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sexta-feira, 17 de abril de 2015

HAMSTERS, GERIBÁS, RATOS E AFINS

Gerbo da Mongólia (arcadenoe.pt)
Quem nunca viu um geribá? E um porquinho da Índia? O geribá, gerbo ou esquilo da mongólia (Meriones unguiculatus) é um amável e carente bichinho. Rói tudo, por isso deve-se cria-lo em cercado de vidro, porque não dispensa nem madeira. Precisa de areia e serragem para escavar, dada sua origem passada nos desertos mongóis e siberianos, que o obrigava a buscar sementes e grãos, seu principal alimento. É brincalhão e inofensivo, agrada criancinhas e adultos que gostam de animais. Talvez seja um dos roedores de estimação mais simpáticos da grande família.

Um hamster guloso
(dicasemaisparaajudarumhamster.blogspot.com)
Hamsters todos conhecem. A palavra vem do alemão Hamstern, que quer dizer guardar, armazenar: suas grandes bochechas acumulam comida para ser deglutida aos poucos, herança de seus antepassados das terras áridas africanas e asiáticas. Também se chama criceto (do latim cricetinae), mas hamster com certeza dá um certo charme a esse roedor menos simpático do que o gerbo, apesar de ser também ótimo mascote. É usado em pesquisas em laboratórios, assim como camundongos e outros pequenos roedores. Um tipo de hamster tem pelos grandes que se desprendem com facilidade, razão pela qual deve ser evitado por crianças alérgicas. O outro, de pelos curtos, chamado ‘sírio’, é colorido e bastante brincalhão.

Hospital Felício Rocho, em BH
Quando criança, tive que fazer um exame de sangue, cruel tortura, e meu tio Marcelo, que era diretor do Hospital Felício Rocho de Belo Horizonte, levou-me para a coleta. Passando por uma sala, vi algumas gaiolas com lindos camundongos, branquinhos como coelhinhos da páscoa. Como chantagem, insisti até que meu tio prometeu me dar um de presente, na saída. Assim, meu sofrimento na coleta foi bem mais suave, ansioso pela recompensa.

Na saída, caixa com furos debaixo do braço, levei o bichinho comigo. Chegando ao Rio, coloquei-o em um caixote de madeira coberto com tela de arame, para que pudesse vê-lo bem. Mas o bichinho roía madeira que era uma beleza, e volta e meia conseguia escapar e fazer das suas travessuras, como apavorar a Mira, empregada, que chegou a subir gritando em uma cadeira. Roeu parte de uma das colunas de madeira que sustentava a cobertura da varanda, era um pestinha incorrigível.

Ratazana
Um dia, sumiu, e reza a lenda que a Mira o havia dado de presente para um lixeiro. Deve ter sido mais feliz com o gari, que estaria acostumado com as enormes e horríveis ratazanas que povoam esgotos e lixos, algumas de mais de um metro de comprimento – deve ter sido um mimo para ele.

Um grafitti de "welcome to NY"
Em Boston, quando me mudei para um apartamento no centro, logo percebi certos ruídos noturnos que, para meu horror, descobri virem de ratos – eu não sabia ainda que em Boston e NY há entre 6 ou 7 deles por pessoa, gestados em confortáveis ninhos feitos na lã isolante entre as paredes internas. Fui ao senhorio reclamar. Com muita educação, sussurrei para Mrs. Pinkhas que em casa havia ratos, e ela arregalou os olhos horrorizada e gritou Rats? Eu confirmei, e ela disse oh, Mr. Dourado, de que tamanho são esses ratos? Discretamente, mostrei com os dedos alguma coisa como 6 ou 8 centímetros, o que foi suficiente para ela soltar uma gargalhada e dizer ho, ho, Mr. Dourado, esses não são ratos, são camundongos, se o senhor se incomoda arrume um gato! (Claro que incomodavam, roíam até a borracha da porta da geladeira e, espremendo-se, lá dentro faziam a festa! O pão de forma eu deixava pendurado no cordão de acender a luz).

Com gato em casa, eu via dois, três camundongos por dia – squeek, squeek, e lá se ia mais um, na boca do bichano, devidamente ‘despejado’ do apartamento. Camundongos em desenhos podem ser simpáticos como o Mickey Mouse, mas são nocivos roedores quando não são mascotes como o meu cheiroso bichinho, nascido em laboratório.


Uma taxonomia. (melhorbiologia.blogspot.com)
João Sayad, economista pela Usp e doutor pela Yale University, mente brilhantíssima que trabalhou com Franco Montoro, Marta Suplicy e José Serra, foi secretário de cultura do estado de São Paulo. Em 2013, publicou na Folha o artigo ‘A Taxonomia dos Ratos’. (Taxonomia, segundo o velho Houaiss, é “ciência que lida com a descrição, identificação e classificação dos organismos”).

O belo Forum do TRT da Barra Funda de SP (foto de autoria desconhecida)
Em seu saboroso texto, Sayad convida o leitor à taxonomia da corrupção, do simples fiscal ao parlamentar. Lembrou que a taxonomia passa também pelo setor privado, fazendo par ao poder público. Para Sayad, a corrupção que ele classifica como a la grande é a dos pesados investimentos públicos, negociatas, toneladas de cimento, como o prédio do TRT na Barra Funda, SP, que custou 160 milhões (em dinheiro da época) acima do previsto. Deu no que deu.

(revistaepoca.globo.com)
Sayad aborda também a chamada ‘corrupção pequena’, que contrata parentes, cria notas e empresas de fachada, adquire material superfaturado, modalidade que segundo ele poderia ser classificada com o nome elegante de petit cash. E calcula que esse tipo de pequeno desvio, a longo prazo, leva a sangrias milionárias nos cofres públicos, são milhões de custo com benefício zero, vão direto para os ratos e suas ninhadas. E diz que nesse tipo de falcatrua, que classifica como ‘corrupção brega’, “o parasita permanece grudado na instituição hospedeira que suga por longos períodos”. E termina o texto inconcluso, declarando-se indignado ao final, assinando por derradeiro sua ‘obra aberta’, um convite à reflexão sobre essa cultura brasileira de alta toxicidade.

Château des Baux, Provence, França: o reino roído
(eduluzwordpress.com)
Paro aqui na alegoria do Sayad, poetando que ratos rotos e ratazanas reais roeram as roupas do reino. Portanto, não merecem ser colocados na companhia deles esses afáveis, simpáticos e confiáveis gerbos, hamsters, porquinhos da Índia e camundonguinhos domésticos.

(ig.com.br)

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