas as suas criancinhas, e dai-lhes um Natal sem fome.

 

 

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

O BAILE DA ILHA FISCAL E A REPÚBLICA


Era o ano de 1889
, seguinte ao da Lei Áurea da princesa Isabel, que chancelou o que já acontecia de fato: após as leis dos sexagenários (1871) e do ventre livre (1885), os escravos estavam quase todos aquilombados ou libertos. A história – fato tão frequente no país... – conta que a turma revolucionária se reunia com assiduidade no Clube Militar, tramando o golpe republicano que feriria de morte o Império. O Visconde de Ouro Preto, chefe do Conselho de Ministros e bajulador-mor do monarca, foi quem concebeu a festa, um bem-bolado entre os 54 anos de Império sob D. Pedro II e as Bodas de Prata do Conde D’Eu e a Princesa Isabel. Ampliou ainda mais a festança, ou bacanal, a recepção ao navio chileno Almirante Cochrane, que, aliás, já havia aportado dias antes – homenagem ao país amigo, aliado do Império. Marcada para 19 de outubro, com a morte do rei de Portugal e sobrinho de Pedro II, D. Luís, a fuzarca foi adiada para o dia 9 de novembro. O baile demonstraria o poder imperial e a robustez da monarquia brasileira.


Temendo os revolucionários
, avaliando a segurança de possíveis locais para o baile, como o Palácio Imperial de Petrópolis, decidiu-se pela Ilha Fiscal, uma enorme construção na Baía de Guanabara, arquitetura de influência francesa – comme il faut. Disse o imperador: “é um delicado estojo, digno de um brilhante” (coroa e cetro na mão, devia estar pensando em si mesmo). A Marinha de Guerra, única das Armas que restava aliada fervorosa da monarquia, cedeu a Ilha para hospedar a festança. O Visconde de Ouro Preto não mediu esforços e sangrou  a verba do Ministério de Viação e Obras Públicas destinada aos flagelados da seca no Ceará (ninguém se importará, pois a seca é um flagelo permanente, e o Baile será uma ostentação única, deve ter imaginado). Para o rega-bofe, foram adquiridas mais de 4.500 garrafas de vinho, 12 mil litros de cerveja, 1.900 garrafas de champanhe e um bocado de conhaque, licores e outras bebidas. Quase 5.000 convidados foram lautamente servidos com faisão, caviar, salmão e outras iguarias finas.


Chegado o dia do baile
, D. Pedro, 64, subia, imponente, as enormes escadarias, vislumbrando um palácio sob cujos degraus os convivas se curvaram para recebê-lo. Acometido por um mal-estar, o monarca fraquejou e foi ao chão, sendo acudido daqui e dali. (Ao se recuperar, se já houvesse aquele samba genial do Paulo Vanzolini, de 1962, teria ouvido: “reconhece a queda / e não desanima / levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”). No silêncio, entre muitos ‘ohs’, D. Pedro, após recompor-se do tombo, deu de proferir uma daquelas frases lapidares, que deve ter matutado após seu breve fanique: “cai o imperador, mas não cai o Império!” Sendo a política, especialmente em tempos de turbulência, feita de gestos e frases, houve quem tenha pensado em pura encenação para enchanter la noblesse (em francês, já que o menu e a carte des vins, crème de la crème, também o eram). A célebre frase do imperador foi um vaticínio adverso: seis dias depois, 15 de novembro, caiu o Império, sob o golpe republicano de Deodoro.


Na manhã seguinte
, após terminada a farra, relatórios da serventia encarregada da limpeza fizeram o rol das peças de roupas e objetos largados no pomposo castelo: numerosas cintas-ligas, corpetes e coletes de senhoras, além de quase 30 chapéus e cartolas masculinas, sem falar em discretos canudinhos e bandejas de prata com vestígios de um alcaloide muito apreciado pela sociedade da época, proibido no Brasil apenas em 1921: o cloridrato de cocaína.

Palácio Imperial de Petrópolis

E veio a República
- do latim res-publica, ‘coisa pública’. Ainda que tarde, um século após a queda da Bastilha, na Revolução Francesa (1789), e a revolução americana (1791), o Brasil ingressaria no seleto clube republicano, dando fim ao regime monárquico. Na época, o país imaginou estar encerrando o ciclo de farras às custas das secas, das locupletações da ‘coisa pública’, das fartas mordomias, da cobrança do ‘quinto’. Mas até hoje alguns luxos ainda sobrevivem: todos os negócios imobiliários em Petrópolis, RJ, ainda pagam o laudêmio, um imposto devido à enfiteuse, “direito real em contrato perpétuo, alienável e transmissível para os herdeiros”, que reverte para os dez membros sobreviventes da realeza: um afago de mais de R$ 6 milhões, todos os anos.


