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sábado, 8 de março de 2014

NAS ASAS DA PANAIR

BH antiga
Nasci em Belo Horizonte, quando ainda não era só um nome, antes de o por do sol ser encoberto pela selva urbana. Minha família mudou-se para o Rio de Janeiro, capital da República, quando eu tinha dois anos – meu pai, aos 27, havia sido convidado por JK para o novo cargo de Secretário de Imprensa (e foi o primeiro titular). Minhas reminiscências mineiras são um caleidoscópio, entre rasgos das memórias de férias escolares com meus avós, alternados com pedaços de minha infância e adolescência no Rio, tudo costurado por viagens na Kombi familiar ou, quando dava, pela Panair.

Comte. Juquinha (vovô, curvado, à direita)
Em BH ficávamos com meu avô, em uma casa modesta na Rua Professor Morais, perto da Avenida Afonso Pena, antes arborizada e modernizada, hoje uma via transbordante de automóveis. De meu avô, General reformado, eu gostava de ouvir as histórias da revolução de 32 (ele foi Comandante do Batalhão de Infantaria sediado na capital mineira – foto acima, último à direita), a deportação, a fuga da Ilha das Flores, e “o tiro que ele não levou” (“levei um susto imenso / nas asas da Panair”). Mas diversão mesmo era descer sorrateiro ao porão da casa e bisbilhotar a enorme coleção do “Seleções do Readers Digest”, com suas rápidas e divertidas “Piadas de Caserna”.

Ali, também, achei (e levei para o Rio) o espadim de meu avô, coisa da carreira militar, com bainha e tudo, espada sem corte que era para não matar, servia apenas à pompa e circunstância quando preciso. O protetor de mão, peça banhada a prata, embutia um cabo trabalhado com fios de ouro circundando-o, na empunhadura da arma. Tudo meio abandonado, levei botas, selos, lembranças, um pouco da memória dele que me foi permitido. E também aprontei o que não devia, que desavergonhado passo a contar.

R. Prof. Morais, com seu canal e balaustrada (esq.), cedendo à invasão do asfalto
Em uma caixa no porão havia um punhado de balas calibre 38. Peguei algumas delas, atravessei a Rua Professor Morais e apoiei-me sobre a balaustrada do canal – que hoje é uma pista de asfalto sem canal, arquitetura urbana que resta viva apenas em minha memória. Segurei uma bala com um alicate, e, martelo na mão direita, tentei detoná-la. Mas foi em vão: aqueles projéteis deveriam estar ali há décadas, pólvora estragada, bala podre. Pior: em uma dessas travessias da calçada para o canal, um lindo Ford preto avançou, sem que eu percebesse, e freou com força tal que chegou a encostar em minha bamboleante perna esquerda – o que fez pessoas se aglomerarem para ver o “acontecimento”. Como se sabe, quando crianças somos imortais, aos 25 descobrimos o perigo, e aos 40 começamos a ter medo de algum dia morrer, o fado e a eternidade infantil são apenas um sonho do futuro emoldurado no passado. (“Descobri que as coisas mudam / e que o mundo é pequeno / nas asas da Panair”).

Na casa de minha bisavó Zina, na verdade Euforzina (nome devido, diziam, a um remédio que sua mãe tomara na gravidez), eu adorava ouvir os causos de escravos, da medalha de meu bisavô na Guerra do Paraguai, que ela me deixou no final da vida, dos vinte e um filhos que teve, sem dizer quantos não sobreviveram. Tinha a história do queijo, claro, não posso escrever sobre Minas sem falar dele. Orgulhosa de seus lindos queijos frescos, quando tinha visitas pedia à empregada um café e um queijo, dizendo aos visitantes: “Qué queijo, qué queijo, qué queijo, Maria, guarda o queijo”. E dizia tão rápido que não dava tempo nem para levantar o dedo nem para dizer sim ou não: salvava-se o queijo, a joia da casa.

Lagoa Rodrigo de Freitas e o pier do Vasco da Gama
As viagens a Minas entrelaçavam-se e se confundiam com a vida no Rio, onde meus pais moravam conosco em um apartamento no terceiro andar de um prédio sem elevador, os quatro filhos em um quarto só. Meu pai era uma autoridade da República, mas aqueles foram outros tempos, o leitor sabe. O prédio ficava em frente, exatamente em frente ao ponto de ônibus onde em 2001 aconteceu o estúpido sequestro do ônibus 174. Atrás, ali perto, ficava a Lagoa Rodrigo de Freitas, onde o pier dos “outrigger” (canoa polinésia) de competição do Clube de Regatas Vasco da Gama largavam e atracavam. Ali dava para pescar, e às vezes, mesmo aconselhado por todos a não fazê-lo naquela água meio escura e nada confiável, caía bem um mergulho para refrescar. (Será por isso que, fora doenças infantis e uma maior, que descreverei adiante, não sei o que é dor de cabeça ou mesmo uma gripe?) “E lá vai menino, lambendo o podre-delícia / e lá vai menino, senhor de todo o fruto / sem nenhum pecado, sem rancor / o medo em minha vida nasceu muito depois”. Não posso recomendar o remédio, mas penso nos índios, que conviviam com a terra, os rios, as matas e só conheceram nossas doenças e vícios após sua aculturação pelos dominadores brancos.

