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quarta-feira, 1 de junho de 2016

CAUBY, “UM RIO QUE PASSOU EM MINHA VIDA”

A Niterói de Cauby
Cauby Peixoto nasceu em Niterói, em 1931. No colégio Salesiano, católico, teve os primeiros contatos com a música, cantando hinos sacros no coro. Passou a pegar a Cantareira, barca que faz dezenas de travessias diárias para o Rio de Janeiro, do outro lado da oleosa e poluída Baía de Guanabara. Ainda muito novo, conseguiu um emprego no comércio, mas desde logo decidiu ser cantor, levando na bagagem a tradição musical da família inteira.

Desde cedo mostrava saber o valor da imagem do artista, e abusava de topetes, penteados e roupas exóticas, sabia como chamar a atenção. Um empresário passou a exigir-lhe roupas elegantes, moldando-lhe a imagem de futuro ídolo. Cauby arrumou um “bico” na Rádio Tupi, aproximando-se de artistas. À noite, nas folgas da sapataria, e quando possível, dava uma palinha em boates, com seu vozeirão grave que seduzia as mulheres. Apresentava-se também no velho Teatro Rival, marco da noite e da boemia carioca, o coração da Cinelândia.

Dois dos seus irmãos foram morar em São Paulo, que na época era o paradigma da metrópole na escada rumo ao sucesso. E Cauby logo foi convidado, aos 20 anos, a gravar seu primeiro 78 rpm, Saia Branca, um “bolachão” - disco feito de ebonite ou material semelhante. Amante da música internacional, gravou uma versão de Blue Gardenia, sucesso de Nat King Cole, e logo passou a atuar também nos EUA, com o nome artístico de Don Coby.



Chegou a alcançar o 5º lugar em vendas pela Billboard e foi capa de revistas estrangeiras. Ia aos EUA, e a cada retorno maior era o seu sucesso. Foi assunto na imprensa americana, que o pintava como um Sinatra ou Elvis Presley tupiniquim: Life, Time, NY Times. 

Apaixonado pelo mundo, sedutor, chegou a assumir sua bissexualidade. Não pareciam suficientes as paixões e romances tórridos com as mulheres. Por isso não se incomodava em pinçar as sobrancelhas e carregar na maquiagem, exibindo seu coté feminino. Gravou quase cento e cinquenta discos, alguns com sucesso estrondoso.

Eu estava no Rio, no início dos anos 1970, quando, além de estudar teoria e contrabaixo clássico, já era versado na conhecida “noite”, o roteiro de boates, além de tocar em shows aqui e ali. Raramente havia ensaios, não havia partituras – mesmo porque naquela época quase nenhum daqueles músicos saberia lê-las -, era chegar e tocar. A regra para os baixistas era: um ouvido no acompanhamento, outro na melodia, e os olhos na mão esquerda do pianista, que conduzia os acordes. Essa experiência forjava a habilidade de seguir a música, qualquer que fosse ela.

Tijuca Tênis Clube
Um dia alguém me telefonou, perguntando se eu queria tocar em um show no Tijuca Tênis Clube, um belo espaço na Zona Norte carioca dotado de um grande auditório, e que a apresentação seria com um conhecido artista. Viola no saco (ou melhor, baixo no ‘case’), fui no horário combinado, e apenas ao chegar fiquei sabendo que o cantor era ninguém menos do que Cauby Peixoto.

Moacyr Peixoro
Cumprimentei e conversei com o pianista, e só depois fiquei sabendo que o nome dele era Moacyr, irmão do ídolo. Preparado pela “escola do olho e ouvido” no acompanhamento, sentado à esquerda do pianista, não sabia o que viria pela frente, mas tinha cancha suficiente para tocar o serviço.


Com certo esperado atraso, a plateia, repleta, quase toda formada por mulheres, maior parte delas idosas, fazia um semicírculo aguardando o cantor. No escuro, apenas uma esfera de espelhos girava no teto, refletindo aqui e ali luzes e cores difusas em movimento meio delirante. Uma voz em off em um microfone anuncia: “senhoras e senhores, Cauby Peixoto!”

Todos em pé aplaudindo e procurando o artista, e um canhão de luz – espécie de holofote que foca um local por vez, à medida que se movimenta – fazia que procurava o cantor, mas nada de ele aparecer. Eu olhava para os bastidores, de onde se esperava que ele sairia. Nada. Depois de muito suspense, surgiu o astro, mas pela entrada do salão, do outro lado. E distribuía gentilezas com seu longo beija-mão, principalmente entre as senhoras das primeiras filas, uma por vez, cena de uns 15 minutos.

Enfim, subiu ao palco, cumprimentou-nos e pudemos ver aquele rosto bem maquiado, uma espécie de terno bordado em cores e pleno de brocados, tudo meio florido. Ao microfone, Cauby agradeceu a presença do público, assoprou beijos ao ar e disse: “quero apresentar a vocês o meu conjunto; acabamos de retornar de uma turnê ao México...” Tratava-se, com certeza, da primeira (e seria a única) vez que o via de perto na vida. Falou que gostaria de abrir o show com pedidos dos presentes, e dois funcionários passaram espécies de cumbucas de vidro, onde nos versos de seus tíquetes os fãs poderiam escrever o que desejavam ouvir.

Cauby abriu o primeiro, disse o nome da pessoa sorteada e começou: Feelings, nothing more than feelings...” (do brasileiro Morris Albert, depois condenado por ser essa música plágio rasgado de Pour Toi, de 1956, do francês Loulou Gasté – que regravou a canção original , ironizando o plagiário: Feelings, “diz ele”, Pour Toi, no novo título). Ouvido absoluto perfeito, Cauby começara a cantar antes do acompanhamento, sem receber sequer uma “nota guia”.


Lá pelas tantas, arpejou o acorde para o pianista, e o fez emendando na música, no ápice: Free again, “dó-lá-fá”. E vieram pedidos de Beatles, como Yesterday, Sinatra, My Way, franceses, como Gilbert Bécaud, Au Revoir, e italianos, como Pepino di Capri, Nico Fidenco, Sergio Endrigo. Claro, muita música brasileira e seu carro-chefe, o sucesso Conceição. Sabia todas de cor, no tom perfeito (absoluto), um repertório imenso. Que grande e inesquecível lição de música e talento! 

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