No último dia 15 de novembro
a Proclamação da República foi celebrada pela 132ª vez. Mas os gastos palacianos com luxúrias, hoje, não vão longe daqueles do Baile da Ilha Fiscal, guardadas as devidas proporções: lagostas, camarões, caviar e champanhe às pencas. Assim como os gastos ministeriais, as mordomias da caserna cresceram, tal qual as benesses para as classes militares e policiais, as promoções nas carreiras e até casas próprias subsidiadas pelo Poder Público. “Não!”, alertou com a perspicácia de sempre o respeitado general Villas Boas, ex-Comandante do Exército,  genuíno democrata, e prosseguiu: os militares não estão no poder, só resta assegurar que a política não chegue aos quartéis. Em vista dos recentes imbróglios sobre orçamento secreto e teto de gastos, um vez derrocado o primeiro, que não seja a responsabilidade fiscal um novo baile palaciano, sem ilha nem navio chileno. Mantenha-se o espírito republicano!



 


sexta-feira, 12 de novembro de 2021

COVID-19: "FILHOS...FILHOS? MELHOR NÃO TÊ-LOS"

 

(Infomoney)

No dia 2/11, o Estadão informou que o FDA
(Food and Drug Administration) e o CDC (Center for Disease Control) liberaram a vacinação de 28 milhões de crianças de 5 a 11 anos, dando aval para que sejam imunizadas com duas doses em intervalo de três semanas, com apenas um terço do conteúdo da vacina dos adultos. Nos EUA, foram 1,9 milhão de casos de Covid infantil e 8.300 hospitalizações. Com 90,7% de eficácia, a vacina da Covid infantil traz outros dois benefícios: a volta segura às aulas e a diminuição da transmissão da doença para os familiares das crianças, com reflexos na população como um todo.


A Inglaterra adotou medidas específicas para escolas
: faz testes nas crianças e, semanalmente, nos pais. Minha filha, residente em Londres, recebe também, pelo correio, um kit com “swab” – aqui, ‘cotonete’ –, usado para colher material do filho, que deve ser devolvido ao próprio carteiro. Tudo de graça, pelo NHS, claro. As crianças nas escolas são separadas em grupos chamados ‘bolhas’, para que, em caso de infecção, não haja perda de controle e transmissão do vírus entre todos os alunos. Cada grupo de pais pertence à sua ‘bolha de proteção’, e não há contato pessoal entre os membros dos grupos.  Na eventualidade de uma infecção, não será necessário fechar a escola inteira, as medidas de controle ficam restritas às daquela ‘bolha’ específica. Meu neto Thomas, 7, passa pelos testes de “swab” e o convívio com essas medidas sanitárias com tranquilidade.

(Metrópoles)

Enquanto isso, no Brasil
, a sanha dos militantes negacionistas não conhece limites. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) revelou ter recebido duas ameaças eletrônicas, inclusive de morte, contra “servidores, diretores, funcionários terceirizados e seus familiares”, caso seja aprovada a vacina contra a Covid-19 em crianças, embora ainda não conste oficialmente o pedido da fabricante (UOL, 3/11/21). No dia 5/11, a Agência, após uma terceira ameaça, pede proteção policial para seus membros. As coações seriam uma reação ao anúncio da Pfizer de que vai pedir à Anvisa autorização para vacinação na faixa de 5 a 11 anos, como nos EUA. A documentação será entregue pela empresa ainda no mês de novembro.


Não se sabe o que norteia as ações dessa militância fanatizada
, nem seu potencial. Sabe-se apenas que ela afina perfeitamente com muitos outros ataques contra o progresso da campanha. É sempre bom lembrar o que foram as vacinas Salk e Sabin contra a Polio: o que teria sido do nosso país sem as vacinações em massa e até compulsórias para crianças em idade escolar? Uma população com grande número de crianças e adultos paralíticos, tragédia sem fim. O mote “vacina mata” dos aguerridos negativistas é um estúpido resquício de preconceitos obscuros do passado que devem ser eliminados. Segundo o UOL, EUA, Camboja, Cuba, China, Israel e Emirados Árabes já estão em franco processo de vacinação infantil. Outros estão em fase de liberação após análises técnicas mas...Países como o Brasil ainda protelam, sendo que as forças mais retrógradas, a começar pelo chefe da Nação, ainda apelam contra máscaras e vacinas.