Mansão Besanzoni-Lage
Do outro lado, atravessando a Rua Jardim Botânico, um muro longuíssimo cercava de mistério uma mansão abandonada, um monumental terreno onde havia cavernas com estalactites artificiais, mato fechado, árvores frutíferas, pau-brasil, riachos e mistérios, fantasias e quimeras. A mansão havia sido dada como mimo pelo milionário Henrique Lage à sua amada, a soprano italiana Gabriella Bensanzoni, de carreira em ascensão, para que viesse morar no Brasil. (Qualquer semelhança com o romance Onassis-Maria Callas é mera coincidência, sim, pois a tórrida paixão Lage-Besanzoni acontecera bem antes). Nas cavernas, sonhávamos veredas nunca dantes desbravadas, um outro mundo, um “Mito da Caverna”, de Platão, às avessas (o filósofo grego fez uma alegoria sobre a escuridão de uma gruta, o desconhecimento e o risco de se conhecer a luz e voltar aos que nasceram e cresceram dentro da caverna).

Guilherme Tell
Nossos sonhos de Indiana Jones, décadas antes de o herói hollywoodiano ser criado, tornavam-se realidade: um mecânico nos construiu uma besta, daquelas do Guilherme Tell, cujo arco era uma barra de torção de Kombi, e a corda um cabo de aço puro. Difícil mesmo era ter força para vergar a barra, mas dois de nós o fazíamos, e uma vez logrado sucesso era só prender o cabo de aço ao gatilho e depois depositar a seta na canaleta da arma. Em seguida, era sair para achar qualquer animal para caçar – felizmente, os micos e esquilos eram bastante espertos e nos sumiam da frente em um átimo. Flechávamos jacas por diversão, ou cortávamos com canivete um alvo na casca de uma árvore  pelo prazer de cravar a seta com força, de ponta no coração do inimigo imaginário. Ah, e a primeira invasão da sede na mansão!

A diva Besanzoni
Lanternas na mão, não foi difícil abrir um dos vitrôs e explorar aquela bagunça imunda, digo, aquela bela cena cinematográfica. Uma sala de banho enorme, com louças negras e uma banheira com grandes torneiras banhadas a ouro – pena que a super-hidromassagem ainda não existia na época da madame Besanzoni. (Henrique Lage ficou com a imensa propriedade após uma disputa pelo espólio familiar. Hoje, tombado e depois reformado, chama-se Parque Lage, e oferece passeios abertos ao público, shows, exposições, aulas de arte e cenários de filmes – como “Macunaíma”, do Joaquim  Pedro de Andrade – e novelas da TV).

Das cavernas trouxe uma lembrança: adoeci, fui levado a não sei quantos médicos, e nada de diagnóstico. Minha mãe me levou ao grande da pneumologia no Rio, um certo Dr. Aluísio, é só o que a memória me concede. Em via crucis médica, quem achou o caminho foi meu tio Marcelo, médico formado poucos anos antes. Lembro-me dele com um livro enorme aberto sobre a mesa, como uma bíblia, e me parecia mesmo a Escritura Sagrada, de onde a verdade começou a surgir: A vacina-teste chegou dos EUA (a doença no Brasil era rara e praticamente desconhecida), e, uma vez aplicada, positivou. Histoplasmose, doença cultivada por morcegos e pombos das benditas, digo, malditas cavernas! Sim, malditas benditas cavernas de minha adolescência! Curado, levo desde então um pequeno nódulo calcificado inativo no pulmão esquerdo, espécie de medalha de desbravador de matas ao pé do morro do Corcovado, aventura em plena Zona Sul carioca.

Roy Rogers e Trigger
Mais novo ainda eu era, quando veio o encontro inimaginável do menino com seu mito, o imbatível Roy Rogers, dono do cavalo Trigger e do fiel cão Bullet, estrelas de mais de 100 filmes da TV. Foi em um avião no Brasil (da Panair, claro), eu criança estava com a família no voo, quando, umas duas fileiras mais à frente, vi sentado um gringo legítimo, chapéu de caubói branco sobre o colo, e exclamei: “É o Roy Rogers!” (“A maior das maravilhas foi / voando pelo mundo / nas asas da Panair”). Não podia me confundir, era ele, era ele, mas queriam me fazer sentar, não me lembro quem -  mas segurar um menino a dois metros de um super-herói é missão impossível.

Levantei-me e fui lá, perguntando “você é o Roy Rogers?, e, ante a afirmativa do tradutor, sentado ao lado do ídolo, este passou um papel em que Roy Rogers me escreveu uma dedicatória. Voltei como um veterano de guerra, trazendo a vitoriosa bandeira nacional. “Descobri que a minha arma é / o que a memória guarda / dos tempos da Panair”.


[todas as citações de versos entre aspas são da música “Conversando no Bar”, de Milton Nascimento. Abaixo, na gravação imortal de Elis Regina na Inauguração do Teatro Bandeirantes, em 1974]


(Publicado originalmente na Revista O PROGRESSO, ed. fevereiro de 2014) 

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