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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

HÉLDER CÂMARA: VERMELHO, NOBEL OU SANTO?

Seminário da Prainha, Fortaleza
No dia 7 de fevereiro de 1909 nascia, em Fortaleza, um menino mirrado, como tantos de sua gente. Um entre apenas oito sobreviventes de treze irmãos, via em seu pai, João Eduardo, dramaturgo amador e jornalista, a paixão pelas letras, compartilhada por sua mãe, a professora Adelaide Câmara. Ela percebeu, logo cedo, que o menino Hélder tinha algo especial, que o diferenciava de seus amiguinhos. Talvez pensasse como na linda Gesú bambino, de Lucio Dalla (versão brasileira pelo Chico)­­: “minha mãe não tardou a alertar toda a vizinhança / ao notar que eu estava bem mais que uma simples criança”.

Aos quatro anos, revelou sua devoção a Deus e aos catorze sua vocação inequívoca para o sacerdócio, ingressando no Seminário da Prainha, de Fortaleza, onde além das matérias regulares dedicou-se à teologia e obras dos grandes pensadores. Passou a ajudar causas de mulheres e homens pobres e trabalhadores, assumindo seu papel de missionário, e tornou-se um batalhador da educação, causa pela qual lutou com especial afinco (tinha na memória sua mãe, sempre dividida entre a prole, os deveres domésticos e o magistério).

"Anauê", saudação da AIB
Depois de mudar-se para o Rio de Janeiro, foi seduzido pela Ação Integralista Brasileira, de Plínio Salgado, com seu falso bordão “Deus, Pátria e Liberdade”. Afastou-se quando viu o movimento assumir contornos político-partidários inspirados em Mussolini até na saudação, o Anauê, braço levantado como os soldados das milícias fascistas. Foi ordenado Bispo Auxiliar do Rio com apenas 43 anos de idade.

Helder e Monsenhor Montini no Brasil
Com o apoio do Monsenhor Montini, depois venerável papa Paulo VI, obteve a aprovação para a criação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), organização que esteve presente em todos os grandes momentos da Igreja Católica e da história contemporânea de nosso país. A duas semanas do golpe de 1964, que marcaria sua vida, foi indicado arcebispo de Olinda e Recife, e teve atuação proeminente em toda a sociedade brasileira.

Hélder revelava-se cada vez mais um soldado em luta pelos mais pobres, que entendia como sua missão. Agregado à OFS (Ordem Franciscana Secular), foi simples como o Francisco dos pássaros, no despojamento e no real voto de pobreza pela fé. No peito, batiam forte seus profundos ideais.

"Quando dou de comer aos pobres, me chamam de santo.
Quando pergunto o porquê de os pobres não terem comida,
eles me chamam de comunista"
Por causa de suas missões junto aos pobres, a perseguição política tornou-se implacável. Hélder foi censurado, proibido de dar entrevistas e sequer mandar mensagens. Como que um carimbo na testa, recebeu a “pecha infamante de comunista” (ironicamente, expressão cunhada por Marx e Engels, em O Manifesto, usada ao avesso). Uma vez “carimbado” o cidadão ficava marcado como fosse o número tatuado no braço dos judeus presos nos campos de concentração. (Lembro-me de que, depois de libertados da prisão, os humoristas de O Pasquim escreviam, bem ao seu estilo gozador, coisas como “fulano, comunista igual a nós”, começando a fazer a pecha cair no ridículo, pois comunistas eram todos os que se opunham ao regime. E ponto).

Nelson Rogrigues (baconfrito.com)
Contra Hélder, atacou-o doentiamente o dramaturgo Nelson Rodrigues, homem ligado à ditadura (mesmo tendo o filho, também Nelson, sido preso e torturado). É da lavra dele a maldosa alcunha “O Bispo Vermelho”, mais um estigma criado para denegrir a imagem do religioso, então já maldita pelo regime, no afã de isolá-lo completamente. Mas não. Em 1968, auge da repressão, publicou “Revolução dentro da Paz” (Rio de Janeiro: Ed. Sabiá), traduzido em diversos idiomas, talvez seu maior libelo em prol da pacificação pela justiça, direitos para todos e contra a miséria aguda do povo.

General Médici e a Taça Jules Rimet (1970)
Entre as dezenas de prêmios, títulos de cidadão honorário, doutor honoris causa e homenagens que ganhou durante a vida em diversas partes do mundo, um lhe escapou quatro vezes, por obra dos próceres da ditadura: indicado para o Prêmio Nobel da Paz por sua luta pacífica, comparado a Ghandi, foi em 1970, por instrução do G.al Garrastazu Médici, que o embaixador brasileiro na Noruega travou campanha no Parlamento de Oslo e países escandinavos contra a concessão da láurea, pois aquele Nobel poderia servir de “estímulo ao avanço comunista” (sic) na América Latina. 
Médici queria a glória para si, para o “ame-o ou deixe-o”, a taça da copa de 1970, que, esta sim, ergueu com orgulho de técnico palpiteiro e herói, capitalizando-a. Além de seu espírito censor e obcecado, talvez não lhe fosse do agrado, afinal, um prêmio Nobel da Paz.

Com o papa João Paulo II
Mais recentemente, uma comissão criada pelo então governador de Pernambuco, o recentemente falecido Eduardo Campos, logrou obter farta documentação sobre a interferência do regime de força contra a concessão do Nobel – de que o arcebispo seria o único brasileiro laureado até hoje. Anos depois, Hélder recebeu um beijo na testa do papa João Paulo II, que o saudou em público: “você é pelos pobres, então você é dos meus”.

O enterro do Pe. Henrique, auxiliar de dom Hélder
O nome do religioso era proibido na imprensa, uma simples menção provocava urticária nos arautos do regime. Antônio Henrique, o padre auxiliar de Hélder, foi encontrado morto, logo após o famigerado AI-5, com sinais de tortura e sevícias, tiros e enforcamento, assassinato covarde e bárbaro ao estilo das vendettas das máfias da Córsega – a repressão chamava isso de um sutil “exemplar os cidadãos” (leia-se: apavorá-los). O caso foi abafado com mordaça e pá de cal, à maneira do Stalin soviético, e severamente censurado em todos os órgãos de imprensa, coisa de todos os tipos de ditadura. E assim como o estudante Edson Luís, morto no Rio na mesma época, no Restaurante Calabouço, Pe. Henrique foi alçado à condição de mártir da ditadura. Mas o recado ao bispo havia sido dado: cala-te, Hélder!

Dom Hélder e Madre Maria de Calcutá
Perdeu o Nobel, láurea que pessoalmente não afagaria seu diminuto ego, não conhecia a soberba da fama. Contudo, a visibilidade poderia ajudar no fortalecimento de sua missão pelos que tinham fome e os perseguidos. Ironia da vida, em 2014 o Vaticano acolheu o pedido de beatificação e santificação de Hélder Câmara, apondo seu nihil obstat (nada a obstar) ao seguimento do processo. A burocracia da Santa Sé tem seus dogmas, é demorada, as exigências muitas, mas a anuência já concedida à análise do pedido abriu-lhe a porta, que aliada ao anseio do papa Francisco em unir todo o seu rebanho, já aponta ao menino prodígio e visionário de Fortaleza seu derradeiro destino.


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