Fake sobre vacina e Aids

Em sua live do dia 21/10
, o presidente da República afirmou, baseado em um suposto relatório publicado no Reino Unido, que “indivíduos totalmente imunizados estão desenvolvendo mais facilmente a Aids”. A publicação britânica era fake, mas caiu como uma luva na cruzada antivacina presidencial, que aliás está sendo investigada. Não foi apenas o uso irresponsável de uma notícia sem que ao menos fosse checada a veracidade da informação - muito além disso, estimulou-se mais uma crença absurda contra a inoculação.


O que é um ano em nossas vidas?
Para os adultos, no mais das vezes é apenas um, passa como um jato no céu, como este ano que já se vai. Porém, na idade de 5 a 11, é quando se dá a formação do indivíduo, sua socialização com seus pares, a consolidação da leitura e da escrita, o desenvolvimento das habilidades motoras e do raciocínio. Mais ainda, é por volta dos sete anos que, segundo Piaget, na segunda e terceira fases do desenvolvimento cognitivo é que se dá uma transformação fundamental para as crianças: a passagem da visão sincrética do mundo e das coisas para outra, a analítica, quando elas começam e pensar mais objetiva e criticamente. Este é o ponto. A perda do aprendizado regular e do convívio social traz prejuízo aos pequenos, e a vacinação da faixa 5-11 uma segurança enorme para o convívio escolar.


Se o obscurantismo dos ‘arautos do contra’
, dos apóstolos da mentira, dos desagregadores da sociedade, é uma arma perigosa - como aliás todas as outras -, cercear o acesso das crianças às aulas é uma grave ameaça armada. Entre as camadas mais carentes de informação, a investida negacionista é como outra doença – conheço dois casos de não-vacinação ou desistência da segunda dose por causa da ignorância estimulada por maldades como esta mais recente, que virou, trocando em miúdos, “vacina da Covid dá Aids”.

(soma.org.br)

“Filhos...Filhos? / Melhor não tê-los! / Mas se não os temos / como sabê-los?”, filosofou Vinicius de Moraes em seu “Poema enjoadinho”. Preferi tê-los, e até hoje, já grandinhos, cuido para merecê-los. Não estão mais na idade do desenvolvimento cognitivo de que falou Piaget, e cada um toca a vida a seu modo: à americana, à inglesa ou aqui, com toda assepsia no laboratório ou em home-office. Mas, seguramente, se fossem pequenos, correria a vaciná-los, rumo à oficina de bons cidadãos, que tanta falta faz: a escola!

 


sábado, 6 de novembro de 2021

PANDEMIA: A PARANOIA NECESSÁRIA E A RAZOABILIDADE


Sou leitor compulsivo de jornais
. Pela manhã, dois nacionais, além de passar os olhos no The Guardian, NY Times, Le Monde – fora, claro, quando há edição de O Progresso, de Tatuí. Assim, procuro me informar acerca do que acontece aqui, no país e na cena internacional, e como o Brasil se insere nela. Ano e meio para cá, um olho na Pandemia, o que não me faz um especialista, a área não é da minha formação de doutor: sou mero pesquisador de outro campo - mas com o mesmo rigor - em busca de notícias e pesquisas abalizadas de publicações como a Science, a Lancet e o New England Journal of Medicine. A doença avançou, e por conta do descaso negativista, muito além do que deveria - mas a ciência corre em velocidade inédita na pesquisa e produção de vacinas.

Fapesp

Como muitos, protejo-me, isolo-me
, prefiro o delivery e uso máscara sempre que vou à rua; uso o álcool em gel, evito aglomerações e mantenho o distanciamento recomendado conforme o figurino, ou seja, a OMS e as determinações do estado de São Paulo, fui vacinado duas vezes e aguardo o reforço. E tenho ajuda familiar: minha filha Isabela, 26, é pesquisadora em química/biomédica pela Fapesp-USP, e na dúvida a ela recorro.

FioCruz

A Drª Margareth Dalcomo
, profª adjunta da PUC-RJ e pesquisadora da Fiocruz com várias especializações, resumiu o momento atual em um recente programa jornalístico na TV: “Cada vez está mais demostrado que transmissão da Sars-Cov-2, o vírus da Covid-19, (...) é de natureza respiratória, (...) é ambiental”. “De modo que limpar sacolinhas, embalagens, superfícies, (...) perdeu a sua importância. “...e muito menos sola de sapato”, acrescentou. “O importante é saber que a contaminação está ligada ao meio ambiente”. No início da pandemia, famílias deixavam os sapatos do lado de fora da casa, outros passavam álcool em gel nos saquinhos de compras de supermercado. Com as novas conclusões – que não são apenas da Drª Dalcomo, mas também dos centros mundiais de pesquisa -, mudou a concentração do estudo da Covid: o foco é nos tratos respiratórios, especialmente o inferior: traqueia, brônquios, bronquíolos, alvéolos e pulmões (com a devida vênia dos Srs. médicos, apenas resumi o que pude depreender dos textos das pesquisas).

Aerossois

Sendo o trato respiratório o meio de contágio
, segundo os cientistas especializados há duas espécies de ‘ataques’ pelas vias aéreas: as gotículas (‘gotas minúsculas’) e os aerossóis, "suspensão de partículas (...) freq. líquidas, num meio gasoso como o ar” (Houaiss). As gotículas têm ‘voo de galinha’, e caem a pouca distância de uma pessoa por serem mais pesadas do que o ar; com o distanciamento e uso comum de máscaras, tornam-se quase inócuas – exceto alguma secreção via tosse, espirro ou saliva da fala lançados diretamente no rosto a descoberto de alguém. Já os aerossóis, invisíveis a olho nu, são o grande perigo: em locais fechados como banheiros públicos e ambientes mal ventilados, ficam em suspensão no ar durante um bom tempo, sem que o cidadão saiba que os está inalando. Assim, alguns tabus caíram por terra, e, mantendo-se a assepsia, o distanciamento e com boas máscaras vedadas cobrindo do nariz ao queixo, o risco se configura muito menor.


Se me refiro à paranoia necessária
é porque, no início da pandemia, aqueles exageros dignos de filmes de ficção científica realmente eram uma forma de precaução compatível com a informação que o mundo tinha sobre a doença. Certos cuidados – boas máscaras, distanciamento, limpeza das mãos – continuam altamente recomendáveis, e devem ser mantidos. Mas, inequivocamente, os exageros iniciais foram necessários.


Um colega professor da USP,
Jacyr Pasternak (alguma ligação com a conhecida Dr.ª Natália Pasternak, com certeza), pesquisador que em meados dos anos 80 passou a se especializar em outro vírus letal, o HIV, esteve em alguns departamentos para fazer palestras sobre os cuidados para se evitar o contágio. Era tudo assustador, o pânico era tanto que no clube que eu frequentava havia um cartaz explicando que o vírus não era transmitido por copos, xícaras, talheres e objetos. Voltando ao Pasternak e à paranoia necessária, em um café depois da palestra ele disse que nem todo tipo de relação sexual transmitiria o vírus. Surpreso, perguntei-lhe o porquê de não ter explicado isso também, ao que ele perguntou: e você acha que daria certo? Melhor manter o medo, porque em uma relação pode sempre haver excessos e, com eles, riscos, disse.


Segundo a FioCruz
(Estadão, 21 de outubro), a transmissão da Covid-19 segue em visível queda no Brasil, fato que é constatável pelos números diários do Consórcio de Imprensa, formado ante a ausência de dados confiáveis do governo. 25 estados e 23 capitais já estariam fora da chamada ‘zona de alerta’, mas cientistas explicam que “a epidemia não está definitivamente controlada”, e que “a impressão de que já vencemos a pandemia é enganosa, sendo imperioso, nesse momento, continuar vigilante” (sic). São Paulo, mesmo após o esperado controle da pandemia, estuda continuar a exigir máscaras para ingresso em lugares como hospitais.

De posse dessas informações mais recentes, é necessário prosseguir com as cautelas que a ciência exige, mas, agora, dentro de critérios seguros de razoabilidade. Sem a paranoia do início da pandemia e menos ainda a liberalidade descontrolada – vale a razoabilidade. Diria meu pai: nem tanto ao mar, nem tanto à terra.


                                                       ***
Este mês de outubro fechamos com recorde mensal de acessos (mais de 8.410) e número total (mais de 326.000). Obrigado!



sexta-feira, 22 de outubro de 2021

SUA MAJESTADE, O CURURU

 

Osvaldo Lacerda

Até mudar-me para Tatuí
, interior de São Paulo, em 2008, só sabia do cururu pelas aulas de folclore, no Rio. Não o conhecia in loco, ao vivo, até ir morar na região. Lembrava-me do cururu que Mário de Andrade chamava de “transposição erudita” da música de raiz brasileira: o compositor Osvaldo Lacerda (1927-2011), último bastião nacionalista da chamada música de concerto e durante muitos anos professor na Escola Municipal de Música de São Paulo, onde fui diretor, era mestre em mazurcas, cocos, xotes, modas, maxixes, lundus, polcas, forró e... Cururu. Tanto que criou sua versão em uma das 9 Brasilianas para piano, a de número 2.

Cenário do Jaime Pinheiro

Em Tatuí, costumava receber bilhetes
carinhosos do Lacerda, até perto de seu falecimento; em um deles, mencionava o cururu das Brasilianas. Escrevia com o esmero de sempre, e resolveu me parabenizar, e ao Conservatório de Tatuí, pela iniciativa de ajudar a manter vivo o cururu na região, como parte do Festival de MPB – Raiz e Tradição, “uma das três ações realizadas, (...) que também inclui o Certame da Canção e o Painel Instrumental”, divulgou a reputada escola de música, artes cênicas e luteria do estado.

Com Almir Sater

O I Torneio Estadual de Cururu
aconteceu em 2009, após eu ter travado contato direto com o gênero no ano anterior. Homenagem ao cururueiro Horácio Neto, teve lugar na Concha Acústica Spartaco Rossi, e durante a apuração dos resultados houve apresentações de Antonio Nóbrega e do campo-grandense Almir Sater, que além de ótimo cantor – emocionou o público com sua versão de Chalana, de Mário Zan – revelou-se um bom papo e dono de uma boa cultura geral, tendo cursado Direito no Rio de Janeiro. Foi esse primeiro evento que chamou a atenção do compositor Osvaldo Lacerda e motivou o afável bilhete que me endereçou. E foi um dia histórico: subi ao palco com os diretores de importantes instituições para assinar, com o governador Alckmin, um acordo para o curso superior de Produção Fonográfica (Fatec) e o de Técnico em Música (Etec).

Assinando o acordo: Diretores da Fatec e Etec, o governador e eu, pelo CDMCC


Em 2010, quatro mil pessoas na plateia, vieram duplas de cururueiros de diversas regiões de São Paulo para, também na concha acústica, participarem do II Torneio de Cururu, homenagem a

Tinoco!

Noel Mathias, sob a coordenação do cenógrafo e escultor Jaime Pinheiro. Além do certame, em si, tivemos uma linda exibição de catira, ameaçada de esquecimento como o cururu, e o sorridente Tinoco, que teve dupla caipira com o falecido Tonico. Dois anos depois daquela apresentação, Tinoco também faleceria, talvez entrando no Céu com todo aquele garbo com que cantou no final do Torneio - um smoking de reluzente lamê vermelho.

Tropeirinhos do Rancho

Em 2011, em homenagem à memória de Pedro Chiquito
, levamos o III Torneio para o Teatro Procópio Ferreira, a fim de trazer o povo para dentro: chegamos a ‘convocar’ alguns mais tímidos que se escondiam lá fora, para que entrassem no auditório, já que a casa também é deles, para se tornarem frequentadores. Foi um sucesso, mas o público não ficou à vontade. Assim, o IV Torneio, em 2012, tributo a Aírton Pires, aconteceu no pátio do estacionamento do Conservatório. O público, bem mais à vontade, pôde se deliciar com iguarias caipiras e até degustar provinha de uma das diversas variedades de cachaça da tradição local. Todos em casa!

Sempre com a coordenação do Jaime Pinheiro e grande sucesso, em 2013 repetimos a apresentação na chamada “quadrinha” do estacionamento, com público, violeiros e canturiões (cantadores de cururu) bem à vontade. O V Torneio, “in memoriam” de João Davi, contou com apresentações como a catira dos Tropeirinhos do Rancho no intervalo. O VI Torneio, dedicado a Luizinho Rosa, aconteceu em 2014, também no estacionamento do Conservatório.

José Pinto e Josué

Conheci o cururu das rodas
, fiz amizades com vários cururueiros, em especial o cantador José Pinto, exímio poeta, e o violeiro Josué, seu companheiro de sempre. O cururu parecia efervescer novamente, cheguei a ir a eventos em cidades próximas, como Pardinho, em seu lindo e ecológico Centro Cultural Max Feffer.

O autossustentável Centro Cultural Max Feffer, de Pardinho - Fundação Jatobá


Puxando o baixão

Diz a tradição
que cururu é corruptela de cruz (“cururuz”, entre os indígenas), e teria se desgarrado da catequese para tornar-se arte profana, uma espécie de desafio que obedece a certas regras. O cantador incumbido de puxar a querela faz o seu “baixão”, ou seja, uma linha melódica sem letra, como um vocalise, base para o seu improviso. Os versos são organizados em rimas, chamadas carreiras, que podem ser ‘do divino’, ‘do sagrado’ e ‘do sinhô’, entre tantas, além de algumas bem difíceis para se improvisar. São comuns desafios de cantores com um violeiro ou duas duplas independentes, cada qual com seu acompanhamento. Piadas e ironias são permitidas, mas a ética dos cururueiros não aceita falar da mãe alheia, ofensas e racismo.

José Pinto, Zacarias e Josué

Temas fequentes são Bíblia
, política e história, o que obriga o cururueiro a um conhecimento geral bastante abrangente, pois é na contenda entre as duplas que eles serão testados. A tradição exige dos canturiões, para poder replicar, além de versatilidade no improviso e atenção ao que canta o outro debatedor, esse conhecimento, o que os obriga a ler e estudar.

Jó, por Léon Bonat (1880)

Faço homenagem
ao poeta e canturião José Pinto e o violeiro Josué - arrimo para qualquer bom cantador - em nome de todos os cururueiros, com uns versos emprestados do primeiro, “Um pouco de Jó”: “
Jó era muito querido / onde era morador / tinha pena tinha dó / do pobre trabalhador / (...) um homem que sofreu tanto / não reclamava da dor”. E lá ia história. Paciência de Jó, salve o cururu!





sexta-feira, 15 de outubro de 2021

PARAÍSO E FETICHE

 

Os retirantes de Portinari

“Uma incelença / entrou no Paraíso / adeus, irmãos / que é o dia do Juízo”. Cantiga fúnebre da tradição popular gravada por Dorival Caymmi, surge na versão musicada por Chico Buarque de Morte e Vida Severina, do João Cabral: “Finado Severino / ao passares em Jordão / e os demônios te atalharem / perguntando o que é que levas”. O Paraíso do retirante nordestino é cáustico, corrosivo, os versos narram que deste mundo Severino só levou “coisas ocas / como o caixão que ainda deves”.

O Paraíso dos Vedas (texto em inglês em vedkabbed.com)

O que seria o Paraíso?
Talvez um estado puro de completude, morada da paz. Ele faz contraponto com a miséria humana, o chão em que sofremos nesta Terra. Nas religiões, surge como ideia de recompensa para os puros, ou os que purgaram seus pecados. Para algumas, trata-se de um lugar no alto; entre islamitas e cristãos revela-se como um alívio, libertação, estado de felicidade plena. Para os budistas, Paraíso e Céu são sinônimos, estados de plena elevação espiritual. Entre os Vedas indianos, é como se o corpo físico fosse incendiado para se transmudar em outro estado, acima da humanidade. A palavra veio do grego Parádeisos, de onde o latim Paradisus, que nos deu Paradis, em francês, Paradiso, em italiano, e finalmente, em português e espanhol, Paraíso.

Ruínas das colunatas de Pasárgada, no Irã

Ingrediente que fertiliza poesias
, a palavra ambienta Vinicius de Moraes, em O Vale do Paraíso (1933): “Quando vier de novo o céu de maio largando estrelas / (...) lá onde os pinheiros reacendem nas manhãs úmidas / lá onde a aragem não desdenha a pequenina flor das encostas” - lindos versos descritivos, suavemente pueris mas contados com olhos adultos e terrenos. Para Manuel Bandeira, é Pasárgada, um lugar perfeito onde tudo funciona às maravilhas: “lá sou amigo do rei / lá tenho a mulher que eu quero / na cama que escolherei / (...) um processo seguro / de evitar a concepção / tem telefone automático / tem alcaloide à vontade / tem prostitutas bonitas / para a gente namorar”. Pasárgada é sonho terreno onde não existe pecado: satisfações mundanas, nada celestiais.

O Paraíso de Dante

Terceiro livro e parte final de A Divina Comédia
(1308-1320), de Dante, Paraíso conclui a trilogia da viagem que sai do Inferno e atravessa o Purgatório, que o antecedem. É a jornada final de Dante, conduzido por Beatrice, que simboliza a fé, em alegoria. O Paraíso é dividido em nove esferas, da inconstante lua até a última, primum mobile, os anjos. Pouco depois de terminar A Divina Comédia Dante morre, deixando a cruzada descrita em seu tríptico, uma das maiores criações da humanidade. Talvez tenha descoberto o enorme alcance que sua alma mater, sua alma parens, viria a significar para nossa Civilização – o que escrever depois dele?


Em A Classe Operária Vai ao Paraíso
(1971), filme do italiano Elio Petri, o fura-greve Lulu Massa, interpretado pelo mestre do gênero, Jean Maria Volonté, não adere ao movimento paredista dos colegas da fábrica, e ao manobrar sozinho uma das máquinas perde um dedo. O acidente fez de Lulu não um grevista a mais, mas um revolucionário. O título do filme remete aos anos de chumbo de parte do mundo, e, segundo a Drª Marta de Aguiar Bergamin, da UFSCar, “o fetiche dá um parâmetro para a análise dessa trajetória relacionando a luta política com as dimensões subjetivas do trabalho” (em “E quando o Paraíso é uma névoa? ‘A Classe Operária’ e o fetiche”. Revista Aurora, 2017). O filme não aponta para um Paraíso, mas um fetiche que a fantasia dos operários criara de forma coletiva, sem necessariamente acontecer.

"Che", Fidel e companheiros em Sierra Maestra

No Brasil, por volta dessa época
(fim dos anos 1960 e início dos 70), existiu o fetiche, sombra da luta armada à Sierra Maestra cubana, que com Fidel, Guevara, Camilo Cienfuegos e apenas mais nove incendiaram o mundo pós-1959. Criaram o sonho de uma sociedade igualitária, cujo combate no Brasil foi desculpa para inúmeras torturas, mortes e desaparecimentos. Em Cuba, 12 desceram a cordilheira para arrebatar um país inteiro cuja população era menor do que a da cidade de São Paulo - no Brasil, gigante pela própria natureza, não vingou. Com um regime de exceção instalado, criou-se uma desculpa esfarrapada para fechar Congresso, controlar a imprensa, prender por “crime de opinião” e censurar: a “pecha infamante de comunista” do “Manifesto” dava o tom.


A distorção proposital da palavra “comunista”
era tão absurda que restou tratá-la com ironia: depois de sair da prisão, a chamada turma do Pasquim resolveu vulgarizá-la, tornando-a anedota. Bem ao seu estilo, escreviam “fulano? Comunista igual a nós!” “Sicrano? Também”. O momento era propício para o regime criar uma espécie de macarthismo no Brasil. Nos EUA, a sanha persecutória no fim dos anos 1940 e durante os 50 tinha à frente o senador Joseph McCarthy: taxava seus adversários de comunistas, e os que divergiam da extrema direita de espiões soviéticos. A acusação era tatuagem indelével, como os números cravados nos braços dos judeus pelos nazistas.

O senador McCarthy ironiza a manchete: "Macartismo é traição à América!


Constituinte em festa: aprovada a nova Carta Magna 

Hoje, o que se vê no Brasil
é um sonho modesto: viver em uma democracia, com justiça social, sem uma inflação que corroa 1,1% o poder aquisitivo em apenas um mês, como aconteceu em setembro passado, e, quem sabe, poder comer alguma carne. Sem quedas brutais no PIB e juros absurdos, com políticas ambientais que garantam o futuro das gerações. Sobrevive uma Constituição talhada com suor em 1988, arrimo de uma sociedade que se prometia livre e soberana. Não é Paraíso ou fetiche, mas um sonho bem vivo, com todas as suas imperfeições, sim, a ser garantido a qualquer custo.

O Paraíso, segundo Jan Bruegel (1568-1625)